11 de abril de 2016

Capítulo IV - Barbárvore

Enquanto isso os hobbits iam a toda velocidade que a floresta escura e emaranhada Enquanto isso os hobbits iam a toda velocidade que a floresta escura e emaranhada permitia, seguindo a linha do rio, para o oeste e para cima, na direção das encostas das montanhas, entrando cada vez mais no coração de Fangorn. Lentamente, o medo que sentiam dos orcs foi desaparecendo, e seu passo diminuindo. Uma estranha sensação de sufocamento tomou conta deles, como se o ar fosse muito escasso e rarefeito para que pudessem respirá-lo.
Finalmente, Merry parou. — Não podemos continuar assim — disse ele ofegando. — Preciso de um pouco de ar.
— De qualquer forma, vamos beber alguma coisa — disse Pippin. — Estou ressecado. —Trepou numa grande raiz de árvore que descia até o rio e, agachando-se, pegou um pouco de água nas mãos em concha. A água era fria e cristalina, e ele bebeu vários goles. Merry fez o mesmo. A água os reconfortou e pareceu alegrar-lhes o coração; por um tempo ficaram ali sentados, na borda do rio, mergulhando na água pés e pernas doloridos, espiando as árvores que se erguiam silenciosas ao redor deles, fileira após fileira, até desaparecerem dentro do crepúsculo cinzento, em todas as direções.
— Suponho que você ainda não nos tenha feito perder o caminho — disse Pippin, encostando-se num grande tronco de árvore. — Pelo menos podemos seguir o curso do rio, o Entágua ou qualquer que seja o nome que você lhe dá, e sair outra vez por onde entramos.
— Poderíamos, se nossas pernas conseguissem — disse Merry — e se conseguíssemos respirar adequadamente.
— Sim, está tudo muito escuro e abafado aqui — disse Pippin. — De alguma maneira me faz lembrar da velha sala no Grande Solar dos Tûks, lá nos Smials em Tuqueburgo: um cômodo enorme, onde a mobília não foi mudada ou removida por gerações. Dizem que o Velho Túk viveu nela por anos a fio, enquanto ele e a sala iam ficando mais velhos e desgastados juntos e a sala nunca foi mexida depois que ele morreu, há um século. E o Velho Gerontius era meu tataravô: isso faz recuar um bocado no tempo. Mas não se compara ao que se sente aqui. Veja todas aquelas barbas e suíças de líquen, chorosas, rastejantes! E a maioria das árvores parece estar meio coberta de folhas secas e despedaçadas que jamais caíram. Desmazeladas. Não consigo imaginar como seria a primavera aqui, se é que ela atinge este lugar; e menos ainda uma faxina de primavera.
— Mas de qualquer jeito o Sol deve dar uma espiadinha aqui dentro de vez em quando — disse Merry. — A floresta não se assemelha à descrição que Bilbo fez da Floresta das Trevas. Aquela era toda escura e negra, o lar de coisas escuras e negras. Esta é apenas pouco iluminada, e assustadoramente arvoresca. Não se pode de forma alguma imaginar animais vivendo ou permanecendo aqui por muito tempo.
— Não, e nem hobbits — disse Pippin, — E também não gosto da ideia de tentarmos atravessá-la. Nada para comer por uma centena de milhas, eu desconfio. Como estão nossos suprimentos?
— Escassos — disse Merry. — Fugimos sem levar quase nada, a não ser alguns pacotes a mais de lembas, e deixamos tudo para trás. — Olharam para o que restou dos bolos élficos: pedaços quebrados que poderiam durar cerca de cinco dias de necessidade, isso era tudo. — E nenhum agasalho ou cobertor — disse Merry, — Vamos sentir frio à noite, qualquer que seja a direção que tomemos.
— Bem, é melhor decidirmos isso agora — disse Pippin. — A manhã deve estar avançando.
Nesse exato momento, perceberam uma luz amarela que tinha aparecido, a alguma distância mais para dentro da floresta: lanças de luz solar pareciam ter perfurado repentinamente o teto da floresta.
— Olhe lá! — disse Merry. — O sol deve ter entrado numa nuvem enquanto estivemos sob estas árvores, e agora ele saiu novamente; ou então subiu o suficiente para olhar de cima, através de alguma abertura. Não está longe — vamos investigar!


Descobriram que a claridade estava mais longe do que tinham imaginado. O solo subia de modo abrupto, ficando cada vez mais pedregoso. A luz ficou mais forte conforme avançaram, e logo perceberam que havia uma muralha de rocha diante deles: a encosta de uma colina, ou a extremidade abrupta de alguma longa raiz das montanhas distantes. Nenhuma árvore crescia nela, e o sol batia em cheio sobre a face de pedra. Os galhos das árvores ao sopé estavam estendidos e completamente paralisados, como se tentassem alcançar o calor. Onde tudo parecera tão desolado e cinzento antes, a floresta agora reluzia com ricas tonalidades castanhas, e com o preto-acinzentado dos troncos que pareciam couro polido. As copas das árvores brilhavam com um verde suave, como relva nova: o início da primavera, ou uma visão fugaz dela, envolvia-as.
Na superfície da muralha rochosa havia algo como uma escada: talvez natural, feita pela erosão e por fissuras na pedra, pois era áspera e irregular. Na parte de cima, quase na altura das copas das árvores da floresta, havia um patamar sob um penhasco. Nada crescia ali, com exceção de um pouco de capim e mato nas bordas, e um velho tronco de árvore com apenas dois galhos curvados: parecia quase a figura retorcida de um velho, parado ali, piscando à luz matinal.
— Para cima! — disse Merry alegremente. — Vamos em busca de ar e de uma vista panorâmica!
Foram escalando a rocha com dificuldade. Se a escada tivesse sido feita, destinava-se a pés maiores e pernas mais compridas que as deles. Os hobbits estavam ansiosos demais para se surpreenderem com o modo notável pelo qual os cortes e ferimentos de seu cativeiro tinham sarado, e o vigor lhes retornara aos corpos. Finalmente chegaram à borda do patamar, quase ao pé do velho tronco; então deram um salto e voltaram as costas para a colina, respirando fundo, e olhando para o leste, Perceberam que tinham avançado apenas umas três ou quatro milhas floresta adentro; as cabeças das árvores marchavam encosta abaixo em direção à planície. Nesse ponto, perto da franja da floresta, longas espirais de fumaça negra e encaracolada subiam, oscilando e flutuando na direção deles.
— O vento está mudando — disse Merry. — Voltou-se para o leste outra vez. Está frio aqui em cima.
— É — disse Pippin. — Receio que essa claridade seja passageira, e que tudo fique cinzento outra vez. Que pena! Essa velha floresta desgrenhada ficava tão diferente à luz do sol! Quase senti que gostava do lugar.


— Quase sentiu que gostava da Floresta! Isso é bom! Você foi de uma gentileza rara — disse uma voz estranha. — Virem-se e deixem-me dar uma olhada em seus rostos. Quase senti que não gostava de vocês dois, mas não sejamos apressados. Virem-se! — Uma grande mão com saliências nodosas pousou nos ombros de cada um deles, e eles foram virados, suave mas irresistivelmente; depois dois grandes braços os ergueram.
Descobriram-se olhando para um rosto extraordinário. Pertencia a uma figura semelhante a um homem, quase semelhante a um troll, de pelo menos quatro metros e meio de altura, muito robusta, com uma cabeça alta e quase sem pescoço. Se estava coberta por alguma coisa semelhante a casca de árvore verde e cinzenta, ou se aquilo era seu couro, era difícil dizer. De qualquer forma, os braços, numa pequena distância do tronco, não eram enrugados, mas cobertos de uma pele lisa e castanha. Cada um dos pés tinha sete dedos. A parte inferior do rosto comprido estava coberta por uma vasta barba cinza, cerrada, quase dura como galhos na raiz, fina feito musgo nas Pontas. Mas naquela hora os hobbits notaram pouca coisa além dos olhos. Uns olhos profundos, lentos e solenes, mas muito penetrantes. Eram castanhos, carregados de uma luz esverdeada. Tempos depois, frequentemente Merry tentou descrever a primeira impressão que teve deles.
A sensação era como se houvesse um poço enorme atrás deles, cheio de eras de memória e de um pensamento constante, longo, lento; mas a superfície faiscava com o presente: como o sol tremeluzindo nas folhas externas de uma imensa árvore, ou nas ondas de um lago muito fundo. Não sei, mas parecia que alguma coisa que crescia na terra-adormecida, pode-se dizer, ou apenas percebendo-se a si mesma como algo entre a extremidade de uma raiz e a ponta de uma folha, entre a terra funda e o céu — despertara de repente, e estava observando você com o mesmo cuidado lento que tinha dedicado às suas próprias preocupações por anos intermináveis.
— Hrum, hum — murmurou a voz, uma voz profunda como um instrumento de sopro muito grave. — Realmente muito estranho! Não se apresse, este é meu mote. Mas se eu tivesse visto vocês antes de ouvir suas vozes, gostei delas: agradáveis pequenas vozes; fizeram-me pensar em algo de que não consigo me lembrar —, se tivesse visto vocês antes de ouvi-los, teria simplesmente pisado em vocês, tomando-os por pequenos orcs, e só perceberia o erro depois. Muito estranhos são vocês, realmente. Raiz e galho, muito estranhos!
Pippin, embora ainda pasmo, não sentia mais medo. Sob aqueles olhos sentia um curioso suspense, mas não medo. — Por favor — disse ele — quem é você?
Um olhar estranho surgiu nos velhos olhos, um tipo de cautela; os poços fundos estavam cobertos.
— Hrum, agora — respondeu a voz —, bem, eu sou um Ent, ou é assim que me chamam. Sim, Ent é a palavra. O Ent, eu sou, você pode dizer, no seu modo de falar. Fangorn é meu nome segundo alguns, outros me chamam de Barbárvore. Barbárvore está bom.
— Um Ent — disse Merry. — O que é isso? Mas como você próprio se chama? Qual é o seu nome verdadeiro?
— Huuu, agora! — respondeu Barbárvore. — Huuu! Isso já daria uma história! Não tão depressa. E eu estou fazendo as perguntas. Vocês estão no meu território. Que são vocês, eu me pergunto? Não consigo classificá-los. Parece que vocês não estão nas velhas listas que aprendi quando era jovem. Mas isso foi há muito, muito tempo, e pode ser que eles tenham feito listas novas. Deixe-me ver! Deixe-me ver! Como era mesmo?

Aprende a lição dos seres viventes!
Nomeie primeiro os quatro povos livres:
Os filhos dos Elfos que são os mais velhos;
O Anão cavador das casas escuras;
O Ent da terra, da idade dos montes;
O Homem mortal, senhor dos cavalos:

Hum, hum, hum.

Castor construtor, cervo saltitante,
Urso abelhudo, javali brigador;
O cão é faminto, a lebre é medrosa...

Hum, hum.

Águia no ninho, boi na pastagem,
Veado o chifrudo, gavião o mais lesto,
Cisne o mais branco, serpente a mais fria...

— Hum, hum, hum, hum, como era mesmo? Rum tum, rum tum, rumti tum tum. Era uma longa lista. Mas de qualquer forma vocês parecem não se encaixar em lugar nenhum.
— Parece que sempre ficamos de fora das velhas listas, e das velhas histórias — disse Merry. — Apesar disso, estamos em circulação há muito tempo. Somos hobbits.
— Por que não fazer mais um verso? — disse Pippin.

Hobbits pequenos, que moram em tocas

— Coloque-nos entre os quatro, perto dos Homens (as Pessoas Grandes), e fica tudo certo.
— Hum! Nada mal, nada mal — disse Barbárvore. — Assim ficaria bem. Então vocês vivem em tocas, hein? Soa muito correto e adequado. Mas quem chama vocês de hobbits? Não me parece um nome élfico. Os elfos fizeram todas as palavras antigas: eles começaram isso.
— Ninguém mais nos chama de hobbits; nós nos chamamos assim — disse Pippin.
— Hum, hum! Esperem um pouco! Não tão depressa! Vocês se chamam de hobbits? Mas então não deveriam dizer isso a qualquer um. Vão revelar seus próprios nomes corretos, se não forem cautelosos!
— Não temos cautela em relação a isso — disse Merry. — Para falar a verdade, sou um Brandebuque, Meriadoc Brandebuque, embora a maior parte das pessoas me chame simplesmente de Merry.
— E eu sou um Túk, Peregrin Túk, mas geralmente sou chamado de Pippin, ou até de Pip.
— Hum, mas vocês são pessoas apressadas, estou vendo — disse Barbárvore. — Fico honrado com a confiança que depositam em mim; mas não deveriam ficar assim totalmente à vontade tão depressa. Há ents e ents, vocês sabem; ou há ents e seres que se parecem com ents mas não são, por assim dizer. Vou chamá-los de Merry e Pippin se isso lhes agrada — bons nomes. Pois não vou lhes dizer meu nome; não por enquanto, de qualquer forma. — Um olhar estranho, meio irônico e meio sábio, veio de seus olhos numa centelha esverdeada. Em primeiro lugar, porque levaria muito tempo; meu nome é como uma história. Os nomes verdadeiros, na minha língua, contam as histórias dos seres a quem pertencem. No velho entês, como vocês diriam. É uma língua adorável, mas leva muito tempo para se dizer qualquer coisa nela, porque não dizemos nada nela a não ser que valha a pena gastar um longo tempo para dizer, e para escutar.
— Mas, agora — e os olhos ficaram muito brilhantes e “presentes”, dando a impressão de terem diminuído e quase ficado aguçados —, o que está acontecendo? Posso ver e ouvir (e cheirar e sentir) muita coisa, desse, desse, desse a-lalla-lalla-rumba-kamanda-lind-or-burúmë. Desculpem, essa é parte do meu nome para essa coisa: não sei qual é a palavra nas línguas de fora: vocês sabem, a coisa na qual estamos, onde eu fico e olho ao redor nas manhãs agradáveis, e penso no sol, e na relva além da floresta, e nos cavalos, e nas nuvens, e no desabrochar do mundo. O que está acontecendo? O que Gandalf está fazendo? E esses — burárum —, ele soltou um enorme estrondo, como uma dissonância num grande órgão —, esses orcs, e O jovem Saruman lá em Isengard? Gosto de notícias. Mas não sejam muito apressados agora.
— Tem muita coisa acontecendo — disse Merry —, e mesmo que tentássemos ser rápidos levaria muito tempo para contar. Mas você disse para não nos apressarmos. Devemos contar-lhe alguma coisa logo? Seria rude se perguntássemos o que vai fazer conosco, e de qual lado está? E você conheceu Gandalf?
— Sim, eu o conheço: o único mago que realmente se preocupa com as árvores — disse Barbárvore. — Vocês o conhecem?
— Sim — disse Pippin tristemente —, conhecíamos. Ele era um grande amigo, e nosso guia.
— Então posso responder a suas outras perguntas — disse Barbárvore. — Não vou fazer nada com vocês: não se com isso vocês estiverem querendo dizer “fazer algo a vocês” sem sua permissão. Podemos fazer algumas coisas juntos. Não sei nada sobre lados. Sigo meu próprio caminho, mas o caminho de vocês pode acompanhar o meu por um tempo. Mas vocês falam do Mestre Gandalf como se ele estivesse numa história que tivesse chegado ao fim.
— Sim, falamos — disse Pippin tristemente. — A história parece estar continuando, mas receio que Gandalf tenha caído fora dela.
— Huu, esperem agora! — disse Barbárvore. — Hum, hm, ah, bem. — Ele parou e olhou longamente para os dois hobbits. — Hum, ah, bem, não sei o que dizer. Esperem um pouco!
— Se quiser escutar mais — disse Merry —, nós podemos contar. Mas vai levar algum tempo. Você não gostaria de nos pôr no chão? Não poderíamos sentar juntos ao sol, enquanto ainda o temos? Você deve estar ficando cansado de nos carregar.
— Hm, cansado? Não, não estou cansado. Não me canso facilmente. E não me sento. Não sou muito, hm, inclinável. Mas olhem, o sol está entrando. Vamos deixar esta — vocês disseram como o chamam?
— Colina? — sugeriu Pippin.
— Patamar? Degrau? — sugeriu Merry.
Barbárvore repetiu as palavras pensativamente. — Colina. Sim, era isso. Mas é uma palavra rápida para uma coisa que está aqui desde que esta parte do mundo foi formada. Não importa. Vamos deixá-la e ir.
— Aonde vamos? — perguntou Merry.
— Para minha casa, ou uma de minhas casas — respondeu Barbárvore.
— É longe?
— Não sei. Vocês podem dizer que é longe, talvez, Mas que importância tem isso?
— Bem, você sabe, perdemos todas as nossas coisas — disse Merry. Temos só um pouco de comida.
— Oh! Hm! Vocês não precisam se preocupar com isso — disse Barbárvore. — Posso lhes dar uma bebida que os manterá verdes e crescendo por um longo, longo tempo. E se decidirmos nos separar posso colocá-los fora de meu território em qualquer ponto que escolherem. Vamos!


Segurando os hobbits suavemente, mas com firmeza, um na curva de cada braço, Barbárvore levantou primeiro um de seus pés grandes, e depois o outro, levando-os até a borda do patamar rochoso. Os dedos em forma de raiz agarraram as rochas. Depois, cuidadosamente, ele foi descendo degrau por degrau, e chegou ao chão da Floresta.
Imediatamente partiu com passos enormes e deliberados através das árvores, afundando cada vez mais na floresta, nunca se distanciando do rio, subindo sem parar em direção às encostas das montanhas. Muitas das árvores pareciam estar dormindo, ou não se dando conta da presença dele ou de qualquer outra criatura que simplesmente passasse; mas algumas estremeciam, e outras levantavam seus galhos acima da cabeça dele conforme Barbárvore se aproximava. Todo o tempo, enquanto andava, ele falava consigo mesmo, numa longa cadeia contínua de sons musicais.
Os hobbits ficaram em silêncio por um tempo. Sentiam-se, por incrível que pareça, confortáveis e a salvo, e tinham muito o que pensar e ponderar. Finalmente, Pippin arriscou falar de novo.
— Por favor, Barbárvore — disse ele —, posso lhe perguntar uma coisa? Por que Celeborn nos advertiu sobre sua floresta? Ele nos disse que não nos arriscássemos a nos embrenhar nela.
— Hm, ele disse, é? — Ribombou Barbárvore. — E eu poderia ter dito o mesmo, se vocês estivessem indo daqui para lá. Não se arrisquem a se embrenhar na floresta de Laurelindórenan! É assim que os elfos costumavam chamá-la, mas agora eles encurtaram o nome: Lothlórien, é como a chamam. Talvez estejam certos: talvez ela esteja sumindo e não crescendo. Terra do Vale do Ouro Cantante, era como se chamava há muito tempo. Agora é a Flor do Sonho. Ah, bem! Mas é um lugar estranho, e não é para qualquer um se aventurar nela. Fico surpreso em saber que vocês conseguiram sair de lá, mas muito mais surpreso ao pensar que vocês conseguiram entrar: isso não acontece com um forasteiro há muitos e muitos anos. É um lugar estranho.
— E este também é. Muitos encontraram a tristeza aqui. Sim, encontraram tristeza. Laurelindórenan findelorendor malinornéfion omemalin — murmurou ele consigo mesmo. — Eles de certa forma estão ficando para trás do mundo lá, eu acho — disse ele. — Nem este lugar, nem qualquer outra coisa fora da Floresta Dourada, é aquilo que era quando Celeborn era jovem. Mas:

Taurelilómëa-tumbalemorna Tumbaletaurëa Lómëanor,

é isso que eles costumavam dizer. As coisas mudaram, mas isso ainda é verdade em alguns lugares.
— Que quer dizer? — disse Pippin. — O que é verdade?
— As árvores e os ents — disse Barbárvore. — Eu mesmo não entendo tudo o que está acontecendo, por isso não posso lhes explicar. Alguns de nós ainda são ents verdadeiros, e bastante vivos à nossa própria maneira, mas muitos estão ficando sonolentos, ficando arvorescos, por assim dizer. A maioria das árvores são árvores verdadeiras, é claro; mas muitas estão semiacordadas. Outras estão bastante acordadas, e algumas estão, bem, ah, bem, ficando entescas. Isso está acontecendo o tempo todo.
— Quando isso acontece a uma árvore, você descobre que algumas têm corações maus. Não tem nada a ver com a madeira: não quero dizer isso. Vejam, eu conheci alguns bons salgueiros velhos, descendo o Entágua, que se foram há muito tempo, infelizmente! Estavam bem ocos, na verdade estavam caindo aos pedaços, mas eram tranquilos e falavam suavemente como uma folha jovem. E também há algumas árvores nos vales sob as montanhas, vendendo saúde e totalmente más. Esse tipo de coisa parece estar se espalhando. Costumava haver umas partes muito perigosas neste lugar. Ainda há alguns trechos muito negros.
— Como a Floresta Velha lá no norte, você quer dizer? — perguntou Merry.
— É, é, alguma coisa assim, mas muito pior. Não duvido que exista alguma sombra da Grande Escuridão pairando ainda no norte, e más recordações se transmitem de geração a geração. Mas existem vales escuros nesta terra onde a Escuridão nunca foi devassada, e onde as árvores são mais velhas que eu. Mesmo assim, fazemos o que podemos. Mantemos à distância forasteiros e atrevidos; e ensinamos e treinamos, caminhando e carpindo.
— Somos pastores de árvores, nós, os velhos ents. Restou um número suficiente de nossa espécie. As ovelhas ficam como os pastores, e os pastores como as ovelhas, é o que se diz; mas lentamente, e nenhum dos dois permanece muito no mundo. Acontece mais rápido e mais de perto com as árvores e os ents, e eles caminham juntos através das eras. Pois os ents são mais como os elfos: menos interessados em si próprios do que os homens, e melhores para penetrar os outros seres. E apesar disso os ents são mais como os homens, mais mutáveis que os elfos, e mais rápidos para assumir as cores do exterior, por assim dizer. Ou melhores que ambos: pois são mais firmes e mantêm as mentes nas coisas por mais tempo.
— Alguns de meus parentes são exatamente como árvores atualmente, e precisam de algo grandioso que os desperte; agora só conversam aos sussurros. Mas outros têm os membros flexíveis, e muitos conseguem conversar comigo. Os elfos começaram tudo, é claro, despertando as árvores e ensinando-as a falar e aprendendo sua fala-de-árvore. Eles sempre desejaram conversar com tudo, os velhos elfos. Mas depois a Grande Escuridão chegou, e eles foram para longe através do Mar, ou fugiram para vales distantes e se esconderam, e fizeram canções sobre tempos que jamais voltariam. Nunca mais. — É sim, houve um tempo em que só havia uma floresta, daqui até as Montanhas de Lûn, e esta era apenas a Extremidade Leste.
— Aqueles foram dias grandiosos! Houve um tempo em que eu podia caminhar e cantar o dia todo e escutar apenas o eco de minha própria voz nas concavidades das colinas. As florestas eram como a floresta de Lothlórien, apenas mais densas, mais fortes, mais jovens. E o aroma do ar! Eu costumava passar uma semana só respirando.
Barbárvore ficou em silencio, avançando a grandes passadas e apesar disso mal fazendo ruído com seus grandes pés. Depois começou a cantar baixinho outra vez, passando então para um canto murmurante. Gradualmente, os hobbits perceberam que ele cantava para eles:

Pelos prados de salgueiros de Tasarinan caminhei na Primavera.
Ah! A paisagem e o cheiro da Primavera em Nan-tasarion!
E eu disse que era bom.
Eu vaguei no Verão pelos bosques de olmos de Ossiriand.
Ah! a luz e a música no Verão ao longo dos Sete Rios de Ossir!
E eu pensei que era melhor
As faias de Neldoreth visitei no Outono.
Ah! O ouro e o vermelho e o suspiro das folhas do Outono em Taur-na-neldor!
Era mais do que eu desejava.
Até os pinheiros da planície de Dorthonion galguei no Inverno.
Ah! o vento e a brancura e os galhos negros do Inverno em Orod-na-Thôn!
Minha voz se soltou e cantou no céu.
E agora aquelas terras jazem todas sob as águas,
E eu caminho em Ambaróna, em Tauremorna, em Aldalómê,
Na minha própria terra, no território de Fangorn,
Onde as raízes são longas,
E os anos fazem mais densos do que as fôlhas
Em Tauremornalômê.

Terminou e continuou caminhando em silêncio, e em toda a floresta, até onde os ouvidos podiam alcançar, não havia ruído algum.


O dia terminava e o crepúsculo se entrelaçava às copas das árvores. Finalmente os hobbits viram, assomando vagamente diante deles, uma terra íngreme e escura: tinham atingido os pés das montanhas, e as raízes verdes do alto Methedras. Descendo a encosta, o jovem Entágua, saltando de suas nascentes que ficavam bem acima, corria ruidosamente de degrau em degrau, ao encontro deles. À direita do rio havia uma longa encosta, coberta de relva, que agora se acinzentava ao crepúsculo. Ali não cresciam árvores, e a encosta se abria para o céu; as estrelas já brilhavam em lagos, entremeadas por margens de nuvens.
Barbárvore subiu a encosta, quase sem diminuir o passo. De repente os hobbits viram adiante uma grande abertura, Duas grandes árvores se erguiam ali, uma de cada lado, como um enorme portal vivo; mas não havia portão algum, a não ser pelos próprios galhos que se cruzavam e entrelaçavam. Quando o velho Ent se aproximou, as árvores ergueram seus galhos, e todas as folhas estremeceram e farfalharam. Eram árvores perenes, com folhas escuras e polidas que reluziam no crepúsculo. Depois delas havia um amplo espaço plano, como se o assoalho de um grande salão tivesse sido recortado no flanco da colina. Dos dois lados as paredes subiam, até atingir uma altura de quinze metros ou mais, e ao longo de cada parede ficava um corredor de árvores que também cresciam em altura conforme avançavam para dentro.
Na extremidade oposta a parede rochosa era íngreme, mas na parte de baixo tinha sido escavada uma concavidade, que formava um vão baixo com um teto arqueado: o único teto do salão, a não ser pelos galhos das árvores, que na extremidade interior cobriam de sombras todo o chão, deixando aberta apenas uma trilha larga no meio. Um pequeno riacho fugia das nascentes acima e, abandonando a correnteza principal, caía tinindo pela superfície íngreme da parede, derramando-se em gotas prateadas como uma fina cortina à frente do vão sob o arco. A água era recolhida novamente dentro de uma bacia de pedra que ficava no chão entre as árvores, e depois transbordava e corria ao lado da trilha descoberta, para juntar-se ao Entágua em sua viagem através da floresta.


— Hum! Aqui estamos! — disse Barbárvore, quebrando o seu longo silêncio. — Trouxe-os em cerca de setenta mil passadas-ent, mas o que isso representa na medida de sua terra eu não sei. De qualquer forma, estamos perto das raízes da última Montanha. Parte do nome deste lugar poderia ser Gruta da Nascente, se fosse transformado em sua língua. Gosto daqui. Vamos ficar esta noite. — Colocou-os sobre a relva entre os corredores de árvores, e eles o seguiram na direção do grande arco. Os hobbits notaram nesse momento que, conforme Barbárvore andava, mal inclinava os joelhos, mas que suas pernas se abriam em grandes passadas. Plantava os grandes dedos dos pés (que eram de fato muito grandes, e largos) no solo primeiro, antes de fazer o mesmo com qualquer outra parte dos pés.
Por um momento, Barbárvore parou sob a chuva do riacho que caía, e respirou fundo; depois riu, e passou para dentro. Uma grande mesa de pedra se encontrava ali, mas não havia nenhuma cadeira. No fundo do vão já estava bem escuro. Barbárvore ergueu duas grandes vasilhas e colocou-as na mesa. Pareciam estar cheias de água, mas quando ele ergueu as mãos sobre elas imediatamente começaram a brilhar, uma com uma luz dourada, e outra com uma luz de um verde profundo; e a mistura das duas luzes iluminou o vão, como se o sol do verão estivesse brilhando através de um teto de folhas novas. Olhando para trás, os hobbits viram que as árvores no pátio também começavam a brilhar, pouco no início, mas cada vez mais, até que todas as folhas foram atingidas pela luz: algumas verdes, outras douradas, outras ainda vermelhas como o cobre; e os troncos das árvores pareciam pilares moldados em pedra luminosa.
— Bem, bem, agora podemos conversar outra vez — disse Barbárvore. Suponho que estejam com sede. Talvez também cansados. Bebam isto! — Caminhou para o fundo do vão, e então os hobbits viram vários jarros de pedra com tampas pesadas. Ele retirou uma das tampas e afundou uma grande concha, e com ela encheu três tigelas, uma bem grande e duas menores.
— Esta é uma casa-ent — disse ele —, e receio que não haja lugares para sentar. Mas vocês podem sentar-se na mesa. — Pegando os hobbits, ele os colocou sobrea grande laje de pedra, a um metro e oitenta centímetros do solo, e ali eles ficaram balançando as pernas e bebendo aos golinhos.
A bebida era como água, na verdade bem semelhante em sabor à água que tinham bebido do Entágua perto das fronteiras da floresta, e apesar disso havia nela algum aroma ou gosto que eles não conseguiam descrever: era fraco, mas fazia lembrar do cheiro de uma floresta distante, trazido de longe por uma brisa fresca à noite. O efeito da bebida começou nos dedos dos pés, e subiu cada vez mais pelo corpo, trazendo descanso e vigor conforme avançava em seu curso, chegando até as pontas dos cabelos. Na verdade, os hobbits sentiram que seus cabelos estavam literalmente em pé, fazendo ondas e cachos, crescendo. Quanto a Barbárvore, ele primeiro banhou os pés na bacia além do arco, e então esvaziou sua tigela num gole, num longo e lento gole. Os hobbits acharam que ele nunca iria terminar.
Finalmente colocou a tigela outra vez na mesa. — Ah-ah — suspirou ele. — Hm, hum, agora podemos conversar mais tranquilos. Vocês podem sentar-se no chão, e eu vou me deitar; isso vai evitar que essa bebida suba à minha cabeça e me faça adormecer.


Do lado direito do vão havia uma grande cama sobre pés baixos, com menos de um metro de altura, coberta por uma grossa camada de grama seca e samambaias. Barbárvore abaixou-se lentamente até ela (com um mínimo sinal de curvar o meio de seu corpo), até que se deitou completamente, com os braços atrás da cabeça, olhando para o teto, sobre o qual havia luzes piscando, como o jogo das folhas à luz do sol. Merry e Pippin se sentaram ao lado dele, em almofadas de capim.
— Agora me contem sua história e não se apressem! — disse Barbárvore.
Os hobbits começaram a lhe contar a história de suas aventuras desde que deixaram a Vila dos Hobbits. Não seguiram uma ordem muito clara, pois um interrompia o outro constantemente, e Barbárvore sempre cortava quem estava falando, e voltava para algum ponto anterior, ou saltava à frente fazendo perguntas sobre acontecimentos posteriores. Eles não disseram nada que se relacionasse ao Anel, e não contaram a ele o motivo de terem partido, ou para onde estavam indo; ele não perguntou os motivos.
Barbárvore se interessava imensamente por tudo: pelos Cavaleiros Negros, por Elrond e Valfenda, pela Floresta Velha e Tom Bombadil, pelas Minas de Moria e por Lothlórien e Galadriel. Fez com que eles descrevessem o Condado e sua região inúmeras vezes. Disse uma coisa estranha nesse ponto. — Vocês nunca viram algum hum, algum ent por lá, viram? — perguntou ele. — Bem, não ents, entesposas eu deveria dizer na verdade.
— Entesposas? — disse Pippin. — São parecidas com vocês?
— Sim, Hum, bem, não: na verdade não sei agora — disse Barbárvore pensativo. — Mas elas gostariam de sua terra, ou pelo menos achei que sim.
 Entretanto, Barbárvore estava especialmente interessado em tudo o que concernia a Gandalf, e acima de tudo interessado em todos os feitos de Saruman. Os hobbits sentiram muito por saberem tão pouco sobre o assunto: apenas um relato muito vago que Sam tinha feito sobre o que Gandalf dissera no Conselho. Mas de qualquer forma foram claros em relação a Uglúk e sua tropa terem vindo de Isengard, e mencionavam Saruman como seu mestre.
— Hum, hum! — Disse Barbárvore, quando a história tinha enveredado para a batalha entre os orcs e os Cavaleiros de Rohan. Bem, bem! Esse é um bocado de notícias, sem dúvida. Vocês não me contaram tudo, não mesmo, nem de perto. Mas não duvido que vocês estão procedendo como Gandalf desejaria. Há alguma coisa muito grandiosa acontecendo, isso estou vendo, e o que é talvez eu possa saber no tempo certo, ou no tempo errado. Raiz e galho, mas é uma coisa estranha: surgem pessoas pequenas que não estão nas antigas listas, e, vejam! Os Nove Cavaleiros esquecidos reaparecem para caçá-los, e Gandalf os leva numa grande viagem, e Galadriel os acolhe em Caras Galadhon, e os orcs os perseguem por todas as milhas das Terras Ermas: na verdade eles parecem estar presos numa grande tempestade. Espero que consigam vencê-la.
— Agora, e sobre você?
— Hum, hum, eu não me preocupei com as Grandes Guerras — disse Barbárvore —, elas concernem principalmente a homens e elfos. Isso é assunto dos Magos: os Magos estão sempre preocupados com o futuro. Eu não gosto de me preocupar com o futuro. Não estou totalmente do lado de ninguém, porque ninguém está totalmente do meu lado, se é que me entendem: ninguém se preocupa com as florestas como eu me preocupo, nem mesmo os elfos hoje em dia. Apesar disso, afeiçoo-me mais aos elfos que aos outros: foram os elfos que nos curaram do adormecimento há muito tempo, e essa foi uma grande dádiva que não pode ser esquecida, embora nossos caminhos tenham se separado desde então. E há algumas coisas, é claro, de cujo lado eu absolutamente não estou; sou absolutamente contra elas: esses — burárum (ele fez outra vez o ruído grave de nojo) —, esses orcs, e seus mestres.
— Eu costumava ficar ansioso quando a sombra cobriu a Floresta das Trevas, mas quando ela foi para Mordor parei de me preocupar por uns tempos: Mordor fica muito distante. Mas parece que o vento está se fixando no leste, e a devastação de todas as florestas pode estar chegando. Não há nada que um velho ent possa fazer para impedir que essa tempestade avance: ele deve vencê-la ou arrebentar-se.
— Mas e Saruman agora! Saruman é um vizinho: não posso ignorá-lo. Preciso fazer alguma coisa, eu acho. Ultimamente tenho pensado com frequência no que devo fazer a respeito de Saruman.
— Quem é Saruman? — perguntou Pippin. — Você sabe algo sobre a história dele?
— Saruman é um Mago — respondeu Barbárvore. — Mais que isso não posso dizer. Não conheço a história dos Magos. Eles apareceram primeiro, depois que os Grandes Navios vieram através do Mar; mas se vieram com os Navios eu não sei. Saruman era considerado importante entre os seus, eu acho. Ele desistiu de vagar por aí e de se preocupar com os problemas dos homens e dos elfos, há algum tempo — vocês chamariam isso de muito, muito tempo, — e se acomodou em Angrenost, ou Isengard, como os homens de Rohan chamam o lugar. No início ficou muito quieto, mas sua fama começou a crescer. Foi escolhido como o presidente do Conselho Branco, pelo que dizem; mas isso não deu muito certo. Fico imaginando agora se mesmo naquela época Saruman já não estava se voltando para o mal. Mas de qualquer forma, não costumava trazer problemas para seus vizinhos. Eu costumava conversar com ele. Houve um tempo em que estava sempre perambulando por minhas florestas. Era educado naquela época, sempre pedindo minha permissão (pelo menos quando me encontrava); e sempre ansioso por escutar. Eu lhe disse coisas que ele nunca descobriria por conta própria, mas nunca me retribuiu da mesma forma. Não consigo recordar de ele me ter contado qualquer coisa. E ficou cada vez mais assim; o rosto, pelo que me lembro — não o vejo há muitos dias —, ficou parecido com janelas numa muralha de pedra: janelas, vedadas por dentro.
— Acho que agora entendo o que ele pretende. Está tramando para se transformar num Poder. Tem um cérebro de metal e rodas, e não se preocupa com os seres que crescem, a não ser enquanto o servem. E agora fica claro que ele é um traidor negro. Aliou-se a seres maus, aos orcs. Bem, hum! Pior que isso: vem fazendo alguma coisa a eles; alguma coisa perigosa. Porque esses isengardenses são mais semelhantes a homens maus. Os seres malignos que vieram na Grande Escuridão têm como marca a característica de não suportarem o sol; mas os orcs de Saruman suportam, mesmo que o odeiem. Fico imaginando o que ele terá feito. Seriam eles homens que ele arruinou, ou teria ele misturado as raças dos orcs e dos homens? Isso seria uma maldade negra!
Barbárvore roncou por uns momentos, como se estivesse pronunciando alguma maldição entesca profunda, subterrânea. — Há algum tempo comecei a me perguntar como os orcs ousavam passar pela minha floresta tão livremente — continuou ele. — Só há pouco tempo é que descobri que a culpa era de Saruman, e que há muito tempo ele estivera espiando todos os caminhos, e descobrindo meus segredos. Ele e seu povo sujo estão devastando tudo agora. Lá embaixo, nas fronteiras, estão derrubando árvores — árvores boas. Algumas eles apenas cortam e deixam apodrecer — isso é serviço dos orcs; mas a maioria delas são derrubadas e levadas para alimentar as fogueiras de Orthanc. Vejo sempre uma fogueira subindo de Isengard nos últimos tempos.
— Maldito seja, raiz e ramo! Muitas daquelas árvores eram minhas amigas, criaturas que eu conhecia desde sementes; várias tinham vozes próprias que agora estão perdidas para sempre. E há restos de tocos e sarças onde já existiram bosques cantantes. Fiquei sem fazer nada. Deixei que as coisas acontecessem. Isso deve parar!
Barbárvore levantou de sua cama de um salto, ficou de pé e bateu com a mão na mesa. As vasilhas de luz tremeram e lançaram dois jatos de chama. Havia uma centelha de fogo verde em seus olhos, e a barba sobressaiu, rija como uma vassoura de galhos.
—Vou acabar com isso! — ribombou ele. — E vocês virão comigo. Talvez possam me ajudar. Estarão ajudando a seus próprios amigos desse modo também; pois, se Saruman não for detido, Rohan e Gondor terão um inimigo à frente e também pelas costas. Nossas estradas irão juntas para Isengard.
— Iremos com você — disse Merry — Faremos o que pudermos.
— Sim! — disse Pippin. — Vou gostar de ver a Mão Branca derrubada. Gostaria de estar lá, mesmo que não fosse de muita utilidade: jamais esquecerei Uglúk e a travessia de Rohan.
— Bom! Bom! — disse Barbárvore. — Mas eu falei muito depressa. Não devemos nos afobar. Ficamos muito quentes. Preciso esfriar e pensar; pois é mais fácil gritar “pare!” do que parar.
Foi até o arco e ficou algum tempo, sob a chuva que caía da nascente. Depois riu e agitou o corpo, e cada gota de água que descia dele brilhando, para cair no chão, reluzia com faíscas verdes e vermelhas. Barbárvore voltou e se deitou na cama outra vez, ficando em silêncio.


Depois de algum tempo os hobbits o escutaram murmurando de novo. Parecia estar contando nos dedos. — Fangorn, Finglas, Fladrif, sim, sim — suspirou ele. — O problema é que restam tão poucos de nós — disse ele virando-se para os hobbits. — Restam apenas três dos primeiros ents que caminhavam na floresta antes da Escuridão: só eu, Fangorn, Finglas e Fladrif, para lhes dar seus nomes élficos; vocês podem chamá-los de Mecha-de-Folha e Casca-de-Pele, se preferirem. E, de nós três, Mecha-de-Folha e Casca-de-Pele não são de muita utilidade para esse tipo de coisa. Mecha-de-Folha ficou sonolento, quase arvoresco, poderíamos dizer: pegou o costume de ficar parado sozinho, semiadormecido, durante todo o verão, com a funda relva das campinas em volta dos joelhos. Ele é coberto por uma cabeleira de folhas. Costumava despertar no inverno; mas recentemente tem estado sonolento demais para fazer longas caminhadas até nesta época do ano. Casca-de-Pele vivia nas encostas das montanhas a oeste de Isengard. É ali que o pior problema aconteceu. Foi ferido pelos orcs e muitos entre seu pessoal e seus pastores de árvores foram mortos e destruídos. Subiu para os lugares altos, para junto das bétulas que tanto ama, e não vai descer. Mesmo assim, arrisco dizer que eu poderia reunir um bom grupo de nosso pessoal mais jovem — se pudesse fazê-los entender a necessidade: se pudesse despertá-los: não somos pessoas apressadas. É uma pena que haja tão poucos de nós!
— Por que há tão poucos se vocês vivem neste lugar há tanto tempo? — Perguntou Pippin. — Morreram muitos?
— Oh, não! — disse Barbárvore. — Nenhum morreu de dentro para fora, como vocês diriam. Alguns caíram na má sorte dos longos anos, é claro; e a maior parte se tornou arvoresca. Mas nunca houve muitos de nós, e não aumentamos em número. Não houve entinhos — crianças, vocês diriam por uma conta interminável de anos. Sabem, perdemos as entesposas.
— Que coisa triste! — disse Pippin. — Como foi que todas morreram?
— Elas não morreram! — disse Barbárvore. — Eu não disse morreram. Nós as perdemos, eu disse. Perdemos e não conseguimos encontrá-las. — Ele suspirou. — Achei que a maior parte das pessoas sabia disso. Há canções sobre os ents procurando as entesposas, que são cantadas pelos elfos e pelos homens, da Floresta das Trevas até Gondor. Não podem estar de todo esquecidas.
— Bem, receio que as canções não tenham chegado através das montanhas a oeste até o Condado — disse Merry. — Você não poderia nos contar mais coisas, ou cantar uma das canções?
— Posso sim — disse Barbárvore, parecendo satisfeito com o pedido. Mas não posso contar de maneira adequada, só vou fazer um resumo; e depois precisamos terminar nossa conversa: amanhã temos conselhos a convocar, e trabalho a fazer; talvez até comecemos uma viagem.


— É uma história muito triste e estranha — continuou ele depois de uma pausa. — Quando o mundo era jovem, e as florestas eram vastas e selvagens, os ents e as entesposas — e havia entezelas naquela época: ah! Como era adorável Fimbrethil, Pé-de-Fada, a dos passos leves, nos dias de minha juventude! —, eles andavam juntos e moravam juntos, mas nossos corações não continuaram crescendo do mesmo modo: os ents devotavam seu amor a coisas que encontravam no mundo, e as entesposas devotavam o seu a outras coisas; pois os ents amavam as grandes árvores e as florestas, e as encostas de colinas altas, e bebiam das nascentes das montanhas, e só comiam frutas que as árvores deixavam cair em seu caminho; e aprenderam com os elfos e conversavam com as árvores. Mas as entesposas se dedicaram a árvores menores, e a campinas ao sol além dos pés das florestas; viram o abrunheiro nas moitas e a macieira selvagem e a cerejeira florescendo na primavera; e as ervas verdes nas terras banhadas pela água e a grama descente nos campos durante o outono. Não desejavam conversar com esses seres, mas eles desejavam ouvi-las e obedecer ao que lhes diziam. As entesposas ordenaram que crescessem conforme seus desejos, e que produzissem folhas e frutos como queriam; pois as entesposas desejavam a ordem, muita ordem, e paz (que para elas queria dizer que as coisas deviam permanecer como elas as tinham colocado). Então as entesposas fizeram jardim nos quais pudessem morar. Mas nós, ents, continuamos vagando, e só íamos aos jardins de vez em quando. Então, quando a Escuridão chegou ao Norte, as entesposas atravessaram o Grande Rio, e fizeram novos jardins, e araram novos campos, e nós as víamos com menos frequência. Depois que a Escuridão foi derrotada, a terra das entesposas floresceu ricamente, e seus campos ficaram cheios de trigo. Muitos homens aprenderam os ofícios das entesposas e prestavam grandes honras a elas; mas nós ficamos sendo para eles apenas uma lenda, um segredo no coração da floresta. Mas ainda estamos aqui, enquanto que os jardins das entesposas estão abandonados: os homens os chamam agora de Terras Castanhas.
— Lembro-me de que foi há muito tempo — na época da guerra entre Sauron e os Homens do Mar — que me veio o desejo de rever Fimbrethil. Ela ainda era muito bela aos meus olhos, da última vez que a vira, embora se parecesse pouco com a entezela de antigamente. Pois as entesposas estavam curvadas e escurecidas devido ao trabalho; seus cabelos ficaram ressecados pelo sol, assumindo a tonalidade do trigo maduro, e suas faces ficaram como maçãs vermelhas. Apesar disso, os olhos ainda eram os olhos de nosso próprio povo. Atravessamos o Anduin e chegamos à terra delas; mas encontramos um deserto: estava tudo queimado e arrancado, pois a guerra passara por ali. Mas as entesposas não estavam lá. Por muito tempo chamamos, e por muito tempo procuramos, e perguntávamos a todas as pessoas que encontrávamos para onde as entesposas tinham ido. Alguns diziam que nunca as tinham visto; outros diziam que elas tinham sido vistas caminhando para o oeste, e outros ainda diziam para o leste, e outros diziam para o sul. Mas em nenhum lugar a que fomos pudemos encontrá-las. Nossa tristeza foi muito grande. Mas a floresta selvagem chamou e retornamos a ela. Por muitos anos mantivemos o costume de sair de vez em quando para procurar as entesposas, andando por todo canto e chamando-as por seus belos nomes. Mas conforme o tempo passou íamos cada vez com menos frequência, e cada vez menos longe. E agora as entesposas são para nós apenas uma lembrança, e nossas barbas estão longas e cinzentas. Os elfos fizeram muitas canções sobre a busca dos ents, e algumas delas passaram para a língua dos homens. Mas nós não fizemos canção alguma sobre o assunto, ficando satisfeitos em cantar seus belos nomes quando pensávamos nas entesposas. Acreditamos que ainda podemos encontrá-las num tempo que virá, e talvez encontremos em algum lugar uma terra onde possamos viver juntos, ficando todos satisfeitos. Mas pressentimos que isso só acontecerá quando ambos, ents e entesposas, tiverem perdido tudo o que têm agora. E é bem possível que a hora esteja finalmente se aproximando. Pois, se Sauron destruiu todos os jardins antigamente, hoje o Inimigo tende a arruinar todas as florestas.
— Havia uma canção élfica que falava disso, ou pelo menos eu a entendia assim. Costumava-se cantá-la ao longo de todo o Grande Rio. Nunca foi uma canção entesca, vejam bem: seria longa demais em entês! Mas nós a sabemos de cor, e a entoamos de vez em quando. Fica assim na língua de vocês:

Ent: Se a Primavera em folha a faia e a seiva os galhos banha,
Se a luz se espelha no regato e há vento na montanha,
Se o passo é largo, duro o esforço e fio corta o ar
Volta pra mim! Volta pra mim! Diz que é belo este lugar!

Entesposa: Se a Primavera ao campo chega e o trigo está na espiga,
Se branca a flor qual neve brilha e no pomar se abriga,
Se em chuva e sol por sobre a terra perfume há no ar,
Eu fico aqui, não volto não, é belo o meu lugar.

Ent: Se for Verão por sobre a terra e à tarde a luz dourada
Mil sonhos verdes derramar nas folhas enlaçadas;
Se verde e fresco, for o bosque e o vento for bem-vindo,
Volta pra mim! Volta pra mim! Diz que aqui tudo é mais lindo!

Entesposa: Se for Verão e no calor a fruta escurecer,
Se a palha é seca, e a espiga branca na hora de colher;
Se pinga o mel, cresce a maçã ao vento que é bem-vindo,
Eu fico aqui, à luz do sol, pois isso é bem mais lindo!

Ent: Se for Inverno, o duro Inverno que mata e campo Cinvade,
Se a noite escura o dia sem sol devora sem piedade,
Se o Vento Leste for mortal, então na chuva fria
Vou procurar-te, vou chamar-te, eu volto nesse dia.

Entesposa: Se for Inverno sem canções, se a treva enfim vier,
Quebrado já o inútil galho, se luz já não houver,
Vou procurar-te e esperar-te, até seguir um dia
Contigo pela estrada afora sob a chuva fria!

Ambos: E juntos para o oeste vamos nos encaminhar
E longe, longe encontraremos onde descansar.

Barbárvore terminou sua canção. — É assim que fica — disse ele. — É uma canção élfica, sem dúvida: leve, ligeira e curta. Arrisco dizer que é bem bonita. Mas os ents, por seu lado, poderiam dizer mais coisas, se tivessem tempo! Mas agora vou ficar de pé e dormir um pouco. Onde vocês vão ficar?
— Nós geralmente nos deitamos para dormir — disse Merry. — Vamos ficar bem aqui onde estamos.
— Deitar para dormir! — disse Barbárvore. — É claro que vocês fazem isso! Hm, hum: estava esquecendo: cantar aquela canção me transportou a tempos antigos; quase pensei que estava conversando com jovens entinhos. Bem, vocês podem se deitar na cama. Eu vou ficar de pé na chuva. Boa noite!
Merry e Pippin escalaram a cama e aconchegaram-se na palha macia e nas samambaias. Era tudo novo, quente e de um aroma delicado. As luzes foram se apagando e o brilho das árvores desapareceu; mas lá fora, sob o arco, eles ainda podiam ver o velho Barbárvore em pé, imóvel, com os braços erguidos acima da cabeça. Claras estrelas apareceram no céu e iluminaram a água que caía, derramando-se sobre seus dedos e sua cabeça, para depois pingar, pingar, em centenas de gotas de prata sobre seus pés. Ouvindo o gotejar da água os hobbits adormeceram.


Acordaram para encontrar um sol fresco brilhando no grande pátio e sobre o assoalho do vão. Retalhos de nuvens altas lhes apareciam no céu, correndo ao vento constante que vinha do leste. Barbárvore não estava por ali; mas enquanto Merry e Pippin se banhavam na bacia sob o arco ouviram-no murmurando e cantando, conforme vinha pela trilha em meio às árvores.
— Hu, ho! Bom dia, Merry e Pippin! — ribombou ele ao vê-los. — Vocês dormem bastante. Já andei várias centenas de passadas hoje. Agora beberemos alguma coisa e depois vamos para o Entebate.
Encheu-lhes duas vasilhas com o líquido de um jarro de pedra; mas de um jarro diferente. O gosto não era o mesmo do líquido da noite anterior: era mais terroso e rico, mais substancioso e mais parecido com comida, por assim dizer. Enquanto os hobbits bebiam, sentados na beirada da cama e mordiscando pequenos pedaços de bolo élfico (mais por acharem que comer alguma coisa era necessário no desjejum do que por sentirem fome), Barbárvore ficou parado, cantando em entês ou élfico ou alguma outra língua estranha, e olhando para o céu.
— Onde fica Entebate? — Pippin arriscou perguntar.
— Hu, hein? Entebate? — disse Barbárvore, voltando-se. — Não é um lugar, é uma reunião de ents — que não acontece frequentemente hoje em dia. Mas consegui fazer com que um bom número deles prometesse ir. Vamos nos encontrar no lugar onde sempre nos encontramos: Valarcano, os homens chamam. Fica muito ao sul deste lugar. Devemos chegar lá antes do meio-dia.
Logo partiram. Barbárvore carregava os hobbits em seus braços, como no dia anterior. Na entrada do pátio virou à direita, deu uma passada atravessando o rio e continuou rumo ao sul, ao longo dos pés de grandes encostas esboroadas onde as árvores eram escassas. Acima delas os hobbits viram moitas de bétulas e sorveiras, e além delas pinheiros escuros que subiam. Logo Barbárvore mudou um pouco o rumo, distanciando-se das colinas e mergulhando em bosques profundos, onde as árvores eram maiores, mais altas e mais espessas que quaisquer outras que os hobbits tinham visto antes. Por um período, tiveram a sensação de abafamento que tinham tido quando se aventuraram pela primeira vez no interior de Fangorn, mas isso logo passou. Barbárvore não falava com eles. Murmurava consigo mesmo, profunda e pensativamente, mas Merry e Pippin não entendiam nenhuma palavra: soava como bum bum, rumbum, burrar, bum bum, darrar bum bum, darrar bum e assim por diante, com uma mudança constante de tom e ritmo. De tempos em tempos, eles tinham a impressão de escutar uma resposta, um murmúrio ou som ligeiro que parecia sair da terra, ou dos galhos sobre suas cabeças, ou talvez das copas das árvores; mas Barbárvore não parava nem voltava sua cabeça para nenhum dos lados.


Já estavam viajando havia um bom tempo — Pippin tinha tentado contar as “passadasent”, mas falhara, perdendo-se na altura das três mil quando Barbárvore começou a diminuir o passo. De repente parou, colocou os hobbits no chão, e levou as mãos enrugadas até a boca, de modo a fazer com elas um tubo oco; depois soprou ou chamou através delas. Um grande hum hum soou pela floresta como uma corneta grave, dando a impressão de ecoar nas árvores. De longe veio, de várias direções, um hum, hom, hum que não era um eco, e sim uma resposta.
Barbárvore então empoleirou Merry e Pippin em seus ombros e continuou em suas passadas, de quando em quando enviando outro chamado, e cada vez as respostas vinham em sons mais altos e claros. Chegaram finalmente ao que parecia ser uma parede impenetrável de árvores perenes escuras, árvores de um tipo que os hobbits nunca tinham visto antes: ramificavam-se diretamente das raízes, e eram densamente cobertas por folhas escuras e polidas como azevinheiros sem espinhos, e carregavam muitas espigas floridas rijas e eretas, com grandes botões brilhantes cor de oliva.
Virando à esquerda e contornando essa enorme cerca-viva, Barbárvore atingiu, com algumas passadas, uma passagem estreita. Por ela passava uma trilha gasta, que mergulhava de repente, descendo uma encosta íngreme. Os hobbits perceberam que estavam descendo para dentro de uma grande garganta, quase redonda como uma vasilha, muito ampla e profunda, coroada em sua borda pela cerca-viva alta de árvores perenes. O terreno no interior era macio e coberto de grama, e não havia árvores, com a exceção de altas e belas bétulas prateadas que se erguiam do fundo da vasilha. Duas outras trilhas conduziam à garganta: vindas do leste e do oeste.
Vários ents já tinham chegado. Outros estavam chegando pelas trilhas, e alguns agora vinham atrás de Barbárvore. Enquanto se aproximavam, os hobbits os observavam. Sua expectativa era ver várias criaturas tão parecidas com Barbárvore como os hobbits eram parecidos entre si (pelo menos aos olhos de um estranho); e ficaram muito surpresos ao ver coisa muito diferente. Os ents eram tão diferentes uns dos outros como as árvores são diferentes entre si: alguns diferentes como uma árvore é diferente de outra que tem o mesmo nome, mas um desenvolvimento e uma história diversos, e outros diferentes como uma espécie de árvore é diferente da outra, como a bétula e a faia, como o carvalho e o pinheiro. Havia alguns ent s mais velhos, barbados e nodosos como árvores velhas e robustas (embora nenhum parecesse tão velho como Barbárvore); e havia ents altos e fortes, com os membros lisos e a pele macia, como árvores da floresta em sua plenitude; mas não havia ents jovens, nenhum rebento. Todos juntos perfaziam cerca de duas dúzias, parados no chão amplo e gramado da garganta, enquanto um número semelhante se aproximava.
Num primeiro momento, Merry e Pippin ficaram chocados principalmente com a variedade que viram: as várias formas, cores e as diferenças em largura, altura, no comprimento dos braços e pernas, e no número de dedos dos pés e das mãos (qualquer coisa variando entre três a nove). Alguns pareciam mais ou menos aparentados a Barbárvore, e os faziam lembrar de faias e carvalhos. Mas havia outras espécies. Alguns se assemelhavam à castanheira: ents de pele castanha, com grandes mãos de dedos espalhados, e pernas curtas e grossas. Outros pareciam o freixo: ents altos, eretos e cinzentos com mãos de muitos dedos e pernas compridas; outros lembravam o pinheiro (os ents mais altos), e outros a bétula, a tília e a sorveira. Mas quando todos os ents se reuniram ao redor de Barbárvore, curvando as cabeças levemente, murmurando em suas vozes lentas e musicais, e olhando longa e atentamente para os forasteiros, então os hobbits viram que eram todos da mesma família, e todos tinham os mesmos olhos: não tão velhos e profundos como os de Barbárvore, mas todos com a mesma expressão lenta, firme e pensativa, e a mesma centelha verde.
Logo que todo o grupo estava reunido, parado num grande círculo ao redor de Barbárvore, uma conversa curiosa e ininteligível começou. Os ents começaram a murmurar lentamente: primeiro um e depois outro, até que todos estavam cantando juntos num ritmo longo, ascendente e descendente, em certos momentos mais alto de um lado do círculo, outros diminuindo ali e aumentando até chegar a um grande estrondo no outro lado, Embora não conseguisse entender nenhuma palavra ele supôs que a língua era entês Pippin achou o som muito agradável de escutar no início, mas gradualmente sua atenção se dispersou. Depois de um longo tempo (e o canto não dava sinais de chegar ao fim), ele se viu pensando, já que o entês era uma língua tão “desapressada”, se eles já tinham ido além do Bom dia; e se Barbárvore tivesse de fazer a chamada quantos dias levaria até que terminasse de cantar todos os nomes. “Fico imaginando quais são os termos em entês para sim e não”, pensou ele, bocejando.
Barbárvore imediatamente se deu conta dele. — Hm, ha, hei, meu Pippin! — disse ele, e os outros ents pararam de cantar. — Vocês são um povo apressado, eu estava esquecendo; e de qualquer forma é enfadonho escutar uma conversa que não se entende. Vocês podem descer agora. Eu disse seus nomes ao Entebate, e eles já os viram, e concordaram que vocês não são orcs, e que uma linha nova deve ser acrescentada às velhas listas. Não discutimos mais nada até agora, mas isso já é um trabalho rápido para um Entebate, Você e Merry podem passear pela garganta, se quiserem. Há um poço de água boa, se precisarem se refrescar, lá adiante na margem norte. Ainda temos umas palavras a dizer antes que o Debate realmente comece. Logo irei ver vocês outra vez, e contar como as coisas estão indo.
Colocou os hobbits no chão. Antes de se afastarem, eles fizeram uma grande reverência. Esse gesto pareceu surpreender muito os ents, a julgar pelo tom de seus murmúrios e pela centelha em seus olhos; mas logo voltavam aos seus próprios assuntos. Merry e Pippin subiram pela trilha que vinha do oeste, e olharam através da abertura na grande cerca-viva. Longas encostas cobertas de árvores subiam da borda da garganta, e mais além delas, sobre os pinheiros da cordilheira mais distante, erguia-se, pontudo e branco, o pico de uma alta montanha. Ao sul e à esquerda eles podiam ver a floresta descendo na distância cinzenta, Ali, bem longe, vislumbrava-se um trecho claro e verde que Merry supôs ser uma parte das planícies de Rohan.
— Fico imaginando onde fica Isengard — disse Pippin.
— Não sei muito bem onde estamos — disse Merry —, mas aquele pico provavelmente é Methedras, e pelo que consigo lembrar o círculo de Isengard fica numa bifurcação ou numa fissura no fim das montanhas. Provavelmente atrás desta grande cordilheira. Parece haver uma fumaça ou névoa sobre aquela região à esquerda do pico, você não acha?
— Como é Isengard? — perguntou Pippin. — De qualquer maneira, fico imaginando o que os ents podem fazer em relação a Isengard.
— Eu também — disse Merry. — Isengard é um tipo de círculo de rochas ou colinas, eu acho, com um espaço plano no interior, e uma ilha ou pilar de pedra no meio, chamado Orthanc. Ali Saruman tem uma torre. Há uma entrada, talvez mais de uma, na muralha que contorna o lugar, e acredito que haja um rio passando ali; vem das montanhas e corre atravessando o Desfiladeiro de Rohan. Não parece o tipo de lugar onde os ents possam agir. Mas tenho uma sensação estranha a respeito desses ents: de certo modo acho que eles não são assim tão inofensivos e tão esquisitos quanto parecem. Parecem lentos, estranhos e pacientes, quase tristes; apesar disso acredito que eles poderiam ser despertados. Se isso acontecesse, eu não gostaria de estar do outro lado.
— Sim! — Disse Pippin. — Entendo o que quer dizer, Pode haver muita diferença entre um velho boi, sentado e ruminando pensativamente, e um touro atacando; e a mudança pode ser repentina. Pergunto-me se Barbárvore vai despertá-los. Tenho certeza de que vai tentar. Mas eles não gostam de excitação. O próprio Barbárvore ficou excitado ontem à noite, e depois se controlou outra vez.
Os hobbits se voltaram. As vozes dos ents ainda estavam subindo e descendo em sua assembleia. O sol já se erguera o bastante para olhar por sobre a alta cerca-viva: reluzia nas copas das bétulas. Ali eles viram uma pequena fonte brilhante. Caminharam ao longo da borda da grande vasilha ao pé das árvores perenes — era bom sentir a grama fresca em seus pés outra vez, sem estar com pressa — e depois desceram até a água que jorrava. Tomaram um gole pequeno, cristalino, frio e rápido e se sentaram numa rocha musgosa, contemplando os trechos ensolarados de grama e as sombras das nuvens que passavam navegando sobre o chão da garganta. O murmúrio dos ents continuava. O lugar parecia muito estranho e remoto, fora de seu mundo, e distante de tudo que já lhes havia acontecido. Sobreveio-lhes um enorme desejo de rever os rostos e ouvir de novo as vozes de seus companheiros, especialmente Frodo e Sam, e Passolargo.
Finalmente se fez uma pausa nas vozes dos ents; erguendo os olhos eles viram que Barbárvore vinha na direção deles, ao lado de outro ent.
— Hm, hum, aqui estou de novo — disse Barbárvore. — Vocês estão ficando cansados ou se sentindo impacientes, hem? Bem, receio que não possam ficar impacientes ainda. Terminamos agora o primeiro estágio; mas ainda preciso explicar umas coisas de novo para aqueles que vivem em lugares muito distantes, longe de Isengard, e para aqueles que não consegui reunir antes do Debate, e depois disso teremos de decidir o que fazer. Entretanto, decidir o que fazer não toma tanto tempo dos ents quanto examinar todos os fatos e eventos sobre os quais eles precisam decidir. Mesmo assim, não adianta negar, vamos ficar aqui por um bom tempo ainda: provavelmente uns dois dias. Por isso trouxe-lhes um companheiro. Ele tem uma casa-ent por aqui. Bregalad é seu nome élfico. Diz que já se decidiu e não precisa ficar até o fim do Debate. Hum, hum, ele é a coisa que temos mais parecida com um ent apressado. Vocês vão se dar bem juntos. Até logo! — Barbárvore virou-se e os deixou.
Bregalad ficou por um tempo examinando os hobbits solenemente; eles também olhavam-no, pensando quando é que mostraria algum sinal de apressamento. Era alto e parecia ser um dos ents mais jovens; tinha uma pele macia e lustrosa nos braços e nas pernas; os lábios eram rubros e os cabelos tinham um tom verde-acinzentado. Conseguia se curvar e se virar como uma árvore esbelta ao vento. Finalmente falou, e embora a voz fosse ressonante era mais alta e clara que a de Barbárvore.
Ha, hmmm, meus amigos, vamos dar um passeio! — disse ele. — Sou Bregalad, quer dizer Tronquesperto, na sua língua. Mas é apenas um apelido, claro. Eles me chamam assim desde que eu disse sim a um ent mais velho antes que ele terminasse sua pergunta. Também eu bebo rapidamente, e saio enquanto outros ainda estão molhando as barbas. Venham comigo!
Estendeu dois braços bem formados e ofereceu a cada um dos hobbits uma mão com dedos longos. Durante todo o dia caminharam pela floresta com ele, cantando e rindo; pois Tronquesperto frequentemente ria. Ria se o sol surgisse por trás de uma nuvem, ria quando encontravam um rio ou nascente: nesse caso parava e molhava os pés e a cabeça; ria às vezes ao ouvir algum som ou sussurro nas árvores. Toda vez que via uma sorveira, parava um tempo com os braços estendidos e cantava, e balançava o corpo enquanto cantava.
Ao cair da noite, levou-os para sua casa-ent: nada além de uma pedra limosa colocada em meio à turfa sob um barranco verde. Sorveiras cresciam fazendo um círculo em volta da pedra, e havia água (como em todas as casas-ents), uma nascente que saía borbulhando do barranco. Conversaram por um tempo enquanto a escuridão caía sobre a floresta. Não muito longe, podiam-se ouvir as vozes do Entebate continuando; mas agora pareciam mais graves e menos despreocupadas, e de quando em quando uma grande voz se erguia numa música aguda e agitada, enquanto todas as outras diminuíam. Mas com os hobbits Bregalad conversava na língua deles, quase sussurrando; souberam que ele pertencia ao povo de Casca-de-Pele, e a região onde viveram tinha sido devastada. Isso parecia aos hobbits motivo suficiente para explicar seu “apressamento”, pelo menos em relação aos orcs.
— Havia sorveiras em minha terra — disse Bregalad suave e tristemente. — Sorveiras que criaram raízes quando eu ainda era um entinho, muitos, muitos anos atrás na quietude do mundo. As mais velhas foram plantadas pelos ents numa tentativa de agradar às entesposas; mas elas olharam para as plantas, sorriram e disseram que sabiam onde botões mais brancos e frutos mais ricos estavam crescendo. Mas não há árvore dentre toda essa raça, o povo da Rosa, que eu ache tão bela. E essas árvores cresceram, cresceram, até que a sombra de cada uma ficasse como um salão verde, e seus frutos vermelhos eram um peso no outono, e também uma beleza de admirar. Os pássaros costumavam pousar nelas aos bandos. Eu gosto de pássaros, mesmo quando ficam tagarelando; e as sorveiras têm pássaros de sobra. Mas os pássaros ficaram hostis e vorazes, bicavam as árvores e derrubavam os frutos sem comê-los.
Então vieram os orcs com machados e cortaram minhas árvores. Eu cheguei e as chamei por seus longos nomes, mas elas nem se mexeram, não ouviram nem responderam: jaziam mortas.

O Orofarnë, Lassemista, Carnimírië!
Bela sorveira, em tua cabeleira tão branca era tua flor!
Sorveira minha, teu brilho tinha do sol o tom e a cor
Tua casca em luz, tua folha em luz, tua voz tão doce e fria:
Em tua cabeça de ouro espessa coroa te enaltecia!
Morta sorveira, em tua cabeleira há cinzas invernais,
Coroa perdida, a voz sumida pra sempre e nunca mais.
O Orofarnë, Lassemista, Carnimírië!

Os hobbits adormeceram ao som do cantar suave de Bregalad, que parecia lamentar em muitas línguas a queda das árvores que ele tanto amara.


Passaram também o dia seguinte na companhia dele, mas não se afastaram muito de sua “casa”. Ficaram a maior parte do tempo sentados em silêncio sob o abrigo do barranco, pois o vento estava mais frio, e as nuvens mais fechadas e cinzentas; havia pouco sol, e na distância as vozes dos ents no Debate ainda subiam e desciam, algumas vezes altas e fortes, outras vezes baixas e tristes; algumas vezes aumentando o ritmo, outras vezes lentas e solenes como um hino fúnebre. Uma segunda noite chegou e ainda os ents continuavam em sua assembleia, sob nuvens apressadas e estrelas vacilantes.
O terceiro dia raiou, com frio e vento. Ao nascer do sol, as vozes dos ents se ergueram num grande clamor e depois diminuíram de novo. Pelo fim da manhã o vento diminuiu e o ar ficou pesado de expectativas. Os hobbits viam agora que Bregalad escutava com atenção, embora para eles, lá no vale de sua casa-ent, o som do Debate estivesse longínquo.
A tarde chegou, e o sol, rumando para o oeste na direção das montanhas, mandava raios compridos e amarelos através das fendas e fissuras das nuvens. De repente perceberam que tudo estava muito quieto; toda a floresta estava parada, num silêncio de escuta. Era óbvio que as vozes dos ents tinham cessado. O que queria dizer isso? Bregalad estava de pé, ereto e tenso, olhando para o norte, na direção do Valarcano.
Então com um estrondo veio um grito ruidoso: ra-hum-rah! As árvores tremeram e se curvaram como se golpeadas por uma rajada de vento.Houve outra pausa, e depois uma música de marcha começou como tambores solenes, e acima das batidas e estrondos ruidosos cresciam vozes cantando alto e forte.

Tambor, tambor, lá vamos nós: ta-runda runda runda rom!

Os ents estavam chegando: cada vez mais forte e próxima soava sua canção:

Tambor e trompa, vamos lá: ta-runa runa runa rom!

Bregalad pegou os hobbits e saiu de sua casa.
Logo eles viram a fileira em marcha se aproximando: os ents estavam marchando juntos com grandes passadas, descendo a encosta na direção deles. Barbárvore vinha à frente, e cerca de cinquenta seguidores vinham atrás dele, dois a dois, marcando o passo com os pés e batendo com as mãos nos flancos. Conforme se aproximavam, foi possível ver o clarão e a centelha nos olhos deles.
— Hum, hom! Aqui estamos com um estrondo, finalmente chegamos! — gritou Barbárvore quando viu Bregalad e os hobbits. — Venham, juntem-se ao Entebate! Estamos de partida. De partida para Isengard!
— Para Isengard! — os ents gritaram em muitas vozes.
— Para Isengard!

Pra Isengard! Se Isengard for forte e for qual calabouço,
Se Isengard for um lugar de pedra fria e duro osso,
Nós vamos todos guerrear, quebrar a pedra e seu portão!
Pois galho e tronco num só ronco vão queimar à guerra então!
À terra dum pesar comum rufando enfim, tambor, tambor!
Pra Isengard com um tambor!
Impor temor! Impor terror!

Assim cantavam, marchando para o sul.
Bregalad, com os olhos brilhando, juntou-se à fila ao lado de Barbárvore O velho ent agora pegou os hobbits de volta, e colocou-os sobre os ombros outra vez, e assim eles foram orgulhosos à frente do grupo que cantava, com os corações palpitando e as cabeças erguidas. Embora tivessem tido expectativas de que alguma coisa ocorresse eventualmente, ficaram chocados com a mudança que ocorrera com os ents. Parecia abrupta como o estouro de uma correnteza há muito tempo estancada por dique.
— Os ents tomaram uma decisão bem rápido no final das contas, não foi? — arriscou-se Pippin a dizer depois de algum tempo, quando por um momento a cantoria parou, e apenas se ouviam as batidas das mãos e pés.
— Rápido? — disse Barbárvore. — Hum! É mesmo. Mais rápido do que eu esperava. Na verdade não os vejo assim entusiasmados há muitas eras. Nós ents não gostamos de ser incitados; e nunca despertamos a não ser que fique claro para nós que essas árvores e nossas vidas correm grande perigo. Isso não acontece nesta Floresta desde as guerras entre Sauron e os homens do Mar. Foi o serviço dos orcs, a derrubada indiscriminada de árvores rá rum — sem qualquer desculpa, nem mesmo com a péssima desculpa de alimentar as fogueiras, que nos enfureceu assim; e a traição de nosso vizinho, que deveria nos ter ajudado. Os Magos deveriam saber das coisas; e eles sabem. Não há maldição em élfico, entês, ou nas línguas dos homens para uma traição assim. Abaixo Saruman!
— Vocês vão realmente arrombar as portas de Isengard? — perguntou Merry.
— Ho, hm, bem, nós poderíamos, você sabe! Talvez vocês não saibam como somos fortes. Já ouviram, talvez, falar nos trolls? São muito fortes. Mas os trolls são apenas imitações, feitas pelo Inimigo na Grande Escuridão, à semelhança dos ents, como os orcs foram feitos à semelhança dos elfos. Somos mais fortes que os trolls. Somos feitos dos ossos da terra. Podemos partir as pedras como raízes de árvores, só que mais rápido, muito mais rápido, se nossas mentes forem incitadas! Se não formos derrubados, ou destruídos pelo fogo ou por alguma feitiçaria, podemos partir Isengard em pedaços e reduzir suas paredes a pedregulho.
— Mas Saruman vai tentar detê-los, não é?
— Sim, ah, sim, isso é verdade. Não esqueci desse fato. Na verdade pensei muito sobre isso. Mas, você sabe, muitos dos ents são muitas vidas de árvore mais jovens do que eu. Estão decididos agora, e concentram as mentes numa única coisa: destruir Isengard. Mas logo começarão a pensar de novo: vão esfriar um pouco, quando estivermos tomando nossa bebida da noite. Que sede sentiremos! Mas, agora, que marchem e cantem! Temos um longo caminho a percorrer, e há tempo para pensar depois. Já é alguma coisa terem começado.
Barbárvore continuou marchando, cantando com os outros por um tempo. Mas depois sua voz foi diminuindo até se transformar num murmúrio, e ele ficou em silêncio de novo. Pippin podia ver que sua velha fronte estava franzida e cheia de nós. Finalmente ergueu os olhos, e Pippin pôde ver seu olhar triste, triste mas não infeliz. Havia uma luz naquele olhar, como se a chama verde tivesse afundado mais ainda nos poços escuros de seu pensamento.
— É claro, é muito provável, meus amigos — disse ele devagar —, é provável que estejamos indo ao encontro de nosso destino: a última marcha dos ents. Mas se ficássemos em casa sem fazer nada o destino nos encontraria de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde. Esse pensamento vem crescendo em nossos corações, e é por isso que estamos marchando agora. Não foi uma decisão apressada. Agora, pelo menos, a última marcha dos ents será digna de uma canção. É — suspirou ele —, podemos ajudar os outros povos antes de desaparecermos. Mesmo assim, eu iria gostar de ver as canções sobre as entesposas se tornando realidade. Iria gostar muito de rever Fimbrethil. Mas, meus amigos, as canções são como as árvores: só dão frutos no tempo próprio, e à sua maneira: e às vezes murcham antes da hora.


Os ents continuaram marchando a longas passadas. Rumavam para uma grande dobra no terreno que descia para o sul; agora começavam a subir, galgando a alta cordilheira ocidental. A floresta ficou bem abaixo e eles atingiram grupos espalhados de bétulas, e depois encostas nuas onde apenas alguns pinheiros esqueléticos cresciam. O sol mergulhou atrás da escura colina à frente deles. Um crepúsculo cinzento desceu sobre a terra.
Pippin olhou para trás. O número de ents tinha crescido — ou o que estava acontecendo? No lugar onde deveriam estar as encostas nuas que tinham atravessado, ele teve a impressão de ver bosques de árvores. Mas elas estavam se movendo. Será que as árvores de Fangorn estavam acordadas, e que a floresta estava subindo, marchando sobre as colinas em direção à guerra? Pippin esfregou os olhos, imaginando que o sono ou a escuridão o estivessem enganando; mas as grandes formas cinzentas não paravam de se mover para frente. Ouvia-se um ruído como o do vento em muitos galhos. Os ents estavam chegando perto da crista da cordilheira agora, e tinham parado completamente de cantar. A noite caiu, e houve silêncio: não se ouvia nada, a não ser um tremor fraco da terra sob os pés dos ents, e um farfalhar, a sombra de um sussurro, como de muitas folhas arrastadas. Finalmente chegaram ao topo, e olharam para baixo, dentro de um fosso escuro: a grande fenda no fim das montanhas: Nan Curunír, o Vale de Saruman.
— A noite cobre Isengard — disse Barbárvore.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo trabalho de toda a equipe ! Excelente site.

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