17 de abril de 2016

Capítulo III: Da chegada dos elfos e do cativeiro de Melkor

Durante longas eras, os Valar viveram em bem-aventurança, à luz das Árvores por trás das Montanhas de Aman, mas toda a Terra-média jazia em penumbra, à luz das estrelas. Enquanto as Lamparinas brilhavam, ali tivera início um crescimento que agora estava interrompido porque tudo voltara à escuridão. No entanto, os seres vivos mais antigos já haviam surgido: nos mares, as grandes algas; na terra, a sombra de árvores imensas; e, nos vales dos montes, envoltos no manto da noite, havia criaturas sinistras, velhas e fortes. A essas terras e florestas, raramente vinham os Valar, à exceção de Yavanna e Oromë. E Yavanna costumava caminhar ali nas sombras, lamentando o desenvolvimento e a promessa da Primavera de Arda estarem suspensos. E ela lançou um sono sobre muitos seres que haviam surgido na Primavera, para que não envelhecessem, mas esperassem para despertar numa hora que ainda viria.
No norte, porém, Melkor aumentava suas forças e não dormia, mas vigiava e trabalhava. Os seres nefastos que ele havia pervertido andavam a solta, e os bosques escuros e sonolentos eram assombrados por monstros e formas pavorosas. E, em Útumno, reuniu ele ao seu redor seus demônios, aqueles espíritos que primeiro lhe haviam sido leais nos seus dias de esplendor e se tornado mais parecidos com ele em sua depravação Seus corações eram de fogo, mas eles se ocultavam nas trevas, e o terror ia à sua frente, com seus açoites de chamas. Balrogs foram eles chamados na Terra-média em tempos mais recentes. E, naquela época sombria, Melkor gerou muitos outros monstros de variados tipos e formas, que por muito tempo atormentaram o mundo. E seu reino cada vez mais se espalhava na direção sul, pela Terra-média.
E Melkor construiu também uma fortaleza e arsenal não muito distante do litoral noroeste, para resistir a qualquer ataque que viesse de Aman. Essa cidadela era comandada por Sauron, lugartenente de Melkor; e seu nome era Angband.
Ocorreu que os Valar se reuniram em conselho por estarem perturbados com as notícias que Yavanna e Oromë traziam das Terras de Fora; e Yavanna falou diante dos Valar:
— Poderosos de Arda, a Visão de Ilúvatar foi breve, e logo se dissipou, de modo que talvez não consigamos adivinhar, contando os dias, a hora exata. Contudo, estejam certos do seguinte — o momento se aproxima; e, dentro desta era, nossa esperança será revelada, e os Filhos despertarão. Deixaremos então desoladas e repletas de maldade as terras de sua morada? Será que eles caminharão nas trevas enquanto nós temos a luz? Eles chamarão Melkor de senhor enquanto Manwë tem seu trono na Taniquetil?
— Não! — exclamou Tulkas. — Vamos iniciar a guerra imediatamente! Já não repousamos demais da luta? Nossas forças não estão renovadas? Será que um ser sozinho rivalizará conosco para sempre?
No entanto, a pedido de Manwë, Mandos falou, dizendo: — Nesta era, os Filhos de Ilúvatar de fato virão, mas não neste momento. Além disso, está escrito que os Primogênitos chegarão nas trevas e contemplarão primeiro as estrelas. Grande luz está reservada para seu declínio. A Varda eles sempre irão recorrer em momentos de necessidade.
Afastou-se então Varda do conselho e olhou das alturas da Taniquetil, contemplando a escuridão da Terra-média, abaixo das inúmeras estrelas, pálidas e esparsas Começou ela nesse instante um enorme trabalho, a maior de todas as obras dos Valar desde sua chegada a Arda.
Apanhou os orvalhos de prata dos tonéis de Telperion e com eles fez estrelas novas e mais brilhantes para a chegada dos Primogênitos. Por isso, ela, cujo nome desde as profundezas do tempo e da construção de Eä era Tintallë, a Inflamadora, foi mais tarde chamada pelos elfos de Elentári, Rainha das Estrelas. Camil e Luinil, Nénar e Lumbar, Alcarinquë e Elemmírë ela criou naquela ocasião, e muitas outras das estrelas mais antigas ela reuniu e dispôs como sinais nos céus de Arda: Wilwarin, Telumendif, Soronúmë e Anarríma; e Menel-macar, com seu cinturão cintilante, prenúncio da Última Batalha, que ocorrerá no final dos tempos. E bem alto ao norte, como um desafio a Melkor, ela pôs a balançar a coroa de sete estrelas poderosas, Valacirca, a Foice dos Valar e sinal do destino.
Diz-se que, no momento em que Varda encerrou seus trabalhos, e eles foram demorados, quando Menelmacar foi subindo pelo céu, e a chama azul de Helluin cintilou nas névoas acima dos limites do mundo, nessa hora os Filhos da Terra despertaram, os Primogênitos de Ilúvatar.
Perto da lagoa de Cuiviénen, a Água do Despertar, iluminados pelas estrelas, eles acordaram do sono de Ilúvatar. E enquanto permaneciam, ainda em silêncio, junto a Cuiviénen, seus olhos contemplaram antes de mais nada as estrelas dos céus. Por isso, eles sempre amaram o brilho das estrelas, e reverenciam Varda Elentãri mais do que qualquer outro Vala.
Nas transformações do mundo, as formas das terras e dos mares foram destruídas e refeitas.
Rios não mantiveram seus cursos, e montanhas não permaneceram firmemente enraizadas; e não há como retomar a Cuiviénen. Diz-se, porém, entre os elfos que essa lagoa ficava a grande distância a leste da Terra-média, e ao norte; e que era uma baía no Mar Interior de Helcar; e esse mar estava onde anteriormente haviam estado os sopés da montanha de Illuin, antes que Melkor a derrubasse. Muita água fluía para ali das regiões montanhosas a leste, e o primeiro som ouvido pelos elfos foi o de água corrente, e o de água caindo na pedra.
Muito tempo viveram eles em seu primeiro lar junto à água, à luz das estrelas, e caminhavam pela Terra maravilhados. E começaram a criar a fala e a dar nomes a todas as coisas que percebiam. A si mesmos, chamaram quendi, querendo dizer adueles que falam com vozes. Pois até então não haviam conhecido nenhum outro ser vivo que falasse ou cantasse.
E uma vez aconteceu de Oromë cavalgar mais para o leste em sua caçada; e ele se voltou para o norte, às margens do Helcar, e passou à sombra das Orocami, as Montanhas do Leste. E então, de repente, Nahar começou a relinchar muito e estancou, imóvel. E Oromë se perguntou o que seria e ficou calado. Pareceu-lhe ouvir ao longe, no silêncio da terra sob as estrelas, o canto de muitas vozes.
Foi assim que os Valar encontraram afinal, como que por acaso, aqueles por quem há muito esperavam. E Oromë, ao contemplar os elfos, encheu-se de admiração, como se eles fossem seres inesperados, maravilhosos e imprevistos; pois assim sempre será com os Valar. De fora do Mundo, embora todas as coisas possam ser prenunciadas em música ou previstas em visões remotas, para aqueles que realmente entrem em Eä, uma coisa de cada vez os apanhará desprevenidos, como algo novo e inaudito.
No início, os Primogênitos de Ilúvatar eram mais fortes e imponentes do que se tornaram desde então, mas não eram mais belos; pois, embora a beleza dos quendi nos dias de juventude superasse qualquer outra que Ilúvatar tenha feito surgir, ela não pereceu, mas vive no oeste, e a tristeza e a sabedoria a enriqueceram. E Oromë amou os quendi e os chamou em sua própria língua de eldar, o povo das estrelas. Esse nome, entretanto, mais tarde só foi usado por aqueles que o seguiram na estrada para o oeste.
Contudo, muitos dos quendi se apavoraram com sua chegada. E isso era obra de Melkor. Pois, em retrospectiva, os sábios declaram que Melkor, sempre alerta, fora o primeiro a se dar conta do despertar dos quendi; e enviara sombras e espíritos malévolos para espioná-los e armar-lhes emboscadas. Ocorreu assim, alguns anos antes da chegada de Oromë, que, se qualquer elfo se perdesse longe de casa, sozinho ou em pequenos grupos, era frequente que desaparecesse e nunca retornasse; e os quendi diziam que o Caçador o apanhara e sentiam medo. E, de fato, as mais antigas canções dos elfos — cujos ecos ainda são relembrados no oeste — falam de formas sombrias, que perambulavam nas colinas que se erguiam a partir de Cuiviénen, ou que passavam de repente encobrindo as estrelas, ou ainda do Cavaleiro sinistro montado em seu cavalo selvagem que perseguia os caminhantes para apanhá-los e devorá-los. Ora, Melkor sentia um ódio imenso de Oromë e temia seus passeios a cavalo, e ele, ou mandou realmente seus servos obscuros como cavaleiros, ou espalhou rumores mentirosos, com o objetivo de que os quendi evitassem Oromë, se algum dia o encontrassem.
Foi assim que, quando Nahar relinchou e Oromë de fato surgiu entre eles, alguns dos quendi se esconderam, e alguns fugiram e se perderam. Mas aqueles que tiveram coragem, e permaneceram, rapidamente perceberam que o Grande Cavaleiro não era nenhuma forma saída das trevas, pois a luz de Aman estava em seu semblante, e todos os mais nobres elfos se sentiram atraídos por ela.
Entretanto, pouco se sabe daqueles infelizes que caíram na armadilha de Melkor. Pois, quem, entre os seres vivos, desceu aos abismos de Utumno, ou percorreu as trevas dos pensamentos de Melkor? É, porém, considerado verdadeiro pelos sábios de Eressëa que todos aqueles quendi que caíram nas mãos de Melkor antes da destruição de Utumno foram lá aprisionados, e, por lentas artes de crueldade, corrompidos e escravizados; e assim Melkor gerou a horrenda raça dos ores, por inveja dos elfos e em imitação a eles, de quem eles mais tarde se tornaram os piores inimigos. Pois os orcs tinham vida e se multiplicavam da mesma forma que os Filhos de Ilúvatar; e nada que tivesse vida própria, nem aparência de vida, Melkor jamais poderia criar desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Início. Assim dizem os sábios. E, no fundo de seus  corações negros, os orcs odiavam o Senhor a quem serviam por medo, criador apenas de sua desgraça. Esse pode ter sido o ato mais abjeto de Melkor, e o mais odioso aos olhos de Ilúvatar.
Oromë demorou-se um pouco entre os quendi, e então voltou veloz por terra e mar a Valinor, trazendo as notícias a Valmar; e falou das sombras que perturbavam Cuiviénen. Alegraram-se então os Valar, e, no entanto sentiam alguma dúvida em meio ao júbilo; e debateram muito qual seria a melhor decisão a tomar para proteger os quendi da sombra de Melkor. Oromë, porém, voltou de imediato a Terra-média para morar com os elfos.
Manwë refletiu muito em seu trono na Taniquetil e procurou o conselho de Ilúvatar. Descendo, então, a Valmar, convocou os Valar ao Círculo da Lei, e até mesmo Ulmo, do Mar de Fora, compareceu.
Disse então Manwë aos Valar: — Este é o conselho de Ilúvatar em meu coração: que devemos reconquistar o domínio de Arda, a qualquer custo, e liberar os quendi da ameaça de Melkor.
Com isso alegrou-se Tulkas; mas Aulë se entristeceu, prevendo os danos ao mundo que deveriam resultar desse combate. No entanto, os Valar se prepararam e partiram de Aman prontos para a guerra, resolvidos a atacar as fortalezas de Melkor e encerrar o assunto. Jamais Melkor se esqueceu de que essa guerra tivera início pelo bem dos elfos e de que eles haviam sido a causa de sua derrocada. Contudo, os elfos não tiveram nenhuma participação nesses atos, e têm pouquíssimo conhecimento sobre o ataque da força do oeste contra o norte, no início de seus dias.
Melkor enfrentou a investida dos Valar no noroeste da Terra-média, e toda a região sofreu grande destruição. Mas a primeira vitória dos exércitos do oeste foi rápida, e os servos de Melkor fugiram, perseguidos, até Utumno. Então, os Valar cruzaram a Terra-média, e montaram guarda para vigiar Cuiviénen; e daí em diante os quendi nada souberam da grande Batalha dos Poderes senão que a Terra tremia e gemia sob seus pés, e as águas mudavam de lugar; e ao norte havia clarões como os de enormes fogueiras. Longo e angustiante foi o cerco a Utumno, e muitas batalhas foram travadas diante de seus portões, das quais nada chegou aos ouvidos dos elfos, a não ser rumores. Nessa época, a forma da Terra-média foi alterada, e o Grande Mar que a separava de Aman se alargou e se aprofundou. Ele também avançou costa adentro e formou um golfo profundo mais ao sul. Muitas baías menores foram abertas entre o Grande Golfo e Helcaraxë no extremo norte, onde a Terra-média e Aman se aproximavam.
Dessas, a Baía de Balar era a principal; e nela desembocava o caudaloso rio Sirion, que descia das regiões elevadas recém-erguidas ao norte: Dorthonion e as montanhas ao redor de Hithlum.
As terras do extremo norte tornaram-se ainda mais desoladas nesse período; pois lá Utumno havia sido escavada a enorme profundidade, e seus subterrâneos estavam cheios de fogos e de grandes contingentes de servos de Melkor.
Finalmente, porém, os portões de Utumno foram arrombados, e seus salões, destelhados; e Melkor foi refugiar-se no canto mais profundo. Tulkas apresentou-se então para defender os Valar. Lutou com ele e o imobilizou com o rosto no chão. E Melkor foi acorrentado com Angainor, a corrente que Aulë havia feito, e levado prisioneiro; e o mundo teve paz por uma longa era.
Não obstante, os Valar não descobriram todas as poderosas masmorras e cavernas, ocultas com astúcia muito abaixo das fortalezas de Angband e Utumno. Muitos seres malignos ainda ali permaneceram, e outros se dispersaram e fugiram para as trevas e perambularam pelos lugares desolados do mundo, à espera de hora mais nefasta. E Sauron não foi encontrado.
Porém, quando a Batalha terminou e das ruínas do Norte nuvens enormes se ergueram e esconderam as estrelas, os Valar conduziram Melkor até Valinor, com pés e mãos atados e vendas nos olhos. E ele foi levado ao Círculo da Lei. Ali prostrou-se aos pés de Manwë e implorou perdão; mas sua súplica foi negada, e ele foi levado à prisão na fortaleza de Mandos, de onde ninguém consegue escapar, nem Vala, nem elfo, nem homem mortal. Vastas e fortes são essas construções, e elas foram erguidas a oeste da terra de Aman. Lá Melkor foi condenado a permanecer ao longo de três eras, antes que sua causa voltasse a ser julgada e ele pudesse mais uma vez implorar perdão.
Reuniram-se então novamente os Valar em conselho, e se dividiram no debate. Pois alguns, e desses Ulmo era o principal, sustentavam que os quendi deveriam ter a liberdade de perambular à vontade pela Terra-média e, com sua habilidade, ordenar todas as terras e curar seus estragos.
Já a maioria temia pelos quendi no mundo perigoso, em meio às ciladas da penumbra iluminada pelas estrelas; e, além disso, estavam tomados de amor pela beleza dos elfos e desejavam sua companhia. Ao final, portanto, os Valar convocaram os quendi a vir a Valinor, para ali se reunirem aos pés dos Poderes à luz das Árvores, para sempre; e Mandos rompeu seu silêncio dizendo — E assim está determinado — Dessa convocação, decorreram muitas desgraças.
Mas os elfos de início não estavam dispostos a dar ouvidos à convocação, pois até então somente haviam visto os Valar encolerizados em guerra, à exceção apenas de Oromë; e estavam dominados pelo pavor. Oromë foi, portanto, enviado novamente até eles e escolheu entre eles embaixadores que se dispusessem a vir a Valinor falar em nome; de seu povo; e esses foram Ingwë, Finwë e Elwë, que mais tarde se tornaram reis. E, quando 1á chegaram eles se espantaram com a glória e a imponência dos Valar, e sentiram enorme desejo pela luz e pelo esplendor das Árvores. E então Oromë os levou de volta a Cuiviénen, e eles falaram a seu povo aconselhando-os a obedecer à convocação dos Valar e a se transferir para o oeste.
Foi então que ocorreu a primeira cisão dos elfos. Pois os familiares de Ingwë, e a maior parte dos familiares de Finwë e Elwë, foram influenciados pelas palavras de seus senhores e se dispuseram a partir e acompanhar Oromë. E esses ficaram co-nhecidos para sempre como os eldar, nome que Oromë deu aos elfos no ofício em sua própria língua. Muitos, porém, desrespeitaram a convocação, preferindo a luz das estrelas e a amplidão da Terra-média ao rumor das Árvores, e esses são os avari, Os Relutantes; e nessa época eles se separaram dos eldar e só voltaram a se encontrar passadas muitas eras.
Os eldar prepararam então uma enorme marcha partindo de sua primeira morada no leste, e se organizaram em três grandes grupos. O menor e primeiro a iniciar viagem era liderado por Ingwë, o senhor supremo de todos os elfos. Ele entrou em Valinor e está sentado aos pés dos Poderes, e todos os elfos reverenciam seu nome. Jamais, porém retornou nem voltou a lançar seu olhar sobre a Terra-média. Os vany ar eram seu povo. São os belos-elfos, amados por Manwë e Varda, e entre os homens poucos falaram com eles Em seguida, vinham os noldor, um nome de sabedoria, o povo de Finwë. São os elfosprofundos, amigos de Aulë; e eles são celebrados em música por terem lutado e trabalhado penosamente e por muito tempo nas antigas terras do norte.
O grupo maior vinha no final, e eles são chamados de teleri, pois se demoraram no caminho e não estavam totalmente decididos a passar da penumbra para a luz de Valinor. Demonstravam enorme encantamento pela água, e aqueles que chegaram finalmente ao litoral do oeste ficaram apaixonados pelo mar. Passaram a ser, na terra de Aman, os elfos-do-mar, os falmari, pois criavam música ao lado das ondas da arrebentação. Dois senhores tinham eles, pois eram muito numerosos: Elwë Singollo (que significa manto-cinzento) e Olwë, seu irmão.
Foram esses os três clãs de eldalië, que, tendo passado para o extremo oeste na época das Árvores, são chamados de calaquendi, elfos-da-luz. Mas houve outros eldar que de fato partiram na marcha para o Oeste, mas se perderam no longo trajeto, se desviaram, ou ainda permaneceram nas costas da Terra-média, e esses eram em sua maioria do clã dos teleri, como será relatado a partir daqui. Eles moravam à beira-mar, ou perambulavam pelos bosques e montanhas do mundo, mas seus corações estavam sempre voltados para o oeste. A esses elfos os calaquendi chamam de úmany ar, já que nunca chegaram à terra de Aman e ao Reino Abençoado; mas também os úmany ar e os avari eles chamam de moriquendi, elfos-das-trevas, pois jamais contemplaram a Luz que existia antes do Sol e da Lua.
Diz-se que, quando as hostes de eldalië partiram de Cuiviénen, Oromë cavalgou à frente montado em Nahar, seu cavalo branco de ferraduras de ouro; e, passando na direção norte pelas margens do Mar de Helcar, elas se voltaram para o oeste. Diante delas, nuvens imensas pairavam ainda negras no Norte, acima das ruínas da guerra, e as estrelas naquela região estavam ocultas. Nessa hora, não poucos sentiram medo e se arrependeram, e deram meia-volta e foram esquecidos.
Longa e vagarosa foi à marcha dos eldar para o oeste, pois as léguas da Terra-média eram incontáveis, fatigantes e inexploradas. Nem desejavam os elfos apressar-se, pois estavam maravilhados com tudo o que viam, e sentiram vontade de morar próximo a muitas terras e rios; e, embora todos ainda estivessem dispostos a caminhar, muitos antes temiam o fim da viagem do que ansiavam por ele. Assim, sempre que Oromë se afastava, tendo às vezes outras questões às quais dar atenção, eles paravam e não avançavam até que ele retomasse para guia-los.
E aconteceu, depois de muitos anos viajando dessa forma, que os eldar seguiram por uma floresta e chegaram a um rio enorme, mais largo do que qualquer outro que já tivessem visto; e do outro lado do rio havia montanhas cujos picos pontiagudos pareciam perfurar o reino das estrelas. Diz-se que esse rio era exatamente aquele que mais tarde foi chamado de Anduin, o Grande, e sempre foi à fronteira da região ocidental da Terra-média. Já as montanhas eram as Hithaeglir, as Torres de Névoa nas fronteiras de Eriador. Eram, entretanto, mais altas e mais terríveis naquela época e haviam sido erguidas por Melkor para impedir à cavalgada de Oromë.
Ora, os teleri por muito tempo habitaram a margem oriental daquele rio, com o desejo de ali permanecer, mas os vany ar e os noldor o atravessaram, e Oromë os conduziu pelas passagens nas montanhas. E, quando Oromë já estava mais adiante, os teleri contemplaram os montes sombrios e sentiram medo.
Ergueu-se então alguém do clã de Olwë, que sempre ficava mais para trás no caminho. Lenwë era seu nome. Ele renegou a marcha para o Oeste e levou consigo um grupo numeroso, na direção sul, descendo pelo grande rio, e esses desapareceram do conhecimento de seus parentes, só retomando depois de muitos anos. Eram os Nandor; e se tornaram um povo isolado, diferente dos familiares, a não ser por amar a água e quase sempre habitar as proximidades de cachoeiras e cursos d’água. Sabiam mais sobre seres vivos, árvores e plantas, aves e bichos, do que quaisquer outros elfos. Em anos posteriores, Denethor, filho de Lenwë, voltou-se afinal para o oeste, e conduziu parte daquele povo através das montanhas para entrar em Beleriand antes do surgimento da Lua.
Afinal, os vany ar e os noldor transpuseram as Ered Luin, as Montanhas Azuis, entre Eriador e a região do extremo oeste da Terra-média, que os elfos mais tarde chamariam de Beleriand; e as companhias de vanguarda atravessaram o Vale do Sirion e desceram pelas costas do Grande Mar, entre Drengist e a Baía de Balar. Quando o viram, porém, um medo imenso abateu-se sobre eles, e muitos se afastaram, embrenhando-se nas matas e montes de Beleriand. Oromë, então, partiu de volta a Valinor em busca dos conselhos de Manwë, e os deixou.
E as hostes de teleri atravessaram as Montanhas Nevoentas e cruzaram as amplas terras de Eriador, sempre com o incentivo de Elwë Singóllo, pois ele ansiava por voltar a Valinor e à Luz que havia visto. E não desejava ser afastado dos noldor, pois tinha grande amizade por Finwë, seu senhor. Assim, depois de muitos anos, os teleri afinal também passaram pelas Ered Luin, entrando nas regiões mais orientais de Beleriand. Ali pararam, ficando algum tempo do outro lado do Rio Gelion.

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