17 de abril de 2016

Akallabêth

A queda de Númenor
Contam os eldar que os homens chegaram ao mundo na época da Sombra de Morgoth e rapidamente caíram sob seu domínio, pois Morgoth mandou seus emissários para o meio deles, e os homens, dando ouvidos a suas palavras astutas e cruéis, adoravam as Trevas e ao mesmo tempo as temiam. Houve, porém, alguns que deram as costas ao mal e deixaram as terras de suas famílias para vagar sempre para o oeste, pois tinham ouvido um rumor de que no oeste existia uma luz que Sombra nenhuma conseguia obscurecer. Os servos de Morgoth os perseguiam com ódio; e suas viagens foram longas e árduas. Mesmo assim, eles chegaram afinal às terras que dão para o Mar, e entraram em Beleriand nos dias da Guerra das Gemas.
Foram chamados de edain no idioma sindarin; tornaram-se amigos e aliados dos eldar e realizaram feitos de grande bravura na guerra contra Morgoth.
Deles nasceu, pelo lado dos pais, o Luminoso Eärendil; e a Balada de Eärendil conta como, no final, quando a vitória de Morgoth era quase total, Eärendil construiu seu barco Vingilot, que os homens chamaram de Rothinzil, e viajou por mares nunca navegados, sempre à procura de Valinor, pois desejava falar diante dos Poderes em nome das Duas Famílias, para que os Valar delas se apiedassem e lhes mandassem ajuda naquela sua extrema necessidade. Por isso, por elfos e homens ele é chamado de Eärendil, o Abençoado, pois conseguiu levar a cabo seu intento depois de grandes esforços e muitos perigos. E de Valinor veio o exército dos Senhores do Oeste. Eärendil, porém, jamais voltou às terras que amava.
Na Grande Batalha, quando afinal Morgoth foi derrotado, e as Thangorodrim, destruídas, somente os edain das linhagens dos homens lutaram pelos Valar, enquanto muitos outros combateram ao lado de Morgoth. E, depois da vitória dos Senhores do Oeste, aqueles dos homens perversos que não foram destruídos fugiram de volta para o leste, onde muitos de sua espécie ainda perambulavam nas terras incultas, ariscos e sem lei, rejeitando ao mesmo tempo as convocações dos Valar e de Morgoth. E os homens maus vieram para o meio deles e lançaram sobre eles um manto de medo. E eles os aceitaram como reis.
Então por algum tempo, os Valar abandonaram os homens da Terra Média que haviam desobedecido à convocação e tomado como senhores os amigos de Morgoth. E os homens viviam nas trevas e eram atormentados por muitos seres terríveis que Morgoth inventara nos tempos de seu domínio: demônios, dragões, bestas deformadas e os orcs imundos, que são arremedos dos Filhos de Ilúvatar. E era infeliz o quinhão dos homens.
Manwë, porém. Expulsou Morgoth e o trancou para além do Mundo, no Vazio que fica fora. E ele não pôde retornar ao Mundo em presença visível, enquanto os Senhores do Oeste ainda estivessem em seus tronos. Contudo, as sementes por ele plantadas ainda germinavam e cresciam, produzindo frutos maléficos, se alguém delas cuidasse. Pois sua vontade permanecia e guiava seus servos, levando-os sempre a frustrar a vontade dos Valar e a destruir os que lhes obedecessem. Isso os Senhores do Oeste sabiam muito bem. Portanto, quando Morgoth foi expulso, eles se reuniram para deliberar sobre as Eras que deveriam se seguir. Os eldar eles convocaram para retomar ao oeste; e aqueles que deram ouvidos ao chamado foram morar na Ilha de Eressëa. E existe nessa ilha um porto que é chamado de Avallónë, pois de todas as cidades é a que está mais próxima de Valinor; e a torre de Avallónë é o primeiro ponto que o marinheiro avista quando finalmente se aproxima das Terras Imortais depois de percorrer as léguas do Mar. Aos Ancestrais dos Homens, das três Casas fiéis, também foi dada uma rica recompensa. Eönwë viveu entre eles e transmitiu conhecimentos. E a eles foram concedidos sabedoria, poder e vida mais longa do que a de quaisquer outros de raça mortal. Foi criada uma terra para ser habitada pelos edain, nem parte da Terra Média nem de Valinor, pois estava separada das duas por um vasto oceano. Entretanto, ficava mais próxima de Valinor. Foi erguida por Ossë das profundezas das Grandes Águas, e foi estabelecida por Aulë e enriquecida por Yavanna; e os eldar para lá levaram flores e fontes de Tol Eressëa. Essa terra os Valar chamaram de Andor, a Terra da Dádiva; e a Estrela de Eärendil brilhou luminosa no oeste como sinal de que tudo estava pronto, e para servir como guia pelo mar; e os homens se admiraram de ver aquela chama prateada nos caminhos do Sol.
Então, os edain partiram a navegar nas águas profundas, seguindo a Estrela. E os Valar deixaram o mar em calma por muitos dias, mandaram Sol e um vento propício, de modo que as águas cintilavam diante dos olhos dos edain como um vidro ondulante, e a espuma voava como neve diante da proa de suas embarcações. Contudo, tão intenso era o brilho de Rothinzil, que mesmo pela manhã os homens conseguiam vê-la refulgindo no oeste; e, na noite sem nuvens, ela brilhava sozinha, pois nenhuma outra estrela conseguia se equiparar a ela. E, tendo fixado o rumo em sua direção, os edain finalmente transpuseram as léguas do mar e avistaram ao longe a terra que estava preparada para eles, Andor, a Terra da Dádiva, a cintilar numa névoa dourada. Aproximaram-se, então, saindo do mar para encontrar uma terra bela e produtiva, e se alegraram. E chamaram essa terra de Elenna, que significa Na Direção da Estrela; mas também Anadûnê, que significa Ponente, Númenorë no idioma alto-eldarin.
Foi esse o princípio daquele povo que na fala dos elfos-cinzentos é chamado de dúnedain: os númenorianos, reis entre os homens. Entretanto, eles não escaparam desse modo do destino da morte que Ilúvatar havia estabelecido para toda a humanidade, e ainda eram mortais, embora atingissem idade avançada e não conhecessem nenhuma enfermidade até o momento em que a sombra caísse sobre eles. Por conseguinte tornaram-se sábios e ilustres; e sob todos os aspectos eram mais semelhantes aos Primogênitos do que qualquer outra linhagem dos homens. E eram altos, mais altos do que os mais altos dos filhos da Terra Média. E a luz de seus olhos era como a das estrelas brilhantes. Contudo, era muito devagar que seu número aumentava na Terra, pois, embora lhes nascessem filhos e filhas, mais belos do que os pais, mesmo assim era pequena sua prole.
Antigamente, o porto e cidade principal de Númenor ficava no meio de seu litoral ocidental e se chamava Andúnië por ser voltado para o pôr-do-sol. No meio do território, havia porém uma montanha alta e escarpada, que se chamava Meneltarma, a Coluna dos Céus, e nela havia um local elevado que era consagrado a Eru Ilúvatar. Era aberto e sem telhado; e nenhum outro templo ou santuário havia na terra dos númenorianos. Aos pés das montanhas, foram construídos os túmulos dos Reis e bem próximo, sobre uma colina, estava Armenelos, a mais bela das cidades. E ali estavam a torre e a fortaleza construídas por Elros, Filho de Eärendil, que os Valar designaram para ser o primeiro Rei dos dúnedain Ora, Elros e Elrond, seu irmão, descendiam das Três Casas dos edain, mas também em parte dos eldar e dos Valar; pois Idril de Gondolin e Lúthien, filha de Melian, eram suas antepassadas. Com efeito, os Valar não podem retirar a dádiva da morte, que chega aos homens vinda de Ilúvatar; mas, na questão dos meio-elfos, Ilúvatar conferiu-lhes o poder de decidir. E eles resolveram que deveria ser concedido aos filhos de Eärendil o direito de escolher o próprio destino. E Elrond preferiu ficar entre os Primogênitos, e a ele foi concedida a vida dos Primogênitos. Já a Elros, que preferiu ser um Rei dos homens, ainda foi atribuída uma grande quantidade de anos, muitas vezes maior que a dos homens da Terra Média. E toda a sua linhagem, os reis e os senhores da Casa real gozaram de uma vida longa mesmo em comparação com a dos numenorianos. Elros, porém, viveu quinhentos anos e reinou sobre os númenorianos por quatrocentos e dez.
Assim, foi passando o tempo; e, enquanto a Terra Média entrava em decadência e iam desaparecendo a luz e a sabedoria, os dúnedain viviam sob a proteção dos Valar, gozando da amizade dos eldar, e progrediam tanto física quanto mentalmente. Pois, embora esse povo ainda usasse seu próprio idioma, seus reis e senhores conheciam e também falavam a língua élfica, que haviam aprendido nos tempos de sua aliança; e assim mantinham conversas com os eldar, tanto de Eressëa quanto das regiões acidentais da Terra Média. E os eruditos entre eles aprenderam também o alto-eldarin do Reino Abençoado, idioma no qual grande volume de prosa e verso foi preservado desde o início do mundo. E eles criavam cartas, pergaminhos e livros, neles escrevendo muitos textos de sabedoria e fantasia no apogeu de seu reino, do qual tudo agora está esquecido. Por isso, ocorreu que, além de seus próprios nomes, todos os senhores dos númenorianos também tinham nomes em eldarin. E o mesmo acontecia com as cidades e os belos lugares que fundaram em Númenor e nas costas das Terras de Cá.
Pois os dúnedain tornaram-se excelentes artífices, a tal ponto que, se fosse esse seu intento, poderiam facilmente ter suplantado os reis perversos da Terra Média na arte da guerra e na produção de armas; no entanto, eles se haviam tomado homens da paz. Acima de todas as artes, prezavam a construção de barcos e a habilidade na navegação; e se tornaram marinheiros semelhantes aos quais nunca mais existirá nenhum desde que o mundo diminuiu. E as viagens pela vastidão do mar eram o principal feito e aventura desses homens valentes nos dias garbosos de sua juventude.
Entretanto, os Senhores de Valinor proibiram os dúnedain de navegar para o ocidente a tal distância que não pudessem mais avistar o litoral de Númenor. E durante muito tempo, os dúnedain se contentaram, muito embora não compreendessem plenamente a finalidade dessa interdição. A intenção de Manwë era que os númenorianos não se sentissem tentados a procurar o Reino Abençoado, nem desejassem superar os limites impostos à sua bem-aventurança, apaixonando-se pela imortalidade dos Valar, dos eldar e das terras em que tudo persiste.
Pois, naquela época, Valinor ainda permanecia no mundo visível, e ali Ilúvatar permitia que os Valar mantivessem sobre a Terra uma morada, um memorial ao que poderia ter acontecido se Morgoth não tivesse lançado sua somba sobre o mundo. Isso os númenorianos sabiam perfeitamente, e, às vezes, quando o ar estava bem claro, e o Sol, no leste, eles olhavam para longe e avistavam no oeste muito distante uma cidade refulgindo branca, numa praia remota, com um grande porto e uma torre. Pois, naquele tempo, os númenorianos tinham olhos de lince. Contudo, mesmo assim, unicamente aqueles com visão mais aguçada conseguiam ver essa imagem, da Meneltarma, talvez, ou de alguma alta embarcação que se afastava de suas costas ocidentais até o limite que a lei lhes permitia. Pois eles não ousavam desrespeitar a Interdição dos Senhores do Oeste. Já os sábios dentre eles sabiam que essa terra distante não era na realidade o Reino Abençoado de Valinor, mas Avallónë, o porto dos eldar em Eressëa, ponto extremo leste das Terras Imortais. E dali às vezes os Primogênitos ainda costumavam vir navegando até Númenor em seus barcos sem remos, como aves brancas voando do pôr-do-sol.
E traziam a Númenor muitos presentes: pássaros canoros, flores perfumadas e ervas de grande poder de cura. Trouxeram também uma muda de Celeborn, a Árvore Branca que crescia no meio de Eressëa; e ela era por sua vez uma muda de Galathilion, a Árvore de Túna, a cópia de Telperion que Yavanna dera aos eldar no Reino Abençoado. E a árvore cresceu e floriu nos pátios do Rei em Armenelos: Nimloth era seu nome. Ela florescia ao entardecer e enchia as sombras da noite com sua fragrância.
Era por isso que, em decorrência da Interdição dos Valar, as viagens dos dúnedain naquele tempo eram sempre na direção leste, e não oeste, desde as trevas do norte ao calor do sul, e para além do sul até a Escuridão Inferior. E os dúnedain chegaram mesmo a entrar nos mares interiores, a velejar pela Terra Média e a avistar do alto de suas proas os Portões da Manhã no leste. E chegavam às vezes às costas das Grandes Terras, e sentiam pena do mundo abandonado da Terra Média. E os Senhores de Númenor pisaram novamente nas praias ocidentais nos Anos Escuros dos homens, e ninguém ousou combatê-los. Pois os homens daquela época que eram dominados pela Sombra estavam agora em sua maioria fracos e temerosos. E, ao chegar em meio a eles, os númenorianos muito lhes ensinaram. O trigo e o vinho trouxeram; e instruíram os homens a plantar sementes e a moer o grão, a cortar madeira e a dar forma à pedra, e a organizar sua vida, da forma que era possível nas terras de morte rápida e felicidade escassa.
Então, os homens da Terra Média sentiram alívio; e aqui e ali, nas costas ocidentais, os bosques despovoados recuaram, e os homens, livrando-se do jugo da prole de Morgoth, desaprenderam seu terror das trevas. E reverenciaram a memória dos altos Reis dos Mares. E, após sua partida, eles os chamaram de deuses, com a esperança de que voltassem. Pois, nessa época, os númenorianos nunca permaneciam muito tempo na Terra Média, nem instalavam por lá residência própria. Para o leste, eles deviam navegar; mas sempre era para o oeste que seus corações se voltavam.
Ora, esse desejo foi crescendo cada vez mais com o passar dos anos. E os númenorianos começaram a ansiar pela cidade imortal que viam de longe; e ficou mais intenso em seu íntimo o desejo pela vida eterna, de escapar à morte e ao final dos prazeres. E quanto mais cresciam seu poder e sua glória, mais aumentava sua inquietação. Pois, embora os Valar houvessem premiado os dúnedain com uma vida mais longa, não podiam tirar deles o cansaço do mundo, que acabava chegando, e eles morriam, até mesmo os reis da linhagem de Eärendil. E o decurso de sua vida era curto aos olhos dos eldar. Foi assim que se abateu sobre eles uma sombra, na qual talvez estivesse presente a vontade de Morgoth, que ainda se manifestava no mundo. E os númenorianos começaram a murmurar, de início em seu íntimo e depois em palavras francas, contra a sina dos homens e, principalmente, contra a Interdição de navegar para o oeste.
E diziam entre si: — Por que os Senhores do Oeste ficam lá, sentados em paz eterna, enquanto nós precisamos morrer e ir não se sabe para onde, deixando nossa casa e tudo o que fizemos? E os eldar não morrem, nem mesmo os que se rebelaram contra os Senhores? E já que dominamos todos os mares, e não existe oceano tão revolto ou tão vasto que nossos barcos não consigam transpor, por que não deveríamos ir a Avallónë e lá cumprimentar nossos amigos? E alguns diziam — Por que não deveríamos chegar a Aman, e ali provar nem que fosse por um dia, a bem-aventurança dos Poderes? Será que não nos tornamos poderosos entre a gente de Arda?
Os eldar levaram essas palavras aos Valar, e Manwë se entristeceu, ao perceber que uma nuvem começava a se formar na época mais luminosa ele Númenor. E enviou mensageiros aos dúnedain que falaram a sério ao Rei e a todos que quiseram escutar, a respeito do destino e dos costumes do mundo.
— O Destino do Mundo — disseram — somente Um pode mudar, Aquele que o criou. E se vocês quisessem empreender essa viagem e, escapando a todas as ciladas e armadilhas, chegassem com efeito a Aman, o Reino Abençoado, de pouco isso lhes valeria. Pois não é a terra de Manwë que torna seu povo imortal mas são os Imortais que ali habitam que consagraram a terra. E lá, vocês apenas murchariam e se cansariam mais cedo, como mariposas numa luz muito forte e constante.
— E Eärendil, meu antepassado, não vive? — perguntou o Rei. — Ou ele não está na terra de Aman?
— Você sabe que ele tem um destino separado — responderam eles, então. — E foi equiparado aos Primogênitos, que não morrem. Contudo, esse é também seu destino: o de nunca poder voltar a terras mortais Ao passo que você e seu povo não pertencem aos Primogênitos, mas são homens mortais, como Ilúvatar os fez Apesar disso. Parece que agora vocês desejam ter os benefícios das duas famílias— navegar até Valinor quando quiserem, e voltar para casa quando tiverem vontade. Isso não pode ser. Vem têm os Valar poder para anular as dádivas de Ilúvatar. Vocês dizem que os eldar não foram castigados e que mesmo os que se rebelaram não morrem.
Contudo, isso para eles não é nem recompensa nem castigo, mas a realização ele seu ser. Eles não podem escapar, e estão amarrados a esse mundo, para não deixá-lo nunca enquanto ele durar, pois a vida deste mundo é a vida deles. E vocês dizem que foram punidos pela rebelião dos homens, da qual pouco participaram e que é por isso que morrem. Mas a morte não foi de início estabelecida como uma punição. É por ela que vocês escapam, deixam o mundo e não estão vinculados a ele, seja na esperança, seja no enfado. Qual de nós portanto deveria invejar o outro?
— Por que não deveríamos invejar os Valar, ou mesmo o mais insignificante dos Imortais? — replicaram então os númenorianos. — Pois de nós são exigidas uma confiança cega e uma esperança sem garantia, já que não sabemos o que nos espera em breve. E, mesmo assim, amamos a Terra e não desejaríamos perdê-la.
— De fato, o pensamento de Ilúvatar com relação a vocês não é do conhecimento dos Valar; e ele não revelou tudo o que está por acontecer — disseram então os Mensageiros. — Consideramos, porém, ser verdade que sua terra não é aqui, nem na Terra de Aman, nem em nenhum lugar dentro dos Círculos do Mundo. E o Destino dos Homens, de que deveriam partir, foi de início uma dádiva de Ilúvatar. Tornou-se um pesar para eles somente porque, tendo caído sob a sombra de Morgoth, pareceu-lhes que estavam cercados por uma enorme escuridão, da qual sentiam medo. E alguns se tornaram voluntariosos e orgulhosos, decididos a não ceder, até a vida lhes ser arrancada. Nós, que suportamos a carga sempre crescente dos anos, não entendemos isso com clareza; porém, se essa mágoa voltou a atormentá-los, como vocês dizem, então tememos que a Sombra surja mais uma vez e volte a crescer em seus corações. Portanto, embora vocês sejam os dúnedain, os mais belos dos homens, que escaparam da Sombra de outrora e lutaram bravamente contra ela, nós lhes dizemos: Cuidado! A vontade de Eru não pode ser contrariada. E os Valar recomendam com veemência que vocês não neguem a confiança que lhes é invocada, para que ela não volte a se tornar um vínculo ao qual se acharão presos. É melhor esperar que no final pelo menos os menores de seus desejos deem frutos. O amor por Arda foi posto em seus corações por Ilúvatar, e ele não planta sem propósito. Mesmo assim, muitas gerações de homens ainda não nascidos poderão passar antes que esse propósito seja conhecido. E a vocês ele será revelado, não aos Valar Esses fatos ocorreram nos tempos de Tar-Ciry atan, o Armador, e de Tar-Atanamir, seu filho. E eles eram homens orgulhosos, ávidos por riquezas, que impuseram tributos aos homens da Terra Média, tomando em vez de dar. Foi a Tar-Atanamir que os Mensageiros vieram: e ele era o décimo terceiro Rei, e nos seus dias o Reino de Númenor já persistia por mais de dois milênios, tendo chegado ao apogeu de sua bem-aventurança, se não de seu poder. Atanamir, porém, irritou-se com o conselho dos Mensageiros e lhe deu pouca atenção; e a maior parte de seu povo o acompanhou, pois eles desejavam escapar da morte ainda em seus dias, sem ter de confiar na esperança. E Atanamir viveu até idade avançada, apegado à vida mesmo depois do fim de toda alegria. E foi ele o primeiro dos númenorianos a agir assim, recusando-se a partir até ter perdido a inteligência e a virilidade, além de negar ao filho o trono no apogeu de sua vida. Pois os Senhores de Númenor tinham o costume de casar-se tarde em suas longas vidas e partir, deixando o comando para seus filhos. Quando estes tivessem atingido sua plenitude física e mental.
Então, Tar-Ancalimon, filho de Atanamir, tomou-se Rei. E seu pensamento era semelhante. E, em seu reinado. O povo de Númenor tornou-se dividido. De um lado, havia a maioria, e estes eram chamados de Homens do Rei. Tornaram-se arrogantes e se distanciaram dos eldar e dos Valar. E do outro lado, havia a minoria, e esses eram chamadas de elendili, os amigos-dos-elfos. Pois, embora continuassem leais de fato ao Rei e à Casa de Elros, desejavam manter a amizade dos eldar e escutavam os conselhos dos Senhores do Oeste. Não obstante, nem mesmo eles, que se intitulavam os Fiés escapavam totalmente da aflição de seu povo, e eram atormentados pela ideia da morte.
Dessa forma tomou-se reduzida à felicidade de Ponente; mas ainda assim seu poderio e seu esplendor aumentavam. Pois os reis e seu povo ainda não haviam abandonado a sabedoria e, se não amavam mais os Valar, pelo menos ainda os temiam. Não ousavam desrespeitar abertamente a Interdição ou navegar para além dos limites estabelecidos. Ainda para o leste dirigiam suas altas embarcações. Contudo, o medo da morte cada vez mais se adensava sobre eles; e eles procuravam adiá-la por todos os meios a seu alcance. Começaram então a construir casas imensas para os mortos, enquanto seus sábios trabalhavam sem cessar para descobrir, se possível, o segredo de fazer voltar a vida ou, no mínimo, prolongar os dias dos homens. Conseguiram apenas aprender a arte de preservar inalterada a carne morta dos homens; e encheram toda a terra com túmulos silenciosos, nos quais a ideia da morte ficava encerrada na escuridão Já os que estavam vivos se voltavam ainda com maior avidez para o prazer e a folia, desejando cada vez mais bens e riquezas. E, a partir do tempo de Tar-Ancalimon,  a oferenda dos primeiros frutos a Eru passou a ser negligenciada, e os homens raramente iam ao Local Sagrado nas alturas da Meneltarma, no meio da terra.
Ocorreu assim que os númenorianos pela primeira vez estabeleceram grandes colônias nas costas ocidentais das terras antigas, pois sua própria terra lhes parecia restrita, e eles não tinham descanso nem alegria dentro de seus limites; e agora desejavam prosperar e dominar a Terramédia, já que o oeste lhes fora negado. Amplos portos e fortes torres eles construíram; e lá muitos fixaram residência; mas agora apareciam mais como senhores, chefes e cobradores de tributos do que como alguém que presta auxílio ou ensina. E as enormes embarcações dos númenorianos eram levadas para o leste pelos ventos e voltavam sempre carregadas. O poder e a majestade de seus reis aumentavam; e eles bebiam, se banqueteavam e se vestiam em ouro e prata.
Em tudo isso, os amigos-dos-elfos tinham pequena participação. Somente eles agora iam ao norte e à terra de Gil-galad, mantendo amizade com os elfos e lhes prestando auxílio contra Sauron; e seu porto era Pelargir, a montante das Fozes do Anduin, o Grande. Já os Homens do Rei navegavam muito longe, na direção sul; e os domínios e fortalezas criados por eles deixaram muitos rumores nas lendas dos homens.
Nessa Era, como se relata em outra parte, Sauron voltou a se erguer na Terra Média. Ele cresceu e retornou ao mal no qual fora criado por Morgoth, tornando-se poderoso a seu serviço. Já nos tempos de Tar-Minastir, décimo primeiro Rei de Númenor, ele havia fortificado a terra de Mordor e lá construído a Torre de Barad-dûr. E dali em diante sempre lutou pelo domínio da Terra Média, para se tornar rei de todos os reis e semelhante a um deus perante os homens. E Sauron odiava os númenorianos. Em virtude dos feitos de seus pais, de sua antiga aliança com os elfos e de sua lealdade aos Valar. Ele também não se esquecia da ajuda que Tar-Minastir havia prestado a Gil-galad no passado remoto, na época em que o Um Anel fora forjado e houvera guerra entre Sauron e os elfos, em Eriador. Agora, ele descobria que os reis de Númenor haviam aumentado seu poder e esplendor; e os odiava ainda mais. Também temia que invadissem seu território e lhe tirassem o domínio do leste. No entanto, por muito tempo não ousou desafiar os Senhores do Mar e se retirou do litoral Sauron, porém, sempre fora astuto. E o que se diz é que, entre aqueles que ele apanhou na armadilha dos Nove Anéis, três eram grandes senhores de raça númenoriana. E, quando surgiram os úlairi, que eram os Espectros do Anel, seus servos, e o poder de seu terror e domínio sobre os homens atingira enormes proporções, ele  começou a atacar os locais fortificados dos númenorianos à beira-mar.
Naqueles tempos, a Sombra foi ficando mais densa sobre Númenor; e as vielas dos Reis da Casa de Elros foram reduzidas em virtude de sua rebelião, mas eles endureceram seus corações ainda mais contra os Valar. E o décimo nono rei recebeu o certo de seus antepassados, e subiu ao trono com o nome de Adûnakhor, Senhor do Oeste, abandonando os idiomas élficos e proibindo seu uso ao alcance de seus ouvidos. Contudo, no Pergaminho dos Reis, o nome Herunúmen foi inscrito no idioma alto-élfico em obediência ao costume antigo, que os reis temiam despeitar totalmente, com medo de que algum mal acontecesse. Ora, esse título pareceu muito arrogante aos Fiéis, por ser o título dos Valar, e seus corações enfrentaram um terrível dilema entre sua lealdade à Casa de Elros e sua reverência aos Poderes designados. No entanto, o pior ainda estava por vir Pois Ar-Gimilzôr, o vigésimo segundo rei, foi o maior inimigo dos Fiéis. Em seu reinado, não cuidaram da Árvore Branca, e ela começou a definhar. E ele proibiu terminantemente o uso dos idiomas élficos, além de punir aqueles que acolhessem as embarcações de Eressëa que ainda vinham em segredo às costas ocidentais da Terra.
Ora, os elendili habitavam principalmente as regiões ocidentais de Númenor; mas Ar-Gimilzôr ordenou que todos os que ele pôde descobrir que pertenciam a essa facção fossem transferidos do oeste para a região oriental da Terra, onde seriam vigiados. E o principal povoado dos Fiéis nos tempos mais recentes ficava, portanto, perto do porto de Rómenna. Dali muitos velejavam até a Terra Média, em busca dos litorais setentrionais, onde ainda poderiam falar com os eldar no reino de Gil-galad. Isso era do conhecimento dos Reis, mas eles não o impediam desde que os elendili deixassem sua terra e não mais retornassem; pois seu desejo era dar um fim à amizade entre seu povo e os eldar de Eressëa, que chamavam de Espiões dos Valar, na esperança de manter seus atos e decisões ocultos dos Senhores do Oeste. Mas tudo o que faziam era do conhecimento de Manwë, e os Valar se encolerizaram com os Reis de Númenor, não mais lhes dando conselhos e proteção. E as embarcações de Eressëa nunca mais vieram do pôr-do-sol; e os portos de Andúnië ficaram abandonados.
Depois da Casa real, a de maior nobreza era a dos Senhores de Andúnië, pois eles pertenciam à linhagem de Elros, sendo descendentes de Silmarien, filha de Tar-Elendil, o quarto rei de Númenor. E esses senhores eram leais aos reis e lhes prestavam reverência; e o Senhor de Andúnië sempre estava entre os principais conselheiros do Trono. Contudo, também desde o início, eles nutriam amor especial pelos eldar e veneração pelos Valar. E, à medida que a Sombra se espalhava, eles ajudavam os Fiéis no que fosse possível. Por muito tempo, entretanto, não se declararam abertamente e preferiram procurar corrigir os corações dos Senhores do Cetro com conselhos mais prudentes.
Havia uma senhora Inzilbêth, célebre por sua beleza; e sua mãe era Lindórië, irmã de Eärendu, o Senhor de Andunië nos tempos de Ar-Sakalthôr, pai de Ar-Gimilzôr. Gimilzôr tomou-a como esposa contra a sua vontade, pois ela no fundo do coração pertencia aos Fiéis, tendo recebido ensinamentos de sua mãe. Contudo, os reis e seus filhos se haviam tornado orgulhosos e não podiam ter seus desejos contrariados. Nenhum amor havia entre Ar-Gimilzôr e sua rainha, ou entre seus filhos. Inziladûn, o primogênito, era como a mãe, tanto no plano mental quanto no físico. Já Gimilkhâd, o mais jovem, seguira o pai, se é que não era ainda mais arrogante e voluntarioso. A ele Ar-Gimilzôr teria transmitido o cetro, em vez de entregá-la ao primogênito, se as leis tivessem permitido.
Entretanto, ao subir ao trono, Inziladûn voltou a adotar um título no idioma élfico de outrora, denominando-se Tar-Palantir, pois tinha excelente visão tanto no olhar quanto no pensamento, e mesmo os que o odiavam. Temiam suas palavras como temeriam as de um vidente. Por algum tempo, ele deixou os Fiéis em paz: e voltou a frequentar nas devidas ocasiões o Local Sagrado de Eru, na Meneltarma. Que Ar-Gimilzôr abandonara. Da Árvore Branca, ele agora cuidava com honrarias. E profetizou que, quando a Árvore perecesse. Também chegaria ao fim a linhagem dos Reis. Seu arrependimento chegou, porém tarde demais para apaziguar a cólera dos Valar provocada pela insolência de seus antepassados, da qual a maior parte de seu povo não se arrependia. E Gimilkhâd era forte e violento. Ele assumiu a liderança daqueles que antes eram chamados de homens do Rei, opondo-se abertamente à vontade do irmão tanto quanto ousava, e ainda mais às ocultas. Foram, assim, os dias de Tar-Palantir anuviados pela mágoa. E ele costumava passar grande parte do tempo no oeste. Lá subia a antiga torre do Rei Minastir sobre a colina de Oromet perto de Andúnië, de onde olhava para o oeste ansioso, esperando enxergar talvez uma vela no mar. Porém, nenhuma embarcação jamais voltou a sair do oeste para Númenor, e Avallónë estava sempre envolta em nuvens.
Ora, Gimilkhâd faleceu dois anos antes de seu ducentésimo aniversário (o que foi considerado uma morte prematura para alguém da linhagem de Elros, mesmo em sua decadência), mas isso não trouxe nenhuma paz ao Rei. Pois Pharazôn, filho de Gimilkhâd, se tornara um homem ainda mais insatisfeito e ávido por riqueza e poder do que seu pai. Muitas vezes viajara como líder nas guerras que os númenorianos iniciavam então na região litorânea da Terra Média, procurando cada vez mais ampliar seu domínio sobre os homens. E, assim, conquistou grande renome como comandante, tanto em terra quanto no mar. Logo, quando voltou a Númenor e teve notícias da morte do pai, o coração do povo voltou-se para ele; pois trazia consigo enormes tesouros e por algum tempo foi liberal em suas doações.
E ocorreu que Tar-Palantir se cansou de tanto desgosto e morreu. Não deixou um filho, apenas uma filha, a quem deu o nome de Míriel, no idioma élfico. E, pelo direito e pelas leis dos númenorianos, o cetro foi passado a ela. Pharazôn, porém, tomou-a como esposa contra a sua vontade, agindo mal por esse motivo e também porque as leis de Númenor não permitiam o casamento, mesmo na Casa real, de quem fosse parente mais próximo do que primos em segundo grau. E, quando os dois se casaram, ele se apossou do cetro, adotando o título de Ar-Pharazôn (Tar-Calion, no idioma élfico); e o nome de sua rainha ele mudou para Ar-Zimraphel.
Foi Ar-Pharazôn, o Dourado, o mais poderoso e altivo de todos aqueles que empunharam o Cetro dos Reis do Mar desde a fundação de Númenor. E vinte e três Reis e Rainhas haviam governado os númenorianos antes; e agora dormiam em seus túmulos profundos aos pés da montanha de Meneltarma, jazendo em leitos de ouro.
E, sentado em seu trono entalhado, na cidade de Armenelos, no apogeu de seu poder, Ar-Pharazôn ruminava, sinistro, pensando em guerra. Pois ele soubera na Terra Média da força do reino de Sauron, e de seu ódio por Ponente. E agora lhe chegavam os mestres de navios e comandantes que voltavam do leste, a relatar que Sauron vinha demonstrando seu poder desde que Ar-Pharazôn deixara a Terra Média e estava investindo contra as cidades litorâneas. Além disso, ele agora adotara o título de Rei dos Homens e declarara seu objetivo de expulsar os númenorianos de volta para o Mar e mesmo destruir Númenor, se fosse possível.
Grande foi a ira de Ar-Pharazôn diante dessas notícias. E, enquanto se detinha a ponderar em segredo, seu coração se encheu do desejo de poder sem limites e da tirania exclusiva de sua vontade. E, sem pedir conselhos aos Valar ou auxílio da prudência de qualquer outra mente que não fosse a sua, determinou que o título de Rei dos Homens ele próprio reivindicaria e forçaria Sauron a ser seu servo e vassalo. Pois, em seu orgulho, considerava que nenhum rei jamais surgiria com tanto poder a ponto de rivalizar com o herdeiro de Eärendil. Portanto, naquela época, começou a forjar grande arsenal de armas e construiu muitas naus de guerra que equipou com suas armas. E, quando tudo estava pronto, ele próprio navegou com seu exército até o leste.
E os homens viram suas velas chegando do pôr-do-sol. Como que tingidas de escarlate e reluzindo em vermelho e dourado, e o medo se abateu sobre os habitantes do litoral, que fugiram para muito longe. No entanto, a frota afinal chegou ao lugar chamado Umhar, onde se encontrava o enorme porto dos  númenorianos, que mão alguma havia construído. Silenciosas e desertas estavam todas as terras da região quando o Rei do Mar marchou sobre a Terra Média. Ao longo de sete dias, ele avançou com estandartes e clarins Chegou a uma colina,  escalou-a e nela fincou seu pavilhão e seu trono. Instalou-se então no meio daquela terra e dispôs as tendas do seu exército em toda a sua volta, azuis, douradas e brancas, como um campo de flores altas. Enviou, então, arautos a Sauron, ordenando-lhe que se apresentasse diante dele e lhe jurasse lealdade.
E Sauron veio. Mesmo de sua poderosa torre de Barad-dûr veio ele, sem fazer nenhuma menção de combate. Pois percebia que o poder e a majestade dos Reis do Mar superavam tudo o que deles se dizia, de modo que não poderia confiar que mesmo os melhores de seus servos a eles resistissem. E viu que ainda não chegara a hora de fazer valer sua vontade com os dúnedain. E Sauron era astucioso, bem treinado para conquistar o que quisesse pela sutileza quando a  força pudesse não lhe ser útil. Humilhou-se, portanto, diante de Ar-Pharazôn e controlou sua língua ferina. E os homens ficaram admirados, pois tudo o que ele disse parecia justo e prudente.
Ar-Pharazôn, porém, não se deixou enganar. E lhe ocorreu que, para melhor vigiar Sauron e controlar seus votos de lealdade, ele deveria ser levado para Númenor, para lá permanecer como refém de si mesmo e de todos os seus servos na Terra Média. Sauron consentiu nessa ideia como que a contragosto, embora em seu íntimo a acolhesse com alegria, pois ela de fato se harmonizava com seus desejos. E Sauron atravessou o Mar e contemplou a terra de Númenor e a cidade de Armenelos nos dias de sua glória, e ficou estarrecido. Mas no fundo de seu coração, encheu-se ainda mais de inveja e ódio.
Contudo, tal era sua astúcia em raciocínio e palavras, e tal a força de sua determinação oculta, que, antes que se passassem três anos, ele já se tornara íntimo dos pensamentos secretos do Rei. Pois elogios doces como o mel estavam sempre na ponta de sua língua, e Sauron conhecia muitos fatos ainda não revelados aos homens. E, ao ver o privilégio de que ele gozava junto a seu senhor, todos os conselheiros começaram a adulá-la, à exceção de um, Amandil, senhor de Andúnië. Então, lentamente, operou-se na terra uma transformação, e os corações dos amigos-dos-elfos se perturbaram profundamente, e muitos se afastaram cheios de medo. E, embora os que permanecessem ainda se intitulassem fiéis, seus inimigos os chamavam de rebeldes. Pois, agora, tendo acesso aos ouvidos dos homens, Sauron com muitos argumentos negava tudo o que os Valar haviam ensinado. E disse aos homens que pensassem que no mundo, no leste e mesmo no oeste, ainda havia muitos mares e muitas terras a serem conquistadas, que possuíam tesouros sem conta. E, no entanto, se eles acabassem chegando ao final dessas terras e desses mares, para além de tudo ficava o Escuro Ancestral. — E dele o mundo foi feito. Pois somente o Escuro é digno de adoração, e seu Senhor pode ainda criar outros mundos para doar àqueles que lhe prestarem serviços, de modo que seu poder não terá limites.
— Quem é o Senhor do Escuro? — perguntou, então, Ar-Pharazôn.
E a portas fechadas Sauron falou ao Rei, dizendo-lhe mentiras.
— É aquele cujo nome não se pronuncia mais, pois os Valar os enganaram a respeito dele, apresentando em seu lugar o nome de Eru, um espectro criado pela insensatez de seus corações, que procura acorrentar os homens em servidão aos Valar. Pois eles são o oráculo desse Eru, que fala apenas o que eles querem. Mas aquele que é senhor dos Valar ainda vencerá, e os libertará desse fantasma. E seu nome é Melkor, Senhor de Todos, Doador da Liberdade, e ele os tornará mais fortes do que os Valar.
Então, Ar-Pharazôn, o Rei, voltou-se para o culto do Escuro e de Melkor, seu Senhor, a princípio em segredo; mas dentro em pouco abertamente e diante de seu povo. E eles em sua grande maioria o imitaram. Contudo, ainda havia um remanescente dos Fiéis, como foi relatado, em Rómenna e nos territórios próximos; e mais alguns espalhados aqui e ali pela Terra. Entre eles os chefes, a quem recorriam em busca de liderança e coragem em tempos funestos, eram Amandil, conselheiro do Rei, e seu filho Elendil, cujos filhos eram Isildur e Anárion, na época jovens, pelos cálculos de Númenor. Amandil e Elendil eram grandes comandantes de navios, e eram da linhagem de Elros Tar Miny atur, embora não fossem da Casa governante a quem pertenciam a coroa e o trono na cidade de Armenelos. Nos dias de sua juventude, quando andavam juntos, Amandil havia sido caro a Pharazôn e, apesar de pertencer aos amigos-dos-elfos, permanecera no conselho até a vinda de Sauron. Agora era dispensado, pois Sauron o detestava mais do que a qualquer outro em Númenor. No entanto, ele era tão nobre e havia sido tão notável como capitão no mar, que ainda era reverenciado por muitas pessoas, e nem o Rei nem Sauron ousavam por enquanto colocar as mãos nele.
Por conseguinte, Amandil retirou-se para Rómenna, e todos aqueles que ele sabia ainda serem fiéis, foram convocados para ir para lá em segredo Pois ele tendia que o mal agora crescesse rápido e que todos os amigos-dos-elfos corressem perigo E isso logo aconteceu. Pois Meneltarma estava totalmente abandonada naquela época; e, embora nem mesmo Sauron ousasse profanar aquele local sublime, mesmo assim o Rei não permitia que nenhum homem, sob pena de morte, escalasse a montanha, nem mesmo aqueles Fiéis que mantinham  Ilúvatar em seus corações. E Sauron recomendou ao Rei que cortasse a Árvore Branca, Nimloth, a Bela, que crescia em seus pátios, pois ela era uma lembrança dos eldar e da luz de Valinor.
De início, o Rei não quis concordar com isso, pois acreditava que a boa sorte de sua casa estivesse vinculada à Árvore, como Tar-Palantir havia profetizado Assim, em sua loucura, ele, que agora detestava os eldar e os Valar, se agarrava em vão à sombra das antigas alianças de Númenor. Contudo, quando Amandil ouviu rumores das más intenções de Sauron, sentiu o coração pesaroso, sabendo que no final Sauron sem dúvida faria valer sua vontade. Falou então com Elendil e com os filhos de Elendil, relembrando a história das Árvores de Valinor. E Isildur não disse palavra, mas saiu à noite e realizou um feito pelo qual conquistou renome em tempos futuros. Pois entrou sozinho e disfarçado em Armenelos e chegou aos pátios do Rei, acesso que era agora proibido aos Fiéis. Foi ao local da Árvore, que era interditado a todos por ordens de Sauron; e a Árvore era vigiada dia e noite por guardas a seu serviço. Naquela época, Nimloth estava escura, sem nenhuma flor, já que o outono estava avançado e seu inverno se avizinhava. E Isildur passou pelos guardas, tirou da Árvore um fruto que dela estava suspenso e se voltou para ir embora. Os guardas, porém, foram alertados e atacaram Isildur, que lutou para fugir, recebendo muitos ferimentos, e escapou. E, como estivesse disfarçado, não se descobriu quem havia posto as mãos na Árvore. Isildur, entretanto, chegou com grande dificuldade a Rómenna e entregou o fruto nas mãos de Amandil, antes que lhe faltassem as forças. O fruto foi então plantado em segredo e abençoado por Amandil; e na primavera um broto nasceu e cresceu. No entanto, quando sua primeira folha se abriu, Isildur, que por muito tempo estivera acamado e chegara a ver a morte de perto, levantou-se e não foi mais perturbado pelos ferimentos.
Bem a tempo. Pois, depois da invasão, o Rei cedeu a Sauron e derrubou a Árvore Branca, dando então as costas totalmente à aliança de seus antepassados. Já Sauron fez com que fosse construído no topo da colina, no meio da cidade dos númenorianos, Armenelos, a Dourada, um templo enorme. E. Na base, sua forma era a de um circulo. Ali, as paredes tinham quinze metros de espessura, e a largura da base era de cento e cinquenta metros de um lado a outro, ao passo que as paredes se elevavam a cento e cinquenta metros do piso e eram coroadas por uma enorme cúpula. E essa cúpula era toda recoberta de prata e se erguia cintilante ao Sol, de tal modo que sua luz podia ser vista a grande distância; mas logo a luz escureceu, e a prata ficou negra. Pois havia um altar de fogo no centro do templo, e na parte mais alta da cúpula havia um lanternim, por onde saía grande quantidade de fumaça. E o primeiro fogo sobre o altar de Sauron foi aceso com a lenha cortada de Nimloth; e ela crepitou e foi consumida. Mas os hornens se admiraram com o fumaceiro que dela emanou, tal que a Terra ficou à sombra de uma nuvem durante sete dias, até que ela lentamente se dissipou para o oeste.
Dali em diante, as labaredas e a fumaça subiam incessantes, pois o poder de  Sauron crescia e, naquele templo, com derramamento de sangue, tormentos e crueldade imensa, os homens faziam sacrifícios a Melkor para que ele os libertasse da morte. E o mais frequente era que escolhessem suas vítimas entre os Fiéis. Porém, eles nunca eram acusados abertamente de não adorar Melkor, o Doador da Liberdade, mas o motivo para persegui-los era seu ódio ao Rei, o fato de serem rebeldes ou de tramar contra sua gente, inventando mentiras e venenos. Essas acusações eram em sua maioria falsas. Contudo, aqueles foram dias amargos, e ódio gera ódio.
E no entanto, apesar de tudo isso, a Morte não se afastou da Terra. Pelo contrário, passou a vir mais cedo. Com maior frequência e com muitas roupagens terríveis. Pois, enquanto no passado os homens envelheciam lentamente e se deitavam no final para dormir, quando finalmente se cansavam do mundo, agora a loucura e a doença os acometiam. E mesmo assim, eles sentiam medo de morrer e entrar no escuro, o reino do senhor que haviam escolhido; e se amaldiçoavam em sua agonia. E os homens se armavam naquela época e se matavam uns aos outros por motivos insignificantes; pois se haviam tornado irritadiços, e Sauron, ou aqueles que ele recrutara para si, percorria a Terra, instigando um homem contra o outro, de modo que o povo murmurava contra o Rei e os senhores, ou contra qualquer um que tivesse algo que eles não possuíssem. E os homens dotados de poder se vingavam com crueldade.
Não obstante, por muito tempo pareceu aos númenorianos que eles prosperavam; e, se sua felicidade não era maior, eles ainda assim estavam mais fortes; e seus ricos, cada vez mais ricos. Pois, com o auxílio e os conselhos de Sauron, multiplicavam seus bens, inventavam engenhos e construíam naus cada vez maiores. E agora velejavam com poderio e grande armamento até a Terra Média; e não vinham mais como portadores de presentes, nem mesmo como governantes, mas como ferozes guerreiros. Caçavam os homens da Terra Média, tornavam seus bens e os escravizavam; e muitos eles matavam cruelmente em seus altares. Pois em suas fortalezas construíram, naquela época, templos e grandes túmulos. E os homens os temiam; e a lembrança dos bondosos reis de outrora desapareceu do mundo e foi obscurecida por muitas histórias de terror.
Assim, Ar-Pharazôn, Rei da Terra da Estrela, chegou a ser o tirano mais poderoso que já havia existido no mundo desde o reino de Morgoth, embora de fato Sauron tudo governasse por trás do trono. Passaram, porém, os anos, e o Rei sentiu a aproximação da sombra da morte, à medida que sua idade avançava. Foi dominado então pelo medo e pela cólera. Era agora chegada a hora que Sauron preparara e pela qual vinha esperando havia muito tempo. E Sauron falou com o Rei, dizendo que sua força era agora tamanha, que ele poderia pensar em fazer valer sua vontade em todos os aspectos sem se sujeitar a nenhuma ordem ou interdição.
— Os Valar se apossaram da terra em que não há morte; e eles lhe dizem mentiras a respeito dela, ocultando-a da melhor forma possível, por causa de sua avareza e de seu temor de que os Reis dos Homens lhes tomem o reino imortal e governem o mundo em seu lugar. E embora, sem dúvida, o dom da vida eterna não seja para todos, mas apenas para aqueles que o merecem, por serem homens de poder, orgulho e alta linhagem, é uma negação de toda a justiça que esse dom, que é seu direito, seja recusado ao Rei dos Reis, Ar-Pharazôn, o mais poderoso dos filhos da Terra com quem somente Manwë pode se comparar, e talvez nem mesmo ele. Mas grandes reis não toleram recusas e tomam o que é seu por direito.
Ar-Pharazôn, então, atoleimado e já caminhando sob a sombra da morte, pois seu tempo se aproximava do fim, deu ouvidos a Sauron e começou a ponderar em seu íntimo como empreender uma guerra contra os Valar. Muito tempo dedicou à preparação para esse intento, sem falar abertamente sobre ele, embora não fosse possível ocultá-lo de todos. E Amandil, ao se dar conta dos propósitos do Rei, ficou consternado e tomado por enorme pavor, pois sabia que os homens não poderiam vencer os Valar na guerra; e que a ruína deveria se abater sobre o mundo se essa guerra não fosse impedida. Por isso, chamou seu filho, Elendil.
— Os tempos estão escuros — disse. — E não há esperança para os homens, pois são poucos os Fiéis. Por isso, pretendo tentar a decisão que nosso ancestral Eärendil tomou no passado remoto, de navegar para o oeste, com ou sem interdição, e falar com os Valar até mesmo com o próprio Manwë, se possível, e implorar sua ajuda antes que seja tarde.
— Então, o senhor trairia o Reis — perguntou Elendil — Pois o senhor conhece bem a acusação que nos fazem de que somos traidores e espiões, e até o dia de hoje ela foi falsa.
— Se eu achasse que Manwë precisava de um mensageiro desses — disse Amandil —, eu trairia o Rei. Pois só existe uma lealdade da qual nenhum homem pode se eximir em seu coração por nenhum motivo. Mas é por compaixão pelos homens e pela sua libertação de Sauron, o Impostor, que eu suplicaria, já que pelo menos alguns se mantiveram fiéis. E quanto à Interdição, sofrerei em mim mesmo a punição, para que todo o meu povo não se sinta culpado.
— Mas o que o senhor, meu pai, pensa que irá acontecer àqueles de sua casa que ficarem para trás quando seu feito se tornar conhecido?
— Ele não pode se tornar conhecido — respondeu Amandil, prepararei minha viagem em segredo, e navegarei para o leste, para onde diariamente partem embarcações de nossos portos. Depois, como o vento e a oportunidade permitam, darei a volta, pelo sul ou pelo norte, para o oeste, em busca do que puder encontrar. Mas a você, meu filho, e à sua gente, aconselho que preparem outras naus e que nelas ponham todas aquelas coisas das quais seu coração não conseguir se afastar. E, quando as naus estiverem prontas, fiquem no porto de Rómenna e façam circular entre os homens a notícia de que pretendem, quando chegar a hora, me acompanhar para o leste. Amandil já não é mais tão caro a nosso parente no trono, a ponto de deixá-lo muito triste, se procurarmos ir embora por uns tempos ou para sempre. Porém, não deixe que se perceba que você pretende levar muitos homens, ou ele ficará perturbado, por causa da guerra que agora trama, para a qual necessitará de todas as forças que possa reunir. Procure os Fiéis que ainda são reconhecidamente leais, e faça com que se juntem a você em segredo, se estiverem dispostos a ir com você, e a partilhar seu intento.
— E qual será esse intento? — perguntou Elendil
— O de não se envolver na guerra e observar — respondeu Amandil. — Até eu retornar, não posso dizer mais nada. Mas é muito provável que vocês fujam da Terra da Estrela, sem nenhum astro a guiá-los. Pois essa terra foi profanada. Então, vocês perderão tudo o que amaram, sentindo o gosto da morte em vida, á procura de uma terra de exílio em outra parte. Mas, se será a leste ou a oeste, somente os Valar podem dizer.
Despediu-se então Amandil de seus parentes, como alguém prestes a morrer.
— Pois bem, pode ser que vocês nunca mais me vejam; e que eu não venha a lhes revelar nenhum sinal semelhante ao revelado por Eärendil nos tempos passados. Estejam, porém, preparados, pois o fim do mundo que conhecemos está próximo.
Conta-se que Amandil zarpou numa pequena embarcação à noite, dirigindo-se primeiro para o leste para depois dar a volta e seguir para o oeste. Levava consigo três servos, que lhe eram caros, e nunca mais neste mundo se ouviu falar deles, fosse por noticias, fosse por algum sinal, nem existe nenhum relato ou nenhuma suposição sobre seu destino. Os homens não poderiam ser salvos uma segunda vez por nenhuma missão semelhante, e para a traição de Númenor a absolvição não era fácil.
Elendil, entretanto, fez tudo o que seu pai recomendara, e suas naus foram ancoradas ao largo da costa oriental da Terra. E os Fiéis embarcaram suas mulheres e filhos, seus bens de herança e enorme quantidade de mercadorias. Eram muitos os objetos de beleza e poder, como os que os númenorianos haviam criado em seus tempos de sabedoria, potes e joias, bem como pergaminhos de tradições inscritos em negro e vermelho. E eles possuíam Sete Pedras, presentes dos eldar. No barco de Isildur, porém, era guardada a jovem árvore, a muda de Nimloth, a Bela. Assim, Elendil manteve-se a postos, sem se envolver nos feitos funestos daqueles tempos. E sempre procurava um sinal que não vinha. Viajou então em segredo até o litoral ocidental e ficou olhando mar afora, pois a tristeza e a saudade se abatiam sobre ele, e era enorme seu amor pelo pai. Mas nada conseguiu avistar a não ser a frota de Ar-Pharazôn, reunida nos portos do oeste.
Ora, em Eras antigas, na ilha de Númenor, o tempo era sempre propício às necessidades e preferências dos homens: chuva na estação devida e sempre na medida certa; e sol, ora mais quente, ora menos, e ventos do mar. E quando o vento vinha do oeste, a muitos parecia que vinha impregnado de uma fragrância, efêmera, porém agradável, inspiradora, como a de flores eternamente abertas em prados perenes, que não têm nomes em plagas mortais. Tudo isso agora mudara. Pois o próprio céu havia escurecido; e havia tempestades de chuva e granizo naquela época, assim como ventos violentos. E de quando em quandlo uma grande nau dos númenorianos afundava e não voltava ao porto, embora uma desgraça semelhante não lhes houvesse ocorrido até então desde a ascensão da Estrel.a E do oeste às vezes vinha uma enorme nuvem ao entardecer, com a forma de uma águia, com as pontas das asas abertas para o norte e para o sul; e aos poucos ela assomava, encobrindo totalmente o pôr-do-sol, e a escuridão absoluta caía então sobre Númenor. E algumas das águias traziam raios sob as asas, e trovões reverberavam entre o céu e as nuvens.
Surgiu então o medo entre os homens.
— Vejam as Águias dos Senhores do Oeste! — gritavam eles
— As Águias de Manwë estão investindo contra Númenor! — E caíam prostrados.
Então, uns poucos se arrependeram por algum tempo, mas outros endureceram seus corações e brandiram os punhos para os céus.
— Os Senhores do Oeste tramaram contra nós. Estão atacando primeiro. O próximo movimento será nosso! — Essas palavras o próprio Rei pronunciou, mas elas haviam sido maquinadas por Sauron.
Então os raios aumentaram e mataram homens nas colinas, nos campos e nas ruas da cidade. E uma faísca de fogo atingiu em cheio a cúpula do Templo e a fendeu, e ela ficou envolta em chamas. Mas o Templo em si não sofreu abalo, e Sauron ficou de pé em seu pináculo, desafiando os relâmpagos sem ser atingido. E nessa hora os homens o chamaram de deus e fizeram tudo o que ele queria. Quando, contudo, ocorreu o último prodígio, eles lhe prestaram pouca atenção. Pois a terra tremeu sob seus pés; e um ronco semelhante ao de um trovão subterrâneo misturou-se ao bramido do mar; e a fumaça saiu pelo pico da Meneltarma.
Entretanto, Ar-Pharazôn insistia cada vez mais em seus armamentos.
Naquela ocasião, a frota dos númenorianos escurecia o mar a oeste da Terra e se assemelhava a um arquipélago de mil ilhas. Seus mastros eram como uma floresta sobre as montanhas; suas velas, como uma nuvem melancólica; e seus estandartes eram dourados e negros. E tudo estava à espera da palavra de Ar-Pharazôn; e Sauron se recolheu para o círculo mais retirado do Templo, e os homens lhe traziam vítimas a serem incineradas.
Então, as Águias dos Senhores do Oeste surgiram, saindo do entardecer, dispostas como que para a batalha, avançando numa linha cuo final se reduzia até ficar fora do alcance da vista. E, enquanto se aproximavam, suas asas se abriam cada vez mais e abarcavam o céu. Mas o oeste brilhava vermelho atrás delas; e elas refulgiam embaixo, como se estivessem iluminadas por um fogo de raiva enorme, de modo que toda Númenor parecia colorir-se de uma luz esbraseada E os homens contemplavam o rosto dos companheiros, e lhes parecia que estavam vermelhos de raiva.
Endureceu então Ar-Pharazôn seu coração e embarcou em sua poderosa nau, Alcarondas, o Castelo do Mar. Era provida de muitos remos e de muitos mastros, dourados e negros, e nela foi instalado o trono de Ar-Pharazôn. Ele então vestiu sua armadura e pôs a coroa na cabeça; mandou hastear o estandarte e deu o sinal para içar âncoras. E naquela hora os clarins de Númenor abafaram o ruído dos trovões.
Foi assim que a frota dos númenorianos se mobilizou contra a ameaça do oeste. E havia pouco vento, mas eles dispunham de muitos remos e de muitos escravos fortes para remar debaixo de açoites. O sol se pôs, e sobreveio um enorme silêncio. Caiu a escuridão sobre a Terra, e o mar estava calmo, enquanto o mundo esperava o que iria acontecer. Lentamente, as esquadras desapareceram da vista dos que olhavam nos portos, suas luzes foram se apagando, e a noite apoderou-se delas. E pela manhã, já não estavam mais lá. Pois surgira um vento leste que as soprou para longe. E elas desrespeitaram a Interdição dos Valar, e entraram em águas proibidas. Para guerrear contra os Imortais, a fim de roubar deles a vida eterna dentro dos Círculos do Mundo.
No entanto, a frota de Ar-Pharazôn foi surgindo das profundezas do oceano e cercou Avallónë e toda a ilha de Eressëa, e os eldar se entristeceram, pois a luz do Sol poente foi tapada pela nuvem dos númenorianos. E, finalmente, Ar-Pharazôn chegou mesmo a Aman, o Reino Abençoado, e às costas de Valinor. E ainda assim o silêncio era total, e o destino estava por um fio.
Pois Ar-Pharazôn hesitou no final e quase retornou. Teve dúvidas em seu coração quando deparou com as praias silenciosas e quando viu Taniquetil brilhando, mais branca do que a neve, mais fria do que a morte, muda, imutável, terrível como a sombra da luz de Ilúvatar. Mas o orgulho era agora seu senhor; e ele afinal deixou sua nau e pisou na praia, reivindicando para si a posse daquela terra se ninguém viesse lutar por ela. E um exército de númenorianos armou um enorme acampamento perto de Túna, de onde todos os eldar haviam fugido.
Então, Manwë sobre a Montanha invocou Ilúvatar; e naquela época os Valar renunciaram a sua autoridade sobre Arda. Ilúvatar, porém, acionou seu poder e mudou a aparência do mundo.
Abriu-se então no mar um imenso precipício entre Númenor e as Terras Imortais; e as águas jorraram para dentro dele. E o estrondo e a espuma das cataratas subiram aos céus; e o mundo foi abalado. E toda a esquadra dos númenorianos foi arrastada para esse abismo, afundando e sendo engolida para sempre. Já Ar-Pharazôn, o Rei, e os guerreiros mortais que haviam posto os pés na terra de Aman foram soterrados por colinas que desmoronaram. Conta-se que ali eles jazem, presos, nas Grutas dos Esquecidos, até a Última Batalha e o Juízo Final.
Mas a terra de Aman e Eressëa dos eldar foram levadas, retiradas para sempre para fora do alcance dos homens. E Andor, a Terra da Dádiva, Númenor dos Reis, Elenna da Estrela de Eärendil, foi totalmente destruída. Pois estava perto do lado oriental da enorme fenda; e seus alicerces foram revirados, fazendo-a tombar e cair na escuridão; e ela não existe mais. E agora não resta sobre a Terra lugar algum em que esteja preservada a lembrança de um tempo sem maldade. Pois Ilúvatar fez recuarem os Grandes Mares a oeste da Terra Média e também as Terras Vazias a leste; e novas terras e novos mares foram criados. E o mundo foi reduzido, já que Valinor e Eressëa foram transferidas para o reino das coisas ocultas.
Essa tragédia ocorreu numa hora inesperada pelos homens, no trigésimo nono dia da passagem da esquadra. De repente, Meneltarma explodiu em chamas; vieram um vento fortíssimo e um tumulto na Terra; os céus tremeram e as colinas deslizaram; e Númenor afundou no oceano com todas as suas crianças, esposas, donzelas e damas altivas, com todos os seus jardins, salões e torres; seus túmulos e tesouros; suas joias, seus tecidos, seus objetos pintados e esculpidos, seu riso, sua alegria e sua música; seus conhecimentos e sua tradição: tudo desapareceu para sempre. E em último lugar, a onda que se avolumava, verde, fria e com uma crista de espuma, subindo pela terra, levou para seu seio Tar-Miriel, a Rainha, mais bela do que prata, marfim ou pérolas. Era tarde demais quando ela se esforçou por subir pelas trilhas íngremes da Meneltarma até o local sagrado; pois as águas a alcançaram, e seu grito se perdeu no bramido do vento.
No entanto, fosse ou não fosse por Amandil de fato ter chegado a Valinor, e Manwë ter dado ouvidos a suas súplicas, pela graça dos Valar, Elendil e seus filhos, e também seu povo, foram poupados da destruição daquele dia. Pois Elendil havia permanecido em Rómenna, recusando-se a obedecer à convocação do Rei quando este partiu para a guerra. E, evitando os soldados de Sauron que vieram buscá-lo para arrastá-lo até a fogueira do Templo ele embarcou em sua nau e ficou parado ao largo da costa, à espera. Ali foi protegido pela terra do grande escoamento do mar que tudo arrastou para o precipício; e depois ficou abrigado da primeira fúria da tempestade. Contudo, quando a onda devoradora encobriu a terra, e Númenor tombou, nesse momento ele teria sido derrubado e teria considerado uma infelicidade menor perecer, pois nenhuma separação causada pela morte poderia ser mais dolorosa do que a perda e a agonia daquele dia. Foi porém apanhado pelo vento fortíssimo, mais violento do que qualquer vento conhecido pelos homens, que veio ruidoso do oeste e empurrou suas embarcações para longe; e rasgou suas velas, quebrou seus mastros e perseguiu os infelizes como palha sobre as águas.
Eram nove embarcações quatro para Elendil, três para Isildur e duas para Anárion. E elas voavam à frente do vendaval negro, saindo do crepúsculo da destruição para a escuridão do mundo. E os mares se revoltavam debaixo delas numa raiva crescente, e ondas como montanhas que se moviam com enormes capuzes de neve enroscada as sustentaram à altura do torvelinho das nuvens e, depois de muitos dias, as lançaram nas praias da Terra Média. E todas as costas e regiões litorâneas do mundo ocidental sofreram enorme destruição e transformação naquela época. Pois os mares invadiram as terras; praias cederam; ilhas antigas afundaram e novas ilhas foram erguidas; e colinas desmoronaram e rios foram desviados para cursos estranhos.
Elendil e seus filhos depois fundaram reinos na Terra Média; e, embora suas tradições e seus ofícios não passassem de uma sombra do que haviam sido antes que Sauron chegasse a Númenor, mesmo assim pareciam admiráveis aos homens selvagens do mundo. E muito se conta em outros relatos dos feitos dos herdeiros de Elendil na Era que sobreveio, bem como de sua luta com Sauron, que ainda não terminara.
Pois o próprio Sauron foi dominado por um medo enorme diante da fúria dos Valar e da condenação que Eru lançou sobre terras e mares. Era muito maior do que qualquer coisa que ele podia ter desejado, pois só esperava pela morte dos númenorianos e pela derrota de seu rei arrogante. E Sauron, sentado em sua cadeira negra no centro do Templo, havia rido ao ouvir os clarins de Ar-Pharazôn soando para a batalha; e mais uma vez havia rido ao ouvir os trovões da tempestade; e uma terceira vez, no momento em que ria de sua própria ideia, pensando no que iria fazer agora no mundo, já que estava livre dos edain para sempre, foi apanhado no meio de seu júbilo; e sua cadeira e seu templo caíram no abismo. Sauron, entretanto, não era de carne mortal; e, embora estivesse agora destituído dessa forma na qual havia cometido tamanho mal, para nunca mais voltar a parecer simpático aos olhos dos homens, mesmo assim seu espírito se elevou das profundezas e passou como uma sombra e um vento escuro por cima do mar, voltando à Terra Média e a Mordor, que era seu lar. Ali, ele mais uma vez apanhou seu magnífico Anel em Barad-dûr; e ali permaneceu, sinistro e mudo, até inventar para si uma nova aparência, uma imagem de perversidade e ódio tornados visíveis; e poucos conseguiam encarar o Olho de Sauron, o Terrível.
Esses fatos, porém, não entram na história da Submersão de Númenor, da qual agora tudo está relatado. E até mesmo o nome daquela terra pereceu; e dali em diante os homens falavam não de Elenna, nem de Andor, a Dádiva retirada, nem ele Númenórë, nos confins do mundo. Mas os exilados à beira-mar, quando se voltavam para o oeste, seguindo o desejo de seus corações, falavam em Mar-nu-Palmar, tragada pelas ondas, Akallabêth, a Derrubada; Atalantë. No idioma eldarin.
Entre os Exilados, muitos acreditavam que o pico da Meneltarma, a Coluna dos Céus, não tinha ficado submerso para sempre, mas voltara a se erguer acima das ondas. Uma ilha solitária perdida na imensidão das águas. Pois ele havia sido um local sagrado, e nem mesmo nos tempos de Sauron alguém o profanara. E da linhagem de Eärendil houve alguns que mais tarde saíram a procurá-lo, porque se dizia entre os mestres das tradições que os homens de boa visão de outrora conseguem, da Meneltarma, ter um vislumbre da Terra Imortal. Pois mesmo após a destruição, os corações dos dúnedain estavam ainda voltados para o oeste; e, embora de fato soubessem que o mundo estava mudado, diziam — Avallónë desapareceu da face da Terra e a Terra de Aman foi levada daqui, e no mundo desta escuridão atual, não podem ser encontradas.
Contudo, outrora elas existiram, logo ainda existem, em seu ser verdadeiro e na forma total do mundo, como planejado de inicio.
Pois os dúnedain consideravam que até os homem mortais, se tivessem esse dom poderiam contemplar outras épocas que não fossem as da vida de seus corpos. E sempre ansiavam por escapar das sombras de seu exílio e de algum modo enxergar a luz que não se apaga. É que a tristeza com a ideia da morte os perseguira, atravessando as profundezas do oceano. Era assim que grandes marinheiros entre eles ainda saiam a esquadrinhar os mares desertos, na esperança de encontrar a Ilha da Meneltarma e dali ter uma visão das coisas como haviam sido. Mas não a encontravam. E aqueles que muito navegavam, chegavam a novas terras apenas para descobrir que elas eram parecidas com as terras conhecidas e sujeitas à morte. E aqueles que navegaram mais do que todos, apenas circundaram a Terra e voltaram cansados ao local de onde haviam partido, e diziam: “Todas as rotas agora são curvas”.
Portanto, em tempos posteriores, fosse com as viagens marítimas, fosse com as tradições e os conhecimentos dos astros, os reis dos homens souberam que o mundo com efeito se arredondara e que, mesmo assim, aos elfos ainda era permitido partir e voltar para o Antigo Oeste e para Avallónë, se quisessem. Logo, diziam os mestres das tradições dos homens que uma Rota Plana deveria ainda existir para aqueles a quem era permitido encontrá-la. E ensinavam que, enquanto o novo mundo se afastava, o velho caminho e a rota da lembrança do oeste ainda continuavam, como uma imensa ponte invisível que passasse pelo ar da respiração e do voo (que estava agora encurvado seguindo a curvatura do mundo), atravessasse Ilmen, que a carne desamparada não conseguiria suportar, até chegar a Tal Eressëa, a Ilha Solitária, e talvez ainda mais longe a Valinor, onde os Valar ainda moram e de onde observam os desdobramentos da história do mundo. E surgiram relatos e rumores, ao longo das costas do mar, sobre marinheiros e homens perdidos nas águas, que, por alguma sina. Graça ou concessão dos Valar, haviam entrado pela Rota Plana e visto a superfície do mundo sumir abaixo deles, e assim chegaram aos cais iluminados de Avallónë, ou mesmo às últimas praias no litoral de Aman; e ali contemplaram, antes de morrer a Montanha Branca, bela e terrível.

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