11 de abril de 2016

Capítulo III - Os Uruk-Hai

Pippin estava tendo um sonho sombrio e turbulento: tinha a impressão de escutar sua própria voz pequena ecoando em túneis negros, chamando Frodo! Frodo! Mas em vez de Frodo centenas de caras horrendas de orcs riam para ele de dentro das sombras, centenas de braços horrendos o agarravam por todos os lados. Onde estava Merry?
Acordou. Um ar frio bateu em seu rosto. Estava deitado de costas. A noite chegava, e o céu estava se apagando. Virou-se e percebeu que o sonho era pouco pior que a realidade. Tinha os pulsos, pernas e tornozelos amarrados por cordas. Merry estava deitado ao lado, com o rosto lívido e um farrapo sujo cobrindo-lhe a fronte. Por todos os lados em volta deles, uns sentados e outros de pé, estava um grande grupo de orcs.
Lentamente, na cabeça dolorida de Pippin, a memória foi juntando os pedaços e se separando das sombras dos sonhos. Estava claro: ele e Merry tinham fugido para a floresta. O que tinha dado neles? Por que tinham saído correndo daquele modo, nem dando atenção ao velho Passolargo? Tinham corrido um bom pedaço, gritando — ele não podia se lembrar da distância ou por quanto tempo; então, de repente, tinham dado de cara com um grupo de orcs: estavam parados escutando, e pareciam não ter visto Merry e Pippin até que eles estivessem quase em seus braços. Então gritaram e dúzias de outros orcs pularam das árvores. Merry e ele puxaram as espadas, mas os orcs não queriam lutar, e só tentaram prendê-los, mesmo depois de Merry ter decepado várias mãos e vários braços.
Então Boromir tinha chegado, saltando através das árvores. Tinha-os feito lutar. Matou muitos deles e o resto fugiu. Mas os três não tinham avançado muito no caminho de volta quando foram atacados de novo, por Pelo menos uma centena de orcs, alguns deles muito grandes, que atiraram uma chuva de flechas: sempre em Boromir. Boromir tocou sua corneta até que a floresta reverberou, e a princípio os orcs ficaram amedrontados e recuaram; mas quando não veio nenhuma resposta a não ser o eco, eles atacaram com mais ferocidade que nunca. Pippin não lembrava muito mais. Sua última lembrança era a de Boromir se apoiando numa árvore, arrancando de seu corpo uma flecha; depois disso, a escuridão caiu de repente.
— Acho que me bateram na cabeça — disse ele consigo mesmo. — Pergunto-me se o pobre Merry não está muito ferido. Que aconteceu com Boromir? Por que os orcs não nos mataram? Onde estamos e para onde vamos?
Não conseguia responder as perguntas. Sentia-se doente e com frio. “Gostaria que Gandalf não tivesse persuadido Elrond a permitir que viéssemos”, pensou ele. “Que fiz de bom? Nada: fui só um peso morto, um passageiro, uma peça de bagagem. E agora fui raptado e sou uma peça de bagagem para os orcs. Espero que Passolargo ou alguém venha nos reclamar! Mas será que devo alimentar essa esperança? Isso não estragaria todos os planos? Gostaria de poder me libertar!” Tentou por uns momentos, mas foi totalmente inútil. Um dos orcs que estava sentado ali perto riu e disse alguma coisa a um companheiro na sua língua abominável.
— Descanse enquanto puder, pequeno tolo! — disse ele então a Pippin, na Língua Geral, que na sua boca parecia tão horrenda quanto a própria língua deles. — Descanse enquanto puder! Vamos achar uma utilidade para suas pernas logo, logo. Vai desejar não ter nenhuma antes de chegarmos em casa.
— Se pudesse escolher, gostaria que vocês estivessem mortos agora disse o outro. — Faria você guinchar, seu rato miserável! — Abaixou-se sobre Pippin, aproximando suas presas amarelas do rosto dele. Tinha na mão uma faca preta com uma lâmina denteada. — Fique quieto, ou vou fazer cócegas em você com isto — disse ele num chiado.
— Não atraia atenção sobre você, ou poderei esquecer minhas ordens. Malditos sejam os isengardenses! Uglúk u bagronk sha pushdug Saruman-glob búbhosh skai. — Passou a um discurso na própria língua que lentamente foi se transformando em resmungos e rosnados.
Apavorado, Pippin ficou imóvel, embora sentisse a dor aumentar nos pulsos e tornozelos, e as pedras sobre as quais estava deitado lhe perfurassem as costas. Para tirar o pensamento de si próprio, escutava atentamente tudo o que conseguia ouvir. Havia muitas vozes ao redor, e embora a língua dos orcs soasse sempre cheia de ódio e raiva parecia que alguma coisa semelhante a uma discussão tinha começado, e estava ficando mais acirrada.
Para a sua própria surpresa, percebeu que grande parte da conversa era inteligível; muitos orcs estavam usando uma linguagem comum. Aparentemente, membros de duas ou três tribos completamente diferentes estavam presentes, e não podiam entender a língua uns dos outros. Houve uma discussão acalorada sobre o que deveriam fazer: que caminho deviam tomar e o que devia ser feito com os prisioneiros.
— Não há tempo para matá-los adequadamente — disse um. — Não há tempo para diversão nesta viagem.
— Isso não se pode evitar — disse outro. — Mas por que não matá-los rápido, matá-los agora? São um incômodo desgraçado, e estamos com pressa. A noite está chegando, e devemos nos mexer e ir adiante.
— Ordens — disse uma terceira voz num rosnado grave. — Matem todos, mas NÃO os Pequenos; eles devem ser trazidos VIVOS o mais rápido possível. Isso é as minhas ordens.
— Por que os querem? — perguntaram muitas vozes. — Por que vivos? Eles dão bom divertimento?
— Não! Ouvi dizer que um deles tem uma coisa, uma coisa que é necessária para a Guerra, algum truque élfico ou outra coisa. De qualquer forma, os dois serão interrogados.
— É tudo o que você sabe? Por que não os revistamos para descobrir? Podíamos achar alguma coisa que nós mesmos poderíamos usar.
— Essa é uma observação muito interessante — zombou uma voz, mais suave e mais maligna que as outras. — Talvez eu tenha de reportar isso. NINGUÉM deve revistar ou roubar os prisioneiros: essas são as minhas ordens.
— E minhas também — disse a voz grave. — Vivos e como foram capturados; sem roubo. Isso é minhas ordens.
— Não nossas ordens — disse uma das vozes anteriores. — Fizemos todos o caminho desde as Minas para matar e vingar nosso povo. Quero matar, e depois voltar para o norte.
— Então vai ficar querendo — disse a voz rosnante. — Sou Uglúk. Eu dou as ordens. Volto para Isengard pelo caminho mais curto.
— Quem é o patrão: Saruman ou o Grande Olho? — disse a voz maligna. — Temos de voltar imediatamente para Lugbúrz.
— Se conseguíssemos atravessar o Grande Rio, poder íamos fazer isso — disse outra voz. — Mas não há um número suficiente de nós que se aventure pelo caminho das pontes.
— Eu a atravessei — disse a voz maligna. — Um Nazgûl alado espera por nós na margem leste, ao norte.
— Talvez, talvez! Daí você vai fugir voando com nossos prisioneiros e ficar com toda a recompensa e os elogios em Lugbúrz, e deixar que nós voltemos a pé como pudermos através da Terra dos Cavalos. Não, vamos ficar juntos. Estas terras são perigosas: cheias de rebeldes e bandidos.
— É, devemos ficar juntos — rosnou Uglúk. — Não confio em você, pequeno suíno. Você manda em seu próprio chiqueiro. Se não fosse a gente, todos vocês teriam fugido. Nós somos Uruk-hai guerreiros! Matamos o grande guerreiro. Trouxemos os prisioneiros. Somos servidores de Saruman, o Sábio, a Mão Branca: a Mão que nos dá carne humana para comer. Viemos de Isengard, e os trouxemos aqui, e vamos levá-los de volta pelo caminho que escolhermos. Sou Uglúk. Eu falei.
— Você falou mais que o suficiente, Uglúk — zombou a voz maligna. Fico pensando se gostariam disso em Lugbúrz. Eles poderiam pensar que os ombros de Uglúk precisam ser aliviados do peso de uma cabeça inchada. Poderiam perguntar de onde vieram suas estranhas ideias. Vieram de Saruman, talvez? Quem ele pensa que é, dando as ordens sozinho com suas nojentas insígnias brancas? Talvez eles concordem comigo, com Grishnákh, o mensageiro em quem confiam; e eu, Grishnákh, digo isto: Saruman é um idiota, e um idiota sujo e traiçoeiro. Mas o Grande Olho está sobre ele.
— Suíno, é? O que vocês acham, pessoal, de serem chamados de suínos pelos dedos-duros de um maguinho sujo? Garanto que eles comem carne de orc.
Como resposta vieram muitos berros na língua dos orcs e o eco do tinido das armas sendo sacadas. Cuidadosamente, Pippin virou-se no chão, tentando ver o que iria acontecer. Seus guardas tinham ido se juntar aos outros na briga. No crepúsculo, Pippin viu um orc negro e grande, provavelmente Uglúk, em pé e encarando Grishnákh, uma criatura de pernas curtas e tortas, muito entroncada e com longos braços que chegavam quase até o chão. Em volta deles estavam muitos outros orcs menores. Pippin imaginou que estes eram os do norte. Estavam empunhando facas e espadas, mas hesitavam em atacar Uglúk.
Uglúk gritou, e muitos orcs que tinham quase o tamanho dele correram na direção onde estava. Então, de repente, sem avisar, Uglúk saltou à frente, e com dois golpes rápidos decepou as cabeças de dois adversários. Grishnákh pulou de lado e desapareceu dentro das sombras. Os outros recuaram, e um deles, dando um passo para trás, caiu sobre a figura prostrada de Merry soltando um palavrão. Mas provavelmente isso salvou a vida do hobbit, pois os seguidores de Uglúk saltaram sobre ele e mataram um outro com suas espadas de lâminas largas. Era o guarda de presas amarelas. Seu corpo caiu bem em cima de Pippin, ainda segurando sua longa faca serrilhada.
— Levantem suas armas! — gritou Uglúk. — E vamos deixar de besteira! Vamos para o oeste direto daqui, e vamos descer a escada. Dali, direto para as colinas, depois ao longo do rio até a floresta. E marchar dia e noite. Está claro?
“Agora”, pensou Pippin, “se demorar um pouco até esse camarada horroroso conseguir controlar sua tropa, eu terei uma chance.” Teve um laivo de esperança. A lâmina da faca negra tinha cortado seu braço, e depois deslizado até o pulso. Sentiu que o sangue lhe escorria até a mão, mas também sentiu o toque frio do aço contra a pele.
Os orcs estavam se aprontando para marchar outra vez, mas alguns do norte ainda estavam relutando, e os isengardenses mataram mais dois antes que o resto fosse dominado. Havia grande confusão e xingamento. Naquele momento, ninguém vigiava Pippin, que tinha as pernas bem presas, mas os braços amarrados só pelos pulsos, com as mãos à frente do corpo. Conseguia mexer as duas juntas, embora as cordas estivessem muito apertadas.
Empurrou o orc morto para um lado e depois, mal ousando respirar, movimentou o nó da corda que prendia o pulso contra a lâmina da faca. Era afiada e a mão morta ainda a segurava com firmeza. A corda foi cortada! Rapidamente, Pippin a tomou nos dedos e atou-a como uma pulseira larga de duas voltas, e passou-a sobre as mãos outra vez. Depois ficou deitado e bem quieto.


— Peguem os prisioneiros! — gritou Uglúk. — Não brinquem com eles! Se não estiverem vivos quando voltarmos, alguém mais vai ter de morrer também.
Um orc agarrou Pippin como um saco, pôs sua cabeça entre as mãos amarradas do hobbit, segurou-lhe os braços puxando-os para baixo, até que o rosto de Pippin ficasse contra seu pescoço; depois saiu levando-o consigo. Um outro deu o mesmo tratamento a Merry. A mão em garra do orc prendeu como ferro o braço de Pippin; as unhas entraram-lhe na carne. Ele fechou os olhos e voltou aos seus sonhos terríveis.
De repente, foi jogado novamente ao chão. A noite estava começando, mas a lua fina já descia em direção ao oeste. Estavam na beira de um penhasco que parecia se debruçar sobre um mar de névoa pálida. Havia um som de água caindo ali perto.
— Os batedores finalmente chegaram — disse um orc que estava próximo.
— Bem, o que vocês descobriram? — rosnou a voz de Uglúk.
— Apenas um único cavaleiro, e ele foi para o oeste. Tudo está claro agora.
— Agora, talvez. Mas por quanto tempo? Seus idiotas! Deviam ter atirado nele. Ele vai dar o alarme. Os malditos criadores de cavalos vão ouvir falar de nós pela manhã. Agora vamos ter de redobrar a velocidade da marcha.
Uma sombra se curvou sobre Pippin. Era Uglúk. — Sente-se — disse o orc. — Meus rapazes estão cansados de carregar vocês. Precisamos descer, e vocês vão ter de usar as próprias pernas. Sejam bonzinhos agora. Não gritem, nem tentem escapar. Temos modos de recompensar trapaças que vocês vão detestar, embora também não estraguem a utilidade que possam ter para o Mestre.
Cortou os nós das pernas e tornozelos de Pippin, ergueu-o pelos cabelos e colocou-o de pé. Pippin caiu, e Uglúk o levantou pelos cabelos outra vez. Vários orcs riram. Uglúk abriu um cantil com os dentes e derramou um pouco de líquido ardente na garganta de Pippin: ele sentiu uma quentura forte fluir-lhe pelo corpo. A dor de suas pernas e tornozelos desapareceu. Conseguiu ficar de pé.
— Agora, para o outro — disse Uglúk. Pippin o viu ir até Merry, que estava deitado ali perto, e chutá-lo. Merry resmungou. Agarrando-o de forma rude, Uglúk o colocou sentado e rasgou a banda que lhe envolvia a cabeça. Então esfregou o ferimento com alguma coisa escura que retirou de uma caixa de madeira. Merry gritou e se debateu alucinado.
Os orcs bateram palmas e vaiaram. — Não consegue tomar o remédio — caçoaram eles. — Não sabe o que é bom para ele. Ai! Vamos nos divertir mais tarde.
Mas naquele momento Uglúk não estava para brincadeiras. Precisava se apressar e tinha de reanimar seguidores indispostos. Estava curando Merry à maneira dos orcs, e seu tratamento deu resultado rápido. Depois forçou o hobbit a beber o líquido do cantil e cortou as amarras de suas pernas, colocando-o de pé; Merry conseguiu se sustentar, com uma aparência pálida mas severa e desafiadora, e muito viva. O corte em sua testa não o incomodava mais, mas ele ficou com uma cicatriz escura para o resto da vida.
— Olá, Pippin! — disse ele. — Então você também veio nesta pequena expedição? Onde conseguimos cama e comida?
— Agora! — disse Uglúk. — Nada disso! Segurem suas línguas. Nada de conversas. Qualquer problema será reportado na chegada, e Ele saberá como recompensá-los. Vocês vão ter cama e comida sim: muito mais do que puderem aguentar.


O bando de orcs começou a descer uma pequena garganta que conduzia à planície cheia de névoa. Merry e Pippin, separados por uma dúzia ou mais de orcs, desceram com eles. Na planície, seus pés tocaram o capim, e os corações dos hobbits ficaram mais leves.
— Agora, sempre em frente! — gritou Uglúk. — Para o oeste e um pouco ao norte. Sigam Lugdush.
— Mas o que vamos fazer quando o dia chegar? — perguntaram alguns dos orcs do norte.
— Continuar correndo — disse Uglúk. — Que estão pensando? Que vamos sentar no chão e esperar que os Peles-Brancas se juntem ao piquenique?
— Mas não podemos correr à luz do sol.
— Vocês vão correr porque eu vou atrás de vocês — disse Uglúk. — Corram! Ou nunca mais verão suas adoradas tocas. Pela Mão Branca! Que adianta trazer esses vermes das montanhas numa viagem, sem um treinamento completo? Corram, seus malditos. Corram enquanto a noite durar!
O grupo todo começou a correr no trote largo dos orcs. Não iam em ordem, entrechocando-se, dando empurrões e xingando; apesar disso, avançavam com grande velocidade. Cada hobbit tinha uma guarda de três orcs. Pippin estava no fim da fila. Perguntava-se por quanto tempo aguentaria ir naquele passo: não tinha comido nada desde a manhã. Um de seus guardas tinha um chicote. Mas no momento a bebida dos orcs ainda agia sobre ele. Sua percepção também estava bem acordada.
De quando em quando vinha-lhe à mente, sem ser invocada, uma visão do rosto arguto de Passolargo se curvando sobre uma trilha escura, e correndo, correndo atrás. Mas o que poderia alguém ver, mesmo que fosse um guardião, além de uma trilha confusa de pés de orcs? Suas próprias pegadas e as de Merry estavam sendo cobertas pelo pisotear dos sapatos com cravos dos orcs, à frente, atrás, e em toda a volta deles.
Tinham avançado uma milha ou um pouco mais desde o desfiladeiro quando o terreno começou a descer numa depressão larga e rasa, onde o solo era macio e molhado. Havia névoa ali, reluzindo pálida aos últimos raios da lua em forma de foice. As figuras escuras dos orcs ficaram apagadas, e eles foram engolidos pela névoa.
— Ei! Calma agora! — gritou Uglúk de trás.
Um pensamento súbito veio à mente de Pippin, e ele o pôs em prática imediatamente. Afastou-se para o lado, e mergulhou para longe do alcance dos guardas, para dentro da névoa; caiu estatelado no capim.
— Parem! — gritou Uglúk.
Por um momento, houve tumulto e confusão. Pippin saltou de pé e correu. Mas os orcs foram atrás. Alguns apareceram de repente bem diante dele.
“Sem esperanças de escapar!”, pensou Pippin. “Mas existe uma esperança de que eu possa ter deixado algumas de minhas próprias pegadas no chão molhado, e de que elas não sejam desmanchadas.” Levou as duas mãos amarradas à garganta e soltou o broche de sua capa. No momento em que braços longos e garras fortes o pegaram, deixou o broche cair no chão. “Acho que vai ficar ali até o fim dos tempos”, pensou ele. “Não sei por que fiz isso. Se os outros escaparam, devem ter ido com Frodo.”
Um chicote se enrolou em suas pernas e ele sufocou um grito.
— Basta! — gritou Uglúk, correndo na direção deles. — Ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Obriguem os dois a correr. Usem os chicotes apenas como lembrete.
— Mas não é só isso — rosnou ele, voltando-se para Pippin. — Não vou esquecer. A recompensa foi apenas adiada. Corram!


Nem Pippin nem Merry se lembraram da parte posterior da viagem. Sonhos maus e despertares piores se misturaram num longo túnel de miséria, com a esperança sempre diminuindo e ficando para trás. Correram e correram, esforçando-se para manter o passo com os orcs, lambidos de quando em quando por um chicote habilmente manuseado. Se paravam ou tropeçavam, eram agarrados e arrastados por algum espaço.
A quentura da bebida dos orcs tinha-se acabado. Pippin se sentia doente e com frio outra vez. De repente, caiu de cara no chão. Mãos fortes com unhas cortantes o ergueram. Foi de novo carregado como um saco, e a escuridão cresceu à sua volta: se era outra noite ou uma cegueira nos olhos, ele não poderia dizer.
Lentamente, tomou consciência de vozes clamando. Parecia que muitos orcs estavam pedindo uma parada. Uglúk gritava. Sentiu-se sendo jogado ao chão, e ali ficou como caiu, até que sonhos negros tomassem conta dele. Mas não escapou da dor por muito tempo; logo a pinça de ferro de mãos impiedosas estava sobre ele outra vez. Por um tempo foi sacudido e jogado, até que lentamente a escuridão cedeu, e ele acordou outra vez, percebendo que era de manhã. Houve gritos de ordens e ele foi jogado rudemente no capim.
Ali ficou por um tempo, lutando contra o desespero. A cabeça rodava, mas pela quentura do corpo percebeu que lhe tinham dado mais um gole. Um orc se abaixou sobre ele, e jogou-lhe um pouco de pão e uma tira crua de carne-seca. Pippin comeu o pão velho e cinzento com avidez, mas não a carne. Estava esfomeado, mas não esfomeado a ponto de comer carne que lhe tinha sido jogada por um orc, a carne de uma criatura que ele não ousava adivinhar qual seria.
Sentou-se e olhou ao redor. Merry não estava longe. Estavam às margens de um rio veloz e estreito. À frente assomavam montanhas: um pico alto capturava os primeiros raios do sol. Uma mancha escura da floresta se deitava nas encostas mais baixas diante deles.
Ouvia-se grande gritaria e discussão entre os orcs; parecia que uma briga estava a ponto de começar outra vez entre os do norte e os de Isengard. Alguns apontavam para trás na direção sul, e outros apontavam para o oeste.
— Muito bem — disse Uglúk. — Deixem-nos comigo, então! Nada de matar, como eu já lhes disse antes; mas se querem jogar fora o que viajamos tanto para conseguir, então joguem fora. Vou tomar conta disso. Que os Uruk-hai guerreiros façam o trabalho, como sempre. Se estão com medo dos Peles-Brancas, corram! Corram! Ali está a floresta — gritou ele, apontando para frente. — Entrem nela! É a melhor esperança que têm. Podem ir! E rápido, antes que eu corte mais algumas cabeças, para botar algum juízo nas outras.
Houve algum xingamento e tumulto, e depois a maioria dos orcs do norte se separaram e se distanciaram, mais de uma centena deles, correndo alucinadamente ao longo do rio em direção às montanhas. Os hobbits foram deixados com os isengardenses: um bando de orcs horríveis e escuros, pelo menos oitenta deles: grandes, de pele escura e olhos oblíquos, com grandes arcos e espadas largas de lâminas curtas. Alguns dos orcs do norte maiores e mais fortes permaneceram com eles.
— Agora vamos cuidar de Grishnákh — disse Uglúk, mas alguns elementos de seu próprio bando estavam olhando inquietos para o sul.
— Eu sei — rosnou Uglúk. — Os malditos cavaleiros perceberam o nosso rastro. Mas isso é culpa sua, Snaga. Você e os outros batedores deveriam ter as orelhas arrancadas. Mas nós somos os guerreiros. Vamos nos banquetear com carne de cavalo, ou coisa melhor.
Naquele momento, Pippin viu por que alguns da tropa tinham apontado para o leste. Daquela direção chegavam agora gritos roucos, e ali estava Grishnákh outra vez, e atrás dele uns vinte outros como ele: orcs de braços longos e pernas tortas. Uglúk avançou para encontrá-los.
— Então vocês voltaram? — disse ele. — Pensaram melhor, hein?
— Voltei para me certificar de que as ordens estão sendo cumpridas e os prisioneiros estão a salvo — respondeu Grishnákh.
— É mesmo? — disse Uglúk. — Esforço desperdiçado. Eu vou cuidar para que as ordens sejam cumpridas sob meu comando. E por que mais voltaram? Vocês foram correndo. Deixaram para trás alguma coisa?
— Deixei um idiota — rosnou Grishnákh. — Mas havia alguns camaradas fortes com ele que são bons demais para se perder. Eu sabia que você os conduziria para uma bagunça. Vim ajudá-los.
— Esplêndido! — disse Uglúk rindo. — Mas a não ser que tenha fibra para lutar você pegou o caminho errado. Lugbúrz era nosso caminho. Os Peles-Brancas estão chegando. Que aconteceu com seu precioso Nazgûl? Teve outra de suas montarias abatida? Agora, se você o trouxesse junto, isso poderia ser útil — se esses Nazgûl são tudo o que fingem ser.
— Nazgûl, Nazgûl! — disse Grishnákh, tremendo e lambendo os lábios, como se a palavra tivesse um gosto ruim que ele saboreava com sofrimento. — Você fala do que está muito além do alcance de seus sonhos sujos, Uglúk — disse ele. — Nazgûl! Ah! Tudo o que fingem ser! Um dia você vai desejar não ter dito isso. Seu macaco! — rosnou ele com ferocidade. — Você precisa saber que eles são a menina-do-Grande-Olho. Mas o Nazgûl alado, por enquanto não, ainda não. Ele não permitirá que se mostrem do outro lado do Grande Rio. Não tão cedo. Eles são para a guerra — e outras finalidades.
— Parece que você sabe muito — disse Uglúk, — Mais do que lhe convém, eu acho. Talvez aqueles que estão em Lugbúrz possam querer saber como, e por quê. Mas enquanto isso os Uruk-hai de Isengard podem fazer o serviço sujo, como sempre. Não fiquem aqui bajulando. Reúna a sua canalha! Os outros suínos estão correndo para dentro da floresta. É melhor segui-los. Você não retornaria vivo ao Grande Rio. Vamos andando! Agora! Vou estar bem atrás de você.


Os isengardenses pegaram Merry e Pippin de novo e os jogaram sobre as costas. Depois a tropa partiu. Hora após hora eles correram, parando de vez em quando apenas para entregar os hobbits a carregadores descansados. Talvez por serem mais rápidos e resistentes, ou então devido a algum plano de Grishnákh, os isengardenses gradualmente passaram pelos orcs de Mordor, e o pessoal de Grishnákh se fechou atrás deles. Logo já estavam levando vantagem sobre os do norte que iam à frente. A floresta começou a se aproximar.
Pippin estava escoriado e com cortes, a cabeça dolorida raspando na mandíbula nojenta e na orelha peluda do orc que o carregava. Imediatamente à frente iam costas arcadas, e pernas grossas e fortes subiam e desciam, subiam e desciam, incansáveis, como se fossem feitas de fibra e força, marcando os segundos de um pesadelo interminável.
Durante a tarde, a tropa de Uglúk ultrapassou os orcs de Mordor. Eles estavam ficando fatigados com os raios brilhantes do sol, embora fosse apenas um sol de inverno reluzindo num céu frio e pálido; estavam com as cabeças curvadas e as línguas de fora.
— Vermes! — zombavam os isengardenses. — Vocês estão fritos. Os Peles Brancas vão capturá-los e comê-los. Eles estão chegando!
Um grito de Grishnákh demonstrou que isso não era uma simples brincadeira. Cavaleiros, cavalgando muito rápido, tinham realmente sido vistos: ainda bem atrás, mas avançando mais depressa que os orcs, ganhando terreno como uma onda que avança sobre uma planície onde pessoas estão sendo tragadas pela areia movediça.
Os isengardenses começaram a correr num ritmo duas vezes maior, o que deixou Pippin atônito, parecia um arranque espetacular no final de uma corrida. Então ele viu que o sol afundava, caindo atrás das Montanhas Sombrias; as sombras cobriram toda a terra. Os soldados de Mordor ergueram as cabeças e também começaram a aumentar a velocidade. A floresta era escura e densa. Já tinham ultrapassado algumas árvores externas. O terreno começava a subir, ficando cada vez mais íngreme; mas os orcs não pararam. Tanto Uglúk como Grishnákh gritavam, incitando-os a avançar num último esforço.


“Eles ainda vão conseguir. Vão escapar”, pensou Pippin. Então conseguiu virar o pescoço, a fim de olhar para trás por sobre os ombros com um olho. Viu que os cavaleiros no leste já estavam emparelhados com os orcs, galopando sobre a planície. O sol que se punha dourava suas lanças e capacetes, e reluzia em seus cabelos claros e esvoaçantes. Estavam cercando os orcs, impedindo que se espalhassem, e conduzindo-os ao longo da linha do rio.
Queria muito saber que tipo de povo eram eles. Gostaria agora de ter aprendido mais em Valfenda, e examinado mais mapas e coisas; mas naqueles dias os planos para a jornada pareciam estar em mãos mais competentes, e ele jamais tinha considerado a hipótese de se separar de Gandalf, ou de Passolargo, ou mesmo de Frodo. Tudo que podia lembrar de Rohan era que aquele cavalo de Gandalf, Scadufax, tinha vindo daquela terra. Esse fato lhe trazia esperanças.
“Mas como vão saber que não somos orcs?”, pensou ele. “Não acho que tenham ouvido falar em hobbits por aqui. Acho que devo ficar feliz com a probabilidade de esses orcs animalescos serem destruídos, mas gostaria mais se fosse salvo,” As chances eram de que ele e Merry fossem mortos juntos com os que os capturaram, antes mesmo que os homens de Rohan tomassem conhecimento deles.
Alguns dos cavaleiros pareciam ser arqueiros, treinados para atirar de um cavalo em movimento. Cavalgando rápido para ficarem ao alcance, eles atiraram flechas nos orcs que estavam mais atrás, e vários caíram; então os cavaleiros saíram do alcance das flechas dos inimigos, que atiravam alucinadamente, não ousando parar. Isso aconteceu várias vezes, e em uma ocasião as flechas caíram entre os isengardenses. Um deles, bem à frente de Pippin, tropeçou e não se levantou mais.


A noite caiu sem que os cavaleiros se aproximassem para a batalha. Muitos orcs tinham caído, mas com certeza uns duzentos ainda restavam. Na escuridão precoce os orcs encontraram um montículo. As bordas da floresta estavam muito próximas, provavelmente a menos de seiscentos metros de distância, mas eles não conseguiam avançar mais. Os cavaleiros tinham feito um círculo em volta deles. Um pequeno grupo desobedeceu a ordem de Uglúk, e continuou correndo para a floresta: só três retornaram.
— Bem, aqui estamos — zombou Grishnákh. — ótima liderança! Espero que o grande Uglúk nos tire do perigo outra vez.
— Ponha esses Pequenos no chão! — ordenou Uglúk, sem dar atenção a Grishnákh. — Você, Lugdush, pegue mais dois e fique vigiando! Eles não devem ser mortos, a não ser que os nojentos Peles-Brancas invadam nosso grupo. Entendeu? Enquanto eu estiver vivo, eu os quero. Mas eles não devem gritar e nem ser resgatados. Prenda as pernas deles!
A última parte da ordem foi cumprida impiedosamente. Mas Pippin viu que pela primeira vez estava perto de Merry. Os orcs estavam fazendo um enorme barulho, gritando e batendo as armas, e os hobbits conseguiram conversar aos sussurros por uns momentos.
— Não tenho multa esperança de sair dessa situação —  disse Merry.  — Sinto-me quase morto. Não acho que conseguiria me arrastar para longe, mesmo que estivesse livre.
— Lembas! — sussurrou Pippin. — Lembas: eu tenho um pouco. Você tem? Não acho que nos tiraram outras coisas a não ser as espadas.
— Sim, eu tinha um pacote no bolso — respondeu Merry —, mas deve estar reduzido a migalhas. De qualquer forma, não consigo pôr a boca em meu bolso!
— Não vai ter de fazer isso. Eu... — Mas nesse mesmo momento um chute impiedoso avisou Pippin que o barulho tinha diminuído, e que os guardas estavam alerta.


A noite estava fria e quieta. Por toda a volta do pequeno monte onde os orcs estavam reunidos, pequenas fogueiras apareceram, num vermelho dourado naquela escuridão, um círculo completo delas. Estavam no raio de um tiro longo de flecha, mas os cavaleiros não se mostravam contra a luz, e os orcs desperdiçaram muitas flechas atirando nas fogueiras, até que Uglúk mandou que parassem. Os cavaleiros não faziam ruído algum. Mais tarde da noite, quando a lua saiu da névoa, eles podiam às vezes ser vistos, figuras sombrias que cintilavam uma vez ou outra na luz branca, conforme se moviam numa patrulha ininterrupta.
— Eles vão esperar o sol, malditos! — resmungou um dos guardas. — Por que não nos reunimos e atacamos? O que o velho Uglúk pensa que está fazendo? Gostaria de saber!
— Garanto que gostaria — rosnou Uglúk, chegando por trás. — Quer dizer que eu não penso nada, né? Malditos! Vocês são tão péssimos quanto a outra canalha: os vermes e macacos de Lugbúrz. Não adianta tentar atacar com eles. Só iriam gritar e fugir feito raios, e há mais cavaleiros que o suficiente para varrer nosso grupo da planície.
— Só há uma coisa que esses vermes conseguem fazer: eles enxergam no escuro como corujas. Mas esses Peles-Brancas têm uma visão noturna melhor que a maioria dos homens, por tudo que já ouvi dizer; e não se esqueça dos cavalos! Eles enxergam a brisa da noite, ou pelo menos é o que se diz. Apesar disso, há uma coisa que esses gentis companheiros não sabem: Mauhúr e seus rapazes estão na floresta, e devem aparecer a qualquer momento.
As palavras de Uglúk foram o bastante, aparentemente, para satisfazer os isengardenses, mas os outros orcs estavam desmotivados e rebeldes. Colocaram alguns vigias, mas a maioria deles se deitava no chão, descansando na escuridão agradável. Ficou realmente muito escuro outra vez, pois a lua passou ao leste, sendo coberta por uma densa nuvem, e Pippin não conseguia ver nada a mais de um metro de distância. As fogueiras não traziam luz ao montículo. Entretanto, os cavaleiros não estavam satisfeitos simplesmente em esperar a aurora e deixar que os inimigos descansassem. Um grito repentino no lado leste do pequeno monte mostrou que alguma coisa estava errada. Parecia que alguns homens tinham chegado mais perto e descido dos cavalos, arrastando-se até o acampamento e matando vários orcs, e depois tinham desaparecido outra vez. Uglúk se atirou naquela direção para evitar uma debandada.
Pippin e Merry se sentaram. Os guardas, isengardenses, tinham ido com Uglúk. Mas se os hobbits chegaram a pensar em fugir esse pensamento foi logo frustrado. Um braço comprido e peludo os pegou pelo pescoço e os trouxe para perto um do outro.
Perceberam vagamente a grande cabeça de Grishnákh e seu rosto odioso entre eles; o hálito nojento do orc batia-lhes nas bochechas. Começou a apalpá-los e tateá-los. Pippin tremeu quando os dedos duros e gelados desceram pelas suas costas.
— Bem, meus pequeninos! — disse Grishnákh num sussurro suave.  — Gostando do descanso? Ou não? Lugar um pouco inadequado, talvez: espadas e chicotes de um lado, e lanças incômodas do outro! Pessoas pequenas não deviam se meter em coisas grandes demais para elas. — Os dedos continuavam procurando alguma coisa. Havia uma luz semelhante a um fogo pálido, mas quente, em seus olhos.
O pensamento chegou de repente à mente de Pippin, como se capturado diretamente da ideia óbvia do próprio inimigo: “Grishnákh sabe do Anel! Está procurando, enquanto Uglúk está ocupado: provavelmente o quer para si mesmo.” Um pavor frio tomou conta do coração de Pippin, mas ao mesmo tempo ele pensava em como poderia se utilizar do desejo de Grishnákh.
— Acho que não vai encontrá-lo desta maneira — sussurrou ele. — Não é fácil de se encontrar.
— Encontrá-lo? — disse Grishnákh: seus dedos pararam de se mover e agarraram o ombro de Pippin. — Encontrar o quê? De que está falando, pequenino?
Por um momento, Pippin ficou calado. Então, de repente, fez na escuridão um barulho com a garganta: gollum, gollum. — Nada, meu precioso. —acrescentou ele.
Os hobbits sentiram os dedos de Grishnákh se crispando. — Oh, oh! — Chiou o orc baixinho. — É disso que ele está falando, é? Oh, oh! Muito, mui-to perigoso, meus pequeninos.
— Talvez — disse Merry, agora alerta e consciente da suposição de Pippin. — Talvez: e não só para nós. Mas você sabe das suas coisas melhor que nós. Você o quer? E o que daria em troca?
— Se eu quero? Se eu quero? — disse Grishnákh, como se estivesse confuso; mas seus braços tremiam. — O que eu daria em troca? Que está querendo dizer?
— Queremos dizer — disse Pippin, escolhendo com cuidado as palavras — que não adianta ficar tateando no escuro. Poderíamos poupar tempo e problemas. Mas primeiro você tem de desamarrar nossas pernas, ou não faremos nada, e não diremos nada também.
— Meus queridos e ternos tolos — chiou Grishnákh —, tudo o que vocês têm e tudo o que sabem será tirado de vocês na hora certa: tudo! Vocês vão desejar ter mais coisas a dizer para satisfazer o Interrogador, ah, se vão: logo, logo. Não vamos apressar o interrogatório, de jeito nenhum! Por que acham que foram mantidos vivos? Meus pequenos companheiros, acreditem quando digo que não foi por gentileza: esse não é sequer um dos defeitos de Uglúk.
— Acho muito fácil acreditar — disse Merry. — Mas vocês ainda não levaram seus prisioneiros para casa. E não parece que vão levar a melhor nessa situação, aconteça o que acontecer. Se chegarmos a Isengard, não será o grande Grishnákh o beneficiado: Saruman vai tomar tudo o que puder encontrar. Se você quer alguma coisa para si mesmo, agora é o momento de fazermos um trato. 
Grishnákh começou a ficar zangado. O nome de Saruman parecia enraivecê-lo particularmente. O tempo passava e o tumulto estava diminuindo. Uglúk ou os isengardenses podiam voltar a qualquer momento. — Estão com ele — um de vocês dois? — rosnou ele.
— Gollum, gollum! — disse Pippin.
— Desamarre nossas pernas! — disse Merry.
Sentiram os braços do orc tremendo violentamente. — Malditos sejam, seus pequenos vermes nojentos! — disse ele num chiado. — Desamarrar suas pernas. Vou desamarrar cada fibra de seus corpos. Acham que não posso revistá-los até os ossos? Revistá-los! Vou cortar os dois em tiras bem fininhas. Não preciso da ajuda de suas pernas para levá-los para longe, e ter vocês inteiramente para mim!
De repente agarrou-os. A força dos braços compridos e ombros era aterradora. Meteu-os um debaixo de cada braço, e os apertou com força ao corpo; uma mão grande e sufocante cobria-lhes a boca. Depois, de um salto, saiu correndo agachado. Ia depressa e sem barulho, até chegar à beira do pequeno monte. Ali, escolhendo um espaço entre os guardas, passou como uma sombra maligna para dentro da noite, descendo a encosta e dirigindo-se para o oeste na direção do rio que vinha da floresta. Naquela direção havia um espaço amplo e aberto, com apenas uma fogueira.
Depois de andar uns doze metros, ele parou, espiando e escutando. Não se via nem se ouvia nada. Continuou se arrastando devagar, quase totalmente curvado. Então agachou-se e escutou outra vez. Depois levantou-se como se fosse arriscar uma corrida súbita. Nesse mesmo momento, a figura escura de um cavaleiro se ergueu bem diante dele. Um cavalo bufou e empinou. Um homem gritou.
Grishnákh se jogou no chão, arrastando os hobbits debaixo dele; então puxou a espada. Sem dúvida, sua ideia era matar os prisioneiros, antes de deixá-los escapar para serem resgatados; mas foi aí que ele errou. A espada ressoou baixinho, e reluziu um pouco à luz da fogueira que estava adiante, à sua esquerda. Uma flecha veio da escuridão assobiando: desferida com habilidade, ou guiada pela sorte, atingiu a mão direita do orc, que deixou cair a espada e gritou. Ouviu-se a batida rápida de cascos, e no momento em que Grishnákh levantava e corria foi pisoteado e uma lança atravessou-lhe o corpo. Depois de um tremor e grito medonhos, caiu sobre o chão sem se mover mais.
Os hobbits continuaram deitados no solo, como Grishnákh os tinha deixado. Outro cavaleiro veio depressa para ajudar seu companheiro. Fosse por alguma agudeza especial de visão, ou por algum outro sentido, o cavalo subiu e saltou sobre eles com leveza; mas o cavaleiro não os viu, pois estavam deitados e cobertos por suas capas élficas, arrasados e amedrontados demais naquele momento para se mexer.


Finalmente Merry se mexeu e sussurrou baixinho: — Até agora, tudo bem: mas como nós podemos evitar sermos espetados?
A resposta veio quase imediatamente. Os gritos de Grishnákh tinham despertado os orcs. Pelos gritos e guinchos vindos do montículo, os hobbits supuseram que seu desaparecimento fora descoberto: Uglúk provavelmente estava arrancando mais algumas cabeças. Então, de repente, vozes de orcs em gritos de resposta vieram da direita, de fora do círculo de fogueiras, da direção da floresta e das montanhas. Aparentemente, Mauhúr tinha chegado e estava atacando os sitiadores. Ouviu-se o som de cavalos galopando. Os Cavaleiros estavam fechando o cerco em volta do pequeno monte, arriscando-se às flechas dos orcs de modo a prevenir qualquer outro ataque, enquanto um grupo se afastava para cuidar dos recém-chegados. De repente, Merry e Pippin perceberam que sem se mexer estavam agora fora do círculo: nada restava entre eles e a fuga.
— Agora — disse Merry —, se pelo menos nossos braços e pernas estivessem livres, poderíamos escapar. Mas não consigo tocar os nós, e não posso mordê-los.
— Nem precisa tentar — disse Pippin. — Eu ia lhe dizer: consegui libertar as mãos. Só deixei essas cordas como encenação. É melhor você comer um pouco de lembas primeiro.
Tirou as cordas dos pulsos e pescou um pacote do bolso. Os bolos estavam partidos, mas em bom estado, ainda embrulhados nas folhas. Os hobbits comeram dois ou três pedaços cada um. O gosto lhes trouxe de volta a lembrança de belos rostos e de riso e de boa comida em dias tranquilos agora distantes. Por uns momentos, comeram pensativamente, sentados no escuro: sem dar atenção aos gritos e sons da batalha ali perto. Pippin foi o primeiro a voltar ao presente.
— Precisamos fugir — disse ele. — Só um momentinho! — A espada de Grishnákh estava próxima, mas era pesada demais e desajeitada para que ele pudesse usá-la; então arrastou-se à frente, e encontrando o corpo do orc tirou da bainha uma faca longa e afiada.
Com ela cortou rapidamente as amarras.
— Agora vamos! — disse ele. — Quando estivermos um pouco aquecidos, talvez possamos ficar de pé outra vez, ou até caminhar. Mas de qualquer forma é melhor começarmos nos arrastando.
Arrastaram-se. A turfa era funda e mole, e isso os ajudou; mas parecia uma tarefa longa e demorada. Mantendo uma distância segura da fogueira, arrastaram-se como vermes, avançando pouco a pouco, até chegarem à beira do rio, que gorgolejava nas sombras sob suas margens altas. Então olharam para trás.
Os sons tinham sumido. Evidentemente, Mauhúr e seus “rapazes” tinham sido mortos ou derrotados. Os Cavaleiros tinham retornado à sua vigia silenciosa e agourenta. Não duraria muito mais. A noite já estava bem avançada. No leste, que tinha permanecido sem nuvens, o céu começava a clarear.
— Devemos procurar um abrigo — disse Pippin —, ou seremos vistos. Não vai ser consolo para nós se alguns desses Cavaleiros descobrirem que não somos orcs depois que estivermos mortos. — Levantou-se e ficou de pé.
— Aquelas cordas me cortaram como arame, mas meus pés estão se aquecendo de novo. Eu conseguiria andar agora, com alguma dificuldade. E você, Merry?
Merry ficou de pé. — Sim — disse ele. — Eu consigo. Lembas realmente injeta coragem na gente! E também uma sensação mais agradável que a quentura daquela bebida dos orcs. Pergunto-me do que é feita. Acho que é melhor não saber. Vamos tomar um gole de água e lavar a lembrança daquele gosto.
— Aqui não, as margens são muito escarpadas — disse Pippin. — Para a frente agora!
Voltaram-se e foram andando lado a lado ao longo do rio. Atrás deles a luz crescia no leste. Conforme caminhavam, iam comparando observações, conversando com leveza, à moda dos hobbits, sobre as coisas que tinham acontecido desde sua captura. Ninguém que escutasse suas palavras adivinharia que tinham sofrido cruelmente, e estado em perigo mortal, indo sem esperança em direção ao tormento e à morte, ou que mesmo agora, como eles bem sabiam, tinham pouca chance de reencontrar amigos ou segurança.
— Parece que você tem se saído bem, Mestre Tûk — disse Merry. — Você vai conseguir quase um capítulo do livro do velho Bilbo, se eu tiver uma chance de contar a ele. Bom trabalho: principalmente decifrando o joguinho daquele vilão peludo, e fazendo o mesmo jogo. Mas me pergunto se alguém vai achar nossa trilha e pegar aquele broche. Eu odiaria perder o meu. Mas receio que o seu está perdido para sempre.
— Vou ter de acelerar o passo, se quiser ficar emparelhado com você. Na verdade, o Primo Brandebuque vai na frente agora. É aqui que ele entra. Não acho que você tenha muita noção de onde está, mas gastei meu tempo em Valfenda de forma mais produtiva. Estamos indo para o oeste, ao longo do Entágua. A extremidade das Montanhas Sombrias está à nossa frente, e também a Floresta de Fangorn.
Enquanto falava, a borda escura da floresta assomou bem diante deles. Parecia que a noite tinha se refugiado sob aquelas enormes árvores, fugindo da Aurora que se aproximava.
— Conduza-nos para frente, Mestre Brandebuque! — disse Pippin. — Ou para trás! Fomos avisados para não entrar em Fangorn. Mas alguém tão sabido não esqueceria isso.
— Eu não esqueci — respondeu Merry -; mas, mesmo assim, entrar na floresta me parece melhor do que voltar para o meio da batalha.


Foi à frente sob os grandes galhos das árvores. Pareciam incalculavelmente antigos. Grandes barbas de líquens pendiam delas, esvoaçando e dançando na brisa. Das sombras os hobbits espiaram, olhando para a encosta que descia: pequenas figuras furtivas que na luz fraca se assemelhavam a crianças élficas nas profundezas do tempo, espiando da Floresta Selvagem, admiradas ao ver a primeira Aurora.
Bem adiante, do outro lado do Grande Rio, e das Terras Castanhas, léguas após léguas cinzentas de distância, a Aurora chegou, vermelha como fogo. Fortes ecoaram as cornetas dos caçadores para saudá-la. Os Cavaleiros de Rohan saltaram subitamente para a vida. Cornetas responderam a cornetas outra vez.
Merry e Pippin ouviram, nítido no ar frio, o relinchar de cavalos de guerra, e o canto súbito de muitos homens. A borda do sol se levantou, um arco de fogo sobre a margem do mundo. Então, com um grande grito, os Cavaleiros atacaram do leste; a luz vermelha reluzia nas malhas e nas lanças. Os orcs berravam e atiravam todas as flechas que ainda tinham. Os hobbits viram vários cavaleiros caírem; mas a fileira deles manteve sua formação subindo a colina e passando sobre ela, fez uma volta e atacou de novo. A maior parte dos invasores que permaneceram vivos se separaram e fugiram, para todos os lados, perseguidos até a morte um a um. Mas um bando, permanecendo junto numa mancha negra, dirigiu-se resolutamente para a floresta. Subindo a colina, avançaram na direção dos observadores. Agora estavam se aproximando, e parecia certeza que iam escapar: já tinham derrubado três Cavaleiros que tentaram barrar seu caminho.
— Observamos durante muito tempo — disse Merry. — Ali vem Uglúk! Não quero encontrá-lo de novo. — Os hobbits voltaram-se e fugiram para dentro das sombras da floresta.
Foi por isso que não viram o último confronto, quando Uglúk foi derrotado e acuado exatamente na fronteira de Fangorn. Ali foi morto por Éomer, o Terceiro Marechal da Terra dos Cavaleiros, que desceu do cavalo e lutou com ele, espada contra espada. E através dos amplos campos os Cavaleiros de olhos argutos caçaram os poucos orcs que tinham escapado e ainda tinham forças para fugir.
Em seguida, após colocarem os companheiros mortos num túmulo, e cantarem seus méritos, os Cavaleiros fizeram uma grande fogueira e espalharam as cinzas de seus inimigos. Assim terminou o ataque, e nenhuma notícia dele jamais chegou a Mordor ou a Isengard; mas a fumaça da fogueira subiu alto no céu e foi vista por muitos olhos atentos.

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