2 de abril de 2016

Capítulo I - Muitos encontros

Ao acordar, Frodo se viu deitado numa cama. Num primeiro momento, pensou ter perdido a hora, depois de um sonho desagradável que ainda pairava no limiar de sua memória, Ou, quem sabe, estivera doente? Mas o teto parecia estranho; era plano, com vigas esplendidamente entalhadas. Ficou deitado por mais um tempo, olhando para a luz do sol projetada na parede, e escutando o som de uma cachoeira.
— Onde estou, e que horas são? — disse ele em voz alta para o teto.
— Na Casa de Elrond, e são dez da manhã — disse uma voz. — Estamos na manhã do dia 24 de outubro, se quiser saber.
— Gandalf. — gritou Frodo, sentando-se.
Ali estava o velho mago, sentado numa poltrona próxima à janela aberta.
— Sim — disse ele. — E você tem sorte por estar aqui, também, depois de todas as coisas absurdas que fez desde que saiu de casa.
Frodo se deitou de novo. Sentia-se bem demais para discutir, e de qualquer forma não julgava que levaria a melhor numa discussão. Estava inteiramente acordado agora, e a lembrança da viagem retornava à sua mente: o “atalho” desastroso através da Floresta Velha, o “acidente” no Pônei Saltitante, e a loucura de colocar o Anel naquele valezinho embaixo do Topo do Vento. Enquanto pensava em todas essas coisas e tentava em vão recordar sua chegada a Valfenda, houve um longo silêncio, apenas quebrado pelas suaves baforadas do cachimbo de Gandalf, que soprava anéis de fumaça branca para fora da janela.
— Onde está Sam? — perguntou Frodo finalmente. — Tudo bem com os outros?
— Sim, estão sãos e salvos — respondeu Gandalf. — Sam ficou aqui até que o mandei descansar um pouco, cerca de uma hora atrás.
— O que aconteceu no Vau? — perguntou Frodo. — Parece que tudo estava de alguma forma tão embaçado; e ainda está.
— De fato. Você estava começando a desaparecer — respondeu Gandalf. — O ferimento estava finalmente vencendo-o. Mais algumas horas e não poderíamos mais ajudá-lo. Mas existe uma certa força em você, meu querido hobbit! Demonstrou isso no Túmulo. Aquilo foi muito arriscado: talvez o momento mais perigoso de todos. Eu gostaria que tivesse resistido no Topo do Vento.
— Parece que você já sabe de muita coisa — disse Frodo. — Não comentei com os outros sobre o Túmulo. Em primeiro lugar, foi horrível demais, e em segundo, havia outras coisas para pensar. Como é que você sabe sobre isso?
— Conversamos longamente durante seu sono, Frodo — disse Gandalf suavemente. — Não foi difícil para mim ler sua mente e sua memória. Não se preocupe! Embora eu tenha dito “coisas absurdas” agora há pouco, não foi essa a minha intenção. Tenho você em alta conta – e os outros também. Não foi pouca coisa chegar até aqui, passando por tantos perigos, e ainda trazendo o Anel.
— Jamais teria conseguido sem Passolargo — disse Frodo. — Mas precisávamos de você. Eu não sabia o que fazer sem sua ajuda.
— Eu me atrasei — disse Gandalf. — E isso quase foi nossa ruína. Mas, mesmo assim, não tenho certeza. Talvez tenha sido melhor assim.
— Gostaria que me contasse o que aconteceu.
— Tudo a seu tempo! Você não deve falar e se preocupar com nada hoje. São ordens de Elrond.
— Mas conversar me faria parar de pensar e imaginar, que são coisas muito cansativas — disse Frodo. — Estou plenamente acordado agora, e lembro muitas coisas que precisam ser explicadas. Por que você se atrasou? Tem de me contar pelo menos isso.
— Logo vai ouvir o que quer saber — disse Gandalf. — Vamos ter um Conselho, logo que você estiver restabelecido. Por agora, só direi que fui mantido prisioneiro.
— Você? — gritou Frodo.
— Sim, eu, Gandalf, o Cinzento — disse o mago solenemente. — Há muitos poderes no mundo, trabalhando para o bem e para o mal. Alguns são maiores que eu. Contra alguns, minhas forças ainda não foram medidas. Mas minha hora está chegando. O senhor de Morgul e seus Cavaleiros Negros se manifestaram. A guerra está se formando!
— Então você já sabia dos Cavaleiros – antes que eu os encontrasse?
— Sim, sabia da existência deles. Na verdade, mencionei-os uma vez a você, pois os Cavaleiros Negros são os Espectros do Anel, os Nove Servidores do Senhor dos Anéis. Mas não sabia que eles tinham novamente se levantado, ou teria fugido com você de imediato. Só tive notícias deles depois que o deixei em junho; mas essa história deve esperar. Por enquanto, fomos salvos do desastre, por Aragorn.
— Sim — disse Frodo. — Foi Passolargo quem nos salvou. No entanto, tive medo dele no começo. Sam nunca confiou de verdade nele, eu acho. De qualquer forma, não até que encontramos Glorfindel.
Gandalf sorriu.
— Já soube tudo sobre Sam — disse ele. — Agora não restam mais dúvidas.
— Fico contente — disse Frodo. — Pois me afeiçoei muito a Passolargo. Bem, afeiçoei não é bem a palavra. Quero dizer que ele me é muito caro, embora seja estranho, e às vezes austero. Na verdade, ele sempre me faz lembrar você. Não sabia que uma das pessoas grandes podia ser assim. Eu pensava, bem, eu pensava que eles eram só grandes, e bastante estúpidos: gentis e estúpidos como Carrapicho, ou estúpidos e maldosos como Bill Samambaia. Mas também não sabemos muito sobre os homens no Condado, a não ser talvez sobre os moradores de Bri.
— Nem sobre esses você sabe muita coisa, se você acha que o velho Cevado é estúpido — disse Gandalf — Ele é muito sábio em seu próprio terreno. Pensa menos do que fala, e mais devagar; no entanto, ele é capaz de enxergar através de uma parede de tijolos em tempo (como dizem em Bri). Mas restam poucos na Terra Média como Aragorn, filho de Arathorri. A raça dos Reis que vieram do outro lado do Mar está quase no fim. Pode ser que esta Guerra do Anel seja a última aventura deles.
— Quer mesmo dizer que Passolargo faz parte do povo dos antigos Reis? — disse Frodo surpreso. — Pensei que tivessem todos desaparecido há muito tempo, pensei que ele fosse apenas um guardião.
— Apenas um guardião! — gritou Gandalf — Meu querido Frodo, é exatamente isso que os guardiões são: os últimos remanescentes no Norte desse grande povo, os homens do Oeste. Já me ajudaram antes; e vou precisar da ajuda deles no futuro; agora chegamos a Valfenda, mas o Anel ainda não está a salvo.
— Acho que não — disse Frodo. — Mas, até agora, meu único pensamento foi chegar até aqui, e espero que não precise ir mais além. É muito agradável apenas descansar. Tive um mês de exílio e aventura, e acho que para mim chega.
Ficou quieto e fechou os olhos. Depois de uns momentos, falou de novo.
— Estive calculando — disse ele — e a soma dos dias não bate com a data de 24 de outubro. Deveria ser dia 21. Devemos ter chegado ao Vau no dia 20.
— Você falou e pensou mais do que devia — disse Gandalf. — Como estão seu braço e flanco?
— Não sei — respondeu Frodo. — Não sinto nada: o que é uma melhora, mas — ele fez um esforço — posso mexer um pouco o braço de novo. Sim, sinto-o voltar à vida. Não está gelado — acrescentou ele, tocando a mão esquerda com a direita.
— Ótimo — disse Gandalf. — Está se recuperando depressa. Logo estará bom de novo. Elrond o curou: cuidou de você vários dias, desde que foi trazido para cá.
— Dias?
— Bem, quatro noites e três dias, para ser exato. Os elfos o trouxeram do Vau na noite do dia 20, e foi aí que você perdeu a conta. Estivemos terrivelmente ansiosos, e Sam quase não deixou o seu lado, dia ou noite, a não ser para levar recados. Elrond é um mestre das curas, mas as armas do Inimigo são mortais. Para lhe dizer a verdade, eu tinha muito pouca esperança, pois suspeitava que havia ainda algum fragmento da lâmina no ferimento cicatrizado. Mas não foi encontrado até ontem à noite. Então Elrond removeu um estilhaço. Estava enterrado bem fundo, e estava afundando cada vez mais.
Frodo tremeu, lembrando a faca cruel com a lâmina manchada, que desaparecera nas mãos de Passolargo.
— Não se assuste! — disse Gandalf. — Já passou. O estilhaço foi derretido. E parece que os hobbits relutam em desaparecer. Conheço fortes guerreiros entre as pessoas grandes que teriam rapidamente sido vencidos por aquele estilhaço, que você carregou consigo por dezessete dias.
— Que mal queriam me causar? — perguntou Frodo. — O que os Cavaleiros estavam tentando fazer?
— Tentaram perfurar seu coração com uma faca de Morgul, que permanece no ferimento. Se tivessem conseguido, você teria ficado como eles, apenas mais fraco e sob o seu comando. Teria se transformado num espectro sob o domínio do Senhor do Escuro, que o torturaria por tentar reter o Anel, se é que existe algum tormento maior do que ser roubado e vê-lo passando às mãos do Inimigo.
— Ainda bem que não percebi esse perigo terrível! — disse Frodo em voz baixa. — É claro que estava mortalmente apavorado, mas, se soubesse mais, não teria ousado nem me mover. É incrível eu ter escapado!
— Sim, a sorte ou o destino o ajudaram — disse Gandalf — para não falar na coragem. Seu coração não foi atingido, e apenas o ombro foi perfurado, e isso foi porque você resistiu até o último momento. Mas você escapou por um fio, como se diz. O perigo maior que correu foi no momento em que colocou o Anel, pois então estava metade no mundo dos espectros, e eles poderiam tê-lo agarrado. Você conseguia vê-los, e eles conseguiam ver você.
— Eu sei — disse Frodo. — Foi terrível olhar para eles! Mas por que todos nós conseguíamos enxergar os cavalos?
— Porque os cavalos são reais; assim como os mantos negros são roupas reais que eles usam para dar forma à sua própria inexistência, quando têm de lidar com os vivos.
— Então por que esses cavalos negros aguentam tais cavaleiros? Todos os outros animais se apavoram quando eles se aproximam, até mesmo o cavalo élfico de Glorfindel. Cachorros uivam e gansos berram na presença deles.
— Porque esses cavalos nascem e são criados a serviço do Senhor do Escuro em Mordor. Nem todos os seus servidores e empregados são espectros! Há orcs e trolls, há wargs e lobisomens; houve e ainda há muitos homens, guerreiros e reis, que andam vivos sob o sol, e mesmo assim estão sob seu domínio. E o número desses homens cresce dia a dia.
— Que me diz de Valfenda e dos elfos? Valfenda é um lugar seguro?
— Sim, atualmente, até que todo o resto tenha sido conquistado. Os elfos podem temer o Senhor do Escuro, e podem fugir de sua presença, mas nunca mais irão escutá-lo ou servi-lo. E aqui em Valfenda ainda vivem alguns dos maiores inimigos dele: os Sábios élficos, senhores de Eldar, de além dos mares mais distantes. Estes não temem os Espectros do Anel, pois os que moraram no Reino Abençoado vivem ao mesmo tempo nos dois mundos, e têm grande poder contra os Visíveis e os Invisíveis.
— Pensei ter visto uma figura branca que brilhava e não se apagava como as outras. Então era Glorfindel?
— Sim. Por um momento você o viu como ele é do outro lado: um dos poderosos entre os Primogênitos. Ele é um senhor élfico de uma casa de príncipes. Na verdade, existe um poder em Valfenda capaz de resistir à força de Mordor, por um tempo: e em outros lugares ainda moram outros poderes. Existe poder, também, de um outro tipo no Condado. Mas todos esses lugares logo vão se transformar em ilhas sob um cerco, se as coisas continuarem a se encaminhar desse modo. O Senhor do Escuro está lançando toda sua força. — Mesmo assim... — disse ele, levantando-se de repente e empinando o queixo para frente, o que fez com que sua barba acompanhasse o movimento, reta e dura, como arame eriçado. — Mesmo assim, devemos conservar a coragem. Logo você estará bem, se eu não exaurir suas forças com tantas conversas. Você está em Valfenda, e não precisa se preocupar com nada no momento.
— Não tenho coragem alguma para conservar — disse Frodo. — Mas não estou preocupado no momento. Apenas me dê notícias de meus amigos, e me conte o fim do episódio no Vau, como já pedi várias vezes, e vou ficar satisfeito por enquanto. Depois disso vou dormir mais um pouco, eu acho; mas não conseguirei fechar os olhos antes que você me conte a história até o fim.
Gandalf levou a poltrona até o lado da cama, e olhou Frodo demoradamente.
A cor voltara às suas faces, e os olhos estavam claros, plenamente acordados e atentos. Estava sorrindo, e parecia que quase tudo ia bem com ele. Mas, aos olhos do mago, uma leve mudança se operara, como se o envolvesse um toque de transparência, especialmente notável na mão esquerda, que estava para fora do cobertor.
“Até isso deve esperar”, disse Gandalf para si mesmo. “Ele ainda não está nem a meio caminho da recuperação total, e como ficará no fim nem mesmo Elrond pode dizer. Nenhuma transformação para o mal, eu acho. Pode ser que se transforme num vidro cheio de luz clara, para os olhos que puderem enxergar.”
— Sua aparência está esplêndida — disse ele em voz alta. — Vou arriscar uma história curta sem consultar Elrond. Mas bem curta, veja bem, e então você deve dormir de novo. Foi isto que aconteceu, pelo que pude entender: os Cavaleiros vieram direto na sua direção, assim que você fugiu. Não precisavam mais dos cavalos como guias: você tinha se tornado visível aos seus olhos, já estando no limiar do mundo deles. E também o Anel os atraía. Seus amigos pularam de lado, para fora da estrada, ou teriam sido pisoteados pelos cavalos. Sabiam que nada poderia salvá-lo, se o cavalo branco não pudesse fazê-lo. Os Cavaleiros eram rápidos demais para serem alcançados, e estavam em número muito grande para serem enfrentados. A pé, nem mesmo Glorfindel e Aragorn juntos poderiam resistir aos Nove de uma vez.
“Quando os Espectros do Anel passaram, nossos amigos correram atrás deles. Perto do Vau existe uma pequena reentrância ao lado da estrada, coberta por algumas árvores raquíticas. Lá acenderam rapidamente uma fogueira, pois Glorfindel sabia que uma enchente desceria, se os Cavaleiros tentassem atravessar, e então ele teria de lidar com qualquer um que tivesse ficado do lado do rio onde estava. O momento da enchente chegou; ele saiu correndo, seguido por Aragorn e os outros, com tochas flamejantes. Presos entre fogo e água, e vendo o senhor élfico se revelar em sua ira, os Cavaleiros se intimidaram, e os cavalos ficaram alucinados. Três foram levados pelo primeiro assalto da enchente; os outros foram arremessados para dentro da água pelos próprios cavalos, e vencidos.
— E este foi o fim dos Cavaleiros Negros? — perguntou Frodo.
— Não! — disse Gandalf. — Os cavalos devem ter sucumbido, e sem os animais os Cavaleiros ficam aleijados. Mas os Espectros do Anel não são assim tão facilmente destruídos. Entretanto, não há mais nada a temer por enquanto. Seus amigos atravessaram depois que a enchente passou, e encontraram você deitado, com o rosto virado para baixo, no topo da margem, e em cima de uma espada quebrada. O cavalo estava montando guarda ao lado. Você estava pálido e frio; recearam que estivesse morto, ou coisa pior. O pessoal de Elrond encontrou-os carregando-o lentamente até Valfenda.
— Quem fez a enchente? — perguntou Frodo.
— Elrond a comandou — respondeu Gandalf. — O rio sob este vale está sob seu domínio, e pode se levantar em ira quando há uma grande necessidade de barrar o Vau. Assim que o capitão dos Espectros do Anel cavalgou para dentro da água, a enchente foi lançada. Se é que posso dizer isso, acrescentei uns toques próprios: você pode não ter notado, mas algumas das ondas tomaram a forma de grandes cavalos brancos com cavaleiros brancos e brilhantes, e havia muitas pedras que rolavam e se esfacelavam. Por um momento, pensei termos liberado uma ira muito intensa, e que poderíamos perder o controle da enchente, que os carregaria para longe. Existe uma grande força nas águas formadas pela neve das Montanhas Sombrias.
— Sim, agora tudo volta a minha mente — disse Frodo. — O rugido tremendo. Pensei que estivesse me afogando, com meus amigos, inimigos e tudo mais. Mas agora estamos salvos!
Gandalf olhou rápido para Frodo, que agora fechara os olhos.
— Sim, estão todos a salvo por enquanto. Logo haverá uma festa e divertimento para comemorar a vitória no Vau do Bruinen, e todos vocês estarão lá, em lugares de honra.
— Esplêndido! — disse Frodo. — É maravilhoso que Elrond, Glorfindel e esses grandes senhores, para não mencionar Passolargo, prestem-se a tanto trabalho e demonstrem tamanha gentileza.
— Bem, existem muitas razões para isso — disse Gandalf, sorrindo. — Eu sou uma boa razão. O Anel é outra: você é o Portador do Anel. E você é o herdeiro de Bilbo, aquele que o encontrou.
— Meu querido Bilbo! — disse Frodo sonolento. — Pergunto-me onde estará. Gostaria que estivesse aqui e pudesse saber de tudo que aconteceu. Iria rir de tudo. A vaca pula pra Lua! E o pobre e velho troll! — Com isso, adormeceu profundamente.
Frodo agora estava a salvo, na última Casa Amiga a Leste do Mar. Essa casa era, como Bilbo tinha dito muitas vezes, “uma casa perfeita, para quem gosta de comer ou dormir, de contar histórias ou de cantar, ou apenas de se sentar e pensar nas coisas, ou ainda para quem gosta de uma mistura agradável de tudo isso”. A simples estada ali representava uma cura para o cansaço, o medo ou a tristeza.
Quando a noite ia chegando, Frodo acordou de novo, e percebeu que não sentia mais necessidade de dormir ou descansar, mas queria comida e bebida, e provavelmente um pouco de cantoria e histórias depois. Saiu da cama e descobriu que quase podia usar o braço como sempre fizera. Encontrou, estendidas à sua espera, roupas limpas de tecido verde, que lhe caíam de modo perfeito. Olhando no espelho, assustou-se ao ver uma imagem de si mesmo muito mais magra do que a que recordava: a imagem era notavelmente parecida com aquela do jovem sobrinho de Bilbo, que costumava passear com o tio no Condado, mas os olhos o observavam pensativamente.
— Sim, você viu uma ou duas coisas desde que espiou através de um espelho pela última vez — disse ele para seu reflexo. — Mas, desta vez, o encontro foi feliz! — Espreguiçou-se e assobiou uma melodia.
Nesse momento, ouviu uma batida na porta, e Sam entrou. Correu em direção a Frodo e pegou sua mão esquerda, desajeitado e tímido. Tocou-a suavemente, e depois corou, virando-se depressa para o outro lado.
— Oi, Sam! — disse Frodo.
— Está quente! — disse Sam. — Quero dizer, sua mão, Sr. Frodo. Esteve fria durante as longas noites. Mas soem as trombetas! — gritou ele, voltando-se de novo com um brilho nos olhos, dançando pelo quarto. — É bom vê-lo novo em folha outra vez, senhor! Gandalf me pediu que viesse ver se já estava pronto para descer, e eu pensei que ele estava brincando.
— Estou pronto — disse Frodo. — Vamos procurar o resto do grupo!
— Posso levá-lo até eles, senhor — disse Sam. — A casa é grande, e muito peculiar. Sempre há mais alguma coisa para descobrir, e nunca se sabe o que está depois da curva de um corredor. E elfos, senhor! Elfos aqui, elfos ali! Alguns parecidos com reis, terríveis e esplêndidos; outros alegres como crianças. E a música e a cantoria – não que eu tenha tido muito tempo ou ânimo para escutar desde que chegamos aqui. Mas já estou começando a conhecer alguma coisa do lugar.
— Sei o que esteve fazendo, Sam — disse Frodo, pegando o braço do outro. — Mas hoje vai se divertir, e ouvir música para alegrar seu coração. Venha! Leve-me pelos corredores!
Sam o conduziu por vários corredores e desceram muitos degraus, chegando a um jardim alto sobre a margem íngreme do rio. Frodo encontrou os amigos sentados num alpendre, no lado da casa que dava para o Leste. Sombras já cobriam o vale lá embaixo, mas ainda havia luz nas encostas das montanhas acima.
O ar estava quente. O som da água correndo e caindo era alto, e a noite se enchia do aroma suave de árvores e flores, como se o verão ainda permanecesse nos jardins de Elrond.
— Salve! — gritou Pippin, pulando de pé. — Aí vem nosso nobre primo! Abram alas para Frodo, Senhor do Anel!
— Pssiu! — fez Gandalf, que estava entre as sombras na parte de trás do alpendre. — Coisas maléficas não entram neste vale, mas mesmo assim não devemos nomeá-las. O Senhor do Anel não é Frodo, mas o Senhor da Torre Escura de Mordor, cujo poder está de novo se espalhando pelo mundo! Estamos numa fortaleza. Lá fora está ficando escuro.
— Gandalf tem dito muitas coisas alegres como essa — disse Pippin. — Acha que preciso me comportar. Mas de certo modo parece impossível sentir-se triste ou deprimido num lugar como este. Sinto que poderia cantar – se soubesse a canção certa para a ocasião.
— Eu mesmo sinto vontade de cantar — riu Frodo. — Apesar de que agora sinto mais vontade de comer e beber.
— Tudo isso vai ser sanado logo — disse Pippin. — Você está demonstrando sua costumeira habilidade de acordar bem na hora da refeição!
— Mais que refeição! Um banquete! — disse Merry. — Assim que Gandalf contou que você estava recuperado, os preparativos começaram. — Mal tinha acabado de falar, e o badalar de muitos sinos chamou todos para o salão.
O salão da casa de Elrond estava cheio de pessoas: elfos na maioria, embora houvesse alguns convidados diferentes. Elrond, como era de costume, sentou-se numa cadeira grande na cabeceira de uma mesa comprida sobre o tablado; perto dele, de um lado sentou-se Glorfindel, e do outro, Gandalf.
Frodo olhou-os admirado, pois nunca tinha visto pessoalmente Elrond, celebrado em muitas histórias. Sentados à direita e à esquerda, Glorfindel, e até mesmo Gandalf, que julgava conhecer tão bem, revelaram-se senhores de dignidade e poder.
Gandalf era mais baixo que os outros dois, mas seus longos cabelos brancos, a vasta barba prateada e os ombros largos conferiam-lhe a aparência de algum rei sábio de antigas lendas. Em seu rosto envelhecido, adornado por grossas sobrancelhas brancas, os olhos escuros pareciam ser feitos de carvão, prontos a se acender em chamas a qualquer momento.
Glorfindel era alto e ereto; o cabelo de um dourado brilhante, o rosto belo e jovem, temerário e cheio de alegria; os olhos eram brilhantes e agudos, a voz parecia música; em sua fronte se alojava a sabedoria; na mão, a força.
O rosto de Elrond parecia eterno, nem velho nem jovem, embora nele se inscrevesse a memória de muitas coisas, alegres e tristes. Os cabelos eram escuros como as sombras da noite, e sobre a cabeça via-se um diadema de prata; os olhos eram cinzentos como uma noite clara, e neles havia uma luz como a das estrelas. Parecia venerável, como um rei coroado com muitos invernos, e ao mesmo tempo vigoroso como um guerreiro experiente, no auge da força. Era o Senhor de Valfenda, poderoso entre elfos e homens.
No meio da mesa, diante de tapeçarias tecidas penduradas na parede, havia uma cadeira sob um dossel, e ali se sentava uma mulher bonita de se olhar, que era tão parecida com Elrond em suas formas femininas que Frodo adivinhou que ela era uma parente próxima dele. Era jovem, e ao mesmo tempo não era. As tranças de seu cabelo escuro não tinham sido tocadas pela neve, e os braços brancos e o rosto claro eram perfeitos e suaves, e a luz das estrelas estava em seus olhos brilhantes, cinzentos como uma noite de céu limpo; apesar disso, parecia-se com uma rainha, e seu olhar era cheio de ponderação e sabedoria, como o olhar de alguém que conhece muitas coisas que os anos trazem. Na altura da fronte, a cabeça estava coberta com uma touca de renda prateada, enredada com pequenas pedras, de um brilho branco; mas o traje, de um cinza pálido, não tinha qualquer ornamento, a não ser um cinto de folhas lavradas em prata.
Foi assim que Frodo viu aquela que poucos mortais viram: Arwen, a filha de Elrond, através da qual, dizia-se, a figura de Lúthien tinha voltado à terra de novo. E ela era chamada de Undómiel, pois era a Estrela Vespertina de seu povo. Tinha permanecido muito tempo na terra dos parentes de sua mãe, em Lórien, além das montanhas, e só recentemente retomara a Valfenda, à casa de seu pai. Mas os irmãos, Elladan e Elrohir, estavam fora, vagando pelo mundo: frequentemente iam para longe com os guardiões do Norte, nunca se esquecendo do tormento de sua mãe nos covis dos orcs.
Frodo nunca tinha visto uma criatura tão adorável, nem imaginado em sua mente; ficou surpreso e embaraçado ao ver que tinha um lugar reservado à mesa de Elrond, entre todas essas pessoas, tão importantes e belas. Embora tivesse uma cadeira adequada, e estivesse erguido por várias almofadas, sentiu-se muito pequeno, e fora de lugar, mas esse sentimento logo passou. O banquete foi animado, e a comida, tudo o que sua fome poderia desejar. Demorou um pouco até olhar em volta de novo, ou simplesmente se virar para os vizinhos.
Primeiro, procurou os amigos. Sam implorara permissão para servir seu patrão, mas disseram-lhe que dessa vez ele era um convidado de honra. Frodo agora podia vê-lo, sentado com Pippin e Merry na extremidade de uma das mesas laterais, que ficava perto do estrado. Mas não se via sinal de Passolargo.
À direita de Frodo estava um anão de aparência importante, luxuosamente vestido. A barba, muito comprida e em forma de forquilha, era branca, quase tão branca quanto o branco níveo de suas roupas. Usava um cinto de prata, e em volta do pescoço uma corrente de prata com diamantes. Frodo parou de comer para olhá-lo.
— Bem-vindo seja! — disse o anão, virando-se na direção dele. Depois realmente levantou-se da cadeira e fez uma reverência. — Glóin às suas ordens — disse ele, e fez uma reverência ainda maior.
— Frodo Bolseiro, às suas ordens e de sua família — disse Frodo corretamente, levantando-se surpreso e espalhando suas almofadas pelo chão. — Estaria eu certo em supor que o senhor é aquele Glóin, um dos doze companheiros do grande Thorin Escudo de Carvalho?
— Perfeitamente certo — respondeu o anão, recolhendo as almofadas e educadamente ajudando Frodo a se ajeitar de novo na cadeira. — E eu não pergunto, pois já me disseram que você é o parente e herdeiro adotado de nosso amigo Bilbo, o renomado. Permita-me felicitá-lo por sua recuperação.
— Muito obrigado — disse Frodo.
— Ouvi dizer que passou por estranhas aventuras — disse Glóin. — Tenho pensado muito no motivo que traria quatro hobbits numa viagem tão longa. Nada assim aconteceu desde que Bilbo veio conosco. Mas talvez eu não deva perguntar tantas coisas, uma vez que Elrond e Gandalf não parecem dispostos a falar sobre o assunto.
— Acho que não falaremos disso, pelo menos por enquanto — disse Frodo educadamente. Percebeu que, mesmo na casa de Elrond, o assunto do Anel não era objeto de conversas casuais; de qualquer modo, queria esquecer seus problemas por um tempo. — Mas estou igualmente curioso — acrescentou ele — em saber o que traz um anão tão importante a um lugar tão distante da Montanha Solitária.
Glóm olhou para ele.
— Se não ouviu sobre isso, acho que também não falaremos do assunto por enquanto. Mestre Elrond vai nos reunir a todos em breve, eu acredito, e então ouviremos muitas coisas. Mas há muitas outras histórias que podem ser contadas.
Conversaram durante todo o resto do banquete, mas Frodo ouviu mais do que falou; as notícias sobre o Condado, exceto pelo Anel, pareciam pequenas, distantes e sem importância, enquanto Glóin tinha muito a contar sobre os acontecimentos da região Norte das Terras Ermas. Frodo soube que Grimbeorn, o Velho, filho de Beorn, era agora senhor de muitos homens vigorosos, e em suas terras, entre as Montanhas e a Floresta das Trevas, nem orcs nem lobos ousavam entrar.
— Na verdade — disse Glóin — se não fosse pelos beomings, a passagem de Valle até Valfenda teria há muito tempo se tornado impossível. São homens valorosos, e mantêm aberto o Passo Alto e o Vau de Carrock. Mas cobram muito caro — acrescentou ele, balançando a cabeça. — E, como Beorn, o Velho, eles não morrem de amores pelos anões. Ainda assim, são confiáveis, o que já é muito nos dias de hoje. Em nenhum outro lugar existem homens tão amigáveis conosco como os homens de Valle. São um povo bom, os bardings. O neto de Bard, o Arqueiro, os governa: Brand filho de Bain, filho de Bard. É um rei forte, e seu reino agora alcança regiões ao extremo Sul e Leste de Esgaroth.
— E o que tem a contar sobre seu próprio povo? — perguntou Frodo.
— Há muito o que contar, coisas boas e ruins — disse Glóin. — Mas a maioria é boa: até agora tivemos sorte, mas não escapamos da sombra desta época. Se realmente deseja escutar sobre nós, terei prazer em contar acontecimentos. Mas me interrompa quando ficar cansado! As línguas dos anões não param quando falam de seus assuntos, como dizem por aí.
E, com isso, Glóin embarcou num longo relato dos feitos do Reinado dos Anões. Estava deliciado por ter encontrado um ouvinte tão educado; Frodo não mostrava sinais de cansaço, e não tentou mudar de assunto, embora na verdade tenha ficado bastante perdido em meio àqueles nomes estranhos de pessoas e lugares de que nunca tinha ouvido falar antes. Entretanto, ficou interessado ao ouvir que Dám ainda era rei sob a Montanha, e estava agora velho (tendo ultrapassado seu ducentésimo quinquagésimo aniversário), sendo venerável e fabulosamente rico. Dos dez companheiros que tinham sobrevivido à Batalha dos Cinco Exércitos, sete ainda estavam com ele: Dwalin, Glóm, Dori, Nori, Bifúr, Bofur e Bombur. Bombur agora estava tão gordo que não podia sair da cama sozinho, e precisava de cinco anões jovens para levantá-lo.
— E o que aconteceu com Balin, Ori e Óin? — perguntou Frodo.
Uma sombra cobriu o rosto de Glóin.
— Não sabemos — respondeu ele. — Foi principalmente por causa de Balin que eu vim até aqui buscar o aconselhamento dos que moram em Valfenda. Mas vamos falar de coisas mais alegres nesta noite.
Glóin começou então a falar dos trabalhos de seu povo, contando a Frodo sobre suas grandes realizações em Valle e sob a Montanha.
— Trabalhamos bem — disse ele. — Mas no trabalho com metal não podemos nos comparar a nossos pais, dos quais vários segredos se perderam. Fazemos boas armaduras e espadas afiadas, mas não podemos reproduzir malhas ou lâminas como aquelas feitas antes de o dragão chegar. Superamos os dias antigos apenas na mineração e na construção. Você precisava ver os aquedutos de Valle, Frodo, e as fontes e os lagos! Deveria ver as estradas pavimentadas com pedras de várias cores! E os salões e ruas feitas em cavernas sob a terra, com arcos entalhados como árvores; e os terraços e torres sobre as encostas da Montanha! Então veria que não ficamos de braços cruzados!
— Irei até lá para ver tudo, se puder — disse Frodo. — Bilbo ficaria muito surpreso ao saber das transformações na Desolação de Smaug.
Glóm olhou para Frodo e sorriu.
— Você gostava muito de Bilbo, não é? — perguntou ele.
— Sim — respondeu Frodo. — Encontrá-lo de novo me traria mais alegria do que ver todas as torres e palácios do mundo.
Finalmente o banquete chegou ao fim. Elrond e Arwen se levantaram e se afastaram pelo salão, e o grupo os seguiu na devida ordem. As portas foram abertas, e todos seguiram através de um corredor largo, passando por outras portas, chegando a um outro salão. Nesse lugar não havia mesas, mas uma fogueira bem acesa queimava numa grande lareira, em meio a dois pilares entalhados.
Frodo se viu andando ao lado de Gandalf.
— Este é o Salão do Fogo — disse o mago. — Aqui poderá escutar muitas canções e histórias – se conseguir ficar acordado. Mas, a não ser em dias importantes, o salão fica vazio e quieto, e aqui vêm pessoas que desejam ter paz e refletir. O fogo fica sempre aceso, durante todo o ano, mas quase não há outra fonte de luz.
Quando Elrond entrava e se encaminhava para o lugar preparado para ele, os menestréis élficos começaram a executar uma música suave. Lentamente o salão se encheu, e Frodo olhava com prazer os muitos rostos bonitos que se reuniam; a luz dourada do fogo brincava naquelas faces e dançava em seus cabelos. De repente notou, num ponto não muito distante do lado oposto ao fogo, uma pequena figura escura, sentada num banco, com as costas apoiadas num pilar. Ao seu lado, no chão, estava uma taça de bebida e um pouco de pão.
Frodo se perguntou se estaria doente (se é que alguém ficava doente em Valfenda) e por isso não pudera comparecer ao banquete. A cabeça parecia caída sobre o peito, num sono profundo, e uma dobra da capa escura cobria-lhe o rosto.
Elrond foi na frente e parou diante da figura silenciosa.
— Acorde, pequeno mestre! — disse ele com um sorriso. Então, voltando-se, fez um sinal para Frodo. — Finalmente é chegada a hora que você esperou com tanta ansiedade, Frodo — disse ele. — Aqui está o amigo de quem sente tanta saudade.
A figura escura levantou a cabeça, descobrindo o rosto.
— Bilbo! — gritou Frodo, reconhecendo-o de repente, e pulando em direção a ele.
— Olá, Frodo, meu rapaz! — disse Bilbo. — Então finalmente chegou até aqui. Eu esperava que conseguisse. Bem, bem! Então toda essa festa é em sua homenagem, pelo que ouvi. Espero que tenha se divertido.
— Por que você não estava lá? — gritou Frodo. — E por que não me deixaram vê-lo antes?
— Porque você estava dormindo. Eu vi você muitas vezes. Fiquei ao seu lado todos os dias, junto com Sam. Mas, quanto ao banquete, não costumo frequentar eventos desse tipo ultimamente. E eu tinha outra coisa para fazer.
— O que estava fazendo?
— Bem, estava sentado, pensando. Faço muito isso nos últimos tempos, e aqui é o melhor lugar para fazê-lo, geralmente.
— Acordar, hein? — disse ele, piscando um olho para Elrond.
Havia um brilho vivo naquele olhar, e nenhum sinal de sonolência ou cansaço que Frodo pudesse ver.
— Acordar! Eu não estava dormindo, Mestre Elrond. E, se quiser saber, vocês todos saíram da festa muito cedo, e me atrapalharam... bem no meio de uma canção que estava fazendo. Enrosquei em um ou dois versos, e estava pensando neles; mas agora suponho que nunca mais vou conseguir compô-los direito. Haverá tanta cantoria que as ideias serão varridas da minha mente. Terei de pedir ao meu amigo, o Dúnadain, para me ajudar. Onde ele está?
Elrond riu.
— Será encontrado — disse ele. — E daí você se recolhe num canto e termina a tarefa, e então vamos ouvi-la e julgá-la antes do fim de nossas comemorações.
Mensageiros foram enviados para encontrar o amigo de Bilbo, embora ninguém soubesse onde ele estava, e por que não tinha participado da festa.
Enquanto isso, Bilbo e Frodo sentaram-se lado a lado, e Sam veio logo para perto deles. Conversaram em voz baixa, esquecidos da alegria e da música no salão ao redor. Bilbo não tinha muito a falar de si mesmo.
Quando partiu da Vila dos Hobbits, vagou sem destino, ao longo da Estrada, ou pelos campos que a margeiam; mas de alguma forma tinha sempre se dirigido para Valfenda.
— Cheguei aqui sem muitas aventuras — disse ele. — Depois de um descanso, fui com os anões até Valle: minha última viagem. Não devo viajar mais. O velho Balin foi embora. Depois voltei para cá, e aqui tenho permanecido. E, é claro, componho umas canções. De vez em quando eles as cantam, só para me satisfazer, eu acho. Na verdade, não estão à altura de Valfenda. E escuto e penso. O tempo parece não passar aqui: apenas é. Somando tudo, um lugar notável.
“Aqui escuto todo tipo de notícia, de além das Montanhas, e do Sul, mas quase nada do Condado. Ouvi sobre o Anel, é claro. Gandalf frequentemente vem aqui. Não que tenha me contado muita coisa, ficou mais reservado que nunca nestes últimos anos. O Dúnadan me contou mais. Imagine, aquele meu anel causando tanta confusão! É uma pena que Gandalf não tenha descoberto mais coisas antes, eu mesmo poderia ter trazido o Anel há muito tempo, sem tantos problemas. Pensei várias vezes em voltar para a Vila dos Hobbits para fazer isso; mas estou ficando velho, e eles não deixariam: quero dizer, Gandalf e Elrond. Parece que eles achavam que o Inimigo estava me procurando em toda parte, e faria picadinho de mim, se me pegasse cambaleando pelas Terras Ermas.
“E Gandalf disse: ‘O Anel passou para outras mãos, Bilbo. Não seria bom, para você ou para outros, tentar se meter com ele outra vez.’ Uma observação estranha, bem ao estilo de Gandalf. Mas ele disse que estava cuidando de você, então deixei as coisas acontecerem. Estou tremendamente feliz em vê-lo são e salvo.
Parou e olhou para Frodo, desconfiado.
— Você está com ele? — perguntou num sussurro. — Não posso deixar de ficar curioso, você sabe, depois de tudo que ouvi. Gostaria muito de apenas dar uma espiadinha nele de novo.
— Sim, está comigo — respondeu Frodo, sentindo uma estranha relutância. — O Anel é o mesmo de sempre.
— Gostaria de vê-lo só um segundo — disse Bilbo.
Quando se vestia, Frodo descobriu que, enquanto estivera dormindo, o Anel tinha sido pendurado em seu pescoço numa nova corrente, leve mas forte.
Lentamente o retirou.
Bilbo estendeu a mão. Mas Frodo rapidamente afastou o Anel. Para sua tristeza e espanto, viu que não olhava mais para Bilbo; uma sombra parecia ter caído entre os dois, e através dela Frodo passou a ver uma criatura pequena e enrugada, com um rosto faminto e mãos ossudas e ávidas. Sentiu um desejo de bater nela.
A música e a cantoria ao redor pareceram sumir, e um silêncio caiu. Bilbo olhou rápido para o rosto de Frodo, e passou a mão sobre seus olhos.
— Entendo agora — disse ele. — Guarde-o! Sinto muito: sinto por você ter entrado nessa história para carregar um fardo tão pesado: sinto por tudo.
— As aventuras nunca acabam? Acho que não. Outra pessoa sempre tem de continuar a história. Bem, isso não pode ser evitado. Penso se adianta alguma coisa eu tentar terminar meu livro. Mas não vamos nos preocupar com isso agora... passemos para algumas notícias de verdade. Conte-me tudo sobre o Condado!
Frodo escondeu o Anel, e a sombra passou, mal deixando um leve traço de memória. A luz e a música de Valfenda o envolviam de novo. Bilbo sorriu e deu alegres gargalhadas.
Todos os itens das notícias sobre o Condado que Frodo pôde contar – ajudado e corrigido de vez em quando por Sam – eram de seu maior interesse, desde a derrubada da menor árvore, até as travessuras da criança mais jovem da Vila dos Hobbits. Estavam tão envolvidos com os acontecimentos das Quatro Quartas que nem perceberam a chegada de um homem vestido de verde-escuro. Por vários minutos, ficou olhando para baixo em direção a eles, com um sorriso.
De repente, Bilbo olhou para cima.
— Ah! Finalmente você está aí, Dúnadan! — gritou ele.
— Passolargo! — disse Frodo. — Parece que você tem um monte de nomes.
— Bem, Passolargo é um que nunca escutei — disse Bilbo. — Por que o chama assim?
— Chamam-me desse modo em Bri — disse Passolargo rindo. — E foi assim que fui apresentado a ele.
— E por que você o chama de Dúnadan? — perguntou Frodo.
— O Dúnadan — disse Bilbo. — Sempre o chamam por esse nome aqui. Mas pensei que soubesse a língua élfica o suficiente para conhecer a expressão dún-adan: homem do Oeste, de Númenor. Mas este não é o momento para aulas? — Voltou-se para Passolargo: — Onde esteve, meu amigo? Por que não participou do banquete? A Senhora Arwen estava lá.
Passolargo olhou para Bilbo com um ar sério.
— Eu sei — disse ele. — Mas sempre preciso colocar a diversão de lado. Elladan e Elroffir retornaram das Terras Ermas sem ser esperados e tinham novidades que eu queria ouvir imediatamente.
— Bem, meu querido companheiro — disse Bilbo. — Agora que ouviu as notícias, não pode me ceder uns minutos? Quero sua ajuda numa coisa urgente. Elrond disse que essa minha canção precisa ser terminada antes do fim da noite, e eu me enrosquei num pedaço. Vamos até um cantinho, para dar os retoques finais.
Passolargo sorriu.
— Então venha, deixe-me ouvi-la!
Frodo ficou sozinho por uns momentos, pois Sam tinha adormecido. Estava solitário e se sentia bastante abandonado, embora em sua volta o pessoal de Valfenda estivesse reunido. Mas as pessoas próximas a ele estavam em silêncio, prestando atenção à música das vozes e dos instrumentos, e não se davam conta de mais nada. Frodo começou a escutar.
Num primeiro momento, a beleza das melodias e das palavras misturadas nas línguas élficas, embora pudesse entendê-las bem pouco, envolveram-no numa espécie de encanto, logo que começou a prestar atenção nelas. Parecia quase que as palavras tomavam forma, e visões de terras distantes e de coisas brilhantes que ele nunca sequer imaginara se abriram diante dele; o salão iluminado pela fogueira se tornou semelhante a uma névoa dourada sobre mares de espuma que suspiravam sobre as margens do mundo.
Então, o encantamento ficou cada vez mais semelhante a um sonho, até que Frodo sentiu que um rio interminável de ouro e prata passava por ele, múltiplo demais para ser compreendido; tornara-se parte do ar que pulsava ao redor, e o encharcava e afogava. Rapidamente afundou sob aquele peso brilhante, entrando num mundo profundo de sonho.
Ali vagou por muito tempo num sonho de música que se transformava em água corrente, e depois, de súbito, numa voz. Parecia ser a voz de Bilbo cantando versos. Indistinta no início, mas depois as palavras corriam nítidas.

Edrendil foi um marinheiro
que veio em Arvernien morar:
cortou madeira de Nimbrethil,
fez um navio para viajar;
teceu as velas com fios de prata,
também de prata é a iluminação;
qual cisne a proa foi esculpida,
e a luz dá vida a seu pavilhão.
Com armadura de antigos reis,
malha de anéis, qual manto real,
broquel brilhante de runas cheio,
vai protegê-lo de todo mal;
pro arco um chifre deu-lhe um dragão,
de ébano bom as flechas que tinha;
de fio de prata era o gibão,
de calcedônia era a bainha;
valente espada de aço fino,
e adamantino elmo o respalda;
pena de águia traz por enfeite,
e sobre o peito linda esmeralda.
Sob o luar e sob as estrelas,
viajava pelas praias do Norte;
como encantado, confuso ia
além dos dias da terra da morte
Quer do rangido do Gelo Estreito,
das sombras leito em campo gelado,
quer do calor e da lava ardente,
rápido sempre saía por um lado;
por águas negras longe trafega,
até que navega em Noite do Nada
e vai passando sem encontrar
praia brilhante ou luz desejada.
Vêm procurá-lo os ventos da ira
e cego gira em mar sem promessa;
de Oeste a Leste, tudo impreciso,
e sem aviso à casa regressa.
Voando chega até ele Elwing
e há chama enfim na treva a queimar;
mais que diamante brilha e resplende
o fogo ardente de seu colar.
Com a Silmaril ela o ataviou
e o coroou com a luz vivente;
sem medo então, com fogo no olhar,
vai navegar; e na noite quente
lá do Outro mundo além do Mar
surge o troar de forte tormenta
em Tarmenel, um vento poder;
por rota incerta, rara e agourenta,
leva seu barco num sopro mordaz,
poder feroz de morte no ar
e mares tristes e abandonados
de lado a lado ele viu passar.
Por Noite terna reconduzido,
em atro estampido de ondas que vão
por mar sem luz de costas profundas
mortas no fundo desde a criação;
foi lá que ouviu em praias de pérolas,
onde da terra a música cessa,
onde na espuma há ondas rolando
de ouro amarelo e joias à beça.
Viu a Montanha subindo calada,
na tarde sentada sobre os joelhos
de Valinor, enquanto Eldamar
olhava o mar além dos escolhos.
Errante em fuga da noite sai
e a um porto vai enfim atracar;
na Casadelfos verde e bonita,
o ar palpita e, cor de luar,
sob a Colina de Ilmarin,
brilham num vale diafanizadas,
iluminadas torres de Tírion
no Lago Sombra sempre espelhadas.
Lá descansou das duras andanças,
música e dança por lá aprendeu,
mil maravilhas foram contadas
e harpas douradas alguém lhe deu.
De branco élfico foi revestido
e, precedido por luzes sete,
passando por Calacirian
na terra arcana e vazia se mete.
Viu salões imemoriais
com os anais de anos sem conta,
do Antigo Rei viu reinos sem fim
em Ilmarin do Monte na ponta;
novas palavras então aprende
de homens grandes e elfos matreiros,
além do mundo onde há visões
que só se expõem aos forasteiros.
Foi construído novo navio
todo mithril e aí cristalino,
proa brilhante, mas ninguém rema
ou vela treme em mastro argentino:
a Silmaril, sua única luz,
que ele conduz qual flâmula em chama
para brilhar junto a Elbereth
que reaparece e logo derrama
imortais asas para o transporte,
traça-lhe a sorte sempre sua,
zarpar por céus sem litoral
por trás do Sol e da luz da Lua.
Das Sempriguais, colinas pacatas,
onde cascatas tecem sua rede,
levam-no as asas, farol errante,
além do grande Monte Parede.
Do Fim-do-Mundo ele desvia
e gostaria de achar a trilha
do lar, por entre sombras vagando,
sempre queimando qual astro em ilha
sobrevoando a névoa ele vem,
chama do além que ao Sol é clarão,
é maravilha de um novo dia
onde águas cinza do Norte vão.
Por sobre a Terra Média passou
e ali soou a voz de quem chora,
donzelas élficas e mulheres
dos Dias Antigos, de anos de outrora.
Mas sobre si levava sua sorte,
da Lua até a morte, estrela fadada
a ir queimando sem se deter
para rever sua terra amada;
pra todo o sempre nesta missão,
sem que descanso tenha à frente,
longe levar da lâmpada a flama
qual Porta-chama do Ponente.

O canto parou. Frodo abriu os olhos e viu que Bilbo estava sentado em seu banco, em meio a um círculo de ouvintes, que sorriam e aplaudiam.
— Agora é melhor escutarmos de novo — disse um elfo.
Bilbo se levantou, fazendo uma reverência.
— Estou lisonjeado, Lindir — disse ele. — Mas seria muito cansativo repetir tudo.
— Não cansativo demais para você — responderam os elfos, rindo. — Sabemos que nunca se cansa de repetir seus próprios versos. Mas, falando serio, não podemos responder sua pergunta ouvindo só uma vez!
— O quê? — gritou Bilbo. — Vocês não sabem que partes são minhas, e quais sãos as do Dúnadan?
— Não é fácil diferenciar entre dois mortais — disse o elfo.
— Bobagem, Lindir — retrucou Bilbo. — Se você não consegue fazer distinção entre um homem e um hobbit, então seu discernimento é mais pobre do que eu imaginava. São diferentes como ervilhas e maçãs.
— Talvez. Para uma ovelha, as outras ovelhas são diferentes — riu Lindir. — Ou para os pastores. Mas os mortais não são objeto de nosso estudo. Temos outras preocupações.
— Não vou discutir com você — disse Bilbo. — Estou com sono depois de tanta música e cantoria. Vou deixar que adivinhem, se quiserem. Levantou-se e veio em direção a Frodo. — Bem, terminou — disse ele em voz baixa. — Saiu melhor do que eu imaginava. Não é sempre que me pedem para cantar de novo. O que achou?
— Não vou tentar adivinhar — disse Frodo sorrindo.
— Não precisa — disse Bilbo. — Na verdade, a canção é toda minha. Exceto pela insistência de Aragorn em colocar uma pedra verde. Parece que ele achava importante. Não sei por quê. Por outro lado, ele obviamente considerou toda a coisa acima de minhas capacidades, e disse que se eu tinha o topete de fazer versos sobre Eãrendil na casa de Elrond, o problema era meu. Acho que estava certo.
— Não sei — disse Frodo. — Pareceu-me adequado, de alguma forma, embora não consiga explicar. Estava meio adormecido quando começou, e parecia que os versos fluíam de algum elemento que fazia parte dos meus sonhos. Só no final percebi que era realmente você falando.
— É difícil permanecer acordado aqui, até que se acostume — disse Bilbo. — Não que eu ache que os hobbits possam jamais adquirir o apetite que os elfos têm pela música, pela poesia e pelas histórias. Parece que gostam dessas coisas tanto quanto de comida, ou mais. Ainda vão continuar por um longo tempo. Que acha de sairmos de fininho, para ter uma conversa mais reservada?
— Podemos fazer isso?
— Claro! Isto aqui é diversão, não coisa séria. Vá e venha como bem entender, contanto que não faça barulho.
Levantaram-se e se retiraram em silêncio para as sombras. Deixaram Sam para trás, profundamente adormecido e ainda com um sorriso nos lábios.
Apesar do prazer da companhia de Bilbo, Frodo sentiu uma ponta de pesar por não permanecer no Salão do Fogo. No momento em que saíam da sala, uma única voz limpa se levantou, cantando.

A Elbereth Gilthoniel,
silivren penna míriel
o menel aglar elenath!
Na-chaered palan-díriel
o galadhremmin ennorath,
Fanuilos, le linnathon
nef aear. Sí nef aearon!

Frodo parou por um momento, olhando para trás. Elrond estava em sua cadeira, e o fogo brilhava em seu rosto como a luz do sol sobre as árvores. Perto dele estava sentada a Senhora Arwen. Para sua surpresa, Frodo viu que Aragorn estava ao lado dela; sua escura capa estava jogada para trás, e parecia vestido numa malha élfica, com uma estrela brilhando em seu peito. Os dois conversavam, e de repente pareceu a Frodo que Arwen virou-se na sua direção, e a luz daqueles olhos caiu sobre ele, e, mesmo vindo de longe, penetrou seu coração.
Parou ainda encantado, enquanto as sílabas doces da canção élfica caíam como joias cristalinas, numa fusão de palavra e melodia.
— É uma canção para Elbereth — disse Bilbo. — Cantarão esta, e muitas outras canções do Reino Abençoado, muitas vezes esta noite. Venha!
Levou Frodo de volta até seu próprio quarto, que se abria para os jardins e dava para o Sul, através do desfiladeiro do Bruinen. Ali ficaram sentados por um tempo, olhando pela janela as claras estrelas, sobre as florestas nas encostas íngremes, e conversaram em voz baixa. Não falaram mais das pequenas coisas do Condado lá longe, nem das sombras escuras e dos perigos que os ameaçavam, mas das belas coisas que juntos tinham visto pelo mundo, dos elfos, das estrelas e do outono suave daquele brilhante ano nas florestas.
Finalmente ouviu-se uma batida na porta.
— Com sua licença, senhor — disse Sam, colocando para dentro a cabeça. — Estava pensando se precisavam de alguma coisa.
— Também peço licença, Sam Gamgi — respondeu Bilbo. — Acho que sua intenção é dizer que está na hora de seu patrão ir para a cama.
— Bem, senhor, haverá um Conselho amanhã cedo, pelo que ouvi, e hoje foi a primeira vez que ele se levantou.

— Certíssimo, Sam — riu Bilbo. — Você pode ir correndo dizer a Gandalf que Frodo já foi dormir. Boa noite, Frodo! Puxa vida, como foi bom vê-lo outra vez. No final das contas, não há pessoas que se comparem aos hobbits numa boa conversa. Estou ficando muito velho, e começo a pensar se viverei para ler os seus capítulos da nossa história. Boa noite! Acho que vou fazer uma caminhada, e olhar as estrelas de Elbereth no jardim. Durma bem!

Um comentário:

  1. Será que sou só eu que não tenho paciência para ler essas canções que aparecem no meio dos capítulos?Espero que não tenha nada de importante nelas...Estou gostando bastante do livro,esse capítulo é um dos meus favoritos até agora!Gostei muito de reencontrar o Bilbo,queria que ele participasse das aventuras também,como nos velhos tempos...

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