2 de abril de 2016

Capítulo II - A sombra do passado


O comentário não se extinguiu dentro de 9 nem de 99 dias. O segundo desaparecimento do Sr. Bilbo Bolseiro foi discutido na Vila dos Hobbits, e na verdade em todo o Condado, ao longo de todo o ano, sendo relembrado por muito mais tempo.
Tornou-se uma fábula para os pequenos hobbits, e finalmente o Louco Bolseiro, que costumava desaparecer num lampejo com um estrondo e reaparecer com sacos de joias e ouro, robusto e vigoroso recém-saído da vintolescência. “A sorte vem para poucos”, eles diziam; mas foi somente quando Frodo chegou à idade geralmente mais sóbria de cinquenta que começaram a achar aquilo estranho.
Frodo, depois do primeiro choque, descobriu que ser dono do seu próprio nariz e o Sr. Bolseiro de Bolsão era bastante agradável. Por alguns anos foi muito feliz e não se preocupou demais com o futuro. Mas, sem que se desse conta disso, sentia um arrependimento cada vez maior por não ter partido com Bilbo. Às vezes se pegava pensando, especialmente no outono, em terras selvagens, e estranhas imagens de montanhas que nunca havia visto apareciam em seus sonhos.
Começou a dizer para si mesmo: “Talvez eu também cruze o Rio algum dia.” Ao que a outra metade de sua mente sempre respondia: “Ainda não.” As coisas continuaram assim até Frodo chegar ao fim dos quarenta e estar próximo de seu quinquagésimo aniversário: cinquenta era um número que considerava de alguma forma significativo (ou agourento); de qualquer modo, foi com essa idade que a aventura repentinamente sobreveio a Bilbo. Começou a se sentir inquieto, e as velhas trilhas pareciam marcadas demais. Olhava mapas e se perguntava sobre o que estaria além das suas bordas: a maior parte dos mapas feitos no Condado mostrava espaços em branco além de seus limites. Pegou o costume de vagar até mais longe, na maioria das vezes sozinho, e Merry e seus outros amigos o vigiavam com ansiedade. Frequentemente era visto andando e conversando com os estranhos andarilhos que tinham começado a aparecer no Condado nessa época.
Havia rumores sobre coisas estranhas acontecendo no mundo lá fora, e como Gandalf não tinha até aquele momento aparecido ou enviado recados já por vários anos, Frodo recolhia todas as notícias que conseguia. Os elfos, que raramente entravam no Condado, podiam agora ser vistos passando em direção ao Oeste através dos bosques à noite, passando e não retornando; mas eles estavam abandonando a Terra Média e não estavam mais preocupados com os problemas do lugar. Havia, entretanto, anões na estrada em quantidade incomum. A velha estrada Leste-Oeste passava pelo Condado, indo acabar nos Portos Cinzentos, e os anões sempre a tinham usado para chegar até suas minas nas Montanhas Azuis. Eram a principal fonte de notícias de partes distantes que os hobbits possuíam – se é que desejavam qualquer notícia: geralmente os anões diziam pouco e os hobbits perguntavam menos ainda.
Mas agora Frodo sempre encontrava anões estranhos de países distantes, procurando refúgio no Oeste. Estavam preocupados, e alguns deles falavam aos sussurros sobre o Inimigo e a Terra de Mordor.
Os hobbits só conheciam esse nome em lendas do passado escuro, como uma sombra no fundo de suas memórias; mas era um nome agourento e perturbador. Parecia que o poder maligno da Floresta das Trevas havia sido expulso pelo Conselho Branco para reaparecer com força maior nas velhas fortalezas de Mordor. A Torre Escura tinha sido reconstruída, dizia-se. Dali o poder estava se espalhando em todas as direções, e lá no extremo oriente e ao sul havia guerras e o medo crescia. Os orcs se multiplicavam de novo nas montanhas. Os trolls estavam longe de suas terras e tinham deixado de ser estúpidos; eram astutos e tinham armas terríveis. E havia murmúrios sobre criaturas ainda mais horríveis que todas essas, mas que não tinham nome.
— É claro que nada disso chegou aos ouvidos dos hobbits comuns. Mas mesmo os mais surdos e os que menos saíam de casa começaram a ouvir histórias estranhas, e aqueles que tinham negócios nas fronteiras começaram a ver coisas esquisitas.
As conversas no Dragão Verde em Beirágua, numa noite na primavera do quinquagésimo aniversário de Frodo, demonstravam que mesmo no confortável coração do Condado rumores foram ouvidos, embora a maioria dos hobbits ainda risse deles.
Sam Gamgí estava sentado em um canto perto do fogo, e à sua frente estava Ted Ruivão, o filho do moleiro; havia também vários outros hobbits rústicos escutando sua conversa.
— A gente anda escutando coisas estranhas ultimamente — disse Sam.
— Ah! — disse Ted. — A gente escuta se der ouvidos. Mas eu posso escutar histórias agradáveis e contos infantis em casa, se quiser.
— Não há dúvida que sim — retorquiu Sam. — E eu digo que há mais verdade em algumas delas do que você possa imaginar. Então, quem inventou as histórias? Veja os dragões, por exemplo...
— Não, ‘brigado — disse Ted. — Não vejo nada. Ouvi falar deles quando era rapaz, mas não preciso acreditar nisso hoje em dia. Só existe um dragão em Beirágua, que é o Verde — disse ele, provocando o riso geral.
— Tudo bem — disse Sam, rindo com os outros. — Mas e esses homens-árvores, esses que podemos chamar de gigantes? Dizem que um homem maior que uma árvore foi visto indo para os Pântanos do Norte há pouco tempo.
— Quem disse isso?
— Meu primo Hal é um. Ele trabalha para o Sr. Boffin em Sobremonte e sobe até a Quarta Norte para caçar. Ele viu um.
— Disse que viu, talvez. Esse seu primo vive dizendo que viu coisas, e pode ser que ele veja coisas que não estão lá.
— Mas esse era grande como um olmo, e estava andando – avançava sete jardas a cada passo, como se fosse uma polegada.
— Então aposto que não era uma polegada. O que ele viu era um olmo, é bem possível.
— Mas esse estava andando, eu te digo; e não existe olmo nos Pântanos do Norte.
— Então Hal não pode ter visto um — disse Ted.
Houve risos e aplausos: a plateia parecia achar que Ted tinha marcado um ponto.
— Mesmo assim — disse Sam — você não pode negar que outros, além do nosso Halfast, viram pessoas esquisitas atravessando o Condado – atravessando, imagine você: existe mais gente que foi barrada nas fronteiras. Os Fronteiros nunca estiveram tão ocupados. E ouvi dizer que os elfos estão indo para o Oeste. Dizem que estão indo para os portos, muito além das Torres Brancas.
Sam acenou o braço vagamente: nem ele nem qualquer um ali sabia a que distância ficava o Mar, além das velhas torres para lá da fronteira Oeste do Condado. Mas existia uma velha tradição de que lá longe ficavam os Portos Cinzentos, dos quais às vezes navios de elfos partiam, para nunca mais voltar.
— Eles estão navegando, navegando pelo Mar. Estão indo para o Oeste e nos deixando — disse Sam, meio que cantando as palavras, balançando a cabeça triste e solenemente.
Mas Ted riu.
— Bem, isso não é nenhuma novidade, se você acredita nas velhas histórias. E não consigo ver que importância isso pode ter para mim ou para você. Deixe-os navegar! Mas eu garanto que você não os viu navegando; nem qualquer outra pessoa do Condado.
— Bem, eu não sei — disse Sam pensativo.
Ele acreditava ter visto um elfo uma vez nos bosques, e ainda esperava ver mais deles algum dia. Dentre todas as lendas que tinha ouvido em sua infância, esses fragmentos de contos e histórias semiesquecidas sobre os elfos, que os hobbits contavam, sempre o tocavam profundamente.
— Existem alguns, mesmo por essas partes — disse ele. — Tem o Sr. Bolseiro, para quem eu trabalho. Ele me disse que estavam navegando, e ele sabe um pouco sobre os elfos. E o velho Sr. Bilbo sabia mais: tive muitas conversas com ele quando era garotinho.
— Nenhum dos dois regula bem — disse Ted. — Pelo menos o velho Bilbo era louco, e Frodo está ficando. Se é daí que você recolheu suas informações, não precisa inventar mais nada. Bem, amigos, vou para casa. À sua saúde! — Esvaziou sua caneca e saiu fazendo barulho.
Sam ficou sentado em silêncio e não falou mais. Tinha muito em que pensar. Em primeiro lugar, havia muito trabalho a fazer no jardim de Bolsão e o dia seguinte seria cheio, se o tempo melhorasse. A grama estava crescendo rápido. Mas tinha outras coisas na cabeça além da jardinagem. Depois de uns momentos suspirou, levantou-se e saiu.
Era o começo de abril e o céu estava clareando depois de uma chuva pesada.
O sol tinha se posto e um entardecer pálido e fresco morria dentro da noite. Ele caminhou sob as primeiras estrelas através da Vila dos Hobbits e Colina acima, assobiando doce e pensativamente.
Foi bem nessa época que Gandalf reapareceu depois de uma longa ausência.
Tinha estado fora por três anos depois da Festa. Então fez uma visita rápida a Frodo e, depois de ter dado uma boa olhada nele, partiu novamente. Durante um ou dois anos consecutivos havia aparecido com bastante frequência, chegando sem ser esperado depois do anoitecer e indo embora sem avisar antes do nascer do sol. Não discutia seus próprios assuntos e viagens, e parecia principalmente interessado em pequenas notícias sobre a saúde e os afazeres de Frodo.
Depois, de repente, suas visitas cessaram. Já fazia mais de nove anos que Frodo não o via ou tinha notícias dele, e começou a pensar que o mago nunca mais voltaria e tinha perdido completamente o interesse por hobbits. Mas naquela noite, enquanto Sam estava indo para casa e anoitecia, veio a já conhecida batida na janela do escritório.
Frodo recebeu seu velho amigo com surpresa e grande prazer. Eles olharam bem um para o outro.
— Ora, ora... — disse Gandalf. — Você parece o mesmo de sempre, Frodo!
— Você também — replicou este; mas em segredo pensou que Gandalf parecia mais velho e desgastado. Quis saber notícias suas e do mundo lá fora, e logo os dois estavam numa conversa animada, que durou até tarde da noite.
Na manhã seguinte, depois de um desjejum tardio, o mago e Frodo estavam sentados perto da janela do escritório. Havia um fogo forte na lareira, mas o sol estava quente, e o vento vinha do sul. Tudo estava muito viçoso, e o verde novo da primavera brilhava nos campos e nas pontas dos dedos das árvores.
Gandalf estava pensando numa primavera, quase 80 anos atrás, quando Bilbo saíra de Bolsão sem levar um lenço. Seu cabelo talvez estivesse agora mais branco, e sua barba e sobrancelhas mais longas, e seu rosto mais marcado pela preocupação e pela sabedoria; mas os olhos brilhavam como sempre, e ele fumava e soprava anéis de fumaça com o mesmo vigor e prazer.
Agora fumava em silêncio, pois Frodo estava quieto, perdido em pensamentos. Mesmo na luz do dia ele sentia a sombra escura das notícias trazidas por Gandalf. Finalmente quebrou o silêncio.
— Ontem à noite você começou a dizer coisas estranhas sobre o meu anel, Gandalf — disse ele. — E aí parou, porque disse que era melhor conversar esses assuntos de dia. Não acha que devia terminar agora? Você diz que o Anel é perigoso, muito mais perigoso do que eu imagino. De que maneira?
— De muitas maneiras — respondeu o mago. — Ele é muito mais poderoso do que jamais ousei pensar no início, tão poderoso que no final poderia literalmente dominar qualquer um da raça dos mortais que o possuísse. O Anel o possuiria. Em Eregion, há muito tempo, muitos anéis élficos foram feitos, anéis mágicos, como se diz. E eram, é claro, de muitos tipos: alguns mais poderosos, outros menos. Os anéis menos importantes foram apenas ensaios no ofício, que ainda não estava totalmente desenvolvido, e para os ourives élficos eram insignificantes – embora eu os considere um risco para os mortais. Mas os Grandes Anéis, os Anéis de Poder, esses eram perigosos. Um mortal, Frodo, que possuir um dos Grandes Anéis não morre, mas também não se desenvolve ou obtém mais vida; simplesmente continua, até que no final cada minuto é puro cansaço. E se usar o Anel com frequência para se tornar invisível, ele desaparece: torna-se no fim invisível permanentemente, e anda no crepúsculo sob o olhar do poder escuro que governa os Anéis. Sim, mais cedo ou mais tarde – mais tarde se essa pessoa for forte ou tiver boa índole no início; mas nem a força e nem bons propósitos durarão – mais cedo ou mais tarde o poder escuro irá dominá-la.
— Que assustador! — disse Frodo. Houve outro longo silêncio. O som de Sam Gamgi cortando a grama vinha do jardim. — Há quanto tempo você sabe dessas coisas? — perguntou Frodo finalmente. — E o que é que Bilbo sabia disso?
— Bilbo não sabia mais do que contou a você, tenho certeza — disse Gandalf. — Certamente não lhe passaria nada que considerasse perigoso, mesmo que eu tenha prometido cuidar de você. Achava que o Anel era muito bonito e muito útil, e que se alguma coisa estava errada ou esquisita, o problema era com ele. Disse que “o Anel estava crescendo em sua mente”, sendo constantemente objeto de sua preocupação; mas nunca suspeitou que a causa fosse o próprio anel. Embora tenha descoberto que a coisa precisava de cuidado: nunca parecia ser do mesmo tamanho e peso; encolhia ou se expandia de um modo estranho, e podia de repente escapar de um dedo em que coubesse justo.
— É, ele me avisou disso em sua última carta — disse Frodo. — Por isso sempre o mantive na corrente.
— Muito sábio — disse Gandalf — Mas quanto à sua vida longa, Bilbo nunca a relacionou ao anel. Considerou que os méritos eram dele mesmo, e tinha muito orgulho disso. Mas estava ficando inquieto e impaciente. Fino e esticado, dizia. Um sinal de que o anel estava tomando controle.
— Há quanto tempo você sabe de tudo isso? — perguntou Frodo de novo.
— Sei? — disse Gandalf — Sei de muitas coisas que apenas os Sábios sabem, Frodo. Mas se quer dizer “sei sobre este anel”, bem, ainda não sei, pode-se dizer. Há um último teste para ser feito. Mas não duvido mais do que já suponho. Quando foi que comecei a supor? — continuou ele cismando, em busca da resposta em sua memória. — Deixe-me ver – foi no ano em que o Conselho Branco expulsou o poder escuro da Floresta das Trevas, um pouco antes da Batalha dos Cinco Exércitos, quando Bilbo encontrou seu anel. Uma sombra cobriu meu coração, embora eu ainda não soubesse o que temia. Sempre me perguntava como Gollum tinha achado um Grande Anel, pois aquele era um Grande Anel – isso ao menos estava claro desde o início. Aí escutei a história estranha de Bilbo, de como o tinha “ganhado”, e não pude acreditar nela. Quando finalmente consegui que contasse a verdade, percebi na hora que ele estava tentando colocar seu direito sobre o anel acima de qualquer dúvida. Muito parecido com Gollum e seu “presente de aniversário”. As mentiras eram muito semelhantes para que eu ficasse tranquilo. Ficou evidente que o anel tinha um poder pernicioso que começava a repercutir sobre seu dono imediatamente. Este foi o primeiro indício verdadeiro que tive de que não estava tudo bem. Disse a Bilbo que era melhor não usar esse tipo de anel, mas ele se ressentiu e logo ficou furioso. Não havia quase mais nada que eu pudesse fazer. Não poderia tomá-lo sem causar um grande mal, e não conseguiria fazê-lo, de qualquer forma. Eu só podia observar e esperar. Talvez pudesse ter consultado Saruman, o Branco, mas alguma coisa sempre me impedia.
— Quem é Saruman? — perguntou Frodo. — Nunca ouvi falar nele antes.
— Talvez não — respondeu Gandalf — Ele não se preocupa, ou não se preocupava, com hobbits. Apesar disso, é um dos grandes entre os Sábios. É o chefe da minha ordem e o presidente do Conselho. Seu conhecimento é profundo, mas seu orgulho cresceu na mesma proporção, e ele se ofende se alguém se intrometer. A história dos anéis élficos, grandes ou pequenos, é da sua alçada. Estudou-a por muito tempo, procurando os segredos perdidos de sua feitura; mas quando os Anéis foram debatidos no Conselho, tudo o que nos revelou sobre seu estudo se mostrou contra meus receios. Então minha dúvida adormeceu – de modo inquieto. Ainda observei e esperei. E tudo parecia estar bem com Bilbo. E os anos passaram. Sim, passaram, e pareciam não afetá-lo. Ele não demonstrava sinais de envelhecimento. A sombra cobriu meu coração novamente. Mas disse a mim mesmo: “Afinal de contas, ele vem de uma família de grande longevidade, por parte de mãe. Ainda há tempo. Espere!” E esperei. Até aquela noite em que deixou esta casa. Ele disse e fez coisas que me encheram de um medo que nenhuma palavra de Saruman poderia conter. Finalmente soube que algo escuro e mortal estava em ação. Passei a maioria dos anos desde essa época descobrindo a verdade sobre isso.
— Não havia nenhum mal permanente já feito, havia? — perguntou Frodo ansiosamente. — Ele ficaria bem com o tempo, não ficaria? Quero dizer, ele poderia descansar em paz?
— Sentiu-se melhor imediatamente — disse Gandalf. — Mas só existe um poder neste mundo que sabe tudo sobre os Anéis e seus efeitos; e pelo que sei, não há nenhum poder no mundo que saiba tudo sobre hobbits. Entre os Sábios, eu sou o único que sabe sobre a tradição hobbit: um ramo de conhecimento obscuro, mas cheio de surpresas. Podem ser moles como manteiga, porém às vezes duros como velhas raízes de árvores. Acho provável que alguns possam resistir aos Anéis por muito mais tempo do que os Sábios imaginam. Acho que não há necessidade de se preocupar com Bilbo. É claro que ele possuiu o anel por muitos anos, e o usou; de modo que pode demorar muito até que a influência se acabe – até que rever o anel não represente um perigo para ele, por exemplo. Se isso não acontecer, ele pode viver muito, bastante feliz: apenas continuando como estava quando se separou do anel. No fim das contas, desistiu dele por sua própria vontade: um ponto importante. Não, eu não estava mais preocupado com Bilbo, uma vez que ele tinha se livrado da coisa. É por você que me sinto responsável. Desde que Bilbo partiu, ando muito preocupado com você, e com todos esses hobbits encantadores, absurdos e desamparados. Seria um triste golpe para o mundo se o Poder Escuro dominasse o Condado; se todos vocês, estúpidos e alegres Bolgers, Corneteiros, Boffins, Justa-correias e o resto, para não falar dos ridículos Bolseiros, fossem todos escravizados.
Frodo estremeceu.
— Mas por que isso deveria acontecer? — perguntou ele. — E por que ele iria querer escravos assim?
— Para falar a verdade — replicou Gandalf — acredito que até agora, veja bem, ele ignorou totalmente a existência dos hobbits. Você deve ficar agradecido. Mas a sua segurança passou. Ele não precisa de vocês – tem muitos servidores úteis – mas não se esquecerá de vocês novamente. E hobbits miseravelmente escravizados seriam muito mais do agrado dele do que hobbits felizes e livres. Existem coisas assim, como malícia e vingança.
— Vingança? — disse Frodo. — Vingança por quê? Ainda não entendo o que tudo isso tem a ver com Bilbo, comigo e com nosso anel.
— Tem tudo a ver — disse Gandalf. — Você ainda não sabe do perigo real; mas saberá. Eu não sabia ao certo da última vez que vim aqui; mas chegou a hora de falar. Dê-me o anel por um momento.
Frodo retirou-o do bolso das calças, onde estava preso numa corrente pendurada ao cinto. Soltou-o e o entregou lentamente ao mago. Sentiu que estava muito pesado, como se o anel ou o próprio Frodo estivessem relutantes em permitir que Gandalf o tocasse.
Gandalf ergueu-o no ar. Parecia ser feito de ouro puro e maciço.
— Você consegue ver essas marcas nele? — perguntou o mago.
— Não — disse Frodo. — Não vejo nada. O anel é liso, e nunca mostra sinais de arranhões ou de uso.
— Então olhe!
Para assombro e aflição de Frodo, o mago jogou o anel de repente bem no meio de um canto aceso da lareira. Frodo deu um grito e estendeu a mão tentando pegar as tenazes, mas Gandalf o segurou.
— Espere — disse ele numa voz imperativa, lançando de suas sobrancelhas eriçadas um olhar rápido sobre Frodo.
O anel não mostrou nenhuma alteração aparente. Depois de um tempo Gandalf se levantou, fechou as folhas da janela e a cortina. A sala ficou escura e silenciosa, embora o barulho das tesouras de Sam, agora mais próximo da janela, ainda chegasse abafado do jardim. Por um momento Gandalf ficou olhando para o fogo; depois se abaixou e tirou o anel da lareira com as tenazes, e imediatamente o segurou.
Frodo ficou boquiaberto.
— Está frio — disse Gandalf. — Pegue-o!
Gandalf o colocou na palma da mão do outro, que estava tremendo: parecia que o anel tinha ficado mais espesso e pesado que nunca.
— Erga-o! — disse Gandalf. — E olhe de perto!
Fazendo isso, Frodo enxergou as linhas finas, mais finas que o mais fino traço de pena, que corriam ao longo do anel, na parte interna e na externa: linhas de fogo que pareciam formar as letras de uma caligrafia contínua. Brilhavam com uma luz penetrante e contudo remota, como se emanasse de grande profundidade.
— Não consigo ler as letras de fogo — disse Frodo numa voz trêmula.
— Não — disse Gandalf — mas eu consigo. Essas letras são élfico, de uma modalidade arcaica, mas a língua é a de Mordor, a qual não vou pronunciar aqui. Mas isto em Língua Comum quer dizer, aproximadamente: Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los. São apenas duas linhas de versos conhecidos há muito tempo na tradição élfica:

“Três Anéis para os Reis Elfos sob este céu,
Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,
Nove para Homens Mortais fadados ao eterno sono,
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.”

Parou, e então disse lentamente, numa voz profunda:
 Este é o Anel-Mestre, o Um Anel para a todos governar. Este é o Um Anel que ele perdeu há muito tempo, o que causou um grande enfraquecimento de seu poder. Ele o deseja muito – mas não deve obtê-lo.
Frodo estava sentado em silêncio e paralisado. Parecia que o medo estava estendendo uma mão enorme, como uma nuvem escura que nascia no Leste e avançava para envolvê-lo.
— Este anel! — gaguejou. — Como, como veio parar nas minhas mãos?
— Ah! — disse Gandalf. — Essa é uma longa história. Seu início remonta aos Anos Negros, agora apenas lembrados pelos mestres conhecedores das tradições. Se eu tivesse de lhe contar tudo, ficaríamos aqui sentados até o inverno chegar. — Mas ontem à noite lhe falei sobre Sauron, o Grande, o Senhor do Escuro. Os rumores que ouviu são verdadeiros: ele realmente ressurgiu; deixou seus domínios na Floresta das Trevas e voltou à sua antiga fortaleza na Torre Escura de Mordor. Até vocês hobbits já ouviram esse nome, como uma sombra rondando os limites das velhas histórias. Sempre, depois de uma derrota e uma pausa, a Sombra toma outra forma e cresce novamente.
— Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época — disse Frodo.
— Eu também — disse Gandalf. — Como todos os que vivem nestes tempos. Mas a decisão não é nossa. Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado. E, Frodo, nosso tempo já está começando a ficar negro. O Inimigo está se tornando muito forte. Seus planos ainda não estão amadurecidos, eu acho, mas estão amadurecendo. Será muito difícil para nós. Já seria, mesmo se não fosse por esse acaso terrível.
— Para o Inimigo falta ainda uma coisa que lhe dê força e sabedoria para derrotar todas as resistências, quebrar todas as defesas e cobrir todas as terras com uma segunda escuridão. Ele precisa do Um Anel.
— Os Três, os mais bonitos de todos, foram escondidos dele pelos Reis-Elfos, e suas mãos nunca os tocaram ou macularam. Sete os Senhores Anões possuíam, mas ele recuperou três, e os outros foram consumidos pelos dragões. Nove ele deu a Homens Mortais, orgulhosos e poderosos, e desse modo os seduziu. Há muito tempo caíram sob o domínio do Um, e se tornaram Espectros do Anel, sombras sob sua grande Sombra, seus mais terríveis servidores. Há muito tempo. Faz muitos anos que os Nove foram levados para longe. Mas, quem sabe? Conforme as sombras cresçam novamente, estes também podem retornar. Mas deixa para lá! Não devemos falar dessas coisas nem numa manhã do Condado. A situação agora é esta: os Nove foram reunidos por ele; os Sete também, ou então foram destruídos. Os Três ainda estão escondidos. Mas não o preocupam mais. Precisa apenas do Um, pois este foi feito por ele mesmo, pertence a ele, que permitiu que uma grande parte de seu antigo poder passasse para o anel, de modo que pudesse governar todos os outros. Se o recuperar, poderá comandar a todos novamente, onde quer que estejam, até mesmo os Três, e tudo o que foi feito com eles não terá mais efeito, e ele ficará mais forte que nunca. E este é o acaso terrível, Frodo. Ele acreditava que o Um estava desaparecido, que havia sido destruído pelos elfos, como deveria ter acontecido. Mas agora sabe que ele não desapareceu, que foi encontrado. Então está procurando, procurando, e todo o seu pensamento está concentrado nisso. É sua grande esperança e nosso grande receio
— Por que, por que não foi destruído? — gritou Frodo. — E como aconteceu ao Inimigo perdê-lo, se era tão forte e o considerava tão precioso?
Apertou o Anel em sua mão, como seja enxergasse dedos escuros se estendendo para tentar tomá-lo.
— Foi tomado dele — disse Gandalf. — Antigamente a força de resistência dos elfos contra ele era maior; e homens e elfos não eram tão estranhos uns aos outros. Os homens de Ponente vieram ajudá-los. Este é um capítulo da antiga história que merece ser recordado; naquele tempo também havia tristeza, e uma escuridão crescente, mas houve pessoas valorosas e feitos que não foram totalmente em vão. Um dia, talvez, eu lhe conte toda a história, ou quem sabe você a escute de alguém que a conhece melhor. Mas por enquanto, já que acima de tudo você precisa saber como essa coisa veio parar em suas mãos, e isso já dá uma história bem longa, vou me limitar a essa parte. Foi Gil-galad, Rei-Elfo, que juntamente com Elendil de Ponente derrotou Sauron, embora os dois tenham sucumbido nessa empreitada; lsildur, filho de Elendil, cortou o Anel da mão de Sauron e tomou-o para si. Dessa forma Sauron foi subjugado e seu espírito fugiu e ficou escondido por muitos anos, até que sua sombra tomou forma novamente na Floresta das Trevas. Mas o anel foi perdido. Caiu no Grande Rio, Anduin, e sumiu. Isildur estava marchando para o Norte ao longo da margem leste do Rio; perto dos Campos de Lis foi assaltado pelos orcs das Montanhas, e quase todo o seu povo foi assassinado. Ele pulou nas águas do Rio, mas o Anel escorregou de seu dedo enquanto nadava, e então os orcs o viram e o mataram com flechas — Gandalf parou. — E ali, nos lagos escuros dos Campos de Lis — disse ele — o Anel sumiu do conhecimento e das lendas; e até mesmo esta parte de sua história é conhecida apenas por poucas pessoas, e o Conselho dos Sábios não conseguiu descobrir mais. Mas finalmente acho que posso continuar a história.
“Muito depois, mas ainda há muito tempo, vivia nas margens do Grande Rio, na borda das Terras Ermas, um pequeno povo de mãos ágeis e pés silenciosos. Acho que eram semelhantes aos hobbits; parentes dos pais dos pais dos Grados, pois amavam o Rio e sempre nadavam nele, ou faziam pequenos barcos de junco. Havia entre eles uma família muito considerada, pois era maior e mais rica que a maioria, que era governada pela avó, senhora austera e conhecedora da história antiga de seu povo. O elemento mais curioso e mais ávido de conhecimento dessa família se chamava Sméagol. Ele se interessava por raízes e origens; mergulhava em lagos fundos, fazia escavações embaixo de árvores e plantas novas, abria túneis em colinas verdes; com o tempo, deixou de olhar os topos das colinas, as folhas nas árvores, e as flores se abrindo no ar: sua cabeça e olhos só se dirigiam para baixo. Tinha um amigo chamado Déagol, parecido com ele, de olhos mais penetrantes mas não tão rápido ou forte. Uma vez pegaram um barco e desceram para os Campos de Lis, onde havia grandes canteiros de íris e juncos em flor. Ali Sméagol desceu e foi fuçar as margens, mas Déagol ficou sentado no barco pescando. De repente um grande peixe mordeu a isca, e antes que soubesse onde estava, ele foi arrastado para fora do barco e dentro da água, até o fundo. Então soltou a linha, pois julgou ver alguma coisa brilhando no leito do rio, e prendendo a respiração conseguiu apanhá-la.
“Depois subiu soltando bolhas, com plantas em seu cabelo e um monte de lama na mão, e nadou até a margem. E veja só! Quando limpou a lama, viu em sua mão um lindo anel de ouro, que brilhava e resplandecia ao sol. Seu coração se alegrou. Mas Sméagol tinha ficado vigiando de trás de uma árvore, e enquanto Déagol se regozijava com o anel, Sméagol chegou devagar por trás dele: ‘Dê isso para nós, Déagol, meu querido’, disse Sméagol sobre o ombro do amigo.
“Por quê?”, perguntou Déagol.
“Porque é meu aniversário, meu querido, e eu quero isso”, disse Sméagol.
“Eu não ligo”, disse Déagol. “Eu já lhe dei um presente de aniversário, que foi mais do que eu podia. Eu encontrei isso, e vou ficar com ele.”
“Vai mesmo, meu querido?” disse Sméagol; e segurou Déagol pela garganta e o estrangulou, porque o ouro era tão brilhante e bonito. Depois pôs o anel em seu dedo.
“Jamais se descobriu o que tinha acontecido com Déagol; foi assassinado longe de casa, e seu corpo foi habilmente escondido. Mas Sméagol voltou sozinho, e descobriu que ninguém de sua família podia vê-lo quando estava usando o anel. Ficou muito satisfeito com essa descoberta e a ocultou. Usava-a para descobrir segredos, e se aproveitava de seus conhecimentos em feitos desonestos e maliciosos. Ficou com olhos perspicazes e ouvidos aguçados para tudo que fosse pernicioso. O anel tinha lhe dado poderes de acordo com sua estatura. Não é de admirar que tenha se tornado muito impopular e que fosse evitado (quando visível) por todos os seus parentes. Estes o chutavam, e ele mordia seus pés. Começou a roubar e a andar por aí resmungando para si mesmo, gorgolejando. Por isso chamavam-no de Gollum e o amaldiçoavam, e lhe diziam para ir embora; sua avó, querendo paz, expulsou-o da família e o pôs para fora de sua toca.
“Vagou sozinho, chorando um pouco pela dureza do mundo, e viajou rio acima, até chegar a um riacho que descia das montanhas, seguindo esse caminho. Capturava peixes em lagos fundos com dedos invisíveis e os comia crus. Num dia muito quente, quando se inclinava sobre um lago, sentiu algo queimando na sua nuca, e uma luz ofuscante que vinha da água doeu em seus olhos molhados. Surpreendeu-se com isso, pois havia quase se esquecido da existência do sol. Então, pela última vez, olhou para cima e o desafiou com o punho fechado. Mas quando abaixou os olhos, viu à sua frente, distantes, os topos das Montanhas Sombrias, de onde vinha o riacho. E de repente pensou: ‘Debaixo daquelas montanhas deve ser um lugar fresco e de muita sombra. O sol não poderia me olhar ali. As raízes dessas montanhas devem ser raízes de verdade; deve haver grandes segredos enterrados lá que não foram descobertos desde o início.’
“Então viajou de noite pelas montanhas, e encontrou uma pequena caverna, da qual corria o riacho escuro; e fez o caminho rastejando, como uma larva entrando no coração das montanhas; e sumiu de todo o conhecimento. O Anel entrou nas sombras com ele, e nem mesmo quem o fez, quando seu poder começou a crescer novamente, pôde saber qualquer coisa sobre o assunto.
— Gollum! — gritou Frodo. — Gollum? Quer dizer que esta é justamente a criatura-Gollum que Bilbo encontrou? Que asqueroso!
— Acho que esta é uma história triste — disse o mago — e que poderia ter acontecido com outras pessoas, até mesmo com hobbits que eu conheci.
— Não posso acreditar que Gollum tenha algum parentesco com os hobbits, por mais distante que seja — disse Frodo acaloradamente. — Que ideia abominável!
— Mas mesmo assim verdadeira — replicou Gandalf. — De qualquer maneira, sei mais das origens dos hobbits do que eles próprios. E até a história de Bilbo sugere o parentesco. Havia muita coisa no fundo de suas mentes e memórias que era similar. Eles se entenderam notavelmente bem, muito melhor do que um hobbit entenderia, vamos dizer, um anão, ou um orc, ou mesmo um elfo. Pense nas charadas que ambos sabiam, para dar um exemplo.
— Sim — disse Frodo. — Mas outros povos além dos hobbits propõem charadas e muitas delas do mesmo tipo. E os hobbits não trapaceiam. Gollum queria trapacear o tempo todo. Estava só tentando pegar Bilbo desprevenido. E vou mais além: sua maldade se divertiu propondo um jogo que poderia acabar lhe dando uma vítima fácil, mas que não o prejudicaria se perdesse.
— Receio que isso seja a pura verdade — disse Gandalf. — Mas havia algo mais nisso tudo, eu acho, que você ainda não pode ver. Até mesmo Gollum não estava totalmente arruinado. Provou ser mais resistente até do que um dos Sábios poderia imaginar – como também pode acontecer com um hobbit. Havia um cantinho de sua mente que ainda lhe pertencia, e a luz entrou por ele, como através de uma fenda no escuro: uma luz que vinha do passado. Penso que na verdade deve ter sido bom para ele ouvir uma voz agradável novamente, trazendo lembranças do vento, das árvores, e do sol na grama, e coisas desse tipo que estavam esquecidas. Mas é óbvio que isso só iria fazer com que a sua parte má ficasse mais furiosa no fim – a não ser que pudesse ser conquistada. A não ser que pudesse ser curada — Gandalf suspirou. — Infelizmente, há poucas chances. Mas ainda há esperança. Sim, pois embora ele tivesse possuído o Anel por um período tão longo, incluindo quase todo o espaço de que possa se lembrar, já fazia tempo que não o usava muito: na negra escuridão era quase desnecessário. Certamente Gollum nunca “desapareceu”. Está magro e ainda resistente. Mas a coisa estava devorando sua mente, é claro, e o tormento já era quase insuportável. Todos os “grandes segredos” sob as montanhas acabaram se transformando apenas numa noite vazia: não havia mais nada para descobrir, nada que valesse a pena fazer, apenas comer coisas nojentas furtivamente e remoer ressentimentos. Odiava a escuridão, e ainda mais a luz: odiava tudo, e acima de tudo o Anel.
— O que quer dizer? — perguntou Frodo. — Certamente o Anel era o seu precioso e a única coisa com que se preocupava. Mas se o odiava, por que não se livrou dele, ou não foi embora e o deixou?
— Você precisa começar a entender, Frodo, depois de tudo o que ouviu — disse Gandalf. — Ele o odiava e o amava, da mesma forma como odiava e amava a si mesmo. Não podia se livrar dele. Nessa questão, não tinha mais vontade própria. Um anel de poder toma conta de si próprio, Frodo. Ele pode escapar traiçoeiramente, mas quem o possui nunca o abandona. No máximo brinca com a ideia de entregá-lo aos cuidados de alguma outra pessoa – e isso apenas num estágio inicial, quando ele começa a se apoderar. Mas até onde sei, somente Bilbo em toda a história foi além de brincar, e realmente o entregou. Precisou de toda a minha ajuda, também. E mesmo assim ele nunca teria simplesmente abandonado o anel, ou colocado de lado. Não foi Gollum, Frodo, mas o próprio anel que decidiu as coisas. O anel o deixou.
— Ali, e bem em tempo de encontrar Bilbo? — disse Frodo. — Um orc não teria sido mais adequado?
— Isso não é brincadeira — disse Gandalf. — Não para você. Esse foi o acontecimento mais estranho em toda a história do Anel até agora: a chegada de Bilbo exatamente naquela hora, e o fato de ter colocado a mão sobre ele, cegamente, no escuro. Havia mais que um poder em ação, Frodo. O anel estava tentando voltar para seu mestre. Tinha escorregado da mão de Isildur e o traíra; depois, quando houve uma chance, pegou o pobre Déagol, e este foi assassinado; e depois disso Gollum, e o Anel o devorou. Não podia mais fazer uso dele: Gollum era pequeno e mesquinho demais, e enquanto permanecesse com ele o anel jamais deixaria o lago escuro. Então nesse momento, quando seu mestre estava novamente acordado e enviando seu pensamento escuro da Floresta das Trevas, ele abandonou Gollum. Para ser apanhado pela pessoa mais improvável que se poderia imaginar: Bilbo, do Condado. Por trás disso havia algo mais em ação, além de qualquer desígnio de quem fez o Anel. Não posso dizer de modo mais direto: Bilbo estava designado a encontrar o Anel, e não por quem o fez. Nesse caso você também estava designado a possuí-lo. E este pode ser um pensamento encorajador.
— Mas não é — disse Frodo. — Embora eu não tenha certeza de que entendi o que me contou. Mas como você soube tudo isso sobre o Anel, e sobre Gollum? Você realmente sabe de tudo isso, ou ainda está só adivinhando?
Gandalf olhou para Frodo, e seus olhos brilharam.
— Eu sabia muito, e aprendi muito — respondeu ele. — Mas não vou prestar contas de tudo o que fiz para você. A história de Elendil e lsildur e do Um Anel é conhecida por todos os Sábios. E ficou demonstrado, apenas pelas letras de fogo, que o seu anel é o Um, mesmo deixando de lado outras evidências.
— E quando você descobriu isto? — perguntou Frodo, interrompendo.
— Agora há pouco, nesta sala, é claro — respondeu o mago secamente. — Mas já esperava fazer essa descoberta. Voltei de escuras jornadas e de uma longa procura para fazer o teste final. É a última prova e as coisas agora estão muito claras. Descobrir a parte de Gollum, e ajustá-la à lacuna da história exigiu alguma reflexão. Posso ter começado com suposições a respeito de Gollum, mas não estou supondo agora. Eu sei. Eu o encontrei!
— Você encontrou Gollum? — exclamou Frodo, surpreso.
— Sim, a coisa mais óbvia a fazer, é claro, se fosse possível. Já estava tentando havia muito tempo, mas finalmente consegui.
— Então o que aconteceu depois que Bilbo escapou dele? Você sabe?
— Não claramente. O que você ouviu foi o que Gollum estava disposto a contar – embora, é claro, não do modo que relatei. Por exemplo, ele chamava o Anel de seu “presente de aniversário”, e não abria mão disso. Disse que veio de sua avó, que tinha montes de coisas bonitas daquele tipo. Uma história ridícula. Não duvido de que a avó de Sméagol fosse uma matriarca, uma grande pessoa à sua maneira, mas dizer que ela possuía muitos Anéis-Élficos era absurdo, e quanto a doá-los, isso era mentira. Mas uma mentira com um fundo de verdade.
“O assassinato de Déagol assombrava Gollum, e ele inventou uma defesa, repetindo-a ao seu “precioso” muitas vezes, enquanto roía ossos no escuro, até quase acreditar no que dizia. Era seu aniversário, Déagol devia ter-lhe dado o anel. Para ele era óbvio que o anel tinha aparecido daquele modo porque era um presente. Era seu presente de aniversário, e tudo o mais... Eu o suportei o quanto pude, mas a verdade era desesperadamente importante, e no final precisei ser rude. Amedrontei-o com fogo e arranquei dele a verdadeira história, pouco a pouco, junto com muito rosnar e resmungar. Considerou-se mal interpretado e usado. Mas quando finalmente me contou a história, até o final do jogo de charadas e a fuga de Bilbo, não disse mais nada, a não ser na forma de pistas obscuras. Alguma outra coisa o amedrontava mais que eu. Resmungava que iria ter de volta o que era seu. As pessoas iriam ver se ele suportaria ser chutado, expulso de uma toca e depois roubado. Gollum tinha agora bons amigos, bons e muito fortes. Eles o ajudariam. Bolseiro iria pagar por isso. Esse era seu principal pensamento. Odiava Bilbo e amaldiçoava seu nome. E mais: sabia de onde ele tinha vindo.
— Mas como descobriu? — perguntou Frodo.
— Bem, quanto ao nome, o próprio Bilbo o disse, muito ingenuamente; e depois disso seria fácil descobrir de onde vinha, já que Gollum tinha saído de sua ilha. Ah, sim, ele saiu. O desejo pelo anel provou ser mais forte que seu medo dos orcs, e até da luz. Depois de um ou dois anos ele deixou as montanhas. Veja você, embora ainda preso ao desejo pelo anel, Gollum não estava mais sendo devorado por ele; começou a reviver um pouco. Sentiu-se velho, terrivelmente velho, embora menos tímido, e estava mortalmente faminto. A luz, do sol e da lua, ainda eram odiadas por ele, e sempre serão, eu acho; mas ele foi esperto. Descobriu que podia se esconder da luz do dia e do luar, e fazer seu caminho rápida e suavemente na calada da noite com seus olhos pálidos e frios, e capturar coisas amedrontadas ou imprudentes. Ficou mais forte e corajoso com nova comida e ar. Conseguiu achar o caminho da Floresta das Trevas, como se poderia esperar.
— Foi ali que você o encontrou? — perguntou Frodo.
— Eu o vi lá — respondeu Gandalf — mas antes disso ele vagara por lugares distantes, seguindo o rastro de Bilbo. Não tenha dúvida de que foi difícil arrancar qualquer informação dele, pois sua conversa era sempre interrompida por maldições e ameaças. “O que ele tinha em ssseus bolssos?”, dizia ele, “eu não sabia, não, precioso. Trapaça barata. Não foi uma pergunta honesta. Ele enganou primeiro, enganou sim. Quebrou as regras. Deveríamos ter espremido ele, sim, precioso. E nós vamos, precioso!”
“Esta é uma amostra de sua conversa. Suponho que você não queira mais. Tive de aguentar isso por vários dias. Mas através das pistas que escapavam com aquele rosnar, descobri que seus pés silenciosos o tinham conduzido finalmente a Esgaroth e até as ruas de Valle, escutando secretamente e espiando. Bem, a notícia dos grandes acontecimentos estava espalhada pelas Terras Ermas, e muitos tinham ouvido o nome de Bilbo e sabiam de onde vinha. Nós não fizemos segredo de nossa viagem de volta até sua casa no Oeste. Os ouvidos atentos de Gollum logo escutariam o que desejavam.
— Então, por que ele não seguiu o rastro de Bilbo por mais tempo? — perguntou Frodo. — Por que não veio até o Condado?
— Ah! — exclamou Gandalf. — Agora chegamos ao ponto. Acho que Gollum tentou. Partiu e se dirigiu ao Oeste, até o Grande Rio. Mas aí mudou a direção. A distância não o intimidou, disso tenho certeza. Não, alguma outra coisa o afastou. Assim pensam meus amigos, os que o caçaram para mim. Os elfos da Floresta o procuraram primeiro, uma tarefa fácil para eles, pois seu rastro ainda era recente nessa época. Seguiram-no através da Floresta das Trevas e de volta novamente, embora não tenham conseguido capturá-lo. A Floresta estava cheia de rumores sobre ele, contos terríveis mesmo para animais e pássaros. Os homens da Floresta disseram que havia algo diferente e terrível, um fantasma que bebia sangue. Subia nas árvores para procurar ninhos; se arrastava dentro de tocas para encontrar filhotes; escorregava através das janelas para procurar berços. Mas na borda oeste da Floresta das Trevas o rastro mudou de rumo. Desviou para o sul, fugiu do alcance da visão dos elfos da Floresta e foi perdido.
“E então cometi um grande erro. Sim, Frodo, e não o primeiro; embora receie que possa ter sido o mais grave. Deixei as coisas acontecerem. Deixei-o escapar, pois tinha muito em que pensar naquela época, e ainda confiava nos estudos de Saruman. Bem, isso foi anos atrás. Paguei por isso com muitos dias escuros e perigosos. Já fazia muito tempo que o rastro era antigo quando comecei a segui-lo novamente, depois da partida de Bilbo. E minha busca teria sido em vão, se não fosse pela ajuda que tive de um amigo: Aragorn, o maior viajante e caçador do mundo nesta era. Juntos procuramos Gollum em toda a extensão das Terras Ermas, sem esperança e sem sucesso. Mas finalmente, quando eu tinha desistido da busca e me voltava para outras coisas, Gollum foi encontrado. Meu amigo retornou, depois de passar por grandes perigos, trazendo a miserável criatura.
“O que Gollum estivera fazendo não dizia. Apenas chorava e nos chamava de cruéis, com muitos gollums de sua garganta: e quando o pressionamos, lamentou-se e nos adulou, e esfregou as longas mãos, lambendo os dedos como se doessem, como se estivesse lembrando de alguma tortura antiga. Mas receio que não há sombra de dúvida: ele tinha feito um percurso longo e furtivo, passo a passo, milha a milha, até finalmente chegar à Terra de Mordor.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Frodo podia ouvir as batidas de seu coração. Mesmo lá fora tudo parecia quieto. Nenhum som da tesoura de Sam podia ser ouvido.
— Sim, a Mordor — disse Gandalf — Infelizmente, Mordor atrai todas as coisas malignas, e o Poder Escuro estava usando todas as forças par a reuni-las ali. O Anel do Inimigo também cumpriria seu papel, fazendo Gollum ficar atento aos chamados. E todas as pessoas estavam na época sussurrando sobre a nova Sombra no Sul, e sobre seu ódio pelo Oeste. Ali estavam seus novos e bons amigos, que o ajudariam em sua vingança.
“Idiota infame! Naquela terra poderia aprender muito, demais para que pudesse continuar tranquilo. E mais cedo ou mais tarde, enquanto espreitava e vigiava nas fronteiras, ele seria capturado e levado – para exame. Foi assim que aconteceu, receio. Já tinha permanecido ali por um longo tempo quando foi encontrado, fazendo o caminho de volta. Em alguma missão maldosa. Mas isso não importa agora. Seu maior dano estava feito. Sim, infelizmente! Através dele o Inimigo ficara sabendo que o Um tinha sido encontrado novamente. Ele sabe onde Isildur morreu. Sabe onde Gollum encontrou seu anel. Sabe que este é um dos Grandes Anéis, pois garantiu vida longa. Sabe que não é um dos Três Anéis, pois estes nunca foram perdidos. Sabe que não é nenhum dos Sete ou dos Nove, pois seu paradeiro é conhecido. Sabe que este é o Um. E finalmente ouviu falar de hobbits e do Condado.
“É provável que esteja procurando o Condado atualmente, se é que ainda não descobriu onde fica. Na verdade, Frodo, receio até que o nome Bolseiro, que por muito tempo passou despercebido, tenha se tornado importante para ele.
— Mas isso é terrível — gritou Frodo. — Muito pior do que o pior que eu havia imaginado a partir de suas insinuações e advertências. Ó Gandalf, meu melhor amigo, que devo fazer? Pois agora estou realmente com medo. Que devo fazer? É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve a chance!
— Pena? Foi justamente Pena que ele teve. Pena e misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir o Anel desse modo. Com pena.
— Sinto muito — disse Frodo. — Mas estou com medo; e não sinto nenhuma pena de Gollum.
— Você não o viu — Gandalf interrompeu.
— Não vi e não quero ver — disse Frodo. — Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas as coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte.
— Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados. Não tenho muita esperança de que Gollum possa se curar antes de morrer, mas existe uma chance. E ele está ligado ao destino do Anel. Meu coração me diz que ele tem ainda algum tipo de função a desempenhar, para o bem ou para o mal, antes do fim; e quando a hora chegar, a pena de Bilbo pode governar o destino de muitos – e o seu também. De qualquer forma não o matamos: está muito velho e infeliz. Os elfos da Floresta o mantêm preso, mas o tratam com toda a gentileza que têm em seus sábios corações.
— Mesmo assim — disse Frodo. — Mesmo que Bilbo não pudesse matar Gollum, gostaria que não tivesse ficado com o Anel. Gostaria que nunca o tivesse encontrado, e que eu não o possuísse agora! Por que permitiu que eu ficasse com ele? Por que não me obrigou a jogá-lo fora, ou a destruí-lo?
— Permitir? Obrigar? — disse o mago. — Você não prestou atenção em tudo o que eu disse? Você não sabe o que está dizendo. Mas quanto a jogá-lo fora, isto seria obviamente errado. Esses Anéis têm um modo de ser encontrados. Em mãos perversas, este poderia ter causado um grande mal. Pior de tudo, poderia ter caído nas mãos do Inimigo. Na verdade, certamente cairia; pois este é o Um, e ele está exercendo todo seu poder para encontrá-lo ou atraí-lo para si. É claro, querido Frodo, foi perigoso para você, e isto me preocupou muito. Mas havia tantas coisas em questão que precisei correr alguns riscos – embora não tenha havido um só dia durante minha ausência em que o Condado não estivesse guardado por olhos atentos. Contanto que você não o usasse, eu não achava que o Anel poderia ter algum efeito duradouro em você; não para o mal, e de qualquer forma não por um longo tempo. E lembre-se de que há nove anos, quando o vi pela última vez, eu tinha certeza de muito pouca coisa.
— Mas por que não destruí-lo, como você já deveria ter feito há muito tempo? — gritou Frodo novamente. — Se tivesse me avisado, ou mesmo mandado um recado, eu o teria destruído.
— Teria? Como faria isso? Você já tentou?
— Não. Mas acho que ele poderia ser destruído a marteladas, ou derretido.
— Tente! — disse Gandalf. — Tente agora.
Frodo retirou o Anel de seu bolso novamente e olhou para ele. Agora parecia liso e plano, sem qualquer marca visível.
O ouro tinha uma aparência muito bela e pura, e Frodo pensou como sua cor era bonita e rica, como era perfeitamente redondo. Era uma coisa admirável e preciosa. Quando o tirou do bolso, pretendia atirá-lo exatamente na parte mais quente do fogo. Mas percebia agora que não podia fazê-lo, não sem um grande esforço. Sentiu o peso do Anel em sua mão, hesitando, e se forçando a lembrar de tudo o que Gandalf tinha lhe contado; então, com um grande esforço de vontade fez um movimento, como para atirá-lo longe – mas percebeu que o havia colocado de volta no bolso.
Gandalf riu de modo severo.
— Está vendo? Também você, Frodo, já não consegue se livrar dele, ou danificá-lo. E eu não poderia “obrigar” você – a não ser usando de força, o que quebraria sua vontade. Mas quanto a destruir o Anel, a força é inútil. Mesmo que você o pegasse e o martelasse com uma marreta pesada, nenhum vestígio apareceria nele. Suas mãos não podem desfazê-lo, nem as minhas. Seu pequeno fogo, é claro, não derreteria nem ouro comum. Este Anel já passou por ele incólume, e nem foi aquecido. Mas não há forja de ferreiro neste Condado que possa alterá-lo de forma alguma. Nem mesmo as bigornas e os fornos dos anões poderiam fazer isso. Alguém disse que o fogo dos dragões poderia derreter e consumir os Anéis de Poder, mas hoje em dia não sobrou nenhum dragão na terra cujo velho fogo seja quente o suficiente; nem nunca houve qualquer dragão, nem mesmo Ancalagon, o Negro, que pudesse danificar o Um Anel, o Anel Governante, pois ele foi feito pelo próprio Sauron. Só existe uma maneira: encontrar as Fendas da Perdição nas profundezas de Orodruin, a Montanha de Fogo, e atirar o Anel ali, se você realmente quer destruí-lo, colocá-lo fora do alcance do Inimigo para sempre.
— É claro que quero destruí-lo! — gritou Frodo. — Ou, bem... fazer com que ele seja destruído. Não sou talhado para buscas perigosas. Gostaria de nunca ter visto o Anel! Por que veio a mim? Por que fui escolhido?
— Perguntas desse tipo não se podem responder — disse Gandalf. — Pode ter certeza de que não foi por méritos que outros não tenham: pelo menos não por poder ou sabedoria. Mas você foi escolhido, e portanto deve usar toda força, coração e esperteza que tiver.
— Mas tenho tão pouco dessas coisas! Você é sábio e poderoso. Você não ficaria com o Anel?
— Não! — gritou Gandalf, levantando-se de repente. — Com esse poder eu teria um poder grande e terrível demais. E comigo o Anel ganharia uma força ainda maior e mais fatal. — Seus olhos brilharam e seu rosto se acendeu como se estivesse iluminado por dentro. — Não me tente! Pois eu não quero ficar como o próprio Senhor do Escuro. Mas o caminho do Anel até meu coração é através da piedade, piedade pela fraqueza e pelo desejo de ter forças para fazer o bem. Não me tente! Não ouso tomá-lo, nem mesmo para mantê-lo a salvo, sem uso. O desejo de controlá-lo seria grande demais para minhas forças. E vou precisar delas. Grandes perigos me esperam.
Foi até a janela, correu a cortina e abriu as venezianas. A luz do sol afluiu para dentro da sala novamente. Sam passou ao longo do caminho do lado de fora, assobiando.
— E agora — disse o mago, voltando-se para Frodo — a decisão é sua! Mas sempre ajudarei você. — Colocou a mão no ombro de Frodo. — Ajudarei você a carregar este fardo, enquanto precisar carregá-lo. Mas precisamos fazer alguma coisa logo. O Inimigo está se aproximando.
Houve um longo silêncio. Gandalf sentou-se novamente e tirava baforadas de seu cachimbo, como se estivesse perdido em pensamentos. Seus olhos pareciam fechados, mas sob as pálpebras estavam vigiando Frodo atentamente. Frodo olhou fixamente para as brasas vermelhas na lareira, até que elas encheram toda a sua visão, e ele parecia estar olhando no interior de profundos poços de fogo. Estava pensando nas lendárias Fendas da Perdição, e no terror da Montanha de Fogo.
— Bem — disse Gandalf finalmente. — Em que está pensando? Já decidiu o que fazer?
— Não! — respondeu Frodo, saindo da escuridão e voltando a si, surpreso ao descobrir que não estava escuro, e que da janela podia ver o jardim iluminado pelo sol. — Ou, talvez, sim. Pelo que entendi do que você disse, suponho que devo manter o Anel e guardá-lo, pelo menos por agora, não importa o que isso me acarrete.
— O que quer que aconteça, será lento, lento para o mal, se guardá-lo com esse propósito.
— Espero que sim — disse Frodo. — Mas espero que possa encontrar logo algum outro guardião melhor. Mas por enquanto parece que represento um perigo, um perigo para todos os que vivem perto de mim. Não posso guardar o Anel e ficar aqui. Devo deixar Bolsão, o Condado, deixar tudo e ir embora. — Ele suspirou. — Gostaria de salvar o Condado, se pudesse – embora tenha havido ocasiões em que pensei não ter palavras para descrever a estupidez e idiotice dos habitantes daqui, e senti que o bom para eles seria um terremoto ou uma invasão de dragões. Mas não sinto assim agora. Sinto que enquanto o Condado permanecer a salvo e tranquilo atrás de mim, a minha andança será mais suportável: saberei que em algum lugar existe um chão seguro, mesmo que meus pés não possam pisá-lo de novo. É claro que às vezes pensei em ir embora, mas imaginava isso como um tipo de férias, uma série de aventuras como as de Bilbo ou ainda melhores, terminando em paz. Mas isto agora significa o exílio, fugir de um perigo para cair em outro, levando o perigo por onde quer que eu vá. E suponho que devo ir só, se estou fazendo isto para salvar o Condado. Mas sinto-me muito pequeno, e extirpado de minhas raízes e – bem – desesperado. O Inimigo é tão forte e terrível!
Não disse a Gandalf, mas enquanto falava um grande desejo de seguir Bilbo queimava em seu coração – seguir Bilbo, e talvez até encontrá-lo novamente. Um desejo tão forte que superou o medo: quase poderia correr para fora e depois para a estrada sem seu chapéu, como Bilbo tinha feito numa manhã parecida, há muito tempo.
— Meu querido Frodo! — exclamou Gandalf. — Os hobbits são de fato criaturas surpreendentes, como já disse antes. Pode-se aprender tudo o que há para saber sobre eles num mês, e apesar disso ainda podem depois de cem anos surpreendê-lo numa emergência. Mal esperava por uma resposta dessas, nem mesmo vinda de você. Mas Bilbo não errou quando escolheu seu herdeiro, embora quase não imaginasse a importância desse fato. Receio que esteja certo. O Anel não poderá ficar escondido no Condado por muito mais tempo; e para o seu próprio bem, e também dos outros, você deve ir, e deixar o nome Bolseiro para trás. Não será seguro ter este nome, fora do Condado ou nas Terras Ermas. Agora vou dar a você um nome de viagem. Quando partir, vá como o Sr. Monteiro. Mas não acho que você precise ir só. Não se conhecer alguém em quem confia, e que esteja disposto a ir ao seu lado – e que você esteja disposto a levar a perigos desconhecidos. Mas se procurar um companheiro, seja cuidadoso na escolha! E tenha cuidado com o que disser – mesmo para os amigos mais íntimos! O Inimigo tem muitos espiões e muitas maneiras de escutar.
De repente parou, como se estivesse ouvindo alguma coisa. Frodo percebeu que tudo estava quieto, dentro e fora. Gandalf esgueirou-se para um dos lados da janela.
Então, num movimento brusco, pulou sobre o parapeito e esticou o braço longo para fora e para baixo. Alguém grasnou e a cabeça encaracolada de Sam Gamgi, pendurada por uma orelha, apareceu na janela.
— Ora, ora, pelas minhas barbas! — disse Gandalf — Sam Gamgi, hein? Agora, o que você pode estar fazendo aí?
— Abençoado seja, Sr. Gandalf, senhor! — disse Sam. — Nada! Nada de mais! Estava só cortando a beira da grama embaixo da janela, se o senhor me entende.
Pegou a tesoura e a exibiu como prova.
— Não entendo — disse Gandalf, sério. — Já faz um tempo que parei de ouvir o som de sua tesoura. Há quanto tempo você está espionando?
— Espionando, senhor? Perdão, mas não estou entendendo. Não há segredos em Bolsão, disso eu não duvido.
— Não seja tolo! O que você ouviu, e por que ficou escutando?
Os olhos de Gandalf flamejaram e suas sobrancelhas se eriçaram como cerdas.
— Sr. Frodo, senhor! — gritou Sam trêmulo. — Não deixe que ele me machuque, senhor! Não deixe que ele me transforme em alguma coisa apavorante. Meu velho pai ficaria tão magoado. Eu não queria fazer mal, palavra de honra, senhor!
— Ele não vai machucar você — disse Frodo, mal podendo conter o riso, embora ele mesmo estivesse assustado, e bastante surpreso. — Ele sabe tanto quanto eu que você não queria fazer mal a ninguém. Mas venha até aqui e responda as suas perguntas diretamente.
— Bem, senhor — disse Sam, tremendo um pouco ainda. — Escutei um bocado que não entendi direito, sobre um inimigo, e anéis, e o Sr. Bilbo, senhor, e dragões, e uma montanha de fogo, e – elfos, senhor. Escutei porque não pude me segurar, se entende o que quero dizer. Perdoe, senhor, mas adoro histórias desse tipo. E acredito nelas também, não importa o que Ted possa dizer. Elfos, senhor! Eu adoraria vê-los. O senhor não poderia me levar junto para ver os elfos quando for?
De repente Gandalf riu.
— Entre! — gritou ele, e colocando para fora os dois braços levantou o atônito Sam, a tesoura e pedaços de grama cortada e tudo o mais, exatamente através da janela, colocando-o no chão. — Levá-lo para ver os elfos, hein? — disse ele, olhando Sam de perto, mas com um sorriso brilhando em seu rosto. — Então você escutou que o Sr. Frodo está indo embora?
— Escutei, senhor, e é por isso que eu engasguei: e ao que parece o senhor ouviu. Tentei não engasgar, senhor, mas aquilo explodiu dentro de mim: fiquei tão atordoado...
— Não posso evitar, Sam — disse Frodo com tristeza. De repente percebeu que fugir do Condado implicaria despedidas muito mais dolorosas do que simplesmente dizer adeus aos confortos conhecidos de Bolsão. — Preciso ir. Mas... — e aqui olhou firme para Sam — se realmente gosta de mim, manterá isso em segredo absoluto. Entende? Se não fizer isso, se você soltar uma só palavra do que escutou aqui, então quero que Gandalf o transforme num sapo pintado e encha o jardim de cobras.
Sam caiu de joelhos, tremendo.
— Levante-se, Sam — disse Gandalf. — Pensei em algo melhor que isso. Algo para fechar sua boca, e puni-lo de modo exemplar por ter ficado escutando a conversa. Você irá embora com o Sr. Frodo!
— Eu, senhor? — gritou Sam, pulando como um cachorro que é convidado para um passeio. — Eu ir e ver elfos e tudo o mais? Viva! — gritou ele, rompendo em lágrimas.

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