23 de abril de 2016

Capítulo II - A passagem da Companhia Cinzenta

Gandalf fora embora, e o ruído surdo dos cascos de Scadufax se perdia na noite, quando Merry voltou ao encontro de Aragorn. Trazia apenas um embrulho pequeno, pois perdera sua mochila no Parth Galen, e tudo o que tinha eram algumas poucas coisas úteis que apanhara nas ruínas de Isengard. Flasufel já estava selado. Legolas e Gimli, com seu cavalo, estavam ali perto.
— Então quatro membros da Comitiva ainda restam — disse Aragorn. — Vamos continuar cavalgando juntos. Mas não iremos sozinhos, como eu havia pensado. Agora o rei está determinado a partir imediatamente. Desde a passagem da sombra alada, ele deseja retornar às colinas sob a proteção da noite.
— E depois para onde? — perguntou Legolas.
— Ainda não sei dizer — respondeu Aragorn. — Quanto ao rei, irá à concentração de tropas que convocou em Edoras, daqui a quatro noites. E lá, eu acho, saberá notícias da guerra, e os Cavaleiros de Rohan descerão até Minas Tirith. Exceto eu e quem quer que esteja disposto a me seguir.
— Conte comigo! — exclamou Legolas.
— E comigo também! — disse o anão.
— Bem, quanto a mim — disse Aragorn — tudo está escuro à minha frente. Também devo descer até Minas Tirith, mas ainda não vejo a estrada. Uma hora há muito preparada se aproxima.
— Não me deixem para trás! — disse Merry. — Ainda não fui de muita utilidade, mas não quero ser deixado de lado, como bagagem a ser apanhada quando tudo terminar. Não acho que os Cavaleiros queiram se incomodar comigo agora. Embora o rei, é claro, tenha dito que eu deveria sentar ao seu lado quando chegássemos à sua casa, para lhe contar tudo sobre o Condado.
— Sim — disse Aragorn — e sua estrada segue com ele, eu acho, Merry. Mas não espere divertimento no fim. Demorará muito, receio eu, até que Théoden possa se sentar tranquilo outra vez em Meduseld. Muitas esperanças fenecerão nesta primavera amarga.
Logo todos estavam prontos para partir — vinte e quatro cavalos, com Gimli na garupa de Legolas, e Merry na frente de Aragorn. De repente estavam cavalgando rápido através da noite. Não fazia muito tempo que tinham passado pelos túmulos nos Vaus do Isen, quando um Cavaleiro veio da retaguarda e alcançou a fila onde estavam.
— Meu senhor — disse ele ao rei — há cavaleiros atrás de nós. Quase nos alcançando, galopando em grande velocidade.
Imediatamente Théoden ordenou uma pausa. Os Cavaleiros se viraram e agarraram as lanças. Aragorn desmontou e colocou Merry no chão e puxando sua espada parou ao lado do estribo do rei. Éomer e seu séquito se dirigiram à retaguarda. Merry mais que nunca se sentiu como bagagem inútil, e ficou pensando o que faria se houvesse uma luta supondo que a pequena escolta do rei fosse presa e derrotada, e só ele escapasse na escuridão — sozinho nos campos desertos de Rohan, sem ideia de onde estava em todo aquele espaço de milhas intermináveis? “De nada adiantaria”, pensou ele. Puxou a espada e apertou o cinto.
A lua que ia descendo foi obscurecida por uma grande nuvem flutuante, mas de repente surgiu clara de novo. Então todos ouviram o som de cascos, e no mesmo momento viram figuras escuras rapidamente se aproximando pela trilha que vinha dos vaus. O luar reluzia aqui e ali nas pontas das lanças. Não se podia calcular o número dos perseguidores mas no mínimo eles não pareciam um grupo menor que a escolta do rei.
Quando estavam a uns cinquenta passos de distância Éomer gritou em voz alta:
— Alto! Alto! Quem cavalga em Rohan?
Os perseguidores de súbito frearam suas montarias. Seguiu-se um silêncio então, à luz do luar, foi possível ver um cavaleiro desmontando e caminhando para a frente num passo lento. Sua mão apareceu branca assim que ele a ergueu, com a palma para fora, em sinal de paz; mas os homens do rei agarraram suas armas. A dez passos o homem parou. Era alto, uma sombra escura. Então sua voz soou.
— Rohan? Você disse Rohan? Essa é uma palavra alegre. Estamos vindo de muito longe à procura dessa terra, e temos pressa em achá-la.
— Vocês a encontraram — disse Éomer. — Quando atravessaram os vaus lá adiante, entraram nela. Mas este é o reino de Théoden, o Rei. Ninguém cavalga aqui a não ser com a sua permissão. Quem é você? Que significa essa pressa?
— Sou Halbarad Dúnadan, guardião do norte — exclamou o homem. — Procuramos um certo Aragorn, filho de Arathorn, e ouvimos dizer que ele estava em Rohan.
— E também o encontraram! — exclamou Aragorn. Dando as rédeas para Merry, correu à frente e abraçou o recém-chegado. — Halbarad! — disse ele. — De todas as alegrias, esta era a menos esperada!
Merry deu um suspiro de alivio. Tinha pensado que aquele era um dos últimos truques de Saruman, para atocaiar o rei enquanto estava acompanhado apenas por alguns homens; mas parecia que não seria necessário morrer defendendo Théoden, não por enquanto, de qualquer forma. Embainhou a espada.
— Está tudo bem — disse Aragorn, voltando-se. — Aqui estão alguns de meus parentes, que vêm das terras distantes onde morei. Mas por que vêm, e quantos são, Halbarad deverá nos contar.
— Tenho trinta homens comigo — disse Halbarad. — Foi o máximo de patentes que conseguimos reunir às pressas; mas os irmãos Elladan e Elrobir cavalgaram conosco, desejando ir para a guerra. Viemos na maior velocidade possível, quando chegou a sua convocação.
— Mas eu não os convoquei — disse Aragorn — exceto apenas em desejo. Meus pensamentos frequentemente têm-se voltado em sua direção, e hoje mais do que nunca; apesar disso, não enviei mensagem alguma. Mas venham! Todos esses assuntos podem esperar. Vocês nos encontram cavalgando com pressa e em perigo. Acompanhem-nos agora, se o rei der sua permissão.
Théoden ficou realmente feliz com a noticia.
— Isso é bom! — disse ele. — Se esses seus parentes forem de alguma forma parecidos com você, meu senhor Aragorn, trinta desses cavaleiros serão uma força que não poderá ser avaliada pelo número de cabeças.
Então os Cavaleiros partiram de novo, e Aragorn por um tempo cavalgou com os dúnedain, e, quando tinham conversado sobre os acontecimentos no norte e no sul, Elrobir lhe disse:
— Trago-lhe uma mensagem de meu pai: Os dias agora são curtos. Se estás com pressa, lembra-te das Sendas dos Mortos.
— Sempre meus dias me pareceram curtos demais para realizar meu desejo — respondeu Aragorn. — Mas realmente grande será minha pressa quando eu tomar essa estrada.
— Isso logo vetemos — disse Elrohir. — Mas deixemos de falar dessas coisas aqui na estrada aberta!
E Aragorn disse para Halbarad:
— O que é isso que você carrega, primo? — Pois ele viu que em vez de uma lança Halbarad trazia um grande cajado, como se fosse um estandarte, mas que estava embrulhado num tecido negro, amarrado com várias correias.
— É um presente que eu trago da Senhora de Valfenda — respondeu Halbarad. — Ela o teceu em segredo, e a confecção foi demorada. Mas ela também lhe manda uma mensagem: Os dias são curtos. Ou nossa esperança chega, ou todas as esperanças se acabam. Portanto envio-te o que fiz para ti. Passe bem, Pedra Élfica!
E Aragorn disse:
— Agora sei o que você carrega. Carregue-o para mim por mais um tempo! — E voltou-se e olhou na distância ao norte, sob as grandes estrelas e depois ficou em silêncio e não disse mais nada enquanto durou a viagem noturna.


Era noite alta e o leste estava cinzento quando subiram finalmente a Garganta do Abismo, e retornaram ao Forte da Trombeta. Ali deveriam se deitar e descansar por um breve período, e fazer planos.
Merry dormiu até ser acordado por Legolas e Gimli.
— O sol está alto — disse Legolas. — Os outros estão em plena atividade. Venha, Mestre Preguiçoso, e dê uma olhada no lugar enquanto ainda pode!
— Houve uma batalha aqui três dias atrás — disse Gimli —, e aqui Legolas e eu jogamos um jogo que eu venci por apenas um único orc. Venha ver como foi! E há cavernas, Merry, cavernas maravilhosas! Vamos visitá-las, Legolas, o que você acha?
— Não! Não há tempo — disse o elfo. — Não estrague essa maravilha com a pressa! Dei minha palavra de que voltarei aqui com você, se um dia de paz e liberdade surgir outra vez. Mas agora é quase meio-dia, e a essa hora deveremos almoçar, e depois partir novamente, pelo que ouvi.
Merry se levantou e bocejou. Suas poucas horas de sono foram muito menos que o suficiente; estava cansado e bastante desanimado. Sentia a falta de Pippin, e sentia também que não passava de um peso morto, enquanto todo o mundo fazia planos para se apressar num negócio que ele não entendia completamente.
— Onde está Aragorn? — perguntou ele.
— Num alto aposento do Forte — disse Legolas. — Não dormiu nem descansou, eu acho. Foi para lá há algumas horas, dizendo que precisava pensar, e apenas o seu parente, Halbarad, foi com ele; mas ele está tomado por alguma dúvida ou preocupação negra.
— São uma companhia estranha, esses recém-chegados — disse Gimli. — Homens robustos e de porte nobre, que fazem com que os Cavaleiros de Rohan fiquem quase parecendo crianças ao lado deles; pois eles são homens de rostos austeros, marcados como pedras desgastadas, exatamente como o próprio Aragorn e também falam muito pouco.
— Mas assim como Aragorn são corteses, quando quebram seu silêncio — disse Legolas. — E você notou os irmãos Elladan e Elrohir? Seus trajes são menos sombrios que os dos outros, e são belos e galantes como Senhores Élficos; e isso não é de admirar nos filhos de Elrond de Valfenda.
— Por que vieram? Você ficou sabendo? — perguntou Merry.
Agora já vestido, jogou a capa cinzenta sobre os ombros e os três caminharam juntos na direção do portão arruinado do Forte.
— Responderam a uma convocação, como você ouviu — disse Gimli. — Uma mensagem chegou a Valfenda, dizem eles: Aragorn precisa de seu povo. Que os dúnedain cavalguem para encontrá-lo em Rohan! Mas de onde veio essa mensagem eles não sabem ao certo. Gandalf a enviou, eu arriscaria dizer.
— Foi Galadriel — disse Legolas. — Ela não falou, através de Gandalf, da cavalgada da Companhia Cinzenta que viria do norte?
— Você tem razão — disse Gimli. — A Senhora da Floresta! Ela leu muitos corações e desejos. Agora, por que nós também não desejamos a participação de nossos parentes, Legolas?
Legolas parou diante do portão e voltou os olhos claros para o norte e para o leste, com o sofrimento estampado em seu belo rosto.
— Não acho que alguém viria — respondeu ele. — Eles não precisam cavalgar ao encontro da guerra; a guerra já marcha em suas próprias terras.


Por um tempo os três companheiros caminharam juntos, comentando sobre um ou outro lance da batalha; desceram do portão quebrado e passaram pelos túmulos dos mortos na relva ao lado da estrada, até que pararam sobre o Dique de Helm e observaram a Garganta. A Colina da Morte ainda estava lá, negra, alta e pedregosa, e ainda havia marcas bem visíveis na grama removida e pisada pelos huorns. O povo da Terra Parda e muitos homens da guarnição do Forte estavam trabalhando no Dique ou nos campos e ao redor das muralhas destruídas mais além; apesar disso, tudo parecia estranhamente quieto: um vale cansado, repousando depois de uma grande tempestade.
Logo os três voltaram e se dirigiram à refeição do meio-dia no salão do Forte.
O rei já estava lá, e logo que entraram ele chamou Merry e lhe ofereceu uma cadeira ao seu lado.
— Não é como eu gostaria – disse Théoden —, pois este lugar é pouco parecido com minha casa em Edoras. E seu amigo, que também deveria estar aqui, partiu. Mas pode demorar muito até que nos sentemos, você e eu, à alta mesa em Meduseld; não haverá tempo para banquetes quando eu retornar. Mas venha agora! Coma e beba e vamos conversar um pouco enquanto pudermos. Depois você deverá cavalgar comigo.
— Eu posso? — disse Merry, surpreso e deliciado. — Seria esplêndido! — O hobbit nunca ficara tão agradecido diante de palavras corteses. — Receio estar apenas atrapalhando todo o mundo — gaguejou ele — mas ficaria feliz em poder fazer qualquer coisa que estivesse ao meu alcance, o senhor sabe.
— Não duvido disso — disse o rei. — Mandei preparar um bom pônei montanhês para você. Vai conduzi-lo com a velocidade de qualquer cavalo pelas estradas que tomaremos. Pois vou partir do Forte e passar por trilhas nas montanhas, evitando a planície, e dessa forma vou chegar a Edoras pelo Templo da Colina, onde a Senhora Éowyn me aguarda. Você será meu escudeiro, se isso lhe agrada. Existe neste lugar algum equipamento de guerra, Éomer, que meu nobre espadachim possa usar?
— Não há grandes arsenais aqui, meu senhor — respondeu Éomer. — Talvez encontremos um elmo leve que lhe possa servir; mas não temos malhas metálicas ou espadas que se ajustem ao seu tamanho.
— Eu tenho uma espada — disse Merry, saltando da cadeira e puxando de sua bainha negra a pequena espada brilhante. Cheio de um súbito afeto por aquele velho, ajoelhou-se sobre um dos joelhos, tomou-lhe a mão e beijou-a. — Permita-me depositar a espada de Meriadoc do Condado em seu colo, Rei Théoden! — exclamou ele. — Aceite meu serviço, se lhe aprouver.
— Aceito com satisfação — disse o rei, e, colocando as longas e velhas mãos sobre os cabelos castanhos do hobbit, abençoou-o. — Levante-se agora, Meriadoc, escudeiro de Rohan, da casa de Meduseld! — disse ele. — Pegue sua espada e conduza-a para uma sorte feliz.
— O senhor será como um pai para mim — disse Merry.
— Por pouco tempo — disse Théoden.
Os dois conversaram durante a refeição, até que de repente Éomer falou.
— A hora que marcamos para partir se aproxima, meu senhor — disse ele. — Devo pedir que os homens toquem as trombetas? Mas onde está Aragorn? Seu lugar está vazio, e ele não comeu.
— Vamos nos aprontar para partir — disse Théoden — mas faça com que uma mensagem seja enviada ao Senhor Aragorn, dizendo que a hora se aproxima.
O rei com sua guarda, acompanhado de Merry, desceu do portão do Forte para o ponto no gramado onde os Cavaleiros estavam se reunindo.
Muitos já estavam montados. Seria uma grande companhia; pois o rei estava deixando apenas uma pequena guarnição no Forte, e todos os que podiam ser utilizados estavam indo para o encontro de armas em Edoras. Mil lanceiros já haviam, na realidade, partido durante a noite; mas ainda haveria mais quinhentos acompanhando o rei, na maioria homens dos campos e vales do Folde Ocidental.
Os guardiões estavam sentados um pouco mais longe, em silêncio, num grupo ordenado, armados com lanças, arcos e espadas. Estavam vestidos com capas de um cinza-escuro, e seus capuzes cobriam elmo e cabeça.
Os cavalos eram fortes e de porte altivo, mas tinham pelo duro e um estava ali sem seu cavaleiro; era o próprio cavalo de Aragorn que tinham trazido do norte; Roheryn era seu nome. Não havia brilho de pedras ou ouro, nem qualquer coisa bonita nos seus estribos e arreios; nem os seus cavaleiros usavam qualquer insígnia ou símbolo, a não ser o broche no formato de uma estrela raiada de prata, que cada um tinha espetado sobre o ombro esquerdo.
O rei montou seu cavalo, Snawmana, e Merry se pôs ao lado dele em seu pônei: este chamava-se Stybba. De repente Éomer saiu do portão acompanhado de Aragorn e Halbarad, este trazendo o grande cajado, todo embrulhado no tecido negro, e dois homens altos, nem jovens nem velhos.
Eram tão parecidos os filhos de Elrond que poucos conseguiam distinguir um outro; cabelos escuros, olhos cinzentos, e nos rostos a beleza dos elfos, vestidos da mesma forma em malhas brilhantes sob as capas de um cinza-prateado. Atrás deles caminhavam Legolas e Gimli. Mas Merry só tinha olhos para Aragorn, tão assustadora era a mudança que se operara nele, como se em uma noite anos tivessem desabado sobre sua cabeça. O rosto estava austero, cor de cinza e exausto.
— Estou preocupado, senhor — disse ele, parando ao lado do cavalo do rei. — Ouvi palavras estranhas, e vejo novos perigos à frente. Esforcei-me muito pensando, e agora receio que deva mudar meu propósito. Diga-me, Théoden, você cavalga agora para o Templo da Colina; quanto tempo levará para que chegue lá?
— Agora já passa uma hora do meio-dia — disse Éomer. — Antes da noite do terceiro dia a contar de agora devemos chegar à Fortaleza. A lua então terá passado um dia de sua fase cheia, e a concentração de tropas que o rei pediu acontecerá no dia seguinte. Não podemos ser mais rápidos, se quisermos reunir a força de Rohan.
Aragorn ficou em silêncio por um momento.
— Três dias – murmurou ele — e a concentração das tropas de Rohan terá apenas começado. Mas vejo que não se pode apressá-la. — Ergueu os olhos e parecia ter tomado alguma decisão; seu rosto estava menos preocupado. — Então, com a sua permissão, senhor, devo fazer novos planos para mim e meu povo. Devemos ir por nossa própria estrada, não mais em segredo. Para mim, o tempo de clandestinidade acabou. Vou cavalgar pelo caminho mais rápido, e vou tomar as Sendas dos Mortos.
— As Sendas dos Mortos — disse Théoden, estremecendo. — Por que você as menciona? — Éomer virou-se e fitou Aragorn, e Merry teve a impressão de que os rostos dos Cavaleiros que estavam por perto e puderam ouvir ficaram pálidos à menção daquelas palavras. — Se realmente existirem tais sendas — disse Théoden —, o portão para elas está no Templo da Colina; mas nenhum homem vivo pode passar por ele.
— Que pena, Aragorn, meu amigo! — disse Éomer. — Esperava que pudéssemos cavalgar juntos para a guerra; mas, se você procura as Sendas dos Mortos, então chegou a hora de nossa separação, e é pouco provável que nos encontremos de novo sob este sol.
— Não obstante, tomarei aquela estrada — disse Aragorn. — Mas digo a você, Éomer, que na batalha poderemos nos encontrar de novo, mesmo que todos os exércitos de Mordor se posicionem entre nós.
— Faça como quiser, meu senhor Aragorn — disse Théoden. — É o seu destino, talvez, trilhar caminhos estranhos que os outros não ousam. Esta despedida me entristece, e diminui minha força; mas agora devo tomar as estradas das montanhas sem mais delongas. Passe bem!
— Até logo, senhor! — disse Aragorn. — Cavalgue para a fama! Até logo, Merry! Deixo você em boas mãos, melhor do que esperávamos quando caçávamos os orcs em Fangorn. Legolas e Gimli ainda vão caçar ao meu lado, espero, mas não nos esqueceremos de você.
— Adeus! — disse Merry.
Não conseguiu encontrar outras palavras. Sentiu-se muito pequeno e estava consternado e deprimido diante de todas aquelas palavras melancólicas. Mais do que nunca sentia falta da inesgotável alegria de Pippin. Os Cavaleiros estavam prontos, e os cavalos, inquietos; Merry desejava que partissem e terminassem logo com aquilo.


Agora Théoden se dirigia a Éomer, erguendo a mão e falando em voz alta, e com aquela palavra os Cavaleiros partiram. Passaram pelo Dique e desceram a Garganta, e depois, virando-se depressa para o leste, pegaram a trilha que contornava os pés das colinas por cerca de uma milha até que, curvando-se para o sul, passava por trás das colinas e desaparecia de vista. Aragorn cavalgou até o Dique e ficou observando até que os homens do rei estivessem bem distantes, na Garganta. Então virou-se para Halbarad.
— Lá se vão três entes que amo, e o menor deles não menos — disse ele. — Ele não sabe para que fim se dirige; mas, se soubesse, mesmo assim prosseguiria.
— Um povo pequeno, mas de grande valor, são as pessoas do Condado — disse Halbarad. — Sabem pouco de nosso longo trabalho para salvaguardar suas fronteiras, mas mesmo assim não lhes guardo ressentimento.
— E agora nossos destinos estão entrelaçados — disse Aragorn. — Mesmo assim, infelizmente, aqui temos de nos separar. Bem, preciso comer um pouco, e depois nós também devemos partir depressa. Venham, Legolas e Gimli! Preciso lhes falar enquanto como.
Juntos voltaram ao Forte, mas por algum tempo Aragorn ficou sentado em silêncio à mesa do salão, e os outros aguardando que ele falasse.
— Vamos! — disse Legolas finalmente. — Fale e se reconforte, e espante a sombra! O que aconteceu desde que retornamos a este lugar triste na manhã cinzenta?
— Uma luta de certa forma mais difícil para mim que a batalha do Forte da Trombeta — respondeu Aragorn. — Olhei na Pedra de Orthanc, meus amigos.
— Você olhou naquela maldita pedra de feitiçaria! — exclamou Gimli com medo e estupefação cobrindo-lhe o rosto. — Disse alguma coisa a... ele? Até mesmo Gandalf temia tal encontro.
— Você esquece quem é a pessoa a que se dirige — disse Aragorn de modo austero, e seus olhos faiscaram. — Não proclamei meu título diante das portas de Edoras? Que receiam que eu possa ter dito a ele? Não, Gimli — disse ele numa voz mais suave, e o ar severo desapareceu de seu rosto; agora parecia alguém que trabalhara sem descanso através de várias noites de sofrimento. — Não, meus amigos, eu sou o dono legítimo da Pedra, e eu tinha tanto o direito como a força para usá-la, ou pelo menos julguei que fosse assim – do direito não se pode duvidar. A força apenas suficiente. — Respirou fundo. — Foi uma luta amarga, e o cansaço demora a passar. Não disse a ele palavra alguma, e no fim domei a Pedra segundo a minha vontade. Só isso será difícil para ele suportar. E ele me viu. Sim, Mestre Gimli, ele me viu, mas numa roupagem diferente da que vocês enxergam agora. Se isso o ajudar, então fiz uma coisa ruim. Mas não acho que seja assim. Saber que eu estou vivo e caminho sob o sol foi um duro golpe para o coração dele, julgo eu, pois não sabia disso até agora. Os olhos em Orthanc não enxergaram através da armadura de Théoden; mas Sauron não esqueceu Isildur e a espada de Elendil. Agora, no momento exato de seus grandes desígnios o herdeiro de Isildur e a Espada são revelados; pois eu lhe mostrei a lâmina reforjada. Ele ainda não tem tanto poder para estar acima do medo; não, a dúvida constantemente o corrói.
— Mas ele controla um grande domínio, apesar de tudo — disse Gimli —; e agora atacará mais rápido.
— O golpe apressado geralmente se perde — disse Aragorn. — Devemos pressionar nosso Inimigo, e não mais esperar que ele ataque. Vejam, meus amigos, quando dominei a Pedra, aprendi muitas coisas. Vi um grande perigo inesperado vindo do sul e se aproximando de Gondor, que retirará grande parte da força de defesa de Minas Tirith. Se não houver um contragolpe rápido, acho que a Cidade estará perdida antes que dez dias se passem.
— Então ela se perderá — disse Gimli. — Pois que socorro há que possamos enviar àquela direção, e como poderia chegar a tempo?
— Não tenho Socorro para enviar, portanto devo ir em pessoa — disse Aragorn. — Mas só há um caminho através das montanhas que pode me conduzir até a região costeira antes que tudo esteja perdido. As Sendas dos Mortos.
— As Sendas dos Mortos! — disse Gimli — É um nome cruel, pouco do agrado dos homens de Rohan, pelo que vi. Podem os vivos usar essa estrada, sem que pereçam? E, mesmo que você passe por esse caminho, que eficácia terão tão poucos contra os golpes de Mordor?
— Os vivos nunca usaram aquela estrada desde a chegada dos rohirrim — disse Aragorn —, pois ela está fechada para eles. Mas nesta hora escura o herdeiro de Isildur poderá tomá-la, se ousar fazê-lo. Escutem! Esta é a mensagem que os filhos de Elrond me trazem, enviada de Valfenda por seu pai, o mais sábio na tradição: Peçam a Aragorn que se lembre das palavras do vidente e das Sendas dos Mortos.
— E quais podem ser as palavras do vidente? — disse Legolas.
— Assim falou Malbeth o Vidente nos dias de Arvedui o último rei de Fornost:

Sobre a terra se estende uma sombra terrível,
Lançando sobre o oeste longas asas de trevas.
A Torre treme; das tumbas de reis
a sina se aproxima. Os Mortos despertam,
chegada é a hora dos que foram perjuros:
junto à Pedra de Erech de pé ficarão
para ouvir a corneta ecoar nas colinas
De quem será a corneta? Quem irá chamar
da dúbia meia-luz o olvidado povo?
O herdeiro daquele a quem foi feita a jura.
Do norte ele virá movido pela sorte.
Seguirá pela Porta para as Sendas dos Mortos.

— Caminhos obscuros, sem dúvida — disse Gimli — mas esses versos não são menos obscuros para mim.
— Se vocês pudessem entendê-los melhor, então eu pediria que me acompanhassem — disse Aragorn — pois tal caminho devo trilhar. Mas não vou de bom grado; apenas a necessidade me move. Portanto, só poderia aceitar que vocês me acompanhassem se fosse por sua livre e espontânea vontade, pois encontrarão árdua fadiga e grande medo, e talvez coisa pior.
— Irei com você, mesmo que seja pelas Sendas dos Mortos, e para qualquer fim que elas possam conduzir — disse Gimli.
— Também irei — disse Legolas —, pois não temo os Mortos.
— Espero que o olvidado povo não tenha olvidado como se luta — disse Gimli — caso contrário, não vejo por que deveríamos molestá-los.
— Isso saberemos se conseguirmos chegar a Erech — disse Aragorn. —Mas o juramento que quebraram foi o de lutar contra Sauron, portanto eles devem lutar, se quiserem cumpri-lo. Pois em Erech se ergue uma pedra negra que foi trazida de Númenor, como se conta, por Isildur; e ela foi colocada sobre uma colina, e sobre ela o Rei das Montanhas jurou fidelidade a ele no início do reino de Gondor. Mas, quando Sauron retornou e ficou outra vez poderoso, Isildur convocou os homens das Montanhas para que cumprissem seu juramento, e eles não cumpriram: tinham adotado Sauron durante os Anos Escuros. Então Isildur disse ao rei deles: “Tu serás o último rei. E, se o oeste se mostrar mais forte que teu Mestre Negro, esta maldição eu lanço sobre ti e teu povo: jamais descansar enquanto o juramento não for cumprido. Pois esta guerra perdurará por anos sem conta, e vós sereis chamados mais uma vez antes do fim.” E eles fugiram diante da ira de Isildur, e não ousaram avançar para lutar a favor de Sauron; esconderam-se em lugares secretos nas montanhas e não tiveram contato com outros homens; e lentamente foram se extinguindo nas colinas desoladas. E o terror dos Mortos Insones paira sobre a colina de Erech e sobre todos os lugares onde aquele povo subsistia. Mas por esse caminho devo ir, já que não há nenhum vivo que possa me ajudar.
Levantou-se.
— Venham! — gritou ele, puxando da bainha a espada, que reluziu na dúbia luz do salão do Forte. — Para a Pedra de Erech! Procuro as Sendas dos Mortos. Que me acompanhe quem quiser!
Legolas e Gimli não responderam, mas levantaram-se e seguiram Aragorn, saindo do salão. Sobre a relva esperavam, imóveis e em silêncio, os guardiões encapuzados. Legolas e Gimli montaram. Aragorn saltou no lombo de Roheryn. Então Halbarad ergueu uma grande corneta, cujo clangor ecoou no Abismo de Helm; e com isso partiram em disparada, descendo a Garganta como um trovão, enquanto todos os homens que ficaram no Dique ou no Forte observavam assombrados.
E, enquanto Théoden ia pelas morosas trilhas das colinas, a Companhia Cinzenta passou depressa através da planície, e no dia seguinte à tarde chegaram a Edoras, e ali fizeram apenas uma pausa breve, antes de avançar subindo o vale; assim chegaram ao Templo da Colina ao cair da noite.
A Senhora Éowyn os cumprimentou e ficou feliz com a sua chegada, pois nunca vira homens mais poderosos que os dúnedain e os belos filhos de Elrond; mas seus olhos repousavam principalmente em Aragorn. E, quando se sentaram à ceia com ela, os dois conversaram, e ela ficou sabendo sobre tudo o que se passara desde a partida de Théoden, fatos sobre os quais ela apenas recebera notícias apressadas; quando ouviu sobre a batalha no Abismo de Helm, sobre a grande matança dos inimigos, e sobre o ataque de Théoden e todos os seus cavaleiros, os olhos dela brilharam.
Mas finalmente ela disse:
— Senhores, estão cansados e devem agora ir para suas camas, com todo o conforto que se possa improvisar. Mas amanhã alojamentos melhores serão preparados para vocês.
Mas Aragorn disse:
— Não, senhora, não se preocupe conosco! Se pudermos dormir aqui esta noite e quebrar nosso jejum amanhã, isso será o suficiente. Pois cavalgo numa missão de extrema urgência, e com a primeira luz da manhã devemos partir.
Ela lhe sorriu e disse:
— Então foi uma enorme gentileza, senhor, terem cavalgado tantas milhas fora de seu caminho para trazer notícias para Éowyn, e conversar com ela em seu exílio.
— Na verdade nenhum homem consideraria tal viagem um desperdício — disse Aragorn — e, apesar disso, senhora, eu não poderia ter vindo até aqui se a estrada que devo tomar não passasse pelo Templo da Colina.
E ela respondeu como alguém que não gostou do que ouviu:
— Então, senhor, você está perdido; pois do Vale Harg nenhuma estrada vai para o leste ou para o sul; e é melhor que retorne por onde veio.
— Não, senhora — disse ele — não estou perdido pois andei nesta terra antes que você nascesse para enfeitá-la. Há uma estrada que sai deste vale e essa estrada tomarei. Amanhã cavalgarei pelas Sendas dos Mortos.
Então ela o fitou como alguém que está chocado; seu rosto embranqueceu, e por um longo período não disse mais nada, enquanto todos ficaram em silêncio.
— Mas, Aragorn — disse ela finalmente — então sua missão é procurar a morte? Pois isso é tudo o que encontrará naquela estrada. Eles não permitem que os vivos passem.
— Eles podem tolerar que eu passe — disse Aragorn —; mas no mínimo vou arriscar. Nenhuma outra estrada servirá.
— Mas isso é loucura — disse ela. — Pois aqui há homens de fama e coragem, que você não deveria levar para as sombras, mas conduzir para a guerra, onde se precisa de homens. Imploro que fique e cavalgue com meu irmão, pois assim os nossos corações se alegrarão e nossa esperança será maior.
— Não é loucura, senhora — respondeu ele —; pois irei por um caminho pré-determinado. Mas aqueles que me seguem o fazem de livre e espontânea vontade, e, se quiserem agora ficar e cavalgar com os Rohirrim, podem fazê-lo. Mas eu vou tomar as Sendas dos Mortos, sozinho, se for necessário.
Então ela não disse mais nada, e todos comeram em silêncio; mas seus olhos estavam sempre em Aragorn, e os outros perceberam que sua mente estava atormentada. Finalmente se levantaram, pediram permissão à Senhora, agradeceram-lhe e foram descansar.
Mas, quando Aragorn chegou à barraca onde deveria se alojar com Legolas e Gimli, e seus companheiros entraram, veio a Senhora Éowyn atrás dele e o chamou.
Ele se virou e a viu como um brilho na noite, pois estava toda vestida de branco; mas tinha os olhos em chamas.
— Aragorn — disse ela —, por que você vai por essa estrada mortal?
— Porque preciso — disse ele. — Só assim posso ver qualquer esperança de desempenhar meu papel na guerra contra Sauron. Não escolho trilhas de perigo, Éowyn. Se pudesse ir para onde meu coração mora, estaria no norte distante, caminhando no belo vale de Valfenda.
Por um momento ela ficou quieta, como se estivesse ponderando o significado daquelas palavras. Então, de repente, colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Você é um senhor austero e resoluto — disse ela — e assim os homens ganham fama. — Fez uma pausa. — Senhor, se precisa ir, então permita que eu o siga. Pois estou cansada de me esconder covardemente nas colinas, e desejo enfrentar o perigo e a batalha.
— Seu dever está com seu povo — respondeu ele.
— Já ouvi demais sobre deveres — exclamou ela. — Mas por acaso não sou da Casa de Eorl, uma escudeira e não uma ama-seca? Já servi a pés vacilantes por muito tempo. Uma vez que eles já não vacilam, ao que parece, não posso eu passar minha vida como desejar?
— Poucos podem fazer isso com honra — respondeu ele. — Mas quanto a senhora: não aceitou o encargo de governar seu povo até que o senhor retorne? Se não tivesse sido escolhida, então algum marechal ou capitão teria sido colocado no mesmo lugar, e não poderia fugir da incumbência, estando cansado ou não.
— Serei sempre eu a escolhida? — disse ela num tom amargo. — Serei sempre deixada para trás quando os Cavaleiros partem, para cuidar da casa enquanto eles ganham fama, e para preparar-lhes cama e comida, esperando seu regresso?
— Logo pode chegar um tempo — disse ele — em que ninguém retornará. Então haverá necessidade de valor sem fama, pois ninguém se recordará dos feitos realizados na derradeira defesa de suas casas. Apesar disso, os feitos não serão menos corajosos por não serem celebrados.
E ela respondeu:
— Todas as suas palavras querem dizer apenas isto: você é uma mulher, e seu papel é na casa. Mas, quando os homens estiverem mortos na batalha e com honra, você tem a permissão para ser queimada na casa, pois os homens não mais precisarão dela. Mas eu sou da Casa de Eorl, e não uma serviçal. Posso cavalgar e brandir uma espada, e não temo o sofrimento ou a morte.
— O que teme, senhora? — perguntou ele.
— Uma gaiola — disse ela. — Ficar atrás de grades, até que o hábito e a velhice as aceitem e todas as oportunidades de realizar grandes feitos estejam além de qualquer lembrança ou desejo.
— E mesmo assim me aconselhou a não me aventurar na estrada que escolhi, só porque é perigosa?
— Dessa forma um pode aconselhar o outro — disse ela. — Mas eu não lhe peço que fuja do perigo, mas que cavalgue para a batalha, onde sua espada possa conquistar fama e vitória. Não gostaria que uma coisa que é nobre e excelente fosse desperdiçada à toa.
— Nem eu — disse ele. — Portanto lhe digo, senhora: fique! Pois você não tem missão alguma no sul.
— Os que te acompanham também não têm. Eles só vão porque não estão dispostos a se separar de ti... porque te amam. — Então virou-se e desapareceu dentro da noite.


Quando chegou a luz do dia no céu, mas antes que o sol tivesse subido acima das altas cordilheiras do leste, Aragorn se aprontou para partir. Sua companhia estava toda montada, e ele prestes a saltar para a sela, quando a Senhora Éowyn veio lhes dizer adeus.
Estava vestida como um Cavaleiro, e trazia uma espada na cintura. Na mão trazia uma taça, e levando-a aos lábios bebeu um pouco, desejando-lhes boa viagem; depois ofereceu a taça a Aragorn; ele bebeu e disse:
— Até logo, Senhora de Rohan! Bebo ao sucesso de sua Casa, e ao seu, e de todo o seu povo. Diga ao seu irmão: além das sombras podemos nos reencontrar!
Então Gimli e Legolas, que estavam próximos, tiveram a impressão de que ela estava chorando, e numa pessoa tão austera e altiva isso parecia mais triste.
Mas ela disse:
— Aragorn, tu vais?
— Eu vou — disse ele.
— Então tu não permitirás que eu cavalgue com este grupo, como pedi?
— Não permitirei, senhora. Pois isso eu não poderia conceder sem a permissão do rei e de seu irmão, e eles não retornarão antes de amanhã. Mas agora conto cada hora, na realidade cada minuto. Adeus!
Então ela caiu de joelhos, dizendo:
— Eu te imploro!
— Não, senhora — disse ele, tomando-lhe a mão e erguendo-a. Então deu-lhe um beijo na mão e saltou na sela, e partiu sem olhar para trás, e só aqueles que o conheciam bem e estavam próximos dele viram a dor que levava consigo.
Mas Éowyn ficou imóvel como uma figura esculpida em pedra, as mãos crispadas ao longo do corpo, olhando-os até que desaparecessem nas sombras sob a negra Dwimorberg, a Montanha Assombrada, na qual ficava o Portão dos Mortos.
Quando desapareceram de vista, ela se virou e, aos tropeços, como uma cega, voltou ao seu alojamento. Mas ninguém de seu povo viu essa despedida, pois todos haviam-se escondido de medo e não ousaram sair até que o dia despertasse, e os incautos forasteiros já tivessem ido embora.
E alguns diziam:
— Eles são criaturas élficas. Que vão para seu lugar, os locais escuros, e que nunca mais voltem. Os tempos já são malignos o bastante.


A luz ainda estava cinzenta quando a cavalgada começou, pois o sol ainda não tinha subido sobre as cordilheiras negras da Montanha Assombrada diante deles. Foram tomados de pavor, no momento em que passaram entre as fileiras de pedras antigas e assim atingiram o Dimholt. Ali, sob a escuridão de árvores negras que nem mesmo Legolas conseguiria suportar por muito tempo, encontraram uma concavidade abrindo-se na raiz da montanha, e bem na trilha deles erguia-se uma única rocha poderosa, semelhante a um dedo em gesto de condenação.
— Meu sangue está gelado — disse Gimli, mas os outros ficaram em silêncio, e a voz do anão morreu nas úmidas agulhas de abeto aos seus pés.
Os cavalos se recusaram a passar pela pedra ameaçadora, exigindo que os cavaleiros desmontassem e os conduzissem. E então finalmente afundaram na fenda; ali se erguia uma parede de pedra íngreme, e na parede a Porta Negra abria-se diante deles como se fosse a própria boca da noite. Sinais e figuras apareciam entalhados acima de seu amplo arco, ilegíveis de tão apagados, e o medo fluía dela como um vapor cinzento.
O grupo parou, e não havia um só coração entre eles que não estremecesse, a não ser o coração de Legolas dos elfos, que não temia fantasmas de homens.
— Esta é uma porta maligna — disse Halbarad —, e minha morte jaz atrás dela. Não obstante, ousarei passar por ela; mas nenhum cavalo entrará.
— Mas precisamos entrar, e, portanto, os cavalos devem ir também — disse Aragorn. — Pois, se conseguirmos passar por esta escuridão, muitas léguas se estendem à frente, e cada hora perdida ali trará o triunfo de Sauron para mais perto. Sigam-me!
Então Aragorn foi na frente, e a força de sua vontade nessa hora foi tamanha que todos os dúnedain e seus cavalos o seguiram. E, na realidade, o amor que o cavalos dos guardiões tinham por seus cavaleiros era tão grande que os animais estavam dispostos a enfrentar até mesmo o terror da Porta, se os corações de seus donos estivessem firmes ao caminharem ao lado deles. Mas Arod, o cavalo de Rohan, recusava-se a entrar, e parou suando e tremendo num medo que dava pena de ver.
Então Legolas colocou a mão sobre os olhos do animal e cantou algumas palavras que pairaram suaves na escuridão, até que o cavalo se deixou conduzir, e Legolas entrou.
E ali ficou Gimli, o anão, completamente sozinho.
Os joelhos tremiam, e ele estava furioso consigo mesmo.
— Esta é uma coisa de que ninguém nunca ouviu falar! — disse ele. — Um elfo entra debaixo da terra e um anão não tem a coragem!
Com isso mergulhou para dentro. Mas parecia-lhe que seus pés pesavam como chumbo na entrada; imediatamente foi acometido de uma cegueira, até mesmo ele, Gimli, filho de Glóin, que já caminhara sem medo em muitos lugares profundos do mundo.
Aragorn trouxera tochas do Templo da Colina, e agora ia à frente erguendo uma nas mãos; Elladan, na retaguarda, levava outra, e Gimli, aos tropeços, lutava para conseguir alcançá-lo. Não conseguia enxergar nada, exceto a chama fraca das tochas; mas, se o grupo parava, parecia haver um sussurro interminável de vozes por toda a volta, um murmúrio em palavras numa língua que ele nunca ouvira antes.
Nada atacou o grupo, nem impediu sua passagem. Mesmo assim, o medo não parava de crescer dentro do anão à medida que ele avançava: principalmente porque sabia agora que não haveria como voltar; todas as trilhas atrás estavam apinhadas por um exército que os seguia na escuridão.
Assim se passou um tempo impossível de se calcular, até que Gimli avistou algo que posteriormente sempre odiaria recordar. A estrada era ampla, pelo que podia julgar, mas agora o grupo de repente chegava a um grande espaço vazio, e não havia mais muralhas em nenhum dos lados. O pavor que sentia era tão grande que mal conseguia andar. Na distância, à esquerda, algo brilhou na escuridão assim que a tocha de Aragorn se aproximou. Então Aragorn parou e foi verificar o que era aquilo.
— Ele não sente medo? — murmurou o anão. — Em qualquer outra caverna, Gimli, filho de Glóin, teria sido o primeiro a correr em direção ao brilho do ouro. Mas não aqui! Que o ouro fique onde está!
Mesmo assim chegou mais perto, e viu Aragorn ajoelhado, enquanto Elladan erguia as duas tochas. Diante dele estavam os ossos de um homem forte. Estivera vestido de malha metálica, e sua armadura jazia ainda inteira, pois o ar da caverna era seco como pó; sua cota era dourada. O cinto era de ouro e granadas, e rico em ouro era o elmo sobre os ossos de sua cabeça, caída com o rosto contra o chão. O homem tombara perto da parede oposta da caverna, pelo que se podia presumir, e diante dele havia uma porta de pedra hermeticamente fechada: os ossos de seus dedos ainda agarravam as fendas. Uma espada quebrada e chanfrada jazia ao seu lado, como se ele tivesse golpeado a rocha em seu último desespero.
Aragorn não o tocou, mas, depois de fitá-lo em silêncio por um tempo, levantou-se e suspirou.
— Para cá, até o mundo se acabar, nunca virão as flores de simbelmyné — murmurou ele. — Nove e sete túmulos existem agora, cobertos de grama verde, e durante todos os longos anos este homem jaz ao lado da porta que não conseguiu destrancar. Para onde ela conduz? Por que queria passar? Ninguém jamais saberá! Pois esta não é minha missão! — exclamou ele, voltando-se e dirigindo-se à escuridão sussurrante. — Mantenham seus tesouros e segredos ocultos nos Anos Amaldiçoados! Só queremos rapidez. Deixem-nos passar, e depois venham! Convoco-os a irem para a Pedra de Erech!
Não houve resposta, a não ser um silêncio completo, mais terrível que os sussurros anteriores; e então um vento gelado soprou, no qual as tochas tremeluziram e se apagaram, e não puderam ser reacendidas. Do tempo que se seguiu, uma ou muitas horas, Gimli se recordaria pouco. Os outros continuaram avançando, mas ele sempre ficava para trás, perseguido por um terror que o procurava e parecia estar o tempo todo prestes a agarrá-lo; atrás dele vinha um rumor como a sombra do ruído de muitos pés. Avançou aos tropeços até ficar rastejando como um animal no solo, sentindo que não suportaria mais aquilo: devia ou achar um caminho e escapar ou correr alucinadamente ao encontro do medo que o perseguia.
De repente ouviu um tilintar de água, um ruído forte e límpido como uma pedra caindo num sonho de sombra escura. A luz aumentou e eis que o grupo passou através de outro portão, largo e de arco alto, e um riacho corria ao lado deles; mais adiante, descendo abruptamente, havia uma estrada entre penhascos íngremes pontas de faca contra o céu lá em cima Tão profundo e estreito era aquele abismo que o céu ficava escuro, e nele pequenas estrelas reluziam. Apesar disso, como Gimli veio a saber depois, ainda faltavam duas horas para o pôr-do-sol do dia em que tinham partido do Templo da Colina, embora, por tudo o que saberia dizer na ocasião, pudesse tratar-Se do nascer do sol em algum ano posterior, ou em algum outro mundo.
A companhia montou de novo, e Gimli voltou para junto de Legolas. Cavalgaram em fila, e o fim de tarde escureceu num azul profundo; e ainda o medo os perseguia.
Legolas, voltando-se para falar com Gimli, olhou para trás, e o anão viu diante de seu rosto o faiscar dos olhos brilhantes do elfo. Atrás deles vinha Elladan, o último da Companhia, mas ele não era o último que descia a estrada.
— Os Mortos estão nos seguindo — disse Legolas. — Vejo vultos de homens e cavalos, e pálidas bandeiras como retalhos de nuvens, e lanças como arbustos hibernais numa noite de névoa. Os Mortos estão nos seguindo.
— Sim, os Mortos vêm atrás de nós. Eles foram convocados — disse Elladan.
Por fim a Companhia saiu da garganta, de repente, como se tivesse saído de uma fenda numa parede, e lá estava a região montanhosa de um grande vale diante deles, e o riacho que corria ao lado saltava com uma voz fria por sobre várias cachoeiras.
— Em que lugar da Terra Média estamos? — perguntou Gimli, e Elladan respondeu:
— Descemos das cabeceiras do Morthond, o rio longo e frio que corre para finalmente encontrar o mar que banha os muros de Doí Amroth. De agora em diante você não precisa perguntar a razão de seu nome: Raiz Negra os homens o chamam.
O Vale do Morthond formava uma grande baia que batia contra as íngremes encostas meridionais das montanhas. Suas ladeiras inclinadas eram cobertas de grama, mas tudo estava cinzento àquela hora, pois o sol se fora, e lá embaixo luzes piscavam nas casas dos homens. O vale era rico e muitas pessoas moravam lá.
Então, sem se virar, Aragorn disse em voz alta, para que todos pudessem ouvir:
— Amigos, esqueçam o cansaço! Cavalguem agora, cavalguem! Devemos chegar à Pedra de Erech antes do fim do dia, e ainda temos um longo caminho pela frente.
Dessa forma, sem olhar para trás, eles cavalgaram através dos campos nas montanhas, até chegarem a uma ponte sobre a correnteza crescente onde encontraram uma estrada que descia até o povoado.
As luzes se apagavam nas casas e aldeias à medida que eles se aproximavam, e as portas se fechavam, e as pessoas que estavam nos campos gritavam de medo e corriam alucinadas como corças perseguidas. Sempre se ouvia o mesmo grito na noite que se adensava: “O Rei dos Mortos! O Rei dos Mortos está nos atacando!”
Sinos tocavam lá embaixo, e todos os homens fugiam do rosto de Aragorn; mas a Companhia Cinzenta, em sua pressa, cavalgava como um bando de caçadores, até seus cavalos ficarem trôpegos de cansaço. E dessa forma, um pouco antes da meia-noite, e numa escuridão igual à das cavernas das montanhas, finalmente chegaram à Colina de Erech.
Por muito tempo, o terror dos Mortos pairara sobre aquela colina e sobre os campos vazios ao redor dela. Pois no topo erguia-se uma pedra negra, redonda como um grande globo, da altura de um homem, embora uma metade estivesse enterrada no chão. Tinha uma aparência sobrenatural, como se tivesse caído do céu, como acreditavam alguns; mas aqueles que ainda recordavam a tradição do Ponente contavam que ela fora trazida da ruína de Númenor e colocada ali por Isildur em sua chegada.
Ninguém do povo do vale ousava se aproximar dela, nem estavam dispostos a morar nas proximidades, pois diziam que era um ponto de encontro dos Homens da Sombra, e ali eles se reuniam em tempos de medo, ajuntando-se ao redor da Pedra e sussurrando.
Para essa Pedra a Companhia se dirigiu e parou na calada da noite. Então Elrohir deu uma corneta de prata a Aragorn, que a tocou; os que estavam nas proximidades tiveram a impressão de ouvir o som de outras cornetas em resposta, como se fosse um eco em cavernas profundas e distantes. Não ouviram qualquer outro som, e mesmo assim perceberam que um grande exército se reunia ao redor de toda a colina sobre a qual eles estavam; um vento frio como o hálito dos fantasmas desceu das montanhas.
Mas Aragorn desmontou, e parando ao lado da Pedra gritou numa voz poderosa:
— Perjuros, por que viestes?
Então ouviu-se uma voz saída da noite, que lhe respondeu, como se viesse de muito longe:
— Para cumprir nosso juramento e ter paz.
Então Aragorn disse:
— Finalmente é chegada a hora. Agora vou para Pelargir, sobre o Anduin, e deveis me seguir. E, quando toda esta terra estiver livre dos servidores de Sauron, vou considerar o juramento cumprido, e tereis paz e podereis partir para sempre. Pois eu sou Elessar, herdeiro de Isildur de Gondor.
E com isso ordenou que Halbarad desfraldasse o grande estandarte que havia trazido, e eis que era negro, e, se nele havia qualquer símbolo, estava oculto na escuridão.
Então fez-se silêncio, e nem sequer um sussurro ou um suspiro se ouviu outra vez durante toda a longa noite. A Companhia acampou ao lado da Pedra, mas dormiram pouco, por causa do medo das Sombras que os cercavam.
Mas, quando chegou a aurora, fria e pálida, Aragorn se levantou imediatamente, e conduziu a Companhia adiante na viagem de maior velocidade e cansaço que qualquer um deles conhecera, exceto ele próprio, e apenas sua disposição conseguia fazer com que os outros continuassem. Nenhum outro homem mortal teria suportado a viagem, nenhum, exceto os dúnedain do norte, e com eles Gimli, o anão, e Legolas dos elfos.
Passaram pela Garganta de Tarlang e chegaram a Lamedon, e o Exército da Sombra se apressava atrás deles, e o medo ia adiante, até que chegaram a Calembel à margem do Ciril, e o sol desceu feito sangue atrás das Pinnath Geliu, na distância a oeste atrás deles. Encontraram as terras e os vaus do Ciril abandonados, pois muitos homens haviam partido para a guerra, e todos os que ficaram fugiram para as colinas ao ouvirem os rumores sobre a chegada do Rei dos Mortos. Mas no dia seguinte não houve aurora, e a Companhia Cinzenta passou para dentro da escuridão da Tempestade de Mordor e se perdeu da visão dos mortais; mas os Mortos a seguiram.

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