11 de abril de 2016

Capítulo III - O Portão Negro está fechado

Antes que o dia seguinte raiasse, a viagem a Mordor estava terminada. Os pântanos e o deserto haviam ficado para trás. Adiante, escuras contra um céu pálido, as grandes montanhas erguiam suas frontes ameaçadoras.
Erguia-se a oeste de Mordor a escura cordilheira de Ephel Dúath, as Montanhas da Sombra, e ao norte os picos quebrados e as cristas desoladas de Ered Lithui, da cor da cinza. Mas, à medida que essas cordilheiras se aproximavam uma da outra, sendo ambas na realidade partes de uma grande muralha que circundava as planícies lúgubres de Lithlad e de Gorgoroth, com o amargo mar interno de Númen ao meio, elas estendiam longos braços em direção ao norte; entre esses braços havia um desfiladeiro profundo. Era Cirith Gorgor, a Passagem Assombrada, a entrada para a terra do inimigo. Altos penhascos desciam dos dois lados, e saltando à frente de sua abertura viam-se duas colinas íngremes, negras e escalvadas. Sobre elas assomavam os Dentes de Mordor, duas torres altas e fortes. Em dias distantes, tinham sido construídas pelos homens de Gondor, altivos e poderosos, depois da derrota e fuga de Sauron, para evitar que ele tentasse retornar ao seu velho reino. Mas a força de Gondor fracassou, os homens dormiram, e por muitos longos anos as torres permaneceram vazias. Então Sauron retornou. Agora as torres de vigia, outrora em ruína, estavam reformadas, cheias de armas e guarnecidas de uma vigilância contínua. Tinham faces de pedra, com janelas escuras que olhavam para o norte, o leste e o oeste, cada janela repleta de olhos que jamais dormiam.
Através da abertura da passagem, de penhasco a penhasco, o Senhor do Escuro construíra um baluarte de pedra. Nele se erguia um único portão de ferro, e na parte superior sentinelas andavam continuamente. Sob as colinas, de cada um dos lados, a rocha fora perfurada com uma centena de cavernas e buracos de vermes: ali uma tropa de orcs espreitava, pronta para a qualquer sinal avançar como formigas negras indo à guerra.
Ninguém podia passar pelos Dentes de Mordor sem sentir sua mordida, a não ser que fosse chamado por Sauron, ou soubesse as senhas secretas que abriam o Morarmon, o portão negro da sua terra.
Os dois hobbits olharam desesperados para as torres e para a muralha. Mesmo à distância, podiam ver na luz fraca o movimento dos guardas negros sobre a muralha, e as patrulhas diante do portão. Estavam agora espiando por sobre a borda de uma concavidade rochosa, sob a sombra estendida do contraforte no extremo norte das Epliel Dúath. Atravessando o ar pesado em linha reta, talvez um corvo não voasse mais que duzentos metros entre o esconderijo deles e o topo negro da torre mais próxima.
Uma fumaça apagada se espiralava sobre ela, como se um fogo queimasse na colina mais abaixo.
O dia chegou e o sol fraco cintilava sobre as cordilheiras mortas de Ered Lithui. Então, de súbito, ouviu-se o clangor de trombetas com garganta de bronze: soaram das torres de vigia, e distantes, de fortalezas ocultas e de postos avançados nas colinas, chegaram toques em resposta; e ainda mais distantes, remotos mas profundos e agourentos, ecoaram mais além na terra oca as trombetas e os poderosos tambores de Barad-dûr. Mais um dia terrível de medo e trabalho chegara a Mordor; os vigias da noite foram chamados às suas masmorras e salões profundos, e os vigias diurnos, cruéis e com olhares malignos, marchavam para seus postos. O aço reluzia fracamente sobre a muralha.
— Bem, aqui estamos — disse Sam. — Aí está o Portão, e agora me parece que não conseguiremos ir mais adiante. Palavra de honra, o Feitor teria uma ou duas coisas a dizer se me visse agora! Sempre dizia que eu me sairia mal, se não olhasse por onde andava, dizia sim. Mas agora não suponho que verei o velho outra vez. Ele não vai ter a oportunidade para um Eu te disse, Sam: tanto pior. Eu o deixaria continuar falando enquanto tivesse fôlego, se pudesse ver seu velho rosto de novo. Mas primeiro precisaria de um banho, caso contrário ele não me reconheceria.
— Acho que não adianta perguntar “que caminho tomaremos agora?”. Não podemos ir adiante – a não ser que queiramos pedir aos orcs uma carona.
— Não, não! — disse Golum. — Não adianta. Não podemos ir adiante. Sméagol disse. Ele disse: vamos até o Portão, e depois veremos. E estamos vendo. Oh, sim, meu precioso, estamos vendo. Sméagol sabia que os hobbits não podiam vir por aqui. Oh, sim, Sméagol sabia.
— Então por que raios nos trouxe até aqui? — disse Sam, sem disposição para ser justo ou razoável.
— O mestre mandou, o mestre diz: Leve-nos ao Portão. Aí o bom Sméagol faz isso. O mestre mandou, mestre sábio.
— Mandei — disse Frodo. Seu rosto estava fechado e sinistro, mas resoluto. Estava sujo, desfigurado e moído de cansaço, mas deixara de se curvar, e tinha os olhos límpidos. — Eu mandei, porque pretendo entrar em Mordor, e não conheço outro caminho. Portanto, vou por aqui. Não peço que ninguém me acompanhe.
— Não, não, mestre! — gemeu Golum, dando-lhe uns tapinhas leves e demonstrando uma grande perturbação. — Não adianta ir por aqui! Não adianta! Não leve o Precioso para Ele. Ele vai nos devorar, se consegui-lo, devorar todo o mundo. Guarde-o, querido mestre, e seja bom para Sméagol. Não deixe que Ele o tenha. Ou vá embora, vá para lugares agradáveis e devolva-o ao Sméagolzinho. Sim, sim, mestre: devolvê-lo. Que tal? Sméagol vai Mantê-lo a salvo: vai fazer um monte de coisas boas, especialmente para hobbits bonzinhos. Hobbits vão para casa, não vão para o Portão!
— Recebi ordens de ir à terra de Mordor, e portanto irei — disse Frodo. — Se só há um caminho, então deverei tomá-lo. Aconteça o que acontecer.
Sam não disse nada. O olhar no rosto de Frodo foi o suficiente para ele; sabia que suas palavras seriam inúteis. E, afinal de contas, não tivera qualquer esperança verdadeira na história toda desde o inicio; mas sendo um hobbit alegre não precisou de esperança, enquanto o desespero pôde ser prorrogado.
Agora tinham atingido o mais amargo fim. Sam permanecera ao lado de seu mestre o tempo todo; esse era o motivo principal de sua vinda, por isso continuaria ao lado dele. Seu mestre não iria a Mordor sozinho. Sam iria com ele — e de qualquer forma os dois se livrariam de Golum.
Golum, entretanto, não pretendia deixar que se livrassem dele, por enquanto. Ajoelhou-se aos pés de Frodo, torcendo as mãos e guinchando.
— Não por aqui, mestre! — implorava ele. — Há um outro caminho. Oh, sim, há. Outro caminho, mais escuro, mais difícil de encontrar, mais secreto. Mas Sméagol o conhece. Deixe que Sméagol lhe mostre.
— Outro caminho! — disse Frodo desconfiado, voltando-se para Golum com olhos perscrutadores.
— Ssssim! Ssim, é verdade! Havia um outro caminho. Sméagol o encontrou. Vamos ver se ainda está lá!
— Você não o mencionou antes.
— Não, o mestre não pediu. O mestre não disse o que pretendia fazer. Ele não conta para o pobre Sméagol. Ele diz: Sméagol, leve-me ao Portão – e depois adeus! Sméagol pode fugir e ser bonzinho. Mas agora ele diz: pretendo entrar em Mordor por este caminho. Então Sméagol está com muito medo. Não quer perder o mestre bonzinho. E ele prometeu, o mestre o fez prometer, salvar o Precioso. Mas o mestre vai levá-lo direto para Ele, direto para a Mão Negra, se o mestre for por aqui. Então Sméagol precisa salvar os dois, e pensa num outro caminho que havia, uma vez. Mestre bonzinho. Sméagol muito bom, sempre ajuda.
Sam franziu a testa. Se pudesse perfurar Golum com os olhos, teria perfurado. Sua mente se enchia de dúvidas. Ao que parecia, Golum estava verdadeiramente preocupado e ansioso por ajudar Frodo. Mas Sam, lembrando o debate que ouvira, achava difícil acreditar que o Sméagol há muito submerso tivesse saído vencedor: de qualquer forma, aquela voz não dissera a última palavra no debate. Sam supunha que as metades Golum e Sméagol (ou, como ele as denominava em sua mente, Caviloso e Fedegoso) tinham feito uma trégua e uma aliança temporária: nenhuma das partes queria que o Inimigo obtivesse o Anel; ambas desejavam evitar que Frodo fosse capturado, e mantê-lo sob sua vista, enquanto fosse possível — pelo menos enquanto Fedegoso tivesse uma chance de colocar as mãos em seu “Precioso”. Que houvesse realmente um outro caminho de entrada para Mordor Sam duvidava.
“O bom é que nenhuma das metades do velho vilão sabe o que o mestre pretende fazer”, pensou ele. “Se ele soubesse que o Sr. Frodo está tentando pôr um fim em seu Precioso de uma vez por todas, haveria problemas logo, logo, eu aposto. De qualquer forma, o velho Fedegoso está com tanto medo do Inimigo — e está obedecendo a algum tipo de ordem dele, ou estava — que preferiria nos entregar a ser pego nos ajudando, ou talvez a permitir que seu precioso fosse derretido. Pelo menos é isso que penso. E espero que o mestre considere o assunto com cuidado. Sabedoria não lhe falta, mas tem o coração mole, esse é o jeito dele. Está fora do alcance de qualquer Gamgi adivinhar o que ele fará em seguida.”
Frodo não respondeu a Golum imediatamente. Enquanto essas dúvidas passavam através da mente de Sam, que era vagarosa mas perspicaz, ele ficou parado, olhando na direção do escuro penhasco de Cirith Gorgor. A concavidade na qual tinham-se refugiado era cavada na encosta de uma colina baixa, um pouco acima de um vale comprido em forma de trincheira, que se abria entre ela e o contraforte externo das montanhas. No meio do vale ficavam os negros alicerces da torre de vigia ocidental. À luz do dia as estradas que convergiam para o Portão de Mordor eram agora bem visíveis, claras e poeirentas; uma retornando numa curva para o norte; outra sumindo ao leste, para dentro da névoa que se adensava aos pés de Ered Lithuí; e uma terceira que vinha em sua direção. Conforme desenhava uma curva brusca em torno da torre, a estrada prosseguia por um desfiladeiro estreito passando não muito abaixo da concavidade onde Frodo estava. A oeste, à sua direita, fazia uma curva, margeando os ombros das montanhas, e seguia para o sul, entrando nas profundas sombras que cobriam todas as encostas do lado oeste das Epliel Dúath; além do alcance da vista, ela continuava adiante, entrando na terra estreita entre as montanhas e o Grande Rio.
Conforme olhava, Frodo percebeu que havia uma grande agitação e movimento na planície. Era como se exércitos inteiros estivessem marchando, embora em sua maioria fossem escondidos pelos vapores e pela fumaça que subia dos brejos e das regiões desoladas mais adiante. Mas em alguns pontos ele captava o reluzir de lanças e capacetes; e sobre as áreas planas ao lado das estradas podiam-se ver cavaleiros avançando em muitos grupos. Frodo se lembrou da visão que tivera à distância, quando estivera sobre o Amon Hen, havia apenas poucos dias, embora agora lhe parecesse que fora muitos anos atrás. Então se deu conta de que era vã a esperança que se agitara em seu coração por um momento alucinado. As trombetas não tinham soado em desafio, mas em saudação. O Senhor do Escuro não estava sendo atacado pelos homens de Gondor, erguendo-se, como fantasmas vingadores, de túmulos onde a coragem havia muito tempo estava sepultada.
Estes eram homens de outra raça, vindos das selvagens terras do leste, reunindo-se ao chamado de seu Senhor Supremo; exércitos que tinham acampado diante de seu Portão durante a noite e agora marchavam para aumentar seu poder crescente. Como se de súbito percebesse completamente o perigo da posição deles, sozinhos, à luz crescente do dia, tão próximos daquela ameaça devastadora, Frodo puxou rápido seu frágil capuz cinzento sobre a cabeça, e desceu para dentro do valezinho. Depois voltou-se para Golum.
— Sméagol — disse ele. — Vou confiar em você mais uma vez. Na verdade, parece que devo fazer isso, e que é meu destino receber sua ajuda, quando menos esperava, e que o seu destino é me ajudar, a mim, que você perseguiu por tanto tempo com propósitos malignos. Até agora, você honrou minha confiança e manteve sua promessa com sinceridade. Com sinceridade, eu digo e repito — acrescentou ele, com um olhar para Sam. — Por duas vezes agora estivemos em suas mãos, e você não nos fez mal. Nem tentou tomar de mim aquilo que outrora buscava. Que a terceira vez seja a melhor! Mas eu o aviso, Sméagol, você está correndo perigo.
— Sim, sim, mestre! — disse Golum. — Perigo terrível! Os ossos de Sméagol tremem só de pensar, mas ele não foge. Precisa ajudar o mestre bonzinho.
— Não quero dizer o perigo que todos nós corremos — disse Frodo. — Estou dizendo um perigo que você corre sozinho. Você fez uma promessa em nome daquilo que chama o Precioso. Lembre-se disso! Isso o une a ele. Mas ele vai procurar um jeito de deformar suas palavras para que você mesmo traia a promessa e encontre a desgraça. Você já está sendo forçado. Revelou-se a mim agora há pouco, de maneira tola. Devolva-o para Sméagol, você disse. Não diga isso de novo! Não permita que esse pensamento cresça em seu íntimo! Você nunca vai tê-lo de volta. Mas o desejo de possuí-lo pode atraiçoá-lo e conduzi-lo a um fim amargo. Você nunca vai tê-lo de volta. Em extrema necessidade, Sméagol, eu colocaria no dedo o Precioso, e o Precioso o dominou há muito tempo. Se eu, usando-o, precisasse comandá-lo, você obedeceria, mesmo que fosse para pular de um precipício ou se jogar no fogo. E esta seria minha ordem. Então, tome cuidado, Sméagol!
Sam lançou para seu mestre um olhar de aprovação, misturado com surpresa: havia uma expressão em seu rosto e um tom em sua voz que ele nunca percebera antes. Sempre lhe parecera que a gentileza do caro Sr. Frodo era tanta que deveria implicar uma grande dose de cegueira. É claro que ele também tinha a incompatível certeza de que o Sr. Frodo era a pessoa mais sábia do mundo (talvez com exceção do velho Sr. Bilbo e de Gandalf). Golum, à sua própria maneira e com muito mais ressalvas, por conhecer Frodo por menos tempo, pode ter cometido o mesmo equívoco, confundindo gentileza com cegueira. De qualquer forma, as palavras de Frodo o consternaram e apavoraram. Começou a rastejar no chão, sem conseguir falar qualquer coisa inteligível além de mestre bonzinho.
Frodo esperou pacientemente por um tempo, e então falou outra vez com menos severidade.
— Vamos agora, Golum, ou Sméagol, se deseja assim, fale-me sobre esse outro caminho, e me mostre, se puder, que esperança há nele, suficiente para justificar meu desvio do caminho direto. Estou com pressa.
Mas Golum estava num estado lastimável, e a ameaça de Frodo o debilitara. Não foi fácil arrancar dele qualquer relatório, entre seus balbúcios e chiados e as frequentes interrupções durante as quais ele rastejava no chão e implorava para que os dois fossem gentis para com o “pobrezinho do Sméagol”. Depois de um tempo ficou um pouco mais calmo, e lentamente Frodo ficou sabendo que se um viajante seguisse a estrada que virava a oeste das Ephel Dúath, chegaria depois de um tempo a uma encruzilhada em meio a um circulo de árvores escuras. À direita uma estrada descia a Osgiliath e às pontes do Anduin; no meio a estrada conduzia para o sul.
— Sempre em frente, toda a vida — disse Golum. — Nós nunca fomos por aquele caminho, mas dizem que ele continua por umas cem léguas, até que você vê a Grande Água que nunca está parada. Há um monte de peixes lá, e pássaros grandes comem peixes, pássaros bonzinhos: mas nunca fomos lá, infelizmente não!, nunca tivemos uma oportunidade. E mais adiante tem mais terras, eles dizem, mas o Cara Amarela é muito quente lá, e quase nunca há nuvens, e os homens são cruéis e têm caras escuras. Não queremos ver aquela terra.
— Não — disse Frodo. — Mas não se desvie de sua rota. E o terceiro caminho?
— Ah, sim, ah, sim, há um terceiro caminho — disse Golum. — É a estrada à esquerda. Começa logo a subir, subir, virando e subindo de volta na direção das sombras altas. Quando contornar a pedra preta, o senhor vai ver, de repente vai ver diante do senhor, e vai querer se esconder.
— Ver, ver? Ver o quê?
— A velha fortaleza, muito velha, muito horrível agora. Costumávamos ouvir histórias do sul, quando Sméagol era jovem, há muito tempo. Oh, sim, costumávamos contar um monte de histórias à noite, sentados às margens do Grande Rio, nas terras dos salgueiros, quando o Rio também era mais jovem, Golum, Golum.
Começou a chorar e resmungar. Os hobbits esperaram pacientemente.
— Histórias do sul — Golum continuou —, sobre os homens altos com olhos brilhantes, e suas casas como colinas de pedra, e a coroa de prata do rei deles e sua Árvore Branca: histórias maravilhosas. Construíram torres muito altas, e uma delas era prateada, e nela havia uma pedra como a lua, e em volta havia grandes muralhas brancas. Oh, sim, havia muitas histórias sobre a Torre da Lua.
— Seria Minas Ithil, que Isildur, filho de Elendil, construiu — disse Frodo. — Foi Isildur quem decepou o dedo do Inimigo.
— Sim, Ele só tem quatro na Mão Negra, mas são suficientes — disse Golum tremendo. — E Ele odiava a cidade de Isildur.
— E o que Ele não odeia? — disse Frodo. — Mas o que tem a Torre da Lua a ver conosco?
— Bem, mestre, ela estava lá, e está agora: a torre alta, e as casas brancas e a muralha; mas não novas agora, não bonitas. Ele a conquistou há muito tempo. Agora é um lugar terrível. Os viajantes estremecem ao avistá-la, escondem-se sorrateiramente, evitam sua sombra. Mas o mestre precisará ir por ali. É o único caminho alternativo. Pois lá as montanhas são mais baixas, e a velha estrada sobe sempre, até atingir uma passagem escura no topo, e então desce, desce outra vez – até Gorgoroth. — A voz de Golum se transformou num sussurro e ele estremeceu.
— Mas qual será a vantagem? — perguntou Sam. — Com certeza, o Inimigo sabe tudo sobre suas próprias montanhas, e aquela estrada estará sendo tão vigiada quanto esta. A torre não está vazia, está?
— Oh, não, não vazia! — sussurrou Golum. — Parece vazia, mas não está. Oh, não! Seres horripilantes vivem lá. Orcs, sim, sempre os orcs; mas bichos piores, bichos piores vivem lá também. A estrada sobe direto sob a sombra das muralhas e passa pelo portão. Nada se move na estrada sem que eles saibam. Os bichos lá dentro sabem: os Vigilantes Silenciosos.
— Então esse é o seu conselho, hein? — disse Sam. — Que devemos fazer outra longa marcha em direção ao sul, para nos vermos na mesma enrascada ou numa ainda pior quando chegarmos lá, se por acaso conseguirmos?
— Não, na verdade não — disse Golum. — Os hobbits precisam ver, precisam tentar entender. Ele não espera ser atacado por aquele lado. Seu Olho está por toda a volta, mas dá mais atenção a alguns lugares que a outros. Ele não pode ver tudo ao mesmo tempo, ainda não. Vejam vocês. Ele conquistou toda a região a oeste das Montanhas da Sombra até o Rio, e agora se apossou das pontes. Acha que ninguém pode atingir a Torre da Lua sem travar uma grande batalha nas pontes, ou sem usar um monte de barcos que será impossível esconder e de que Ele saberá.
— Parece que você sabe muita coisa sobre o que Ele está fazendo e pensando — disse Sam. — Tem conversado com Ele ultimamente? Ou passado horas agradáveis com os orcs?
— Hobbit não bonzinho, não sensato — disse Golum, lançando um olhar furioso para Sam e dirigindo-se a Frodo. — Sméagol conversou com os orcs, sim, é claro, antes de encontrar o mestre, e com vários povos: caminhou muito. E o que diz agora muitos povos estão dizendo. É aqui, no norte, que está o maior perigo dele, e o nosso. Um dia Ele virá ao Portão Negro, em breve. Grandes exércitos só podem vir por este caminho. Mas lá no oeste Ele nada teme, e há os Vigilantes Silenciosos.
— Certamente! — disse Sam, não se dando por vencido. — Então nós vamos subir e bater nos portões deles e perguntar se estamos na estrada certa para Mordor? Ou eles são silenciosos demais para responder? Não faz sentido. É melhor fazermos isso aqui, poupando uma longa viagem.
— Não faça piada sobre isso — chiou Golum. — Não é nada engraçado! Não é não! Não é divertido. Não faz sentido tentar entrar em Mordor de jeito nenhum. Mas se o mestre diz eu preciso ir ou eu irei, então devemos tentar de alguma forma. Mas ele não precisa ir à terrível cidade, isso não, é claro que não. É aí que entra a ajuda de Sméagol, Sméagol bonzinho, embora ninguém conte para ele o que está acontecendo. Sméagol ajuda de novo. Ele achou. Ele sabe.
— O que é que você achou? — perguntou Frodo.
Golum se agachou e sua voz se transformou de novo num sussurro.
— Uma pequena trilha que sobe até as montanhas; depois uma escada, uma escada estreita, ah, sim, muito comprida e estreita. E depois mais escadas. E depois — a voz ficou ainda mais baixa — um túnel, um túnel escuro; e finalmente uma pequena fissura, e uma trilha bem acima da trilha principal. Foi por ali que Sméagol saiu da escuridão. Mas isso foi anos atrás. A trilha pode ter desaparecido agora; mas talvez não, talvez não.
— Isso não me soa nada bem — disse Sam. — De qualquer forma, você contando parece fácil demais. Se essa trilha ainda está lá, também estará sendo vigiada. Ela não era vigiada, Golum? — Conforme dizia isso, percebeu, ou imaginou perceber, um brilho verde nos olhos dele. Golum resmungou, mas não respondeu.
— Não é vigiada? — perguntou Frodo com rispidez. — E você escapou da escuridão, Sméagol? Ou será que teve permissão de partir, na verdade, em alguma missão? Pelo menos foi isso o que pensou Aragorn, que o encontrou nos Pântanos Mortos alguns anos atrás.
— Isso é mentira! — chiou Golum, e uma luz maligna surgiu em seus olhos à menção do nome de Aragorn. — Ele mentiu a meu respeito, mentiu. Na verdade eu escapei, sem que ninguém me ajudasse. De fato, foi-me ordenado que procurasse o Precioso; e eu procurei e procurei, é claro que eu procurei. Mas não para o Senhor do Escuro. O Precioso era nosso, era meu, digo a vocês. Eu realmente escapei.
Frodo teve uma estranha certeza de que, nesse assunto, pela primeira vez Golum não estava tão longe da verdade como se poderia suspeitar; de que de alguma forma ele tinha encontrado um modo de escapar de Mordor, e de que pelo menos acreditava que tinha sido por sua própria esperteza. Como primeiro sinal de evidência, Frodo notou que Golum usou eu, e isso parecia geralmente ser um sinal, em suas raras manifestações, de que alguns resquícios de uma antiga sinceridade estavam predominando naquele momento. Mas, mesmo se pudesse confiar em Golum nesse ponto, Frodo não se esquecia dos ardis do Inimigo. A “escapada” poderia ter sido permitida ou arranjada, com o consentimento da Torre Escura. De qualquer forma, era visível que Golum estava ocultando muita coisa.
— Pergunto outra vez — disse ele — esse caminho secreto não é vigiado?
Mas a menção do nome de Aragorn deixara Golum de mau humor. Exibia todo o ar injuriado de um mentiroso do qual se suspeita na primeira vez em que ele diz a verdade, ou parte dela. Não respondeu.
— Não é vigiada? — repetiu Frodo.
— Sim, sim, talvez. Não há lugares seguros nesta região — disse Golum num tom zangado. — Nenhum lugar seguro. Mas o mestre precisa tentar, ou ir para casa. Não há outra saída.
Não conseguiram arrancar-lhe mais nada. O nome do local perigoso e da passagem alta ele não podia, ou não estava disposto a dizer.
O nome era Cirith Ungol, um nome de terrível repercussão. Aragorn talvez pudesse ter-lhes dito esse nome e seu significado; Gandalf os teria advertido. Mas estavam sozinhos, e Aragorn estava distante; Gandalf se encontrava em meio às ruínas de Isengard, lutando contra Saruman, atrasado pela traição. Apesar disso, no momento em que dizia suas últimas palavras a Saruman, e o palantír explodia em chamas contra os degraus de Orthanc, seus pensamentos se voltavam para Frodo e Samwise; através de longas léguas sua mente os procurava, com esperança e pena.
Talvez Frodo tenha sentido isso, sem perceber, como acontecera sobre o Amon Hen, apesar de acreditar que Gandalf tinha partido, partido para sempre dentro das sombras, na distante região de Moria.
Sentou-se no chão por um longo tempo com a cabeça abaixada, lutando para recordar tudo o que Gandalf lhe dissera. Mas para essa escolha não conseguia lembrar de conselho algum. Na verdade, a orientação de Gandalf lhes fora tomada cedo demais, quando a Terra Escura ainda estava muito distante. Como finalmente entrariam nela Gandalf não dissera. Talvez não pudesse dizer. A entrar na fortaleza do Inimigo no norte, em Doí Guldur, ele certa vez se aventurara. Mas em Mordor, na Montanha de Fogo e em Barad-dûr, desde que o Senhor do Escuro se alçara em poder novamente, teria ele se aventurado ali? Frodo achava que não. E ali ele era um insignificante pequeno do Condado, um simples hobbit do pacifico interior, do qual se esperava que encontrasse um caminho pelo qual os grandes não podiam, ou não ousavam passar. Era um destino cruel.
Mas Frodo o assumira em sua própria sala de estar, na distante primavera de um outro ano, tão remota agora que parecia um capitulo na história da juventude do mundo, quando as Árvores de Prata e de Ouro ainda estavam em flor. Era uma escolha cruel. Que caminho deveria escolher? E se os dois conduzissem ao terror e à morte, que vantagem havia na escolha?


O dia passou. Um silêncio profundo caiu sobre a concavidade cinzenta onde eles estavam, tão próxima das fronteiras da terra do medo: um silêncio perceptível, como se fosse um véu espesso que os isolava de todo o mundo ao redor. Coberta de fumaça fugidia, estendia-se uma cúpula de céu pálido, mas parecia alta e distante, como se vista através de grandes camadas de ar impregnadas de meditações soturnas. Nem mesmo uma águia voando a favor do sol teria notado os hobbits sentados ali, sob o peso do destino, silenciosos, imóveis, ocultos por suas capas cinzentas. Poderia, por um momento, ter parado para observar Golum, uma figura miúda esparramada no chão: ali talvez estivesse o esqueleto minguado de algum filho dos homens, com a veste rasgada ainda presa ao corpo, os longos braços e pernas quase tão brancos e finos como ossos: nenhuma carne que valesse uma bicada.
Frodo estava com a cabeça apoiada nos joelhos, mas Sam se recostara, com as mãos atrás da cabeça, olhando de seu capuz para o céu vazio. Pelo menos, por um longo tempo permanecera vazio. Então, de repente, Sam pensou ter visto uma figura semelhante a um pássaro rodopiar para dentro de seu campo de visão, e planar, para depois fazer outro rodopio. Duas outras a seguiram, e depois uma quarta. Eram muito pequenas para os olhos, mas ele sabia, de alguma forma, que eram enormes, com uma ampla envergadura, voando a grandes alturas. Sentiu o mesmo medo preventivo que sentira na presença dos Cavaleiros Negros, o terror desamparado que lhe chegara junto com o grito do vento e a sombra sobre a lua, embora naquele momento essas sensações não fossem tão esmagadoras ou constrangedoras: a ameaça era mais remota. Mas era uma ameaça.
Frodo também a sentiu. Seu pensamento foi interrompido. Seu corpo se agitou e estremeceu, mas ele não ergueu os olhos. Golum se encolheu todo como uma aranha acuada. As formas aladas rodopiaram, e baixaram rapidamente, voltando depressa para Mordor.
Sam respirou fundo.
— Os Cavaleiros estão rondando outra vez, lá no céu — disse ele num sussurro rouco. — Eu os vi. Vocês acham que eles conseguiram nos ver? Estavam voando muito alto. E se são Cavaleiros Negros, os mesmos de antes, não conseguem ver muita coisa à luz do dia, conseguem?
— Não, talvez não — disse Frodo. — Mas os cavalos enxergavam. E essas criaturas aladas que eles montam agora provavelmente podem enxergar melhor do que qualquer outra criatura. São como grandes pássaros carniceiros. Estão procurando algo: o Inimigo está vigiando, eu receio.
A sensação de medo passou, mas o silêncio que os envolvia foi quebrado. Por algum tempo eles estiveram isolados do mundo, como se numa ilha invisível; agora jaziam sem proteção de novo, o perigo retornara. Mas Frodo ainda não dissera nada a Golum, nem fizera sua escolha. Tinha os olhos fechados, como se estivesse sonhando, ou olhando para dentro de seu coração e de sua memória. Finalmente se mexeu e levantou-se, e parecia que estava prestes a falar e decidir.
— Mas, escutem — disse ele. — O que é isso?
Um novo temor se apoderou deles. Ouviram o som de cantorias e gritos roucos. Primeiro parecera muito distante, mas foi se aproximando.
Assaltou-os o pensamento de que os Asas Negras os tinham visto e enviado soldados armados para capturá-los: nenhuma velocidade parecia demasiada para aqueles terríveis servidores de Sauron.
Os três se agacharam e ficaram escutando. As vozes e o tinido de armas e armaduras estavam muito próximos. Frodo e Sam afrouxavam suas pequenas espadas nas bainhas. Era impossível fugir.
Golum se ergueu lentamente e se arrastou como um inseto até a borda da concavidade. Com todo cuidado, ergueu-se centímetro por centímetro, até conseguir espiar por entre duas pontas quebradas na rocha. Permaneceu ali imóvel por algum tempo, sem fazer qualquer ruído. De repente as vozes começaram a diminuir outra vez, e então lentamente sumiram. Distante, uma trombeta soou sobre os contrafortes do Morannon.
Depois Golum silenciosamente recuou e escorregou para dentro da concavidade.
— Mais homens indo para Mordor — disse ele em voz baixa. — Caras escuras. Nunca tínhamos visto homens como esses antes, não, Sméagol nunca viu. São cruéis. Têm olhos negros, e longos cabelos negros, e argolas de ouro nas orelhas; sim, um monte de ouro bonito. E alguns têm tinta vermelha nas faces, e capas vermelhas; e levam bandeiras vermelhas, e vermelhas são as pontas de suas lanças; e têm escudos redondos, amarelos e negros com grandes cravos. Não são bonzinhos; parecem homens muito, muito cruéis. Quase tão maus quanto os orcs, e muito maiores. Sméagol acha que eles vieram do sul, de além do fim do Grande Rio: vieram por aquela estrada. Passaram pelo Portão Negro; mas outros podem segui-los. Cada vez mais gente vindo para Mordor. Um dia, todos os povos estarão lá dentro.
— Você viu algum olifante? — perguntou Sam, esquecendo o medo em sua avidez por novidades de lugares estranhos.
— Não, nenhum olifante. O que são olifantes? — disse Golum.
Sam levantou-se e, com as mãos para trás (como sempre fazia quando “falava poesia”), começou:

Qual rato, sou cinzento,
Sou grande, um monumento,
Nariz feito um laço,
A terra tremer eu faço,
Quando piso na relva;
Galhos quebro na selva.
Tenho chifre no dente
E caminho pra frente,
Orelhonas abano
Entra ano, sai ano,
O chão piso sem jeito,
Mas no chão nunca deito,
Nem que a morte me tome.
Olifante é meu nome,
Maior de todos, penso,
Alto, velho, sou imenso.
Quem um dia me conhece
De mim jamais se esquece.
Quem não tem essa dita
Em mim não acredita;
Mas sou um Olifante antigo,
Mentir não é comigo.

— Essa — disse Sam, quando terminou de recitar, essa é uma rima que temos no Condado. Besteira, talvez, ou talvez não. Mas também temos nossas histórias, e notícias vindas do sul, você sabe. Antigamente os hobbits costumavam viajar de vez em quando. Não que muitos tenham retornado, e não que se acreditasse em tudo o que diziam: notícias de Bri, e não certeza de conversa do Condado, como dizem os ditados. Mas ouvi histórias sobre as pessoas grandes lá das Terras do Sol. Nós os chamamos de Morenos em nossas histórias; e eles montam em olifantes, pelo que se diz, quando lutam. Colocam casas e torres nos lombos dos olifantes, e os olifantes jogam pedras e árvores uns nos outros. Por isso, quando você disse “Homens do Sul, todos de vermelho e dourado”, eu disse “você viu algum olifante?”. Pois se tivesse visto, eu ia dar uma olhada, com ou sem risco. Mas agora acho que nunca verei um olifante. Talvez nem exista um animal assim — Sam suspirou.
— Não, nenhum olifante — disse Golum outra vez. — Sméagol nunca ouviu falar deles. Não quer vê-los. Não quer que eles existam. Sméagol quer sair daqui para se esconder em algum lugar mais seguro. Sméagol quer que o mestre vá. Mestre bonzinho, não virá com Sméagol?
Frodo se levantou. Tinha rido em meio a todas a s suas preocupações, quando Sam repetiu a velha rima caseira do olifante, e o riso o libertara de sua hesitação.
— Gostaria de ver mil olifantes, com Gandalf em cima de um branco vindo à frente — disse ele. — Então talvez pudéssemos abrir um caminho nesta terra maligna. Mas não vimos nada disso: só temos nossas próprias pernas cansadas, e isso é tudo. Bem, Sméagol, a terceira vez pode ser a melhor. Vou com você.
— Bom mestre, mestre sábio, mestre bonzinho! — gritou Golum deliciado, dando tapinhas nos joelhos de Frodo. — Bom mestre! Então descansem agora, hobbits bonzinhos, na sombra das pedras, bem debaixo das pedras! Descansem e deitem-se quietos, até que o Cara Amarela vá embora. Então poderemos ir rapidamente. Macio e rápido, como devem ir as sombras.

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