2 de abril de 2016

Capítulo IV - Atalho até cogumelos


Na manhã seguinte, Frodo acordou descansado. Estava deitado no abrigo de uma árvore viva, com ramos entrelaçados que desciam até o chão; o leito era de grama e samambaias, fundo, macio e com um cheiro exótico.
O sol brilhava através das folhas que se agitavam, ainda verdes, no topo da árvore. Pulou de pé e saiu.
Sam estava sentado na grama perto da borda da floresta. Pippin, em pé, estudava o céu e o tempo. Nenhum sinal dos elfos.
— Deixaram frutas e bebida, e pão — disse Pippin. — Venha comer. O pão está quase tão bom como ontem à noite. Eu não queria deixar nenhum para você, mas Sam insistiu.
Frodo se sentou ao lado de Sam e começou a comer.
— Quais são os planos para hoje? — perguntou Pippin.
— Chegar a Buqueburgo o mais rápido possível — respondeu Frodo, voltando a atenção para a comida.
— Você acha que veremos algum sinal daqueles Cavaleiros? — perguntou Pippin animado.
Sob o sol da manhã, a perspectiva de encontrar uma tropa inteira deles não lhe parecia muito alarmante.
— Provavelmente sim — disse Frodo, não apreciando muito o lembrete.
— Mas espero atravessar o Rio sem que nos vejam. Gildor lhe revelou alguma coisa sobre eles?
— Não muito – apenas insinuou coisas com frases enigmáticas — respondeu Frodo evasivamente.
— Você perguntou alguma coisa sobre eles farejarem?
— Não discutimos isso — disse Frodo, com a boca cheia.
— Deveriam ter discutido. Tenho certeza de que é muito importante.
— Nesse caso estou certo de que Gildor se recusaria a explicar — disse Frodo secamente. — E agora me deixe um pouco em paz! Não quero responder uma lista de perguntas enquanto como. Quero pensar!
— Puxa vida! — disse Pippin. — Durante o desjejum? — E andou em direção à borda da floresta.
Da mente de Frodo, aquela manhã clara – traiçoeiramente clara, pensava ele – não tinha expulsado o medo da perseguição, e ele ponderava as palavras de Gildor.
A voz alegre de Pippin chegou-lhe aos ouvidos. Estava correndo sobre a grama verde e cantando.
“Não! Eu não poderia!” disse ele consigo mesmo. “Uma coisa é levar meus jovens amigos para passear pelo Condado, até ficarmos famintos e cansados, quando temos boa cama e comida. Levá-los para o exílio, onde a fome e o cansaço podem não ter cura, é bem diferente – mesmo que se julguem dispostos a vir. A herança é só minha. Nem Sam acho que devo levar.” Olhou para Sam Gamgi, e percebeu que ele o observava.
— Bem, Sam! — disse ele. — Que acha disso? Vou deixar o Condado o mais rápido que puder – tomei a decisão de não esperar nem um dia em Cricôncavo, se isso puder ser evitado.
— Muito bom, senhor!
— Você ainda quer vir comigo?
— Quero.
— Vai ser muito perigoso, Sam. Já está perigoso. Existem grandes chances de nenhum de nós voltar vivo.
— Se o senhor não voltar, então certamente também não voltarei, isto é certo. “Não o deixe!”, disseram para mim. “Deixá-lo!”, eu disse. “Nunca pensei nisso. Vou com ele, mesmo que suba até a Lua; e se qualquer um daqueles Cavaleiros Negros tentar impedi-lo, terão que se ver com Sam Gamgi”, eu disse. Eles riram.
— Quem são eles, e de que está falando?
— Os elfos, senhor. Conversaram comigo ontem à noite, e pareciam saber que o senhor estava indo embora, então não vi motivo para negar isso. Que povo maravilhoso, os elfos, senhor! Maravilhoso!
— São mesmo — disse Frodo. — Você continua gostando deles, agora que os viu mais de perto?
— Eles parecem estar um pouco acima do meu gostar ou desgostar, por assim dizer — respondeu Sam devagar. — Parece que não tem muita importância o que acho deles, são muito diferentes do que esperava – tão velhos e jovens, e tão alegres e tristes, de certo modo...
Frodo riu de Sam, bastante surpreso, como quem esperasse enxergar algum sinal externo da estranha mudança que se operara nele. Não parecia a voz do velho Sam Gamgi que julgava conhecer. Mas era o mesmo Sam Gamgi ali sentado, a não ser por sua expressão extraordinariamente pensativa.
— Você acha necessário deixar o Condado agora – agora que seu desejo de vê-los já se realizou? — perguntou ele.
— Sim, senhor. Não sei como dizer isto, mas depois de ontem à noite me sinto diferente. Parece que enxergo mais longe, de certa maneira. Sei que vamos pegar uma estrada muito longa, para dentro da escuridão; mas sei também que não posso voltar. O que quero agora não é ver os elfos, nem dragões e nem montanhas – não sei direito o que quero: mas tenho alguma coisa para fazer antes do fim, e ela está lá na frente, longe do Condado. Preciso passar por isso, se é que o senhor me entende.
— Não entendo muito bem. Mas percebo que Gandalf escolheu para mim um bom companheiro. Estou contente. Nós vamos juntos.
Frodo terminou de comer em silêncio. Então, levantando-se, examinou a região diante dele, e chamou Pippin.
— Todos prontos para partir? — disse ele enquanto Pippin subia correndo. — Precisamos ir imediatamente. Dormimos até tarde, e temos muitas milhas pela frente.
— Você dormiu até tarde — disse Pippin. — Já estou acordado há muito tempo; e estamos só esperando você terminar de comer e de pensar.
— Já terminei as duas coisas. E vou partir para a balsa de Buqueburgo o mais rápido possível. Mas se for pela estrada que deixamos ontem à noite vamos ficar dando voltas: vou sair daqui, cortando caminho pelo campo.
— Então você vai voar — disse Pippin. — Você não vai encontrar atalhos em lugar algum neste trecho.
— Mas de qualquer modo podemos fazer um percurso mais curto que a estrada — respondeu Frodo. — A balsa fica a leste da Vila do Bosque, mas a estrada grande faz uma curva para a esquerda – dá para ver um cotovelo ali ao norte. Ela contorna o extremo norte do Pântano, a fim de encontrar o caminho que vem da Ponte sobre Tronco. São muitas milhas fora do rumo. Poderíamos economizar um quarto da distância se fôssemos em linha reta daqui onde estamos até a balsa.
— Todo atalho dá trabalho — argumentou Pippin. — O campo é acidentado por essas bandas, e existem atoleiros e todo tipo de dificuldade lá embaixo no pântano, conheço a região naquelas partes. E se está preocupado com os Cavaleiros Negros, não vejo por que encontrá-los na estrada seja pior do que numa floresta ou num campo.
— É menos fácil encontrar pessoas nas florestas e campos — respondeu Frodo. — E se a expectativa é de que você esteja na estrada, existe mais chance de ser procurado na estrada, e não fora dela.
— Muito bem! — disse Pippin. — Seguirei você por todos os atoleiros e valas. Mas o caminho é difícil! Contava em passar pelo Perca Dourada em Tronco antes do pôr do sol. Lá servem a melhor cerveja da Quarta Leste, ou pelo menos serviam: faz muito tempo que não experimento.
— Isso resolve o assunto! — disse Frodo. — Todo atalho dá trabalho, mas hospedarias dão mais ainda. A todo custo temos de nos manter longe do Perca Dourada. Queremos chegar a Buqueburgo antes de escurecer. O que me diz, Sam?
— Vou junto com o senhor, Sr. Frodo — disse Sam (mesmo tendo um pressentimento oculto e sentindo um grande pesar por perder a melhor cerveja da Quarta Leste).
— Então, se temos de nos embrenhar por atoleiros e urzes, vamos já! — disse Pippin.


O calor já estava quase igual ao do dia anterior, mas nuvens começavam a chegar do Oeste. Parecia que ia chover. Os hobbits desceram aos tropeços por uma ladeira verde e íngreme e se enfiaram entre densas árvores lá embaixo. A direção escolhida deixava a Vila do Bosque à esquerda e cortava num plano inclinado através dos maciços de árvores que se estendiam na face leste da colina, até que alcançassem as planícies à frente. Então poderiam ir direto para a balsa pelo campo que era aberto, a não ser por algumas valas e cercas. Frodo calculava que teriam de caminhar dezoito milhas, indo em linha reta.
Logo descobriu que a floresta era mais densa e emaranhada do que parecera à primeira vista. Não havia trilhas na vegetação baixa, e eles não podiam avançar muito rápido. Quando alcançaram o final da ladeira, encontraram um riacho que vinha das colinas lá atrás e corria sobre um leito profundo, do qual subiam margens íngremes e escorregadias, cobertas por arbustos espinhosos. Muito inconvenientemente, o riacho cortava a linha que tinham escolhido. Não podiam saltar por sobre ele e nem atravessá-lo sem ficar molhados, arranhados e enlameados. Pararam, imaginando o que fazer.
— Primeiro obstáculo — disse Pippin, com um sorriso melancólico.
Sam Gamgi olhou para trás. Por uma abertura nas árvores, passou os olhos pelo topo da ladeira pela qual tinha descido.
— Olhem — disse ele, agarrando o braço de Frodo.
Todos olharam e na encosta, de pé, contra o céu, viram bem acima deles um cavalo. Ao lado, uma figura negra. Imediatamente desistiram da ideia de voltar. Frodo foi à frente, e se enfiou rapidamente pelos densos arbustos que ladeavam o riacho.
— Ufa! — disse ele a Pippim. — Nós dois estávamos certos! O atalho já deixou de ser em linha reta, mas conseguimos um esconderijo bem na hora. Você tem bons ouvidos, Sam. Consegue escutar alguma coisa vindo?
Ficaram todos quietos, quase prendendo a respiração para escutar; mas não havia nenhum ruído indicando que estavam sendo perseguidos.
— Não acho que ele tentaria trazer o cavalo ladeira abaixo — disse Sam. — Mas acho que sabe que viemos por aqui. É melhor irmos andando.
Ir andando não foi nem um pouco fácil. Tinham mochilas para carregar e os arbustos e espinheiros relutavam em deixá-los passar. Impedido pelo maciço de colinas atrás deles, o vento deixara de soprar, e o ar estava parado e abafado. Quando finalmente forçaram o caminho em direção ao terreno mais aberto, estavam com muito calor, cansados e arranhados, e também não sabiam ao certo em que direção caminhavam. Na planície as margens afundavam, e o riacho ficava mais largo e mais raso, indo em direção ao Pântano e ao rio.
— Mas este é o Córrego de Tronco! — disse Pippin. — Se é que vamos tentar voltar para nosso caminho, temos imediatamente de atravessar e ir à direita.
Foram atravessando o riacho, e se apressaram em direção a um espaço aberto amplo, coberto de juncos e sem árvores, na margem oposta. Mais além encontraram um cinturão de árvores: em sua maioria altos carvalhos, entremeados aqui e ali com olmos e freixos.
O solo era bastante plano e havia pouca vegetação rasteira; mas as árvores estavam muito próximas para que eles pudessem enxergar muito longe.
Súbitas rajadas de vento levavam as folhas pelos ares, e gotas de chuva começaram a cair do céu carregado. Então o vento foi parando e a chuva começou a cair forte.
Avançavam com dificuldade, o mais rápido que conseguiam, em meio a tufos de grama e montes de folhas mortas que boiavam na água, enquanto a chuva tamborilava e escorria por toda a sua volta. Não conversavam, mas olhavam para trás e para os lados.
Depois de meia hora, Pippin disse:
— Espero que não tenhamos virado muito em direção ao sul e que não estejamos andando ao longo da floresta! O cinturão não é muito largo – diria que não ultrapassa uma milha e já deveríamos tê-lo atravessado.
— Não adianta irmos em ziguezague — disse Frodo. — Isso não vai consertar as coisas. Vamos continuar por aqui! Nem sei se já quero sair para o espaço aberto.
Continuaram talvez por mais algumas milhas. Então o sol brilhou através de nuvens rasgadas e a chuva diminuiu, Agora já passava do meio-dia, e sentiram que já estava mais que na hora de almoçar. Pararam sob um olmo: as folhas, embora estivessem rapidamente amarelecendo, ainda eram espessas, e o solo embaixo estava razoavelmente seco e bem protegido. Quando começaram a fazer a refeição, descobriram que os elfos tinham enchido suas garrafas com uma bebida clara, de um dourado pálido: tinha o aroma de um mel feito de muitas flores e era maravilhosamente reconfortante. Logo estavam rindo e desprezando a chuva e os Cavaleiros Negros. Sentiam que logo deixariam para trás as últimas milhas.
Frodo encostou-se no tronco da árvore, fechando os olhos. Sam e Pippin se sentaram perto e começaram a cantar baixinho:

Eh! Eli! Eli! O que eu quero é beber,
Matar minha dor e o meu mal esquecer
Pode ventar também pode chover
E muita estrada sobrar pra vencer,
Ao pé deste olmo eu quero deitar
E olhar para a nuvem que vai devagar

Eh! Eli! Eh!, começaram de novo, mais alto.
Pararam de repente. Frodo pulou de pé. Um gemido longo veio com o vento, como o choro de alguma criatura solitária e má. Ficou mais alto e depois mais baixo, e então terminou num tom muito agudo e penetrante. Eles ficaram escutando, como que petrificados, e o lamento foi respondido por um outro grito, mais fraco e distante, embora não desse menos arrepios na espinha. Depois tudo silenciou, a não ser pelo som do vento nas árvores.
— O que acham que foi isso? — perguntou Pippin finalmente, tentando dar um tom tranquilo à sua voz, que apesar disso estava meio trêmula. — Se foi um pássaro, este eu nunca ouvi no Condado antes.
— Não foi pássaro nem animal — disse Frodo. — Foi um chamado ou sinal – havia palavras naquele grito, embora eu não tenha conseguido entendê-las. Mas nenhum hobbit tem uma voz assim.
Não se falou mais nada sobre o assunto. Estavam todos pensando nos Cavaleiros, mas ninguém falava neles. Agora relutavam, em partir e em ficar; mas mais cedo ou mais tarde teriam de atravessar o campo aberto até a balsa, e era melhor ir mais cedo e durante o dia. Em poucos minutos tinham colocado as mochilas nos ombros e seguiam novamente.
Logo a floresta terminou de modo abrupto. Uma região ampla coberta por gramíneas se estendia à frente deles. Agora percebiam que, de fato, tinham ido muito para o sul. Adiante, sobre as planícies, visualizavam a colina baixa de Buqueburgo do outro lado do Rio, mas agora ela estava à esquerda. Saindo cuidadosamente da borda da floresta, começaram a atravessar o espaço aberto o mais rápido possível.
No início sentiram receio por estarem longe do abrigo da floresta. O lugar onde tinham feito o desjejum já ficara muito para trás. Frodo tinha expectativas de ver a pequena figura distante de um cavaleiro sobre as colinas, agora escuras contra o céu; mas não havia nem sinal deles.
O sol, que afundava nas colinas atrás deles, brilhava novamente, fugindo das nuvens que se desfaziam. O medo os abandonou, embora ainda se sentissem inquietos. Mas rapidamente o terreno foi ficando menos intratável e irregular. Logo entraram em campos e prados bem tratados: havia cercas-vivas, portões e valas para drenagem. Tudo parecia quieto e pacífico, apenas um canto comum do Condado. A cada passo sentiam-se mais alegres. A linha do Rio se aproximava, e os Cavaleiros Negros começaram a parecer fantasmas da floresta deixada para trás.
Passaram ao longo da borda de uma grande plantação de nabos, e depararam com um portão maciço, além do qual se estendia uma alameda batida entre duas cercas-vivas baixas e bem podadas, indo em direção a um arvoredo. Pippin parou.
— Conheço estes campos e este portão! — disse ele. — É Glebafava, a terra do velho Magote. A fazenda dele fica ali naquelas árvores.
— É problema atrás de problema! — disse Frodo, que parecia quase tão alarmado como se Pippin tivesse dito que a trilha conduzia à caverna de um dragão.
Os outros olharam surpresos.
— Qual é o problema com o velho Magote? — perguntou Pippin. — Ele tem amizade com todos os Brandebuques. É claro que é o terror dos invasores, e cria cachorros ferozes, mas também, as pessoas aqui estão perto da fronteira, e devem se precaver.
— Eu sei — disse Frodo. — Mas mesmo assim — acrescentou ele com um sorriso envergonhado — tenho pavor dele e dos cachorros. Desviei desta fazenda por anos a fio. Ele me pegou várias vezes invadindo o lugar, atrás de cogumelos, quando era um rapazola na Sede do Brandevin. Na última vez me bateu e me levou até os cachorros. “Vejam, meninos”, disse ele, “da próxima vez que esse pequeno verme botar os pés nas minhas terras, vocês podem devorá-lo. Agora levem-no para fora!” Eles me perseguiram por todo o caminho até a balsa. Nunca me livrei do medo – mas me atrevo a dizer que os animais sabiam o que estavam fazendo, e não teriam me atacado de verdade.
Pippin riu.
— Bem, já é hora de fazerem as pazes. Principalmente se você está de volta para morar na Terra dos Buques. O velho Magote é um sujeito de bem, se você deixar os cogumelos em paz. Vamos entrar pela alameda, e então não estaremos invadindo. Se o encontrarmos, eu falo com ele. É amigo de Merry; houve uma época em que costumávamos vir muito aqui juntos.
Foram ao longo da alameda, até avistarem os telhados de sapé de uma grande casa e de outros barracões da fazenda, que começavam a aparecer em meio às árvores. Os Magotes e os Poçapés de Tronco, como a maioria dos habitantes do Pântano, moravam em casas; esta casa era de construção sólida, feita de tijolos, e cercada por um grande muro em toda a volta, Um amplo portão de madeira se abria para a alameda.
De repente, conforme se aproximavam, latidos estrondosos irromperam, seguidos por uma voz alta que gritava:
— Garra! Presa! Lobo! Venham, meninos!
Frodo e Sam ficaram como estátuas, mas Pippin avançou mais alguns passos.
O portão se abriu e três cachorros enormes saíram, disparando pela alameda em direção aos viajantes, latindo ferozmente. Não tomaram conhecimento de Pippin, mas Sam se encolheu contra a parede, enquanto dois cachorros que mais pareciam lobos o farejavam desconfiados, e rosnavam quando se movia. O maior e mais feroz dos três parou na frente de Frodo, rosnando e com os pelos em pé.
Através do portão vinha agora um hobbit corpulento, de rosto redondo e vermelho.
— Olá, Olá. E quem são vocês e o que querem? — perguntou ele.
— Boa tarde, Sr. Magote — disse Pippin.
O fazendeiro olhou-o de perto.
— Ora, ora, vejam só! Mestre Pippin ou melhor, o Sr. Peregrin Túk — gritou ele, e sua expressão zangada se abriu num sorriso. — Faz muito tempo que não o vejo por essas bandas. Sorte sua que o reconheci. Já ia soltar meu cachorro em cima dos forasteiros. Hoje estão acontecendo coisas estranhas. É claro que às vezes pegamos um pessoal esquisito vagando por aqui. É muito perto do Rio — disse ele, balançando a cabeça. — Mas esse sujeito é o mais esquisito que já vi. Ele não vai atravessar minhas terras e depois escapar de novo, não se eu puder impedi-lo.
— De que sujeito está falando? — perguntou Pippin.
— Então vocês não viram? — disse o fazendeiro. — Ele subiu a alameda em direção à estrada agora há pouco. Era um camarada estranho, fazendo perguntas estranhas. Mas é melhor entrarem. Assim poderemos ficar mais bem acomodados e contar as novidades. Tenho um gole de boa cerveja na adega, se o senhor e seus amigos quiserem, Sr. Túk.
Parecia certo que o fazendeiro falaria mais, se lhe permitissem fazer isso em seu próprio passo e maneira, de modo que todos aceitaram o convite.
— E os cachorros? — perguntou Frodo ansioso.
O fazendeiro riu.
— Não vão fazer mal nenhum, a não ser que eu ordene. Aqui, Garra! Presa! Quietos — gritou ele. — Quieto, Lobo!
Para o alívio de Frodo e Sam, os cachorros foram embora e deixaram-nos passar.
Pippin apresentou os outros dois ao fazendeiro.
— Este é o Sr. Frodo Bolseiro — disse ele. — Pode não se lembrar, mas ele morou na Sede do Branvin.
Ao escutar o nome Bolseiro, o fazendeiro ficou surpreso, e olhou Frodo com olhos atentos. Por um momento, Frodo pensou que a lembrança “cogumelos roubados” tinha despertado, e que os cachorros receberiam ordem de expulsá-lo. Mas Magote pegou-o pelo braço.
— Ora, ora, mas isto não é o mais esquisito de tudo — exclamou ele. — Sr. Bolseiro, não é? Entre! Precisamos ter uma conversa.
Entraram na cozinha do fazendeiro, e sentaram-se perto da grande lareira.
A Sra. Magote trouxe cerveja numa jarra enorme, enchendo quatro canecas grandes. Era de boa qualidade, e Pippin se sentiu mais que recompensado por ter perdido a chance de ir ao Perca Dourada. Sam bebeu sua cerveja desconfiado. Sempre desconfiava de habitantes de outras partes do Condado, e também não estava disposto a ficar logo amigo de alguém que tivesse batido em seu patrão, não importava há quanto tempo.
Depois de falar um pouco sobre o tempo e sobre as perspectivas da lavoura (que não eram piores do que o normal), o fazendeiro Magote abaixou sua caneca, olhando para cada um deles.
— Agora, Sr. Peregrin — disse ele. — De onde estão vindo, e para onde vão? Estavam vindo me visitar? Porque, se for isto, passaram pelo meu portão sem que eu os tivesse visto.
— Bem... não — respondeu Pippin. — Para falar a verdade, já que adivinhou, entramos pela alameda do outro lado: viemos pelas plantações, mas foi por acaso. Nós nos perdemos na floresta lá atrás, perto da Vila do Bosque, tentando cortar caminho até a balsa.
— Se tinham pressa, a estrada seria melhor — disse o fazendeiro. — Mas eu não estava preocupado com isso. Dou-lhe permissão para passar pelas minhas terras se desejar, Sr. Peregrin. E ao senhor também, Sr. Bolseiro mas aposto que ainda gosta de cogumelos — ele riu. — Sim, reconheci o nome. Lembro-me do tempo em que o jovem Frodo Bolseiro era um dos piores fedelhos da Terra dos Buques. Mas eu não estava pensando nos cogumelos. Tinha acabado de ouvir o nome Bolseiro quando apareceram. O que acham que esse sujeito esquisito me Perguntou? — Todos esperavam ansiosamente que ele continuasse. — Bem — continuou o fazendeiro, chegando ao ponto com um prazer vagaroso. — Ele veio montado num grande cavalo preto pelo portão, que por acaso estava aberto, e chegou até minha porta. Era todo preto, também, com uma capa e um capuz, como se não quisesse ser reconhecido. “Ora, que diabos ele pode estar querendo aqui no Condado?”, pensei comigo. Não encontramos muitas pessoas grandes na fronteira; e de qualquer jeito nunca ouvi falar de alguém semelhante a esse sujeito preto. “Bom dia para o senhor!”, digo eu, indo até ele. “Esta alameda não leva a lugar nenhum, e aonde quer que esteja indo, o melhor caminho é pela estrada.” Não gostei da aparência dele; e quando o Garra saiu, começou a farejar e soltou um ganido, como se tivesse levado uma ferroada: depois pôs o rabo entre as pernas e saiu correndo como um raio, uivando. O sujeito preto ficou parado, imóvel, “Venho de longe”, disse ele, devagar e dum jeito seco, apontando lá para o oeste, por cima das minhas plantações, vejam só! “Viu Bolseiro por aí?”, perguntou ele com uma voz estranha, curvando-se sobre mim, Não pude ver o rosto, totalmente coberto pelo capuz, e senti um arrepio na espinha, mas não consegui entender porque ele vinha vindo pela minha alameda desse jeito atrevido. “Vá embora!”, eu disse. “Aqui não tem nenhum Bolseiro. Está na parte errada do Condado. É melhor voltar para o oeste, para a Vila dos Hobbits. Mas desta vez vá pela estrada.” “Bolseiro, partiu”, respondeu ele num sussurro. “Ele está chegando. Não está longe. Quero encontrá-lo. Pode me avisar se ele passar por aqui? Voltarei com ouro.” “Não, não vai voltar”, eu disse. “Vai voltar para o lugar de onde veio, rapidinho. Dou-lhe um minuto antes de chamar meus cachorros.” Ele soltou uma espécie de silvo. Poderia ser uma risada, e poderia não ser. Daí meteu as esporas no seu cavalo grande, que avançou sobre mim, e eu pulei de lado bem na hora. Chamei os cachorros, mas ele fez meia-volta, e cavalgou através do portão e pela alameda em direção à estrada, rápido como um raio. Que acham disso?
Frodo ficou imóvel por um momento, olhando o fogo, mas só pensava em como conseguiriam chegar até a balsa.
— Não sei o que pensar — disse ele finalmente.
— Então vou dizer o que penso — disse Magote. — O senhor nunca deveria ter se misturado com gente da Vila dos Hobbits, Sr. Frodo. O pessoal lá é esquisito — Sam se mexeu na cadeira, e lançou para o fazendeiro um olhar nada amigável. — Mas o senhor sempre foi um menino descuidado. Quando soube que tinha deixado os Brandebuques para morar com o Sr. Bilbo, disse que iria encontrar problemas. Ouça o que digo, tudo isso vem das atividades estranhas do Sr. Bilbo. O dinheiro dele foi conseguido de um modo estranho em lugares distantes, dizem por aí. Será que alguém não está querendo saber o que foi feito do ouro e das joias que ele enterrou na colina da Vila dos Hobbits, como ouvi dizer?
Frodo não dizia nada: a perspicácia das conjecturas do fazendeiro era bastante desconcertante.
— Bem, Sr. Frodo — continuou Magote — folgo em saber que o senhor tenha tido o juízo de voltar para a Terra dos Buques. Meu conselho é o seguinte: fique aqui! E não se misture com esse pessoal de fora. Terá amigos nestas partes. Se algum desses sujeitos pretos vier atrás do senhor de novo, eu cuido deles. Direi que está morto, ou que deixou o Condado, ou qualquer coisa que desejar. E não estarei mentindo, pois parece que é do velho Sr. Bilbo que eles querem notícias.
— Talvez tenha razão — disse Frodo, evitando o olhar do fazendeiro e olhando para o fogo.
Magote olhou para ele pensativo.
— Bem, vejo que tem suas próprias ideias — disse ele. — Está na cara que não foi nenhum acaso que trouxe o senhor e aquele cavaleiro aqui na mesma tarde; e pode ser que minhas novidades não tenham sido tão novidade assim para o senhor, no final das contas. Não estou pedindo que me conte nada que deseje guardar para si; mas vejo que está metido em algum tipo de problema. Talvez esteja achando que não vai ser tão fácil chegar até a balsa sem ser capturado...
— Estava pensando nisso — disse Frodo. — Mas temos que tentar chegar até lá; e isso não se faz sentando e pensando. Então, receio que devemos ir. Somos imensamente gratos por sua gentileza! Tive pavor do senhor e de seus cachorros por mais de trinta anos, Sr. Magote, apesar de o senhor poder rir do que digo. É uma pena. Perdi um grande amigo. E agora sinto em partir tão depressa. Mas voltarei, quem sabe, um dia – se tiver uma chance.
— Será bem-vindo quando vier — disse Magote. — Mas agora tive uma ideia. Já está quase no fim do dia, e nós vamos cear, pois nos deitamos logo depois do sol. Se o senhor e o Sr. Peregrin e os outros pudessem ficar e comer alguma coisa conosco, ficaríamos satisfeitos.
— Nós também ficaríamos — disse Frodo. — Mas temo que devamos partir imediatamente. Mesmo assim estará escuro antes de chegarmos à balsa.
— Ah! Mas esperem um minuto! Eu ia dizer: depois de uma pequena ceia, eu pego uma carroça e levo vocês todos até a balsa. Isso vai poupar uma boa caminhada, e também pode poupá-los de problemas de outro tipo.
Frodo agora aceitou o convite agradecido, para o alívio de Pippin e Sam – o sol já estava atrás das colinas do oeste, e a luz ia enfraquecendo. Dois dos filhos de Magot e as três filhas entraram, e uma ceia generosa foi posta sobre a grande mesa. A cozinha foi iluminada com velas e o fogo foi reativado.
A Sra. Magote entrava e saía, alvoroçada. Um ou dois hobbits que também eram da casa apareceram.
Logo catorze pessoas se sentaram para comer. Havia cerveja em quantidade, e um grande prato de cogumelos com bacon foi servido, além de muitos outros produtos da própria fazenda. Os cachorros estavam deitados ao lado do fogo, mordendo restos de carne e roendo ossos.
Quando terminaram, o fazendeiro e seus filhos foram com uma lamparina aprontar a carroça. Estava escuro na varanda quando os convidados saíram, Jogaram suas mochilas na carroça e subiram. O fazendeiro se sentou no lugar do condutor e chicoteou os dois fortes pôneis. Sua esposa ficou parada na luz que vinha da porta aberta.
— Tome cuidado, Magote! — disse ela. — Não vá discutir com nenhum estranho, e volte direto para casa!
— Está bem! — disse ele, conduzindo a carroça para fora do portão.
Agora não havia nem sinal de vento soprando; a noite estava tranquila e quieta, o ar levemente frio. Seguiram sem luzes e devagar. Depois de uma ou duas milhas, a alameda terminou, cruzando uma vala profunda, e subindo uma ladeira curta até a estrada, que ficava num nível mais alto que a propriedade.
Magote desceu e deu uma boa olhada dos dois lados, para o norte e para o sul, mas não se via nada na escuridão, e nenhum som cortava o ar parado. Tênues manchas de neblina pairavam sobre as valas, e avançavam sobre as plantações.
— A neblina vai ficar densa, mas não vou acender minhas lamparinas até que esteja voltando para casa. Nesta noite, poderemos ouvir qualquer coisa na estrada muito antes de encontrá-la.
A alameda de Magote ficava a cinco milhas ou mais da balsa. Os hobbits se agasalharam mas ficaram de ouvidos bem atentos a qualquer som mais alto que o rangido das rodas e o lento clope-clope dos cascos dos pôneis. Para Frodo, a carroça parecia mais lenta que um caramujo. Ao lado dele, Pippin cabeceava de sono; mas Sam olhava atentamente em direção à neblina que subia.
Finalmente chegaram à entrada do caminho que conduzia à balsa. Ali havia como marco dois postes altos e brancos que logo assomaram à direita deles. Magote puxou as rédeas e a carroça rangeu uma última vez. Bem na hora em que estavam descarregando as mochilas e descendo, ouviram o que todos tinham receado: cascos na estrada adiante. O som vinha em direção a eles.
Magote pulou para fora e ficou segurando as cabeças dos pôneis, tentando enxergar à frente na escuridão.
O cavaleiro se aproximava, clipe-clope, clipe-clope. O ruído dos cascos parecia alto naquele ar parado, em meio ao nevoeiro.
— É melhor se esconder, Sr. Frodo — disse Sam ansioso. — Entre na carroça e se cubra com os cobertores, e nós vamos enviar esse cavaleiro para o lugar de onde nunca deveria ter saído!
Sam desceu e ficou ao lado do fazendeiro. Os Cavaleiros Negros só se aproximariam da carroça se passassem por cima dele.
Clope-clope, clope-clope. O cavaleiro já estava quase chegando até eles.
— Alô, quem vem aí? — chamou Magote.
Os cascos que avançavam pararam imediatamente. Eles tiveram a impressão de estar enxergando uma forma escura envolta por uma capa na névoa, um ou dois metros adiante.
— Agora! — disse o fazendeiro, jogando as rédeas para Sam e avançando com passos largos. — Não se aproxime nem mais um passo! O que você quer, e para onde vai?
— Estou procurando o Sr. Bolseiro. O senhor o viu? — disse uma voz abafada.
Mas a voz era de Merry Brandebuque. Uma lamparina escura foi descoberta, e sua luz caiu sobre o rosto atônito do fazendeiro.
— Sr. Merry! — gritou ele.
— Sim, claro! Quem pensou que era? — disse Merry se aproximando, e saindo da névoa que o envolvia.
O receio de todos desvaneceu, e o tamanho de Merry pareceu diminuir até chegar à estatura de um hobbit comum. Estava montando um pônei, e um cachecol envolvia seu pescoço, cobrindo até acima do queixo, como proteção contra a neblina.
Frodo pulou da carroça para cumprimentá-lo.
— Então, finalmente chegaram! — disse Merry. — Estava começando a me perguntar se chegariam ainda hoje, e já estava voltando para cear. Quando a neblina aumentou, atravessei a balsa e cavalguei em direção a Tronco para ver se não tinham caído em nenhum fosso. Mas estou pasmo de ver por onde vieram. Onde os encontrou, Sr. Magote? Na lagoa dos patos?
— Não, peguei-os invadindo minhas terras — disse o fazendeiro. — E quase lhes soltei os cachorros em cima; mas eles vão contar toda a história, sem dúvida. Agora, se me desculpem, Sr. Merry, Sr. Frodo e todos, é melhor eu voltar para casa. A Sra. Magote fica aflita depois que escurece. — Ele recuou a carroça até a alameda e a virou. — Bem, boa noite a todos! Tivemos um dia esquisito, sem dúvida. Mas bem está o que bem acaba; embora talvez não devamos dizer isto antes de chegar a nossas próprias casas. Não posso negar que ficarei feliz ao chegar. — Acendeu as lamparinas, e subiu na carroça. De repente tirou uma grande cesta de baixo de seu assento. — Estava quase esquecendo — disse ele. — A Sra. Magote arrumou isto para o Sr. Bolseiro, com seus cumprimentos. — Entregou a cesta e partiu, seguido por um coro de “obrigados”, que se misturava a várias saudações de “boa-noite”.
Ficaram olhando os pálidos anéis de luz ao redor das lamparinas, que iam desaparecendo dentro da neblina da noite. De repente, Frodo riu: da cesta coberta que segurava, subia o aroma de cogumelos.

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