11 de abril de 2016

Capítulo II - A passagem dos Pântanos

Golum se movimentava com rapidez, com a cabeça e o pescoço jogados para frente, muitas vezes usando as mãos além dos pés. Frodo e Sam tinham de se esforçar para manter o ritmo dele; mas não parecia que Golum tinha qualquer ideia de escapar, e se os hobbits ficavam para trás, ele se virava e os esperava.
Depois de um tempo chegaram à borda do fosso estreito que já tinham atingido antes, mas agora estavam mais distantes das colinas.
— Aqui está! — gritou ele. — Há uma descida por dentro, é sim. Agora nós segue por ela – ali, por ali. — Apontou ao sul e ao leste, na direção dos pântanos. O cheiro nauseabundo chegava-lhes às narinas, pesado e pestilento mesmo no ar fresco da noite. Golum subiu e desceu ao longo da borda, e finalmente os chamou. — Aqui! Podemos descer por aqui. Sméagol foi por esse caminho uma vez: fui por aqui, escondendo-me dos orcs.
Foi na frente, e seguindo-o os hobbits desceram para dentro da escuridão. Não foi difícil, pois a fenda nesse ponto tinha uma profundidade de apenas uns quatro metros e meio, e cerca de três metros e meio de largura. No fundo corria um fio de água: de fato era o leito de um dos muitos pequenos riachos que desciam das colinas para alimentar as Poças estagnadas e os atoleiros mais além. Golum virou à direita, mais ou menos em direção ao sul, e avançou afundando os pés no riacho raso e pedregoso.
Parecia muito satisfeito por sentir a água, e ria consigo mesmo, algumas vezes até grasnando numa espécie de canção.

Frio seco chão que morde a mão, pros pés é duro.
Pedra e seixo
sem carne veja , é osso puro.
Mas lago e rio molhado e frio:
tão bom pros pés! E agora me deixe...

— Ha! Ha! Deixe o quê? — disse ele, olhando de lado para os hobbits. — Vou lhes dizer — grasnou ele. — Ele já adivinhou há muito tempo, Bolseiro adivinhou. — Um brilho surgiu em seus olhos e Sam, captando-o na escuridão, achou aquilo muito pouco agradável.

Como a morte sem calor; vive sem respirar;
sem sede, sempre a beber; encouraçado sem tilintar
No seco sua derrota, acha que uma ilhota é alto monte;
acha que uma fonte é sopro de brisa. Macio, desliza!
Como é bom vê-lo! Só quero que me deixe
Pegar meu peixe, e depois comê-lo!

Essas palavras só deixaram Sam mais preocupado com um problema que já vinha incomodando sua mente desde a hora em que ele percebera que seu mestre ia adotar Golum como um guia: o problema da comida. Não lhe ocorreu que seu mestre também poderia ter pensado nisso, mas ele supunha que Golum pensara. Pensando bem, como Golum tinha se mantido durante todo o tempo que vagou sozinho? “Não muito bem”, pensou Sam. “Ele parece bastante esfomeado. E não exigente demais para não experimentar o gosto da carne de hobbits, se não conseguir encontrar nenhum peixe, eu aposto — supondo que ele pudesse nos pegar enquanto estivéssemos cochilando. Não, ele não vai: não Sam Gamgi, pelo menos.”
Avançaram aos tropeços para dentro do fosso escuro e sinuoso por um longo tempo, ou pelo menos assim pareceu para os pés cansados de Frodo e Sam. O fosso virava para o leste, e conforme iam avançando ficava mais largo e gradualmente mais raso. Finalmente o céu começou a clarear com o primeiro cinza da manhã. Golum não mostrava sinais de cansaço, mas agora erguera os olhos e parara.
— O Dia está chegando — sussurrou, como se o Dia fosse algo que pudesse ouvi-lo e saltar sobre ele. — Sméagol vai ficar aqui: vou ficar aqui, e o Cara Amarela não vai me ver.
— Nós ficaríamos contentes em ver o sol — disse Frodo —, mas vamos ficar aqui: estamos cansados demais para ir mais longe, por enquanto.
— Vocês não demonstram sabedoria quando se alegram com o Cara Amarela — disse Golum. — Ele os mostra. Hobbits sensatos e bonzinhos ficam com Sméagol. Orcs e seres maus estão à solta. Eles podem enxergar de longe. Fiquem e se escondam comigo!
Os três pararam para descansar ao pé da parede rochosa do fosso. Naquele ponto, a altura era pouco maior que a de um homem grande, e na base havia saliências planas de pedra seca; a água corria num canal do outro lado. Frodo e Sam se sentaram em uma das saliências, descansando as costas. Golum se arrastava e chapinhava na água.
— Precisamos comer um pouco — disse Frodo. — Está com fome, Sméagol? Temos muito pouco para dividir, mas vamos lhe oferecer o que pudermos.
À menção da palavra fome, uma luz esverdeada se acendeu nos olhos opacos de Golum, que pareceram saltar mais que nunca daquele rosto magro e de aparência doentia. Por um momento, ele teve uma recaída, voltando ao seu jeito antigo de Golum.
— Estamosss famintos, sim, famintos estamos, precioso — disse ele. — Que é que eles come? Têm uns peixes gostosos? — Pôs a língua para fora, entre os dentes pontudos e amarelos, lambendo os lábios descorados.
— Não, não temos peixe — disse Frodo. — Só temos isto — ergueu um pedaço de lembas — e água, se esta água aqui for boa para beber.
— Sssim, sssim, agua boa — disse Golum. — Bebam, bebam, enquanto pudermos! Mas o que é isso aí, precioso? É mastigável? É gostoso?
Frodo partiu uma parte do bolo e o entregou a Golum no seu embrulho de folhas. Golum farejou a folha e seu rosto se alterou: um espasmo de asco tomou conta dele, juntamente com um traço da velha malícia.
— Sméagol sente o cheiro! — disse ele. — Folhas da terra dos elfos, gah! Eles fede. Ele subiu naquelas árvores, e não pode tirar o cheiro de suas mãos nem lavando, minhas pobres mãozinhas.
Jogando a folha, ele pegou um canto do lembas e o mordiscou. Cuspiu e teve um acesso de tosse.
— Ach! Não! — gaguejou ele. — Estão tentando sufocar o pobre Sméagol. Poeira e cinzas, ele não pode comer essas coisas. Vai ter de passar fome. Mas Sméagol não se importa. Hobbits bonzinhos! Sméagol prometeu. Vai passar fome. Ele não pode comer comida de hobbits. Vai passar fome. Pobre do magro Sméagol!
— Sinto muito — disse Frodo — mas receio que não possa ajudá-lo. Acho que esta comida lhe faria bem, se você quisesse experimentar. Mas talvez não possa nem experimentar, não por enquanto, de qualquer forma.
Os hobbits mastigaram seus lembas em silêncio. Sam teve a impressão de que o gosto estava muito melhor, de alguma forma, do que estivera por um bom tempo: o comportamento de Golum o fizera atentar para o sabor outra vez. Mas ele não se sentiu à vontade. Golum ficava vigiando cada pedaço que ia da mão à boca, como um cachorro esperançoso perto da cadeira de alguém que está jantando. Só quando eles tinham terminado e se preparavam para descansar é que ele se convenceu de que os hobbits não tinham guloseimas escondidas para dividir. Depois foi se sentar sozinho a alguns passos de distância, e se lamuriou um pouquinho.
— Olhe aqui — sussurrou Sam para Frodo, numa voz não muito baixa: realmente não estava preocupado se Golum podia ou não ouvi-lo. — Precisamos dormir um pouco; mas não os dois ao mesmo tempo, com esse vilão faminto por perto, com ou sem promessa. Sméagol ou Golum, não é de uma hora para a outra que ele vai mudar seus hábitos, isso eu garanto. Vá dormir, Sr. Frodo, e eu o chamo quando não conseguir manter minhas pálpebras abertas por mais tempo. Vamos revezar, como antes, enquanto ele estiver solto.
— Talvez esteja certo, Sam — disse Frodo falando abertamente. — Há uma mudança nele, mas que tipo de mudança, e qual a sua extensão, ainda não sei ao certo. Mas agora, falando sério, acho que não há necessidade de sentirmos medo – por enquanto. Mesmo assim, vigie, se quiser. Dê-me umas duas horas, não mais que isso, e me chame.
Frodo estava tão cansado que sua cabeça caiu sobre o peito e ele adormeceu, quase no mesmo momento em que terminara de dizer aquelas palavras. Agora Golum não parecia mais temer coisa alguma. Enrolou-se todo e adormeceu rapidamente, sem qualquer preocupação. Naquele momento, sua respiração produzia um chiado suave por entre os dentes cerrados, mas ele estava imóvel como uma pedra. Depois de um tempo, temendo ele mesmo cochilar, se ficasse sentado ali ouvindo a respiração dos dois companheiros, Sam se levantou e deu um leve cutucão em Golum. Suas mãos se abriram e se contraíram, mas ele não fez mais nenhum outro movimento. Sam se abaixou e lhe disse peixxxe ao ouvido, mas não houve resposta, nem mesmo qualquer sobressalto na respiração de Golum.
Sam coçou a cabeça.
— Deve estar dormindo de verdade — murmurou ele. — E, se eu fosse como Golum, ele jamais acordaria outra vez. — Sam reprimiu o pensamento da espada e da corda que lhe vieram à mente, e foi se sentar ao lado de seu mestre.
Quando acordou o céu já estava apagado, não mais claro e sim mais escuro do que quando tinham feito o desjejum. Sam pulou de pé. Percebeu de repente, sobretudo por sua sensação de vigor e de fome, que tinha dormido durante todo o dia, pelo menos umas nove horas. Frodo ainda estava num sono profundo, deitado agora de lado, com o corpo estendido. Golum não estava à vista. Várias palavras de reprovação destinadas a si mesmo vieram à mente de Sam, retiradas do grande acervo paternal de palavras do Feitor; então ocorreu-lhe também que seu mestre estivera certo: até o momento não tinham tido nada do que se proteger.
Os dois estavam, de qualquer forma, vivos e não estrangulados.
— Pobre patife! — disse ele sentindo um certo remorso. — Agora fico pensando onde se meteu.
— Não muito longe, não muito longe! — disse uma voz acima dele.
Sam ergueu os olhos e viu a figura da grande cabeça e das orelhas de Golum, contra o céu do início da noite.
— Que está fazendo? — gritou Sam, e suas suspeitas retornaram assim que viu aquela figura.
— Sméagol está com fome — disse Golum. — Volto logo.
— Volte já! — gritou Sam. — Ei! Volte!
Mas Golum tinha desaparecido.
Frodo acordou com o grito de Sam e se sentou, esfregando os olhos.
— Olá! — disse ele. — Alguma coisa errada? Que horas são?
— Não sei — disse Sam. — O sol já se pôs, eu calculo. E ele saiu. Disse que está com fome.
— Não se preocupe! — disse Frodo. — Não há como evitar, mas ele vai voltar, você vai ver. A promessa terá efeito por um tempo. E ele não vai deixar seu Precioso, de qualquer forma.
Frodo não deu muita importância ao saber que eles tinham dormido profundamente horas e horas com Golum, e ainda por cima um Golum bem faminto, solto ao lado deles.
— Não pense em nenhuma das palavras duras de seu Feitor — disse ele. — Você estava exausto e tudo deu certo no fim: agora nós dois estamos descansados. E temos uma estrada difícil à frente, a pior de todas as estradas.
— A respeito da comida — disse Sam. — Quanto tempo vai levar para fazermos este serviço? E quando terminarmos, que vamos fazer então? Esse pão de viagem mantém você sobre suas pernas de uma forma maravilhosa, mas não satisfaz a barriga de maneira apropriada, como se poderia dizer: não para o meu gosto, de qualquer forma, sem querer desrespeitar aqueles que o fizeram. Mas temos de comer um pouco todo dia, e ele não nasce do chão. Calculo que temos uma quantia que vai durar, vamos dizer, mais ou menos três semanas, e isso apertando os cintos e maneirando a boca, veja bem. Até agora fomos meio pródigos com as provisões.
— Não sei quanto tempo vai levar para... para terminarmos — disse Frodo. — Demoramos demais nas colinas. Mas Samwise Gamgi, meu querido hobbit – na verdade, meu hobbit predileto, amigo dos amigos – não acho que devemos pensar no que acontecerá depois disso. Fazer o serviço, como você diz – que esperança temos de consegui-lo? E, se conseguirmos, quem sabe o que resultará disso? Se o Um for para o Fogo e estivermos por perto? Pergunto a você, Sam, será que vamos precisar de alguma comida outra vez? Acho que não. Se conseguirmos alimentar nossas pernas para que nos levem até a Montanha da Perdição, isso será tudo o que poderemos fazer. Mais do que eu posso, começo a sentir.
Sam fez um sinal com a cabeça concordando, em silêncio. Tomou a mão de seu mestre e se inclinou sobre ela. Não a beijou, mas suas lágrimas caíram sobre ela. Então virou-se para o outro lado, passou a manga da camisa pelo nariz, levantou-se e saiu pisando firme, tentando assobiar, e dizendo com esforço:
— Onde está a maldita criatura?


Realmente não demorou muito para que Golum retornasse; mas se aproximou tão silenciosamente que eles não o ouviram até que estivesse diante deles. Seus dedos e seu rosto estavam sujos de lama preta. Ainda estava mastigando e babando.
O que mastigava os hobbits não perguntaram, e nem queriam imaginar. “Vermes e besouros ou alguma coisa lodosa que achou nalgum buraco”, pensou Sam. “Brrr! Criatura nojenta; pobre patife!”
Golum não lhes disse nada antes de beber muita água e lavar-se no riacho. Depois foi para perto deles, lambendo os beiços.
— Bem melhor agora — disse ele. — Estamos descansados? Prontos para partir? Hobbits bonzinhos, dormem bastante. Confiam em Sméagol agora? Muito bom, muito bom. A etapa seguinte da jornada foi muito parecida com a anterior.
Conforme avançavam, o fosso ia ficando cada vez mais raso e a descida mais suave.
O fundo ia ficando menos pedregoso e mais cheio de terra, e lentamente as laterais iam se transformando em meras margens. O fosso começou a ficar sinuoso e mudar de rumo. Aquela noite chegou ao fim, mas nuvens agora cobriam lua e estrelas, e eles perceberam a chegada do dia apenas pela luz tênue e cinzenta que se espalhava lentamente.
Numa hora fria eles atingiram o fim do curso de água. As margens se transformaram em montículos cobertos de musgo. Por sobre a última saliência de pedra em decomposição, o riacho gorgolejava e caía dentro de um brejo amarronzado, onde se perdia. Juncos secos chiavam e farfalhavam, embora eles não sentissem vento algum.
Dos dois lados e à frente, jaziam amplos brejos e atoleiros, espraiando-se em direção ao sul e ao leste, na tênue meia-luz. A névoa se enrolava e esfumaçava, vinda das poças escuras e fétidas. O mau cheiro provocado por elas pairava no ar. Ao longe, agora quase ao sul, as paredes das montanhas de Mordor assomavam, como uma barra negra de nuvens de tormenta flutuando sobre um perigoso mar cercado de névoa.
Os hobbits estavam agora inteiramente nas mãos de Golum. Não sabiam, e não podiam adivinhar naquela luz enevoada, que naquele momento estavam na verdade entrando no pântano pela fronteira do norte, quando a maior parte dele ficava ao sul de onde estavam. Poderiam, se conhecessem a região, ter com algum atraso refeito um pouco do caminho, e depois, virando para o leste, dado a volta pelas estradas secas até a planície descoberta de Dagorlad: o campo da antiga batalha, travada diante dos portões de Mordor.
Não que houvesse muita esperança nesse caminho. Naquela planície pedregosa não havia abrigo, e por ela passavam as estradas dos orcs e dos soldados do Inimigo. Nem mesmo as capas de Lórien poderiam escondê-los ali.
— Qual é o plano de nossa rota agora, Sméagol? — perguntou Frodo. — Vamos ter de atravessar esses brejos pestilentos?
— Não há necessidade, não há nenhuma necessidade — disse Golum. — Não se os hobbits quiserem atingir as montanhas escuras e logo dar de cara com Ele. Um pouco para trás, e dando uma volta pequena — o braço descarnado acenava para o norte e para o leste —, e vocês poderão chegar, por estradas secas e frias, exatamente até os portões da terra d’Ele. Seu pessoal estará lá aos montes, à espera de convidados, e ficarão muito satisfeitos em levá-los diretamente a Ele. É, sim, o Olho d’Ele vigia a estrada o tempo todo. Pegou Sméagol ali, muito tempo atrás — Golum estremeceu. — Mas desde esse dia Sméagol usou os próprios olhos, é, sim: usei olhos e pés e nariz desde então. Conheço outros caminhos. Mais difíceis, não tão rápidos; mas melhores, se não queremos que Ele veja. Sigam Sméagol! Ele pode levá-los através dos pântanos, através da névoa, névoa espessa e agradável. Sigam Sméagol com muito cuidado, e podem chegar longe, muito longe, antes que Ele pegue vocês, sim talvez possam.
Já era dia, uma manhã lúgubre e sem vento, e o vapor malcheiroso dos pântanos pairava em pesadas camadas. Nenhum raio de sol atravessava o céu nebuloso, e Golum parecia ansioso por continuar a viagem imediatamente. Portanto, depois de um breve descanso, eles partiram outra vez e logo estavam perdidos num mundo sombrio e silencioso, privados de toda a vista da região ao redor, quer fossem as colinas deixadas para trás, ou então as montanhas almejadas. Seguiam lentamente em fila indiana: Golum, Sam, Frodo.
Frodo parecia o mais cansado dos três, e, embora avançassem lentamente, ele com frequência ficava para trás. Os hobbits logo perceberam que o que parecera um vasto brejo era na verdade uma interminável cadeia de poças e atoleiros, e cursos de água sinuosos e semiestrangulados. Em meio a estes, olhos e pés hábeis poderiam traçar um caminho errante. Golum certamente tinha essa habilidade e precisou dela toda. Sua cabeça e seu longo pescoço estavam sempre se voltando para um lado e para o outro, enquanto ele farejava e murmurava o tempo todo consigo mesmo. Algumas vezes, erguia uma mão e os detinha, enquanto ele avançava um pouco, agachado, testando o solo com os dedos das mãos ou dos pés, ou simplesmente escutando com uma orelha colada ao chão.
O lugar era monótono e cansativo. O inverno frio e úmido ainda dominava aquela região abandonada. A única coisa verde que se via era a escória de ervas esbranquiçadas sobre as superfícies escuras e oleosas das águas sombrias. Capim morto e juncos apodrecidos assomavam por entre a névoa como sombras esfarrapadas de verões há muito esquecidos. À medida que o dia avançava, a luminosidade ficou um pouco mais intensa, e a névoa subiu, ficando mais fina e mais transparente. Bem acima da podridão e dos vapores daquele mundo, o sol agora passava alto e dourado, numa região serena sobre um chão de névoa luminosa; mas lá embaixo eles só conseguiam ver dele um fantasma fugidio, ofuscado, opaco, incapaz de dar cor ou calor. Mas até mesmo diante desse pequeno lembrete de sua presença Golum franziu a testa e recuou. Interrompeu a viagem, e eles descansaram, de cócoras como pequenos animais acuados, nas bordas de uma grande moita de juncos castanhos. Fez-se um silêncio profundo, apenas arranhado em sua superfície pelo tremor fraco de plúmulas de sementes vazias, ou folhas de capim quebradas causando pequenas vibrações do ar que eles nem conseguiam perceber.
— Nem um pássaro — disse Sam num lamento.
— Não, nem um pássaro — disse Golum. — Pássaros bonzinhos! — continuou ele, lambendo os beiços. — Nenhum pássaro aqui. Há cobrasas, vermeses, coisas nas poças. Muitas coisas, muitas coisas ruins. Nenhum pássaro — terminou ele com tristeza.
Sam olhou-o com aversão.
Assim passou o terceiro dia da jornada com Golum. Antes que as sombras da tarde ficassem longas em terras mais felizes, eles partiram de novo, avançando sempre e fazendo apenas breves pausas. Paravam nem tanto para descansar, mas para ajudar Golum; pois agora até mesmo ele tinha de avançar com grande cuidado, e algumas vezes ficava perdido por um tempo. Tinham chegado bem ao centro dos Pântanos Mortos, e estava escuro. Caminhavam devagar, abaixados e mantendo-se em fila, seguindo atentamente cada movimento que Golum fazia. Os brejos iam ficando mais úmidos, abrindo-se em amplos pântanos estagnados, entre os quais ficava cada vez mais difícil encontrar lugares mais firmes onde pudessem pisar sem que os pés afundassem numa lama gorgolejante. Os viajantes eram leves; caso contrário talvez nenhum deles tivesse conseguido atravessar.
Logo tudo ficou completamente escuro: o próprio ar parecia negro e pesado de se respirar. Quando luzes apareceram, Sam esfregou os olhos: teve a impressão de que sua cabeça estava ficando estranha. Primeiro viu um com o canto do olho esquerdo, um fogo-fátuo de brilho opaco que desapareceu; mas outros apareceram logo depois: alguns semelhantes a uma fumaça de brilho fraco, outros como chamas enevoadas piscando lentamente sobre velas invisíveis; aqui e ali se retorciam como lençóis fantasmagóricos desfraldados por mãos ocultas. Mas nenhum de seus companheiros disse nada.
Finalmente Sam não pôde mais se segurar.
— Que são essas coisas, Golum? — disse ele num sussurro. — Essas luzes? Estão em toda a nossa volta. Estamos numa armadilha? Quem são elas?
Golum ergueu os olhos. Uma água escura se espalhava à sua frente, e ele se arrastava no chão, de um lado para o outro, sem certeza do caminho.
— Sim, estão em toda a nossa volta — sussurrou ele. — As luzes enganosas. Velas de cadáveres, sim, sim. Não dê atenção a elas! Não olhe! Não as siga! Onde está o mestre?
Sam virou-se e viu que Frodo ficara para trás. Não conseguia enxergá-lo. Voltou alguns passos para dentro da escuridão, sem ousar ir muito longe, ou chamá-lo numa voz mais alta que um sussurro rouco. De repente, trombou com Frodo, que estava parado, perdido em pensamentos, olhando para as luzes opacas. As mãos estavam imóveis ao longo do corpo; água e lama pingavam delas.
— Venha, Sr. Frodo! Não olhe para elas! Golum disse que não devemos! Vamos alcançá-lo e sair desse lugar amaldiçoado o mais rápido possível – se pudermos!
— Tudo bem — disse Frodo, como se retornasse de um sonho. — Estou indo! Vá!
Correndo outra vez para frente, Sam tropeçou, prendendo o pé em alguma raiz ou touceira velha. Caiu pesadamente sobre as mãos, que afundaram muito num lodo pegajoso, de modo que seu rosto ficou próximo à superfície do pântano escuro.
Ouviu-se um chiado fraco, um cheiro fétido subiu, a s luzes piscaram, dançaram e se contorceram.
Por um momento, a água embaixo dele ficou semelhante a uma janela, coberta por um vidro encardido, através do qual ele espiou. Arrancando as mãos do brejo, ele deu um salto para trás e gritou.
— Há coisas mortas, rostos mortos na água — disse ele cheio de terror. — Rostos mortos!
Golum riu.
— Os Pântanos Mortos, é, sim: esse é o nome deles — disse ele gargalhando. — Você não deve olhar quando as velas estão acesas.
— Quem são eles? O que são eles? — perguntou Sam tremendo, voltando-se para Frodo que agora vinha logo atrás.
— Não sei — disse Frodo numa voz que parecia saída de um sonho. — Mas também os vi. Nas poças, quando as velas estão acesas. Jazem em todas as poças, rostos pálidos, nas profundezas das águas escuras. Eu os vi: rostos repugnantes e maus, e rostos nobres e tristes. Muitos rostos altivos e belos, e ervas em seus cabelos prateados. Mas todos nojentos, podres, todos mortos. Há uma luz terrível neles. — Frodo cobriu os olhos com as mãos. — Não sei quem são; mas tive a impressão de ter visto ali homens e elfos, e orcs ao lado deles.
— É, sim — disse Golum. — Todos mortos, todos podres. Elfos e homens e orcs. Os Pântanos Mortos. Houve uma grande batalha há muito tempo, sim, assim lhe disseram quando Sméagol era jovem, quando eu era jovem antes de o Precioso chegar. Foi uma grande batalha. Homens altos com grandes espadas, e elfos terríveis, e orcses gritando. Lutaram sobre a planície por dias e meses diante dos Portões Negros. Mas os Pântanos cresceram desde então, engoliram os túmulos, sempre se espalhando, se espalhando.
— Mas isso foi há uma ou duas eras — disse Sam. — Os Mortos não podem realmente estar lá. Isso é alguma feitiçaria criada na Terra Escura?
— Quem pode saber? Sméagol não sabe — respondeu Golum. — Você não consegue alcançá-los, não consegue atingi-los. Nós tentamos uma vez, sim, precioso. Eu tentei uma vez; mas não é possível alcançá-los. Apenas figuras para se ver, talvez, não para se tocar. Não, precioso. Todos mortos.
Sam lançou-lhe um olhar obscuro e estremeceu de novo, pensando que podia adivinhar por que Golum tinha tentado tocá-los.
— Bem, eu não quero vê-los — disse ele. — Nunca mais! Podemos continuar e sair daqui?
— Sim, sim — disse Golum. — Mas devagar, muito devagar. Com muito cuidado! Ou os hobbits vão descer para se juntar aos mortos e acender pequenas velas. Sigam Sméagol! Não olhem para as luzes!
Arrastou-se outra vez para a direita, procurando um caminho que contornasse o brejo. Os outros vinham logo atrás, abaixando-se, com frequência usando as mãos como ele fazia.
“Seremos três Golums preciosos numa fileira, se isso continuar por muito tempo”, pensou Sam. Finalmente chegaram à extremidade do pântano negro, e o atravessaram, perigosamente, rastejando, ou saltando de uma traiçoeira ilha de moita para a outra. Com frequência perdiam o pé, tropeçando ou caindo com as mãos em águas fétidas semelhantes a fossas, até ficarem cobertos de lodo e sujos quase até o pescoço, fedendo às narinas uns dos outros.
Já era tarde da noite quando finalmente atingiram terra mais firme de novo. Golum chiou e sussurrou consigo mesmo, mas parecia que ele estava satisfeito: de um modo misterioso, graças a algum sentido que misturava tato, olfato, e uma memória prodigiosa para formas no escuro, ele parecia saber outra vez exatamente onde estava, e ter certeza da estrada de novo.
— Agora vamos em frente! — disse ele. — Hobbits bonzinhos! Hobbits corajosos! Muito, muito cansados, é claro; nós também estamos, meu precioso, todos nós. Mas precisamos levar o mestre para longe das luzes maldosas, é, sim, precisamos. — Com essas palavras partiu de novo, quase num trote, descendo o que parecia ser uma alameda comprida entre os juncos, e os hobbits foram aos tropeços atrás dele, o mais rápido que conseguiam. Mas logo ele parou de repente e farejou o ar cheio de dúvidas, chiando como se estivesse preocupado ou incomodado com alguma coisa outra vez.
— O que foi — rosnou Sam, interpretando os sinais de modo errado. — Para que farejar? O mau cheiro quase me derruba com o nariz tampado. Você fede, e o mestre fede, e tudo em volta fede.
— É, sim, e Sam fede — respondeu Golum. — O pobre Sméagol sente o cheiro, mas o bom Sméagol o suporta. Ajuda o mestre bonzinho. Mas isso não é problema. O ar está se mexendo, uma mudança está chegando. Sméagol fica pensando; não está feliz.
Continuou outra vez, mas seu desconforto cresceu, e de vez em quando ele se levantava totalmente, virando o pescoço para o leste e para o sul. Por algum tempo, os hobbits não conseguiram ouvir ou sentir o que o estava preocupando.
Então, de repente, todos os três pararam, imóveis e escutando. Frodo e Sam tiveram a impressão de ouvir, distante, um longo grito lamentoso, alto, agudo e cruel. Eles tremeram. No mesmo momento, puderam perceber a agitação do ar; ficou muito frio.
Quando pararam, forçando os ouvidos, escutaram um barulho como um vento vindo na distância. As luzes embaçadas tremeram, diminuíram e se apagaram.
Golum não se mexia. Ficou parado, tremendo e balbuciando para si mesmo, até que numa rajada o vento os atingiu, chiando e rosnando por sobre os pântanos. A noite ficou menos escura, com luz suficiente para que eles pudessem ver, ou quase ver, tufos disformes de névoa se enrolando e se contorcendo conforme rolavam e passavam por eles. Erguendo os olhos, eles viram as nuvens se partindo e se dividindo; então, acima e ao sul, a lua tremeluziu, vagando por sobre a ruína que havia no céu.
Por um momento, a visão dela alegrou os corações dos hobbits: mas Golum se abaixou, murmurando maldições para a Cara Branca. Então Frodo e Sam, olhando para o céu, respirando profundamente o ar mais fresco, viram-na se aproximar: uma pequena nuvem voando das colinas malditas; uma sombra negra enviada de Mordor; uma figura enorme, alada e agourenta. Passou através da lua, e com um grito mortal foi embora em direção ao oeste, superando o vento em sua velocidade alucinante.
Eles caíram para frente, rastejando sem cuidado sobre a terra fria. Mas a sombra de terror fez um círculo e retornou, passando agora mais baixo, bem acima deles, deslizando sobre o fedor do brejo com suas asas horríveis. E depois se foi, voando de volta para Mordor com a velocidade da ira de Sauron; e atrás dela foi-se o vento rugindo, deixando os Pântanos Mortos vazios e abandonados. O deserto nu, até onde a vista podia alcançar, mesmo até a ameaça distante das montanhas, estava salpicado pelo luar intermitente.
Frodo e Sam se levantaram, esfregando os olhos, como crianças que acordam de um pesadelo para encontrar a noite familiar ainda sobre o mundo. Mas Golum ficou deitado no chão, como se estivesse atordoado. Reanimaram-no com dificuldade, e por um tempo ele se recusou a erguer o rosto, mas de joelhos se apoiou nos cotovelos, cobrindo a cabeça com as grandes mãos chatas.
— Espectros! — gemeu ele. — Espectros com asas! O Precioso é o mestre deles. Eles enxergam tudo, tudo. Nada pode se esconder deles. Maldita Cara Branca! E eles contam tudo para Ele. Ele vê, Ele sabe. Ach, Golum, Golum, Golum!
Foi só quando a lua tinha descido, avançando muito a oeste do Tol Brandir, que ele se levantou e fez um movimento. A partir daquele incidente Sam teve a impressão de sentir uma mudança em Golum de novo. Estava mais carinhoso e supostamente amigável; mas Sam algumas vezes o surpreendia lançando uns olhares estranhos, especialmente em direção a Frodo; e ele voltava cada vez mais à sua velha maneira de falar. E Sam tinha outra ansiedade crescente. Frodo parecia estar cansado, cansado a ponto da exaustão. Não dizia nada, na verdade dificilmente falava alguma coisa; e também não reclamava, mas caminhava como alguém que carrega um fardo cujo peso está constantemente aumentando; arrastava-se cada vez mais devagar, de modo que Sam frequentemente precisava pedir a Golum que esperasse e não deixasse seu mestre para trás.
 De fato, a cada passo que dava na direção dos portões de Mordor, Frodo sentia o Anel na corrente em volta de seu pescoço ficar mais difícil de carregar. Começava agora a senti-lo como um verdadeiro peso que o atraía para o leste. Mas, muito mais que isso, ele estava preocupado com o Olho: era esse o nome que lhe dava quando falava consigo mesmo. Era isso, mais que o peso do Anel, que o fazia se curvar e se abaixar conforme caminhava. O Olho: aquela horrível sensação crescente de uma vontade hostil que lutava com grande força para penetrar todas as sombras de nuvens, e a terra e a carne, para vê-lo: para cravá-lo sob seu olhar mortal, nu, imóvel.
Tão tênues, tão frágeis e tênues estavam ficando os véus que ainda ofereciam proteção contra ele. Frodo sabia exatamente onde a moradia atual e o coração daquela vontade estavam: e com a certeza com a qual um homem diz a direção do sol com os olhos fechados. Ele a estava encarando, e sua potência pesava-lhe sobre as pálpebras.
Golum provavelmente estava sentindo algo do mesmo tipo. Mas o que acontecia em seu coração ignóbil, dividido entre a pressão do Olho e o desejo de possuir o Anel, e sua promessa forçada feita em parte pelo medo do ferro frio, os hobbits não podiam adivinhar. Frodo não pensava nisso. A mente de Sam estava quase totalmente ocupada com seu mestre, mal notando a nuvem escura que se abatera sobre o seu próprio coração.
Colocara Frodo à sua frente agora, e ficava de olho em cada movimento seu, apoiando-o quando tropeçava, tentando encorajá-lo com palavras desajeitadas.
Quando finalmente o dia chegou, os hobbits ficaram surpresos em ver como as ominosas montanhas já estavam mais perto. O ar agora estava mais claro e frio e, embora ainda muito distantes, as muralhas de Mordor deixavam de ser uma ameaça nebulosa no limiar da visão, e já apareciam corno torres negras e inflexíveis olhando carrancudas através de uma região abandonada e sombria. Os pântanos estavam chegando ao fim, esvaindo-se em turfas mortas e amplas planícies de lama seca e rachada. O terreno à frente subia em longas encostas rasas, desertas e cruéis, em direção ao deserto que se estendia até o portão de Sauron. Enquanto a luz cinzenta durou, eles se agacharam sob uma pedra negra como vermes, tremendo, com medo de que o terror alado passasse e os espiasse com seus olhos cruéis. O restante daquela viagem foi uma sombra de medo crescente, na qual a memória não podia encontrar nada em que se apoiar. Por mais duas noites eles continuaram lutando através daquela terra cansativa e sem trilhas. Tinham a impressão de que o ar ficava mais pesado, repleto de um terrível mau cheiro que lhes afetava a respiração e secava suas bocas.
Finalmente, na quinta noite desde que tinham pegado a estrada com Golum, pararam mais uma vez. Diante deles, escuras no alvorecer, as grandes montanhas atingiam tetos de fumaça e nuvem. De seus pés saltavam enormes contrafortes e colinas quebradas que estavam agora no máximo a uns vinte quilômetros.
Frodo olhava em volta aterrorizado. Por mais pavorosos que tivessem sido os Pântanos dos Mortos, e as áridas charnecas das Terras-de-Ninguém, muito mais odioso era aquele lugar que o dia lento agora revelava gradativamente aos seus olhos contraídos. Até mesmo ao Brejo dos Rostos Mortos algum espectro desfigurado de primavera poderia chegar; mas no ponto onde estavam agora nem a primavera nem o verão jamais chegariam outra vez. Ali nada vivia, nem mesmo as excrescências leprosas que se alimentam da podridão.
As poças sufocantes estavam cheias de cinzas e lama que se espalhava, num branco acinzentado repugnante, como se as montanhas tivessem vomitado a imundície de suas entranhas sobre as terras que as circundavam. Altos montes de pedra esmigalhada e esmagada, grandes cones de terra arruinados pelo fogo e manchados de veneno jaziam como um cemitério obsceno em fileiras intermináveis, lentamente reveladas na luz relutante. Tinham chegado à desolação que jazia diante de Mordor: o monumento permanente do trabalho escuro de seus escravos, que deveria perdurar quando todos os seus propósitos se tornassem inócuos: uma terra aviltada, adoecida além de qualquer cura — a não ser que o Grande Mar a cobrisse e a lavasse com o esquecimento.
— Estou enjoado — disse Sam, Frodo não disse nada.
Por um tempo ficaram ali, como homens no limiar de um sono em que ronda o pesadelo, evitando-o, embora saibam que apenas podem chegar ao dia através das sombras. A luz se espraiou e ficou mais intensa. Os poços sufocantes e os montes venenosos ficaram medonhamente visíveis. O sol subira no céu, andando por entre nuvens e longas bandeiras de fumaça, mas até mesmo a luz do sol estava aviltada.
Os hobbits não receberam bem aquela luz; parecia hostil, revelando-os em seu desamparo — pequenos fantasmas guinchadores que vagavam em meio aos montes de cinza do Senhor do Escuro.
Cansados demais para avançar, procuraram algum lugar onde pudessem descansar. Por um tempo ficaram sem dizer nada, sob a sombra de um monte de escória; mas vapores sujos saíam dele, afetando-lhes a garganta e sufocando-os.
Golum foi o primeiro a se levantar. Ergueu-se resmungando e amaldiçoando, e sem qualquer palavra ou olhar para os hobbits afastou-se, andando sobre as quatro patas. Frodo e Sam se arrastaram atrás dele, até que chegaram a um poço grande e quase circular, com altos barrancos do lado oeste. Era frio e parado, e uma fossa imunda de lodo oleoso e multicor jazia no fundo. Nesse buraco maligno se esconderam, esperando que em sua sombra pudessem escapar da atenção do Olho. Aquele dia passou lentamente. Uma terrível sede os incomodava, mas eles beberam apenas alguns goles de seus cantis — enchidos pela última vez no fosso que agora, quando se lembravam, parecia-lhes um lugar de paz e beleza. Os hobbits se revezaram para vigiar. No início, por mais cansados que estivessem, nenhum deles conseguiu dormir de modo algum; mas, à medida que o sol distante foi descendo para dentro de nuvens que se moviam lentamente, Sam cochilou. Era a vez de Frodo ficar de guarda.
Recostou-se no barranco do poço, mas isso não aliviou a sensação de peso que sentia. Ergueu os olhos para o céu riscado de fumaça e viu espectros estranhos, figuras escuras cavalgando, e rostos vindos do passado. Perdeu a noção do tempo, suspenso entre o sono e a consciência, até que o esquecimento tomou conta dele.
De repente Sam acordou com a impressão de que ouvira seu mestre chamando.
A noite já caíra. Frodo não poderia ter chamado, pois adormecera e tinha escorregado para baixo, chegando quase ao fundo do poço. Golum estava ao lado dele. Por um momento, Sam pensou que ele estava tentando acordar Frodo; depois viu que não se tratava disso.
Golum estava conversando consigo mesmo. Sméagol travava um debate com algum outro pensamento que usava a mesma voz, mas a fazia guinchar e chiar. Uma luz opaca e uma luz verde alternavam em seus olhos, conforme falava.
— Sméagol prometeu — disse o primeiro pensamento.
— Sim, sim, meu precioso — veio a resposta. — Nós prometemos: salvar nosso precioso, não deixar que Ele o tenha – nunca. Mas está indo para Ele, sim, mais próximo a cada passo. O que o hobbit vai fazer com Ele? Nós fica pensando, sim, nós fica.
— Não sei, Não posso fazer nada. O mestre está com Ele. Sméagol prometeu ajudar o mestre.
— Sim, sim, ajudar o mestre: o mestre do Precioso. Mas se nós fosse mestre, então nós poderia se salvar, sim, e ainda assim manter a promessa.
— Mas Sméagol disse que seria muito, muito bom. Hobbit bonzinho! Tirou a corda cruel da perna de Sméagol. Ele fala comigo com gentileza.
— Muito, muito bom, hein, meu precioso? Vamos ser bons, bons como peixes, minha doçura, para nós mesmo. Não machucar o hobbit bonzinho, claro que não, não.
— Mas o Precioso mantém a promessa — objetou a voz de Sméagol.
— Então pegue ele — disse a outra — e vamos ter ele nós mesmo! Então vamos ser mestre, Golum! Fazer o outro hobbit, o hobbit mau e desconfiado, fazer ele rastejar, sim, Golum!
— Mas não o hobbit bonzinho?
— Oh, não, não se isso não nos agrada. Mas ele é um Bolseiro, meu precioso, sim, um Bolseiro. Um Bolseiro roubou ele. Encontrou ele e não disse nada, nada. Nós odeia os Bolseiros.
— Não, não este Bolseiro.
— Sim, qualquer Bolseiro. Todas as pessoas que têm o Precioso. Precisamos tomar ele.
— Mas Ele vai ver, Ele vai saber. Vai tirá-lo de nós!
— Ele vê. Ele sabe. Ele nos escutou fazendo promessas bobas contra as ordens d’Ele, sim. Precisamos ter ele. Os Espectros estão procurando. Precisamos pegá-lo.
— Não para Ele!
— Não, minha doçura. Veja bem, meu precioso: se nós o tivermos, então poderemos escapar, até mesmo d’Ele, hein? Talvez nós fique muito forte, mais forte que os Espectros. Senhor Sméagol? Golum, o Grande? O Golum! Comer peixe todo dia, três vezes por dia, peixes frescos do mar. Preciosíssimo Golum! Nós quer ele, nós quer ele, nós quer ele!
— Mas tem eles dois. Eles vão acordar rápido demais e nos matar — choramingou Sméagol num último esforço. — Não agora. Ainda não.
— Nós quer ele! Mas — e aqui houve uma longa pausa, como se um novo pensamento tivesse acordado. — Não, ainda não, é? Ela pode ajudar. Ela pode, sim.
— Não, não! Desse jeito não! — gemeu Sméagol.
— Sim, nós quer ele! Nós quer ele!
Cada vez que o segundo pensamento falava a mão comprida de Golum se estendia lentamente, procurando Frodo, e depois era retirada de sopetão, quando Sméagol falava de novo. Finalmente os dois braços, com longos dedos flexionados e crispados, buscaram o pescoço dele. Sam estivera deitado e quieto, fascinado pelo debate, mas vigiando cada movimento que Golum fazia, com os olhos semicerrados. Em sua mente simples, a fome comum, o desejo de comer hobbits, tinha parecido o principal perigo em Golum.
Percebia agora que não era assim: Golum sentia o terrível apelo do Anel. O Senhor do Escuro era Ele, é claro; mas Sam não podia imaginar quem era Ela. Alguma das amizades repulsivas que o pequeno patife tinha feito em suas viagens, ele supunha. Depois esqueceu o assunto, pois estava claro que as coisas tinham ido longe demais, e estavam ficando perigosas. Sentia um grande peso nas pernas, mas despertou e sentou-se. Alguma coisa o aconselhava a ter cuidado e não revelar que tinha ouvido o debate. Soltou um suspiro alto e bocejou ruidosamente.
— Que horas são? — disse ele numa voz sonolenta.
Golum soltou um longo chiado através dos dentes. Levantou-se por um momento, tenso e ameaçador, e então desfaleceu, caindo de quatro para frente e arrastando-se até a parede do poço.
— Hobbits bonzinhos! Sam bonzinho! — disse ele. — Cabeças sonolentas, sim, cabeças sonolentas! Deixe que o bom Sméagol fique de guarda! Mas já e quase noite. O crepúsculo está caindo. Hora de ir.
“Está mais que na hora”, pensou Sam. “E na hora de nos separarmos também.”
Apesar disso, passou-lhe pela cabeça a dúvida se Golum solto não seria agora tão perigoso quanto se mantido com eles.
— Maldito! Gostaria que fosse estrangulado — murmurou ele.
Foi descendo pelo barranco e acordou seu mestre.


Muito estranhamente, Frodo se sentia reconfortado. Estivera sonhando. A sombra escura passara, e uma bela visão o havia visitado naquela terra de doença. Dela nada permanecera em sua memória; mesmo assim, por causa da visão, ele se sentia alegre e com o coração mais leve. O fardo ficara menos pesado sobre seus ombros. Golum o recebeu alegre feito um cão. Ria e tagarelava, estalando os longos dedos, e acariciando com as patas os joelhos de Frodo. Frodo lhe sorriu.
— Venha! — disse ele. — Você nos guiou bem e fielmente. Esta é a última etapa. Leve-nos até o Portão, e depois eu não pedirei que vá mais à frente. Leve-nos ao Portão, e você pode ir para onde quiser – menos ao encontro de nossos inimigos.
— Para o Portão, é? — chiou Golum, parecendo surpreso e amedrontado. — Para o Portão, diz o mestre! Sim, ele diz! E o bom Sméagol faz o que ele manda. Oh, sim. Mas quando nós chega perto, nós vai ver, talvez, nós vai ver então. Não vai ser bonito de jeito nenhum, oh, não! Oh, não!
— Ande logo — disse Sam. — Vamos acabar com isso!


Na caída da noite eles saíram do poço e lentamente traçaram seu caminho através da terra morta. Não tinham ido muito longe quando sentiram mais uma vez o medo que os acometera quando a figura alada passou varrendo os pântanos. Pararam, abaixando-se sobre o chão malcheiroso; mas não viram nada no céu escuro do início da noite, e logo a ameaça passou, muito acima, talvez indo em alguma missão urgente de Barad-dûr. Depois de um tempo Golum se levantou e avançou de novo, murmurando e tremendo.
Cerca de uma hora após a meia-noite o medo lhes sobreveio uma terceira vez, mas agora parecia mais remoto, como se a criatura estivesse passando muito acima das nuvens, indo para o oeste a uma velocidade terrível. Golum, entretanto, estava desesperado de medo, e convencido de que eles estavam sendo caçados, e de que sua aproximação já era conhecida.
— Três vezes — lamuriou-se ele. — Três vezes é uma ameaça. Eles nos sentem aqui, sentem o Precioso. O Precioso é o mestre deles. Não podemos avançar nem mais um pouco por aqui, não. É inútil, é inútil!
Pedidos e palavras gentis não tinham mais força. Só depois que Frodo ordenou energicamente e colocou a mão sobre o punho da espada é que Golum concordou em levantar-se. Então, finalmente, ele se ergueu com um rosnado, e foi na frente deles como um cachorro que levara uma surra.
Assim eles foram aos tropeços através do exaustivo final de noite, e até a chegada de um outro dia de medo eles andaram em silêncio com as cabeças baixas, sem enxergar nada, e sem ouvir nada além do vento chiando em suas orelhas.

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