24 de abril de 2016

Apêndice A - Anais dos reis e governantes

Quanto às fontes da maior parte do conteúdo dos próximos Apêndices, especialmente do A até o D, ver nota no final do Prólogo. A Seção A III, O Povo de Durin, origina-se provavelmente de Gimli, o anão, que manteve sua amizade com Peregrin e Meriadoc, e visitou-os muitas vezes em Gondor e em Rohan.
As lendas, histórias e estudos que se encontram nas fontes são muito extensos. Destes, apenas seleções, muitas vezes bastante resumidas, são apresentadas aqui. Seu principal propósito é esclarecer a Guerra do Anel e suas origens, e preencher várias lacunas da história principal. As antigas lendas da Primeira Era, nas quais residia o principal interesse de Bilbo, são tratadas muito brevemente, uma vez que dizem respeito aos antepassados de Elrond e aos reis e lideres númenorianos.
Excertos genuínos de anais e histórias mais longas estão colocados entre aspas. Inserções posteriores aparecem entre colchetes. As notas entre aspas podem ser encontradas nas fontes. Outras são do editor.
As datas fornecidas são as da Terceira Era, a não ser que venham acompanhadas das siglas S.E. (Segunda Era) ou Q.E. (Quarta Era).
Considera-se que a Terceira Era terminou quando os Três Anéis desapareceram em setembro de 3021 mas, para efeito dos registros de Gondor, o Ano 1 Q.E. começou no dia 25 de março de 3021. Nas listas, as datas após os nomes dos reis e governantes são as de suas mortes, se apenas uma data é fornecida. O sinal t indica uma morte prematura, em batalha ou não, embora nem sempre sejam incluídos anais sobre o evento.


I. OS REIS NÚMENORIANOS

(i)
Númenor

Feanor foi o maior dos eldar no campo das artes e dos estudos, mas também O mais orgulhoso e obstinado. Foi ele quem trabalhou as Três Joias, as Silmarill, e as encheu com o fulgor das Duas Árvores, Telperion e Laurelin, que davam luz à terra dos valar.
As Joias eram cobiçadas por Morgoth, o Inimigo, que as roubou e, depois de destruir as Árvores, levou-as para a Terra Média e as escondeu em sua grande fortaleza de Thangorodrim. Contra a vontade dos valar, Feanor abandonou o Reino Abençoado e exilou-se na Terra Média, conduzindo uma grande parte de seu povo, pois em seu orgulho pretendia recuperar as Joias, tomando-as de Morgoth à força. Seguiu-se então a guerra sem esperança dos eldar e dos edain contra Thangorodrim, na qual eles foram por fim completamente derrotados. Os edain (Atani) eram três povos cujos membros eram homens que, chegando primeiro ao oeste da Terra Média e às praias do Grande Mar, tornaram-se aliados dos eldar contra o Inimigo.
Houve três uniões entre os eldar e os edain: Lúthien e Beren, Idril e Tuor, Arwen e Aragorn. Através do último reunificaram-se ramos dos meio-elfos, separados havia muito tempo, e sua linhagem foi restaurada.
Lúthien Tinúviel era filha do rei Thingol Capa-Cinzenta, de Doriath, da Primeira Era, mas sua mãe era melian, do povo dos valar. Beren era filho de Barahir, da Primeira Casa dos edain. Juntos eles arrancaram uma silmaril da Coroa de Ferro de Morgoth. Lúthien tornou-se mortal e os elfos a perderam. Dior era seu filho. Elwing era filha deste, e guardou em seu poder a silmaril.
Idril Celebrindal era filha de Turgon, rei da cidade oculta de Gondolin. Tuor era filho de Huor, da Casa de Hador, a Terceira Casa dos edain, e a mais renomada nas guerras contra Morgoth. Eãrendil era filho deles. Eãrendil casou-se com Elwing, e com o poder da silmaril passou pelas Sombras e chegou ao Extremo Oeste, e falando como um embaixador tanto dos elfos como dos homens obteve a ajuda através da qual Morgoth foi derrotado. Eãrendil foi proibido de retornar para as terras mortais, e seu navio levando a silmoril zarpou pelos céus navegando como uma estrela, e como sinal de esperança para os habitantes da Terra Média, oprimidos pelo Grande Inimigo ou por seus servidores Apenas as silmarilli preservavam a antiga luz emanada pelas Duas Árvores de Valinor antes que Morgoth as envenenasse; mas as outras duas se perderam no final da Primeira Era.
Narra-se essa história completa, e muito mais a respeito de elfos e homens, no Silmarillion.
Os filhos de Eiirendil eram Elros e Elrond, os Peredhil, ou meio-elfos. Somente neles a linhagem dos heroicos lideres dos edain da Primeira Era foi preservada; da mesma forma, após a queda de Gil-galad, a linhagem dos altos-elfos reis só ficou representada na Terra Média por seus descendentes.
No final da Primeira Era os valar impuseram uma escolha irrevogável aos meio-elfos, ou seja, eles deveriam decidir a que raça pertenceriam. Elrond escolheu ser do Povo Élfico, e transformou-se num mestre da sabedoria. Portanto, a ele foi concedida a mesma graça recebida pelos altos-elfos que ainda permaneciam na Terra Média que, quando por fim estivessem cansados das terras mortais, eles poderiam tomar um navio e partir dos Portos Cinzentos para o Extremo Oeste; essa graça perdurou depois da mudança do mundo. Mas para os filhos de Elrond também foi indicada uma escolha: passar com o pai dos círculos do mundo ou, se permanecessem, tornarem-se mortais e morrerem na Terra Média. Em consequência disso, para Elrond, todas as possibilidades da Guerra do Anel estavam carregadas de tristeza.
Elros escolheu ser do povo dos homens e permanecer com os edain; mas foi-lhe concedido um grande tempo de vida, muitas vezes maior que o dos homens inferiores.
Como recompensa por seus sofrimentos na causa contra Morgoth, os valar, Guardiões do Mundo, concederam aos edain uma terra para morarem, retirada dos perigos da Terra Média. A maioria deles, portanto, cruzou o Mar, e guiados pela Estrela de Eãrendil chegaram à grande Ilha de Elenna, no extremo oeste das Terras Mortais. Ali eles fundaram o reino de Númenor.
Havia uma alta montanha no centro da ilha, chamada Meneltarma, e de seu topo os que enxergavam longe podiam divisar a torre branca do porto dos eldar em Eressea. De lá os eldar vieram para se juntar aos edain, enriquecendo-os com conhecimento e muitas dádivas; mas aos númenorianos foi imposta uma ordem, a “Interdição dos Valar”: ficavam proibidos de navegar para o oeste, além do campo de visão de suas próprias praias, e também de pôr os pés nas Terras Imortais. Pois embora lhes tivesse sido concedida uma grande longevidade, no início três vezes maior que a dos homens inferiores, eles deviam permanecer mortais, uma vez que aos valar foi permitido tomar deles a Dádiva dos Homens (ou a Destruição dos Homens, como foi posteriormente denominada).
Elros foi o primeiro rei de Númenor, e depois ficou conhecido pelo nome meio-élfico de Tar-Minyatur. Seus descendentes tiveram vida longa, mas eram mortais. Mais tarde, quando se tornaram poderosos, lamentaram a escolha de seu ancestral, desejando a imortalidade dentro da vida do mundo, o que era destino dos eldar, e murmurando contra a Interdição. Assim começaram a rebelião que, sob o comando maligno de Sauron, culminou com a Queda de Númenor e a ruína do antigo reino, como se conta no Akallabêth.
Estes são os nomes dos reis e das rainhas de Númenor: Elros Tar-Minyatur, Vardamir, Tar-Amandil, Tar-Elendil, Tar-Meneldur, Tar-Aldarion, Tar-Ancalimé (a primeira rainha governante), Tar-Anàrion, Tar-Súrion, Tar-Telperién (a segunda rainha), Tar-Minastir, Tar-Ciryatan, Tar-Atanamir, o Grande, Tar-Ancalimon, Tar-Telemmaité, Tar-Vanimeldé (a terceira rainha), Tar-Alcarin, Tar-Calmacil.
Depois de Calmacil, os reis ocuparam o trono assumindo nomes da língua númenoriana (ou Adúnaid): Ar-Adúnakhôr, Ar-Zimrathón, Ar-Sakalthôr, Ar-Gimilzôr, Ar-Inziladûn. Inziladûn arrependeu-se dos procedimentos dos reis e mudou seu nome para Tar-Palantir, “que Enxerga Longe”. Sua filha deveria ser a quarta rainha, Tar-Miriel, mas o sobrinho do rei usurpou o trono e tornou-se Ar-Pharazôn, o Dourado, último rei dos númenonanos.
Nos dias de Tar-Elendil, os primeiros navios dos númenorianos retornaram para a Terra Média. Seu primeiro descendente foi uma filha, Silmarién. O primeiro filho dela foi Valandil, o primeiro dos senhores de Andúnié, na costa oeste, famoso por sua amizade com os eldar. Dele descenderam Amandil, o último senhor, e Elendil, o Alto. O sexto rei deixou apenas um descendente, uma filha. Ela tornou-se a primeira rainha; pois foi nessa época que se promulgou uma lei da casa real, segundo a qual o descendente mais velho do rei, fosse ele homem ou mulher, deveria assumir o trono.
O reino de Númenor perdurou até o fim da Segunda Era, sempre crescendo em poder e esplendor; e até meados dessa Era, os númenorianos cresceram também em sabedoria e felicidade. O primeiro sinal da sombra que cairia sobre eles apareceu nos dias de Tar-Minastir, décimo primeiro rei. Foi ele quem mandou um grande exército em auxilio de Gil-galad. Ele amava os eldar, mas os invejava. Os númenorianos agora tinham-se transformado em grandes marinheiros, explorando todos os mares ao leste, e começaram a desejar o oeste e as águas proibidas; quanto mais feliz era a vida deles, mais começavam a ansiar pela imortalidade dos eldar.
Além disso, depois de Minastir, os reis se tornaram ávidos por riqueza e poder. No início, os númenorianos tinham vindo para a Terra Média como professores e amigos dos homens inferiores afligidos por Sauron; agora seus portos haviam-se transformado em fortalezas, mantendo amplas regiões costeiras sob seu comando. Atanamir e seus sucessores cobravam altos tributos, e os navios dos númenorianos retornavam carregados de espólios.
Foi Tar-Atanamir quem primeiro falou abertamente contra a Interdição e declarou que a vida dos eldar era dele por direito. Assim a sombra se adensou, e pensar na morte fez com que o coração do povo ficasse pesado e oprimido. Então os númenonanos se dividiram: de um lado ficaram os reis e aqueles que os seguiram, indispostos com os eldar e os valar; do outro lado estavam os poucos que chamavam a si próprios de Fiéis. Estes moravam principalmente na parte oeste do Reino.
Os reis e seus seguidores pouco a pouco deixaram de usar as línguas eldarin, e por fim o vigésimo rei assumiu seu nome real na forma númenoriana, chamando-se de Ar-Adúnakhõr, “Senhor do Oeste”. Esse ato pareceu de mau agouro para os Fiéis, pois até então esse titulo só fora concedido aos valar, ou ao próprio Antigo Rei.
E de fato Ar-Adúnakhõr começou a perseguir os Fiéis e a punir aqueles que usavam abertamente as línguas élficas; os eldar cessaram de vir a Númenor. Não obstante, o poder e a riqueza dos númenorianos continuavam a crescer; mas sua longevidade diminuía à medida que aumentava seu medo da morte, e a felicidade os abandonou. Tar-Palantir tentou reparar o mal, mas era tarde demais, e houve rebelião e contenda em Númenor. Quando ele morreu, seu sobrinho, líder da rebelião, apossou-se do trono e tornou-se Ar-Pharazôn. Ar-Pharazôn, o Dourado, foi o mais arrogante e poderoso de todos os reis, e desejava nada menos do que governar o mundo.
Ele resolveu desafiar Sauron, o Grande, pela supremacia da Terra Média, e por fim ele mesmo partiu num navio com uma grande esquadra, aportando em Umbar. Tão grandes eram o poder e o esplendor dos númenorianos que os próprios servidores de Sauron o abandonaram; Sauron se humilhou, prestando honras e implorando perdão.
Então Ar-Pharazôn, na loucura de seu orgulho, levou-o como prisioneiro para Númenor. Não demorou muito para que Sauron enfeitiçasse o rei e se tornasse mestre de seu conselho; logo arrebatou o coração de todos os númenorianos, exceto aqueles que ainda eram Fiéis, de volta para a escuridão.
E Sauron mentiu para o rei, declarando que a vida eterna seria daquele que possuísse as Terras Imortais, e que a Interdição fora imposta apenas para evitar que os reis dos homens sobrepujassem os valar. “Mas grandes reis tomam o que lhes cabe de direito”, dizia ele.
Por fim Ar-Pharazôn deu ouvidos ao seu conselho, pois sentia seus dias se esvaírem e estava estupefato pelo medo da Morte. Preparou então o maior armamento que o mundo já vira, e, quando tudo estava pronto, mandou soarem as trombetas e fez-se à vela; e assim quebrou a Interdição dos valar, insurgindo-se em guerra para arrancar a vida eterna aos senhores do oeste. Mas, quando Ar-Pharâzon colocou os pés nas praias de Aman, o Reino Abençoado, os valar rejeitaram a sua função de Guardiões e invocaram o Um, e o mundo mudou. Númenor foi derrubada e engolida pelo Mar; as Terras Imortais foram removidas para sempre dos círculos do mundo. Assim terminou a glória de Númenor.
Os últimos líderes dos Fiéis, Elendil e seus filhos, escaparam da Queda com nove navios, levando uma muda de Nimloth, e as Sete Pedras-videntes (dádivas que receberam dos eldar); foram carregados nas asas de uma grande tempestade e jogados nas praias da Terra Média. Ali estabeleceram no noroeste os reinos númenorianos do exílio, Arnor e Gondor. Elendil tornou-se o Alto Rei e morava no norte, em Annúminas; o governo do sul foi entregue a seus filhos, Isildur e Anánon. Ali eles fundaram Osgiliath, entre Minas Ithil e Minas Anor, não muito longe das fronteiras de Mordor. Acreditavam que pelo menos uma coisa boa resultara da ruína, que Sauron também perecera.
Mas não foi assim. Sauron foi realmente apanhado pela destruição de Númenor, e assim a forma corpórea na qual por tanto tempo caminhara pereceu; mas ele fugiu de volta para a Terra Média, um espírito de ódio transportado por um vento escuro. Foi incapaz de assumir outra vez uma forma que fosse agradável aos homens, mas tornou-se negro e hediondo, e seu poder depois disso só se impôs pelo terror. Ele voltou a Mordor e se escondeu lá por um tempo, em silêncio.
Mas sua ira foi grande quando ficou sabendo que Elendil, a quem mais odiava, havia escapado de suas garras, e estava agora organizando um reino nas suas fronteiras. Portanto, depois de um tempo, ele declarou guerra contra os Exilados, antes que estes criassem raízes. Orodrnin explodiu outra vez em chamas, e em Gondor recebeu um novo nome, Amon Amarth, Montanha da Perdição. Mas Sauron atacou cedo demais, antes que seu próprio poder fosse reconstruído, enquanto o poder de Gil-galad tinha aumentado em sua ausência; e, na Última Aliança que foi feita contra ele, Sauron foi derrotado e o Um Anel lhe foi tomado. Assim terminou a Segunda Era.

(ii)
Os Reinos no Exílio
A Linhagem do Norte
Herdeiros de Isildur

Arnor Elendil t3441 SE., Isildur t2, Valandil 24915, Eldacar 339, Arantar 435, Tarcil 515, Tarondor 602, Valandur t652, Elendur 777, Eãrendur 861.
Arthedain. Amlaith de Fornos t6 (filho mais velho de Eãrendur) 946; Beleg 1029, Maílor 1110, Celepharn 1191, Celebrindor 1272, Malvegil 134916, Argeleb 1 t1356, Arveleg 11409, Araphor 1589, Argeleb 111670, Arvegil 1743, Arveleg 111813, Araval 1891, Araphant 1964, Arvedui Ultimo Rei t1975. Fim do Reino do Norte.
Lideres. Aranarth (filho mais velho de Arvedui) 2106, Arahael 2177, Aranuir 2247, Aravir 2319, Aragorn 1 t2327, Araglas 2455, Arahad 1 2523, Aragost 2588. Aravorn 2654, Arahad II 2719, Arassuil 2784, Arathorn 1 t2848, Argonui 2912, Arador t2930, Arathorn II t2933, Aragorn 11120 Q.E.

A Linhagem do Sul
Herdeiros de Anárion

Reis de Gondor Elendil (Isildur e) Anárion 13440 SE., Meneldil, filho de Anárion, 158, Cemendur 238, Eàrendil 324, Anardil 411, Ostoher 492, Rómendacil 1 (Tarostar) t541, Turambar 667, Atanatar 1 748, Siriondil 830. Aqui seguiram-se os quatro “Reisnavegantes”: Tarannon Falastur 913. Foi o primeiro rei sem prole, e quem o sucedeu foi o filho de seu irmão, Tarciryan. Eärnil 17 t936, Ciryandil t1015, Hyarmendacil (Ciryaher) 1149. Gondor agora atingia o auge de seu poder.
Atanatar II Alcarin, 16o Glorioso”, 1226, Narmacil 11294. Foi o segundo rei sem prole e quem o sucedeu foi seu irmão mais novo. Calmacil 1304, Minalcar (regente 1240-1304), coroado como Rómendacil II em 1304, morto em 1366, Valacar. Em sua época o primeiro desastre de Gondor começou, a Contenda das Famílias.
Eldacar, filho de Valacar (primeiramente chamado Vinitharya), deposto em 1437 Castamir, o Usurpador, t 1447. Eldacar, reentronizado, morreu em 1490.
Aldamir (segundo filho de Eldacar) t 1540, Hyarmendacil II (Vinyarion) 1621, Minardil t1634, Telemnar t1636. Telenmar e todos os seus filhos pereceram na peste; foi sucedido por seu sobrinho, o filho de Minastan, segundo filho de Minardil. Tarondor 1798, Telumebtar Umbardacil 1850, Narmacil II t1856, Calimehtar 1936, Ondober t1944. Ondober e seus dois filhos foram mortos no campo de batalha. Depois de um ano, em 1945, a coroa foi passada ao general vitorioso Eärnil, descendente de Telumehtar Umbardacil, Eärnil II 2043, Earnur t2050. Aqui a linhagem dos reis foi interrompida, até ser restaurada por Elessar Telcontar em 3019. O reino passou então a ser governado pelos regentes.
Regentes de Gondor A Casa de Húrin; Pelendur 1998. Governou por um ano depois da queda de Ondoher, e aconselhou Gondor a rejeitar a reivindicação ao trono feita por Arvedui. Vorondil, o Caçador, 202915. Mardil Voronwé, “o Constante”, o primeiro dos regentes governantes. Seus sucessores deixaram de usar nomes nas formas do altoélfico.
Regentes governantes. Mardil 2080, Eradan 2116, Herion 2148, Belegorn 2204, Húrin 1 2244, Túrin 1 2278, Hador 2395, Barahir 2412, Dior 2435, Denethor 1 2477, Boromir 2489, Cirion 2567. Nessa época os rohirrim vieram para Calenardhon.
Halías 2605, Húrin II 2628, Belecthor 1 2655, Orodreth 2685, Ecthelion 1 2698, Egalmoth 2743, Beren 2763, Beregon 2811, Belecthor II 2872, Thorondir 2882, Túrin II 2914, Turgon 2953, Echtelion II 2984, Denethor II. Foi o último dos regentes governantes, e foi sucedido por seu segundo filho Faramir, senhor de Emyn Arnen, regente do rei Elessar, 82 Q.E.

(iii)
Eriador, Arnor e os Herdeiros de Isildur

Eriador era antigamente o nome de todas as terras entre as Montanhas Sombrias e as Montanhas Azuis; ao sul a região fazia divisa com o rio Cinzento e o Glanduin, que deságua nele acima de Tharbad.
Em seu apogeu, Arnor incluía toda Eriador, com exceção das regiões além de e as terras a leste do rio Cinzento e do Ruidoságua, nas quais ficavam Val-fenda e Azevim.
Além de Lún as terras eram élficas, verdes e tranquilas, nunca visitadas por homem algum; mas os anões moravam, e ainda moram, no lado leste das Montanhas Azuis, especialmente nas regiões ao sul do golfo de Lún, onde eles têm minas ainda produtivas. Por esse motivo, eles tinham o costume de ir para o leste pela Grande Estrada, como haviam feito por longos anos, antes que chegássemos ao Condado. Nos Portos Cinzentos morava Cirdan, o Armador, e alguns dizem que ele ainda mora lá, até que o Último Navio zarpe em direção ao oeste. Nos dias dos reis, a maioria dos altos-elfos que ainda permaneciam na Terra Média moravam com Círdan ou nas regiões litorâneas de Lindon. Se alguns ainda restam atualmente, eles são poucos.

O Reino do Norte e os dúnedain
Após Elendil e Isíldur houve oito altos reis de Arnor. Depois de Eãrendur, devido a dissensões entre seus filhos, o reino foi dividido em três: Arthedain, Rhudaur e Cardolan. Arthedain ficava no noroeste e incluída a região entre o Brandevin e Lún, e também as terras ao norte da Grande Estrada, até as Colinas do Vento.
Rhudaur ficava no nordeste, entre a Charneca Etten, as Colinas do Vento e as Montanhas Sombrias, mas incluia também o Ângulo entre o Fontegris e o Ruidoságua. Cardolan ficava no sul, sendo suas fronteiras o Baranduin, o rio Cinzento e a Grande Estrada.
Em Arthedain a linhagem de Isildur foi mantida e continuada, mas logo desapareceu em Cardolan e Rhudaur. Sempre havia desavenças entre os reinos, o que apressou o decréscimo dos dúnedain. O principal ponto de disputa era a possessão das Colinas do Vento e das terras a oeste, na direção de Bri. Tanto Rbudaur quanto Cardolan desejavam possuir Amon Súl (o Topo do Vento), que ficava nas fronteiras de seus reinos; pois a Torre de Amon Súl possuía o mais importante palantír do norte, e os dois outros estavam em poder de Artbedain.
“Foi no início do reinado de Malvegil de Arthedain que o mal chegou a Arnor. Pois naquele tempo o reino de Angmar surgiu no norte além da Charneca Etten. Suas terras compreendiam os dois lados das Montanhas, e ali estavam reunidos muitos homens maus, e orcs, e outras criaturas cruéis. [O Senhor daquelas terras era conhecido como o Rei dos Bruxos, mas só depois se soube que na verdade ele era o chefe dos Espectros do Anel, que vieram ao norte com o propósito de destruir os dúnedain de Arnor, alimentando esperanças em sua desunião, enquanto Gondor era forte.]”
Nos dias de Argeleb, filho de Malvegil, uma vez que não restava nenhum descendente de Isildur nos outros reinos, os reis de Arthedain mais uma vez reivindicaram o poder sobre toda Arnor. Rhudaur opôs-se à reivindicação. Ali os dúnedain eram poucos, e o poder fora tomado por um senhor maligno dos homens das Colinas, que tinha uma aliança secreta com Angmar. Argeleb, portanto, fortificou as Colinas do Vento, mas foi morto em combate contra Rhudaur e Angmar.
Arveleg, filho de Argeleb, com a ajuda de Cardolan e Lindon, expulsou seus inimigos das Colinas, e por muitos anos Arthedain e Cardolan mantiveram sob seu comando uma fronteira ao longo das Colinas do Vento, da Grande Estrada, e do baixo Fontegrís. Conta-se que nessa época Valfenda ficou sitiada.
Um grande exército chegou de Angmar em 1409, e atravessando o rio entrou em Cardolan, cercando o Topo do Vento. Os dúnedain foram derrotados e Arveleg foi morto.
A Torre de Amon 561 foi incendiada e completamente destruída; mas o palantír foi salvo e levado de volta na retirada para Fornost; Rhudaur foi ocupada por homens maus, súditos de Angmar, e os dúnedain que permaneceram ali foram mortos ou fugiram para o oeste.
Cardolan foi saqueada. Araphor, filho de Arveleg, ainda não se tornara adulto, mas era valente, e com a ajuda de Cirdan expulsou o inimigo de Fornost e das Colinas do Norte.
Alguns dos Fiéis que restaram entre os dúnedain de Cardolan também resistiram em Tyrn Gorthad (as Colinas dos Túmulos), ou procuraram refúgio na Floresta mais além. Conta-se que Angmar ficou por um tempo controlada pelo povo élfico vindo de Lindon, e também de Valfenda, pois Elrond trouxe ajuda vindo de Lórien pelas Montanhas. Foi no tempo dele que os Grados que moravam no Ângulo (entre o Fontegris e o Ruidoságua) fugiram para o oeste e para o sul, devido às guerras e ao terror de Angmar, e também porque a região e o clima de Eriador, especialmente no leste, pioraram e se tornaram hostis. Alguns retornaram para as Terras Ermas, e passaram a morar nos Campos de Lis, transformando-se num povo ribeirinho de pescadores.
Nos dias de Argeleb II a peste chegou a Eriador pelo sudeste, e a maioria do povo de Cardolan pereceu, especialmente em Minhiriath. Os hobbits e a maioria dos outros povos sofreram muito, mas a peste abrandou à medida que foi se alastrando para o norte, e as partes setentrionais de Arthedain foram pouco afetadas. Foi nessa época que os dúnedain de Cardolan se extinguiram, e espíritos malignos de Angmar e Rhudaur invadiram os túmulos abandonados para ali morar.
“Conta-se que os túmulos de Tyrn Gorthad, como eram antigamente chamadas as Colinas dos Túmulos, são muito antigos e muitos foram construídos nos dias do mundo antigo da Primeira Era pelos antepassados dos edain, antes que atravessassem as Montanhas Azuis chegando à região de Beleriand, da qual apenas sobrevive Lindon atualmente. Portanto essas colinas foram reverenciadas pelos dúnedain após seu retorno, e ali muitos de seus senhores e reis foram enterrados.
[Dizem alguns que o túmulo no qual o Portador do Anel foi aprisionado fora o túmulo do último principe de Cardolan, que pereceu na guerra de 1409.]”
“Em 1974, o poder de Angmar cresceu de novo, e o Rei dos Bruxos desceu até Arthedain antes do final do inverno. Ele dominou Fornost, e expulsou a maioria dos dunedain restantes sobre o Lún; entre estes estavam os filhos do rei. Mas o rei Arvediii resistiu nas Colinas do Norte o máximo possível, e depois fugiu para o norte com alguns membros de sua guarda; escaparam devido à rapidez de seus cavalos.
“Por um tempo Arvedui se escondeu nos túneis das antigas minas dos anões, próximas ao extremo oposto das Montanhas, mas por fim foi levado pela fome a procurar o auxílio dos lossoth, os Homens das Neves de Forochel*. Alguns destes ele encontrou acampados na praia; mas eles não se dispuseram a ajudar o rei, pois ele não tinha nada para lhes oferecer, exceto algumas joias às quais os Homens das Neves não davam valor; e os lossoth tinham medo do Rei dos Bruxos, que (segundo eles) podia produzir gelo ou desmanchá-lo conforme bem quisesse. Mas em parte por pena do rei esquálido, e em parte por temerem suas armas, ofereceram-lhe um pouco de comida, e construiram-lhe abrigos de neve. Ali Arvedui foi forçado a aguardar, na esperança de alguma ajuda que viesse do sul, pois seus cavalos tinham perecido.
“Quando Círdan ficou sabendo por intermédio de Aranarth, filho de Arvedui, sobre a fuga do rei para o norte, imediatamente zarpou para Forochel em sua procura. O navio por fim chegou lá após muitos dias, devido a ventos contrários, e os marinheiros viram de longe a pequena fogueira que os homens perdidos conseguiam manter acesa, alimentando-a com lenha trazida pela maré. Mas o inverno demorou para soltar suas garras naquele ano, e, embora a época fosse março, o gelo estava apenas começando a se quebrar, e se estendia mar adentro.
“Quando os Homens das Neves viram o navio, ficaram assustados e receosos, pois nunca tinham visto uma embarcação daquelas antes; mas agora tinham ficado mais amigáveis, e levaram o rei e aqueles de sua comitiva que haviam sobrevivido através do gelo em suas carroças deslizantes, até onde foi possível arriscar. Dessa forma um barco do navio pôde alcançá-los.
“Mas os Homens das Neves estavam inquietos, pois diziam que farejavam perigo no vento. E o chefe dos lossoth disse a Arvedui: — Não monte no monstro do mar! Se as tiverem, os homens do mar poderão nos trazer comida e outras coisas de que necessitamos, e vocês podem permanecer aqui até que o Rei dos Bruxos vá para casa. Pois no verão o poder dele míngua, mas agora seu hálito é mortal, e seu braço frio é comprido.
“Mas Arvedui não seguiu o conselho. Agradeceu ao chefe dos lossoth e na despedida deu-lhe seu anel, dizendo: — Este é um objeto que vale muito mais do que você possa imaginar. Simplesmente por ser antigo. Não tem poder algum, exceto a estima que lhe dedicam os membros de minha casa. Não vai ajudá-lo em nada, mas, se seu povo tiver qualquer necessidade, meus parentes podem resgatá-lo em troca de um grande estoque de tudo o que vocês desejarem**.
“Apesar disso, por acaso ou devido a algum poder de previsão, o conselho dos lossoth tinha valor; pois o navio ainda não tinha alcançado o alto-mar quando uma grande tempestade de vento se ergueu, e chegou do norte com uma nevasca que não permitia enxergar nada; o navio foi arrastado de volta na direção do gelo, que se empilhou até cobri-lo por completo. Até os marinheiros de Cirdan ficaram sem ação, e durante a noite o gelo rompeu o casco, e o navio afundou.
Assim pereceu Arvedui Último Rei, e com ele os palantíri foram sepultados no mar***. Passou muito tempo antes que os Homens das Neves tivessem noticias do naufrágio de Forochel.”
O povo do Condado sobreviveu, embora tenha sofrido as consequências da guerra, tendo a maioria da população fugido para se esconder. Enviaram em auxílio do rei alguns arqueiros que nunca retornaram; outros também foram para a batalha na qual o reino de Angmar foi derrotado (sobre a qual encontram-se mais detalhes nos anais do sul). Posteriormente, com a paz que sobreveio, o povo do Condado governou a si mesmo e prosperou. Escolheram um Thain para ocupar o lugar do rei, e ficaram satisfeitos; apesar disso, durante muito tempo muitos ainda esperavam o retorno do rei. Mas por fim essa esperança foi esquecida, permanecendo apenas na frase Quando retornar o rei, usada no sentido de algo bom que não se podia alcançar, ou de algum mal que não se pudesse corrigir. O primeiro Thain do Condado foi um tal de Bucca do Pântano, de quem os Velhobuques afirmavam descender.
Tornou-se Thain em 379 de nosso registro (1979).
Após Arvedui o Reino do Norte terminou, pois os dúnedain agora eram poucos e todos os povos de Eriador diminuíram. Apesar disso, a linhagem dos reis foi continuada pelos líderes dos dúnedain, dos quais Aranarth, filho de Arvedui, foi o primeiro. Arahael, seu filho, foi criado em Valfenda, assim como todos os filhos de líderes depois dele; ali também foram guardadas as heranças de sua casa: o anel de Barahir, os fragmentos de Narsil, a estrela de Elendil e o cetro de Annúminas****.
Quando o reino terminou, os dúnedain entraram nas sombras e transformaram-se num povo incógnito e errante, e seus feitos e trabalhos raramente eram cantados ou registrados. Atualmente pouco se lembra deles, desde que Elrond partiu. Embora seres malignos tenham começado a atacar ou invadir secretamente Eriador, antes mesmo que a Paz Vigilante terminasse, a maioria dos líderes viveu uma longa vida até atingir a velhice. Conta-se que Aragorn 1 foi morto por lobos, que depois disso continuaram a ser um perigo em Eriador, e ainda não desapareceram por completo. Nos dias de Arahad 1, os orcs, que, como se soube depois, havia muito tempo vinham ocupando em segredo fortalezas nas Montanhas Sombrias, a fim de bloquear todas as passagens que davam acesso a Eriador, de repente se revelaram.
Em 2509 Celebrían, esposa de Elrond, estava viajando para Lórien quando foi capturada no Passo do Chifre Vermelho; sua comitiva se dispersou devido ao súbito ataque dos orcs e ela foi presa e sequestrada. Elladan e Elrohir a seguiram e resgataram, porém só depois que ela fora atormentada e recebera um ferimento envenenado. Celebrían foi trazida de volta a Imíadris, e, embora Elrond tivesse curado seu corpo, ela perdeu todo o prazer de estar na Terra Média, e no ano seguinte dirigiu-se aos Portos e atravessou o Mar. Mais tarde, nos dias de Arassuíl, os orcs, mais uma vez multiplicando-se nas Montanhas Sombrias, começaram a devastar as terras, e os dúnedain e os filhos de Elrond lutaram contra eles. Foi nessa época que um grande bando chegou ao oeste e invadiu o Condado, e foi rechaçado por Bandobras Túk.
Houve quinze líderes antes do nascimento do décimo sexto e último deles. Aragorn II, que voltou a ser rei de Gondor e Arnor. “Nós o chamamos de Nosso Rei, e quando ele vem para o norte para visitar sua casa restaurada em Annúminas, e permanece um tempo na região do lago Vesperturvo, todos no Condado ficam felizes.
Mas ele não entra nesta terra, e segue as próprias leis que criou, segundo as quais ninguém das Pessoas Grandes deve atravessar as fronteiras. Mas ele frequentemente cavalga com muita gente bonita até a Grande Ponte, e ali recebe os amigos e qualquer outra pessoa que deseje vê-lo; alguns o acompanham e hospedam-se em sua casa por quanto tempo quiserem. O Thain Peregrin já esteve lá muitas vezes, e também Mestre Samwise, o Prefeito. Sua filha, Elanor, a Bela, é uma da aias da Rainha Estrela Vespertina.”
Era motivo de orgulho e admiração da Linhagem do Norte o fato de que, embora seu poder tivesse desaparecido e seu povo diminuído, através das muitas gerações a sucessão de pai para filho não fora interrompida. Além disso, embora a longevidade dos dúnedain estivesse sempre diminuindo na Terra Média, depois do desaparecimento de seus reis o decréscimo foi mais acelerado em Gondor, e muitos dos líderes do norte ainda atingiam o dobro da idade dos homens, e ultrapassavam em muitos anos mesmo os mais velhos dentre nós. De fato, Aragorn viveu até os cento e noventa anos, mais que qualquer outro de sua linhagem desde o rei Arvegíl; mas em Aragorn Elessar a dignidade dos reis de antigamente foi reconquistada.

* Este é um povo estranho e hostil, remanescente dos forodwaith, homens de tempos muito distantes, acostumados ao frio rigoroso do reino de Morgoth. De fato, esse clima persiste ainda na região, embora se situe a pouco mais de cem léguas ao norte do Condado. Os lossoth constroem suas casas na neve, e conta-se que eles podem correr no gelo com os pés apoiados em ossos, e têm carroças sem rodas. Em sua maioria vivem, inacessíveis aos seus inimigos, no grande Cabo de Forochel, que isola a noroeste a imensa baia que leva o mesmo nome; mas eles frequentemente acampam nas praias do sul da baia, aos pés das Montanhas.
** Dessa forma foi salvo o anel da Casa de Isíldur, já que depois ele foi resgatado pelos dúnedain. Conta-se que era nada menos que o anel que Felagungo de Nargothrond deu a Barabir, e que Beren recuperou correndo grandes riscos.
*** Estas eram as Pedras de Annúminas e Amon Súl. A única pedra que restou no norte era a que estava na Torre sobre Emyn Beraid, que dá para o Golfo de Lún. Ela foi guardada pelos elfos, e, embora nunca tenhamos sabido, permaneceu lá, até que Cirdan a colocou a bordo do navio de Elrond quando ele partiu. Mas conta-se que era diferente das outras e não estava em acordo com elas; a pedra só olhava para o mar. Elendil a colocou lá para que pudesse olhar para trás com uma “visão direta”, e ver Eresséa no oeste desaparecido; mas os mares encurvados lá embaixo cobriam Númenor para sempre.
**** Conta-nos o Rei que o cetro era o piincipal símbolo de realeza em Númenor; o mesmo acontecia em Arnor, cujos reis não usavam coroa, mas traziam na testa uma única pedra, chamada Elendilnijr, Estrela de Elendil, presa por um filete de prata. Falando em uma coroa, Bilbo sem dúvida estava se referindo a Gondor; ao que parece, ele se inteirou dos assuntos concernentes à linhagem de Aragorn. Comenta-se que o cetro de Númenor desapareceu com Ar-Pharazôn. O de Annúminas era o bastão de prata dos Senhores de Andúnié, e talvez seja atualmente o mais antigo trabalho feito por homens preservado na Terra Média. Já tinha mais de cinco mil anos quando Elrond o entregou a Aragorn. A coroa de Gondor derivou do formato de um capacete de guerra númenoriano. De fato, no início era apenas um elmo sem adornos; e comenta-se que foi o elmo usado por Isildur na Batalha de Dagorlad (pois o elmo de Anárion foi esmagado pela pedra desferida por Barad-dûr que o matou). Mas nos dias de Atanatar Alcarin esse elmo foi substituído por um outro adornado de joias, que foi usado na coroação de Aragorn.

Gondor e os Herdeiros de Anárion
Houve trinta e um reis em Gondor depois de Anárion, que foi morto diante de Batad-dûr. Embora a guerra nunca cessasse em suas fronteiras, durante mais de mil anos os dúnedain do sul cresceram em riqueza e poder, em terra e mar, até o reinado de Atanatar II, que era chamado de Alcarin, o Glorioso.
Apesar disso, os sinais da decadência já tinham começado a aparecer; os homens nobres do sul casavam-se tarde, e tinham poucos filhos. O primeiro rei sem prole foi Falastur, e o segundo Narmacil 1, o filho de Atanatar Alcarin.
Foi Ostoher, o sétimo rei, quem reconstruiu Minas Anor, onde posteriormente os reis passaram a morar no verão, preferindo aquele local a Osgíiiath. Em sua época, Gondor foi pela primeira vez atacada pelos homens bárbaros vindos do leste. Mas Tarostar, seu filho, derrotou-os e os expulsou, assumindo o nome de Rómendacil: “Vencedor do Leste”. Entretanto, ele foi morto depois numa batalha travada contra novas hordas de orientaís. Turambar, seu filho, vingou-o, e conquistou um grande território na região leste.
Com Tarannon, o décimo segundo rei, começou a linhagem dos Reis-navegantes, que construíram esquadras e estenderam o poder de Gondor ao longo da costa a oeste e ao sul da Foz do Anduin. Para comemorar suas vitórias como Capitão dos Exércitos, Tarannon assumiu a coroa com o nome de Falastur, “Senhor das Costas”.
Eärnil 1, seu sobrinho, que o sucedeu, reformou o antigo porto de Pelargír e construiu uma grande esquadra. Sitiou Umbar por terra e mar, conquistando e transformando o lugar num grande porto e numa fortaleza do poder de Gondor*. Mas Eärnil não sobreviveu muito tempo ao próprio triunfo.
Perdeu-se, juntamente com muitos navios e homens, numa grande tempestade na costa de Umbar.
Círyandil, seu filho, continuou com a construção de navios, mas os homens de Harad, chefiados pelos senhores que haviam sido expulsos de Umbar, insurgíram-se com muita força contra aquela fortaleza, e Ciryandil caiu na batalha em Haradwaith. Por muitos anos Umbar foi atacada, mas não podia ser tomada devido ao poder marítimo de Gondor. Ciryaher, filho de Ciryandíi, esperou a hora certa, e por fim, quando tinha reunido forças, desceu do norte por mar e por terra e, atravessando o rio Harnen, seus exércitos derrotaram completamente os homens de Harad, e seus reis foram obrigados a reconhecer a soberania de Gondor (1050).
Ciryaher assumiu então o nome de Hyarmendacil, “Vencedor do Sul”.
Nenhum inimigo ousou contestar o poder de Hyarmendacíl durante o resto de seu longo reinado. Ele foi rei por cento e trinta e quatro anos, sendo o seu o segundo reinado mais longo de toda a Linhagem de Anárion.
Em sua época Gondor atingiu o apogeu de seu poder. O reino se estendeu ao norte até Celehrant e as fronteiras sudoeste da Floresta das Trevas; a oeste até o rio Cinzento; a leste abarcou o Mar Interno de Rhún; ao sul chegou até o rio Harnen, e dali prolongou-se pela costa até a peninsula e o porto de Umbar. Os homens dos Vales do Anduín reconheceram sua autoridade, e os reis de Harad prestaram honras a Gondor, e seus filhos viveram como reféns na corte do Rei. Mordor estava em abandono, mas era vigiada pela grande fortaleza que guardava as entradas.
Assim terminou a linhagem dos Reis-navegantes. Atanatar Aicarin, filho de Hyarmendacíl, viveu com grande esplendor, tanto que os homens diziam que em Gondor pedras preciosas são pedregulhos para as crianças brincarem. Mas Atanatar gostava de vida mansa e não fez nada para manter o poder que herdara, e seus dois filhos tinham temperamento semelhante. O declínio de Gondor já havia começado antes de sua morte, e sem dúvida era observado pelos inimigos. A vigilância sobre Mordor foi negligenciada. Não obstante, foi só nos dias de Valacar que o primeiro grande mal se abateu sobre Gondor: a guerra civil da Contenda das Famílias, na qual houve grande perda e destruição, que nunca foram totalmente reparadas.
Minalcar, filho de Caimacil, era um homem muito vigoroso, e em 1240 Narmacil, para se livrar de todas as suas preocupações, nomeou-o Regente. Depois disso ele governou Gondor em nome dos reis até suceder o pai. Sua maior preocupação eram os homens do norte.
Estes últimos tinham crescido muito durante a paz trazida pelo poder de Gondor. Os reis se mostravam favoráveis a eles, já que eram entre os homens inferiores os parentes mais próximos dos dúnedain (descendendo, em sua maioria, daqueles povos que originaram os antigos edain); a eles foram concedidas grandes extensões de terra além do Anduín, ao sul da Grande Floresta Verde, para que se constituíssem numa defesa contra os homens do leste. Isso deveu-se ao fato de que, no passado os ataques dos orientais tinham vindo principalmente através da planície que fica entre o Mar Interno e as Montanhas de Cinza.
Nos dias de Narmacil 1, os ataques começaram de novo, embora a princípio com pouca força; mas o regente ficou sabendo que os homens do norte nem sempre permaneciam fiéis a Gondor, e alguns poderiam juntar forças com os orientaís, levados pela ganância por espólios ou pelo desejo de alimentar rixas entre seus príncipes.
Mínalcar, portanto, liderou em 1248 um grande exército, e entre Rhovanion e o Mar Interno derrotou uma grande força dos orientais e destruiu todos os seus acampamentos e povoados a leste do Mar. Assumiu então o nome de Rómendacil.
Ao retornar, Rómendacil fortificou a margem oeste do Anduín até a foz do Límciaro, proibindo qualquer forasteiro de descer o rio além das Emyn Muíl. Foi ele quem construiu os pilares dos Argonath e a entrada para Nen Hithoei.
Mas, já que precisava de homens e queria fortalecer os laços entre Gondor e os homens do norte, tomou a seu serviço muitos destes, dando a alguns altos postos em seus exércitos.
Rómendacíl mostrava uma preferência por Vidugavia, que o ajudara durante a guerra. Ele se autodenomínava Rei de Rhovanion, e de fato era o mais poderoso dos príncipes do norte, embora seu reino ficasse entre a Floresta Verde e o rio Celduin**.
Em 1250, Rómendacil mandou seu filho Valacar como embaixador para morar um tempo com Vidugavia e se familiarizar com a língua, os costumes e as politicas dos homens do norte. Mas Valacar excedeu em muito os desígnios de seu pai. Tornou-se um apaixonado pelas terras e pelo povo do norte, e casou-se com Vidumavi, filha de Vidugavia. Demorou alguns anos para retornar. Desse casamento originou-se depois a guerra da Contenda das Famílias.
“Pois os nobres de Gondor não viam com bons olhos a presença dos homens do norte entre eles; nunca se ouvira falar antes de um herdeiro da coroa, ou qualquer filho do rei, que se tivesse casado com alguém de uma raça inferior e estranha. Já havia rebelião nas províncias do sul quando o rei Valacar ficou velho. Sua rainha fora uma senhora bela e nobre, mas de vida curta, conforme era o destino dos homens inferiores, e os dúnedain temiam que com os seus descendentes acontecesse o mesmo e que eles perdessem a majestade dos reis dos homens. Além disso, não estavam dispostos a aceitar como seu senhor o filho dela que, apesar de agora se chamar Eldacar, nascera em terras estrangeiras e em sua infância se chamara Vinitharya, um nome do povo de sua mãe.
“Portanto, quando Eldacar sucedeu o pai, houve guerra em Gondor. Mas não foi fácil afastar Eldacar de sua herança. A linhagem de Gondor ele acrescentara o espírito destemido dos homens do norte. Era belo e corajoso, e não mostrava sinais de envelhecer mais depressa que seu pai. Quando os aliados, chefiados pelos descendentes dos reis, insurgiram-se contra ele, opôs-se a eles até o esgotamento de suas forças. Por fim foi cercado em Osgiliath, mas resistiu por muito tempo, até que a fome e os exércitos mais numerosos dos rebeldes o expulsaram, deixando a cidade em chamas. Naquele cerco e naquele incêndio, a Torre da Cúpula de Osgiliath foi destruida, e o palatír se perdeu nas águas.
“Mas Eldacar enganou seus inimigos; veio para o norte, juntando-se aos seus parentes em Rhovaníon. Muitos ali se juntaram a ele, tanto dentre os homens do norte a serviço de Gondor quanto dentre os dúnedain das regiões setentrionais do reino. Muitos dos dúnedaín tinham aprendido a estimá-lo, e muitos outros vieram a odiar o usurpador. Este era Castamir, neto de Calimehtar, irmão mais novo de Rómendacíl II. Além de ser um dos parentes mais próximos da coroa, ele era entre os rebeldes o que tinha o maior número de seguidores, pois era o Capitão dos Navios, sendo apoiado pelo povo do litoral e dos grandes portos de Pelargir e Umbar.
“Não fazia muito tempo que Castamír fora entronizado, e já se mostrava arrogante e mesquinho. Era um homem cruel, como já demonstrara na tomada de Osgiliath. Fez com que Ornendil, filho de Eldacar, que foi capturado, fosse morto; e a matança e a destruição perpetradas na cidade sob suas ordens em muito excederam as necessidades da guerra. Isso foi lembrado em Minas Anor e em Ithílien, onde a estima por Castamir diminuiu ainda mais quando ficou visível que ele pouco se importava com a terra, pensando apenas nas esquadras, e quando propós que o trono do rei fosse levado para Pelargir.
“Dessa forma, seu reinado contava com apenas dez anos quando Eldacar, agarrando a sua oportunidade, saiu do norte com um grande exército, e muitos outros homens de Calenardhon, Anórien e Ithilien juntaram-se a ele. Houve uma grande batalha em Lebennin e nas Travessias do Erui, na qual grande parte do melhor sangue de Gondor foi derramado.
O próprio Eldacar matou Castamir em combate vingando assim a morte de Ornendil; mas os filhos de Castamir escaparam, e com outros de sua família e muita gente das esquadras resistiram por muito tempo em Pelargir.
“Quando tinham reunido ali toda a força que conseguiram (pois Eldacar não tinha frota para atacá-los pelo mar), eles partiram em seus navios, e se estabeleceram em Umbar. Ali criaram um refúgio para todos os inimigos do rei, e um governo independente da coroa. Umbar permaneceu em guerra contra Gondor durante muitas vidas de homens, sendo uma ameaça para a sua região litorânea e para todo o tráfego marítimo. Nunca mais foi completamente dominada até os dias de Elessar; e a região de Gondor do Sul tornou-se objeto de disputa entre os Corsários e os Reis.”
“Gondor lamentou a perda de Umbar, não apenas porque o reino ficou menor no sul e seu controle sobre os homens de Harad enfraqueceu, mas também porque ali Ar-Pharazôn, o Dourado, último rei de Númenor, desembarcara e humilhara o poder de Sauron. Embora grandes males tivessem acontecido posteriormente, mesmo os seguidores de Elendil lembravam com orgulho a chegada do grande exército de Ar-Pharazôn, saindo das profundezas do Mar; e no ponto mais alto do promontório que ficava acima do Porto eles tinham erguido um grande pilar branco à guisa de monumento. Em seu topo havia um globo de cristal que captava os raios do Sol e da Lua e brilhava como uma estrela luminosa que se podia avistar, quando o tempo estava bom, mesmo da costa de Gondor ou do mar ocidental, a grande distância. O monumento permaneceu ali até que, depois da segunda ascensão de Sauron, que agora se aproximava, Umbar caiu sob a dominação de seus servidores. e o memorial da humilhação que ele sofrera foi derrubado.”
Depois do retorno de Eldacar, o sangue da casa real e de outras casas dos dúnedain misturou-se mais ao sangue dos homens inferiores.
Muitos foram mortos na Contenda das Famílias, e Eldacar via com bons olhos os homens do norte, que o ajudaram a recuperar a coroa; por esses motivos, ao povo de Gondor juntou-se um grande número de gente vinda de Rhovanion.
No princípio, essa miscigenação não apressou o declínio dos dúnedain como se temera; mas mesmo assim o declínio continuou, pouco a pouco, como já acontecia antes. Pois sem dúvida sua razão era acima de tudo a própria Terra Média, além da lenta retirada das dádivas dos númenorianos após a queda da Terra da Estrela. Eldacar viveu até os duzentos e trinta e cinco anos, e foi rei por cinquenta e oito, dos quais dez foram passados no exílio.
O segundo e maior mal abateu-se sobre Gondor no reinado de Telemnar, o vigésimo sexto rei, cujo pai, Minardil, filho de Eldacar, fora morto em Pelargir pelos Corsários de Umbar (estes foram comandados por Angamaitê e Sangabyando, os bisnetos de Castamir). Logo depois uma peste mortal chegou trazida por ventos escuros do leste. O rei e todos os seus filhos morreram, assim como muita gente do povo de Gondor, especialmente os moradores de Osgiliath. Então, devido ao cansaço e à escassez de homens, a vigilância sobre as fronteiras de Mordor cessou, e as rortalezas que guardavam as entradas ficaram desguarnecidas.
Mais tarde percebeu-se que essas coisas aconteceram ao mesmo tempo em que a Sombra se adensava na Floresta Verde, e muitos seres malignos reapareceram, sinais da ascensão de Sauron. É bem verdade que os inimigos de Gondor também sofreram, caso contrário poderiam tê-la derrotado em sua fraqueza; mas Sauron podia esperar, e pode muito bem ser que a abertura de Mordor fosse o que ele mais queria.
Quando o rei Telemnar morreu, as Árvores Brancas de Minas Anor também murcharam e morreram. Mas Tarondor, seu sobrinho e sucessor, replantou uma muda na na Cidadela. Foi ele também quem transferiu a casa real definitivamente para Minas Anor, pois Osgiliath estava agora parcialmente abandonada, e começava a cair em ruínas.
Poucos dos que haviam fugido da peste para Ithilien ou para os vales do leste estavam dispostos a retornar.
Tarondor, assumindo o trono em sua juventude, teve o reinado mais longo de todos os reis de Gondor, mas pouco pode realizar além do reordenamento interno de seu reino e da lenta formação de suas forças. Mas Telumehtar, seu filho, lembrando-se da morte de Minardil, e sentindo-se incomodado pela insolência dos Corsários, que atacavam sua região costeira chegando até Anfalas, reuniu suas forças e em 1810 tomou Umbar de assalto. Nessa guerra os últimos descendentes de Castamir pereceram, e Umbar ficou outra vez sob o controle dos reis por um tempo. Telumehtar acrescentou ao seu nome o titulo de Umbardacil. Mas, com os novos males que logo se abateram sobre Gondor, Umbar foi novamente perdida, caindo nas mãos dos homens de Harad.
O terceiro mal foi a invasão dos Carroceiros, que consumiram as forças já minguadas de Gondor em guerras que duraram quase cem anos. Os Carroceiros eram um povo, ou uma confederação de muitos povos, que vinha do leste; eram mais fortes e estavam mais bem armados do que qualquer outro exército que aparecera antes. Viajavam em grandes carroças, e seus lideres lutavam em carruagens. Incitados pelos emissários de Sauron, como se percebeu depois, eles atacaram Gondor de súbito, corei Narmacil II foi morto num combate contra eles além do Anduin, em 1856. O povo de Rhovanion do leste e do sul foi escravizado, e as fronteiras de Gondor foram naquela época recuadas para o Anduin e as Emyn Muil (considera-se que nessa época os Espectros do Anel reentraram em Mordor).
Calimebtar, filho de Narmacil II, ajudado por uma revolta em Rhovanion, vingou seu pai com uma grande vitória sobre os orientais em Dagorlad em 1899, e por um tempo o perigo ficou afastado. Foi durante o reinado de Araphant, no norte, e de Ondoher, filho de Calimehtar, no sul, que os dois reinos passaram a fazer planos juntos, após um longo período de estranhamento e silêncio. Perceberam finalmente que um único poder e uma única vontade estavam, de vários pontos diferentes, dirigindo os ataques contra os sobreviventes de Númenor. Foi nessa época que Arvediii, herdeiro de Araphant, casou-se com Fíriel, filha de Ondoher (1940). Mas nenhum dos reinos conseguiu enviar auxílio ao outro, pois Angmar renovara seu ataque contra Arthedain ao mesmo tempo em que os Carroceiros reapareceram com grandes exércitos.
Muitos dos Carroceiros agora tinham penetrado no sul de Mordor e feito aliança com homens de Khand e Harad Próximo; e, nesse grande ataque do norte e do sul, Gondor quase chegou à ruína. Em 1944, o rei Ondober e seus dois filhos, Artamir e Faramir, caíram em batalha ao norte do Morannon, e o inimigo invadiu Itillien. Mas Eärnil, Capitão do Exército do Sul, obteve uma grande vitória em Ithílien do Sul e destruiu o exército de Harad que tinha cruzado o rio Poros. Avançando rapidamente para o norte, ele arrebanhou todo o restante do Exército do Norte, que batia em retirada, e atacou o principal acampamento dos Carroceiros, enquanto estes se divertiam num banquete, na crença de que Gondor fora derrotada e de que nada restava para saquear. Eärnil tomou de assalto o acampamento e ateou fogo às carroças, expulsando o inimigo de Ithilien em meio a um grande tumulto. Boa parte daqueles que fugiram de sua perseguição pereceram nos Pântanos Mortos.
“Por ocasião da morte de Ondober e seus filhos, Arvedui, do Reino do Norte, reivindicou a coroa de Gondor, como descendente direto de Isildur, e como marido de Fíriel, a única filha sobrevivente de Ondoher. A reivindicação foi rejeitada. Nisto, Pelendur, o regente do rei Ondoher, desempenhou o principal papel.
“O Conselho de Gondor respondeu: — A coroa e a realeza de Gondor pertencem unicamente aos herdeiros de Meneldil, filho de Anárion, a quem Isildur entregou este reino. Em Gondor essa herança só é considerada através de filhos homens, e não ouvimos falar que a lei em Arnor seja diferente.
“A isso Arvedui respondeu: — Elendil teve dois filhos, dos quais Isildur era o mais velho e herdeiro. Sabemos que o nome de Elendil está até hoje no topo da linhagem dos reis de Gondor, já que ele foi reconhecido como alto rei de todas as terras dos dúnedain. Enquanto Elendil ainda vivia, o governo conjunto do sul ficou a cargo de seus filhos; mas, quando ele morreu, Isildur partiu para tomar posse do alto trono de seu pai, deixando o governo do sul, de forma semelhante, para o filho de seu irmão. Ele não abdicou do trono em Gondor, nem pretendia que o reino de Elendil ficasse dividido para sempre. Além disso, na antiga Númenor, o cetro era passado ao descendente mais velho do rei, fosse homem ou mulher. É verdade que a lei não foi observada nas terras do exílio, sempre atribuladas pelas guerras; mas esta era a lei de nosso povo, à qual nos referimos agora, tendo em vista que os filhos de Ondoher morreram sem deixar prole***.
“A isso Gondor não respondeu. A coroa foi reivindicada por Eärnil, o capitão vitorioso, e a ele foi concedida com a aprovação de todos os dúnedain de Gondor, uma vez que ele fazia parte da casa real. Era filho de Siriondil, filho de Calimmacil, filho de Arciryas, irmão de Narmacil II. Arvedui não insistiu em sua reivindicação, pois não tinha nem poder e nem vontade de se opor à escolha dos dúnedain de Gondor; apesar disso, a reivindicação nunca foi esquecida por seus descendentes, mesmo quando seu reino já tinha desaparecido. Pois aproximava-se então a hora em que o reino do Norte chegaria ao fim.
 “Arvedui foi de fato o último rei, como diz seu próprio nome. Conta-se que esse nome foi-lhe dado assim que nasceu por Malbeíh, o Vidente, que disse ao seu pai: — Deve chamá-lo de Arvedui, pois ele será o último em Arthedain. Contudo, uma escolha deverá ser feita pelos dúnedain, e, se eles optarem pelo que parece menos promissor, então seu filho mudará de nome e tornar-se-á rei de um grande reino. Caso contrário, muita tristeza e muitas vidas de homens se passarão até que os dúnedain se levantem e se unam outra vez.
“Em Gondor também apenas um rei sucedeu a Eärnil. Pode ser que, se a coroa e ocetro se tivessem unido, a soberania fosse mantida e muito mal teria sido evitado. Mas Eärnil era um homem sábio, e não era arrogante, mesmo que, na opinião dos homens de Gondor, o reino de Arthedain parecesse uma coisa insignificante, apesar de toda a nobreza da linhagem de seus senhores.
“Ele enviou mensagens para Arvedui anunciando que recebia a coroa de Gondor, de acordo com as leis e as necessidades do Reino do Sul, “mas não me esqueço da lealdade de Arnor, nem nego nosso parentesco, e também não desejo que os reinos de Elendil fiquem distantes. Enviar-lhe-ei ajuda quando for necessário, dentro de minhas possibilidades”.
“Entretanto, passou-se muito tempo até que Eärnil se sentisse suficientemente seguro para realizar o que prometera. O rei Araphant continuava a se defender dos ataques de Angmar com forças cada vez mais reduzidas e Arvedui, quando o sucedeu, continuou procedendo do mesmo modo; mas finalmente, no outono de 1973, chegaram mensagens a Gondor dizendo que Arthedain estava em grandes dificuldades, e que o Rei dos Bruxos estava preparando um último golpe contra aquele reino. Então Eärnil enviou seu filho Eärnur para o norte com uma esquadra, o mais rápido possível, e com a maior força de que pôde dispor. Tarde demais. Antes que Eärnur chegasse aos portos de Lindon, o Rei dos Bruxos tinha conquistado Arthedain e Arvedui tinha perecido.
“Mas quando Eärnur chegou aos Portos Cinzentos houve grande alegria e surpresa tanto entre os elfos como entre os homens. Seus navios eram tão numerosos e de tão grande calado que foi dificil encontrar onde pudessem atracar, embora tanto o Harlond quanto o Forlond também estivessem totalmente ocupados; dos navios desembarcou um exército poderoso, com munição e provisões para uma guerra de grandes reis. Pelo menos assim pareceu ao povo do norte, embora essa fosse apenas uma pequena fração do poder de Gondor. Acima de tudo, os cavalos foram elogiados, pois muitos deles vinham dos Vales do Anduin, montados por cavaleiros altos e belos, e altivos príncipes de Rhovanion.
“Então Cirdan convocou todos os que estavam dispostos a segui-lo, de Lindon Ou de Arnor, e quando tudo estava pronto o exército atravessou Lún e marchou em direção ao norte, para desafiar o Rei dos Bruxos de Angmar. Diz-se que na época este morava em Fornost, lugar que enchera de gente maligna, usurpando a casa e o governo dos reis. Em seu orgulho, ele não aguardou o ataque dos inimigos em sua fortaleza, mas saiu ao encontro deles, com a intenção de varrê-los, como já fizera com outros, para dentro do golfo de Lún.
“Mas o Exército do Oeste atacou-o saindo das Colinas do Vesperturvo, e houve uma grande batalha na planície que fica entre Nenuial e as Colinas do None As forças de Angmarjá estavam cedendo e se retirando na direção de Foruost quando o principal grupo dos cavaleiros que contornara as colinas desceu do norte, dispersando-as em meio a um grande tumulto. Então o Rei dos Bruxos, com tudo o que conseguiu reunir de sua ruína, fugiu para o norte, em busca de Angmar, sua própria terra. Antes que pudesse alcançar o abrigo de Carn Dúm, foi alcançado pela cavalaria de Gondor, liderada por Eärnur. Ao mesmo tempo, uma força sob o comando de Glorfindel, o Senhor Élfico, saiu de Valfenda. Assim Angmar foi completamente derrotada, não restando nenhum homem ou orc daquele reino a oeste das Montanhas.
“Mas conta-se que, de repente, quando tudo estava perdido, o Rei dos Bruxos apareceu em pessoa, vestido de negro, com uma máscara preta e montado num cavalo também negro. O medo dominou todos os que o contemplaram, mas ele escolheu o Capitão de Gondor para descarregar todo o seu ódio, e com um grito terrível cavalgou direto contra ele. Eärnur ter-lhe-ia feito frente, mas seu cavalo não suportou o ataque, desviou e levou-o para longe antes que Eärnur pudesse dominá-lo.
“Então o Rei dos Bruxos riu, e ninguém que ouviu aquilo jamais esqueceu o horror daquele grito. Mas Glorfindel então avançou em seu cavalo branco, e, em meio ao seu riso, o Rei dos Bruxos virou-se e fugiu para dentro das sombras. Pois a noite caiu sobre o campo de batalha, ele desapareceu, e ninguém viu para onde foi.
“Nesse momento Eärnur retornou cavalgando; mas Glorfindel, olhando em direção á escuridão que se adensava, disse: — Não o persigam! Ele não retornará para esta terra. Muito distante ainda está sua destruição, e ele não cairá pela mão de um homem. Essas palavras muitos guardaram na memória; mas Eärnur estava zangado, desejando apenas vingar sua desgraça.
“Assim terminou o reino maligno de Angmar, e dessa forma Eärnur, Capitão de Gondor, atraiu sobre si o mais intenso ódio do Rei dos Bruxos; mas muitos anos ainda se passariam antes que isso fosse revelado.”
Foi assim que, durante o reinado do rei Fârnil, como posteriormente ficou claro, o Rei dos Bruxos, escapando do norte, foi para Mordor, e lá reuniu os outros Espectros do Anel, de quem era o líder. Mas foi só em 2000 que eles saíram de Mordor pela Passagem de Cirith Ungol e fecharam cerco sobre Minas Ithil, que tomaram em 2002, roubando da torre o palantir. Não foram expulsos enquanto durou a Terceira Era; Minas Ithil transformou-se num lugar de terror e ganhou um novo nome, Minas Morgul. Grande parte das pessoas que ainda permaneciam em Ithilien abandonaram o lugar.
Eärnur parecia-se com o pai na coragem, mas não na sabedoria. Era um homem de corpo vigoroso e sangue quente; mas não queria se casar, pois seu único prazer residia na luta, ou no exercício com armas. Sua destreza era tanta que ninguém em Gondor podia fazer-lhe frente naqueles esportes de armas com os quais ele se deliciava, mais parecendo um campeão do que um capitão ou rei, e conservando seu vigor e habilidade até uma idade mais avançada do que era normal na época.
Quando Eärnur recebeu a coroa em 2043, o rei de Minas Morgul o desafiou para um combate homem a homem, escarnecendo-se dele, dizendo que Eärnur não ousara fazer-lhe frente em batalha no norte. Daquela vez Mardil, o Regente, conteve a ira do rei.
Minas Anor, que se tornara a principal cidade do reino desde os dias do rei Teleniflar, sendo a residência dos reis, recebeu então um novo nome, Minas Tiritll, como a cidade sempre alerta contra o mal de Morgul.
Eärnur detivera a coroa por apenas sete anos quando o Senhor de Morgul repetiu seu desafio, caçoando do rei e dizendo que ao coração fraco de sua juventude de ele agora acrescentara a fraqueza da idade. Então Mardil não pôde mais contê-lo, e Eärnur cavalgou com uma pequena comitiva de cavaleiros até o portão de Minas Morgul. Jamais se ouviu falar outra vez de alguém daquela comitiva.
Acreditou-se em Gondor que o traiçoeiro inimigo prendera o rei, e que ele tinha morrido sofrendo torturas em Minas Morgul; mas, uma vez que não havia testemunhas de sua morte, Mardil, o Bom Regente, governou Gondor em seu nome por muitos anos.
Agora os descendentes dos reis tinham rareado. Seu número diminuíra muito durante a Contenda das Famílias visto que, desde aquela época, os reis se haviam tornado ciumentos e vigiavam de perto os parentes próximos.
Frequentemente aqueles sobre quem recaiu alguma suspeita fugiram para Umbar e ali se juntaram aos rebeldes, enquanto outros haviam renunciado à sua linhagem, casando-se com mulheres que não tinham sangue númenoriano.
Foi assim que não se encontrou nenhum pretendente à coroa que fosse de pura estirpe, ou cuja reivindicação todos aceitassem; além disso, todos temiam a lembrança da Contenda das Famílias, sabendo que, se uma dissensão desse tipo acontecesse de novo, certamente Gondor pereceria. Portanto, embora os anos se alongassem, o regente continuou a governar Gondor, e a coroa de Elendil ficou jazendo no colo do rei Eärnil nas Casas dos Mortos, onde Eärnur a deixara.

* Tanto o grande cabo como o porto de Umbar, todo bloqueado por terras, foram propriedade númenoriana desde os Dias Antigos, mas tratava-se de uma fortaleza dos homens do Rei, que posteriormente foram chamados de númenorianos negros, corrompidos por Sauron, e que Odiavam acima de tudo os seguidores de Elendil. Depois da queda de Sauron, sua raça minguou depressa, ou misturou-se com a dos homens da Terra Média, mas eles herdaram com a mesma intensidade o ódio por Gondor. Umbar, portanto, só foi tomada a um alto custo.
** Rio Corrente.
*** Essa lei foi feita em Númenor (como nos contou o Rei) quando Tar-Aldarion, o sexto rei, deixou apenas um descendente, uma filha. Ela se tornou a primeira rainha governante, TarAncalimé. Mas a lei era diferente antes de sua época. Tar-Elendil, o quarto rei, foi sucedido por seu filho Tar-Meneldur, embora sua filha Silmarien fosse a mais velha. Entretanto, foi de Silmarien que Elendil descendeu.

(iv)
Os regentes

A Casa dos Regentes se chamava Casa de Húrin, pois eles descendiam do regente do rei Minardil (1621-34), Húrin de Emyn Arnen, um homem de nobre estirpe númenoriana.
Depois de sua época, os reis sempre escolheram seus regentes entre os descendentes dele, e após a época de Pelendur a regência tornou-se hereditária como a realeza, passando de pai para filho ou para o parente mais próximo.
De fato, cada novo regente assumia seu posto prestando o juramento de “segurar o bastão e governar em nome do rei, até o seu retorno”. Mas logo essas palavras passaram a ter um sentido apenas ritual, e pouca atenção se dava a elas, pois os regentes exerciam todo o poder dos reis. Apesar disso, muitos em Gondor acreditavam que um rei realmente voltaria em alguma época futura, e alguns relembravam a antiga linhagem do norte, que, pelo que se dizia, ainda continuava a viver nas sombras.
Mas contra tais pensamentos os regentes governantes fechavam seus corações. Não obstante, os regentes nunca tomaram assento no antigo trono, e não usavam coroa ou cetro. Tinham um bastão branco apenas como símbolo de seu posto; sua bandeira era branca e sem insígnias, ao passo que a bandeira real fora sable, exibindo uma árvore branca em flor sob sete estrelas.
Após Mardil Voronwë, que foi reconhecido como o primeiro da linhagem sucederam-se vinte e quatro regentes governantes em Gondor, até a época de Denethor II, o vigésimo sexto e último. Os primeiros tempos foram tranquilos, pois aqueles eram os dias da Paz Vigilante, durante a qual Sauron recuou ante o Poder do Conselho Branco, e os Espectros do Anel permaneceram escondidos no Vale Morgul.
Mas, a partir da época de Denethor I, a paz nunca mais reinou completamente, e, mesmo quando em Gondor não havia grande ou declarada guerra, suas fronteiras estavam sob ameaça constante.
Nos últimos anos de Denethor 1, a raça dos uruks, orcs negros de grande força, pela primeira vez apareceu, vinda de Mordor, e em 2475 eles atravessaram Ithilien e tomaram Osgiliath. Boromir, filho de Denethor (cujo nome seria dado mais tarde a Boromir dos Nove Caminhantes), derrotou-os e reconquistou Ithilien; mas no fim Osgiliath ficou arruinada, e sua grande ponte de pedra foi destruida.
Depois disso ninguém morou lá. Boromir foi um grande capitão, temido até mesmo pelo Rei dos Bruxos. Era nobre e de rosto belo, um homem de corpo e vontade fortes, mas sofreu um ferimento de Morgul naquela guerra, e isso encurtou sua vida; ficou mirrado pela dor e morreu doze anos após o pai.
Depois dele veio o longo dominio de Cirion. Esse regente era vigilante e cauteloso, mas o poderio de Gondor diminuíra, e a ele restava pouco mais do que defender suas fronteiras, enquanto seus inimigos (ou o poder que os movia) preparavam golpes que ele não podia evitar. Os Corsários saquearam seu litoral, mas era no norte que residia o maior perigo. Nas amplas terras de Rhovanion, entre a Floresta das Trevas e o rio Corrente, agora morava um povo cruel, totalmente dominado pela sombra de Doí Guldur. Frequentemente eles atacavam pela floresta, até que o vale do Anduin ao sul do Rio de Lis ficou em grande parte abandonado. A esses balchoth somavam-se constantemente outros, de raças semelhantes, que chegavam do leste, enquanto o povo de Calenardhon diminuía. Cirion teve de esforçar-se ao máximo para manter a fronteira do Anduin.
“Prevendo o ataque, Cirion pediu auxílio ao norte, mas foi tarde demais; naquele ano (2510), os balchoth, tendo construído muitos navios e jangadas grandes nas margens orientais do Anduin, atacaram maciçamente pelo rio e dispersaram os defensores. Um exército que subia do sul foi interceptado e empurrado para o norte pelo Limclaro, e ali foi subitamente atacado por uma horda de orcs das Montanhas e forçado a retirar-se na direção do Anduin. Então do norte chegou uma ajuda quando já não restava qualquer esperança, e as cornetas dos rohirrim se fizeram ouvir pela primeira vez em Gondor. Eorl, o Jovem, veio com seus cavaleiros e expulsou o inimigo, perseguindo os balchoth até a morte através dos campos de Calenardhon. Cirion concedeu que Eorl morasse naquela região, e este prestou a Cirion o Juramento de Eorl, garantindo assisténcia aos senhores de Gondor em casos de necessidade ou de solicitação.”
Nos dias de Beren, o décimo nono regente, um perigo ainda maior abateu-se sobre Gondor. Três grandes frotas, preparadas por longo tempo, vieram de Umbar e de Harad, e atacaram as costas de Gondor com muita violência; o inimigo desembarcou em vários lugares, chegando a alcançar ao norte a foz do Isen. Ao mesmo tempo, os rohirrim foram atacados pelo leste e pelo oeste, sua terra foi devastada e o povo foi forçado a se refugiar nos vales das Montanhas Brancas. Naquele ano o Inverno Longo começou com frio e grandes nevascas vindas do norte e do leste, prolongando-se por quase cinco meses. Helm de Rohan e seus dois filhos pereceram naquela guerra; houve miséria e morte tanto em Eriador como em Rohan.
Mas em Gondor, ao sul das montanhas, as coisas não correram tão mal, e antes da chegada da primavera Beregond, filho de Beren, tinha derrotado os invasores. Imediatamente enviou auxílio a Rohan. Ele foi o maior capitão que surgiu em Gondor depois de Boromir; quando sucedeu o pai (2763), Gondor começou a recuperar suas forças. Mas Rohan demorou mais para se refazer dos ferimentos que sofrera. Foi por esse motivo que Beren recebeu Saruman e entregou-lhe as chaves de Orthanc; a partir daquele ano (2759), Saruman passou a morar em Isengard.
Foi na época de Beregond que a Guerra entre anões e orcs foi travada nas Montanhas Sombrias (2793-9), da qual apenas rumores chegaram ao sul, até que os orcs, fugindo de Nanduhirion, tentaram atravessar Rohan e se estabelecer nas Montanhas Brancas. Houve luta por muitos anos nos vales antes que o perigo terminasse.
Quando morreu Belecthor II, o vigésimo primeiro regente, a Árvore Branca também morreu em Minas Tirith, mas foi deixada de pé “até o retorno do rei”, pois não se conseguiu achar uma muda.
Nos dias de Túrin II, os inimigos de Gondor começaram a se mover novamente; Sauron crescera de novo em poder e o dia de seu levante se aproximava. Todo o povo de Ithilien, com exceção dos mais corajosos, abandonou a região e estabeleceu-se no oeste, do outro lado do Anduin, pois a região estava infestada de orcs de Mordor. Foi Túrin quem construiu para seus soldados refúgios secretos em Ithilien, dos quais Henneth Annún foi o mais guarnecido e o que ficou por maior tempo protegido.
Ele também fortificou outra vez a ilha de Cair Andros* para defender Anórien. Mas seu maior perigo residia no sul, onde os haradrim tinham ocupado Gondor do Sul, e houve muita luta ao longo do Poros. Quando Ithilien foi invadida por grandes exércitos, o rei Folcwine de Rohan cumpriu o Juramento de Eorl e pagou sua dívida pela ajuda trazida por Beregond, enviando muitos homens a Gondor. Com seu auxílio, Gondor teve uma vitória no cruzamento do Poros; mas ambos os filhos de Folcwine morreram em combate. Os Cavaleiros os enterraram à moda de seu povo, e eles foram colocados em um único túmulo, pois eram irmãos gêmeos. Por muito tempo ali permaneceu o túmulo, Haudh in Gwanur, erguendo-se sobre a margem do rio, e os inimigos de Gondor temiam passar por ele.
Turgon sucedeu Túrin, mas de sua época lembra-se principalmente que, dois anos antes de sua morte, Sauron levantou-se outra vez, declarando-se abertamente; adentrou outra vez em Mordor, longamente preparada para ele. Então Barad-dúr foi erguida mais uma vez, e a Montanha da Perdição explodiu em chamas; o restante do Povo de Ithilien fugiu para longe. Quando Turgon morreu, Saruman tomou Isengard como propriedade sua, e a fortificou.
 “Ecthelion II, filho de Turgon, era um homem de sabedoria. Com o poder que lhe restava, começou a fortalecer seu reino contra o ataque de Mordor. Encorajou todos os homens de valor, de perto ou de longe, a entrarem para seu exército, e àqueles que provaram ser dignos de confiança garantiu posição e recompensa. Em grande parte do que realizou teve a ajuda de um grande capitão, a quem estimava acima de todos. Chamavam-no Thorongil, Águia da Estrela, pois ele era rápido e tinha olhos sagazes, e usava uma estrela de prata sobre a capa. Mas ninguém sabia seu nome verdadeiro, nem onde nascera. Para encontrar-se com Ecthelion veio de Rohan, onde servira ao rei Thengel, mas não era um dos rohirrim. Era um grande líder de homens, por terra e por mar, mas partiu para as sombras de onde viera, antes que os dias de Ecthelion tivessem findado.
“Thorongil frequentemente aconselhava Ecthelion, dizendo que o exército dos rebeldes de Umbar representava grande perigo para Gondor, e uma ameaça que poderia ser mortal para os feudos do sul, se Sauron partisse para a guerra declarada. Finalmente obteve permissão do regente e reuniu uma pequena esquadra, e deslocou-se para Umbar inesperadamente durante a noite, e lá incendiou grande parte dos navios dos Corsários. Ele mesmo derrotou o Capitão do Porto numa batalha travada no cais, e em seguida sua frota bateu em retirada com poucas perdas. Mas quando retornou a Pelargir, para a tristeza e o espanto dos homens, recusou-se a voltar para Minas Tirith, onde grandes homenagens o aguardavam.
“Enviou uma mensagem de adeus a Ecthelion, dizendo: — Outras tarefas me chamam, senhor, e muito tempo e muitos perigos deverão passar antes que eu volte outra vez para Gondor, se esse for o meu destino. — Embora ninguém pudesse imaginar quais tarefas seriam essas, nem que chamado ele recebera, sabia-se para onde fora. Pois ele tomou um barco e atravessou o Anduin, dizendo ali adeus aos seus companheiros; prosseguiu sozinho, e quando foi visto pela última vez seu rosto olhava na direção das Montanhas da Sombra. Houve consternação na Cidade pela partida de Thorongil, considerada por todos uma grande perda; menos para Denethor, filho de Ecthelion, um homem agora maduro para a regência, na qual sucedeu o pai por ocasião de sua morte, quatro anos depois.
“Denethor II era um homem orgulhoso, alto, valente, e mais majestoso que qualquer outro homem que aparecera em Gondor por muitas vidas de homens; também era sábio, enxergava longe, além de ser versado nas tradições. De fato era semelhante a Thorongil como se fosse um parente próximo, e apesar disso sempre ficava em posição inferior ao estranho nos corações dos homens e na estima de seu pai. Na época muitos pensaram que Thorongil tinha partido antes que seu rival se tornasse senhor, embora o próprio Thorongil jamais tivesse competido com Denethor, nem se considerasse algo mais que um servidor de seu pai. E em um ponto apenas os dois aconselhavam o regente de maneira diversa: Thorongil frequentemente advertia Ecthelion a não depositar confiança em Saruman, o Branco, de Isengard, mas em vez disso preferir os conselhos de Gandalf, o Cinzento. Mas havia pouca amizade entre Denethor e Gandalf depois da época de Ecthelion, o Peregrino Cinzento era menos bem-vindo em Minas Tirith. Portanto, mais tarde, quando tudo ficou claro, muitos acreditaram que Denethor, que tinha uma mente mais perspicaz e enxergava mais longe que os homens de seu tempo, descobrira quem na verdade era aquele forasteiro de nome Thorongil, e suspeitara que ele e Mithrandir pretendiam suplantá-lo.
“Quando Denethor tornou-se regente (2984), mostrou-se um governante dominador, tomando para si o controle de todas as coisas. Falava pouco. Ouvia conselhos e depois seguia sua própria cabeça. Casara-se tarde (2976), tomando como esposa Finduilas, filha de Adrahil, de Doí Amroth. Ela era uma senhora de grande beleza e coração bondoso, mas faleceu antes que se tivessem passado doze anos. Denethor a amava, à sua maneira, mais que qualquer outra pessoa, exceto, talvez, pelo mais velho dos dois filhos que ela lhe dera. Mas tinha-se a impressão de que ela murchava na cidade guardada, como uma flor que, nascida nos vales próximos ao mar, é transplantada para um rochedo árido. A sombra do leste a enchia de terror, e ela sempre voltava seus olhos para o sul, na direção do saudoso mar.
“Depois da morte da esposa, Denethor tornou-se mais austero e calado do que antes, e ficava sentado sozinho em sua torre por muito tempo, perdido em pensamentos, prevendo que o ataque de Mordor viria durante sua regência. Posteriormente acreditou-se que, precisando de conhecimento, mas sendo orgulhoso e confiando em sua própria força de vontade, ele ousou olhar no palantir da Torre Branca. Nenhum dos regentes ousara fazer tal coisa, nem mesmo os reis Farnil e Eärnur, após a queda de Minas Ithil, quando o palantír de Isildur caiu nas mãos do Inimigo; pois a Pedra de Minas Tirith era o palantír de Anárion, o que mais se acordava com aquele que Sauron possuia.
“Foi dessa forma que Denethor adquiriu seu grande conhecimento sobre as coisas que se passavam em seu reino, e muito além de suas fronteiras, o que causava o espanto dos homens; mas pagara um alto preço por esse conhecimento, ficando velho antes do tempo, devido à sua disputa com a vontade de Sauron. Assim o orgulho cresceu em Denethor junto com o desespero, até que ele viu em todos os feitos de sua época apenas um combate homem a homem entre o Senhor da Torre Branca e o Senhor de Barad-dúr, e passou a desconfiar de todos os outros que resistiam a Sauron, a não ser que servissem unicamente a ele próprio.
“Assim foi-se aproximando a época da Guerra do Anel, e os filhos de Denethor tornaram-se adultos. Boromir cinco anos mais velho, amado por seu pai, era parecido com ele nas feições e no orgulho, mas em pouca coisa mais. Pelo contrário, era um homem que se assemelhava ao rei Eärnur de antigamente, recusando-se a se casar e divertindo-se principalmente com armas; forte e destemido, preocupava-se pouco com os estudos da tradição, exceto as histórias de antigas batalhas. Faramir, o mais novo, tinha uma aparência semelhante à do irmão, mas uma mente diferente. Decifrava os corações dos homens com a mesma perspicácia do pai, mas o que lia lhe causava antes pena do que desprezo. Tinha modos gentis e era um amante da tradição e da música; portanto, muitos daquela época o julgavam menos corajoso que o irmão. Mas isso não era verdade, a não ser pelo fato de que ele não buscava glória no perigo sem razão de ser. Acolheu Gandalf todas as vezes em que este visitou a Cidade, e aprendeu tudo o que pôde da sabedoria do mago; nesse e em muitos outros pontos desagradou a seu pai.
“Apesar disso, entre os irmãos havia um grande amor, como sempre acontecera desde a infancia, quando Boromir ajudava e protegia Faramir. Nenhum ciúme e nenhuma rivalidade surgira entre os dois desde aquela época, pela preferência do pai ou pelo elogio dos homens. Faramir não achava possível que qualquer um em Gondor conseguisse rivalizar com Boromir, herdeiro de Denethor, Capitão da Torre Branca, e Boromir pensava do mesmo modo. No entanto, o teste provou o contrário. Mas sobre tudo o que aconteceu aos três na Guerra do Anel muito se conta em outro lugar. E depois da Guerra os dias dos regentes governantes chegaram ao fim, pois o herdeiro de Isildur e Anárion retornou, o governo dos reis foi restabelecido, e a bandeira da Árvore Branca foi mais uma vez desfraldada sobre a Torre de Ecthelion.”

* Esse nome significa Navio da Espuma Longa, pois a ilha tinha o formato de um grande navio com uma proa alta apontando para o norte, contra a qual a espuma branca do Anduin se quebrava sobre rochas pontiagudas.

(v)
Aqui Segue-se uma Parte da História de Aragorn e Arwen

“Arador era o avô do rei. Seu filho Arathorn pediu em casamento Gilraen, a Bela, filha de Dírhael, que por sua vez era um descendente de Aranarth. A esse casamento Dírhael se opunha, pois Gilraen era jovem e ainda não atingira a idade na qual as mulheres dos dúnedain estavam acostumadas a se casar. Além do mais — dizia ele —, Arathorn é um homem austero e já adulto, e será líder antes do que se espera; apesar disso, meu coração pressente que sua vida será curta.
“Mas Ivorwen, sua esposa, que também tinha poderes de previsão, respondeu: — Maior razão para a pressa! Os dias estão ficando escuros e trazem a tempestade, e grandes coisas acontecerão. Se esses dois se casarem agora, pode ser que a esperança nasça para o nosso povo; mas, se demorarem, a esperança não virá enquanto durar esta era.
“E aconteceu que, apenas um ano após o casamento de Arathorn e Gilrean, Arador foi capturado e morto por trolls das colinas nos Morros Frios, ao norte de Valfenda; Arathorn portanto tornou-se líder dos dúnedain. No ano seguinte Gilraen lhe deu um filho, a quem foi dado o nome de Aragorn. Mas Aragorn tinha apenas dois anos quando Arathorn saiu cavalgando num ataque contra os orcs, acompanhado dos filhos de Elrond, e foi abatido por uma flecha-orc que lhe perfurou o olho, e dessa forma ele realmente viveu pouco para alguém de sua raça, tendo apenas sessenta anos quando tombou.
“Então Aragorn, sendo agora o herdeiro de Isildur, foi levado com a mãe para morar na casa de Elrond, que assumiu o lugar de seu pai e veio a amá-lo como se fosse seu próprio filho. Mas ele era chamado de Estel, que significa “Esperança”, e seu verdadeiro nome e linhagem foram guardados em segredo por ordem de Elrond; os Sábios sabiam que o Inimigo estava procurando descobrir quem era o Herdeiro de Isildur, caso restasse algum na terra.
“Mas, quando Estel tinha apenas vinte anos de idade, aconteceu que um dia retornava a Valfenda depois de ter realizado grandes feitos na companhia dos filhos de Elrond; Elrond olhou para ele e ficou satisfeito, pois viu que era belo e nobre, e precocemente atingiria a idade adulta, embora ainda fosse crescer no corpo e na mente. Naquele dia, portanto, Elrond o chamou por seu verdadeiro nome, e revelou-lhe quem era, e o nome de seu pai; entregou-lhe então os legados de sua casa.
“— Aqui está o anel de Barahir — disse ele —, o sinal de nosso antigo parentesco; e aqui também estão os fragmentos de Narsil. Com eles você ainda poderá realizar grandes feitos, pois eu prevejo que sua vida será mais longa que a da maioria dos homens, a não ser que o mal o acometa ou que você falhe no teste. Mas o teste será longo e dificil. O Cetro de Annúminas eu reterei, pois você ainda deve fazer por merecê-lo.
“No dia seguinte, na hora do pôr-do-sol, Aragorn caminhava sozinho na floresta; seu coração estava leve e ele cantava, pois sentia-se cheio de esperanças e o mundo era belo. E de repente, no momento em que cantava, viu uma donzela caminhando num gramado por entre os troncos brancos das bétulas; parou então assustado, pensando que se tinha perdido num sonho, ou então que recebera a dádiva dos menestréis-élficos, capazes de fazer com que as coisas por eles cantadas apareçam diante dos olhos de quem os escuta.
“Na verdade Aragorn estivera cantando uma parte da Balada de Lúthien, que conta sobre o encontro de Lúthien e Beren na Floresta de Neldoreth. E eis que Lúthien estava ali, caminhando diante de seus olhos em Valfenda, vestindo um manto prata e azul, bela como o crepúsculo em Casadelfos; seus cabelos escuros esvoaçavam num vento repentino, e sua fronte estava cingida com pedras que pareciam estrelas.
“Por um momento Aragorn observou em silêncio, mas, temendo que ela fugisse e nunca mais aparecesse, chamou-a, gritando, Tinúviel, Tinúviel!, da mesma forma que Beren fizera nos Dias Antigos, muito tempo atrás.
“Então a donzela virou-se para ele e sorriu, dizendo: — Quem é você? E por que me chama por esse nome?
“E ele respondeu: — Porque achei que você fosse realmente Lúthien Tinúviel, sobre quem eu estava cantando. Mas, se você não for ela, então você caminha na imagem dela. — Muitos já disseram isso — respondeu ela num tom grave. — Mas o nome dela não é o meu. Embora talvez nossos destinos não sejam diferentes. Mas quem é você?
“— Estel era meu nome — disse ele —, mas sou Aragorn, filho de Arathorn, Herdeiro de Isildur, Senhor dos Dúnedain. — Mas no momento em que falava ele sentiu que sua alta linhagem, que lhe trouxera alegria ao coração, valia agora pouca coisa, e não era nada em comparação à dignidade e beleza dela.
“Mas ela riu com alegria, e disse: — Então somos parentes distantes. Pois eu sou Arwen, filha de Elrond, e também me chamo Undómiel.
“— Frequentemente se observa — disse Aragorn — que em tempos perigosos os homens escondem seu principal tesouro. Mas mesmo assim surpreendo-me com Elrond e com seus irmãos, pois, embora tenha vivido nesta casa desde a infância, nunca ouvi falar de você. Como será que nunca nos encontramos antes? Com certeza seu pai não a trancou junto com seu tesouro?
“— Não — disse ela, erguendo os olhos para as Montanhas que assomavam no leste. — Morei um tempo na terra dos parentes de minha mãe, em Lothlórien. Faz pouco tempo que retornei para visitar meu pai outra vez. Já faz muitos anos que não caminho em Imíadris.
“Então Aragorn ficou surpreso, pois ela não parecia mais velha do que ele, que por sua vez ainda não vivera muito mais que vinte anos na Terra Média. Mas Arwen olhou em seus olhos e disse: — Não fique admirado! Os filhos de Elrond têm a vida dos eldar.
“Então Aragorn ficou consternado, pois viu nos olhos dela a luz élfica e a sabedoria de muitos dias; mas daquela hora em diante amou Arwen Undómiel, filha de Elrond.
“Nos dias que se seguiram, Aragorn ficou calado, e sua mãe percebeu que algo estranho lhe acontecera; por fim ele cedeu às perguntas dela e contou-lhe sobre o encontro na meia-luz do bosque. — Meu filho — disse Gilraen —, sua ambição é grande, mesmo para um descendente de muitos reis. Pois esta senhora é a mais bela e a mais nobre que agora pisa sobre a terra. E não é adequado que os mortais se casem com alguém do povo élfico. — Mesmo assim, nós temos algum parentesco — disse Aragorn —, se for verdadeira a história que me foi contada sobre meus antepassados. — É verdade — disse Gilraen — mas isso foi há muito tempo e numa outra era deste mundo, antes que nossa raça fosse diminuída. Portanto sinto-me receosa, pois sem a boa vontade do mestre Elrond os herdeiros de Isildur logo chegarão ao fim. Mas não julgo que você consiga a boa vontade de Elrond nesse assunto. — Então amargos serão meus dias, e eu caminharei nas terras ermas sozinho — disse Aragorn. — Esse realmente será o seu destino — disse Gilraen, mas, embora ela tivesse um pouco do poder de previsão de seu povo, não lhe disse mais nada sobre o seu pressentimento, nem comentou com ninguém sobre o que o filho lhe dissera. Mas Elrond via muitas coisas e decifrava muitos corações. Um dia, antes do final do ano, ele chamou Aragorn ao seu aposento e disse: — Aragorn, filho de Arathorn, Senhor dos Dúnedain, ouça-me! Um grande destino o aguarda: elevar-se acima de todos os seus antepassados desde os dias de Elendil, ou então cair na escuridão com tudo o que resta de sua estirpe. Muitos anos de provações estendem-se diante de você. Você não deve ter uma esposa, nem assumir compromisso com qualquer mulher, até que seu tempo chegue e que você seja considerado digno disso.
“Então Aragorn ficou perturbado, e disse: — Será que minha mãe mencionou algo sobre esse assunto?
“— Não, não mencionou nada — disse Elrond. — Seus próprios olhos o traíram. Mas não estou falando apenas de minha filha. Você ainda não deve comprometerse com a filha de homem algum. Mas quanto a Arwen, a Bela, Senhora de Imíadris e de Lórien, Estrela Vespertina de seu povo, ela é de uma linhagem superior à sua, e já viveu neste mundo tanto tempo que para ela você não passa de um tenro broto ao lado de uma bétula jovem de muitos verões. Ela está muito acima de você. E também acho provável que ela pense assim. Mas mesmo se não fosse o caso, e o coração dela se voltasse na direção do seu, eu ainda me sentiria triste por causa do destino que nos foi imposto.
“— Que destino é esse? — perguntou Aragorn.
“— Que, enquanto eu permanecer aqui, ela viverá com a juventude dos eldar — respondeu Elrond —, e quando eu partir ela irá comigo, se assim escolher.
“— Estou vendo — disse Aragorn — que fixei meus olhos num tesouro não menos precioso que o de Thingol, desejado outrora por Beren. Este é meu destino. — Então, de súbito, o poder de previsão de seu povo aflorou-lhe na mente, e ele disse: — Mas veja, mestre Elrond! Os anos de sua permanência estão chegando ao fim, e a escolha logo deverá ser imposta aos seus filhos, a escolha de se separarem ou do senhor ou da Terra Média.
“— É verdade — disse Elrond. — Logo, pelos nossos cálculos, embora muitos anos dos homens ainda devam se passar. Mas não haverá escolha para Arwen, minha amada filha, a não ser que você, Aragorn, filho de Arathorn, se coloque entre nós e faça com que um de nós dois, você ou eu, sofra uma separação amarga, que ultrapassará o fim do mundo. Você ainda não compreende o que deseja de mim. — Elrond suspirou e depois de um tempo, olhando gravemente para o jovem, disse outra vez: — Os anos trarão o que devem trazer. Não vamos falar mais nisso até que muitos se tenham passado. Os dias estão escurecendo, e muito está por vir.
“Então Aragorn despediu-se carinhosamente de Elrond, e no dia seguinte disse adeus à mãe, e às pessoas da casa de Elrond e a Arwen, partindo para os ermos. Por quase trinta anos trabalhou na causa contra Sauron, e tornou-se amigo de Gandalf, o Sábio, do qual ganhou muita sabedoria. Com ele fez muitas viagens perigosas, mas enquanto os anos se passavam viajava sozinho com mais frequência. Seus caminhos eram longos e dificeis, e ele assumiu uma aparência rústica, a não ser quando casualmente sorria; mesmo assim os homens o consideravam digno de honra, como um rei no exílio, nos momentos em que ele não escondia sua verdadeira aparência. Pois ele circulava sob muitos disfarces, e obteve fama sob muitos nomes. Cavalgou com o exército dos rohirrim, lutou para o Senhor de Condor por terra e mar e depois, na hora da vitória, desapareceu para não ser mais visto pelos homens do oeste, e viajou pelo distante leste e pelas profundezas do sul, explorando os corações dos homens, bons e maus, e revelando os planos e estratégias dos servidores de Sauron.
“Assim acabou se tornando o mais resistente dos homens vivos, habilidoso em seus ofícios e erudito nas suas tradições, e apesar disso era mais do que eles; pois tinha a sabedoria dos elfos, e havia uma luz em seus olhos que, quando se acendia, poucos podiam suportar. Seu rosto era triste e austero por causa do destino que lhe fora imposto, e apesar disso a esperança sempre morou nas profundezas de seu coração, do qual a alegria ás vezes jorrava como uma fonte que jorra de uma rocha.
“Veio a acontecer que, aos quarenta e nove anos de idade, Aragorn estava retornando de perigos nos escuros confins de Mordor, onde Sauron passara a morar de novo, ocupando-se do mal. Vinha cansado e desejava voltar a Valfenda para descansar um pouco, antes de viajar para terras distantes; em seu caminho passou pelas fronteiras de Lórien e foi recebido na terra oculta pela Senhora Galadriel.
“Ele não sabia, mas Arwen Undómiel também estava lá, passando outra temporada com os parentes da mãe. Mudara pouco, pois os anos mortais haviam passado por ela sem deixar marcas; mas seu rosto estava mais sério, e raramente se ouvia seu riso. Mas Aragorn crescera, atingindo a plenitude no corpo e na mente, e Galadriel pediu que tirasse suas vestes gastas pela viagem e o vestiu em prata e branco, com um manto de cinza élfico, colocando uma pedra brilhante sobre sua testa. Então sua aparência ficou superior à de qualquer homem, e ele mais parecia um Senhor Élfico das Ilhas do Oeste. E foi assim que Arwen o contemplou pela primeira vez após a longa separação; e enquanto ele veio caminhando ao encontro dela sob as árvores de Caras Galadhon, que estavam carregadas de flores douradas, ela fez sua escolha e selou seu destino.
“Então por um tempo os dois passearam juntos nas clareiras de Lothlórien, até que chegou a hora de ele partir. E, na tardinha do Solstício de Verão, Aragorn, filho de Arathorn, e Arwen, filha de Elrond, foram até a bela colina Cerin Amroth, no centro daquele lugar, e andaram descalços sobre a relva sempre verde, com elanor e niphredil ao redor de seus pés. E ali, sobre aquela colina, olharam para o leste, na direção da Sombra, e para o oeste, na direção do Crepúsculo, e comprometeram-se um com o outro e sentiram-se felizes. E Arwen disse: — Escura é a Sombra, e mesmo assim meu coração se alegra; pois você, Estel, estará entre os grandes cuja coragem irá destruí-la. Mas Aragorn respondeu: — Infelizmente não posso prever esse fato, e o modo como virá a acontecer está oculto para mim. Mas com sua esperança hei de esperar. E rejeito a Sombra com todas as minhas forças. Mas da mesma forma, senhora, o Crepúsculo não é para mim; pois sou mortal, e se você ficar ao meu lado, Estrela Vespertina, deverá também renunciar ao Crepúsculo.
“Ela então ficou imóvel como uma árvore branca, olhando para o oeste; por fim, disse: — Vou ficar ao seu lado, Dúnadan, e dar as costas para o Crepúsculo. Apesar disso, lá fica a terra de meu povo, e a antiga casa de toda a minha família. — Ela amava o pai intensamente.
“Quando Elrond ficou sabendo da escolha da filha, ficou em silêncio, embora seu coração se tivesse entristecido, percebendo que o destino tanto tempo temido não era nada fácil de suportar. Mas, quando Aragorn chegou outra vez a Valfenda, chamou-o à parte e lhe disse: — Meu filho, aproximam-se os anos em que a esperança vai desaparecer, e além deles pouco está claro para mim. E agora uma sombra paira entre nós. Talvez assim tenha sido prescrito, que por minha perda o poder dos reis dos homens possa ser restaurado. Portanto, embora o ame, digo-lhe isto: Arwen Undómiel não diminuirá a dádiva de sua vida por uma causa menor. Ela não será a noiva de ninguém que não seja o rei de Condor e de Arnor. Para mim, até mesmo nossa vitória só poderá trazer tristeza e separação mas para você poderá trazer esperança de alegria por um tempo. É uma pena, meu filho! Receio que para Arwen o destino dos homens possa ser dificil no final.
“Assim ficou acertado entre Elrond e Aragorn, e eles não falaram mais desse assunto; mas Aragorn partiu outra vez na direção do perigo e do trabalho árduo. E enquanto o mundo escurecia e o medo caía sobre a Terra Média, à medida que o poder de Sauron crescia e Barad-dúr se erguia cada vez mais alta e forte, Arwen permaneceu em Valfenda, e, quando Aragorn estava fora, de longe ela cuidava dele em pensamento; e na esperança fez para ele um estandarte grande e majestoso, digno de ser exibido apenas por alguém que reivindicasse o trono dos númenorsanos e a herança de Elendil.
“Depois de alguns anos, Gilraen despediu-se de Elrond e retornou para o seio de seu próprio povo em Eriador, e viveu sozinha; raras vezes viu o filho de novo, pois ele passava muitos anos em terras distantes. Mas uma vez, quando Aragorn tinha retornado do norte, ele foi vê-la, e ela lhe disse antes de sua partida:
“— Esta é a nossa última despedida, Estel, meu filho. Estou envelhecida pela preocupação, mesmo para uma pessoa pertencente à raça dos homens inferiores; e, agora que se aproxima, não posso enfrentar a escuridão de nosso tempo, adensando-se sobre a Terra Média. Deixarei este lugar em breve.
“Aragorn tentou consolá-la, dizendo: — Apesar disso, ainda pode haver uma luz além da escuridão; se for assim, eu gostaria que a senhora a visse e se alegrasse.
“Mas ela respondeu apenas com este linnod: Onen i-Estel Edain, ú-chebin estel anim*, e Aragorn foi-se embora com o coração pesado. Gilraen morreu antes da primavera seguinte.
“Assim se aproximaram os anos da Guerra do Anel, sobre a qual se conta mais em outro lugar: sobre como se revelou o meio inesperado pelo qual Sauron poderia ser derrotado, e sobre como uma esperança além de qualquer esperança foi concretizada. E aconteceu que na hora da derrota Aragorn surgiu do mar e desfraldou o estandarte de Arwen na batalha dos Campos de Pelennor, e naquele dia foi pela primeira vez aclamado como rei. E por fim, quando tudo estava consumado, ele assumiu a herança de seus antepassados e recebeu a coroa de Condor e o cetro de Arnor; e no Solstício de Verão do ano da Queda de Sauron ele tomou a mão de Arwen Undómiel, e os dois se casaram na cidade dos reis.
“A Terceira Era terminou em vitória e esperança; apesar disso, melancólica entre as tristezas daquela Era foi a despedida de Arwen e Elrond, pois os dois foram separados pelo Mar e por um destino que ultrapassava o fim do mundo. Quando o Grande Anel foi desfeito, e os Três foram despojados de seu poder, Elrond por fim ficou cansado e abandonou a Terra Média, para nunca mais voltar. Arwen tornou-se uma mulher mortal, mas apesar disso não era seu destino morrer até perder tudo o que ganhara.
“Como rainha dos elfos e dos homens, ela viveu com Aragorn por cento e vinte anos em grande glória e felicidade; mas por fim ele sentiu a aproximação da velhice e sabia que seu tempo de vida estava se esgotando, por mais longo que pudesse ter sido. Então Aragorn disse a Arwen:
“— Finalmente, Senhora Estrela Vespertina, belíssima neste mundo, e muitíssano amada, meu mundo está se acabando. Eis que acumulamos e gastamos, e agora a hora do pagamento se aproxima!
 “Arwen sabia o que ele pretendia, tendo previsto tudo muito tempo antes; não obstante, foi derrotada pela tristeza: — Então iria, meu senhor, antes de seu tempo, abandonar seu povo, que vive graças ao seu comando? — disse ela. — Não antes de meu tempo — respondeu ele. — Pois, se não for agora, deverei ir em breve, à força. E Eldarion, nosso filho, é um homem maduro para o trono.
“Então, dirigindo-se para a Casa dos Reis, na rua Silenciosa, Aragorn deitou-se no longo leito que lhe fora preparado. Ali disse adeus a Eldarion, e entregou-lhe nas mãos a coroa alada de Gondor e o cetro de Arnor; depois todos o deixaram, com exceção de Arwen, que ficou sozinha ao lado do leito. E, com toda a sua sabedoria e nobreza, ela não pôde evitar de implorar que ele ficasse ainda por mais um tempo. Ainda não estava cansada de seus dias, e assim provou o gosto amargo da mortalidade que assumira para si. — Senhora Undómiel — disse Aragorn —, a hora é realmente dificil, mas ela foi feita no mesmo dia em que nos encontramos sob as bétulas brancas no jardim de Elrond, por onde agora ninguém caminha. E sobre a colina de Cerin Amroth, quando rejeitamos tanto a Sombra como o Crepúsculo, foi este o destino que aceitamos. Aconselhe-se consigo mesma, minha amada, e pergunte-se se realmente gostaria que eu esperasse até mirrar e cair de meu alto trono, sem virilidade e sem razão. Não, senhora, sou o último dos númenorianos, e o último rei dos Dias Antigos; a mim foi concedida não apenas uma longevidade três vezes maior que a dos homens da Terra Média, mas também a graça de ir quando quisesse, devolvendo a dádiva. Agora, portanto, vou dormir. Não lhe direi palavras de consolo, pois não há consolo para uma dor assim nos círculos do mundo. A escolha suprema se coloca diante de você: arrepender-se e ir para os Portos, levando para o oeste a lembrança dos dias que passamos juntos, que lá serão sempre verdes, embora não passem de uma lembrança, ou então conformar-se com o Destino dos homens. — Não, querido senhor — disse ela. — Essa escolha há muito não existe mais. Agora não há um navio que pudesse me levar para lá, e devo de fato me conformar com o Destino dos homens, quer queira quer não: a perda e o silêncio. Mas digo-lhe, Rei dos Númenorianos, só agora entendo a história de seu povo e de sua queda. Desprezei-os como tolos miseráveis, mas por fim sinto pena deles. Pois, se realmente esta for, como dizem os eldar, a dádiva do Um concedida aos homens, é uma dádiva amarga de receber. — Assim parece — disse ele. — Mas não nos deixemos derrotar no último teste, nós que há muito tempo renunciamos à Sombra e ao Anel. Devemos partir com tristeza, mas não com desespero. Veja! Não estamos para sempre presos aos círculos do mundo, e além deles há mais do que lembrança. Adeus! — Estel, Estel! — gritou ela, e nesse momento, na hora em que tomou sua mão e a beijou, Aragorn adormeceu. Então revelou-se nele uma grande beleza, tanto que todos os que vieram depois para vê-lo olhavam-no admirados, pois viam que a graça de sua juventude, a coragem de sua virilidade, a sabedoria e a majestade de sua velhice estavam mescladas em seu rosto. E por muito tempo ficou ali deitado, uma imagem do esplendor dos Reis dos Homens, numa glória que não se apagou antes da destruição do mundo.
“Mas, quando Arwen saiu da Casa, a luz de seus olhos se apagara, e seu povo teve a impressão de que ela se tornara fria e cinzenta como o cair de uma noite de inverno, que chega sem uma estrela. Então ela disse adeus a Eldarion e às filhas, e a todos aqueles a quem amava; partiu da cidade de Minas Tirith e passou para a terra de Lóríen; e viveu lá sozinha, sob as árvores que iam murchando, até que o inverno chegou. Galadriel tinha-se ido, Celeborn também, e a terra estava em silêncio.
“Então, por fim, quando as folhas de maílom estavam caindo, mas a primavera ainda não chegara, ela se deitou para descansar sobre Cerin Amroth, e lá está seu túmulo verde, até que o mundo se altere, e todos os dias de sua vida sejam completamente esquecidos por homens que vierem depois, e elanor e niphredil não mais floresçam a leste do Mar.
“Aqui termina esta história, como nos chegou do sul; e com a passagem da Estrela Vespertina nada mais se lê neste livro sobre os dias de outrora.”

* “Dei Esperança aos dúnedain, não guardei nenhuma esperança para mim.


II. A CASA DE EORL

“Eorl, o Jovem, era o senhor dos homens de Éothéod. Essa região ficava perto das nascentes do Anduin, entre as cadeias mais distantes das Montanhas Sombrias e as partes mais setentrionais da Floresta das Trevas. Os éothéod haviam-se mudado para aquelas paragens nos dias do rei Eärnil II, tendo vindo das terras nos vales do Anduin, entre o Carrock e o Rio de Lis, e eram originariamente parentes proximos dos beornings e dos homens das orlas ocidentais da floresta. Os antepassados de Eorl afirmavam ser descendentes dos reis de Rhovanion, cujo reino ficava além da Floresta das Trevas antes das invasões dos Carroceiros, e dessa forma consideravam-se parentes dos reis de Gondor que descendiam de Eldacar. Davam preferência às planícies e deliciavam-se com cavalos e com todas as proezas da equitação, mas naqueles dias havia muitos homens nos vales centrais do Anduin, e além disso a sombra de Doí Guldur se alongava; portanto, quando tomaram conhecimento da derrota do Rei dos Bruxos, procuraram mais espaço no norte, e expulsaram os remanescentes do povo de Angmar do lado leste das Montanhas. Mas nos dias de Léod, pai de Eorl, seu povo se tornara numeroso, ficando de certa forma mais uma vez comprimido na terra que era seu lar.
“No ano dois mil quinhentos e dez da Terceira Era, um novo perigo ameaçou Gondor. Um grande exército de bárbaros do nordeste se espalhou em Rhovanion e, descendo das Terras Castanhas, atravessou o Anduin em jangadas. Ao mesmo tempo, por acaso ou por estratégia, os orcs (que naquela época, antes de sua guerra contra os anões, formavam um poderoso exército) desceram das Montanhas. Os invasores assolaram Calenardhon, e Cirion, regente de Gondor, pediu a ajuda do norte; havia uma antiga amizade entre os homens do Vale do Anduin e o povo de Gondor. Mas no Vale do Rio os homens agora eram poucos e estavam espalhados, e demoraram para prestar o auxílio possível. Por fim Eorl recebeu noticias sobre a dificuldade de Gondor e, embora parecesse muito tarde, partiu com um grande exército de cavaleiros.
“Assim chegou à batalha do Campo de Celebrant, pois esse era o nome da terra verde que ficava entre o Veio de Prata e o Limclaro. Ali o exército do norte de Gondor corria perigo. Derrotados no Descampado e isolados do sul, seus homens tinham sido forçados a atravessar o Limclaro, e foram subitamente atacados pelo exército dos orcs que os empurrava na direção do Anduin. Não havia mais esperanças quando, inesperadamente, os Cavaleiros surgiram do norte e investiram contra a retaguarda do inimigo. Então as chances da batalha se inverteram, e o inimigo foi expulso através do Limclaro com muitas baixas. Eorl conduziu seus homens numa perseguição, e tão grande era o medo que precedia os cavaleiros do norte que os invasores do Descampado também ficaram em pânico, e foram perseguidos pelos homens de Eorl através das planícies de Calenardhon.
“O povo daquela região se tornara pouco numeroso desde a Peste, e os que restaram tinham sido mortos pelos selvagens orientais. Cirion, portanto, como recompensa pela ajuda recebida, doou a região de Calenardhon que fica entre o Anduin e o Isen a Eorl e seu povo; estes mandaram buscar no norte suas esposas, filhos e pertences, assentando-se naquela região. Deram-lhe um novo nome, Terra dos Cavaleiros, e passaram a se autodenominar eorlingas; mas em Gondor sua terra era chamada Rohan, e seu povo os rohirrim (ou seja, Senhores dos Cavalos). Assim Eorl se tomou o primeiro rei da Terra dos Cavaleiros, e escolheu para morar uma colina verde à frente dos pés das Montanhas Brancas, que formavam a fronteira sul de sua terra. Ali os rohirrim passaram a viver como homens livres, seguindo seu próprio rei e suas próprias leis, mas em aliança perpétua com Gondor.
“Muitos senhores e guerreiros, e muitas mulheres belas e corajosas, são mencionados nas canções de Rohan que ainda evocam o norte. Frumgar, dizem eles, era o nome do líder que conduziu seu povo para Éothéod. Sobre seu filho, Fram, contam que matou Scatha, o grande dragão de Ered Mithrin, deixando aquela terra livre dos grandes-vermes. Dessa forma Fram adquiriu grandes riquezas, mas entrou em desentendimento com os anões, que reivindicavam o tesouro de Scatha. Fram não se mostrou disposto a lhes entregar uma única moeda, e em vez disso enviou-lhes um colar com os dentes de Scatha, acompanhado dos dizeres: ‘Joias como estas não têm similar em seus tesouros, pois são dificeis de se conseguir.’ Alguns dizem que os anões mataram Fram por tal insulto. Não havia grande estima entre os éothéod e os anões.
“Léod era o nome do pai de Eorl. Era domador de cavalos selvagens, pois na época havia muitos naquela região. Capturou um potro branco, que logo se transformou num cavalo forte, belo e altivo. Ninguém podia dominá-lo. Quando Léod tentou montá-lo, o animal carregou-o para longe, e por fim jogou-o ao chão; a cabeça de Léod bateu contra uma pedra, e assim ele morreu. Contava com apenas quarenta e dois anos de idade, e seu filho era um rapaz de dezesseis.
“Eorl jurou que vingaria o pai. Por muito tempo caçou o cavalo, e por fim o avistou; seus companheiros esperavam que ele fosse tentar se aproximar e matá-lo com uma flechada. Mas, quando se aproximaram, Eorl pôs-se de pé e chamou o animal em voz alta: — Venha cá, Ruína do Homem, e receba um novo nome! Para a surpresa de todos, o cavalo olhou na direção de Eorl, aproximou-se a parou ao lado dele. Eorl disse: — Eu o nomeio Felaróf. Você amava sua liberdade, e não o culpo por isso. Mas agora você me deve uma grande compensação, e deverá entregar sua liberdade a mim até o fim de sua vida.
“Então Eorl o montou, e Felarôf se submeteu; Eorl conduziu-o para casa sem rédea ou freio, e depois disso sempre o montou dessa forma. O cavalo entendia tudo o que os homens diziam, embora não permitisse que ninguém, exceto Eorl, o montasse. Foi montado em Felaróf que Eorl cavalgou para o Campo de Celebrant, pois aquele cavalo provou ter uma vida longa como a dos homens, o mesmo sucedendo com seus descendentes. Estes eram os mearas, que não carregavam ninguém, a não ser o rei da Terra dos Cavaleiros ou seus filhos, até a época de Scadufax. A seu respeito os homens diziam que Béma (a quem os eldar chamavam de Oromé) teria trazido o pai deles do oeste, além do Mar.
“Dos reis da Terra dos Cavaleiros entre Eorl e Théoden fala-se muito em Helm Mão-de-Martelo. Era um homem austero, de grande força. Havia naquele tempo um homem chamado Freca, que afirmava ser descendente do rei Fréawine, embora tivesse, afirmavam os homens, muito sangue da Terra Parda, e os cabelos escuros. Ficou rico e poderoso, possuindo amplas terras dos dois lados do Adorn*. Perto da nascente desse rio, construiu para si uma fortaleza, dando pouca atenção ao rei. HeIm não confiava nele, mas o convocava para seus conselhos; Freca vinha quando queria.
“Para participar de um desses conselhos, Freca chegou cavalgando acompanhado de muitos homens, e pediu a mão da filha de Helm para seu filho Wulf. Mas Helm disse: — Você cresceu desde que esteve aqui pela última vez; principalmente em gordura, eu acho — os homens riram disso, pois Freca tinha uma barriga volumosa.
“Então Freca ficou furioso e insultou o rei, dizendo por fim: — Reis velhos que recusam o bastão que lhes é oferecido podem cair de joelhos. — Helm respondeu: — Venha! O casamento de seu filho é uma ninharia. Helm e Freca podem cuidar disso mais tarde. Enquando isso, o rei e seu conselho têm assuntos importantes a tratar.
“Quando terminou o conselho, Helm levantou-se e colocou as mãos enormes sobre os ombros de Freca, dizendo: — O rei não permite gritarias em sua casa, mas os homens são mais livres lá fora — forçou então Freca a andar à sua frente, saindo de Edoras e entrando no campo. Aos homens de Freca que se aproximavam, ele disse: — Fora daqui! Não precisamos de ouvintes! Vamos tratar de um assunto particular. Vão conversar com meus homens. — E eles olharam e viram que os homens e amigos do rei estavam em número muito maior que eles, e recuaram. — Agora, terrapardense — disse o rei — você só tem de lidar com Helm, sozinho e desarmado. Mas você já disse muito, e é minha vez de falar. Freca, sua loucura cresceu com sua barriga. Você fala em um bastão! Se Helm não aprecia um bastão torto que lhe é jogado, ele o quebra. Assim! — Com essas palavras, deu um murro em Freca com tal força que ele caiu zonzo para trás, e morreu logo em seguida.
 “Helm então declarou que o filho de Freca e seus parentes próximos eram inimigos do rei, e eles fugiram, pois imediatamente Helm enviou muitos cavaleiros para as fronteiras ocidentais.”
Quatro anos mais tarde (2758), grandes problemas sobrevieram a Rohan, e nenhum auxílio pôde ser enviado de Gondor, pois três esquadras dos Corsários atacaram aquele reino e havia guerra ao longo de todo o litoral. Ao mesmo tempo, Rohan foi mais uma vez invadida pelo leste, e os homens da Terra Parda, percebendo sua oportunidade, atravessaram o Isen e desceram de Isengard. Ficou-se logo sabendo que Wulf era o seu líder. Formavam um grande exército, pois juntaram-se a ele os inimigos de Gondor que desembarcaram na foz do Lefnui e na do Isen.
Os rohirrim foram derrotados e sua terra foi assolada; os que não foram mortos ou escravizados fugiram para os vales das montanhas. Helm foi expulso das Travessias do Isen com grandes perdas, refugiando-se no Forte da Trombeta e no precipício que ficava mais atrás (que depois ficou conhecido como Abismo de Helm). Ali ficou sitiado. Wulf tomou Edoras e sentou-se em Meduseld, intitulando-se rei. Ali Haleth, filho de Helm, foi o último a morrer, defendendo as portas.
“Logo em seguida começou o Inverno Longo, e Rohan ficou coberta de neve por quase cinco meses (de novembro a março, 2758-9). Tanto os rohirrim como seus inimigos sofreram enormemente com o frio, e com a escassez que se prolongou por mais tempo. No Abismo de Helm houve muita fome depois do Iule; sentindo-se desesperado, contra o conselho do rei, Háma, seu filho mais novo, conduziu um grupo de homens numa surtida com a intenção de saquear as provisões do inimigo, mas todos se perderam na neve. Helm tornou-se feroz e sombrio devido à penúria e à tristeza, e apenas o terror que causava já valia muitos homens na defesa do Forte. Ele saía sozinho, vestido de branco, e se esgueirava como um troll-de-neve pelos acampamentos inimigos, matando muitos homens com as próprias mãos. Acreditava-se que, se ele não levava arma alguma, nenhuma arma poderia feri-lo. Os terrapardenses diziam que, se ele não conseguisse encontrar comida, devorava homens. A história sobreviveu por muito tempo na Terra Parda. Helm tinha uma grande trombeta, e logo notou-se que antes de investir contra o inimigo ele emitia um clangor que ecoava no Abismo; então um pavor tão profundo dominava seus inimigos que, em vez de se reunirem para prendê-lo ou matá-lo, eles fugiam Garganta abaixo.
“Uma noite os homens ouviram a trombeta tocar, mas Helm não retornou. Na manhã seguinte surgiu um raio de sol, o primeiro depois de muitos dias, e eles viram um vulto branco parado, imóvel sobre o Dique, sozinho, pois nenhum dos terrapardenses ousava se aproximar. Ali estava Helm, morto como pedra, mas ainda ereto. Mesmo assim dizia-se que a trombeta ainda foi ouvida algumas vezes no Abismo e que o espectro de Helm caminhava em meio aos inimigos de Rohan, matando os homens de medo.
“Logo depois o inverno cedeu. Então Fréaláf, filho de Hild, a irmã de Helm, desceu do Templo da Colina, para o qual muitos haviam fugido, e com uma pequena comitiva de homens desesperados surpreendeu Wulf em Meduseld e o matou, reconquistando Edoras. Houve grandes enchentes depois da neve, e o vale do Entágua transformou-se num enorme charco. Os invasores do leste morreram ou se retiraram, e finalmente chegou ajuda de Gondor, pelas estradas a leste e a oeste das montanhas. Antes do término do ano (2759), os terrapardenses foram expulsos, até mesmo de Isengard; então Fréaláf tornou-se rei.
“Helm foi trazido do Forte da Trombeta e colocado no nono túmulo. Sempre depois disso, a branca simbelmynë cresceu ali espessa, de modo que o túmulo parecia estar coberto de neve. Quando Fréaláf morreu, iniciou-se uma outra fileira de túmulos.”
O povo dos rohirrim foi dramaticamente reduzido pela guerra, pela miséria e pela perda do gado e dos cavalos, e foi bom que mais nenhum grande perigo voltasse a ameaçá-los por muitos anos, pois foi só na época do rei Folcwine que eles recuperaram a antiga força.
Foi durante a cerimônia de coroação de Fréaláf que Saruman apareceu, trazendo presentes, e elogiando muito a coragem dos rohirrim.
Foi bem recebido por todos.
Logo em seguida ele passou a morar em Isengard. Para isso, Beren, regente de Gondor, lhe deu permissão, pois Gondor ainda afirmava que Isengard era uma fortaleza de seu reino, não pertencendo a Rohan. Beren também permitiu que Saraman guardasse as chaves de Orthanc. Aquela torre nunca fora invadida ou danificada por qualquer inimigo.
Dessa forma Saruman começou a se comportar como um senhor de homens, pois no início vigiava Isengard como um tenente do regente e um guardião da torre. Mas Fréaláf estava tão satisfeito quanto Beren em relação a isso, considerando que Isengard estava nas mãos de um amigo forte. Um amigo foi o que Saruman pareceu ser por muito tempo, e talvez no início fosse um amigo sincero. Apesar disso, posteriormente restaram poucas dúvidas nas mentes dos homens de que Saruman foi para Isengard na esperança de ainda encontrar ali a Pedra, e com o propósito de construir um poder para si próprio. Com certeza, depois do último Conselho Branco (2953), seus desígnios com relação a Rohan, embora ele os escondesse, eram malignos.
Então ele tomou Isengard como se fosse propriedade sua, e começou a transformá-la num lugar de força e medo, como se pretendesse rivalizar com Barad-dúr. Conquistou amigos e servidores entre todos aqueles que odiavam Gondor e Rohan, fossem eles homens ou outras criaturas mais malignas.

Os Reis da Terra dos Cavaleiros

Primeira Linhagem
Ano*
2485-2545 1. Eorl, o Jovem. Era assim chamado porque sucedeu o pai ainda na juventude e permaneceu loiro e corado até o fim de sua vida. Esta foi encurtada por um novo ataque dos orientais. Eorl morreu em combate no Descampado, e o primeiro túmulo foi erigido. Felaróf também foi colocado ali.
2512-70 2. Brego. Expulsou o inimigo do Descampado, e Rohan não voltou a ser atacada por muitos anos. Em 2569 ele terminou o grande palácio de Meduseld. Durante o banquete de inauguração, seu filho, Baldor, jurou que iria trilhar “as Sendas dos Mortos”, e nunca mais retornou. Brego morreu de tristeza no ano seguinte.
2544-2645 3. Aldor o Velho. Era o segundo filho de Brego. Tornou-se conhecido como oVelho”, já que viveu até uma idade avançada, e foi rei por 75 anos. Em sua época, os rohirrim aumentaram em número, e expulsaram ou subjugaram os últimos terrapardenses que restavam a leste do Isen. O Vale Harg e outros vales foram povoados. Sobre os três reis seguintes há poucas informações, pois em sua época Rohan prosperou e teve paz.
2570-2659 4. Erda. Varão mais velho, mas o quarto descendente de Aldor; já estava velho quando se tornou rei.
2594-2680 5. Fréawine.
2619-99 6. Goldwine.
2644-2718 7. Déor Em sua época os terrapardenses atacaram várias vezes através do Isen. Em 2710 ocuparam o círculo abandonado de Isengard, e não foi possível expulsá-los.
2668-2741 8. Gram.
2691-2759 9. Heim Mão-de-Martelo. No final de seu reino, Rohan sofreu grandes perdas, devido a invasões e ao Inverno Longo. Helm pereceu, bem como seus filhos Háma e Haleth. Fréaláf, filho da irmã de Helm, tornou-se rei.

Segunda Linhagem
2726-98 10. Fréaláf, filho de Hild. Em sua época Saruman chegou a Isengard, de onde os terrapardenses tinham sido expulsos. Os rohirrim no início lucraram com a amizade dele, nos dias de miséria e fraqueza que se seguiram.
2752-2842 11. Brytta. Seu povo o chamava de Léofa, pois era amado por todos; era generoso e ajudava a todos os necessitados. Em sua época houve uma guerra contra os orcs, que, expulsos do norte, procuraram refugio nas Montanhas Brancas. Por ocasião de sua morte, pensou-se que todos os orcs tinham sido expulsos, mas não era assim.
2780-2851 12. Walda. Foi rei por apenas nove anos. Foi morto com todos os seus companheiros quando foram capturados numa cilada por orcs, ao cruzarem as passagens das montanhas, vindos do Templo da Colina.
2804-64 13. Folca. Foi um grande caçador, mas jurou não perseguir qualquer animal selvagem enquanto restasse um orc em Rohan. Quando a última fortaleza-orc foi encontrada e destruída, ele partiu para caçar o grande javali de Everholt na Floresta Firien. Matou o javali mas morreu devido aos graves ferimentos que este lhe causou.
2830-2903 14. Folcwine. Quando se tornou rei, os rohirrim haviam recuperado sua força. Ele reconquistou a fronteira ocidental (entre o Adorn e o Isen) que os terrapardenses tinham ocupado. Rohan recebera um grande auxilio de Gondor nos dias funestos. Quando, portanto, ele ficou sabendo que os haradrím estavam atacando Gondor com grandes exércitos, enviou muitos homens em auxílio ao regente. Desejava conduzi-los em pessoa, mas foi dissuadido, e seus filhos gêmeos, Folcred e Fastred (nascidos em 2858), foram em seu lugar. Caíram lado a lado na batalha de Ithílien (2885). Túrin II, de Gondor, enviou a Folcwine uma grande compensação em ouro.
2870-2953 15. Fengel. Era o terceiro filho e quarto descendente de Folcwíne. Não é lembrado com elogios. Era ávido por comida e ouro, e não se entendia com seus marechais ou com seus filhos. Thengel, seu terceiro descendente e único varão, deixou Rohan quando se tornou adulto e viveu um longo tempo em Gondor, conquistando respeito a serviço de Turgon.
2905-80 16. Thengel. Só se casou bem tarde, mas em 2943 tomou como esposa Morwen, de Lossamach, em Gondor, embora ela fosse dezessete anos mais jovem. Ela lhe deu três filhos em Gondor, dos quais Théoden, o segundo, era o único varão. Quando Fengel morreu, os rohírrim o convocaram, e ele retornou a contragosto. Mas mostrou-se um rei bondoso e sábio, embora a língua de Gondor fosse falada em sua casa, e nem todos os homens apreciassem esse fato. Morwen lhe deu mais duas filhas em Rohan, e a última, Théodwyn, era a mais bela, embora tivesse nascido tarde (2963), a filha da velhice do rei. Seu irmão a amava muito. Foi logo depois do retorno de Thengel que Saruman se declarou Senhor de Isengard e começou a causar problemas a Rohan, invadindo suas fronteiras e apoiando seus inimigos.
2948-3019 17. Théoden. É chamado Théoden Ednew na tradição de Rohan, pois começou a decair devido aos feitiços de Saruman; mas foi curado por Gandalf, e no último ano de sua vida levantou-se e conduziu seus homens para a vitória no Forte da Trombeta, e logo em seguida para os Campos de Pelennor, a maior batalha da Era. Caiu diante dos portões de Mundburg. Por um tempo descansou na terra onde nascera, entre os reis mortos de Gondor, mas foi trazido de volta e colocado no oitavo túmulo de sua linhagem em Edoras. Depois iniciou-se uma nova linhagem.

Terceira Linhagem
Em 2989, Théodwyn casou-se com Éomund, do Folde Oriental, o mais importante Marechal da Terra dos Cavaleiros. Seu filho Éomer nasceu em 2991, e sua filha Éowyn em 2995. Naquela época Sauron se insurgira de novo, e a sombra de Mordor se estendia na direção de Rohan. Orcs começaram a atacar as regiões orientais e a matar ou roubar cavalos. Outros desceram também das Montanhas Sombrias, muitos deles sendo grandes uruks a serviço de Saruman, embora muito tempo se passasse antes que alguém suspeitasse disso. A principal tarefa de Eomund estava nas fronteiras orientais; ele amava muito os cavalos, e odiava os orcs. Se chegassem noticias sobre um ataque, ele muitas vezes investia contra eles tomado pelo ódio, sem cautela e com poucos homens. Foi assim que ele foi morto em 3002, pois estava perseguindo um pequeno bando até as fronteiras dos Emyn Muil, e lá foi surpreendido por um grande exército que estava à espera escondido nas rochas.
Não muito depois Théodwyn ficou doente e morreu, para a grande tristeza do rei, que acolheu em sua casa os filhos dela, chamando-os de filho e filha. Théoden tinha apenas um filho, Théodred, que na época contava com vinte e quatro anos; a rainha Elfhild morrera no parto, e Théoden não voltou a se casar.
Éomer e Éowyn cresceram em Edoras e viram a sombra escura cair sobre o palácio de Théoden. Éomer era como seus antepassados, mas Éowyn era esguia e alta, tendo uma graça e uma altivez herdadas do sul, de Morwen de Lossarnach, a quem os rohirrim haviam chamado Brilho do Aço.
2991 QE. 63 (3084) Éomer Éadig. Ainda jovem tornou-se Marechal da Terra dos Cavaleiros (3017), tendo-lhe sido confiada a tarefa que anteriormente fora do pai nas fronteiras orientaís. Na Guerra do Anel, Théodred caiu em combate contra Saruman nas Travessias do Isen. Portanto, antes de morrer nos Campos de Pelennor, Théoden nomeou Eomer seu herdeiro e chamou-o de rei. Naquele dia Éowyn também ganhou renome, pois lutou na batalha, cavalgando disfarçada; posteriormente ficou conhecida na Terra dos Cavaleiros como a Senhora do Braço do Escudo**.
Éomer tornou-se um grande rei, e, sendo jovem quando sucedeu Théoden, reinou por sessenta e cinco anos, mais tempo que todos os reis dos rohirrim exceto Aldor, o Velho. Na Guerra do Anel, tornou-se amigo do rei Elessar, e de Imrahil, de Doí Amroth; e com frequêncía cavalgava até Gondor. No último ano da Terceira Era casou-se com Lothíriel filha de Imrahil. Seu filho, Elfwine, o Belo, o sucedeu no trono.
Na época de Éomer, os homens da Terra dos Cavaleiros que desejavam paz a tiveram, e o povo cresceu nos vales e nas planícies, e seus cavalos se multiplicaram. Em Gondor reinava agora o rei Elessar, que também governava Arnor. Em todas as terras daqueles reinos de outrora ele era rei, exceto em Rohan, pois renovou a dádiva de Ciríon para com Éomer, e Éomer prestou outra vez o Juramento de Eorl. Com frequência o cumpriu, pois, embora Sauron tivesse desaparecido, os ódios e maldades semeados por ele não haviam morrido, e o Rei do Oeste teve de subjugar muitos inimigos antes que a Árvore Branca pudesse crescer em paz. E, para onde quer que o rei Elessar conduzisse uma guerra, o rei Éomer o acompanhava; e além do Mar de Rhún e nos distantes campos do sul o trovão da cavalaria dos rohírrim foi ouvido, e o Cavalo Branco sobre Verde tremulou em muitos ventos até Éomer ficar velho.

*As datas são dadas de acordo com o Registro de Gondor (Terceira Era). As que estão na margem referem-se ao nascimento e à morte.
** Isso se deve ao fato de que o seu braço que carregava o escudo foi quebrado pela maça do Rei dos Bruxos; mas este ficou reduzido a nada, e assim se cumpriram as palavras ditas por Glorfindel ao rei Eämur muito tempo antes, de que o Rei dos Bruxos não cairia pela mão de um homem. Pois conta-se nas canções da Terra dos Cavaleiros que, nesse feito, Éowyn teve a ajuda do escudeiro de Théoden, que também não era um homem, mas um Pequeno, vindo de uma terra distante, embora tenha sido homenageado por Éomer, que lhe deu o nome de Holdwine. (Esse Holdwine não era ninguém menos que Meriadoc, o Magnifico, Senhor da Terra dos Buques.)

III. O POVO DE DURIN
A respeito da origem dos anões, histórias estranhas são contadas tanto pelos eldar quanto pelos próprios anões, mas, uma vez que essas coisas se situam longe no passado, pouco se fala sobre elas aqui. Durin é o nome que os anões usavam para o mais velho dos Sete País de sua raça, e o ancestral de todos os reis dos Barbaslongas. Ele dormiu sozinho até que, nas profundezas do tempo e no despertar de seu povo, veio para Azanulbízar, e fez sua morada nas cavernas acima do Kheledzâram, na parte leste das Montanhas Sombrias, onde depois se situaram as Minas de Moria, celebradas nas canções.
Ali viveu por tanto tempo que ficou conhecido em toda parte como Durin, o Imortal. Apesar disso, acabou por morrer antes que os Dias Antigos se tivessem passado, e seu túmulo ficou em Khazad-dúm; mas sua linhagem sempre continuou, e cinco vezes nasceu em sua Casa um herdeiro tão parecido com seu Ancestral que recebia o nome de Durin. Na verdade, os anões achavam que era o Imortal que retornava, pois eles tinham muitas histórias e crenças estranhas a respeito de si e de seu destino no mundo.
Depois do final da Primeira Era, o poder e a riqueza de Khazad-dúm cresceram, pois a casa foi enriquecida por muitas pessoas, muita tradição e muitos oficios quando as antigas cidades de Nogrod e Belegost, nas Montanhas Azuis, foram arruinadas na destruição de Thangorodrím. O poder de Moria resistiu através dos Anos Escuros e do domínio de Sauron, pois, embora Eregíon tivesse sido destruída e os portões de Moria fechados, os salões de Khazad-dúm eram por demais profundos e fortes e repletos de um povo demasiado numeroso e valente para que Sauron pudesse conquistá-los de fora.
Assim sua riqueza permaneceu por muito tempo intacta, embora seu povo começasse a diminuir.
Aconteceu que, no meio da Terceira Era, mais uma vez Durin era o rei dos anões, sendo o sexto que levava aquele nome. O poder de Sauron, servidor de Morgoth, estava então crescendo no mundo, embora a Sombra na Floresta que olhava na direção de Moria ainda não fosse conhecida pelo que era. Todos os seres malignos se agitavam. Naquela época os anões faziam escavações profundas, vasculhando Barazínbar em busca de mithril, o metal de preço inestimável que a cada ano ficava mais díficíl de conseguir. Assim eles despertaram de seu sono* uma criatura de terror que, fugindo de Thangorodrim, se escondera nos alicerces da terra desde a chegada do Exército do Oeste: um balrog de Morgoth. Durin foi morto por ele, e no ano seguinte Náin 1, seu filho; então o esplendor de Moria desapareceu, e seu povo foi destruído ou fugiu para longe.
A maioria dos que escaparam seguiram para o norte, e Thráín 1, filho de Náin, veio para Erebor, a Montanha Solitária, próxima às bordas orientais da Floresta das Trevas; ali iniciou novos trabalhos, e tornou-se Rei-sob-a-Montanha.
Em Erebor encontrou uma joia, a Pedra Arken, Coração da Montanha. Mas Thorin 1, seu filho, mudou-se e penetrou no norte distante, chegando até as Montanhas Cinzentas, onde agora se reunia a maioria do povo de Durin, pois essas montanhas eram ricas e pouco exploradas. Mas havia dragões nas regiões ermas mais além, e depois de muitos anos eles ficaram fortes outra vez e se multiplicaram, e abriram guerra contra os anões, saqueando suas minas. Por fim, Dáin 1, juntamente com Frór, seu segundo filho, foi morto ás portas de seu palácio por um grande dragão-frio.
Não muito depois, a maioria do Povo de Durin abandonou as Montanhas Cinzentas. Grór, filho de Dáin, foi embora com muitos seguidores para as Colinas de Ferro.
Mas Thrór, o herdeiro de Dáin, juntamente com Borin, o irmão de seu pai, e o restante do povo retornaram para Erebor. Thrór trouxe de volta para o Grande Palácio de Thráin a Pedra Arken, e ele e seu povo prosperaram e ficaram ricos, tendo a amizade de todos os homens que moravam nas redondezas. Pois não só eles faziam objetos de extrema beleza e singularidade, como também armas e armaduras de grande valor, e havia um intenso comércio de minério entre eles e seus parentes das Colinas de Ferro. Dessa forma, os homens do norte, que viviam entre o Celduin (o rio Corrente) e o Carnen (Rubrágua), tornaram-se fortes e expulsaram os inimigos do leste; e os anões viviam com fartura, e havia banquetes e música nos Salões de Erebot.
Assim, rumores sobre a riqueza de Erebor se espalharam e atingiram os ouvidos dos dragões, e por fim Smaug, o Dourado, o maior de todos os dragões de seu tempo, ergueu-se e, sem avisar, investiu contra o rei Thrór, descendo em chamas na Montanha. Não demorou muito para que todo aquele reino fosse destruido, e a cidade de Vaíle, que ficava nas imediações, ficou abandonada e em ruínas; mas Smaug entrou no Grande Salão e deitou-se ali sobre um leito de ouro.
Muita gente do povo de Thrór escapou do saque e do incêndio, e por último, saindo dos corredores por uma porta secreta, vieram o próprio Thrór e seu filho Thráín II. Dirigiram-se para o sul com sua família**, começando uma longa peregrinação sem destino. Com eles também foi uma pequena comitiva de parentes e seguidores fiéis.
Anos depois, Thrór, agora velho, pobre e desesperado, deu ao filho Thráin o único grande tesouro que ainda possuía, o último dos Sete Anéis, e então partiu com apenas um companheiro, de nome Nár. Na despedida ele disse a Thráin sobre o Anel: ainda pode acabar sendo o alicerce de uma nova fortuna para você, embora isso possa parecer improvável. Mas o Anel precisa de ouro para gerar ouro.
— O senhor não estaria pensando em voltar para Erebor, estaria? — disse Thráin.
— Não na minha idade — disse Thrór. — Nossa vingança contra Smaug eu a transmito para você e seus filhos. Mas estou cansado da pobreza e do desprezo dos homens. Vou para ver o que posso encontrar. — Ele não disse para onde. Estava um pouco perturbado talvez pela idade e pela tristeza, e por longos anos pensando no esplendor da Moria da época de seus antepassados; ou talvez o Anel estivesse voltando-se para o mal agora que seu mestre despertara, conduzindo Thrór para a loucura e a destruição. Da Terra Parda, onde agora estava morando, ele foi para o norte com Nár, e eles atravessaram a Passagem do Chifre Vermelho e entraram em Azanulbizar. Quando Thrór chegou a Moria, encontrou o Portão aberto. Nár implorou que tivesse cuidado, mas ele não deu ouvidos ao companheiro, e entrou destemido como um herdeiro que retorna. Mas não voltou. Nár ficou ali perto, escondido, por muitos dias. Um dia ouviu um grito alto e o toque de uma corneta, e um corpo foi jogado através da escada. Temendo que fosse Thrór, ele começou a se aproximar com cuidado, mas então veio uma voz de dentro do portão:
— Venha cá, barbadinho! Podemos vê-lo. Mas não precisa ficar com medo hoje. Precisamos de você como mensageiro.
Então Nár subiu e descobriu que realmente se tratava do corpo de Thrór, mas a cabeça estava decepada e com o rosto para baixo. Assim que se ajoelhou, ouviu risadas de orcs vindas das sombras, e a voz disse:
— Se os mendigos não esperam na porta, e entram sorrateiramente tentando roubar, isso é o que fazemos com eles. Se qualquer um de seu povo meter sua barba suja aqui outra vez, vai ter o mesmo fim. Vá e diga isso a eles! Mas, se a família dele quiser saber quem é o rei por aqui atualmente, o nome está escrito no rosto dele. Eu escrevi. Eu o matei! Eu sou o mestre!
Então Nár virou a cabeça e viu marcado na testa de Thrór em runas dos anões, para que ele pudesse ler, o nome AZOG. O nome ficou marcado no seu coração e nos corações de todos os anões depois disso. Nár abaixou-se para pegar a cabeça, mas a voz de Azog*** disse:
— Largue isso! Fora daqui! Aqui está a sua paga, mendigo-barbudo.— Uma pequena bolsa lhe foi atirada. Continha algumas moedas de pouco valor.
Chorando, Nár fugiu pelo Veio de Prata; mas olhou mais uma vez para trás e viu que alguns orcs tinham saído pelo portão e estavam despedaçando o corpo e jogando as partes para os corvos negros.
Foi essa a história que Nár trouxe de volta a Thráin, e, quando este já tinha chorado e arrancado muitos fios de sua barba, ficou em silêncio. Ficou sete dias sentado sem dizer palavra. Então levantou-se e disse:
— Isso é intolerável!
Foi assim que começou a Guerra entre os anões e os orcs, que foi longa e mortal, travada em sua maior parte nos lugares profundos embaixo da terra.
Thráin imediatamente enviou mensageiros levando a história para o norte, o leste e o oeste, mas demorou três anos para que os anões concentrassem suas forças. O Povo de Durin reuniu todo o seu exército, que se juntou a grandes forças enviadas das Casas de outros Pais. Tal desonra para com o herdeiro do Mais Velho de sua raça os encheu de ira. Quando tudo estava pronto, eles atacaram e saquearam cada uma das fortalezas dos orcs que conseguiram, do Gundabad até o Rio de Lis. Ambos os lados foram implacáveis, e houve morte e feitos cruéis de dia e de noite. Mas os anões conquistaram a vitória por sua força, por suas armas incomparáveis e pelo fogo de sua ira, caçando Azog em cada caverna sob a montanha.
Por fim, os orcs que fugiam deles reuniram-se em Moria, e o Exército dos anões que os perseguia chegou a Azanulbizar. Este era um grande vale que ficava entre os braços das montanhas ao redor do lago de Kheled-zâram, e que fora uma parte antiga do reino de Khazad-dúm. Quando os anões viram o portão de suas antigas moradias sobre a encosta da colina, emitiram um forte grito que eeoou no vale feito trovão. Mas um grande exército de inimigos estava disposto nas encostas acima deles, e dos portões derramou-se uma multidão de orcs que haviam sido reservados por Azog para uma necessidade extrema.
No início, a sorte estava contra os anões, pois era um dia escuro de inverno. Sem sol, e os orcs, que não vacilaram, estavam em número maior que seus inimigos, e ocupavam o terreno mais alto. Assim começou a Batalha de Azanulbizar (ou Nanduhiron, na Língua Élfica), cuja lembrança ainda faz com que os orcs tremam e os anões chorem.
O primeiro ataque da vanguarda liderado por Thráin foi rechaçado com baixas, e Thráin foi obrigado a se retirar para uma floresta de grandes árvores que na época ainda vicejava, não muito distante do Kheled-zâram. Ali Frerin, seu filho, caiu, e Fundín, seu parente, além de vários outros, juntamente com Thráin e Thorin, ficaram feridos****. Em outro ponto, a batalha avançava e recuava com grande matança, até que finalmente o povo das Colinas de Ferro virou o jogo.
Chegando depois ao campo, com força total, os guerreiros de Náin, filho de Grór, protegidos com malhas metálicas, perseguiram os orcs até o limiar de Moria, gritando “Azog! Azog!”, enquanto derrubavam com suas picaretas todos os que barravam seu caminho.
Então Náin parou diante do Portão e gritou numa voz poderosa:
— Azog! Se estiver aí dentro, saía! Ou será que o jogo no vale está duro demais?
Então Azog saiu, um grande orc com uma enorme cabeça coberta de ferro, e mesmo assim ágil e forte. Junto saíram muitos como ele, os lutadores de sua guarda, e, à medida que avançaram contra a tropa de anões, Azog virou-se para Náin, dizendo:
— O quê? Mais um mendigo em minha porta? Será que vou precisar marcá-lo também? — Com isso avançou contra Náin e eles lutaram. Mas Náin estava meio cego pela ira, e também muito cansado da batalha, enquanto Azog estava descansado, era cruel e cheio de astúcia. Logo Náin desferiu um grande golpe com toda a força que lhe restava, mas Azog pulou de lado e chutou a perna de Náín, de modo que a picareta se estilhaçou contra a pedra onde o orc estivera, enquanto Náín caiu para a frente. Então Azog, com um golpe rápido, atingiu-lhe o pescoço. O colarinho de metal resistiu à lâmina, mas o golpe foi tão pesado que o pescoço de Náin foi quebrado e ele caiu.
Então Azog riu, ergueu a cabeça e soltou um grande grito de triunfo. Mas o grito morreu-lhe na garganta, pois ele viu que todo o seu exército no vale fugia em debandada, e os anões iam de um lado e do outro matando como bem queriam, e os que conseguiam escapar deles estavam fugindo para o sul, correndo e guinchando.
Perto de onde estava, todos os soldados de sua guarda jaziam mortos. Azog virou-se e fugiu na direção do Portão.
Subindo os degraus atrás dele veio um anão com um machado vermelho. Era Dáin Pé-de-Ferro, filho de Náín. Pegou Azog bem diante da porta, e ali o matou e decepou-lhe a cabeça. Isso foi considerado um grande feito, pois Dáin na época era apenas um rapazola para os padrões dos anões. Mas ainda havia uma vida longa e muitas batalhas diante dele, até que velho, mas não curvado, ele acabasse por cair na Guerra do Anel.
Todavia, mesmo sendo corajoso e cheio de ira como estava, conta-se que, quando desceu os degraus do Portão, seu rosto estava cinzento, como o de alguém que acabou de passar por um grande medo.
Quando por fim a batalha foi vencida, os anões que restavam reuniram-se em Azanulbizar. Pegaram a cabeça de Azog e meteram-lhe na boca a bolsa com o dinheiro de pouco valor, e então a fincaram numa estaca. Mas naquela noite não houve banquete nem cantoria, pois o número de mortos ultrapassava o cálculo de sua tristeza.
Não mais da metade deles, conta-se, ainda conseguia ficar de pé ou ter esperanças de cura.
Não obstante, pela manhã, Thráin estava diante deles. Um de seus olhos fora cegado para sempre, e ele mancava devido a um ferimento na perna, mas mesmo assim disse:
— Muito bem! Conquistamos a vitória! Khazad-dúm é nossa!
Mas eles responderam:
— Você pode ser herdeiro de Durin, mas mesmo com um olho você deveria enxergar com mais clareza. Lutamos nesta batalha por vingança, e nos vingamos. Mas esta vingança não é doce. Se isto for uma vitória, então nossas mãos são muito pequenas para segurá-la.
E os que não faziam parte do Povo de Durin disseram:
— Khazad-dúm não era a casa de nossos Pais. O que representa para nós, além de uma esperança de conseguirmos tesouros? Mas agora, se devemos voltar sem as recompensas e as compensações que nos são devidas, quanto mais cedo voltarmos para nossas próprias terras melhor será.
Então Thráin virou-se para Dáin e disse:
— Mas, com certeza, meus próprios parentes não vão me abandonar?
— Não — disse Dáin. — Você é o pai de nosso Povo, e derramamos nosso sangue por você, e estamos dispostos a fazê-lo de novo. Mas não vamos entrar em Khazad-dúm. Você não vai entrar em Khazad-dúm. Somente eu olhei através da sombra do Portão. Além da sombra ainda o espera a Ruína de Durin. O mundo deve mudar, e algum outro poder que não é o nosso deverá vir antes que o Povo de Durin entre de novo em Moria.
Foi assim que, depois de Azanulbizar, os anões dispersaram-se mais uma vez. Mas antes disso, com grande esforço, despojaram todos os seus mortos, para evitar que os orcs viessem e conseguissem ali um estoque de armas e cotas de malha. Conta-se que cada anão que saiu do campo de batalha vinha vergado sob um grande peso.
Então construíram muitas piras e cremaram todos os corpos de seu povo.
Houve grande derrubada de árvores no vale, que depois disso ficou para sempre deserto, e de Lóríen foi possível avistar a fumaça da cremação*****.
Quando as horrendas fogueiras estavam em cinzas, os aliados foram embora para suas próprias terras, e Dáin Pé-de-Ferro conduziu o povo de seu pai de volta para as Colinas de Ferro. Então, parando ao lado da grande estaca, Thráin disse a Thorin Escudo de Carvalho:
— Alguém poderia pensar que esta cabeça foi comprada a um alto preço! Pelo menos demos o nosso reino por ela. Você voltará comigo para a bigorna? Ou prefere mendigar pão em portas orgulhosas?
— Para a bigorna — respondeu Thorin. — Pelo menos o martelo manterá os braços fortes, até que possam outra vez empunhar armas mais afiadas.
Então Thráin e Thorín, com o restante de seus seguidores (entre os quais estavam Balin e Glóin), voltaram para a Terra Parda, e logo após mudaram-se para Eriador, até que por fim fizeram um lar no exílio, na parte leste das Ered Luin, além de Lún. A maioria dos objetos que forjaram naquela época era de ferro, mas eles prosperaram de certa maneira, e seu povo lentamente cresceu******. Mas, como Thrór dissera, o Anel precisava de ouro para gerar ouro, e eles tinham pouco ou quase nada daquele metal e de outros metais preciosos.
Sobre esse Anel pode-se dizer algo aqui. Os anões do Povo de Dum acreditavam que ele era o primeiro dos Sete que foram forjados, e dizem que ele foi dado ao rei de Khazad-dúm, Dum III, pelos próprios ferreiros élficos, e não por Sauron, embora sem dúvida o poder maligno deste estivesse no Anel, já que ele ajudara na forja de todos os Sete. Mas os possuidores do Anel não o exibiam nem comentavam sobre ele, e raramente o entregavam antes de estarem às portas da morte, de modo que os outros não sabiam ao certo onde estava guardado. Alguns pensavam que tinha ficado em Khazaddúm, nas tumbas secretas dos reis, se é que estas não tivessem sido descobertas e saqueadas; mas entre o povo do Herdeiro de Durin acreditava-se (erroneamente) que Thrór o estava usando quando retornou temerariamente para lá.
O que então teria acontecido a ele não sabiam. O Anel não foi encontrado junto ao corpo de Azog.
Não obstante, pode muito bem ser, como acreditam atualmente os anões, que Sauron, por suas artes, tenha descoberto quem estava com o Anel, o último a continuar livre, e que os estranhos infortúnios sofridos pelos herdeiros de Dum se tenham devido em grande parte à malícia dele. Pois os anões se revelaram indomáveis através desse meio. O único poder que o Anel tinha sobre eles era o de inflamar seus corações com uma avidez por ouro e objetos preciosos, de modo que, se eles não tivessem essas coisas, achavam que todas as outras não traziam lucro algum, e eles se enchiam de ira e de desejo de vingança contra todos os que os privavam de tais coisas.
Mas, desde o início, os anões eram feitos de uma fibra que os fazia resistir firmemente a qualquer dominação. Embora pudessem ser mortos ou destruidos, não podiam ser reduzidos a sombras escravizadas por outra vontade; e pelo mesmo motivo suas vidas não eram afetadas por qualquer Anel, não sendo prolongadas ou encurtadas por causa dele. Isso fazia com que Sauron odiasse ainda mais os seus possuidores, e desejasse despojá-los.
Portanto, foi talvez em parte pela malícia do Anel que Thráín, depois de alguns anos, foi ficando inquieto e insatisfeito. O desejo de ouro não saía de sua cabeça. Por fim, quando não conseguia mais contê-lo, voltou sua mente para Erebor, e decidiu retornar para lá. Não mencionou a Thorin nada do que estava em seu coração, mas com Balin e Dwalin e alguns outros levantou-se, disse adeus e partiu.
Pouco se sabe do que se passou com ele depois. Agora parece possível que, assim que se distanciou com poucos companheiros, ele foi perseguido pelos emissários de Sauron. Lobos o caçaram, orcs prepararam-lhe emboscadas, pássaros malignos encheram suas trilhas de sombras, e, quanto mais ele avançava a duras penas para o norte, mais numerosos eram os infortúnios que se lhe opunham. Chegou uma noite escura na qual ele e seus companheiros vagaram na região além do Anduin, foram forçados a se abrigar nas fronteiras da Floresta das Trevas devido a uma chuva negra. Pela manhã Thráín não foi encontrado no acampamento, e seus companheiros o chamaram em vão. Procuraram-no por muitos dias, até que por fim, sem mais esperanças, partiram ao encontro de Thorin. Só depois de muito tempo se soube que Thráin fora capturado e levado para os poços de Doí Guldur. Ali foi torturado e o Anel lhe foi tomado. E lá acabou por morrer.
Assim Thorin Escudo de Carvalho tornou-se o Herdeiro de Dum, mas um herdeiro sem esperança. Quando Thráin desapareceu, ele tinha noventa e cinco anos, e era um grande anão de porte altivo, mas parecia satisfeito em permanecer em Eriador. Ali trabalhou e negociou por muito tempo, ganhando toda a riqueza possível; seu povo aumentou devido à chegada de muita gente errante do Povo de Dum que ouvia falar de sua morada no oeste e vinha até ele. Agora tinham belos palácios nas montanhas, e estoques de mercadorias, e seus dias não pareciam tão díficeis, embora suas canções sempre mencionassem a distante Montanha Solitária. Os anos se alongaram. As cinzas no coração de Thorin se aqueceram de novo enquanto ele pensava nas iniquídades sofridas por sua Casa e na herança que recebera: a tarefa de vingar-se do Dragão. Pensava em armas e exércitos e alianças, enquanto seu grande martelo ressoava na forja; mas os exércitos estavam dispersos e as alianças rompidas e os machados de seu povo eram poucos; e um enorme ódio sem esperança queimava em seu coração enquanto ele malhava o ferro vermelho na bigorna.
Mas por fim ocorreu um encontro casual entre Thorin e Gandalf que mudou toda a sorte da Casa de Durin, além de conduzir a fins outros e mais importantes.
Uma vez, Thorin retornava para o oeste de uma viagem, quando passou uma noite em Bri. Ali também estava Gandalf. Ia para o Condado, lugar que não visitara já havia vinte anos. Sentia-se cansado, e desejava repousar ali por um tempo.
No meio de muitas preocupações, sua mente se concentrava no estado perigoso do norte, pois ele já sabia na época que Sauron estava planejando uma guerra e pretendia, assim que se sentisse forte o suficiente, atacar Valfenda.
Mas agora, para opor resistência contra qualquer tentativa do leste de reconquistar as terras de Angmar e as passagens do norte nas montanhas, só havia os anões das Colinas de Ferro. E além destas ficava a desolação do Dragão. Sauron poderia utilizar-se do Dragão com um efeito terrível. Como então seria possível destruir Smaug*******
Foi no momento em que Gandalf estava sentado ponderando sobre essas coisas que Thorin parou diante dele e disse:
— Mestre Gandalf, conheço-o apenas de vista, mas agora ficaria feliz em conversar com você. Pois ultimamente tenho pensado em você com frequência, como se me fosse ordenado que o procurasse. De fato teria feito isso, se soubesse onde encontrá-lo.
Gandalf olhou para ele surpreso.
— Isso é estranho, Thorin Escudo de Carvalho — disse ele. — Pois também estive pensando em você, e, embora esteja a caminho do Condado, tinha em mente que este também é o caminho para os seus palácios.
— Chame-os assim, se desejar — disse Thorín. — São apenas pobres acomodações no exílio. Mas você seria bem-vindo lá, se quisesse nos visitar. Pois dizem que você é sábio e conhece melhor do que qualquer um o que acontece no mundo; há muitas coisas que me preocupam e ficaria feliz em me aconselhar com você.
— Eu irei — disse Gandalf — pois desconfio que temos pelo menos um problema em comum. O Dragão de Erebor me preocupa, e não acho que será esquecido pelo neto de Thrór.
Conta-se em outro lugar sobre as consequências desse encontro: sobre o estranho plano feito por Gandalf para ajudar Thorin, e sobre como Thorin e seus companheiros partiram do Condado em busca da Montanha Solitária, o que resultou em grandes feitos imprevistos. Aqui são relembradas apenas as coisas que se referem diretamente ao Povo de Durin.
O Dragão foi morto por Bard, de Esgaroth, mas houve uma batalha em Vaíle. Pois os orcs atacaram Erebor assim que ficaram sabendo do retorno dos anões, e eram liderados por Bolg, filho daquele Azog que Dáin matara em sua juventude. Naquela primeira batalha de Vaíle, Thorin Escudo de Carvalho foi mortalmente ferido; morreu e foi enterrado num túmulo sob a Montanha, com a Pedra Arken sobre o peito. Ali também caíram Fíli e Kili, os filhos de sua irmã. Mas Dáin Pé-de-Ferro, seu primo, que viera das Colinas de Ferro em seu auxilio e que também era seu herdeiro por direito, tornou-se o rei Dáin II, e o Reino-sob-a-Montanha foi restaurado, exatamente como Gandalf desejava.
Dáin mostrou ser um grande e sábio rei, e os anões prosperaram e se fortaleceram outra vez em sua época.
No fim do verão do mesmo ano (2941), Gandalf conseguira por fim convencer Saruman e o Conselho Branco a atacarem Dol Guldur, e Sauron se retirou, indo para Mordor, onde poderia estar a salvo, segundo pensava, de todos os seus inimigos. Foi assim que, quando a Guerra por fim chegou, o principal ataque foi dirigido para o sul; mas mesmo assim, com sua mão direita estendida, Sauron poderia ter feito grande mal ao norte, se o rei Daín e o rei Brand não lhe tivessem impedido o caminho.
Foi isso o que Gandalf disse a Frodo e Gimli, quando ficaram morando por um tempo em Minas Tirith. Não fazia muito tempo que tinham chegado a Gondor notícias de eventos distantes.
— Senti pela morte de Thorín — disse Gandalf —, e agora ficamos sabendo que Dáin morreu, lutando em Vaíle mais uma vez, ao mesmo tempo em que lutávamos aqui. Consideraria esta uma enorme perda, se não fosse um grande prodígio o fato de que, em sua idade avançada, ele ainda conseguisse brandir seu machado com a força com que dizem que o fez, de pé sobre o corpo do rei Brand diante do Portão de Erebor até o cair da escuridão. Mas, apesar disso, as coisas poderiam ter sido muito diferentes, e muito piores. Quando vocês pensam na grande Batalha do Pelennor, não devem se esquecer das batalhas de Vaíle e da coragem do Povo de Durin. Pensem no que poderia ter acontecido. Fogo de Dragão e espadas cruéis em Eriador, noite em Valfenda. Poderia não haver rainha em Gondor. Poderíamos agora ter esperanças de retornar da vitória para encontrar apenas cinzas e ruínas. Mas isso foi evitado – porque eu encontrei Thorin Escudo de Carvalho certa noite no início da primavera em Bri. Um encontro casual, como se diz na Terra Média.
Dis era filha de Thráin II. É a única mulher-anã mencionada nessas histórias. Gimli contou que há poucas anãs, provavelmente não mais que um terço de todo o povo. Raramente elas deixam seus lares, a não ser que haja grande necessidade. São tão semelhantes aos anões na voz e na aparência, e nas roupas que usam quando precisam viajar, que olhos e ouvidos dos outros povos não conseguem distíngui-los. Isso deu origem entre os homens à tola crença de que não há anãs, e os anões “nascem da pedra”.
A Linhagem dos anões de Erebor, como foi desenhada por Gimli, filho de Glóin, para o rei Elessar.

Fundação de Erebor, 1999.
Dáin I morto por um dragão, 2589.
Retorno a Erebor, 2590.
Erebor saqueada, 2770.
Assassinato de Thrór, 2790.
Concentração os Anões, 2790-3.
Guerra entre anões e orcs, 2793-9.
Batalha de Nanduhirion, 2799.
Thráin parte sem destino, 2841.
Morte de Thráin e perda de seu Anel, 2850.
Batalha dos Cinco Exércitos e morte de Thorin II, 2941.
Balin vai para Moria, 2898.

Os nomes daqueles que foram considerados reis do Povo de Durin, no exílio ou não, estão marcados deste modo. Dos outros companheiros de Thorin Escudo de Carvalho na tomada para Erebor, Ori, Nori e Dori também eram da Casa de Durin, e parentes mais remotos de Thorin; Bifur, Bofo e Bombur descendiam dos anões de Moria mas não eram da linhagem de Durin.
É por causa do reduzido número de mulheres entre eles que a espécie dos anões se multiplica lentamente, e fica ameaçada quando eles não têm uma moradia segura. Pois os anões só se casam uma vez na vida, e são ciumentos, como em todos os seus direitos. O número de anões-varões que se casam é na verdade menos de um terço. Pois nem todas as mulheres se casam: algumas não desejam maridos, outras desejam algum que não podem conseguir e portanto não aceitam outro. Quanto aos homens, muitos também não desejam o casamento, concentrando-se em seus oficios.
Gimli, filho de Glóin, é famoso, pois foi um dos Nove Caminhantes que partiram com o Anel, e ficou na companhia do rei Elessar durante toda a Guerra. Foi chamado de Amigo-dos-elfos devido ao grande amor nascido entre ele e Legolas, filho do rei Thranduil, e por causa de sua reverência pela Senhora Galadriel.
Depois da queda de Sauron, Gimli trouxe para o sul uma parte do povo dos anões de Erebor, e tornou-se Senhor das Cavernas Cintilantes. Ele e seu povo realizaram grandes trabalhos em Gondor e em Rohan. Para Minas Tirith forjaram portões de mithril e aço, substituindo aqueles que foram destruidos pelo Rei dos Bruxos. Legolas, seu amigo, também trouxe para o sul alguns elfos da Floresta Verde, e eles moraram em Ithilien, que se tornou outra vez o lugar mais belo de todas as Terras do Oeste.
Mas, quando o rei Elessar entregou sua vida, Legolas seguiu por fim o desejo de seu coração, e navegou atravessando o Mar.
Segue-se aqui uma das últimas notas do Livro Vermelho

Ouvimos dizer que Legolas levou consigo Gimli, filho de Glóin, por causa de sua grande amizade, maior do que qualquer uma que já houve entre um elfo e um anão. Se isto for verdade, então é realmente estranho: que um anão estivesse disposto a deixar a Terra Média por qualquer amor, e que os eldar o recebessem, ou que os Senhores do Oeste permitissem tal coisa. Mas conta-se que Gimli partiu também movido pelo desejode rever a beleza de Galadriel; pode ser que ela, sendo poderosa entre os eldar, tenha conseguido tal graça para ele. Não se pode dizer mais nada sobre esse assunto.

* Ou a libertaram da prisão; pode muito bem ser que a criatura já tivesse sido despertada pela malícia de Sauron.
** Entre os quais estavam os filhos de Thráin: Thorin (Escudo de Carvalho), Frerin e Dis. Thorin na época era um jovem pela contagem dos anões. Depois ficou-se sabendo que haviam escapado mais pessoas do Povo-sob-a-Montanha do que a princípio se imaginara; mas a maioria deles dirigiu-se para as Colinas de Ferro.
*** Azog era o pai de Bolg.
**** Conta-se que o escudo de Thorin foi partido, e ele o jogou fora. Cortou então com seu machado um ramo de um carvalho e o segurava com a mão esquerda para se proteger dos golpes dos inimigos, ou para brandi-lo como um porrete. Dessa forma, ganhou seu nome (Thorin Escudo de Carvalho).
***** Foi triste para os anões dispensar aos seus mortos tal tratamento, que era contra os seus hábitos; mas fazer os túmulos que estavam acostumados a construir (uma vez que eles depositam seus mortos na rocha, e não na terra) levaria muitos anos. Portanto, os anões recorreram ao fogo, preferindo isto a expor seu povo a animais, aves ou orcs carniceiros. Mas aqueles que caíram em Azanulbizar eram homenageados na lembrança, e até hoje um anão se refere com orgulho a um de seus antepassados: “ele foi um anão cremado”, e isso é o suficiente.
****** Eles tinham muito poucas mulheres. Dis, filha de Thráin, estava lá. Era a mãe de Fili e Kili, que nasceram nos Ered Luin. Thorin não era casado.

******* 15 de março de 2941.

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