11 de abril de 2016

Capítulo I - Sméagol domado

— Bem, senhor, estamos numa enrascada, sem dúvida — disse Sam Gamji.
Parou ao lado de Frodo desanimado, com os olhos caídos, e espiou a escuridão, franzindo os olhos.
Era a terceira noite desde que tinham fugido da Comitiva, pelo que podiam calcular: tinham quase perdido a noção das horas durante as quais lutaram para escalar as encostas nuas e os rochedos dos Emyn Muil, algumas vezes refazendo os passos porque não conseguiam encontrar nenhum caminho que conduzisse adiante, outras descobrindo que tinham andado em círculo, retornando ao ponto onde tinham estado horas antes. Apesar disso, tudo somado, avançaram continuamente para o leste, sempre procurando ficar o mais perto possível do lado externo daquele emaranhado de colinas estranho e retorcido. Mas com frequência deparavam com faces externas que eram íngremes, altas e intransponíveis, franzindo-se por sobre a planície — para além de suas bordas desmoronadas jaziam pântanos esbranquiçados e em decomposição onde nada se movia e não se via nem mesmo um pássaro.
Os hobbits encontravam-se agora sobre a crista de um alto penhasco, desolado e nu, cujos pés estavam envolvidos numa névoa; atrás deles se erguia a irregular região montanhosa, coroada por nuvens flutuantes. Um vento gelado soprava do leste. Diante deles, a noite se formava por sobre as terras disformes; seu verde doentio ia dando lugar agora a um castanho lúgubre. Mais ao longe e à direita, o Anduin, que surgira vacilante em intervalos ensolarados durante o dia, estava agora oculto em sombras. Mas os olhos dos hobbits não se voltavam para além do Rio, na direção de Gondor, onde estavam seus amigos, nas terras dos homens.
Dirigiam-se para o sul e para o leste, para onde, no limiar da noite iminente, uma linha escura pairava, como longínquas montanhas de fumaça imóvel. De quando em quando, um brilho fraco e vermelho aparecia na parte de cima, na linha formada entre a terra e o céu.
— Que enrascada! — disse Sam. — De todas as terras de que já tivemos notícia, este é o único lugar que não queremos ver mais de perto; exatamente o lugar que estamos tentando atingir! E também aonde não podemos chegar, de maneira alguma. Ao que parece, viemos por um caminho completamente errado. Não podemos descer; e se descêssemos, iríamos ver que toda aquela terra verde é um brejo nojento, eu garanto. Que nojo! Está sentindo o cheiro? — Sam farejou o vento.
— Sim, estou sentindo — disse Frodo. Mas não se mexeu, e seus olhos permaneceram fixos, em direção à linha escura e à chama trêmula. — Mordor! — murmurou ele quase sem fôlego. — Se devo ir para lá, gostaria de poder ir logo e pôr um fim a tudo isso! — Estremeceu. O vento estava frio, e mesmo assim carregado com o odor de podridão fria. — Bem — disse ele, finalmente desviando os olhos. — Não podemos ficar aqui a noite toda, com ou sem enrascada. Precisamos encontrar um lugar mais protegido, e acampar mais uma vez; talvez um outro dia nos mostre um caminho.
— Ou um outro dia, e outro e outro — murmurou Sam. — Ou talvez dia nenhum. Viemos pelo caminho errado.
— Fico pensando — disse Frodo. — Acho que é meu destino ir para aquela Sombra lá adiante, então encontrarei um caminho. Mas quem irá indicá-lo a mim: o bem ou o mal? A esperança que tínhamos repousava na rapidez. O atraso favorece o Inimigo – e aqui estou eu: atrasado. Será que é a vontade da Torre Escura que está nos guiando? Todas as minhas escolhas acabaram se mostrando ruins. Deveria ter abandonado a Comitiva muito antes, e vindo do norte, a leste do Rio e dos Emyn Muil, e depois sobre o chão seco da Planície da Batalha até as passagens para Mordor. Mas agora não é possível, para nós dois sozinhos, encontrar um caminho de volta, e os orcs estão espreitando na margem leste. Cada dia que passa é um dia precioso que perdemos. Estou cansado, Sam. Não sei o que se deve fazer. Quanto ainda temos de comida?
— Apenas aqueles, como se chamam, lembas, Sr. Frodo. Um belo suprimento. Mas são melhores que nada, de longe. Na verdade, jamais pensei, na primeira vez que mordi um deles, que eu algum dia poderia querer variar de comida. Mas agora eu quero: um pouco de pão comum, e uma caneca – bem, meia caneca – de cerveja desceriam melhor. Venho carregando meu equipamento de cozinha desde nosso último acampamento, e para quê? Não há nada com que possamos acender uma fogueira, para início de conversa; e nada para cozinhar, nem mesmo capim!
Viraram-se e foram descendo até uma concavidade rochosa. O sol, que se dirigia para o oeste, estava preso entre nuvens, e a noite se aproximava rapidamente.
Dormiram como puderam, pois estava frio; revezaram-se num recesso em meio a grandes pináculos pontudos de pedra desgastada pelo tempo; pelo menos estavam abrigados do Vento Leste.


— Viu-os de novo, Sr. Frodo? — perguntou Sam, quando os dois estavam sentados, com os corpos endurecidos e enregelados, mastigando bolos de lembas, no cinza frio do início da manhã.
— Não — disse Frodo. — Não escutei e não vi nada nas últimas duas noites.
— Nem eu — disse Sam. — Grrr! Aqueles olhos realmente me assustaram! Mas talvez o tenhamos espantado finalmente, o caviloso miserável. Golum! Vou dar um Golum na garganta dele, se um dia lhe puser as mãos no pescoço.
— Espero que nunca precise fazer isso — disse Frodo. — Não sei como nos seguiu, mas pode ser que tenha perdido nosso rastro outra vez, como você está dizendo. Nesta região seca e fria não se pode deixar muitas pegadas, nem muito cheiro, mesmo para seu nariz farejador.
— Espero que seja isso mesmo — disse Sam. — Gostaria que pudéssemos nos livrar dele para sempre.
— Eu também — disse Frodo — mas ele não é meu maior problema. Gostaria que pudéssemos sair destas colinas! Odeio-as. Sinto-me completamente nu no lado leste, enfiado aqui sem nada, a não ser as planícies mortas, entre mim e aquela Sombra mais adiante. Há um Olho nela. Venha! Precisamos descer hoje de qualquer jeito.
Mas aquele dia passou e quando a tarde já se apagava, dando lugar ao inicio da noite, eles ainda continuavam aos tropeços ao longo da cordilheira e sem encontrar um caminho para escaparem.
Algumas vezes, no silêncio daquela região desolada, imaginavam estar ouvindo ruídos longínquos atrás deles, uma pedra caindo, ou passadas imaginárias de pés batendo na pedra. Mas, quando paravam e ficavam quietos escutando, não ouviam mais nada, nada além do vento suspirando sobre as bordas dos rochedos — mas mesmo aquilo lhes dava a impressão de uma respiração chiando suavemente através de dentes afiados.
Durante todo aquele dia, a cordilheira externa dos Emyn Muil inclinara-se gradativamente para o norte, conforme eles iam lutando para avançar. Ao longo de sua borda agora se estendia uma ampla planície coberta de rochas quebradas e gastas, cortada de quando em quando por fossos semelhantes a trincheiras, que desciam íngremes até fendas profundas na face do penhasco. A fim de encontrar uma trilha nessas fendas, cada vez mais fundas e frequentes, Frodo e Sam foram levados para a esquerda, a uma grande distância da borda, e não se deram conta de que por várias milhas estiveram descendo a colina, lentamente mas sem parar: o topo do penhasco ia afundando em direção ao nível das terras baixas.
Finalmente foram obrigados a parar. A cordilheira fazia uma curva fechada para o norte e era cortada por um abismo mais profundo. Do outro lado ela subia de novo, muitas braças num único salto: um grande penhasco cinzento assomava diante deles, que dava a impressão de ter sido cortado na vertical com um golpe de faca. Os hobbits não podiam continuar à frente, e tinham de virar para o oeste ou para o leste. Mas o oeste só os conduziria em direção a mais trabalho e atraso, de volta para o coração das colinas; o leste os levaria para o precipício externo.
— Não há outra escolha a não ser ir descendo este fosso, Sam — disse Frodo. — Vamos ver para onde ele conduz!
— Para um tombo feio, eu aposto! — disse Sam.
O fosso era mais longo e profundo do que parecera. Um pouco mais abaixo encontraram algumas árvores raquíticas e nodosas, as primeiras que viam em dias: na maioria, bétulas retorcidas, com um abeto aqui ou ali. Muitas dessas árvores estavam mortas e secas, mordidas até o cerne pelos ventos do leste.
Outrora, em dias mais amenos, deveria ter havido um belo conjunto de árvores no precipício, mas agora, depois de uns cinquenta metros, as árvores chegavam ao fim, embora velhos troncos quebrados se espalhassem por quase toda a borda do penhasco. O fundo do fosso, que se estendia ao longo da borda de uma falha na rocha, era áspero, cheio de pedras quebradas, e descia de modo abrupto.
Quando finalmente saíram dele, Frodo se agachou e se inclinou à frente.
— Olhe! — disse ele. — Acho que descemos um longo trecho, ou então o penhasco afundou. Está muito mais baixo do que estava, e também parece mais fácil.
Sam se ajoelhou ao lado dele e com relutância espiou por sobre a borda. Depois ergueu os olhos para o grande penhasco, mais ao longe e à esquerda de onde estavam.
— Mais fácil! — grunhiu ele. — Bem, suponho que descer seja sempre mais fácil que subir. Aqueles que não podem voar, podem saltar!
— Mesmo assim, seria um grande salto — disse Frodo. — Cerca, bem — ficou de pé por um instante, medindo com os olhos —, cerca de dezoito braças, eu acho. Não mais que isso.
— E isso é o bastante — disse Sam. — Ugh! Como eu odeio olhar de um lugar alto lá para baixo! Mas olhar é melhor que descer.
— Mesmo assim — disse Frodo. — Acho que deveríamos descer por aqui; e acho que vamos ter de tentar. Veja, a rocha aqui é bem diferente do que aquela que encontramos algumas milhas atrás. Deslizou e se fendeu.
A face externa realmente deixara de ser perpendicular, mas ainda se inclinava um pouco para fora. Parecia uma grande trincheira ou dique cujos alicerces tinham se alterado, de modo que seus cursos estavam todos trançados e desordenados, deixando grandes fissuras e bordas longas e inclinadas que em alguns lugares eram largas como escadas.
— E, se vamos tentar descer, é melhor tentarmos já. Está escurecendo cedo. Acho que uma tempestade vem aí.
A mancha enfumaçada das montanhas no leste se perdeu numa negrura mais profunda que já estava estendendo seus longos braços em direção ao oeste. Ouvia-se o murmurar distante de trovões, trazido na brisa que ia ficando mais intensa. Frodo farejou o ar e olhou desconfiado para o céu. Passou o cinto por fora da capa e o apertou, colocando nas costas a mochila leve; então dirigiu-se para a borda.
— Vou tentar — disse ele.
— Muito bem! — disse Sam desanimado. — Mas eu vou primeiro.
— Você? — disse Frodo. — O que o fez mudar de ideia sobre descer?
— Não mudei de ideia. É apenas bom senso: que vá primeiro aquele que tem mais probabilidade de escorregar. Não quero cair em cima do senhor e derrubá-lo – é insensatez matar dois numa só queda.
Antes que Frodo pudesse detê-lo, Sam se sentou, passou as pernas por sobre a borda, e virou-se, tateando com os pés em busca de um apoio. É de duvidar que ele um dia tenha feito qualquer coisa mais corajosa a sangue frio, ou mais imprudente.
— Não, não! Sam, seu idiota! — disse Frodo. — Com certeza vai se matar indo desse jeito, sem nem olhar por onde está indo. Volte! — Pegou-o pelas axilas e o puxou de volta. — Agora espere um pouco e tenha paciência! — Disse ele. Então deitou-se no chão, debruçando-se sobre a borda e olhando para baixo: mas a luz parecia estar se apagando rapidamente, embora o sol ainda não se tivesse posto. — Acho que poderíamos conseguir — disse ele nesse momento. — De qualquer forma, eu poderia; e você também, se mantivesse a calma e me seguisse com cuidado.
— Não sei como pode ter certeza — disse Sam. — Veja bem, o senhor não pode enxergar o fundo com esta luz. E se atingirmos um ponto onde não haja nenhum lugar para apoiar os pés e as mãos?
— Voltaremos, eu suponho — disse Frodo.
— É fácil falar — objetou Sam. — Melhor esperar pela manhã, quando houver mais luz.
— Não! Não se eu puder evitar — disse Frodo, com uma estranha e súbita veemência. — Não me siga até que eu volte ou o chame.
Agarrando com os dedos a borda rochosa da encosta, deixou-se descer suavemente, até que seus braços estivessem quase que totalmente esticados, seus pés encontraram uma saliência.
— Um passo abaixo! — disse ele. — E essa saliência fica mais larga à direita. Eu poderia ficar de pé lá sem segurar em lugar nenhum. Vou... — suas palavras foram interrompidas.
A escuridão apressada, agora se adensando com grande rapidez, precipitou-se do leste e engoliu o céu. Houve o ruído seco e cortante de um trovão bem acima deles. Um relâmpago de fogo golpeou as colinas. Então veio uma rajada de vento incontrolável, e com ela, misturado ao seu rugido, chegou um guincho alto e agudo. Os hobbits tinham ouvido um grito exatamente igual lá longe no Pântano, quando estavam fugindo da Vila dos Hobbits, e mesmo lá, nas florestas do Condado, aquele som lhes congelara o sangue. No lugar deserto onde estavam agora, o pavor que provocava era ainda maior: perfurava-os com lâminas frias de medo e desespero, paralisando coração e respiração.
Sam caiu duro com o rosto virado para o chão. Involuntariamente, Frodo soltou as mãos da rocha e cobriu os ouvidos e a cabeça. Desequilibrou-se, escorregou e deslizou para baixo com um grito desesperado.
Sam o ouviu e se arrastou com dificuldade até a borda.
— Senhor, senhor! — chamou ele. — Senhor!
Não ouviu resposta. Viu-se tremendo da cabeça aos pés, mas tomou fôlego e mais uma vez gritou:
— Senhor!
O vento parecia empurrar sua voz de volta para a garganta, mas conforme passava, rugindo fosso acima e por sobre as colinas, um grito fraco de resposta chegou aos ouvidos de Sam:
— Tudo bem, tudo bem! Estou aqui. Mas não consigo enxergar nada.
Frodo estava chamando com uma voz fraca. Na verdade não estava muito longe. Tinha escorregado, e não caído; num solavanco tinha ficado de pé sobre uma saliência larga, não muitos metros abaixo. Felizmente, a superfície da rocha naquele ponto se inclinava bastante para trás, e o vento o pressionara contra o penhasco, de modo que ele não tinha caído. Firmou-se um pouco, apoiando o rosto contra a rocha fria, sentindo o coração disparado. Mas ou a escuridão fechara-se completamente, ou então seus olhos tinham perdido a capacidade de enxergar. Tudo estava negro ao redor. Ficou imaginando se tinha ficado cego. Respirou fundo.
— Volte! Volte! — gritou a voz de Sam, vinda da escuridão acima.
— Não posso — disse ele. — Não estou enxergando nada. E não consigo achar nenhum lugar onde possa me apoiar. Não posso me mexer ainda.
— Que posso fazer, Sr. Frodo? Que posso fazer? — gritou Sam, debruçando-se perigosamente sobre a borda. Por que seu mestre não enxergava nada? Estava escuro, certamente, mas não tão escuro assim. Ele conseguia ver Frodo mais embaixo, uma figura cinzenta e desamparada, chapada contra o penhasco. Mas estava muito além do alcance de qualquer mão que pudesse ajudá-lo.
Houve um outro ruído de trovão; então veio a chuva. Numa cortina que cegava, misturada com granizo, batia contra o penhasco, extremamente fria.
— Vou descer até aí — gritou Sam, embora não pudesse dizer como pretendia fazer isso.
— Não, não! Espere! — gritou Frodo, agora numa voz mais forte. — Logo devo melhorar. Já me sinto melhor. Espere! Você não pode fazer nada, sem uma corda.
— Corda! — exclamou Sam, conversando alucinadamente consigo mesmo cheio de excitação e alívio. — Eu bem que mereço ser enforcado na ponta de uma, como uma advertência contra minha cabeça-de-vento. Você não passa de um idiota cabeça-dura, Sam Gamgi: é isso que o Feitor me dizia sempre, nas palavras dele. Corda!
— Pare de resmungar! — gritou Frodo, agora recuperado o suficiente para  se sentir ao mesmo tempo de bom humor e irritado. — Esqueça o velho Feitor. Você está tentando dizer a si mesmo que tem um pedaço de corda em seu bolso? Se for isso, trate de usá-la!
— Sim, Sr. Frodo, em minha mochila. Carreguei-a por centenas de milhas, e me esqueci completamente dela!
— Então mexa-se, e jogue uma ponta aqui para baixo!
Rapidamente Sam desafivelou a mochila e a remexeu. Realmente, no fundo, havia um rolo da corda cinza-prateada feita pelo povo de Lórien. Jogou uma ponta para Frodo.
A escuridão pareceu se desvanecer aos olhos dele, ou então sua visão estava voltando. Conseguiu ver a linha cinzenta conforme ela veio descendo e balançando, e teve a impressão de que ela emanava um leve brilho prateado. Agora que achara algum ponto na escuridão para fixar os olhos, sentia-se menos zonzo.
Jogando o peso do corpo para frente, amarrou firmemente a ponta da corda em volta da cintura, e depois agarrou-a com as duas mãos.
Sam recuou e escorou os pés num tronco, a um ou dois metros da borda. Sendo em parte puxado, e em parte escalando, Frodo subiu e se jogou no chão.
Trovões rosnavam e roncavam na distância, e a chuva ainda caía pesada. Os hobbits se arrastaram de volta para dentro do fosso, mas lá não encontraram muito abrigo. Filetes de água começavam a descer; logo se transformaram em jatos que espirravam e borrifavam nas pedras, jorrando por sobre o penhasco como as calhas de um vasto telhado.
— Eu já estaria quase afogado lá embaixo, ou já teria sido levado pelas águas — disse Frodo. — Que sorte você ter aquela corda!
— A sorte teria sido maior se eu tivesse pensado nela antes — disse Sam. — Talvez o senhor se lembre deles colocando as cordas no barco, quando estávamos partindo: na terra dos elfos. Gostei delas, e enfiei um rolo na minha mochila. Parece que foi anos atrás. “Pode ser uma ajuda em muitas necessidades”, disse ele: Haldir, ou um deles. E estava certo.
— É uma pena que eu não tenha pensado em trazer um outro pedaço — disse Frodo —, mas nós deixamos a Comitiva em meio a tanta pressa e confusão. Se tivéssemos corda suficiente, poderíamos usá-la para descer. Qual é o comprimento da sua?
Sam a examinou lentamente, medindo-a com os braços:
— Cinco, dez, vinte, trinta varas, mais ou menos — disse ele.
— Quem teria imaginado! — exclamou Frodo.
— Quem? — disse Sam. — Os elfos são pessoas maravilhosas. A corda parece um pouco fina, mas é resistente: e macia como leite nas mãos. E comprime-se bem, e é levíssima. Um povo maravilhoso, sem dúvida.
— Trinta varas! — disse Frodo fazendo cálculos. — Acho que seria o suficiente. Se a tempestade passar antes do cair da noite, eu vou tentar.
— A chuva já está quase parando — disse Sam — mas não vá fazer nada arriscado no escuro de novo, Sr. Frodo! Ainda não me recuperei daquele grito no vento, se é que o senhor conseguiu se recuperar. O som era parecido com o de um Cavaleiro Negro – mas de um pairando no ar, se é que eles podem voar. Estou pensando que seria melhor nos deitarmos nesta fenda até o fim da noite.
— E eu estou pensando que não vou desperdiçar nenhum momento além do necessário, preso nessa borda com os Olhos da Terra Escura olhando por sobre o pântano — disse Frodo.
Com isso se levantou e dirigiu-se ao fundo do fosso outra vez. Olhou para cima. O céu clareava de novo no leste. A orla da tempestade se erguia, rasgada e molhada, e a batalha principal tinha passado, indo estender suas grandes asas sobre os Emyn Muil, onde os pensamentos escuros de Sauron se concentraram por um tempo. Desse ponto mudou de rumo, golpeando o Vale do Anduin com granizo e relâmpagos, e lançando sua sombra sobre Minas Tirith com a ameaça da guerra. Então, caindo sobre as montanhas, e se formando em grandes espirais, rolou lentamente por sobre Gondor e as fronteiras de Rohan, até que bem distante os Cavaleiros na planície viram suas torres negras se movendo atrás do sol, conforme cavalgavam para o oeste.
Mas ali, sobre o deserto e os pântanos mal cheirosos, o céu do início da noite, de um azul profundo, se abria mais uma vez, e algumas estrelas pálidas apareciam, como pequenos buracos brancos no dossel sobre a lua crescente.
— É bom conseguir enxergar outra vez — disse Frodo, respirando fundo. — Sabe, pensei por uns momentos que tinha perdido a visão. Devido ao relâmpago ou coisa pior. Não conseguia enxergar nada, de jeito nenhum, até que a corda cinzenta foi descendo. Ela parecia tremeluzir, de alguma forma.
— Ela realmente tem uma aparência de prata no escuro — disse Sam. — Não tinha notado antes, embora não possa me lembrar de tê-la tirado da mochila desde que a enfiei lá. Mas se está tão decidido a descer, Sr. Frodo, como vai usá-la? Trinta varas, ou digamos cerca de dezoito braças: isso não é mais do que o senhor supôs ser a altura do Penhasco.
Frodo pensou um pouco.
— Amarre-a naquele tronco, Sam! — disse ele. — Então acho que vou atender a seu pedido desta vez e deixá-lo ir primeiro. Vou abaixá-lo, e você não precisa fazer nada além de usar seus pés e mãos para se afastar da rocha. Vai ajudar, porém, se você se apoiar em alguma saliência e me der um descanso. Quando estiver lá embaixo, eu descerei.
— Muito bem — disse Sam num tom pesado. — Se precisa ser assim, façamos isso logo!
Pegou a corda e fixou-a firmemente no tronco mais próximo à borda; então amarrou a outra ponta na própria cintura. Relutante, voltou-se e se preparou para passar por cima da borda mais uma vez.
Não teve, entretanto, nem metade da dificuldade que esperara. Parecia que a corda lhe dava confiança, embora ele tenha fechado os olhos uma ou duas vezes quando olhou para baixo por entre seus pés. Havia um ponto incômodo, onde não havia saliência e a parede era íngreme e até socavada num pequeno trecho; ali ele escorregou e ficou pendurado na linha prateada. Mas Frodo o abaixou devagar e com firmeza, e finalmente tudo se acabou. O maior medo de Sam era de que a corda terminasse enquanto ele ainda estivesse muito elevado, mas ainda havia uma boa laçada nas mãos de Frodo quando ele chegou ao fundo e gritou:
— Estou no chão! — A voz veio clara lá de baixo, mas Frodo não conseguia vê-lo; a capa cinzenta dos elfos se confundia com o crepúsculo.
Frodo levou um tempo bem maior para descer. Estava com a corda em volta da cintura e ela estava presa em cima, e ele a tinha diminuído de modo que o segurasse no ar antes que ele atingisse o solo; ainda assim, Frodo não queria arriscar uma queda, e não tinha a mesma confiança que Sam naquela linha cinzenta e fina. Mesmo assim, encontrou dois pontos onde teve de confiar unicamente nela: superfícies lisas onde não havia apoio nem mesmo para seus fortes dedos de hobbit, e onde as saliências eram muito separadas.
Mas finalmente ele também conseguiu descer.
— Bem! — exclamou ele. — Conseguimos! Escapamos das Emyn Muil. E agora, o que temos à frente, eu me pergunto? Talvez logo estejamos suspirando por uma boa rocha firme sob os pés outra vez.
Mas Sam não respondeu: estava olhando para trás, em direção ao penhasco.
— Idiotas cabeças-duras! — disse ele. — Parvos! Minha bela corda! Ali está ela, amarrada a um tronco, e nós aqui no fundo. Uma ótima escadinha para aquele Golum caviloso, a melhor que poderíamos ter deixado. Melhor colocar uma placa dizendo por onde formos! Achei que tudo estava parecendo fácil demais.
— Se você conseguir pensar em alguma forma pela qual pudéssemos ao mesmo tempo ter usado a corda e tê-la trazido conosco, então pode passar o título de idiota cabeça-dura para mim, ou qualquer outro nome que o velho Feitor lhe tenha dado — disse Frodo. — Suba lá, desamarre a corda e pule, se quiser!
Sam coçou a cabeça.
— Não, não consigo pensar agora, com as suas desculpas — disse ele. — Mas não gosto de deixá-la aqui, e isso é fato. — Acariciou a ponta da corda e mexeu nela suavemente. — É difícil separar-me de alguma coisa trazida da terra dos elfos. Feita pela própria Galadriel, talvez. Galadriel — murmurou ele, balançando a cabeça com tristeza.
Ergueu os olhos e deu um último puxão na corda, como se estivesse dizendo adeus.
Para a total surpresa de ambos os hobbits, a corda se soltou. Sam caiu para trás, e a corda deslizou e foi se enrolando sobre seu corpo, laçada após laçada. Frodo riu.
— Quem amarrou a corda? — disse ele. — Ainda bem que não se soltou antes. E pensar que confiei todo o meu peso em seu nó!
Sam não riu.
— Posso não ser muito bom para escalar penhascos, Sr. Frodo — disse ele num tom ofendido —, mas eu sei alguma coisa sobre cordas e nós. É de família, como se diz. Meu bisavô e meu tio Andy depois dele, aquele que era o irmão mais velho do Feitor, ele teve uma cordoaria perto do Campo da Corda por muitos anos. E eu a amarrei muito firme ao tronco, da melhor maneira que qualquer um poderia ter feito, no Condado ou fora dele.
— Então a corda deve ter-se partido – esgarçada pela borda da rocha, eu acho — disse Frodo.
— Aposto que não! — disse Sam numa voz ainda mais ofendida. Abaixou-se e examinou as pontas. — Nenhuma das duas coisas. Nenhum fiapo!
— Então receio que tenha sido o nó — disse Frodo.
Sam balançou a cabeça e não respondeu. Estava passando a corda pelos dedos pensativamente.
— Pense o que quiser, Sr. Frodo — disse ele finalmente —, mas eu acho que a corda se soltou sozinha – quando eu chamei. — Enrolou-a e a colocou carinhosamente na mochila.
— Certamente se soltou — disse Frodo —, e esta é a coisa mais importante. Mas agora temos de pensar em nosso próximo passo. A noite cairá em breve. Como são belas as estrelas e a lua!
— Elas realmente alegram o coração, não é? — disse Sam erguendo os olhos. — São élficas, de alguma forma. E a lua está crescendo. Não a vemos há uma ou duas noites neste clima nebuloso. Agora está começando a fornecer uma bela luz.
— Sim — disse Frodo — mas não estará cheia a não ser dentro de alguns dias. Não acho que devemos tentar os pântanos com a luz de uma meia-lua.
Sob as primeiras sombras da noite eles partiram no estágio seguinte de sua jornada. Depois de um tempo, Sam se voltou e olhou para o caminho pelo qual tinham vindo. A boca do fosso era uma fenda negra no penhasco escuro.
— Estou feliz porque temos a corda — disse ele. — Deixamos um pequeno enigma para o salteador, de qualquer forma. Ele pode testar seus nojentos pés chatos naquelas saliências!
Foram andando com cuidado e afastando-se da borda do penhasco, em meio a uma região erma feita de seixos e pedras rudes, molhadas e escorregadias devido à chuva pesada. O solo ainda descia com grande inclinação. Não tinham avançado muito quando encontraram uma grande fissura que se abria subitamente negra diante de seus pés. Não era larga, mas era larga demais para se saltar sobre ela na luz fraca.
Tiveram a impressão de escutar a água borbulhando nas suas profundezas. A fenda descrevia uma curva à esquerda deles, em direção ao norte, voltando para as colinas, barrando assim a estrada naquela direção, pelo menos enquanto estivesse escuro.
— É melhor tentarmos um caminho de volta em direção ao sul, ao longo da linha do penhasco, eu acho — disse Sam. — Podemos encontrar algum canto lá, ou até uma caverna, ou algo parecido.
— Suponho que sim — disse Frodo. — Estou cansado, e acho que não posso ir tropeçando em pedras por muito mais tempo esta noite – embora odeie pensar no atraso. Gostaria que houvesse uma trilha bem visível à nossa frente: então continuaria até que minhas pernas fraquejassem.
Não foi nem um pouco mais fácil o caminho ao longo dos pés quebrados das Emyn Muil. Nem Sam achou qualquer canto ou saliência onde pudessem se abrigar: apenas encostas nuas e rochosas se enrugavam junto ao penhasco, que agora subia de novo, mais alto e mais íngreme conforme eles iam voltando. No fim, exaustos, eles apenas se jogaram no solo sob o abrigo de uma pedra que jazia não muito longe do pé do precipício.
Ali ficaram algum tempo sentados, aconchegados tristemente um ao outro na noite fria e rochosa, enquanto o sono se apoderava deles, apesar de tudo o que fizessem para afastá-lo. A lua agora subia alta e clara. Sua luz tênue e branca acendia as faces das rochas e molhava as paredes frias e enrugadas do precipício, transformando toda a ampla escuridão ao redor num cinza pálido e frio, cortado por sombras negras.
— Bem! — disse Frodo, levantando-se e trazendo a capa para mais perto do corpo. — Durma um pouco, Sam, e pegue meu cobertor. Vou caminhar por aí e montar guarda. — De repente ficou imóvel, e agachando-se agarrou Sam pelo braço. — O que é aquilo? — sussurrou ele. — Olhe lá, em cima do penhasco!
Sam olhou e puxou o ar fortemente através dos dentes.
— Ssss! — disse ele. — É exatamente isso. É aquele Golum! Cobras e lagartos! E pensar que eu imaginei que tínhamos confundido a criatura com nossa pequena descida pela rocha! Olhe para ele! Parece uma aranha rastejando numa parede.
Descendo a face de um precipício, íngreme e quase lisa ao que parecia no luar pálido, uma pequena figura negra vinha com suas finas pernas abertas. Talvez suas mãos e pés moles e pegajosos estivessem encontrando fendas e apoios que um hobbit jamais poderia ter visto ou usado, mas parecia que ele estava simplesmente descendo com patas viscosas, como algum bicho grande à espreita, semelhante a um inseto. E estava descendo de cabeça para baixo, como se farejasse o caminho. De vez em quando erguia a cabeça devagar, jogando-a para trás sobre seu pescoço longo e fino, e os hobbits viram de relance duas pequenas luzes brilhantes, os olhos dele, que piscavam à luz da lua por um instante, e em seguida eram rapidamente cobertos pelas pálpebras outra vez.
— O senhor acha que ele consegue nos enxergar? — disse Sam.
— Não sei — disse Frodo baixinho — mas acho que não. Mesmo para olhos amigos é difícil enxergar essas capas élficas: eu não posso vê-lo na sombra, mesmo a apenas alguns passos de distância. E ouvi dizer que ele não gosta de sol ou lua.
— Então por que está descendo exatamente por aqui? — perguntou Sam.
— Quieto, Sam! — disse Frodo. — Talvez ele possa nos farejar. E tem o ouvido tão aguçado quanto o dos elfos, julgo eu. Acho que agora ouviu alguma coisa: nossas vozes, provavelmente. Gritamos um bocado lá atrás, e estávamos conversando alto demais até um minuto atrás.
— Bem, não o aguento mais — disse Sam. — Desta vez ele está exagerando, e vou lhe dizer umas palavrinhas, se puder, Não acho agora que conseguiríamos escapar dele, de qualquer forma. — Cobrindo bem o rosto com o capuz cinza, Sam se arrastou furtivamente na direção do penhasco.
— Cuidado! — sussurrou Frodo, vindo atrás. — Não o assuste! Ele é mais perigoso do que parece.
A figura negra e rastejante já tinha descido três quartos do penhasco, e talvez já estivesse a uns quinze metros ou menos da base. Agachados e imóveis como pedras à sombra de um grande rochedo, os hobbits o vigiavam. Parecia que ele estava passando por um trecho difícil, ou que estava preocupado com alguma coisa. Podiam ouvi-lo farejando, e de vez em quando percebiam também o som de sua respiração chiada, que soava como uma praga. Ergueu a cabeça, e os hobbits tiveram a impressão de tê-lo ouvido cuspir. Depois continuou outra vez.
Agora podiam ouvir sua voz rangendo e assobiando.
— Ach, sss! Cuidado, meu precioso! Devagar se vai ao longe. Não devemos arrisscar nosso pessscoço, devemos, precioso? Não, precioso Golum. — Ergueu a cabeça de novo, piscou para a lua, e rapidamente fechou os olhos. — Odiamos ela — chiou ele. — Sssórdida, ssórdida luz que fica tremendo e nos esspionando, precioso – machuca nossos olhos.
Estava chegando embaixo, e seus chiados ficaram mais agudos e audíveis.
— Onde esstá, onde esstá: meu Precioso, meu Precioso? É nosso, é sim, e nós quer ele. Os ladrões, os ladrões, os ladrõezinhos nojentos. Onde estão com meu Precioso? Malditos! Nós odeia eles.
— Não parece que ele sabia que estávamos aqui, parece? — sussurrou Sam. — E o que é o Precioso dele? Ele quer dizer o...
— Pssiu! — fez Frodo. — Ele está chegando perto agora, perto o suficiente para escutar um sussurro.
Realmente, Golum parara de repente outra vez, e a grande cabeça sobre o pescoço esquelético virava de um lado para o outro, como se ele tentasse escutar algo. Os olhos opacos estavam semicerrados. Sam se conteve, embora seus dedos estivessem crispados. Seus olhos, cheios de ódio e nojo, estavam fixos na miserável criatura, que agora começava a se mexer outra vez, ainda sussurrando e chiando para si mesma. Finalmente já estava a menos de quatro metros do chão, bem acima da cabeça deles. Naquele ponto havia uma descida brusca, pois a rocha estava levemente socavada, e até mesmo Golum não conseguia encontrar qualquer tipo de apoio.
Parecia estar tentando se virar, de modo que descesse com as pernas primeiro, quando de repente, com um guincho agudo, ele caiu. Conforme caía, enroscou os braços e as pernas em volta do corpo, como uma aranha cujo fio do qual pende se rompe.
Sam saiu do esconderijo e num instante atravessou o espaço que o separava do penhasco com alguns saltos. Antes que Golum pudesse se levantar, já estava em cima dele. Mas Golum superou suas expectativas, mesmo pego daquele jeito, de repente, de surpresa depois de uma queda. Antes que Sam pudesse prendê-lo, pernas e braços compridos estavam em volta de seu corpo, segurando-lhe os braços, e um agarrão firme, mole mas terrivelmente forte, o esmagava como cordas que se apertam lentamente; dedos pegajosos tateavam à procura de sua garganta. Depois dentes afiados morderam-lhe o ombro. Tudo que Sam podia fazer era projetar para o lado sua cabeça dura e redonda contra o rosto da criatura. Golum chiava e cuspia, mas não o soltava.
Sam se teria dado mal se estivesse sozinho. Mas Frodo deu um salto e tirou Ferroada da bainha. Com a mão esquerda, puxou para trás a cabeça de Golum, agarrando-lhe os cabelos finos e escassos, esticando-lhe o longo pescoço, forçando seus olhos opacos e venenosos a olhar para o céu.
— Solte, Golum! — disse ele. — Esta é Ferroada. Você já a viu antes. Solte, ou vai senti-la desta vez! Vou lhe cortar a goela!
Golum teve um colapso e ficou solto como barbante molhado. Sam se levantou, apalpando o ombro. Os olhos queimavam de ódio, mas ele não pôde se vingar: seu miserável inimigo estava rastejando sobre as pedras, choramingando.
— Não nos machuquem! Não deixe que nos machuquem, Precioso. Não vão nos machucar, vão, esses bons e pequenos hobbitses? Não queríamos fazer mal algum, mas eles pulou em nós como gatos em cima de pobres ratinhos, é sim, precioso. E estamos tão sozinhos, Golum. Vamos ser bonzinhos para eles, muito bonzinhos, se eles forem bonzinhos para nós, não é? Sim, sssim.
— Bem, que vamos fazer com essa coisa? — disse Sam. — Amarrá-lo, para que não possa mais ficar nos seguindo e nos espionando, eu diria.
— Mas isso nos mataria, nos mataria — choramingou Golum. — Hobbitsezinhos cruéis. Amarrar nós neste lugar frio e nos deixar, Golum, Golum. — Soluços subiram-lhe pela garganta gorgolejante.
— Não — disse Frodo. — Se vamos matá-lo, é melhor fazer o serviço direito. Mas não podemos fazer isso, não no pé em que estão as coisas. Pobre patife! Não nos fez mal algum.
— Ah não, é? — disse Sam esfregando o ombro. — De qualquer forma, teve a intenção, e continua tendo, eu garanto. Estrangular-nos enquanto dormimos, esse é o plano dele.
— Suponho que sim — disse Frodo. — Mas o que pretende fazer é outro assunto.
Fez uma pausa e ficou pensando. Golum ficou imóvel, mas parou de choramingar. Sam tinha os olhos cravados nele, furioso. Frodo teve a impressão de ouvir, claras mas distantes, vozes vindas do passado:
— É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve a chance!
— Pena? Foi justamente Pena que ele teve. E misericórdia. Não atacar sem necessidade.
— Não sinto nenhuma pena de Golum. Ele merece morrer.
— Merece! Suponho que sim. Muitos que vivem merecem morrer, e alguns que merecem viver, morrem. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para condenar à morte em nome da justiça, temendo por sua própria segurança.  Nem mesmo os sábios conseguem ver os dois lados.
— Muito bem — respondeu ele em voz alta, abaixando a espada. — Mas ainda estou com medo. E mesmo assim, como você pode ver, não vou tocar na criatura. Pois, agora que o vejo, realmente sinto pena dele.
Sam ficou olhando para seu mestre, que parecia estar conversando com alguém que não estava lá. Golum ergueu a cabeça.
— Sssim, somos patifes, precioso — choramingou ele. — Miséria, miséria! Os hobbits não vão matar nós, hobbits bonzinhos.
— Não, não vamos — disse Frodo. — Mas também não vamos soltá-lo, Você está cheio de maldade e traição, Golum. Vai ter de vir conosco, isso é tudo, e vamos vigiá-lo. Mas deve nos ajudar, se puder. O bem com o bem se paga.
— Sssim, realmente! — disse Golum sentando-se. — Hobbits bonzinhos. Vamos com eles. Achar para eles caminhos seguros na escuridão, sim, vamos. E para onde vão nestas terras frias e escuras? Nós fica pensando, sim, nós fica pensando. — Olhou para eles, e um brilho fraco de esperteza e avidez iluminou por um segundo seus olhos opacos que piscavam.
Sam lhe fez uma careta e chupou os dentes; mas teve a impressão de sentir que havia algo estranho sobre a disposição de seu mestre e que o assunto estava acima de qualquer discussão. Mesmo assim, ficou assustado com a resposta de Frodo.
Frodo olhou direto nos olhos de Golum, que se esquivaram e se voltaram para o outro lado.
— Isso você sabe, ou pode imaginar, Sméagol — disse ele numa voz baixa e severa. — Estamos indo para Mordor, é claro. E você sabe o caminho para lá, eu suponho.
— Ach, sss! — disse Golum, cobrindo os ouvidos com as mãos, como se aquela franqueza, e a menção direta dos nomes, o machucassem. — Imaginamos, sim, imaginamos — sussurrou ele — e não queríamos que eles fossem, queríamos? Não, precioso, não os hobbits bonzinhos. Cinzas, cinzas e poeira, e sede há lá; e poços, poços, poços, e orcs, milhares de orcs. Hobbits bonzinhos não devem ir para – ss – lugares assim.
— Então você esteve lá? — insistiu Frodo. — E está sendo atraído de volta, não está?
— Sssim, sssim. Não! — gritou Golum. — Uma vez, foi por acaso, não foi, precioso? Sim, por acaso. Mas não vamos voltar, não, não! — Então, de repente, sua voz e sua língua mudaram, e ele emitiu um soluço gutural, e falou, mas não para eles, — Deixe-me em paz, Golum! Você me machuca. Olhe minhas pobres mãos, golum. Eu, nós, eu não quero voltar. Não consigo encontrá-lo. Estou cansado. Eu, nós não conseguimos encontrá-lo, Golum, Golum, não, não, em lugar nenhum. Estão sempre acordados. Anões, homens, e elfos, elfos terríveis de olhos brilhantes. Não consigo encontrá-lo. Ach! — Levantou-se e cerrou a mão comprida num punho ossudo e descarnado, acenando na direção do leste. — Não vamos! — gritou ele. — Não por você. — Então teve outro colapso. — Golum, Golum — choramingou ele com o rosto virado para o chão. — Não olhe para nós! Vá embora! Vá dormir!
— Ele não vai dormir nem vai embora porque você mandou, Sméagol! — Disse Frodo. — Mas se realmente quer ficar livre dele de novo, então deve me ajudar. E receio que isso signifique encontrar para nós um caminho que leve a ele. Mas não precisa fazer o caminho todo, só até os portões da terra dele.
Golum sentou-se de novo e olhou-o por debaixo das pálpebras.
— Ele está lá — grasnou ele. — Sempre lá. Os orcs vão levá-los por todo o caminho. Fácil achar orcs a leste do Rio. Não peça para Sméagol. Pobre, pobre Sméagol, ele foi embora faz tempo. Eles tomaram seu Precioso, e ele está perdido agora.
— Talvez possamos encontrá-lo de novo, se você vier conosco — disse Frodo.
— Não, não, nunca! Ele perdeu seu Precioso — disse Golum.
— Levante-se! — disse Frodo.
Golum se levantou e encostou-se contra o penhasco.
— Agora! — disse Frodo. — É mais fácil para você achar um caminho de dia ou de noite? Estamos cansados; mas se escolher a noite, partiremos esta noite.
— As grandes luzes machucam nossos olhos, machucam sim — choramingou Golum. — Não sob a Cara Branca, ainda não. Ela vai para trás das colinas logo, ssim. Descansem um pouco primeiro, hobbits bonzinhos!
— Então sente-se — disse Frodo. — E não se mexa!
Os hobbits se sentaram perto dele, um de cada lado, com as costas contra a parede rochosa, descansando as pernas. Não houve necessidade de qualquer combinação por meio de palavras: sabiam que não deviam dormir nem por um segundo.
Lentamente a lua desapareceu. Sombras caíram das colinas, e tudo ficou escuro diante deles. O céu se encheu de estrelas claras. Ninguém se mexia. Golum estava sentado com as pernas dobradas, os joelhos sob o queixo, as mãos e os pés chatos esborrachados no chão, os olhos fechados; mas parecia tenso, como se estivesse pensando ou tentando escutar algo. Frodo olhou de lado para Sam. Os olhos se encontraram e eles entenderam. Relaxaram, recostando as cabeças, fechando ou dando a impressão de fechar os olhos. Logo se podia ouvir o som de sua respiração suave. As mãos de Golum se crisparam um pouco. Quase imperceptivelmente, sua cabeça virou para a direita e para a esquerda, e primeiro um olho e depois o outro abriram uma fresta. Os hobbits não fizeram nenhum sinal. De repente, com velocidade e agilidade assustadoras, direto do chão, com um salto de um gafanhoto ou um sapo, Golum pulou à frente dentro da escuridão. Mas era exatamente isso que os hobbits esperavam. Sam estava em cima dele antes que tivesse dado dois passos depois do salto. Frodo, vindo atrás, agarrou-lhe as pernas e o jogou no chão.
— Sua corda pode se mostrar útil de novo, Sam — disse ele.
Sam pegou a corda.
— E aonde o senhor estava indo nessas terras frias e desertas, Sr. Golum? — rosnou ele. — Nós se pergunta, é sim, nós se pergunta. Estava procurando algum de seus amigos orcs, eu garanto. Criatura má e traiçoeira. É em volta de seu pescoço que esta corda vai ficar, e com um nó bem apertado.
Golum ficou quieto e não tentou mais nenhum truque. Não respondeu a pergunta de Sam, mas lançou-lhe um olhar rápido e venenoso.
— Só precisamos de alguma coisa para controlá-lo — disse Frodo. — Queremos que ele ande, então não adianta amarrar-lhe as pernas – ou os braços, parece que ele os usa bastante. Amarre uma ponta no tornozelo, e agarre firme a outra ponta.
Segurou Golum com os pés, enquanto Sam fazia o nó. O resultado disso surpreendeu aos dois. Golum começou a gritar, um som fraco, cortante, muito horrível de escutar. Contorceu o corpo, tentando levar a boca até o tornozelo e morder a corda. Continuou gritando.
Finalmente Frodo se convenceu de que ele estava realmente sofrendo; mas não podia ser por causa do nó. Examinou-o e viu que não estava apertado demais, na verdade nem apertado o suficiente. O gesto de Sam fora mais gentil que suas palavras.
— Que há com você? — perguntou ele. — Se vai tentar fugir, precisa ser amarrado; mas não queremos machucá-lo.
— Isso machuca nós, isso machuca nós — chiou Golum. — Congela, morde! Os elfos trançaram a corda, malditos! Hobbits maldosos e cruéis! É por isso que nós está tentando escapar, é claro que é por isso, precioso. Já desconfiava que eles eram hobbits cruéis. Eles visita os elfos, elfos ferozes com olhos brilhantes. Tire essa corda de nós, ela machuca nós.
— Não, não vou tirá-la de você — disse Frodo —, a não ser — parou por um momento, pensando —, a não ser que haja uma promessa que você possa fazer e na qual eu possa confiar.
— Sim, ssim — disse Golum, ainda se contorcendo e agarrando o tornozelo. — Isso nos machuca. Nós juramos fazer o que ele deseja.
— Jura? — disse Frodo.
— Sméagol — disse Golum de repente e numa voz clara, abrindo completamente os olhos e lançando a Frodo um olhar estranho. — Sméagol vai jurar sobre o Precioso.
Frodo empertigou-se, e Sam mais uma vez se assustou com suas palavras e sua voz severa.
— Sobre o Precioso? Como ousa? — disse ele. — Pense! Um anel para todos governar e na Escuridão aprisioná-los. Você faria sua promessa em nome disso, Sméagol? Isso irá prendê-lo. Mas isso é mais traiçoeiro que você. Pode torcer suas palavras. Cuidado!
Golum se agachou.
— Sobre o Precioso, sobre o Precioso! — repetiu ele.
— E o que você juraria? — perguntou Frodo.
— Ser muito, muito bom — disse Golum. Depois, arrastando-se até os pés de Frodo, ajoelhou-se diante dele, sussurrando numa voz rouca: um tremor tomou conta de seu corpo, como se as palavras lhe abalassem os próprios ossos de medo. — Sméagol jura que nunca, nunca permitirá que Ele o tenha. Nunca. Sméagol vai salvá-lo. Mas precisa jurar sobre o Precioso.
— Não, não sobre ele — disse Frodo, descendo os olhos até ele e sentindo uma compaixão austera. — Tudo o que deseja é vê-lo e tocá-lo, se puder, embora saiba que isso o deixaria louco. Não sobre ele. Jure por ele, se quiser. Pois você sabe onde ele está. Sim, você sabe, Sméagol. Está diante de você.
Por um momento, Sam teve a impressão de que seu mestre crescera e de que Golum havia encolhido: uma sombra altiva e austera, um senhor poderoso que escondia seu brilho numa nuvem cinzenta, e aos seus pés tinha um cachorrinho ganindo. Apesar disso, os dois eram de alguma forma aparentados e não estranhos: podiam atingir a mente um do outro. Golum se levantou e começou a bater de leve com as patas em Frodo, acariciando seus joelhos.
— Para o chão, para o chão! — disse Frodo. — Agora, fale de sua promessa!
— Nós promete, sim, nós promete! — disse Golum. — Vou servir ao mestre do Precioso. Bom mestre, bom Sméagol, Golum, Golum! — De repente, começou a chorar e a morder o tornozelo outra vez.
— Desamarre a corda, Sam! — disse Frodo.
Relutante, Sam obedeceu. Imediatamente, Golum se levantou e começou a saltitar, como um vira-latas que depois de açoitado é acariciado pelo dono. Desde esse momento, uma mudança, que durou algum tempo, operou-se nele. Ao falar chiava e choramingava menos, e se dirigia aos seus companheiros diretamente, e não à sua própria e preciosa pessoa. Se os hobbits se aproximassem ou fizessem qualquer movimento súbito, ele se encolhia e recuava, e também evitava o toque de suas capas élficas; mas era amigável e na verdade dava pena ver como se esforçava para agradar. Era capaz de rir às gargalhadas e fazer cabriolagens, por qualquer brincadeira, ou até mesmo se Frodo lhe dirigisse a palavra com gentileza, e de chorar se Frodo o repelisse.
Sam não lhe dizia quase nada. Suspeitava dele agora mais do que nunca e, se isso fosse possível, gostava menos do novo Golum, o Sméagol, do que do antigo.
— Bem, Golum, ou como quer que devamos chamá-lo — disse ele. — Agora vamos! A lua já se foi, e a noite está passando. É melhor partirmos!
— Sim, sim — concordou Golum, saltitando. — Vamos! Só há um caminho que vai da extremidade norte até a extremidade sul. Eu o encontrei, é sim. Os orcs não o usam. Os orcs não atravessam o Pântano, eles o contornam andando milhas e milhas. Muita sorte que vocês vieram por aqui. Muita sorte que encontraram Sméagol, é sim. Sigam Sméagol!
Deu alguns passos e olhou para trás de um modo inquisitivo, como um cachorro que os convidasse para um passeio.
— Espere um pouco, Golum! — gritou Sam. — Não vá muito na frente! Vou ficar nos seus calcanhares, e tenho a corda à mão.
— Não, não! — disse Golum. — Sméagol prometeu.
Nas profundezas da noite, sob estrelas claras e agudas, eles partiram.
Golum os conduziu de volta em direção ao norte, pelo caminho através do qual tinham vindo; então desviou bruscamente para a direita, distanciando-se da borda íngreme dos Emyn Muil, descendo as encostas partidas e pedregosas em direção aos brejos lá embaixo. Eles iam sumindo rápida e suavemente na escuridão. Ao longo de todas as léguas de desolação que ficavam diante dos portões de Mordor, fazia-se um silencio negro.

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