17 de abril de 2016

Capítulo II: De Aulë e Yavanna

Dizem que no início os anões foram feitos por Aulë na escuridão da Terra-média. Pois, tão grande era o desejo de Aulë pela vinda dos Filhos, para ter aprendizes a quem ensinar suas habilidades e seus conhecimentos, que não se dispôs a aguardar a realização dos desígnios de Ilúvatar. E Aulë criou os anões, exatamente como ainda são, porque as formas dos Filhos que estavam por vir não estavam nítidas em sua mente e, como o poder de Melkor ainda dominasse a Terra, desejou que eles fossem fortes e obstinados. Temendo, porém, que os outros Valar pudessem condenar sua obra, trabalhou em segredo e fez em primeiro lugar os Sete Pais dos Anões num palácio sob as montanhas na Terra-média.
Ora, Ilúvatar soube o que estava sendo feito e, no exato momento em que o trabalho de Aulë se completava, e Aulë estava satisfeito e começava a ensinar aos anões a língua que inventara para eles, Ilúvatar dirigiu-lhe a palavra; e Aulë ouviu sua voz e emudeceu. E a voz de Ilúvatar lhe disse: — Por que fizeste isso? Por que tentaste algo que sabes estar fora de teu poder e de tua autoridade? Pois tens de mim como dom apenas tua própria existência e nada mais. E, portanto, as criaturas de tua mão e de tua mente poderão viver apenas através dessa existência, movendo-se quando tu pensares em movê-las e ficando ociosas se teu pensamento estiver voltado para outra coisa. É esse teu desejo?
— Não desejei tamanha ascendência — respondeu Aulë. — Desejei seres diferentes de mim, que eu pudesse amar e ensinar, para que também eles percebessem a beleza de Eä, que tu fizeste surgir. Pois me pareceu que há muito espaço em Arda para vários seres que poderiam nele deleitar-se; e, no entanto, em sua maior parte ela ainda está vazia e muda. E, na minha impaciência, cometi essa loucura. Contudo, à vontade de fazer coisas está em meu coração porque eu mesmo fui feito por ti. E a criança de pouco entendimento, que graceja com os atos de seu pai, pode estar fazendo isso sem nenhuma intenção de zombaria, apenas por ser filho dele. E agora, o que posso fazer para que não te zangues comigo para sempre? Como um filho ao pai, ofereço-te essas criaturas, obra das mãos que criaste. Faze com elas o que quiseres. Mas não seria melhor eu mesmo destruir o produto de minha presunção?
E Aulë apanhou um enorme martelo para esmagar os anões, e chorou. Mas Ilúvatar apiedou-se de Aulë e de seu desejo, em virtude de sua humildade. E os anões se encolheram diante do martelo e sentiram medo, baixaram a cabeça e imploraram clemência. E a voz de Ilúvatar disse a Aulë: — Tua oferta aceitei enquanto ela estava sendo feita Não percebes que essas criaturas têm agora vida própria e falam com suas próprias vozes? Não fosse assim, e elas não teriam procurado fugir ao golpe nem a nenhum comando de tua vontade.
Largou, então, Aulë o martelo e, feliz, agradeceu a Ilúvatar, dizendo. — Que Eru abençoe meu trabalho e o corrija. Ilúvatar voltou a falar, entretanto, e disse: — Exatamente como dei existência aos pensamentos dos Ainur no início do Mundo, agora adotei teu desejo e lhe atribuí um lugar no Mundo; mas de nenhum outro modo corrigirei tua obra; e, como tu a fizeste, assim ela será. Contudo não tolerarei o seguinte: que esses seres cheguem antes dos Primogênitos de meus desígnios, nem que tua impaciência seja premiada. Eles agora deverão dormir na escuridão debaixo da pedra, e não se apresentarão enquanto os Primogênitos não tiverem surgido sobre a Terra; e até essa ocasião tu e eles esperareis, por longa que seja a demora. Mas quando chegar a hora, eu os despertarei, e eles serão como filhos teus; e muitas vezes haverá discórdia entre os teus e os meus, os filhos de minha adoção e os filhos de minha escolha.
Então Aulë pegou os Sete Pais dos Anões e os levou para descansar em locais bem afastados; voltou em seguida a Valinor e esperou os longos anos transcorrerem.
Como fossem surgir na época em que Melkor prevalecia, Aulë fez os anões resistentes. Por isso, eles são duros como a pedra, teimosos, firmes na amizade e na inimizade, e conseguem suportar fadiga, fome e ferimentos com mais bravura do que todos os outros povos que falam; e vivem muito, bem mais do que os homens, embora não para sempre. Antigamente, dizia-se entre os elfos na Terra-média que os anões, ao morrer, voltavam para a terra e a pedra da qual eram feitos; no entanto, não é essa a crença entre eles próprios. Pois dizem que Aulë, o Criador, que chamam de Mahal, gosta deles e os acolhe em Mandos em palácios separados; e que ele declarou a seus antigos Pais que Ilúvatar os abençoará e lhes dará um lugar entre os Filhos no Final. Então, seu papel será servir a Aulë e auxiliá-la na reconstrução de Arda depois da Última Batalha. Dizem também que os Sete Pais dos Anões voltam a viver em seus próprios parentes e a usar de novo seus nomes ancestrais: dos quais Durin foi o mais célebre em épocas posteriores, pai daquela família mais simpática aos elfos, cujas mansões ficavam em Khazaddûm.
Ora, quando estava trabalhando na criação dos anões, Aulë manteve sua obra oculta dos outros Valar; mas acabou revelando seu segredo a Yavanna e lhe contou tudo o que havia acontecido.
Disse-lhe então Yavanna: — Eru é misericordioso. Agora vejo que teu coração se alegra, como de fato pode; pois recebeste não só perdão, mas generosidade. Mas como escondeste essa ideia de mim até sua realização, teus filhos terão pouco amor pelas coisas que amo. Eles amarão acima de tudo o que fizerem com as próprias mãos, como seu pai. Escavarão a terra, e não darão atenção ao que cresce e vive sobre ela. Muitas árvores sentirão o golpe de seu machado impiedoso.
Aulë, contudo, respondeu: — Isso também valerá para os Filhos de Ilúvatar; pois eles irão comer e construir. E por mais que os seres de teu reino tenham valor, e continuassem tendo mesmo que nenhum Filho estivesse por vir, ainda assim Eru lhes dará primazia, e eles usarão tudo o que encontrarem em Arda; embora, pelo desígnio de Eru, não sem respeito ou gratidão.
— Não, se Melkor toldar seus corações — respondeu Yavanna. E não se tranquilizou, mas sofreu no íntimo, temendo o que poderia ocorrer na Terra-média em dias futuros. Assim, ela se apresentou diante de Manwë e não revelou sua conversa com Aulë, mas disse: — Rei de Arda, é verdade, como Aulë me disse, que os Filhos, quando vierem, dominarão todo o fruto de meu trabalho, com o direito de fazer dele o que quiserem?
— É verdade — respondeu Manwë. — Mas por que perguntas, se não necessitas em nada dos ensinamentos de Aulë?
Calou-se então Yavanna, para examinar seus próprios pensamentos. E respondeu: — Porque meu coração está apreensivo, pensando nos dias que virão. Todas as minhas obras me são caras. Não basta que Melkor já tenha destruído tantas? Será que nada do que inventei ficará livre do domínio alheio?
— Pela tua vontade, o que preservarias? — perguntou Manwë.— De todo o teu reino, o que te é mais caro?
— Tudo tem seu valor, e cada um contribui para o valor dos outros. Mas os kelvar podem fugir ou se defender, ao passo que os olvar que crescem, não. E entre estes, prezo mais as árvores.
Embora de crescimento demorado, veloz é sua derrubada, e, a menos que paguem o imposto dos frutos nos galhos, pouca tristeza despertam quando morrem. É assim que vejo no meu pensamento. Quisera que as árvores falassem em defesa de todos os seres que têm raízes, e castigassem aqueles que lhes fizessem mal!
— Estranho esse seu pensamento — disse Manwë.
— E, no entanto ele estava na Música — disse Yavanna. — Pois, enquanto estavas nos céus e com Ulmo criavas as nuvens e derramavas as chuvas, eu erguia os galhos das grandes árvores para recebê-las, e algumas cantaram a Ilúvatar em meio ao vento e à chuva.
Calou-se então Manwë, e o pensamento de Yavanna, que ela havia instilado em seu coração, cresceu e se desenvolveu; e foi visto por Ilúvatar. Pareceu, então, a Manwë que a Música se erguia de novo a seu redor, e ele agora percebia nela muitas coisas, às quais, embora já as tivesse ouvido, não prestara atenção. E afinal a Visão reapareceu, mas não estava mais afastada, pois ele próprio se encontrava dentro dela; e, contudo via que tudo era sustentado pela mão de Ilúvatar; e a mão penetrava na Visão e dela surgiam muitas maravilhas que até então estavam ocultas a seus olhos, nos corações dos Ainur.
Despertou então Manwë, desceu até Yavanna na colina Ezellohar e sentou-se a seu lado, à sombra das Duas Árvores. E Manwë falou: — Ó, Kementári, Eru pronunciou-se e disse: “Será que algum Vala supõe que eu não tenha ouvido toda a Música? Mesmo o som mais ínfimo da voz mais fraca? Vejam!Quando os Filhos despertarem, o pensamento de Yavanna também despertará, e ele convocará espíritos de muito longe, que irão se misturar aos kelvar e aos olvar, e alguns ali residirão e serão reverenciados, e sua justa ira será temida. Por algum tempo: enquanto os Primogênitos estiverem no apogeu, e os Segundos forem jovens.” Não te lembras agora, Kementári, que teu pensamento cantava, nem sempre sozinho? Que teu pensamento e o meu tampouco se encontravam, de modo que nós dois alçávamos voo juntos como grandes aves que sobem acima das nuvens? Isso também irá se passar pela intenção de Ilúvatar; e, antes que os Filhos despertem, as Águias dos Senhores do Oeste surgirão com asas como o vento”.
Alegrou-se então Yavanna, e ela se levantou, com os braços esticados para os céus, e disse: —Crescerão muito as árvores de Kementári para que as Águias do Rei possam habitar suas copas!
Manwë, entretanto, também ergueu-se; e ele parecia tão alto, que sua voz descia até Yavanna como se viesse dos caminhos dos ventos.
— Não, Yavanna, apenas as árvores de Aulë terão altura suficiente. As Águias habitarão as montanhas e ouvirão as vozes daqueles que clamam por nós. Mas nas florestas caminharão os Pastores das Árvores.
Manwë e Yavanna então se despediram, e Yavanna voltou a Aulë; e ele estava em sua oficina de ferreiro, derramando metal derretido numa forma. — Eru é generoso — disse ela — Mas teus filhos que se cuidem! Pois caminhará pelas florestas uma força, cuja ira eles despertarão por seu próprio risco.
— Mesmo assim, eles precisarão de madeira — disse Aulë, e continuou seu trabalho de ferreiro.

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