2 de abril de 2016

Capítulo III - O Anel vai para o Sul


Mais tarde naquele dia, os hobbits fizeram uma reunião no quarto de Bilbo. Merry e Pippin ficaram indignados ao saber que Sam tinha se esgueirado para dentro da sala do Conselho sem ser visto, e fora escolhido como acompanhante de Frodo.
— É a coisa mais injusta que já ouvi — disse Pippin. — Em vez de expulsá-lo e acorrentá-lo, Elrond vai e o recompensa por esse descaramento!
— Recompensa! — disse Frodo. — Não posso imaginar uma punição pior. Você não sabe o que está dizendo: condenado a ir nessa viagem inútil, uma recompensa? Ontem sonhei que minha tarefa tinha sido cumprida, e que eu podia descansar aqui por um bom tempo, talvez para sempre.
— Não me admira — disse Merry. — Gostaria que você pudesse. Mas estamos com inveja de Sam, não de você. Se precisa ir, então será uma punição para qualquer um de nós ser deixado para trás, mesmo aqui em Valfenda. Viemos com você por uma longa estrada, e passamos maus pedaços. Queremos prosseguir.
— É isso que eu quis dizer — disse Pippin. — Nós hobbits devemos permanecer juntos. E vamos permanecer. Irei, a não ser que me acorrentem. Deve haver alguém inteligente no grupo.
— Então certamente você não será escolhido, Peregrin Túk! — disse Gandalf, que olhava através da janela próxima ao solo. — Mas todos vocês estão se preocupando sem necessidade. Nada está decidido ainda.
— Nada decidido! — gritou Pippin. — Então o que todos vocês estiveram fazendo? Ficaram trancados por horas.
— Conversando — disse Bilbo. — Houve muita conversa, e cada um descobriu um fato revelador. Até o velho Gandalf. Acho que a notícia de Legolas sobre Golhim o pegou despreparado, embora ele tenha disfarçado bem.
— Você se enganou — disse Gandalf. — Não estava prestando atenção. Eu já sabia do fato, por meio de Gwaihir. Se quiser saber, o único fato revelador, como você diz, deveu-se a você e Frodo; e eu fui o único que não se surpreendeu.
— Bem, de qualquer jeito — disse Bilbo — nada foi decidido a não ser a escolha dos pobres Frodo e Sam. Eu tinha receio todo o tempo de que isso pudesse acabar acontecendo, se eu ficasse livre. Mas, se quiserem saber, Elrond vai enviar um bom número de pessoas, quando os relatórios chegarem. Eles já partiram, Gandalf.
— Sim — disse o mago. — Alguns patrulheiros já foram enviados. Outros partirão amanhã. Elrond está enviando elfos, que vão entrar em contato com os guardiões, e talvez com o povo de Thranduil na Floresta das Trevas. E Aragorn partiu com os filhos de Elrond. Devemos fazer uma varredura por todas as terras da região, num raio de várias e várias milhas, antes de qualquer outra coisa. Então alegre-se, Frodo! Provavelmente, sua estada aqui será longa.
— Ah! — disse Sam, melancólico. — Vamos só esperar que o inverno chegue.
— Isso não se pode evitar — disse Bilbo. — Em parte a culpa foi sua, Frodo, meu rapaz: insistir em esperar pelo meu aniversário. Um jeito curioso de homenagear a data, não posso deixar de pensar. Não o jeito que eu teria escolhido para permitir que os S-Bs tomassem conta de Bolsão. Mas é isso: agora você não pode esperar até a primavera, e não pode partir até que as notícias cheguem.

Assim que o inverno chega e arrocha
E à noite o gelo quebra a rocha,
É negro o lago e nua a floresta,
No Ermo então vagar não presta.

— Mas receio que esse seja exatamente o seu destino.
— Acho que será — disse Gandalf. — Não podemos partir até sabermos o que aconteceu com os Cavaleiros.
— Pensei que tivessem todos sido destruídos na enchente — disse Merry.
— Não se pode destruir os Espectros do Anel tão facilmente — disse Gandalf. — Eles carregam o poder daquele a quem servem, e sua queda ou resistência depende dele. Esperamos que tenham todos ficado sem cavalos e sem máscaras, e dessa forma tenham se tornado menos perigosos por um tempo; mas precisamos ter certeza. Enquanto isso, você deve tentar esquecer os problemas, Frodo. Não sei se posso fazer alguma coisa para ajudá-lo, mas vou dizer isto aos seus ouvidos: alguém disse que o grupo precisará de inteligência. Essa pessoa estava certa. Acho que vou com você.
A alegria de Frodo ao ouvir isso foi tão grande que Gandalf deixou o batente da janela, onde estava sentado, tirou o chapéu e fez uma reverência.
— Eu só disse que acho que irei. Não conte com nada ainda. Sobre isso, Elrond terá muito a dizer, e também seu amigo, o Passolargo. O que me faz lembrar que quero ver Elrond. Preciso sair.
— Quanto tempo você acha que ficarei aqui? — perguntou Frodo a Bilbo depois que Gandalf saiu.
— Ah, eu não sei! Não consigo contar os dias em Valfenda — disse Bilbo. — Mas acho que um bom tempo. Podemos conversar bastante. Que tal me ajudar com meu livro, e começar o próximo? Já pensou num final?
— Sim, pensei em vários, e todos são sombrios e desagradáveis — disse Frodo.
— Ah, esses não vão servir — disse Bilbo. — Livros precisam ter finais felizes. Que tal este: e todos eles se acomodaram e viveram juntos, felizes para sempre?
— É um bom final, se algum dia chegar a acontecer — disse Frodo.
— Ah — disse Sam. — E onde eles vão viver? É nisso que sempre penso.
Por um tempo, os hobbits continuaram a conversar e a pensar na viagem passada e nos perigos que estavam à frente, mas a virtude da terra de Valfenda era tal, que logo todos os medos e ansiedades foram expulsos de suas mentes. O futuro, bom ou mau, não foi esquecido, mas deixou de ter qualquer poder sobre o presente. A saúde e a esperança cresceram nos hobbits, que ficavam felizes com a chegada de cada novo dia, apreciando cada refeição, cada palavra e cada canção.
Assim os dias passaram, com cada manhã surgindo bela e reluzente, e cada noite seguindo-a fresca e clara. Mas o outono estava se esvaindo rápido.
Lentamente, a luz dourada se apagou num prata pálido, e as últimas folhas caíram das árvores nuas. Um vento frio começou a soprar das Montanhas Sombrias em direção ao Leste. A Lua do Caçador se exibia redonda no céu noturno, fazendo inveja a todas as estrelas menores. Mas abaixo, no Sul, uma estrela brilhava vermelha. A cada noite, conforme a lua minguava de novo, ela brilhava mais e mais. Frodo podia vê-la de sua janela, profunda no céu, queimando como um olho atento que resplendia sobre as árvores na beira do vale.
Os hobbits já estavam havia quase dois meses na casa de Elrond; novembro tinha passado, levando os últimos resquícios do outono, e dezembro estava passando, quando os patrulheiros começaram a retornar. Alguns tinham ido para o Norte, além das cabeceiras do Fontegris, entrando na Charneca Etten; outros tinham ido para o Oeste, e com o auxílio de Aragorn e dos guardiões vasculharam as terras descendo o rio Cinzento e chegando a Tharbad, no ponto onde a antiga Estrada Norte atravessava o rio contornando as ruínas de uma cidade. Muitos tinham ido para o Leste e para o Sul; alguns desses tinham transposto as Montanhas e entrado na Floresta das Trevas, enquanto outros tinham subido pela passagem na nascente do Rio de Lis, descendo pelas Terras Ermas e chegando até os Campos de Lis, finalmente atingindo o antigo lar de Radagast em Rhosgobel. Radagast não estava lá, e eles voltaram pela passagem elevada que era chamada de Escada do Riacho Escuro. Os filhos de Elrond, Elladan e Elrohir, foram os últimos a retornar; tinham feito uma longa viagem, passando pelo Veio de Prata e entrando numa região estranha, mas só falaram sobre sua missão com Elrond.
Em parte alguma os mensageiros descobriram sinais ou notícias dos Cavaleiros ou de outros servidores do Inimigo. Nem as Águias das Montanhas Sombrias tinham notícias novas. Nada se ouviu ou viu sobre Gollum, mas os lobos selvagens ainda estavam se reunindo, outra vez empreendendo caçadas, chegando até a região do Grande Rio.
Três dos cavalos negros foram encontrados imediatamente, afogados na enchente do Vau. Nas pedras da correnteza mais abaixo, foram descobertos os cadáveres de mais cinco, e também um longo manto negro, furado e rasgado. Não se viu qualquer outro sinal dos Cavaleiros Negros, e em lugar algum sua presença foi sentida. Pareciam ter desaparecido do Norte.
— Dentre os Nove, podemos saber o que aconteceu com oito, pelo menos — disse Gandalf. — É arriscado ficarmos confiantes demais, mas acho que agora podemos ter esperanças de que os Espectros do Anel tenham sido dispersados, e obrigados a voltar, como puderam, ao seu Mestre em Mordor, vazios e sem forma.
— Se isso, for verdade, levará algum tempo até que consigam recomeçar a caçada. É claro que o Inimigo tem outros servidores, mas estes terão de viajar todo o percurso até as fronteiras de Valfenda antes de poder pegar nossa trilha. E se formos precavidos, será difícil encontrá-la. Mas não podemos demorar mais.
Elrond chamou os hobbits. Olhou gravemente para Frodo.
— Chegou a hora — disse ele. — Se o Anel deve partir, é preciso que vá agora. Mas os que o acompanham não devem confiar em que sua missão seja facilitada por alguma guerra ou força. Devem entrar no domínio do Inimigo sem ajuda. Você ainda mantém sua palavra, Frodo, de que será o Portador do Anel?
— Sim — disse Frodo. — Irei com Sam.
— Então não posso ajudá-lo em muita coisa, nem mesmo com conselhos — disse Elrond. — Consigo prever muito pouco do seu caminho, e como sua tarefa deve ser desempenhada eu não sei. A Sombra agora já chegou aos pés das Montanhas, e avança até a região próxima ao rio Cinzento; sob a Sombra tudo fica escuro aos meus olhos. Você vai deparar com muitos inimigos, alguns declarados, alguns disfarçados; e poderá encontrar amigos em seu caminho, quando menos esperar. Enviarei mensagens, quantas puder, para todos os que conheço pelo mundo afora; mas as terras hoje em dia se tornaram tão perigosas que algumas podem muito bem se extraviar, ou chegar depois de você.
“E escolherei pessoas para acompanhá-lo, até onde estejam dispostos ou até onde a sorte de cada um permita. O número deve ser pequeno, já que sua esperança repousa na velocidade e no segredo. Mesmo que eu tivesse uma horda de elfos providos com armaduras, como nos Dias Antigos, isso de pouco valeria, a não ser para acordar o poder de Mordor.
“A Comitiva do Anel deverá ser composta de Nove; e os Nove Andantes devem ser colocados contra os Nove Cavaleiros, que são maus. Com você e seu fiel servidor, Gandalf deve partir, pois esta será sua maior tarefa, e talvez o fim de seus trabalhos. Quanto aos restantes, devem representar os Povos Livres do Mundo: elfos, anões e homens. Legolas irá representando os elfos, e Gimli, filho de Glóin, representará os anões. Estão dispostos a ir no mínimo até as passagens das Montanhas, e talvez mais além. Representando os homens, você terá Aragorn, filho de Arathorn, pois o Anel de Isildur é de grande interesse para ele.
— Passolargo! — disse Frodo.
— Sim — disse ele com um sorriso. — Peço novamente permissão para ser seu companheiro, Frodo.
— Eu teria implorado que viesse comigo — disse Frodo — mas pensei que você iria para Minas Tirith com Boromir.
— E irei — disse Aragorn. — E a Espada-que-foi-Quebrada deverá ser reforjada antes que eu parta para a guerra. Mas sua estrada e a nossa serão a mesma por multas centenas de milhas. Portanto, Boromir também estará na Comitiva. É um homem valoroso.
— Restam mais dois — disse Elrond. — Nesses ainda vou pensar. Em minha própria casa poderei encontrar alguém que me agrade.
— Mas assim não restará lugar para nós! — gritou Pippin desanimado. — Não queremos ficar para trás. Queremos ir com Frodo.
— Isso porque vocês não entendem e não imaginam o que os espera pela frente — disse Elrond.
— Nem Frodo — disse Gandalf, inesperadamente apoiando Pippin. — Nem qualquer um de nós pode enxergar claramente. É verdade que se esses hobbits entendessem o perigo não ousariam ir. Mas ainda assim desejariam ir, ou desejariam ousar, ficando envergonhados e infelizes. Eu acho, Elrond, que nessa questão seria bom confiar mais na grande amizade deles do que na grande sabedoria. Mesmo que escolha para nós um senhor élfico, como Glorfindel, ele não poderia abalar a Torre Escura, nem abrir a estrada que conduz ao Fogo, por meio dos poderes que tem.
— Você fala sério — disse Elrond — mas estou em dúvida. O Condado, pelo que pressinto, não está livre de perigo; e pensei em mandar estes dois de volta como mensageiros, para fazer o que pudessem, de acordo com as maneiras de sua terra, para advertir as pessoas sobre o perigo que correm. De qualquer modo, julgo que o mais jovem dos dois, Peregrin Túk, deve permanecer. Meu coração é contra sua partida.
— Então, Mestre Elrond, o senhor terá de me acorrentar numa prisão, ou me mandar para casa amarrado num saco — disse Pippin. — Pois, de outro modo, seguirei a Comitiva.
— Então, que seja assim. Você irá — disse Elrond, e suspirou. — Agora a conta dos Nove está completa. Em sete dias, a Comitiva deve partir.

* * * * *

A Espada de Elendil foi reforjada por ferreiros élficos, e na lâmina foi inscrito o desenho de sete estrelas, colocadas entre a lua crescente e o sol raiado; em volta delas foram escritas várias runas, pois Aragorn, filho de Arathorn, ia guerrear nas fronteiras de Mordor. Muito brilhante ficou aquela espada depois de restaurada; nela a luz do sol reluzia vermelha, e a luz da lua brilhava fria, e seu gume era resistente e afiado. E Aragorn lhe deu um novo nome, chamando-a de Andúril, Chama do Oeste.
Aragorn e Gandalf andavam juntos ou se sentavam, conversando sobre a estrada e os perigos que encontrariam, e ponderando os mapas relatados e desenhados, e os livros de estudo que havia na casa de Elrond. Algumas vezes, Frodo ficava junto, mas estava satisfeito em apenas confiar na liderança deles, e passava o maior tempo possível com Bilbo.
Nesses últimos dias, os hobbits se sentavam juntos, à noite, no Salão do Fogo, e entre várias outras histórias ouviram a balada completa de Beren e Lúthien e da conquista da Grande Joia. Mas durante o dia, enquanto Merry e Pippin estavam dando voltas pelo lugar, Frodo e Sam podiam ser encontrados com Bilbo, em seu pequeno quarto. Nesses momentos, Bilbo lia passagens de seu livro (que ainda parecia bastante incompleto), ou rascunhos de seus versos, ou tomava nota das aventuras de Frodo.
Na manhã do último dia, Frodo estava sozinho com Bilbo, e o velho hobbit puxou uma caixa de madeira de debaixo da cama. Levantou a tampa e vasculhou dentro.
— Aqui está sua espada — disse ele.
— Mas ela foi quebrada, você sabe.
— Peguei-a para guardá-la a salvo, e me esqueci de perguntar se os ferreiros podiam consertá-la. Agora não há tempo. Então pensei que talvez gostasse de levar esta, o que acha?
Tirou da caixa uma pequena espada, que estava dentro de uma bainha de couro velha e desgastada. Então puxou-a, e a lâmina polida e bem cuidada reluziu de repente, fria e clara.
— Esta é Ferroada — disse ele, e enterrou-a fundo numa viga de madeira quase sem nenhum esforço. — Leve-a, se quiser. Não vou precisar dela outra vez, espero.
Frodo aceitou agradecido.
— Também há isto! — disse Bilbo, trazendo um pacote que parecia muito pesado em relação ao tamanho.
Desenrolou várias camadas de tecido velho e ergueu uma pequena camisa de malha metálica, tecida com muitos anéis bem próximos uns dos outros, quase tão flexível como o linho, fria como gelo, e mais resistente que o aço. Brilhava como a prata iluminada pela lua, e estava adornada com pedras brancas. Com ela havia um cinto de pérolas e cristal.
— É bonita, não é? — disse Bilbo, erguendo-a contra a luz. — E útil. É a malha dos anões que Thorin me deu. Peguei-a de volta em Grã Cava antes de partir, e a coloquei na bagagem. Trouxe comigo todas as lembranças de minha viagem, com exceção do Anel. Mas não esperava usar esta, e não preciso dela agora, a não ser para olhá-la algumas vezes. Você mal sente o peso quando a veste.
— Vou ficar... bem, acho que vou ficar estranho usando isso — disse Frodo.
— Exatamente o que eu disse para mim mesmo — disse Bilbo. — Mas não se importe com as aparências. Você pode usá-la embaixo da roupa. Vamos lá! Você tem de partilhar este segredo comigo. Não diga para mais ninguém! Mas eu ficaria feliz em saber que você a está usando. Imagino que ela entortaria até as espadas dos Cavaleiros Negros — concluiu ele em voz baixa.
— Muito bem, vou levá-la — disse Frodo.
Bilbo o vestiu com a malha, e prendeu Ferroada no cinto reluzente; então Frodo vestiu suas surradas calças, a túnica e o casaco.
— Você parece um simples hobbit — disse Bilbo. — Mas agora existe algo mais em você do que aparece na superfície. Boa sorte!
Voltou-se e olhou pela janela, tentando entoar uma melodia.
— Não sei como agradecer, Bilbo, por isso, e por toda a gentileza de sempre — disse Frodo.
— Não tente! — disse o velho hobbit, voltando-se e dando um tapinha nas costas de Frodo. — Ai! — gritou ele. — Agora você está muito rígido para esses tapinhas! Mas é isto: os hobbits devem permanecer juntos, principalmente os Bolseiros. Tudo o que peço em retribuição é isto: cuide-se o máximo que puder, e traga todas as notícias que conseguir. Farei o possível para terminar meu livro antes que volte. Gostaria de escrever o segundo livro, se puder.
Interrompeu o que dizia e voltou-se de novo para a janela, cantando baixinho.

Sentado ao pé do fogo
eu penso em tudo o que já vi,
flores do prado e borboletas,
verões que já vivi;
As teias e as folhas amarelas
de outonos de outros dias,
com névoa e sol pela manhã,
no rosto as auras frias.
Sentado ao pé do fogo eu penso
no mundo que há de ser com invernos
em primavera que um dia hei de ver
Porque há tanta coisa ainda
que nunca vi de frente:
em cada bosque, em cada fonte
há um verde diferente.
Sentado ao pé do fogo eu penso
em gente que se desfez,
e em gente que vai ver o mundo
que não verei de vez.
Mas enquanto sentado penso
em tanta coisa morta,
atento espero pés voltando
e vozes junto à porta.

* * * * *

Era uma manhã fria perto do final de dezembro. O Vento Leste soprava através dos ramos nus das árvores, agitando os escuros pinheiros sobre as montanhas. Nuvens desmanchadas corriam no céu, altas e baixas. Quando as sombras soturnas da noite começaram a cair, a Comitiva estava pronta para partir. Deviam começar a viagem com a chegada do crepúsculo, pois Elrond os havia aconselhado a seguir sob a proteção da noite sempre que pudessem, até estarem longe de Valfenda.
— Vocês devem temer os muitos olhos dos servidores de Sauron — disse ele. — Não duvido de que a notícia do desbaratamento dos Cavaleiros já tenha chegado até ele, que deve estar tomado de ira. Em breve seus espiões estarão espalhados nas terras do Norte, a pé e voando. Vocês devem se precaver até do céu que os cobre enquanto avançam no caminho.
A Comitiva levou poucos equipamentos de guerra, pois a esperança que tinha estava depositada no segredo, não na batalha. Aragom levou Andúril, e nenhuma outra arma, e seguiu vestindo apenas suas surradas roupas verdes e marrons, como um guardião das terras ermas. Boromir tinha uma espada longa, semelhante à de Aragom, mas de linhagem inferior, levando também um escudo e sua corneta de guerra.
— Ela soa alto e claro nos vales das colinas — disse ele — e assim faz com que todos os inimigos de Gondor fujam!
Colocando-a nos lábios, emitiu um clangor, cujos ecos reverberaram de pedra em pedra, e todos que escutaram aquela voz em Valfenda saltaram de pé.
— Você deve evitar tocar essa corneta novamente, Boromir — disse Elrond — até que esteja nas fronteiras da sua terra, e seja forçado por uma terrível necessidade.
— Talvez — disse Boromir. — Mas sempre toquei minha corneta antes de partir, e embora daqui para frente devamos andar protegidos pelas sombras, não partirei como um ladrão no meio da noite.
Apenas Gimli, o anão, vestia abertamente uma camisa curta de anéis de aço, pois os anões não se importavam em carregar peso; no seu cinto estava um machado de lâmina larga. Legolas levava um arco e uma aljava, e no cinto uma faca comprida e branca. Os hobbits mais jovens levavam as espadas que tinham trazido do túmulo, mas Frodo só levou Ferroada; o casaco de malha metálica, conforme o desejo de Bilbo, permaneceu escondido. Gandalf carregava seu cajado, mas amarrada ao longo de seu corpo estava a espada élfica, Glamdring, companheira de Orcrist, que estava agora depositada sobre o peito de Thorin, embaixo da Montanha Solitária.
Elrond forneceu a todos roupas grossas e pesadas, e eles levavam também casacos e mantos revestidos de pele. Roupas e mantimentos sobressalentes, juntamente com cobertores e outros artigos necessários, seriam carregados por um pônei, exatamente o pobre animal que tinham trazido de Bri.
A estada em Valfenda tinha operado uma mudança admirável nele: estava agora lustroso, e parecia ter recuperado o vigor da juventude. Foi Sam quem insistiu que o animal fosse o escolhido, declarando que Bill (como o chamava) pereceria se fosse deixado para trás.
— Aquele animal quase consegue falar — disse ele — e falaria, se permanecesse aqui por mais tempo. Lançou-me um olhar tão significativo quanto as palavras do Sr. Pippin: se não me deixar ir com você, Sam, vou segui-lo por minha própria conta.
Desse modo, Bill estava indo como animal de carga, e apesar disso era o único membro da Comitiva que não demonstrava sinais de depressão.
As despedidas foram feitas no grande salão perto da lareira, e agora eles estavam apenas esperando Gandalf, que ainda não tinha saído da casa.
O brilho do fogo das tochas vinha das portas abertas, e luzes suaves que brilhavam nas várias janelas. Bilbo, embrulhado numa capa, estava quieto na soleira da porta ao lado de Frodo. Aragom estava sentado com a cabeça tombada sobre os joelhos; apenas Elrond entendia completamente o que aquela hora significava para ele. Os outros podiam ser vistos como sombras cinzentas na escuridão.
Sam esperava ao lado do pônei, chupando os dentes e olhando taciturno para o escuro onde o rio rugia sobre as pedras abaixo; seu desejo de aventura nunca estivera em maré tão baixa.
— Bill, meu rapaz — disse ele — você não precisava nos acompanhar. Podia ter ficado aqui comendo o melhor feno até a grama nova nascer.
Bill abanou a cauda e não respondeu nada.
Sam ajeitou nos ombros o peso da mochila, relembrando ansiosamente todas as coisas que tinha colocado nela, tentando pensar se tinha esquecido algo: o tesouro mais precioso que carregava, seu equipamento de cozinhar, a pequena caixa com sal que ele sempre carregava e enchia toda vez que podia, um bom suprimento de erva-de-fumo (mas não o suficiente, eu garanto); pederneiras e material para alimentar o fogo, meias de lã, roupas de baixo, vários pequenos pertences de seu patrão que este esquecera e Sam tinha colocado na mochila para exibi-los em triunfo quando fossem requisitados. Checou todos os itens.
— Corda! — murmurou ele. — Não está levando corda! E ontem à noite você disse a si mesmo: “Sam, que tal um pedaço de corda? Você vai precisar, se não levar nenhum consigo.” Bem, vou precisar. Posso conseguir um pedaço agora.
Nesse momento, Elrond saiu com Gandalf, e chamou a Comitiva até ele.
— Esta é minha última palavra — disse ele em voz baixa. — O Portador do Anel está partindo na Demanda da Montanha da Perdição. Apenas sobre ele recaem exigências: de não se desfazer do Anel, nem entregá-lo a qualquer servidor do Inimigo, nem sequer deixar que qualquer pessoa o toque, com a exceção de membros da Comitiva e do Conselho, e mesmo assim apenas em caso de extrema necessidade. Os outros partem com ele como companheiros livres, para ajudá-lo no caminho. A vocês é permitido permanecer em algum ponto, ou voltar, ou desviar por outros caminhos, como o destino permitir. Quanto mais avançarem, mais difícil será recuar; apesar disso não lhes é impingido qualquer juramento ou compromisso de continuar além do que estiverem dispostos. Pois vocês ainda não conhecem a força dos próprios corações, e não podem prever o que cada um vai encontrar na estrada.
— Desonesto é aquele que diz adeus quando a estrada escurece — disse Gimli.
— Talvez — disse Elrond — mas não jure que caminhará no escuro aquele que não viu o cair da noite.
— Ainda assim, o juramento feito pode fortalecer o coração que treme — disse Ginili.
— Ou destruí-lo — disse Elrond. — Não olhem muito à frente! Mas partam agora com coragem nos corações! Adeus, e que a bênção dos elfos e dos homens e de todos os Povos Livres os acompanhe. Que as estrelas brilhem em seus rostos!
— Boa... boa sorte! — gritou Bilbo, tiritando de frio. — Não suponho que você consiga escrever um diário, Frodo, meu rapaz, mas vou estar esperando um relatório completo quando você voltar. E não demore muito! Boa viagem!
Muitos outros habitantes da casa de Elrond estavam nas sombras, e assistiam à partida da Comitiva, dando-lhes adeus em voz baixa. Não houve riso, nem canção ou musica.
Finalmente, fizeram uma curva e desapareceram, silenciosamente no crepúsculo.
Atravessaram a ponte e foram seguindo devagar ao longo dos caminhos íngremes que conduziam para fora do profundo vale de Valfenda. Finalmente atingiram o pântano alto, onde o vento chiava atravessando o urzal. Então, com um derradeiro olhar em direção à última Casa Amiga que piscava no escuro, caminharam para dentro da noite.
No Vau do Bruinen, deixaram a Estrada e, rumando para o Sul, continuaram por uma passagem estreita que cortava as dobras do solo.
O propósito deles era continuar nesse caminho a Oeste das Montanhas por muitas milhas e dias.
A região era muito mais árida e deserta, comparada ao vale do Grande Rio que ficava nas Terras Ermas, do outro lado da cordilheira, e a caminhada seria lenta; mas assim esperavam escapar da observação de olhos hostis. Os espiões de Sauron raramente tinham sido vistos até aquele momento nessa região vazia, e os caminhos eram pouco conhecidos, a não ser pelo povo de Valfenda.
Gandalf ia na frente, acompanhado por Aragorn, que conhecia a região até mesmo no escuro. Os outros iam atrás em fila, e Legolas, que enxergava muito bem, ia na retaguarda. A primeira parte da viagem foi dura e melancólica, e Frodo se lembraria muito pouco dela, a não ser pelo vento. Por muitos dias sem sol, um vento gelado soprou das Montanhas no Leste, e nenhuma roupa parecia capaz de impedir a penetração de seus dedos ávidos. Embora a Comitiva estivesse bem agasalhada, raramente se sentiam aquecidos, seja em movimento seja descansando. Dormiam mal acomodados no meio do dia, em alguma cavidade do terreno, ou escondidos embaixo do emaranhado de arbustos espinhosos que cresciam em moitas em vários lugares. No fim da tarde, eram acordados pelo vigia, e faziam sua refeição principal: geralmente fria e triste, pois raramente arriscavam acender uma fogueira. De noite, prosseguiam novamente, escolhendo sempre o caminho que conduzisse a um ponto mais próximo do Sul.
Num primeiro momento, os hobbits tiveram a impressão de que, embora caminhassem e tropeçassem até se sentirem exaustos, estavam se arrastando como lesmas, sem chegar a lugar algum. A cada novo dia, a região parecia ser a mesma do dia anterior. Mesmo assim, as montanhas chegavam cada vez mais perto. Ao Sul de Valfenda, elas se erguiam cada vez mais altas, e estendiam-se para o Oeste; e perto do pé da cordilheira principal expandia-se uma região cada vez mais ampla de colinas desoladas, e de vales profundos cheios de águas turbulentas. As trilhas eram raras e tortuosas, frequentemente conduzindo-os apenas até a beira de alguma cascata íngreme, ou a pântanos traiçoeiros.
Já estavam havia duas semanas na estrada, quando o tempo mudou. O vento de repente abrandou e tomou o rumo do Sul. As nuvens que passavam rápido subiram e se desmancharam; o sol apareceu, pálido e límpido. Alvoreceu um dia frio e claro, ao final de uma longa e difícil marcha noturna. Os viajantes atingiram uma cordilheira baixa, coroada por antigos azevinhos cujos troncos, de um verde acinzentado, pareciam ser feitos da mesma rocha das colinas. As folhas escuras brilhavam, e os frutos vermelhos resplandeciam à luz do sol nascente.
Mais adiante, ao Sul, Frodo podia ver as formas apagadas de montanhas imponentes, que pareciam agora obstruir o caminho que a Comitiva estava tomando. À esquerda dessas montanhas altas assomavam três picos; o mais alto e mais próximo deles se erguia como um dente coberto de neve; a encosta Norte, grande e deserta, ainda estava em sua maior parte coberta pelas sombras, mas nos pontos em que o sol já podia atingi-la via-se um brilho vermelho.
Gandalf parou ao lado de Frodo e olhou em volta, com a mão na testa.
— Saímo-nos bem — disse ele. — Chegamos aos limites da região que os homens chamam de Azevim; muitos elfos viveram aqui em dias mais felizes, quando o nome deste lugar era Eregion. Em linha reta, percorremos quarenta e cinco léguas, embora nossos pés tenham percorrido muitas milhas mais. A região e o clima ficarão agora mais amenos, mas talvez bem mais perigosos.
— Perigoso ou não, um nascer de sol de verdade é mais que bem-vindo — disse Frodo, jogando para trás o capuz e permitindo que a luz da manhã batesse em seu rosto.
— Mas as montanhas estão na nossa frente — disse Pippin. — Devemos ter rumado para o Leste durante a noite.
— Não — disse Gandalf — Mas você enxerga mais longe na luz do dia. Depois desses picos, a cordilheira faz uma curva em direção ao Sudoeste. Há muitos mapas na casa de Elrond, mas acho que você nunca se deu ao trabalho de dar uma olhada neles.
— Fiz isso algumas vezes — disse Pippin. — Mas não me lembro de quase nada. Frodo tem uma cabeça melhor para esse tipo de coisa.
— Não preciso de mapas — disse Gimli, que tinha alcançado Legolas, e estava olhando ao redor com um brilho estranho nos olhos profundos. — Ali está a região em que nossos pais trabalharam antigamente, e nós gravamos a figura dessas montanhas em muitos trabalhos de metal e pedra, e em muitas canções e histórias. As três montanhas se erguem altaneiras em nossos sonhos: Baraz, Zirak, Shathúr. Vi-as apenas uma vez, de longe, quando estava acordado, mas conheço as montanhas e seus nomes, pois sob elas está Khazad-dûm, a Mina dos Anões, que agora é chamada de Abismo Negro, Moria na língua dos elfos. Mais além fica Baraziribar, o Chifre Vermelho, o cruel Caradbras, e além dele ficam o Pico de Prata e o Cabeça de Nuvem: Celebdil, o Branco, e Fanuidhol, o Cinzento, que nós chamamos de Zirakzigil e Bundushathúr. Ali as Montanhas Sombrias se dividem, e entre seus braços fica o vale sombrio e profundo que não conseguimos esquecer: AzanuIbizar, o Vale do Riacho Escuro, que os elfos chamam de Nanduhirion.
— É para o Vale do Riacho Escuro que estamos indo — disse Gandalf.
— Se subirmos pela passagem que chamamos de Passo do Chifre Vermelho, sob a encosta mais distante de Caradhras, desceremos através da Escada do Riacho Escuro, chegando ao vale dos Anões. Ali fica o Lago-espelho, e naquele ponto o Veio de Prata jorra em suas nascentes congeladas.
— Escuras são as águas de Kheled-zâram — disse Gimli — e frias são as nascentes de Kibil-nâla. Meu coração estremece quando penso que posso vê-los em breve.
— Que você se alegre com a vista, meu bom anão! — disse Gandalf. — Mas não importa o que você faça, de modo algum podemos permanecer naquele vale. Precisamos descer o Veio de Prata e penetrar nas florestas secretas, seguindo então para o Grande Rio, e depois...
Ele parou.
— Sim, e depois? — perguntou Merry.
— Para o fim da viagem... finalmente — disse Gandalf. — Não podemos contemplar um futuro muito distante. Vamos nos contentar em pensar que o primeiro estágio foi concluído com segurança. Acho que vamos descansar aqui, não só durante o dia, mas também de noite. Existe um ar bentazejo em Azevim. Muita maldade precisa ocorrer numa região antes que ela se esqueça dos elfos, se alguma vez foi habitada por eles.
— Isso é verdade — disse Legolas. — Mas os elfos dessa região eram de uma raça estranha a nós, o povo da floresta, e as árvores e o capim não se recordam deles agora. Só escuto as pedras lamentando por eles: escavaram-nos das profundezas, moldaram-nos em formas belas, construíram-nos em edifícios altos, mas se foram. Eles se foram. Partiram em busca dos portos há muito tempo.
Naquela manhã, acenderam uma fogueira num fosso profundo, encoberto por grandes ramos de azevinheiros, e a ceia matinal que fizeram foi mais animada do que qualquer refeição desde que tinham partido.
E não tinham a intenção de continuar antes da noite do dia seguinte.
Apenas Aragorn estava inquieto e não dizia nada. Depois de uns momentos, abandonou a Comitiva e caminhou até a crista; ali parou à sombra de uma árvore, olhando para o Sul e para o Oeste, a cabeça numa postura de quem tentava escutar algo.
Depois voltou até a beirada do fosso, e olhou para baixo em direção aos outros, que estavam rindo e conversando.
— Qual é o problema, Passolargo? — perguntou Merry. — O que está procurando? Está sentindo falta do Vento Leste?
— Na verdade não — respondeu ele. — Mas sinto falta de alguma coisa. Já estive em Azevim muitas vezes. Nenhum povo habita esta região atualmente, mas sempre houve muitas outras criaturas, especialmente pássaros. No entanto, tudo está em silêncio agora, com a exceção de vocês. Posso sentir. Não se escuta nenhum som por milhas à nossa volta, e as suas vozes parecem fazer o chão ecoar. Não entendo.
Gandalf olhou para cima, num súbito interesse.
— Mas qual você acha que é o motivo? — perguntou ele. — Existe alguma coisa além da surpresa de ver quatro hobbits, para não mencionar o resto de nós, onde pessoas são tão raramente vistas ou ouvidas?
— Espero que seja só isso — respondeu Aragorn. — Mas sinto como se estivéssemos sendo vigiados, e tenho uma sensação de medo que nunca senti aqui antes.
— Então devemos ter cuidado — disse Gandalf. — Se você traz um guardião numa viagem, é melhor prestar atenção ao que ele diz, especialmente se esse guardião é Aragorn. Devemos parar de conversar em voz alta, descansar em silêncio e montar guarda.
Naquele dia, Sam foi o encarregado do primeiro turno da guarda, mas Aragorn o acompanhou. Os outros adormeceram. Então o silêncio aumentou, a ponto de o próprio Sam senti-lo. A respiração dos que dormiam podia ser claramente ouvida. A cauda do pônei se agitando, e seus pés se movimentando ocasionalmente, produziam altos ruídos. Sam podia escutar as próprias juntas rangendo quando se mexia. Um silêncio mortal o envolvia, e sobre tudo estava um céu limpo e azul, à medida que o sol subia do Leste. Ao Sul, na distância, uma mancha escura apareceu, e cresceu, dirigindo-se para o Norte como fumaça levada pelo vento.
— O que é aquilo, Passolargo? Não parece uma nuvem — disse Sam a Aragorn num sussurro.
Este não respondeu; estava olhando para o céu com grande atenção. Mas logo Sam pôde perceber por si mesmo o que se aproximava.
Bandos de pássaros, voando em grande velocidade, davam reviravoltas e descreviam círculos, atravessando toda a região como se procurassem alguma coisa; chegavam cada vez mais perto.
— Fique deitado e quieto! — sussurrou Aragorn, puxando Sam para o abrigo da sombra de um azevinheiro.
Um regimento inteiro de pássaros tinha de repente se separado do resto do batalhão e vinha, voando baixo, direto para a crista. Sam pensou que era uma espécie de corvo de tamanho grande. Quando passaram por cima deles, numa multidão tão densa que sua sombra os seguia escura sobre o chão, ouviu-se um grasnado estridente.
Aragorn não se levantou antes que os pássaros tivessem desaparecido na distância, ao Norte e ao Oeste, e o céu estivesse limpo outra vez. Então pulou de pé e foi acordar Gandalf.
— Regimentos de corvos negros estão sobrevoando toda a região entre as Montanhas e o rio Cinzento — disse ele. — Passaram sobre Azevim. Não são nativos desta região, são crebain originários de Fangorn e da Terra Parda. Não sei o que fazem aqui: talvez haja algum problema no Sul do qual estão fugindo, mas acho que estão espionando a região. Acho que devemos partir outra vez esta noite. Azevim não é mais um lugar seguro para nós: está sendo vigiado.
— E nesse caso, o Passo do Chifre Vermelho também estará sendo observado — disse Gandalf. — E não imagino como poderemos atravessá-lo sem sermos vistos. Mas vamos pensar nisso quando chegar a hora. Quanto a partirmos ao escurecer, receio que esteja certo.
— Ainda bem que nossa fogueira fez pouca fumaça, e o fogo ficou fraco antes que os crebain viessem — disse Aragorn. — Devemos apagá-la. Não podemos acender mais fogo algum.
— Ora, ora, tinha que aparecer essa praga! — disse Pippin, que recebeu a notícia – nada de fogo, e a partida ao cair da noite – assim que acordou no final da tarde. — Tudo por causa de um bando de corvos! Eu estava ansioso por uma refeição noturna de verdade: algo quente.
— Bem, pode continuar ansioso — disse Gandalf. — Pode haver muitos banquetes inesperados à sua frente. Quanto a mim, queria um cachimbo para fumar tranquilo, e aquecer os pés. Mas, de qualquer forma, podemos ter certeza de uma coisa: o clima vai ficar mais quente conforme nos aproximarmos do Sul.
— Quente demais, imagino — murmurou Sam para Frodo. — Mas estou começando a achar que já era hora de vermos aquela Montanha de Fogo, e o fim da Estrada, por assim dizer. Primeiro pensei que esse Chifre Vermelho aqui, ou qualquer que seja seu nome, poderia ser a Montanha de Fogo, até que Gimli fez aquele discurso. Essa língua dos anões deve ser um belo quebra-queixo!
Os mapas não significavam nada para a mente de Sam, e todas as distâncias naquelas terras estranhas pareciam tão vastas que ele não tinha a menor noção do que dizia.
Durante todo o dia, a Comitiva permaneceu escondida. Os pássaros negros sobrevoaram o lugar onde estavam várias e várias vezes, mas, à medida que o sol descia no Oeste e se avermelhava, desapareceram em direção ao Sul. Ao cair da noite, a Comitiva partiu e, rumando um pouco mais para o Leste, dirigiram-se para Caradhras, que ao longe ainda brilhava com um vermelho apagado, na última luz do sol que desaparecia. Uma a uma, estrelas brancas irrompiam no céu que se apagava.
Guiados por Aragorn, descobriram uma boa trilha. Frodo teve a impressão de que era o que restava de uma estrada antiga, que havia sido larga e bem planejada, conduzindo de Azevim até a passagem da montanha. A lua, agora cheia, subiu sobre as montanhas, lançando uma luz pálida, sob a qual as sombras das rochas ficaram negras. Muitas delas pareciam ter sido construídas a mão, embora agora estivessem decadentes e arruinadas, numa região desolada.
Era aquela hora fria que antecede os primeiros sinais da aurora e a lua estava baixa. Frodo olhou para o céu. De repente, viu ou sentiu uma sombra passando sobre as estrelas altas, como se por um instante elas se apagassem e depois brilhassem de novo. Um tremor percorreu-lhe o corpo.
— Você viu alguma coisa passando? — sussurrou ele para Gandalf, que ia logo à frente.
— Não, mas senti algo, seja lá o que for — respondeu ele. — Pode ser apenas uma nuvenzinha fina.
— Então essa nuvem passou bem rápido — murmurou Aragorn. — E não foi o vento que a carregou.
Nada mais aconteceu naquela noite. A manhã seguinte surgiu ainda mais clara que a anterior. Mas o ar estava frio de novo; o vento já estava voltando em direção ao leste. Por mais duas noites, continuaram a marcha, subindo sem parar, mas cada vez mais lentamente conforme a estrada galgava a montanha descrevendo curvas, e as montanhas assomavam, cada vez mais próximas. Na terceira manhã, Caraffiras se erguia diante deles: um pico enorme, coberto de neve branca como a prata, mas com encostas nuas e íngremes, de um vermelho apagado, como se estivessem manchadas de sangue. O céu tinha uma aparência sombria, e o sol estava pálido. O vento tinha mudado de rumo, soprando agora do Nordeste. Gandalf sentiu o ar e olhou para trás.
— O inverno avança às nossas costas — disse ele em voz baixa para Aragorn. — As Montanhas no Norte estão mais brancas que antes; a neve já desce pelas suas encostas. Esta noite devemos nos dirigir para cima, para o passo do Chifre Vermelho. É possível que sejamos vistos por vigias naquela passagem estreita, e algum perigo pode estar nos esperando; mas o clima pode acabar sendo um inimigo mais fatal que qualquer outro. Que caminho acha que devemos tomar agora, Aragorn?
Frodo ouviu essas palavras, e percebeu que Gandalf e Aragorn estavam continuando alguma discussão que havia começado muito antes. Continuou escutando, ansiosamente.
— Não posso ver nada de bom em nosso caminho, Gandalf, do início ao fim, como você bem sabe — respondeu Aragorn. — E os perigos, conhecidos e desconhecidos, vão aumentar conforme prosseguirmos. Mas precisamos continuar, e não será bom adiar a passagem pelas montanhas. Mais para o Sul, não há passagens, até se chegar ao Desfiladeiro de Rohan. Não confio naquele caminho, desde que você trouxe a notícia sobre Saruman. Quem pode dizer agora a que lado os oficiais dos Senhores dos Cavalos estão servindo?
— É verdade, ninguém pode saber! — disse Gandalf — Mas há outro caminho, que não é pela passagem de Caradhras: o caminho escuro e secreto, do qual já falamos.
— Mas não vamos falar nele outra vez! Não por enquanto. Não diga nada aos outros, eu lhe peço, não até que fique claro que não há outra saída.
— Precisamos decidir antes de continuar — respondeu Gandalf.
— Então vamos ponderar o assunto em nossas mentes, enquanto os outros descansam e dormem — disse Aragorn.
No fim da tarde, enquanto os outros terminavam seu desjejum, Gandalf e Aragorn foram juntos para um lado, e ficaram olhando para Caradhras. As encostas estavam escuras e sombrias, e o pico se escondia em meio a nuvens cinzentas.
Frodo os observava, tentando adivinhar para qual lado a discussão penderia. Quando voltaram, Gandalf falou, e assim Frodo soube que a decisão fora enfrentar o clima e a passagem alta. Ficou aliviado. Não podia adivinhar qual era o outro caminho secreto e escuro, mas a simples menção dele parecera causar grande consternação a Aragorn, e Frodo ficou feliz que tal caminho tivesse sido abandonado.
— Pelos sinais que temos visto ultimamente — disse Gandalf — receio que o Passo do Chifre Vermelho possa estar sendo vigiado, também tenho dúvidas sobre o clima que está vindo atrás de nós. Pode nevar. Devemos ir a toda velocidade possível. Mesmo assim, serão duas marchas até podermos atingir o topo da passagem. Vai escurecer cedo esta noite. Devemos partir assim que se aprontarem.
— Vou acrescentar um conselho, se me for permitido — disse Boromir. — Eu nasci sob as sombras das Montanhas Brancas, e sei alguma coisa sobre viagens em lugares altos. Vamos deparar com um frio rigoroso, se não com coisas piores, antes de descermos do outro lado. De nada vai adiantar viajarmos tão secretamente e morrermos congelados. Quando deixarmos este lugar, onde ainda existem algumas árvores e arbustos, cada um de nós deve levar um feixe de lenha, o maior que puder carregar.
— E Bill poderia levar mais um pouco, não poderia, rapaz? — disse Sam.
O pônei lançou-lhe um olhar pesaroso.
— Muito bem — disse Gandalf. — Mas não devemos usar a lenha a não ser que tenhamos de escolher entre o fogo e a morte.
A Comitiva partiu de novo, em boa velocidade no início, mas logo o caminho ficou íngreme e difícil. Em alguns pontos, a estrada tortuosa e inclinada tinha quase desaparecido, e estava bloqueada por muitas pedras caídas. A noite ficou totalmente escura sob grandes nuvens. Um vento forte fazia rodamoinhos por entre as rochas.
Por volta de meia-noite, eles tinham alcançado a parte mais baixa das grandes montanhas. A trilha estreita agora se torcia sob uma parede inclinada de encostas à esquerda, sobre as quais os flancos austeros de Caradhras se erguiam, invisíveis na escuridão; à direita ficava um abismo de escuridão, no qual a própria terra caia para dentro de um precipício fundo.
Com muito esforço, subiram a encosta angulosa, e pararam por uns minutos no topo. Frodo sentiu um toque suave em seu rosto. Estendeu a mão e viu os flocos de neve, de um branco apagado, caindo-lhe sobre a manga da roupa.
Continuaram. Mas logo a neve começou a cair mais densa, enchendo todo o ar, rodando perante os olhos de Frodo. As figuras escuras e curvadas de Gandalf e Aragorn, apenas um ou dois passos à frente, mal podiam ser vistas.
— Não gosto disso nem um pouco — disse Sam ofegante, logo atrás dele. — Tudo bem termos neve numa manhã agradável, mas gosto de ficar na cama enquanto ela está caindo. Gostaria que esta aqui fosse para Vila dos Hobbits! As pessoas poderiam gostar de neve lá.
A não ser nos pântanos altos da Quarta Norte, era raro cair uma grande quantidade de neve no Condado, e quando isso acontecia o fato era considerado agradável, e era uma oportunidade de diversão. Nenhum hobbit vivo (exceto Bilbo) conseguia se lembrar do Inverno Mortal de 1311, quando os lobos brancos invadiram o Condado através do Brandevin congelado.
Gandalf parou. A neve se espessava sobre seu capuz e ombros; as botas afundavam nela até a altura dos tornozelos.
— Era isto que eu temia — disse ele. — Que me diz agora, Aragorn?
— Que também temia isto — respondeu ele — mas temia menos que outras coisas. Eu sabia do risco da neve, embora ela raramente caia assim tão pesada aqui no Sul, a não ser nas montanhas altas. Mas ainda não subimos muito, ainda estamos bem embaixo, onde as trilhas geralmente ficam abertas durante todo o inverno.
— Pergunto se isso não é um artifício do Inimigo — disse Boromir. —Dizem na minha terra que ele pode governar tempestades nas Montanhas da Sombra, que ficam nas fronteiras de Mordor. Tem poderes estranhos e muitos aliados.
— O braço dele realmente cresceu — disse Gimli — se ele pode trazer a neve do Norte para nos atrapalhar aqui, a trezentas léguas de distância.
— O braço dele cresceu — disse Gandalf.
Enquanto estavam ali parados, o vento cessou, e a neve foi diminuindo, até quase parar. Continuaram aos tropeços. Mas não tinham avançado mais que duzentos metros quando a tempestade retornou, com fúria renovada. O vento assobiava, e a tempestade se transformou numa nevasca que não permitia ver nada. Logo, até mesmo Boromir começou a encontrar dificuldades para prosseguir. Os hobbits, curvados quase até o chão, avançavam a duras penas atrás dos maiores, mas ficava cada vez mais claro que não poderiam ir muito mais além se a neve continuasse. Os pés de Frodo pesavam como chumbo. Pippin se arrastava atrás. Até mesmo Gimli, robusto como um anão, resmungava ao caminhar penosamente.
A Comitiva parou de repente, como se tivesse chegado a um acordo sem dizer qualquer palavra. Ouviram ruídos sinistros na escuridão que os envolvia. Podia ter sido apenas um truque do vento nas rachaduras e fendas da parede rochosa, mas o som era semelhante ao de gritos agudos e gargalhadas alucinadas. Pedras começaram a cair da encosta da montanha, zunindo sobre suas cabeças, ou batendo contra a trilha ao lado deles. De tempo em tempo, ouviam um rumor abafado, e uma enorme pedra descia rolando das alturas ocultas acima deles.
— Não podemos continuar esta noite — disse Boromir. — Quem quiser chamar isto de vento que chame, mas há vozes fatais no ar, e essas pedras estão sendo arremessadas em nossa direção.
— Eu chamo de vento — disse Aragorn. — Mas isso não invalida o que você disse. Há muitos seres malignos e hostis no mundo, que têm pouco amor por aqueles que andam sobre duas pernas, e mesmo assim não são aliados de Sauron, mas têm os próprios propósitos. Alguns estão no mundo há mais tempo que ele.
— Caradhras foi chamado de o Cruel, e tinha um nome maligno — disse Gimli — há muitos anos, quando rumores sobre Sauron ainda não tinham sido ouvidos por estas terras.
— Pouco importa quem seja o inimigo, se não pudermos vencer seu ataque — disse Gandalf.
— Mas que podemos fazer? — gritou Pippin arrasado.
Apoiava-se em Merry e Frodo, e tremia.
— Ou parar onde estamos, ou voltar — disse Gandalf. — Não adianta continuar. Um pouco mais acima, se me recordo direito, esta trilha abandona a encosta e penetra num valo raso e largo, ao pé de uma ladeira longa e difícil. Ali não teremos abrigo da neve, ou das pedras – ou de qualquer outra coisa.
— E não adianta irmos em frente enquanto a tempestade persistir — disse Aragorn. — Não passamos por lugar algum nesta subida que oferecesse mais abrigo que a parede deste penhasco, sob o qual estamos.
— Abrigo! — murmurou Sam. — Se isto for abrigo, então uma parede e nenhum telhado fazem uma casa.
A Comitiva agora se mantinha o mais perto possível do penhasco. O penhasco dava para o Sul, e perto da base se inclinava um pouco para fora, de modo que assim esperavam ter alguma proteção do vento Norte e das pedras que caíam. Mas rajadas formavam rodamoinhos por toda a volta, e a neve caía em nuvens ainda mais densas.
Aconchegaram-se uns aos outros, com as costas contra a parede. Bill, o pônei, ficou parado na frente dos hobbits, paciente, mas desanimado, protegendo-os um pouco.
Mas logo a neve já lhe cobria os jarretes, e subia cada vez mais. Se não tivessem companheiros maiores, os hobbits seriam logo inteiramente enterrados.
Uma grande sonolência tomou conta de Frodo, que se sentia afundar rapidamente num sonho quente e nebuloso. Imaginava que um fogo lhe aquecia os pés, e das sombras do outro lado da lareira vinha a voz de Bilbo falando. Esperava coisa melhor de seu diário, dizia ele. Nevasca no dia 12 de janeiro: não precisava voltar para contar isso!
— Mas eu precisava descansar e dormir, Bilbo — respondeu Frodo com esforço, quando sentiu que alguém o sacudia, e acordando a contragosto. Boromir o havia desenterrado de um monte de neve.
— Isto será a morte dos pequenos, Gandalf — disse Boromir. — É inútil permanecermos aqui até que a neve cubra nossas cabeças. Precisamos fazer alguma coisa que nos salve!
— Dê-lhes isto — disse Gandalf, remexendo em sua mochila e retirando um odre de couro. — Apenas um gole para cada um – cada um de nós. É muito precioso. É miruvor, o licor de Imladris. Recebi de Elrond quando nos despedimos. Passe uma rodada.
Logo que Frodo engoliu um pouco da bebida quente e aromática sentiu nova coragem, e a sonolência pesada abandonou seus braços e pernas. Os outros também se reanimaram e sentiram renovada esperança e vigor.
Mas a neve não abrandou. Caía ao redor, mais espessa que nunca, e o vento soprava mais forte.
— Que me diz de fogo? — perguntou Boromir de súbito. — A escolha agora parece ser entre o fogo e a morte, Gandalf. Sem dúvida estaremos escondidos de todos os olhos hostis quando a neve nos cobrir, mas isso não nos ajudará em nada.
— Você pode fazer uma fogueira, se conseguir — respondeu Gandalf. — Se houver espiões que aguentem esta tempestade, então eles poderão nos ver, com ou sem fogo.
Mas embora tivessem trazido lenha e gravetos a conselho de Boromir, estava além das habilidades dos elfos, e até mesmo dos anões, acender uma chama que pudesse vingar em meio àquele turbilhão de vento, e que pudesse acender o combustível molhado. Finalmente, com relutância, o próprio Gandalf deu uma ajuda.
Pegando um feixe de lenha, segurou-o no alto por um momento, e então com um comando naur an edraith aninien! Empurrou a ponta do cajado no meio da lenha.
Imediatamente, grandes chamas verdes e azuis se precipitaram numa fogueira, e a lenha flamejou e estalou.
— Se houver alguém para ver, então pelo menos eu me revelei a eles — disse ele. — Escrevi Gandalf está aqui em sinais que podem ser lidos desde Valfenda até a foz do Anduin.
Mas a Comitiva não se preocupava mais com espiões ou olhos hostis. Seus corações estavam deliciados em ver a luz do fogo. A lenha queimava alegremente, e embora por toda a volta a neve chiasse, e poças de gelo derretido se formassem sob seus pés, eles conseguiam aquecer as mãos na chama com prazer. Ali ficaram, agachados num círculo em volta das pequenas labaredas dançantes e reluzentes. Uma luz brilhava nos rostos cansados e ansiosos; atrás deles, a noite era como uma parede negra.
Mas a lenha queimava rápido, e a neve ainda caía.
A fogueira foi diminuindo, e o último feixe foi jogado nela.
— A noite está acabando — disse Aragorn. — A aurora não tarda a chegar.
— Isso se alguma aurora conseguir romper essas nuvens — disse Gimli.
Boromir afastou-se do círculo e olhou para a escuridão.
— A neve está enfraquecendo — disse ele — e o vento está abrandando.
Frodo olhou com cansaço para os flocos que ainda caíam da escuridão, para se revelarem brancos por um momento à luz do fogo que se extinguia, mas por um bom tempo não pôde ver qualquer sinal de que diminuíam. Então, de repente, ao sentir o sono começar a dominá-lo outra vez, teve consciência de que o vento estava realmente abrandando, e de que os flocos estavam maiores e mais raros. Muito devagar, uma luz fraca começou a crescer. Finalmente, a neve parou de cair completamente.
À medida que ficava mais forte, a luz revelava um mundo silencioso e encoberto. Abaixo do refúgio onde estavam, havia cúpulas e montes brancos e profundezas informes abaixo dos quais a trilha que tinham pisado estava totalmente perdida; mas os picos acima deles estavam ocultos em grandes nuvens, ainda pesadas com a ameaça de neve.
Gimli olhou para cima e balançou a cabeça.
— Caradhras não nos perdoou — disse ele. — Ele ainda tem mais neve para lançar sobre nós, se prosseguirmos. Quanto mais rápido descermos e voltarmos, melhor.
Com isso todos concordaram, mas a retirada agora era difícil. Podia muito bem ser impossível. A apenas alguns passos das cinzas da fogueira, a neve subia a uma altura significativa, além das cabeças dos hobbits; em alguns pontos, tinha sido carregada e empilhada pelo vento em montes contra o penhasco.
— Se Gandalf se dispusesse a ir à frente com uma chama forte, poderia derreter a neve e fazer uma trilha para vocês — disse Legolas.
A tempestade quase não o incomodara, e só ele de toda a Comitiva ainda permanecia tranquilo.
— Se os elfos pudessem voar sobre montanhas, poderiam trazer o sol para nos salvar — respondeu Gandalf. — Mas preciso de algum material para trabalhar. Não posso queimar a neve.
— Bem — disse Boromir — quando cabeças estão perdidas, corpos devem servir, como dizemos em minha terra. O mais forte de nós deve procurar um caminho. Vejam! Apesar de tudo agora estar coberto de neve, nossa trilha, quando subimos, fez uma curva naquela saliência rochosa lá embaixo. Foi ali que a neve começou a pesar demais. Se pudéssemos chegar àquele ponto, talvez ficasse mais fácil prosseguir. Não fica a mais de duzentos metros de distância, eu acho.
— Então vamos forçar uma trilha até ali, você e eu — disse Aragorn.
Aragorn era o mais alto da Comitiva, mas Boromir, pouco mais baixo, era mais atarracado e tinha uma constituição mais forte. Ele foi na frente, seguido por Aragorn.
Lentamente foram indo, e logo estavam andando com bastante dificuldade. Em alguns lugares, a neve subia à altura dos ombros, e frequentemente Boromir parecia estar nadando ou cavando com os braços, em vez de andar.
Legolas os observou por uns momentos com um sorriso nos lábios, e então voltou-se para os outros.
— Os mais fortes devem procurar um caminho, vocês dizem? Mas eu digo: deixe um lavrador arar, mas escolha uma lontra para nadar, e para correr leve sobre capim e folha ou sobre a neve – um elfo.
Com isso, pulou para frente com agilidade, e então Frodo notou pela primeira vez, embora soubesse disso há muito tempo, que o elfo não estava usando botas, mas apenas sapatos leves, como sempre fazia, e que seus pés quase não deixavam marcas na neve.
— Até a volta! — disse ele a Gandalf. — Vou encontrar o sol!
Então, rápido como um corredor sobre terra firme, ele disparou, e logo alcançando os homens que se arrastavam, com um aceno de mão os ultrapassou, e correu na distância, desaparecendo atrás da curva rochosa.
Os outros esperaram aconchegados uns aos outros, observando até que Boromir e Aragorn foram se transformando em manchas negras naquela brancura. Finalmente, eles também desapareceram de vista. O tempo passava lentamente. As nuvens desceram e agora alguns flocos de neve começaram a cair rodopiando novamente.
Uma hora, talvez, tenha se passado, embora parecesse muito mais, e então finalmente viram Legolas voltando. Ao mesmo tempo, Boromir e Aragom reapareceram na curva muito atrás dele, e subiram a ladeira com esforço.
— Bem — disse Legolas, enquanto subia correndo — eu não trouxe o sol. Ele está andando nos campos azuis do Sul, e uma pequena coroa de neve nesse montinho do Chifre Vermelho não o preocupa nem um pouco. Mas eu trouxe de volta uma chama de esperança para aqueles que se destinam a andar a pé. Logo após a curva, há o maior monte de neve que o vento pôde acumular. Ali nossos homens fortes quase foram soterrados. Ficaram desesperados, até que voltei e lhes disse que o monte era pouco mais espesso que uma parede. E do outro lado a neve diminui de repente, e mais abaixo não passa de uma coberta branca para refrescar os pés dos hobbits.
— É como eu falei — disse Gimli. — Não foi uma tempestade comum, é a má vontade de Caradhras. Ele não gosta de elfos e anões, e aquela neve foi acumulada para impedir que escapássemos.
— Mas, felizmente, seu Caradhras esqueceu que você tem homens por companhia — disse Boromir, que chegava naquele instante. — E homens fortes, se me permite dizer; embora homens mais fracos com pás talvez fossem mais úteis. Mesmo assim, cavamos um caminho por entre o monte de neve, e por isso podem ficar agradecidos todos aqui que não podem correr com a leveza dos elfos.
— Mas como desceremos até lá, mesmo que vocês tenham feito um caminho no meio da neve? — disse Pippin, expressando o pensamento de todos os hobbits.
— Tenham esperança! — disse Boromir. — Estou cansado, mas ainda me resta alguma força, e a Aragorn também. Carregaremos os pequenos. Os outros, sem dúvida, podem se arranjar pisando na trilha atrás de nós. Venha, Mestre Peregrin! Começo com você.
Ele levantou o hobbit.
— Pendure-se nas minhas costas! Vou precisar de meus braços — disse ele avançando.
Aragorn e Merry foram atrás. Pippin ficou maravilhado com a força de Boromir, vendo a passagem que tinha aberto apenas com seus braços e pernas. Mesmo agora, carregado como estava, ia alargando a trilha para os que vinham atrás, jogando para os lados a neve enquanto prosseguia.
Finalmente chegaram ao grande monte de neve. Fora arremessado sobre a trilha da montanha como uma parede abrupta e íngreme, e seu topo, agudo como se apontado por facas, tinha duas vezes a altura de Boromir; mas no meio uma passagem tinha sido aberta, subindo e descendo como uma ponte. Do outro lado Merry e Pippin foram colocados no chão, e ali esperaram com Legolas que o resto da Comitiva chegasse.
Depois de um tempo, Boromir voltou carregando Sam. Atrás, na trilha estreita mas agora bem marcada, veio Gandalf, conduzindo Bill com Gimli empoleirado na bagagem.
Por último veio Aragorn carregando Frodo. Atravessaram a passagem, mas Frodo mal tinha colocado os pés no chão quando, com um rumor profundo, desabou um monte de pedras e uma porção de neve, que subiu pulverizada e cegou parcialmente a Comitiva por uns momentos. Eles se agacharam contra o penhasco, e, quando o ar ficou limpo novamente, viram que a passagem atrás deles estava bloqueada.
— Basta! Basta! — gritou Gimli. — Estamos indo embora o mais rápido possível!
E de fato, com aquele último golpe, a malícia da montanha pareceu se esgotar, como se Caradhras estivesse satisfeito com a derrota dos invasores e em saber que não iriam retornar. A ameaça da neve sumiu no céu; as nuvens começaram a se abrir e a luz ficou mais intensa.
Como Legolas tinha dito, eles viram que a neve ficava cada vez mais baixa conforme desciam, de modo que até os hobbits podiam caminhar novamente.
Logo todos eles pisavam mais uma vez na saliência rochosa plana que ficava no alto da ladeira íngreme, onde tinham sentido os primeiros flocos de neve na noite anterior.
A manhã agora já avançava. Daquele lugar alto, olharam para trás em direção ao Oeste, por sobre as regiões mais baixas. Na distância, no trecho de terra que ficava no pé da montanha, estava o valezinho do qual tinham saído para subir pela trilha.
As pernas de Frodo doíam. Estava congelado até os ossos e faminto; sua cabeça rodava ao pensar na marcha longa e dolorosa colina abaixo. Manchas negras flutuavam diante de seus olhos. Esfregou-os, mas as manchas negras persistiam. Na distância abaixo dele, mas ainda bem acima das bases das colinas mais baixas, pontos pretos faziam círculos no ar.
— Os pássaros outra vez — disse Aragorn, apontando para baixo.
— Não podemos evitar agora — disse Gandalf — quer sejam bons ou maus, ou quer não tenham nada a ver conosco, devemos descer imediatamente. Nem mesmo nas partes mais baixas de Caradhras devemos esperar outra noite cair! Um vento frio soprava atrás deles, enquanto davam as costas para o Passo do Chifre Vermelho, e iam aos tropeços ladeira abaixo.
Caradhras os derrotara.

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