2 de abril de 2016

Capítulo II - O Conselho de Elrond


No dia seguinte, Frodo acordou cedo, sentindo-se bem e descansado.
Caminhou ao longo dos terraços debruçados sobre as águas ruidosas do Bruinen, e assistiu ao sol pálido, fresco, erguer-se acima das montanhas distantes e emitir sobre o mundo seus raios, que se inclinavam através da fina névoa de prata; o orvalho luzia nas folhas amareladas, e teias entrelaçadas cintilavam em todos o s arbustos.
Sam ia ao lado dele, sem dizer nada, mas apreciando o ar, e olhando uma vez ou outra para as altas montanhas do Leste, com uma expressão maravilhada nos olhos. A neve era branca sobre os picos.
Num assento talhado na pedra ao lado de uma curva do caminho, encontraram Gandalf e Bilbo numa conversa compenetrada.
— Olá! Bom dia! — disse Bilbo. — Sente-se preparado para o grande Conselho?
— Sinto-me preparado para qualquer coisa — respondeu Frodo. — Mas a coisa que eu mais queria era fazer hoje uma caminhada para explorar o vale. Gostaria de entrar naquelas florestas de pinheiros lá em cima. — Apontou para uma encosta muito distante, bem acima de Valfenda, ao Norte.
— Você pode ter uma oportunidade mais tarde — disse Gandalf. — Mas ainda não podemos fazer nenhum plano. Há muitas coisas para ouvir e decidir hoje.
De repente, enquanto conversavam, um sino tocou.
— Esse é o sino de chamada para o Conselho de Elrond — disse Gandalf — Venham agora! Tanto você quanto Bilbo foram requisitados.
Frodo e Bilbo seguiram o mago rapidamente ao longo do caminho cheio de curvas, de volta para a casa; atrás deles, não convidado e pelo momento esquecido, ia Sam.
Gandalf os conduziu até o alpendre onde Frodo tinha encontrado os amigos na noite anterior. A luz da clara manhã de outono brilhava agora no vale.
O ruído das águas borbulhantes vinha do leito espumante do rio. Pássaros cantavam, e uma paz benfazeja se deitava sobre a terra. Para Frodo, sua fuga perigosa e os rumores da escuridão crescendo no mundo lá fora já pareciam apenas lembranças de um sonho ruim; mas os rostos que se voltaram para eles quando entraram estavam sérios.
Elrond estava ali, e muitos outros se sentavam em silêncio em torno dele.
Frodo viu Glorfindel e Glóin, e num canto, sozinho, estava Passolargo, vestido outra vez em suas surradas roupas de viagem. Elrond chamou Frodo para se sentar ao seu lado, e o apresentou ao grupo, dizendo:
— Aqui, meus amigos, está o hobbit, Frodo, filho de Drogo. Poucos chegaram aqui, passando por perigos maiores, ou em missão mais urgente.
Então apontou e nomeou aqueles que Frodo ainda não tinha encontrado.
Havia um anão mais jovem ao lado de Glóin: seu filho Gimli. Ao lado de Glorfindel estavam vários outros conselheiros da casa de Elrond, de quem Erestor era o chefe; com ele estava Galdor, um elfo dos Portos Cinzentos, que tinha vindo numa missão a pedido de Círdan, o fabricante de embarcações. Havia também um elfo estranho, vestido de verde e marrom, Legolas, mensageiro de seu pai, Thranduil, o Rei dos Elfos do Norte da Floresta das Trevas. E, sentado um pouco à parte, estava um homem de rosto belo e nobre, de cabelos escuros e olhos cinzentos, altivo e de olhar severo.
Estava com capa e botas, como se fosse fazer uma viagem a cavalo; na verdade, apesar de suas vestes serem luxuosas, e a capa revestida de pele, estavam manchadas por uma longa viagem. Tinha um colar de prata no qual havia uma única pedra; os cabelos cacheados estavam cortados à altura dos ombros. Num cinturão, trazia uma grande corneta com ornatos de prata, que agora colocara sobre os joelhos. Olhou para Frodo e Bilbo com súbita surpresa.
— Aqui — disse Elrond, voltando-se para Gandalf — aqui está Boromir, um homem do Sul. Chegou no início da manhã, e procura aconselhamento. Pedi a ele que estivesse presente, pois aqui as perguntas que tem a fazer serão respondidas. Nem tudo o que foi falado e debatido no Conselho precisa ser contado aqui. Muito se falou a respeito dos acontecimentos no mundo lá fora, especialmente no Sul, e nas amplas regiões a Leste das Montanhas.
Dessas coisas, Frodo já tinha escutado muitos rumores; mas a história de Glóin era nova para ele, e quando o anão falou, escutou com atenção. Parecia que em meio ao esplendor de seus trabalhos manuais, os corações dos anões da Montanha Solitária estavam preocupados.
— Agora já faz muitos anos — disse Glóin — que uma sombra de inquietude caiu sobre nosso povo. De onde vinha, não percebemos a princípio. As palavras começaram a ser sussurradas em segredo: dizia-se que estávamos presos num lugar pequeno, e que riquezas e esplendores maiores seriam encontrados num mundo mais vasto. Alguns falavam de Moria: as grandes construções de nossos pais, que em nossa língua são chamadas de Khazad-dûm; e declarava -se que agora, finalmente, tínhamos a força e o número de pessoas para retornar.
Glóin suspirou.
— Moria! Moria! Maravilha do Mundo do Norte. Cavamos muito fundo ali, e acordamos o medo inominável. Por muito tempo, aquelas vastas mansões tinham permanecido vazias, desde que os filhos de Durin fugiram. Mas agora falávamos de tudo aquilo com saudade outra vez e, apesar disso, com medo. Nenhum anão tinha ousado ultrapassar as portas de Khazad-dûm durante a vida de vários reis, a não ser Thrór, e ele pereceu. Finalmente, entretanto, Balin escutou os rumores e resolveu ir; e embora Dáin relutasse em consenti-lo, Balin levou consigo Ori e Óin, e muitos outros de nosso povo, rumando para o Sul – isso foi há mais de trinta anos. Por um tempo, tivemos notícias e tudo parecia bem: mensagens contavam que eles haviam entrado em Moria, e uma grande obra começava lá. Depois, fez-se silêncio, e nenhuma palavra veio de Moria desde então. Depois, cerca de um ano atrás, um mensageiro veio até Dáin, mas não de Moria... de Mordor: um cavaleiro chegou à noite, chamando Dáin até o portão. O Senhor Sauron, o Grande, dizia ele, desejava nossa amizade. Em troca daria anéis, assim como tinha dado aos antigos. E o mensageiro queria muito saber a respeito de hobbits, de como eles eram, e onde moravam. “Pois Sauron sabe”, dizia ele, “que um deles foi conhecido de vocês em certa época.”
“Ao ouvirmos isso, ficamos muito preocupados, e não demos resposta, E então sua voz maléfica ficou mais baixa, e ele a teria suavizado, se pudesse. ‘Apenas como um pequeno sinal de sua amizade, Sauron pede isto’, disse ele: ‘que encontrem esse ladrão’, foi essa a palavra que usou, ‘e consigam dele, quer queira ou não, um pequeno anel, o mais ínfimo dos anéis, que certa vez ele roubou. É um capricho de Sauron, e uma prova da boa vontade de vocês. Encontrem-no, e três anéis que os anões antepassados usaram lhes serão devolvidos, e poderão tomar posse de Moria para sempre. Encontrem apenas notícias do ladrão, se ainda está vivo e onde, e terão grande recompensa e a eterna amizade do Senhor. Recusem a oferta, e as coisas não vão ficar muito bem.’ Recusam -se? Com isso sentimos seu hálito, semelhante ao silvo das serpentes, e todos os que estavam ali tremeram, mas Dáin disse: ‘Não digo sim nem não. Preciso pensar na mensagem, e no que está por trás desse belo disfarce’. ‘Pense bem, mas não por muito tempo’, disse ele. ‘Levo o tempo que precisar com meu pensamento’, respondeu Dám. ‘Por enquanto’, disse ele, e cavalgou para dentro da escuridão.
“Os corações de nossos líderes ficaram pesados desde aquela noite. Não precisávamos da voz maligna do mensageiro para nos avisar que as palavras dele continham ameaça e engano, pois já sabíamos que o poder que outra vez invadira Mordor não tinha mudado, e que esse poder sempre havia nos traído outrora. O mensageiro voltou duas vezes, e se foi sem resposta. ‘A terceira e última vez’, dizia ele, ‘está por chegar, antes do fim do ano.’
“E então fui enviado finalmente por Dáin, para avisar Bilbo que ele está na mira do Inimigo, e para saber, se for possível, por que ele deseja esse anel, o mais ínfimo dos anéis. Também pedimos o conselho de Elrond. Pois a Sombra cresce e se aproxima. Descobrimos que os mensageiros também foram enviados ao rei Brand, em Valle, e que ele está com medo. Tememos que possa ceder. A guerra já está se formando na fronteira Leste. Se não dermos resposta, o Inimigo poderá enviar os homens sob seu comando para atacar o rei Brand, e também Dáin.
— Fez bem em ter vindo — disse Elrond. — Hoje você ouvirá tudo o que precisa para entender os propósitos do Inimigo. Não há nada que possa fazer, a não ser resistir, com ou sem esperança. Mas você não está só. Saberá que seu problema é apenas parte do problema de todo o mundo ocidental. O Anel! Que devemos fazer com o Anel, o mais ínfimo dos anéis, a ninharia que Sauron cobiça? É isso que devemos considerar. Este é o propósito de todos terem sido chamados aqui. Chamados, eu digo, embora eu não tenha chamado vocês até mim, estrangeiros de terras distantes. Vocês vieram e estão aqui reunidos, neste exato momento, por acaso, como pode parecer. Mas não é assim. Acreditem que foi ordenado que nós, que estamos aqui sentados, e ninguém mais, encontremos uma solução para o perigo do mundo.
“Agora, portanto, as coisas que foram até este dia ocultadas de todos, por alguns, devem ser mencionadas abertamente. E começando, para que todos possam entender qual é o perigo, a História do Anel será contada desde o início até o momento presente. E eu devo começar, embora outros possam terminá-la.
Então todos escutaram, enquanto Elrond, com sua voz clara, falava de Sauron e dos Anéis de Poder, e de sua forjadura na Segunda Era do mundo, há muito tempo. Uma parte da história era conhecida por alguns ali, mas a história completa ninguém conhecia, e muitos olhos se voltavam para Elrond com medo e surpresa, enquanto ele contava sobre os ourives élficos de Eregion, e de sua amizade com Moria, e de sua avidez de conhecimento, através da qual Sauron os seduziu. Pois, naquela época, ainda não era declaradamente mau, e eles aceitaram sua ajuda, tornando-se hábeis, enquanto Sauron aprendia todos os segredos, e os traía, forjando secretamente, na Montanha do Fogo, o Um Anel para dominar todos os outros. Mas Celebrimbor sabia das verdadeiras intenções de Sauron, e escondeu os Três que tinha feito; então houve guerra, e a terra foi arrasada, e o portão de Moria foi fechado.
Depois disso, através de todos os anos que se seguiram, Sauron procurou o Anel; mas já que essa história é recontada em outro lugar, pois o próprio Elrond a registrou em seus livros de estudo, não será recordada aqui. Pois é uma longa história, cheia de feitos grandiosos e terríveis, e embora Elrond falasse de modo breve, o sol subiu no céu, e a manhã já estava no fim quando ele terminou.
Falou de Númenor, de sua glória e queda, e do retorno dos Reis dos Homens à Terra Média, vindos das profundezas do mar, carregados pelas asas da tempestade. Então Elendil, o Alto, e seus poderosos filhos, Isildur e Anárion, tornaram-se grandes senhores, e fundaram o Reino do Norte em Amor, e o Reino do Sul em Gondor, sobre a foz do Anduin. Mas Sauron de Mordor os atacou, e eles fizeram a última Aliança de Elfos e Homens, e as tropas de Gil-galad e Elendil foram reunidas em Amor.
Nesse momento, Elrond parou um pouco e suspirou.
— Lembro-me bem do esplendor de suas flâmulas — disse ele. — Fazia-me recordar da glória dos Dias Antigos e das tropas de Beleriand, nas quais tantos príncipes importantes e capitães foram reunidos. E, mesmo assim, nem tantos, e nem tão belos como na ocasião em que Thangorodrim foi quebrada, e os elfos pensaram que o mal tinha acabado para sempre; mas isso não era verdade.
— O senhor se lembra? — disse Frodo, pensando alto em sua surpresa. — Mas eu pensei — gaguejou, no momento em que Elrond se voltava para ele — pensei que a queda de Gil-galad tinha sido há muito tempo.
— E de fato foi — respondeu Elrond com gravidade. — Mas minha memória alcança até os Dias Antigos. Eãrendil foi meu pai, e nasceu em Gondolin antes da queda; e minha mãe era Elwing, filha de Dior, filho de Lúthien de Dorialfi. Já vi três eras do Oeste do Mundo, e muitas derrotas, e muitas vitórias infrutíferas. Fui o arauto de Gil-galad, e marchei com sua tropa. Estive na Batalha de Dagorlad diante do Portão Negro de Mordor, onde vencemos: pois à Lança de Gil-galad, e à Espada de Elendil, Aiglos e Narsil, ninguém podia resistir. Eu vi o último combate nas encostas de Orodruíri, onde Gil-galad morreu, e Elendil caiu, e Narsil se quebrou sob seu corpo. Mas Sauron foi vencido, e Isildur cortou o Anel de sua mão com o fragmento do punho da espada do pai, e pegou-o para si.
Ao ouvir isso, o estrangeiro, Boromir, interrompeu-o.
— Então foi isso que aconteceu com o Anel! — gritou ele. — Se alguma vez essa história foi contada no Sul, já foi há muito esquecida. Ouvi falar do Grande Anel daquele que não nomeamos, mas acreditávamos que tinha desaparecido do mundo nas ruínas do primeiro reinado. Isildur o pegou! Isso realmente é novidade.
— Infelizmente, sim — disse Elrond. — Isildur o pegou, e isso não deveria ter acontecido. O Anel deveria ter sido jogado no fogo de Orodruin, exatamente onde foi confeccionado. Mas poucos perceberam o que Isildur fez. Ele tinha ficado sozinho ao lado do pai no confronto final; e ao lado de Gil-galad apenas Círdan ficou, e eu. Mas Isildur não deu ouvidos ao nosso conselho. “Levo isto como compensação pela morte de meu pai e de meu irmão”, disse ele; portanto, sem se importar com o que pensávamos, tomou o Anel para guardá-lo. Mas logo foi traído por ele, o que causou sua morte; por isso é chamado no Norte de A Ruína de Isildur. Mesmo assim, a morte ainda foi melhor do que aquilo que poderia ter-lhe acontecido.
“Essas informações só vieram para o Norte, e apenas para alguns. Não é de admirar que você não saiba de nada, Boromir. Da ruína dos Campos de Lis, onde Isildur sucumbiu, apenas três homens voltaram pelas montanhas, depois de muito vagarem. Um destes foi Olitar, o escudeiro de Isildur, que trazia os pedaços da espada de Elendil; e ele os trouxe para Valandil, herdeiro de Isildur, que, por ser apenas uma criança, tinha ficado aqui em Valfenda. Mas Narsil estava quebrada e sua luz se extinguira, e ainda não tinha sido forjada novamente.
“Chamei de infrutífera a vitória da última Aliança? Não inteiramente, embora não tenha alcançado seus objetivos. O poder de Sauron diminuiu, mas não foi destruído. O Anel estava perdido, mas não desfeito. A Torre Escura foi quebrada, mas os alicerces não foram removidos, pois haviam sido feitos com o poder do Anel, e enquanto este permanecer os alicerces vão durar. Muitos elfos e muitos homens poderosos, e muitos de seus amigos, morreram na guerra. Anárion foi morto, e Isildur foi morto; Gil-galad e Elendil não existiam mais. Nunca mais haverá uma aliança semelhante entre homens e elfos, pois os homens se multiplicam, e os Primogênitos estão se extinguindo, e os dois povos estão ficando cada vez mais distantes. E desde aquele dia, a raça de Númenor vem decaindo, e o tempo que vivem diminui.
“No Norte, depois da guerra e do massacre dos Campos de Lis, os homens do Ponente diminuíram em número, e sua cidade de Annúminas ao lado do lago Vesperturvo ficou em ruínas; os herdeiros de Valandil se mudaram e foram morar em Fornost, nas altas Colinas do Norte, e essa também é uma região desolada atualmente. Os homens a chamam de Fosso dos Mortos, e temem pisá-lo. O povo de Arnor diminuiu, e foi devorado pelos inimigos, e seu reinado passou, deixando apenas túmulos verdes nas colinas cobertas de capim.
“No Sul, o Reinado de Gondor durou muito tempo; por um período seu esplendor cresceu, lembrando de alguma forma a força de Númenor, antes de cair. Altas torres aquele povo construiu, e lugares resistentes, e portos de muitos navios, e a coroa alada dos Reis dos Homens era respeitada e temida por povos de várias línguas. A cidade principal era Osgiliath, Cidadela das Estrelas, no meio da qual o rio corria. E construíram Minas Ithil, a Torre da Lua Nascente, do lado Leste, sobre uma saliência das Montanhas da Sombra; a Oeste, aos pés das Montanhas Brancas, construíram Minas Anor, a Torre do Sol Poente. Ali, nos pátios do Rei nasceu uma árvore branca, da semente que Isildur trouxe através das águas profundas, e a semente dessa árvore tinha antes vindo de Eressêa, e antes ainda do Extremo Oeste, no Dia antes dos dias quando o mundo era jovem.
“Mas com o rápido passar dos anos na Terra Média a linhagem de Meneldil, filho de Anárion, acabou, e a Árvore enfraqueceu, e o sangue dos habitantes de Númenor se misturou com o de homens menores. Então, a guarda sobre as muralhas de Mordor adormeceu, e seres escuros se esgueiraram de volta para Gorgoroth. E em certa época seres maléficos avançaram, tomando Minas Ithil e ali permanecendo, transformando-a num lugar de terror; agora é chamada de Minas Morgul, a Torre da Bruxaria. Então Minas Anor foi chamada por outro nome, Minas Tirith, a Torre da Guarda; essas duas cidades estavam sempre em guerra, mas Osgiliath, que ficava no meio delas, foi abandonada e nas suas ruínas as sombras andavam.
“Foi assim por multas vidas de homens. Mas os Senhores de Minas Tirith ainda lutam, desafiando nossos inimigos, mantendo a passagem do Rio desde Argonath até o Mar. E agora a parte da história que devo contar chega a um fim. Pois nos dias de Isildur o Anel Governante sumiu de todo o conhecimento, e os Três foram libertados do seu domínio. Mas agora, nestes últimos dias, estão em perigo novamente, pois, para nossa tristeza, o Um foi encontrado. Outros devem falar do achado, pois neste ponto tive um papel pequeno.
Ele parou, mas imediatamente Boromir se levantou, alto e imponente diante deles.
— Dê-me permissão, Mestre Elrond — disse ele — primeiro para dizer mais sobre Gondor, pois exatamente de lá eu venho. E seria bom para todos saber o que se passa ali. Poucos sabem, pelo que vejo, de nossos feitos, e portanto adivinham pouca coisa do perigo que os ameaça, se viéssemos a falhar.
“Não creiam que na terra de Gondor o sangue de Númenor esteja dissipado, nem que toda sua dignidade e esplendor foram esquecidos. Por nossos esforços, o povo selvagem do Leste ainda não avançou, e o terror de Morgul é mantido sob controle; só assim são mantidas a paz e a liberdade nas terras atrás de nós, que somos o baluarte do Oeste. Mas se as passagens do Rio fossem tomadas, o que aconteceria?
“Mas talvez essa hora não esteja longe. O Inimigo Inominável se levanta outra vez. A fumaça sobe de novo de Orodruin, que chamamos de Montanha da Perdição. O poder da Terra Negra cresce, e estamos sendo duramente acossados. Quando o Inimigo voltou, nosso povo foi expulso de Ithilien, nosso belo domínio a Leste do Rio, embora tenhamos mantido lá um ponto de apoio e força de armas. Mas neste mesmo ano, nos dias de junho, uma guerra repentina nos sobreveio de Mordor, e fomos expulsos de vez. Estávamos em menor número, pois Mordor se aliou aos Orientais e aos cruéis Haradrim; mas não foi pelo número que fomos derrotados. Havia ali um poder que nunca sentíramos antes.
“Alguns diziam que era visível, na forma de um grande cavaleiro negro, uma sombra escura sob a lua. Onde quer que ele aparecesse, nossos inimigos ficavam furiosos, enquanto o medo dominava nossos guerreiros mais corajosos, de modo que homens e cavalos cediam e fugiam. Apenas uma parte restante de nossa força no Leste voltou, destruindo a última ponte que ainda resistia entre as ruínas de Osgiliath.
“Eu estava nesse grupo que ocupava a ponte, até que ela foi destruída atrás de nós. Apenas quatro se salvaram nadando: meu irmão, eu, e outros dois. Mas continuamos lutando, mantendo o domínio das praias a Oeste do Anduin; aqueles que se abrigam atrás de nós nos elogiam: elogiam muito mas não ajudam em nada. Atualmente, apenas de Rohan viria algum homem quando pedíssemos socorro.
“Nesta hora maligna, eu vim numa missão, atravessando muitas milhas perigosas, até Elrond: cento e dez dias viajei completamente sozinho. Mas não procuro aliados para a guerra. O poder de Elrond está em sua sabedoria, não nas armas, como se diz. Vim pedir aconselhamento e ajuda para desvendar palavras duras. Pois na véspera do ataque súbito, meu irmão teve um sonho durante um sono agitado; e depois disso tinha frequentemente um sonho semelhante, e uma vez eu também tive.
“Nesse sonho, vi o céu do Leste ficar cinza-escuro, e havia um trovão crescente, mas no Oeste uma luz pálida permanecia, e vindo dela eu escutava uma voz, remota mas clara, gritando:
Procure a espada que foi quebrada.
Em Imladris ela está;
Mais fortes que de Morgul encantos
Conselhos lhe darão lá.
E lá um sinal vai ser revelado
Do fim que está por vir
E a Ruína de Isildur já acorda,
E o Pequeno já vai surgir.
“Dessas palavras, pudemos entender pouca coisa, e falamos com nosso pai, Denethor, Senhor de Minas Tirith, sábio na tradição de Gondor. Ele só disse que Imladris fora, há muito tempo, o nome usado pelos elfos para um vale no extremo Norte, onde Elrond, o Meio-elfo, morava, o maior dos eruditos na tradição. Portanto, meu irmão, vendo o desespero de nossa necessidade, estava ansioso para atender ao que dizia o sonho, e procurar Imladris; mas, já que o caminho era cheio de dúvidas e perigos, encarreguei-me da viagem. Meu pai relutou em dar permissão para minha partida, e muito vaguei por estradas abandonadas, procurando a casa de Elrond, da qual muitos tinham ouvido falar, mas poucos sabiam onde ficava.
— E aqui, na casa de Elrond, mais coisas lhe serão esclarecidas — disse Aragorn, levantando-se. Colocou sua espada sobre a mesa diante de Elrond, e a lâmina ainda estava partida em dois pedaços. — Aqui está a Espada que foi Quebrada! — disse ele.
— E quem é você, e o que tem a ver com Minas Tirith? — perguntou Boromir, olhando surpreso para o rosto magro do guardião e para sua capa surrada.
— Ele é Aragorn, filho de Arathorn — disse Elrond — e descende, através de muitas gerações, de Isildur, filho de Elendil, de Minas lthil. É o chefe dos dúnedain no Norte; poucos restam agora desse povo.
— Então ele pertence a você e não a mim! — gritou Frodo surpreso, levantando-se, como se esperasse que alguém pedisse o Anel imediatamente.
— Ele não pertence a nenhum de nós — disse Aragorn. — mas foi ordenado que você o guardasse por um período.
— Traga o Anel, Frodo! — disse Gandalf solenemente. — A hora chegou. Mostre-o, e então Boromir entenderá o restante do enigma.
Fez-se silêncio e todos voltaram os olhos para Frodo. Ele foi tomado de repente pela vergonha e pelo medo, sentindo uma grande relutância em revelar o Anel, e uma aversão de tocá-lo. Desejou estar bem longe. O Anel brilhou e cintilou, conforme o erguia diante deles, com a mão trêmula.
— Veja a Ruína de Isildur! — disse Elrond.
Os olhos de Boromir reluziram quando olharam para o objeto de ouro.
— O Pequeno! — gaguejou ele. — Então o fim de Minas Tirith finalmente chegou? Mas por que então devíamos procurar uma espada quebrada?
— As palavras não eram o fim de Minas Tirith — disse Aragorn. — Mas o fim e grandes feitos se aproximam realmente. Pois a Espada que foi Quebrada é a Espada de Elendil, que se partiu quando ele caiu por cima dela. Foi guardada por herdeiros, quando todo o resto da herança foi perdido; disseram-nos que seria refeita quando o Anel, a Ruína de Isildur, fosse encontrado. Agora que você viu a espada que procurava, o que dirá? Deseja que a Casa de Elendil retorne à Terra de Gondor?
— Não fui enviado para implorar nenhum favor, mas apenas para procurar o significado de um enigma — respondeu Boromir orgulhosamente. — Mas estamos sendo fortemente pressionados, e a Espada de Elendil seria uma ajuda além de nossas expectativas... se uma coisa dessas pudesse realmente voltar das sombras do passado. — Olhou de novo para Aragorn, cheio de dúvidas.
Frodo sentiu Bilbo se mexer impacientemente ao seu lado. Evidentemente estava zangado por seu amigo. Levantando-se de súbito, ele falou numa explosão:

Nem tudo o que é ouro fulgura,
Nem todo o vagante é vadio;
O velho que é forte perdura,
Raiz funda não sofre o frio.
Das cinzas um fogo há de vir
Das sombras a luz vai jorrar;
A espada há de, nova, luzir,
O sem-coroa há de reinar

— Talvez não muito bom, mas perfeito para o momento – se é que você precisa de algo mais além da palavra de Elrond. Se ela vale uma viagem de cento e dez dias, é melhor escutá-la com mais atenção — sentou-se furioso. — Eu mesmo compus isso — cochichou ele para Frodo. — Para o Dúnadan, há muito tempo, quando me contou coisas sobre sua história pela primeira vez. Quase começo a desejar que minhas aventuras não tivessem terminado, e que pudesse acompanhá-lo quando o dia chegar.
Aragorn sorriu para ele; depois voltou-se outra vez para Boromir.
— De minha parte, perdoo sua dúvida — disse ele. — Sou pouco semelhante às figuras de Elendil e Isildur que estão entalhadas em sua majestade nos salões de Denethor. Sou apenas um herdeiro de Isildur, não Isildur em pessoa. Tive uma vida dura e longa; e as milhas que se estendem entre este lugar e Gondor são uma pequena fração na soma de minhas viagens. Atravessei muitas montanhas e muitos rios, e pisei em muitas planícies, chegando até mesmo às regiões distantes de Rhún e Harad, onde as estrelas são estranhas. Mas minha casa, a meu ver, fica no Norte. Pois aqui os herdeiros de Valandil sempre viveram, numa longa linhagem contínua de pai para filho por muitas gerações. Nossos dias escureceram e diminuímos em número; mas sempre a espada era passada para um novo guardião. E isto direi a você, Boromir, antes de terminar. Somos homens solitários, guardiões das Terras Ermas, caçadores – mas sempre caçamos os servidores do Inimigo; pois estes podem ser encontrados em muitos lugares, e não apenas em Mordor.
“Se Gondor, Boromir, tem sido uma torre robusta, nós tivemos outra função. Existem muitas coisas más que nossas muralhas fortes e espadas brilhantes não aguentam. Você sabe pouco sobre as terras além de suas fronteiras. Paz e liberdade, você diz? O Norte mal saberia o que são essas coisas se não fosse por nós. O medo destruiria a todos. Mas quando os seres escuros vêm das colinas desabitadas, ou se esgueiram por florestas sem sol, fogem de nós. Que estradas qualquer um ousaria pisar, que segurança haveria nos lugares pacíficos, ou nas casas dos homens simples à noite, se os dúnedain estivessem dormindo, ou tivessem todos ido para o túmulo?
“Mesmo assim, recebemos menos agradecimentos que vocês. Os viajantes nos desprezam, e os homens do campo nos dão nomes pejorativos. Sou “Passolargo” para um homem gordo que vive num lugar a apenas um dia de marcha de inimigos que congelariam seu coração, ou deixariam sua pequena cidade em ruínas, se não fosse guardado continuamente. Mesmo assim, não aceitaríamos outro tipo de vida. Se as pessoas estão livres do medo e da preocupação, é porque são simples, e devemos mantê-las assim em segredo. Essa tem sido a tarefa de meu povo, enquanto os anos vão se alongando e o capim vai crescendo.
“Mas agora o mundo está mudando outra vez. Uma nova hora se aproxima. A Ruína de Isildur foi encontrada. A Batalha está chegando. A Espada será reforjada. Irei a Minas Tirith.
— Você diz que a Ruína de Isildur foi encontrada — disse Boromir. — Vi um anel brilhante na mão do Pequeno; mas Isildur morreu antes de esta era do mundo começar. Como os Sábios podem saber que esse anel é o dele? E como ele passou todos esses anos, até ser trazido aqui por um mensageiro tão estranho?
— Isso será contado — disse Elrond.
— Mas ainda não, eu peço, Mestre — disse Bilbo. — O sol já está chegando ao meio-dia, e sinto necessidade de algo para me fortalecer.
— Não tinha nomeado você — disse Elrond. — Mas faço isso agora. Venha! Conte-nos sua história. E se ainda não a transformou em versos, você pode contá-la em palavras simples. Quanto mais rápido for, mais depressa será alimentado.
— Muito bem — disse Bilbo. — Farei como pede. Mas vou contar a história verdadeira, e se alguém aqui já me ouviu contando-a de outra maneira — olhou de lado para Glóin — peço que esqueçam e me perdoem. Naquela época, desejava apenas afirmar que o tesouro pertencia só a mim, e me livrar da pecha de ladrão que me havia sido lançada. Mas talvez eu tenha um entendimento melhor das coisas agora. De qualquer forma, foi isto o que aconteceu.
Para alguns ali, a história de Bilbo era inteiramente nova, e eles ouviam surpresos, enquanto o velho hobbit, na verdade não totalmente contrariado, recontava sua aventura com Gollum, do começo ao fim. Não omitiu uma charada sequer. Teria também feito um relato de sua festa e do desaparecimento do Condado, se lhe fosse permitido, mas Elrond levantou a mão.
— Bem contado, meu amigo — disse ele. — Mas isso é o suficiente por enquanto. Para o momento, basta sabermos que o Anel passou às mãos de Frodo, seu herdeiro. Deixe-o falar agora!
Então, menos disposto que Bilbo, Frodo contou todas as suas façanhas com o Anel, desde o dia em que a guarda lhe fora confiada. Cada passo de sua viagem da Vila dos Hobbits até o Vau do Bruinen foi questionado e ponderado, e tudo o que ele pôde lembrar a respeito dos Cavaleiros Negros foi examinado.
Finalmente, sentou-se de novo.
— Nada mau — disse-lhe Bilbo. — Você teria contado uma boa história, se não ficassem interrompendo a todo momento. Tentei anotar umas coisas, mas vamos ter de repassar toda a história juntos numa outra ocasião, se é que vou escrevê-la. Há capítulos inteiros sobre eventos anteriores à sua chegada aqui!
— É, fiz uma longa história — respondeu Frodo. — Mas ainda me parece que não está completa. Ainda quero saber muita coisa, especialmente sobre Gandalf.
Galdor dos Portos, sentado ao lado, escutou o que diziam.
— Você também fala por mim — disse ele; e voltando-se para Elrond, falou: — Os sábios podem ter bons motivos para considerar que o tesouro do Pequeno é realmente o Grande Anel tão debatido, embora isso pareça improvável para aqueles que sabem menos. Mas não podemos ouvir as provas? E eu também perguntaria o seguinte: E Saruman? Ele é erudito nos estudos sobre os Anéis, e apesar disso não está entre nós. O que diria, se soubesse das coisas que ouvimos?
— As perguntas que faz, Galdor, estão entrelaçadas — disse Elrond. — Não as negligenciei, e elas serão respondidas. Mas essas coisas compete a Gandalf esclarecer, e eu o chamo por último, pois esse é o lugar de honra, e em toda essa questão ele tem sido o chefe.
— Alguns, Galdor — disse Gandalf — pensariam que as notícias de Glóin e a perseguição de Frodo são provas suficientes de que o tesouro do Pequeno é uma coisa de grande valor para o Inimigo. Apesar disso, é apenas um anel. E então? Os Nove estão em poder dos Nazgôl. Os Sete foram levados ou estão destruídos — om isso Glóin se mexeu na cadeira, mas nada falou. — Dos Três nós sabemos. O que então seria este Um, que ele tanto deseja?
“Na verdade, existe um grande lapso de tempo entre o Rio e a Montanha, entre a perda e o achado. Mas a falha no conhecimento dos Sábios foi sanada finalmente. Mas muito devagar. Pois o Inimigo vinha logo atrás, mais próximo até do que eu temia. E é bom que só tenha conhecido a verdade inteira neste último ano; ao que parece, neste verão.
“Alguns aqui poderão recordar que, muitos anos atrás, eu mesmo ousei atravessar as portas do Necromante em Dol Guldur, e explorei em segredo suas práticas, e assim descobri que nossos temores eram fundados: ele não era ninguém menos que o próprio Sauron, nosso antigo Inimigo, finalmente tornando forma e recuperando o poder outra vez. Alguns também poderão lembrar que Saruman tentou nos dissuadir de fazer algo abertamente contra ele, e por muito tempo apenas o vigiamos. Mas finalmente, à medida que as sombras cresciam, Saruman cedeu, e o Conselho reuniu suas forças e expulsou o mal da Floresta das Trevas – e aquele foi exatamente o ano em que o Anel foi encontrado: estranho acaso, se é que foi um acaso. Mas estávamos muito atrasados, como Elrond previra. Sauron também estivera nos vigiando, e se preparava havia muito tempo para nosso golpe, governando Mordor à distância, de Minas Morgul, onde seus Nove servidores estavam morando, até que tudo estivesse pronto. Então ele se rendeu diante de nós, mas apenas fingiu partir em fuga, e logo depois chegou à Torre Escura, e declarou-se abertamente.
“Então, pela última vez, o Conselho se reuniu, pois nesse momento soubemos que ele procurava o Um Anel mais desesperadamente que nunca. Tememos na época que ele soubesse alguma coisa que ainda ignorávamos. Mas Saruman disse que não, e repetiu o que já tinha nos dito antes: que o Anel jamais seria encontrado outra vez na Terra Média. ‘Na pior das hipóteses’, dizia ele, ‘nosso Inimigo sabe que não estamos com o Anel, pois ainda está perdido. Mas acha que o que foi perdido pode ser reencontrado. Nada temam! A esperança que tem vai traí-lo. Então eu não estudei essa questão minuciosamente? O Anel caiu no Grande Rio Anduin; e há muito tempo, enquanto Sauron dormia, foi rolando pelo Rio até o Mar. Deixemo-lo ficar ali até o Fim’.
Gandalf ficou quieto, olhando para o Leste através do alpendre, examinando os picos distantes das Montanhas Sombrias, em cujas grandes raízes o perigo do mundo por tanto tempo se ocultara. Ele suspirou.
— Nesse ponto, falhei — disse ele. — Fui ludibriado pelas palavras de Saruman, o Sábio; deveria ter procurado a verdade antes, e agora nosso perigo seria menor.
— Todos nós falhamos — disse Elrond. — E se não fosse por sua vigilância, talvez a Escuridão já tivesse caído sobre nós. Mas continue!
— Desde o início, meu coração pressentia o que contrariava toda a razão que eu conhecia — disse Gandalf. — E eu desejava saber como essa coisa chegou até Gollum e por quanto tempo estivera em seu poder. Então comecei a procurá-lo, supondo que logo apareceria para procurar seu tesouro. E de fato apareceu, mas escapou e não foi encontrado. E então, infelizmente, deixei o assunto descansar, apenas vigiando e esperando, como fizemos muitas vezes.
“O tempo passou, com muitas apreensões, até que minhas dúvidas despertaram de novo, transformando-se num medo repentino. De onde vinha o anel do hobbit? O que, se minhas dúvidas fossem fundadas, deveríamos fazer com ele? Essas coisas eu tinha de decidir. Mas não falei a ninguém de meus temores, sabendo do perigo de uma menção inoportuna, caso chegasse aos ouvidos errados. Em todas as longas guerras contra a Torre Escura, a traição sempre foi nosso maior inimigo. Isso foi há dezessete anos. Logo soube que espiões de toda sorte, até animais e pássaros, reuniam-se em torno do Condado, e meu medo cresceu. Pedi o auxílio dos dúnedain, que redobraram sua vigilância; abri meu coração para Aragorn, o herdeiro de Isildur.
— E eu — disse Aragorn — achei melhor procurarmos Gollum, embora parecesse muito tarde. E, uma vez que parecia adequado que o herdeiro de Isildur tentasse reparar a falta de seu antepassado, empreendi com Gandalf uma busca longa e infrutífera. Então Gandalf contou que tinham explorado toda a região das Terras Ermas, chegando até mesmo às Montanhas da Sombra e às fronteiras de Mordor.
“Ali escutamos rumores sobre ele, e supusemos que tinha morado por longo tempo lá, nas colinas escuras; mas não o encontramos, e finalmente perdi as esperanças. Então pensei outra vez num teste que poderia dispensar a localização de Gollum. O próprio anel poderia me dizer se era o Um Anel. A lembrança das palavras pronunciadas no Conselho voltou à minha memória: palavras de Saruman, semi-ocultas na ocasião. Agora eu as escutava claramente em meu coração. ‘Os Nove, os Sete e os Três’, dizia ele, ‘todos tinham uma pedra própria. Mas não o Um Anel, que era redondo e sem adornos, como se fosse o menos importante dos anéis; mas quem o fez desenhou nele marcas que os habilidosos, talvez, ainda poderiam ver e ler.’
“Quais eram essas marcas ele não dizia. Quem poderia saber agora? Quem o fez. E Saruman? Embora seu conhecimento pudesse ser muito grande, devia se originar de alguma fonte. Que outra mão, fora a de Sauron, teria segurado esse objeto, antes que fosse perdido? Apenas a mão de Isildur.
“Pensando nisso, abandonei a busca, e fui rapidamente para Gondor. Nos primeiros tempos, os membros de minha ordem eram bem recebidos lá, mas Saruman sempre merecia as honras maiores. Frequentemente ficava ali, como hóspede dos Senhores da Cidade. Não fui tão bem recebido pelo Senhor Denethor dessa vez como antigamente e com má vontade ele permitiu que eu vasculhasse entre os livros e pergaminhos que guardava como relíquias. ‘Se é verdade que você só está procurando registros dos tempos antigos e das origens da Cidade, como diz, vá em frente!’, disse ele, ‘pois, para mim, o que passou foi menos sombrio do que o que está por vir, e essa é minha preocupação. Mas, a não ser que você tenha mais habilidade que o próprio Saruman, que estudou aqui muito tempo, não achará nada que não seja bem conhecido por mim, que sou um mestre nas tradições da Cidade.’ Assim falou Denethor. E mesmo assim, em sua posse há muitos registros que agora apenas alguns conseguem ler, até mesmo entre os mestres nas tradições, pois suas escritas e línguas se tornaram obscuras para os homens que vieram depois. E, Boromir, acho que ainda existe em Minas Tirith um manuscrito que não foi lido por ninguém, a não ser por Saruman e por mim, feito pelo próprio Isildur. Porque Isildur não se retirou imediatamente da guerra de Mordor, como contaram alguns.
— Alguns no Norte, talvez — interrompeu Boromir. — Todos em Gondor sabem que primeiro ele foi para Minas Anor e morou ali por um tempo com o sobrinho, Meneldil, instruindo-o, antes de confiar a ele o governo do Reino do Sul. Nessa época, plantou ali a última muda da Árvore Branca, em memória do irmão.
— Mas nessa época ele também fez esse manuscrito — disse Gandalf. — E isso não é lembrado em Gondor, ao que parece. Pois esse manuscrito se refere ao Anel, e assim Isildur escreveu: “O Grande Anel deve agora se transformar em parte da herança do Reino do Norte; mas registros dele serão deixados em Gondor onde também moram os herdeiros de Elendil, para evitar que venha um tempo em que a memória dessas questões importantes seja obscurecida”. E depois dessas palavras Isildur descreveu o Anel, tal como o encontrou: “Estava quente no primeiro momento em que o peguei, quente como brasa, e minha mão se queimou, de tal modo que duvidei que algum dia pudesse me ver livre da dor causada pela queimadura. Apesar disso, no momento em que escrevo, está frio, e parece que encolheu, embora sem ter perdido a beleza ou a forma . A escrita que há nele, que no início estava visível como uma chama vermelha, já desapareceu, e mal pode ser lida. As letras são de uma caligrafia élfica de Eregion, pois não há em Mordor letras para um trabalho tão sutil; mas a língua me é desconhecida. Suponho que seja uma língua da Terra Negra, uma vez que é desagradável e rústica. Que maldade está aqui impressa eu não sei dizer; traço uma cópia, para evitar que desapareça e nunca mais seja recuperada. Talvez o Anel sinta falta do calor da mão de Sauron, que era negra e mesmo assim queimava como fogo, e assim Gil-galad foi destruído; e talvez, se o ouro for reaquecido, a inscrição fique visível outra vez. Mas, de minha parte, não arriscarei danificar uma coisa dessas: de todos os trabalhos de Sauron, o único belo. É precioso para mim, embora o tenha adquirido à custa de muito sofrimento”.
“Quando li essas palavras, minha busca terminou. Pois a caligrafia da inscrição estava de fato, como Isildur supusera, na língua de Mordor e dos servidores da Torre. E o que dizia já era conhecido. Pois no dia em que Sauron colocou o Um Anel pela primeira vez, Celebrimbor, que havia feito os Três, estava consciente dele, e de longe escutou-o pronunciar essas palavras, e assim seus propósitos maléficos foram revelados. Imediatamente, despedi-me de Denethor, mas no mesmo momento em que me dirigia para o Norte mensagens chegavam até mim vindas de Lórien, dizendo que Aragorn tinha passado por ali, e que tinha encontrado a criatura chamada Gollum. Portanto, fui primeiro encontrá-lo e ouvir sua história. Por quais perigos tinha ele passado sozinho, eu não ousava imaginar.
— Não há necessidade de comentá-los — disse Aragorn. — Se um homem precisar passar à vista do Portão Negro, ou pisar nas flores mortais do Vale Morgul, perigos encontrará. Eu, também, fiquei desesperado no final, e comecei minha viagem de volta para casa. Então, por sorte, finalmente encontrei o que procurava: a marca de pés fofos numa poça lamacenta. Eram pegadas novas e rápidas, conduzindo não a Mordor, mas para longe dali. Ao longo das margens dos Pântanos Mortos as segui, e então o encontrei. Espreitando perto de um brejo estagnado, olhando a água quando a noite escura caía, peguei-o, Gollum. Estava coberto de musgo esverdeado. Receio que nunca gostará de mim, pois me mordeu, e não foi nem um pouco gentil. Nada mais consegui daquela boca além de marcas de dentes. Considerei essa a pior parte de toda a minha viagem, a estrada de volta, vigiando-o dia e noite, forçando-o a andar na minha frente com uma coleira no pescoço, amordaçado, enquanto não fosse domado pela falta de comida e bebida, conduzindo-o sempre para a Floresta das Trevas. Levei-o até lá finalmente, e o entreguei para os elfos, pois tínhamos combinado que isso seria feito; fiquei feliz em me livrar de sua companhia, pois fedia. De minha parte, espero nunca mais ter de olhar para ele outra vez; mas Gandalf chegou e suportou uma longa conversa com ele.
— Sim, longa e cansativa — disse Gandalf — mas não sem resultados. Em primeiro lugar, a história que contou, de como havia perdido o Anel, batia com a que Bilbo acabou de contar abertamente pela primeira vez; mas isso pouco importava, uma vez que já tinha adivinhado. Mas então descobri, primeiro, que o anel de Gollum vinha do Grande Rio perto dos Campos de Lis. E descobri também que ele o tinha possuído por longo tempo. Por muitas vidas de sua reduzida espécie. O poder do anel tinha alongado seus anos de vida muito além da média; mas esse poder é concedido apenas pelos Grandes Anéis.
“Mas se isso ainda não for prova suficiente, Galdor, ainda há o outro teste que mencionei. Nesse mesmo Anel que acabaram de ver exibido, redondo e sem adornos, as letras que Isildur mencionou ainda podem ser lidas, se alguém tiver a força de vontade de colocar o Anel no fogo por uns momentos. Fiz isso e li o seguinte:

Ash nazg dupbatulûk, ash nazg gimbatul,
ash nazg thrakatulûk agh burzum – ishi krimpatul.

A mudança na voz do mago era assombrosa. De repente ficou ameaçadora, poderosa, dura como pedra. Uma sombra pareceu passar sobre o sol alto, e o alpendre ficou escurecido por uns momentos. Todos tremeram, e os elfos tamparam os ouvidos.
— Nunca antes uma voz ousou pronunciar palavras nessa língua em Imladris, Gandalf, o Cinzento — disse Elrond, quando a sombra passou e o grupo pôde respirar outra vez.
— E esperemos que ninguém jamais fale essa língua aqui de novo — respondeu Gandalf. — Não obstante isso, não peço suas desculpas, Mestre Elrond. Pois se essa língua não estiver prestes a ser ouvida em todos os cantos do Oeste, então que todos deixem de lado a dúvida de que esse objeto é realmente o que os Sábios declararam: o tesouro do Inimigo, carregado de toda a sua malícia; e nele está uma grande parte de sua força de antigamente. Vêm dos Anos Negros as palavras que os Ourives de Eregion escutaram, sabendo assim que tinham sido traídos:
Um Anel para a todos governar
Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer.
E na Escuridão aprisioná-los.
“Saibam ainda, meus amigos, que soube de mais coisas conversando com Golllum. Ele relutava em falar e a história que contava era obscura, mas está fora de qualquer dúvida que ele foi até Mordor, e ali tudo o que sabia lhe foi arrancado à força. Desse modo, o Inimigo sabe que o Anel foi encontrado, que ficou muito tempo no Condado; e já que seus servidores o perseguiram quase até nossa porta, logo saberá, e já pode estar sabendo, neste momento em que falo, que o temos aqui.
Todos ficaram em silêncio por um tempo, até que finalmente Boromir falou.
— Ele é uma coisa pequena, você diz, esse Gollum? Pequeno, mas grande na maldade. O que aconteceu com ele? Que destino lhe foi imposto?
— Está preso, mas nada além disso — disse Aragorn. — Já tinha sofrido muito. Não há dúvida de que foi atormentado, e o medo de Sauron está cravado, negro, em seu coração. Mesmo assim, pessoalmente sinto-me feliz em saber que ele está sendo vigiado pelos olhos atentos dos elfos da Floresta das Trevas. Tem uma grande malícia, que lhe dá uma força difícil de se acreditar numa criatura tão magra e maltratada. Ainda poderia operar muitas maldades, se estivesse livre. E não duvido de que obteve permissão para deixar Mordor em alguma missão maligna.
— Infelizmente! — gritou Legolas, e em seu belo rosto élfico via-se uma grande perturbação. — As notícias que fui encarregado de trazer precisam agora ser dadas. Não são boas, mas só aqui percebi quão péssimas elas podem ser para este grupo. Sméagol, que agora é chamado de Gollum, escapou.
— Escapou? — gritou Aragorn. — Essa notícia é realmente péssima. Receio que todos vamos lamentá-la amargamente. Como aconteceu de o povo de Thranduil falhar na confiança nele depositada?
— Não foi por falta de vigilância — disse Legolas. — Mas talvez por demasiada gentileza. E receamos que o prisioneiro tenha recebido ajuda de outros, e que se saiba mais de nossos feitos do que poderíamos desejar. Guardamos essa criatura, dia e noite, a pedido de Gandalf, embora nos cansássemos muito com tal tarefa. Mas Gandalf pediu que ainda tivéssemos esperanças em relação à cura dele, e não tivemos coragem de mantê-lo constantemente em masmorras sob a terra, onde ele poderia de novo alimentar seus pensamentos negros.
— Vocês foram menos gentis comigo — disse Glóin com um brilho nos olhos, conforme se agitavam em sua mente as recordações de sua prisão nas profundezas dos salões do rei élfico.
— Ora vamos! — disse Gandalf — peço que não interrompa, meu bom Glóin. Aquilo foi um engano lamentável, há muito desfeito. Se todas as mágoas que separam os anões dos elfos forem trazidas à tona aqui, é melhor abandonarmos este Conselho.
Glóin se levantou e fez uma reverência. Legolas continuou.
— Nos dias de tempo bom, levávamos Gollurn pela floresta, e havia ali uma árvore alta, distante das outras, na qual gostava de subir. Sempre o deixávamos subir até os galhos mais altos, até que sentisse o vento livre; mas fazíamos guarda no pé da árvore. Um dia, recusou-se a descer, e os guardas não quiseram subir atrás dele: Gollum tinha aprendido o truque de se pendurar nos galhos pelos pés tão bem quanto pelas mãos; então sentaram-se ao lado da árvore até noite alta.
“Foi exatamente naquela noite de verão, apesar de não ter lua nem estrelas, que os orcs nos atacaram de surpresa. Expulsamo-los depois de algum tempo; eram ferozes e estavam em grande número, mas vinham das montanhas e não estavam acostumados às florestas. Quando a batalha terminou, descobrimos que Gollum tinha fugido, e seus guardas foram assassinados ou capturados. Então ficou claro que o ataque tinha sido feito para resgatá-lo, e que ele já sabia de antemão o que estava por acontecer. Como isso foi armado, não podemos saber; mas Gollum é esperto, e os espiões do Inimigo são muitos. As criaturas escuras que tinham sido expulsas no ano da queda do Dragão voltaram em grande número, e a Floresta das Trevas é agora um lugar maligno, exceto onde nosso reinado está sendo mantido.
“Não conseguimos recapturar Gollum. Encontramos suas pegadas entre as de muitos orcs, e elas mergulharam fundo para dentro da Floresta, em direção ao Sul. Mas logo ultrapassaram nossa habilidade, e não ousamos continuar a caçada, pois estávamos chegando muito perto de Dol Guldur, e aquele ainda é um lugar muito mau; não enveredamos por aqueles lados.
— Bem, bem, ele se foi — disse Gandalf — E não temos tempo para procurá-lo outra vez. Que faça o que quiser. Mas pode ser que ainda tenha um papel que nem ele nem Sauron previram. E agora responderei às outras perguntas de Galdor. E Saruman? Que diria ele nesta hora? Essa história preciso contar inteira, pois apenas Elrond a conhece, e resumida, mas ela terá consequências em tudo o que decidirmos. É o último capítulo da História do Anel, até o presente momento.
“No fim de junho eu estava no Condado, mas uma nuvem de ansiedade cobria minha mente, e eu fui até a fronteira Sul da pequena terra; pois tinha pressentimento de algum perigo, ainda oculto, mas que se aproximava. Ali, mensagens chegaram até mim, contando sobre guerra e derrota em Gondor, e quando ouvi sobre a Sombra Negra, senti um frio no coração. Mas nada encontrei, a não ser alguns fugitivos do Sul; mesmo assim tive a impressão de que sentiam um medo que não mencionavam. Fui então em direção ao Leste e ao Norte, e viajei ao longo do Caminho Verde; não muito longe de Bri, encontrei um viajante sentado num barranco à beira da estrada, e seu cavalo pastando atrás dele. Era Radagast, o Castanho, que numa época morou em Rhosgobel, perto das fronteiras da Floresta das Trevas. Ele faz parte de minha ordem, e eu não o via fazia muitos anos.
“‘Gandalf!’, disse ele. ‘Estava procurando você. Mas sou um estranho nestas partes. Tudo o que sabia é que você poderia ser encontrado numa região selvagem, com o nome esquisito de Condado.’ ‘Sua informação estava certa’, disse eu. ‘Mas não fale assim, se encontrar algum habitante de lá. Você está perto da fronteira do Condado agora. E o que quer comigo? Deve ser importante. Você nunca foi um viajante, a não ser por grande necessidade.’ ‘Tenho uma missão urgente’, disse ele. ‘Minha notícia é má.’ Então olhou ao redor, como se as cercas-vivas tivessem ouvidos. ‘Nazgúl’, sussurrou ele. ‘Os Nove estão de novo à solta. Atravessaram o Rio em segredo e estão indo para o Oeste. Tomaram a forma de cavaleiros vestidos de preto.’
“Soube então do que temia sem saber.
“‘O Inimigo deve ter alguma necessidade ou propósito importante’, disse Radagast; ‘mas o que o faz olhar em direção a estas partes distantes e desoladas, não posso adivinhar.’ ‘O que está querendo dizer?’, disse eu. ‘Disseram-me que, aonde quer que cheguem, os Cavaleiros pedem notícias de uma terra chamada Condado.’
“‘O Condado’, disse eu, mas meu coração ficou pesado. Pois mesmo os Sábios podem ter medo de enfrentar os Nove, quando estão reunidos e sob o comando de seu líder mortal. Antigamente, ele foi um grande rei e feiticeiro, e agora emana um pavor mortal. ‘Quem lhe disse isso, e quem o enviou?’, perguntei. ‘Saruman, o Branco’, respondeu Radagast . ‘E me recomendou que dissesse a você que pode ajudá-lo se precisar; mas que você deve procurar sua ajuda imediatamente, ou será tarde demais.’
“E essa mensagem me trouxe esperança. Pois Saruman, o Branco, é o maior de minha ordem. Radagast, claro, é um mago valoroso, um mestre das formas e das mudanças de cores; tem muito conhecimento das ervas e dos animais, e os pássaros em especial são seus amigos. Mas Saruman vem estudando há muito tempo as artes do Inimigo, e desse modo conseguimos muitas vezes antecipar-nos. Foi pelos métodos de Saruman que expulsamos o Inimigo de Dol Guldur. Podia ser que ele tivesse descoberto armas para rechaçar os Nove.
“‘Irei até Saruman’, disse eu. ‘Então deve ir agora’, disse Radagast, ‘pois perdi tempo procurando você, e os dias estão se acabando. Recomendou-me que o encontrasse antes do Solstício de Verão, e esse dia está chegando. Mesmo que você parta daqui, será difícil alcançá-lo antes que os Nove descubram a terra que procuram. Quanto a mim, voltarei imediatamente.’ E com isso montou no cavalo e teria partido naquele instante. ‘Espere um minuto’, disse eu. ‘Vamos precisar de sua ajuda, e da ajuda de todos os seres que possam cooperar. Envie mensagens a todos os animais e pássaros que são seus amigos. Diga-lhes para trazerem notícias de tudo o que se relacione a esse assunto de Saruman e Gandalf. Envie mensagens a Orthanc.’ ‘Farei isso’, disse ele, e partiu como se os Nove estivessem em seu encalço.
“Não pude segui-lo naquele momento e daquele lugar. Já tinha cavalgado muito longe naquele dia, e estava tão cansado quanto meu cavalo, e precisava pensar nas coisas. Passei a noite em Bri, e decidi que não tinha tempo para voltar até o Condado. Nunca cometi um erro tão grande!
“Entretanto, escrevi uma mensagem para Frodo, e confiei-a ao meu amigo, o estalajadeiro, para enviá-la. Parti na manhã do dia seguinte; e finalmente cheguei à moradia de Saruman. Fica no extremo Sul de Isengard, no fim das Montanhas Sombrias, não distante do Desfiladeiro de Rollan. E Boromir dirá a vocês que é um grande vale aberto que fica entre as Montanhas Sombrias e os contrafortes mais setentrionais de Ered Nimrais, as Montanhas Brancas de sua terra. Mas Isengard é um círculo de rochas íngremes que envolvem o vale como uma mura lha, e no meio desse vale há uma torre de pedra chamada Orthanc. Não foi construída por Saruman, mas pelos homens de Númenor há muito tempo; é muito alta e encerra muitos segredos; mesmo assim, não parece ser um trabalho de construtores. Não se pode alcançá-la, a não ser passando pelo círculo de Isengard, e naquele círculo só há um portão.
“Uma noite, bem tarde, cheguei a esse portão, semelhante a um grande arco na muralha de rochas. Estava fortemente guardado. Mas os guardas estavam vigiando, à minha espera, e me disseram que Saruman me aguardava. Passei por baixo do arco, e o portão se fechou silenciosamente atrás de mim; de repente senti medo, embora não conhecesse motivo para isso.
“‘Então, você veio, Gandalf’, disse-me ele num tom grave; mas em seus olhos parecia haver uma luz branca, como se um riso frio estivesse em seu coração. ‘Sim, eu vim’, disse eu. ‘Vim pedir sua ajuda, Saruman, o Branco.’ Esse título pareceu enraivecê-lo.
“‘É mesmo, Gandalf, o Cinzento?’, zombou ele. ‘Ajuda? É raro se ouvir que Gandalf, o Cinzento, pediu ajuda a alguém, uma pessoa tão inteligente e sábia, vagando pelas terras e se intrometendo em todas as coisas, quer lhe digam respeito ou não.’ Olhei para ele, surpreso. ‘Mas se não estou enganado’, disse eu, ‘estão acontecendo coisas que irão requerer a união de todas as nossas forças.’ ‘Pode ser’, disse ele, ‘mas esse pensamento lhe ocorreu tarde demais. Pergunto-me por quanto tempo escondeu de mim, o chefe do Conselho, um assunto da maior importância. O que o traz aqui agora, vindo de seu ponto de espreita no Condado?’ ‘Os Nove avançaram de novo’, respondi. ‘Atravessaram o Rio. Assim me disse Radagast.’ ‘Radagast, o Castanho!’, riu Saruman, não mais escondendo o desprezo que sentia. ‘Radagast, o Domador de Pássaros! Radagast, o Simplório! Radagast, o Tolo! Mas pelo menos teve a capacidade de desempenhar a função que lhe designei. Você veio, e esse foi o propósito de minha mensagem. E aqui você permanecerá, Gandalf, o Cinzento, para descansar das viagens. Pois sou Saruman, o Sábio, Saruman, o Fazedor de Anéis, Saruman de Muitas Cores!’ Olhei então e vi que as roupas que vestia, que tinham parecido brancas, não eram dessa cor, mas de todas as cores, e se ele se mexia, mudavam de tonalidade e brilhavam, de modo que os olhos ficavam confusos.
“‘Eu gostava mais do branco’, disse eu. ‘Branco!’, zombou ele. ‘Serve para começar. O pano branco pode ser tingido. Pode-se escrever sobre a página em branco; a luz branca pode ser decomposta.’ ‘“E nesse caso deixa de ser branca’, disse eu. ‘E aquele que quebra uma coisa para descobrir o que ela é deixou o caminho da sabedoria.’ ‘Não precisa falar comigo do modo como se dirige aos tolos que tem por amigos’, disse ele. ‘Não o trouxe até aqui para receber instruções suas, mas para lhe dar uma escolha.’ Pôs-se de pé e então começou a declamar, como se estivesse fazendo um discurso longamente ensaiado. ‘Os Dias Antigos se foram. Os Dias Médios estão passando. Os Dias Mais Jovens estão começando. A época dos elfos se acabou, mas nosso tempo está chegando: o mundo dos homens, que devemos governar. Mas precisamos de poder, poder para ordenar todas as coisas como queremos, para o bem que apenas os Sábios podem enxergar. E ouça bem, Gandalf, meu velho amigo e ajudante!’, disse ele, vindo em minha direção e falando agora com uma voz mais suave. ‘Eu disse nós, pois poderá ser nós, se quiser se unir a mim. Um novo Poder se levanta. Contra ele, as velhas alianças e políticas não nos ajudarão em nada. Não há mais esperança nos elfos ou na agonizante Númenor. Esta então é uma escolha diante de você, diante de nós. Podemos nos unir a esse Poder. Seria uma sábia decisão, Gandalf. Existe esperança por esse caminho. A vitória dele se aproxima, e haverá grandes recompensas para aqueles que o ajudarem. Enquanto o Poder crescer, os que se mostrarem seus amigos também crescerão; e os Sábios, como você e eu, poderão, com paciência, vir finalmente a governar seus rumos, e a controlá-lo. Podemos esperar nossa hora, podemos guardar o que pensamos em nossos corações, talvez deplorando as maldades feitas incidentalmente, mas aprovando o propósito final e mais alto: Conhecimento, Liderança, Ordem; todas as coisas que até agora lutamos em vão para conseguir, mais atrapalhados que ajudados por nossos amigos fracos e inúteis. Não precisaria haver, e não haveria, qualquer mudança em nossos propósitos, só em nossos meios.’ ‘Saruman’, disse eu. ‘Já escutei discursos desse tipo antes, mas apenas das bocas dos emissários enviados de Mordor para enganar os ignorantes. Não posso crer que tenha me trazido de tão longe só para cansar meus ouvidos.’
“Lançou-me um olhar oblíquo, e parou um pouco, pensando. ‘Bem, vejo que este caminho sábio não funciona no seu caso’, disse ele. ‘Ainda não? Não se uma maneira melhor puder ser criada?’ Aproximou-se e colocou a mão longa sobre meu braço. ‘E por que não, Gandalf?’, sussurrou ele. ‘Por que não? O Anel Governante? Se pudéssemos dominá-lo, então o Poder passaria para nós. Foi por isso, na verdade, que o trouxe até aqui. Pois tenho muitos olhos trabalhando para mim, e acredito que você sabe agora onde esse objeto precioso está. Não é verdade? Ou então, por que os Nove querem saber sobre o Condado, e qual é o interesse que você tem lá?’ E enquanto dizia isso, um desejo ardente que ele não podia ocultar brilhava em seus olhos. ‘Saruman’, disse eu, afastando-me dele, ‘só uma mão de cada vez pode governar o Anel, e você sabe disso muito bem; então não se preocupe em dizer nós! Mas eu não o daria a você, nunca! Não daria nem notícias dele, agora que sei o que se passa na sua cabeça. Você foi chefe do Conselho, mas desmascarou a si mesmo finalmente. Bem, as opções são, ao que parece, submeter-me a Sauron ou a você. Não escolho nenhuma das duas. Não tem outras para oferecer?’ Agora ele estava frio e perigoso. ‘Sim’, disse ele. ‘Não esperava que demonstrasse sabedoria, mesmo para sua própria vantagem; mas dei-lhe a chance de me ajudar por bem, e de se poupar de muitos problemas e sofrimentos. A terceira opção é ficar aqui, até o fim.’ ‘Até o fim?’ ‘Até que me revele onde o Um Anel pode ser encontrado. Posso procurar meios de persuadi-lo. Ou até que seja encontrado à sua revelia, e o Governante possa se voltar para questões mais leves: encontrar, vamos dizer, uma recompensa adequada para a falta de colaboração e a insolência de Gandalf, o Cinzento.’ ‘Essa pode acabar não sendo uma das questões mais leves’, disse eu. Ele riu de mim, pois minhas palavras eram vazias, e ele sabia disso.
“Levaram-me e me colocaram no pináculo de Orthanc, no lugar onde Saruman costumava olhar as estrelas. Não há por onde descer, a não ser por uma escada estreita de muitos milhares de degraus, e o vale lá embaixo parece muito distante. Olhei para ele e vi que, embora já tivesse sido verde e belo, estava agora cheio de poços e forjas. Lobos e orcs estavam alojados em Isengard, pois Saruman estava reunindo uma grande força por sua própria conta, rivalizando com Sauron, e não ainda aos serviços dele. Sobre todas as suas construções, uma fumaça escura pairava e se adensava em torno das paredes de Orthanc. Fiquei sozinho, numa ilha em meio as nuvens; não tinha chance de escapar, e meus dias foram amargos. O frio me atravessava os ossos, e eu só tinha um pequeno espaço para andar de um lado para o outro, pensando na chegada dos Cavaleiros ao Norte.
“De que os Nove tinham de fato se levantado, eu tinha certeza, mesmo sem as palavras de Saruman, que poderiam ser mentirosas. Muito antes de chegar a Isengard eu tinha escutado notícias que não poderiam ser falsas. O medo pelos meus amigos do Condado era constante em meu coração; mas eu ainda tinha alguma esperança. Tinha esperança de que Frodo tivesse partido imediatamente, como minha carta pedia, e que tivesse chegado a Valfenda antes que a perseguição fatal começasse. E tanto meu medo quanto minha esperança acabaram se mostrando infundados. Pois minha esperança se fundava num homem gordo de Bri, e meu medo na esperteza de Sauron. Mas homens gordos que vendem cerveja têm muitos pedidos para atender, e o poder de Sauron ainda é menor do que o medo nos faz crer. Porém, no círculo de Isengard, preso e solitário, seria difícil pensar que os caçadores, diante dos quais todos fugiram ou caíram, falhariam no distante Condado.
— Eu vi você! — gritou Frodo. — Estava andando de um lado para o outro. A lua brilhava em seu cabelo.
Gandalf parou atônito, e olhou para ele.
— Foi apenas um sonho — disse Frodo. — Mas que de repente volta à minha mente. Tinha me esquecido. Veio há algum tempo; depois que parti do Condado, eu acho.
— Então demorou a chegar — disse Gandalf. — Como você vai ver. Eu estava numa situação péssima. E os que me conhecem concordarão que raramente fiquei numa situação de tanta necessidade, e que não suporto bem um infortúnio desses. Gandalf, o Cinzento, preso como uma mosca na teia traiçoeira de uma aranha! Mas mesmo as aranhas mais caprichosas podem deixar um fio frouxo. Primeiro pensei, como Saruman sem dúvida pretendia, que Radagast também fosse um traidor. Mas não tinha percebido nada de errado em sua voz ou em seus olhos quando nos encontramos. Se tivesse, jamais teria ido a Isengard, ou teria sido mais cauteloso. Assim Saruman supunha, e tinha escondido seus pensamentos e enganado o mensageiro. Teria sido inútil, de qualquer forma, tentar convencer o honesto Radagast a se aliar a um projeto de maldade e traição. Procurou-me de boa-fé, e assim me convenceu.
“Essa foi a ruína do plano de Saruman. Pois Radagast não via motivos para não fazer o que eu pedira, e cavalgou até a Floresta das Trevas, onde tinha muitos amigos antigos. E as Águias das Montanhas se espalharam, e viram muitas coisas: o ajuntamento dos lobos e os orcs se agrupando; os Nove Cavaleiros indo de cá para lá nos muitos lugares; também escutaram notícias sobre a fuga de Gollum. E enviaram um mensageiro para me trazer as novas.
“Foi assim que, quando o verão terminava, veio uma noite enluarada, e Gwaihir, o Senhor do Vento, a mais rápida entre as Grandes Águias, chegou inesperadamente a Orthanc, encontrando-me no pináculo. Então falei com ele, que me carregou embora, antes que Saruman soubesse. Eu já estava longe de Isengard, quando os lobos e os orcs saíram pelo portão à minha procura.
“‘Até onde pode me levar?’, perguntei a Gwaihir. ‘Por muitas milhas’, disse ele, ‘mas não até o fim do mundo. Fui enviado para transportar notícias, não fardos.’ ‘Então vou precisar de um cavalo quando pousarmos’, disse eu. ‘E um cavalo extraordinariamente rápido, pois nunca precisei tanto da velocidade antes.’ ‘Se é assim, vou levá-lo a Edoras, onde o Senhor de Rohan fica em seus palácios’, disse ele, ‘pois esse lugar não fica longe daqui.’ E fiquei contente, pois em Rohan, a Terra dos Cavaleiros, os Roffirrim, Senhores dos Cavalos, moram, e não há cavalos como aqueles que são criados no grande vale entre as Montanhas Sombrias e as Brancas. ‘Acha que ainda se pode confiar nos Homens de Rohan?’, perguntei a Gwaihir, pois a traição de Saruman abalara minha fé. ‘Eles pagam um tributo em cavalos’, respondeu ele, ‘e enviam muitos a Mordor anualmente; pelo menos é o que se diz; mas não estão submetidos àquele jugo. Mas se Saruman se tornou mau, como me diz, então a desgraça deles não pode ser postergada por muito tempo.’
“Deixou-me na terra de Rohan antes do amanhecer; e agora me alonguei demais na minha história. O resto será mais breve. Em Rohan, já encontrei o mal em ação: as mentiras de Saruman; o rei daquela região não deu ouvidos às minhas advertências. Disse-me que pegasse um cavalo e fosse embora, e escolhi um bem ao meu gosto, mas nada ao gosto dele. Peguei o melhor cavalo que havia, e nunca vi outro igual.
— Então deve ser um animal realmente nobre — disse Aragom. — E me entristece, muito mais que outras notícias que possam parecer piores, saber que Sauron arrecada tal tributo. Não era assim quando estive por lá.
— Nem é agora, posso jurar — disse Boromir. — Essa é uma mentira que vem do Inimigo. Conheço os homens de Rohan, verdadeiros e destemidos, nossos aliados, que ainda moram nas terras que ofertamos a eles há muito tempo.
— A sombra de Mordor alcança terras distantes — respondeu Aragorn. — Saruman foi subjugado por ela. Rohan está cercada. Quem sabe o que você poderá encontrar lá, se algum dia voltar?
— Pelo menos, isso não — disse Boromir. — Que compram as vidas com cavalos. Aquele povo ama seus animais quase como a seus familiares. E não sem razão, pois os cavalos da Terra dos Cavaleiros vêm dos campos do Norte, distantes da Sombra, e sua raça, como a de seus donos, descende dos dias livres de antigamente.
— Isso é verdade! — disse Gandalf — E há um entre eles que poderia ter nascido na aurora do mundo. Os cavalos dos Nove não podem disputar com ele; incansável, rápido como o vento. Chamavam-no de Scadufax. Durante o dia, seus pelos brilham como prata, e de noite ficam como sombra, e ele passa sem ser visto. Cavalga levemente! Nunca antes havia sido montado por qualquer homem, mas peguei-o e o domei, e tão rápido me levou, que cheguei ao Condado quando Frodo estava nas Colinas dos Túmulos, embora eu tenha partido de Rohan apenas quando ele deixava o Condado.
“Mas o medo crescia em mim à medida que avançava com o cavalo. Logo que cheguei ao Norte, ouvi notícias dos Cavaleiros, e, embora me aproximasse deles dia após dia, estavam sempre na minha frente. Soube que tinham dividido suas forças: alguns permaneciam na fronteira Leste, não muito distante do Caminho Verde, e alguns invadiram o Condado partindo do Sul. Cheguei à Vila dos Hobbits e Frodo tinha partido; mas conversei com o velho Gamgi. Muitas palavras, e poucas que me interessavam. Ele tinha muito a dizer sobre os defeitos dos novos proprietários de Bolsão. ‘Não posso suportar mudanças’, dizia ele, ‘não na minha idade, muito menos mudanças para pior.’ Mudanças para pior, repetia ele muitas vezes. ‘Pior é uma palavra ruim’, disse-lhe eu. ‘E espero que não viva para ver o que é pior.’ Mas em meio a toda a conversa, descobri finalmente que Frodo tinha deixado a Vila dos Hobbits menos de uma semana antes, e que um cavaleiro negro tinha vindo até a Colina na mesma noite. Então parti apavorado. Cheguei à Terra dos Buques e encontrei o lugar em tumulto, as pessoas agitadas como formigas que tiveram seu formigueiro remexido por uma bengala. Fui à casa em Cricôncavo e a encontrei aberta e vazia. Mas na entrada havia uma capa que pertencera a Frodo. Então, por uns momentos, perdi as esperanças, e não esperei para saber mais coisas, ou teria sido consolado. Cavalguei seguindo a trilha dos Cavaleiros. Era difícil fazê-lo, pois as pegadas iam por muitos caminhos, e fiquei perdido. Mas me pareceu que um ou dois tinham ido na direção de Bri; e por ali fui, pois pensava em palavras que poderiam ser ditas ao estalajadeiro.
“‘Chamam-no Carrapicho’, pensava eu. ‘Se essa demora foi culpa dele, vou espetá-lo com todos os carrapichos do mundo. Vou assar o velho idiota em fogo brando.’ Ele não esperava menos, e quando viu meu rosto caiu duro, e começou a derreter ali mesmo.
— Que fez com ele? — perguntou Frodo alarmado. — Foi muito gentil conosco, e fez tudo o que pôde.
Gandalf riu.
— Não tenha medo! — disse ele. — Não mordi, e lati muito pouco. Fiquei tão contente com as notícias que me deu quando parou de tremer, que abracei o velho camarada. Como isso aconteceu, não pude adivinhar naquela hora, mas soube que você estivera em Bri na noite anterior, e tinha partido naquela manhã com Passolargo. ‘Passolargo!’, gritei de alegria. ‘Sim, senhor. Receio que sim, senhor’, disse Carrapicho, não me compreendendo. ‘Ele os abordou, apesar de tudo o que fiz, e foram todos juntos. Comportaram-se de modo muito estranho durante todo o tempo em que estiveram aqui: teimosos, pode-se dizer.’ ‘Idiota! Tolo! Três vezes valoroso e querido Cevado!’, disse eu. ‘Esta é a melhor notícia que ouço desde o solstício de verão: vale pelo menos uma moeda de ouro. Que sua cerveja fique sob um encantamento de extraordinária qualidade por sete anos!’, disse eu. ‘Agora posso ter uma noite de descanso, a primeira desde já me esqueci quando.’
“Então passei ali a noite, pensando muito no que teria acontecido aos Cavaleiros; pois ali em Bri só havia notícia de dois deles, ao que parecia. Mas durante a noite ouvimos mais. Pelo menos cinco vieram do Oeste; derrubaram os portões e passaram por Bri como um vento avassalador; e o povo de Bri ainda está tremendo, esperando o fim do mundo. Levantei-me antes de amanhecer e fui atrás deles.
“Não tenho certeza, mas me parece óbvio que foi isto que aconteceu: o Capitão deles permaneceu em segredo, ao Sul de Bri, enquanto dois avançaram através da aldeia, e outros quatro invadiram o Condado. Mas quando estes não tiveram êxito em Bri e em Cricôncavo, voltaram para encontrar o Capitão e lhe dar notícias, deixando assim a Estrada livre por um período, a não ser pela presença dos espiões. O Capitão enviou alguns em direção ao Leste, atravessando diretamente o campo, e ele próprio, juntamente com o resto, cavalgou ao longo da Estrada cheio de ira.
“Galopei até o Topo do Vento como um raio, e cheguei antes do pôr do sol do meu segundo dia de viagem depois de Bri – e eles estavam ali, na minha frente. Afastaram-se de mim, pois sentiram meu ódio crescer, e não ousaram enfrentá-lo à luz do dia. Mas se aproximaram de noite, e fui acuado no topo da colina, no velho círculo de Amon Súl. Mas foi difícil me enfrentar: tamanhas luzes e chamas não foram vistas no Topo do Vento desde os faróis de guerra de antigamente.
“Com o nascer do dia, escapei e fugi para o Norte. Não podia ter esperanças de fazer mais nada. Era impossível encontrar você, Frodo, naquele lugar desolado, e teria sido tolice tentar com todos os Nove em meus calcanhares. Então tive de confiar em Aragorn. Esperava despistar alguns deles, e ainda chegar a Valfenda na frente de vocês e enviar ajuda. Quatro Cavaleiros realmente me seguiram, mas deram as costas depois de um tempo, dirigindo-se para o Vau, ao que parece. Isso ajudou um pouco, pois havia apenas cinco, e não nove, quando o acampamento foi atacado.
“Finalmente, cheguei aqui por uma estrada longa e difícil, subindo o Fontegris e atravessando a Charneca Etten, e depois descendo do Norte. Levou quase catorze dias do Topo do Vento até aqui, pois não pude ir a cavalo entre as rochas e os outeiros dos trolls, e Scadufax se foi. Enviei-o de volta ao dono, mas uma grande amizade nasceu entre nós, e se precisar ele virá ao meu chamado. Mas foi assim que cheguei a Valfenda só três dias antes do Anel, quando notícias dos perigos que corria já tinham chegado aqui – por sinal verdadeiras.
“E este, Frodo, é o fim de meu relato. Que Elrond e os outros desculpem o tempo que tomei. Mas nada assim tinha acontecido antes, de Gandalf faltar a um compromisso e não chegar no momento prometido. Acho que o Portador do Anel merecia um relato de um acontecimento tão estranho.
“Bem, agora a História foi contada, do início ao fim. Aqui estamos todos, e aqui está o Anel, mas ainda não chegamos nem perto de nosso propósito. Que faremos com ele?
Fez-se silêncio. Finalmente, Elrond tomou de novo a palavra.
— Essa notícia sobre Saruman é muito triste — disse ele. — Confiávamos nele, e sempre demos atenção especial aos seus conselhos. É perigoso aprofundar-se demais nas artes do Inimigo, para o bem ou para o mal. Mas quedas e traições desse tipo, infelizmente, já ocorreram antes. Das histórias que foram contadas aqui hoje, a de Frodo foi a mais estranha para mim. Conheci alguns hobbits além de Bilbo aqui, e me parece que talvez ele não seja tão solitário e singular como eu tinha pensado. O mundo mudou muito desde que estive pela última vez nas estradas que conduzem ao Oeste.
“Conhecemos as Criaturas Tumulares por muitos nomes; e a respeito da Floresta Velha muitas histórias foram contadas: tudo o que resta agora é apenas um remanescente da sua borda setentrional. Houve um tempo em que um esquilo podia ir, de árvore em árvore, da região que agora é o Condado até a Terra Parda, a Oeste de Isengard. Viajei por aquelas terras uma vez, e conheci muitas coisas estranhas e selvagens. Mas tinha me esquecido de Bombadil, se é que esse é o mesmo que caminhava nas florestas e colinas há muito tempo, e mesmo naquela época ele era mais velho que os velhos. Nesse tempo, tinha outro nome. Chamavam-no de Iarwain Ben-adar, o mais antigo e sem pai. Mas outros nomes lhe foram dados por vários povos: Forn pelos anões, Orald pelos homens do Norte, e outros nomes além desses. É uma criatura estranha, mas talvez devesse tê-lo chamado para o Conselho.
— Não teria vindo — disse Gandalf.
— Não poderíamos, mesmo assim, enviar mensagens a ele e pedir sua ajuda? — perguntou Erestor. — Parece que tem poder até sobre o Anel.
— Não, eu não colocaria as coisas dessa forma — disse Gandalf — É melhor dizer que o Anel não tem poder sobre ele. Ele é seu próprio senhor. Mas não pode alterar o próprio Anel, nem desfazer o poder deste sobre os outros. E agora se retirou para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxergá-los, talvez esperando uma mudança dos dias, e não sai dali.
— Mas, dentro desses limites, nada parece afetá-lo — disse Erestor. — Ele não poderia pegar o Anel e guardá-lo ali, mantendo-o para sempre inofensivo?
— Não — disse Gandalf. — Não estaria disposto a isso. Poderia fazê-lo, se todos os povos livres do mundo lhe pedissem, mas não entenderia a necessidade. E se recebesse o Anel, logo o esqueceria, ou mais provavelmente iria jogá-lo fora. Essas coisas não têm lugar em sua mente. Seria um guardião arriscado, e isso já é resposta suficiente.
— Mas, de qualquer forma — disse Glorfindel — enviar-lhe o Anel seria apenas postergar o dia do mal. Ele está distante. Não poderíamos levar-lhe o Anel sem que isso fosse objeto de suspeita ou observação de algum espião. E, mesmo que pudéssemos, mais cedo ou mais tarde o Senhor dos Anéis saberia do esconderijo, e avançaria com todo o seu poder naquela direção. Poderia esse poder ser desafiado por Bombadil sozinho? Acho que não. Acho que, no fim, se todo o resto for conquistado, Bombadil sucumbirá, vindo a ser o último, da mesma forma como foi o Primeiro; e então a Noite virá.
— Sei pouco sobre Iarwain além do nome — disse Galdor. — Mas acho que Glorfindel está certo. O poder para desafiar o Inimigo não está nele, a não ser que esteja na própria terra. E, mesmo assim, podemos ver que Sauron tem o poder de torturar e destruir as próprias colinas. O poder que ainda resta está conosco, aqui em Imladris, ou com Círdan nos Portos, ou em Lórien. Mas será que eles têm a força; será que nós aqui temos a força para resistir ao Inimigo, à última investida de Sauron, quando todo o resto estiver destruído?
— Eu não tenho a força — disse Elrond. — Nem eles.
— Então, se não se pode evitar que ele se apodere do Anel, nem pela força — disse Glorfindel — restam apenas duas coisas a fazer: enviá-lo por sobre o Mar, ou destruí-lo.
— Mas Gandalf nos revelou que não se pode destruí-lo com nenhum poder que possuamos — disse Elrond. — E aqueles que moram além do Mar não o receberiam: para o bem ou para o mal, o Anel pertence à Terra Média; nós, que ainda moramos aqui, é que devemos lidar com ele.
— Então — disse Glorfindel — vamos jogá-lo nas profundezas, e assim, transformar as mentiras de Saruman em verdades. Pois agora está claro que, mesmo quando ele ainda fazia parte do Conselho, seus pés trilhavam um caminho tortuoso. Sabia que o Anel não estava perdido para sempre, mas queria que pensássemos assim, pois começou a desejá-lo para si. Mas muitas vezes a verdade se esconde nas mentiras: no Mar, o Anel estaria a salvo.
— Não para sempre — disse Gandalf. — Existem muitos seres nas águas profundas, e os mares e as terras podem se alterar. Não é nossa função aqui fazer planos que só durem uma estação, ou algumas vidas dos homens, ou uma era passageira do mundo. Devemos buscar um fim definitivo para essa ameaça, mesmo que não tenhamos esperança de alcançar tal objetivo.
— E essa esperança não poderemos encontrar nas estradas que vão para o Mar — disse Galdor. — Se o retorno a Iarwain foi considerado perigoso demais, então a fuga para o Mar está agora repleta dos perigos mais graves. Meu coração me diz que Sauron vai esperar que tomemos o caminho do Oeste, quando souber o que aconteceu. Logo saberá. Os Nove realmente estão sem cavalos, mas isso é apenas momentâneo, até que encontrem novos cavalos, ainda mais velozes. Apenas o poder enfraquecido de Gondor está entre ele e uma força em marcha ao longo da costa, dirigindo-se para o Norte; se ele vier e atacar as Torres Brancas e os Portos, depois disso os elfos não terão escapatória das sombras que se estendem sobre a Terra Média.
— Mas essa marcha vai ser atrasada por um bom tempo — disse Boromir. — Você disse que Gondor está perdendo as forças. Mas Gondor ainda está de pé, e mesmo o fim de sua força ainda é muito forte.
— Então — disse Erestor — só há dois caminhos, como já declarou Glorfindel: esconder o Anel para sempre, ou desfazê-lo. Mas ambas as coisas estão além de nosso poder. Quem nos poderia desvendar esse enigma?
— Ninguém aqui pode — disse Elrond, com uma voz grave. — Pelo menos, ninguém pode predizer o que virá a acontecer, se tomarmos esta ou aquela estrada. A estrada em direção ao Oeste parece mais fácil. Portanto, deve ser descartada. Será vigiada. Os elfos fugiram por ali muitas vezes. Agora, no mínimo, devemos tomar uma estrada difícil, uma estrada imprevista. Ali está nossa esperança, se é que chega a ser uma esperança. Caminhar em direção ao perigo – para Mordor. Precisamos enviar o Anel para o Fogo.
Novamente se fez silêncio. Frodo, mesmo naquela bela casa, que dava para um vale iluminado pelo sol, cheio do ruído de águas límpidas, sentia uma escuridão mortal tomar-lhe o coração. Boromir se mexeu na cadeira, e Frodo olhou para ele. Estava mexendo em sua grande corneta com os dedos, de cenho franzido. Finalmente falou.
— Não entendo tudo isso — disse ele. — Saruman é um traidor, mas será que não teve um lance de sabedoria? Por que vocês só falam em esconder ou destruir? Por que não considerar que o Grande Anel chegou às nossas mãos para nos servir exatamente nesta hora de necessidade? Controlando-o, os Senhores Livres dos Livres podem certamente derrotar o Inimigo. Considero que isso é o que ele mais teme. Os homens de Gondor são valorosos, e nunca vão se submeter; mas podem ser derrotados. O valor precisa, em primeiro lugar, de força, e depois de uma arma. Deixem que o Anel seja nossa arma, se tem tanto poder como dizem. Vamos tomá-lo e avançar para a vitória!
— Infelizmente não — disse Elrond. — Não podemos usar o Anel Governante. Disso sabemos muito bem. Ele pertence a Sauron e foi feito exclusivamente por ele, e é totalmente maligno. A força que tem, Boromir, é grande demais para qualquer um controlar por sua própria vontade, com exceção apenas daqueles que já têm um grande poder próprio. Mas, para estes, o Anel representa um perigo ainda mais fatal. Apenas desejá-lo já corrompe o coração. Considere Saruman. Se algum dos Sábios derrotasse com esse Anel o Senhor de Mordor, usando as próprias artes, então se colocaria no trono de Sauron, e um outro Senhor do Escuro surgiria. E esta é outra razão pela qual o Anel deve ser destruído: enquanto permanecer no mundo, representará um perigo mesmo para os Sábios. Pois nada é mau no início. Até mesmo Sauron não era. Tenho medo de tomar o Anel para escondê-lo. E não vou tomá-lo para fazer uso dele.
— Nem eu — disse Gandalf.
Boromir olhou para eles com dúvidas, mas abaixou a cabeça.
— Que assim seja! — disse ele. — Então, em Gondor, teremos de confiar nas armas que temos. E no mínimo, enquanto os sábios guardam o Anel, continuaremos lutando. Talvez a Espada-que-foi-Quebrada possa lutar contra a maré – se a mão que a empunha não tiver obtido apenas uma herança, mas a fibra dos Reis dos Homens.
— Quem poderá dizer? — disse Aragorn. — Mas vamos testá-la um dia.
— Que o dia não demore muito — disse Boromir. — Pois, embora eu não esteja pedindo ajuda, precisamos dela. Seria um consolo saber que outros também lutaram com todos os meios que possuem.
— Então sinta-se consolado — disse Elrond. — Pois existem outros poderes e reinos que não conhece, ocultos de seu conhecimento. O Grande Rio Andum passa por muitos lugares, antes de chegar até Argonath e os Portões de Gondor.
— Mesmo assim, seria melhor para todos — disse Glóin, o anão — se todas essas forças fossem reunidas, e os poderes de cada um fossem usados em aliança. Talvez haja outros anéis, menos traiçoeiros, que possam ser usados em nossa necessidade. Os Sete foram perdidos por nós – se Balin não encontrou o Anel de Thrór, que era o último; nada se sabe dele desde que Thrór sucumbiu em Moria. Na verdade, posso agora revelar que tinha uma certa esperança de encontrar aquele anel que Balin foi procurar.
— Balin não vai achar anel nenhum em Moria — disse Gandalf — Thrór o deu a Thráin, seu filho, mas Thráin não o deu a Thorin. Entregou-o mediante tortura nos calabouços de Dol Guldur. Cheguei tarde demais.
— Que infelicidade! — disse Glóin. — Quando chegará o dia de nossa vingança? Mas ainda há os Três. Onde estão os Três Anéis dos elfos? Anéis muito poderosos, pelo que se diz. Os Senhores Élficos não os guardam? Mas esses também foram feitos pelo Senhor do Escuro há muitos anos. Seriam inúteis? Vejo Senhores Élficos aqui. Eles não vão se pronunciar?
Os elfos não responderam.
— Você não ouviu o que eu disse, Glóin? — Disse Elrond. — Os Três não foram feitos por Sauron, que nunca sequer os tocou. Mas sobre eles não se permite falar. Não são inúteis. Mas não foram feitos para serem usados como armas de guerra ou conquista: não é esse o poder que têm. Aqueles que os fizeram não desejavam força, ou dominação, ou acúmulo de riquezas; mas entendimento, ações e curas, para preservar todas as coisas imaculadas. Essas coisas os elfos da Terra Média ganharam em certa medida, mas com sofrimento, Mas tudo o que foi realizado por aqueles que usam os Três será desfeito, e suas mentes e corações serão revelados a Sauron, se este recuperar o Um Anel. Seria melhor que os Três nunca tivessem existido. Este foi o propósito dele.
— Mas então o que aconteceria, se o Anel Governante fosse destruído, como desejamos? — perguntou Glóin.
— Não sabemos ao certo — respondeu Elrond com tristeza. — Alguns têm esperança de que os Três, jamais tocados por Sauron, seriam então libertados, e seus governantes poderiam então curar as feridas do mundo, criadas por ele. Mas pode ser que quando o Um Anel for destruído, os Três percam sua força, e muitas coisas belas desapareçam e sejam esquecidas. É nisso que acredito.
— Mesmo assim, todos os elfos estão dispostos a arriscar essa possibilidade — disse Glorfindel — se através dela o poder de Sauron puder ser desfeito, e o terror de seu domínio puder ser banido para sempre.
— Então voltamos novamente à destruição do Anel — disse Erestor. — E mesmo assim, ainda estamos onde começamos. Que força possuímos para encontrar o Fogo no qual foi feito? Esse é o caminho do desespero. Da tolice, eu diria, se a longa sabedoria de Elrond não me proibisse.
— Desespero, ou tolice? — disse Gandalf — Desespero não, pois o desespero é para aqueles que enxergam o fim como fato consumado. Não, não. É sábio reconhecer a necessidade, quando todas as outras soluções já foram ponderadas, embora possa parecer tolice para aqueles que têm falsas esperanças. Bem, que a tolice seja nosso disfarce, um véu diante dos olhos do Inimigo! Pois ele é muito sábio, e pondera todas as coisas com exatidão. Nas balanças de sua malícia. Mas a única medida que conhece é o desejo, desejo de poder; e assim julga que são todos os corações. Seu coração não cogita a possibilidade de qualquer um recusá-lo; de que, tendo o Anel em mãos, vamos procurar destruí-lo. Se tentarmos fazer isso, vamos despistá-lo.
— Pelo menos por um tempo — disse Elrond. — A estrada deve ser percorrida, mas será muito difícil. E nem a força nem a sabedoria nos levarão muito longe, caminhando por ela. Essa busca deve ser empreendida pelos fracos com a mesma esperança dos fortes. Mas é sempre assim o curso dos fatos que movem as rodas do mundo: as mãos pequenas os realizam porque precisam, enquanto os olhos dos grandes estão voltados para outros lugares.
— Muito bem, muito bem, Mestre Efrond! — disse Bilbo de repente. — Não precisa dizer mais nada! Está claro que e para mim que está apontando. Bilbo, o tolo hobbit, começou este caso, e é melhor Bilbo dar cabo dele, ou de si mesmo. Eu estava muito bem aqui, continuando meu livro. Se quiser saber, eu estava escrevendo um fim para ele. Pensei em colocar: e ele viveu feliz para sempre até o fim de seus dias. É um ótimo fim, e não faz mal que já tenha sido usado antes. Agora terei de alterá-lo: não é provável que se torne verdade; e, de qualquer forma, é evidente que terei de acrescentar muitos outros capítulos, se viver para escrevê-los. É um trabalho terrível. Quando devo partir?
Boromir olhou com surpresa para Bilbo, mas o riso morreu-lhe nos lábios quando viu que todos os outros olhavam o velho hobbit com grande respeito. Apenas Glóin sorriu, mas o sorriso veio de antigas lembranças.
— É claro, querido Bilbo — disse Gandalf — Se você realmente tivesse começado este caso, seria de esperar que o terminasse. Mas você sabe muito bem que esse início é reivindicação demais para uma só pessoa, e que um herói só tem um papel pequeno nos grandes feitos. Não precisa fazer reverência! Embora a intenção do elogio seja verdadeira, e não duvidemos que, por trás dessa galhofa, você esteja fazendo uma oferta valiosa. Mas uma oferta além de suas forças, Bilbo. Você não pode pegar esse objeto de volta. Ele passou a outras mãos. Se continua querendo meus conselhos, diria que sua parte terminou, a não ser como escritor dos registros. Termine seu livro, e não mude o fim! Existem esperanças de que ele aconteça. Mas prepare-se para escrever uma sequência, quando eles voltarem.
Bilbo riu.
— Nunca vi você me dar um conselho agradável antes — disse ele. — Como todos os seus conselhos desagradáveis foram bons para mim, penso se este último não será mau. Mesmo assim, não acho que ainda tenha forças ou sorte para lidar com o Anel. Ele cresceu, e eu não. Mas, diga-me: o que quer dizer com eles?
— Os mensageiros que serão enviados com o Anel.
— Exatamente! E quem são eles? Parece-me que é isto que este Conselho precisa decidir; aliás, é tudo o que precisa decidir. Os elfos podem se alimentar apenas de palavras, e os anões suportam grandes cansaços; mas eu sou apenas um velho hobbit, e preciso comer ao meio-dia. Não pode propor alguns nomes agora? Ou adiar a decisão até depois do almoço?
Ninguém respondeu. O sino do meio-dia tocou. Mesmo assim, ninguém falava nada. Frodo olhou para todos os rostos, mas eles não estavam voltados para ele. Todo o Conselho se sentava com os olhos para baixo, pensando profundamente. Um grande pavor o dominou, como se estivesse aguardando o pronunciamento de alguma sentença que ele tinha previsto havia muito tempo, e esperado em vão que afinal de contas nunca fosse pronunciada. Um desejo incontrolável de descansar e permanecer em paz ao lado de Bilbo em Valfenda encheu-lhe o coração. Finalmente, com um esforço, falou, e ficou surpreso ao ouvir as próprias palavras, como se alguma outra vontade estivesse usando sua pequena voz.
— Levarei o Anel — disse ele. — Embora não conheça o caminho.
Elrond levantou os olhos e olhou para ele, e Frodo sentiu o coração devassado pela agudeza daquele olhar.
— Se entendo bem tudo o que foi dito — disse ele — penso que essa tarefa é destinada a você, Frodo; e que, se você não achar o caminho, ninguém saberá. É chegada a hora do povo do Condado, quando deve se levantar de seus campos pacíficos para abalar as torres e as deliberações dos Grandes. Quem, entre todos os Sábios, poderia prever isto? Ou, se são mesmo sábios, por que deveriam esperar sabê-lo, até que a hora chegasse?
“Mas o fardo é pesado. Tão pesado que ninguém poderia impô-lo a outra pessoa. Não o imponho a você. Mas se o toma livremente, direi que sua escolha foi acertada; e se todos os poderosos amigos-dos-elfos de antigamente, Hador, e Húrin, e Túrin, e o próprio Beren, estivessem reunidos juntos, haveria um lugar para você entre eles.
— Mas certamente o senhor não o enviará sozinho, Mestre? — gritou Sam, incapaz de se conter por mais tempo, e pulando do canto onde tinha estado sentado, quieto, sobre o chão.
— Realmente não! — disse Elrond, voltando-se para ele com um sorriso. — pelo menos você deve ir com ele. É quase impossível separá-lo de Frodo, até mesmo quando ele é convocado para um conselho secreto, e você não.
Sam se sentou, corando e gaguejando.
— Que boa enrascada esta em que nos metemos, Sr. Frodo — disse ele, balançando a cabeça.

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