25 de março de 2016

Capítulo XVII - Explode a tempestade

No dia seguinte as trombetas soaram cedo no acampamento. Pouco depois um único batedor foi visto correndo ao longo da trilha estreita. A certa distância, parou e saudou-os, perguntando se Thorin estava disposto a receber nova embaixada, já que havia novas noticias, e as coisas tinham mudado.
— Com certeza é Dain! — disse Thorin, ao ouvir aquilo. — Tiveram notícias de sua vinda. Achei mesmo que isso alteraria seus ânimos! Peça que venham em número pequeno e desarmados, e ouvirei — disse ele ao mensageiro.
Por volta do meio-dia, viram-se as bandeiras da Floresta e do Lago avançando novamente. Aproximava-se uma companhia de vinte homens. No inicio do caminho estreito, deitaram no chão espadas e lanças, e vieram na direção do Portão. Os anões viram que entre eles estavam também Bard e o Rei Élfico à frente dos quais, um velho, envolto em capa e capuz, carregava um cofre de madeira guarnecido de ferro.
— Salve, Thorin! — disse Bard. — Ainda continua com a mesma opinião?
— Minha opinião não muda com o nascer e o pôr de alguns sois — respondeu Thorin. — Vieram aqui para me fazer perguntas inúteis? A tropa élfica ainda não partiu, como ordenei! Até que isso aconteça, é em vão que vocês vêm até aqui negociar comigo.
— Então não existe nada pelo qual você cederia um pouco de seu ouro?
— Nada que você ou seus amigos tenham para me oferecer.
— E o que me diz da Pedra Arken de Thrain? — disse ele, e, no mesmo momento, o velho abriu o cofre e ergueu a pedra. A luz irrompeu de sua mão, clara e branca na manhã.
Thorin ficou mudo de espanto e perplexidade. Ninguém falou por um longo tempo. Thorin, por fim, quebrou o silêncio, e sua voz estava embargada pela ira.
— Essa pedra foi de meu pai, e é minha — disse ele. — Por que eu deveria comprar o que é meu? — Mas a surpresa dominava-o e ele acrescentou: — Mas como vocês encontraram a herança de minha casa, se é que há necessidade de fazer tal pergunta a ladrões?
— Não somos ladrões — respondeu Bard. — Dar-lhe-emos o que é seu em troca do que é nosso.
— Como a encontraram? — gritou Thorin, numa fúria crescente.
— Eu a dei a eles — guinchou Bilbo, que estava espiando por sobre a muralha, terrivelmente apavorado.
— Você! Você! — gritou Thorin, virando-se sobre ele e agarrando-o com ambas as mãos. — Seu hobbit miserável! Seu nanico, ladrão! — gritou ele, mais palavras, e chacoalhou o pobre Bilbo como se fosse um coelho. — Pelas barbas de Durin! Queria que Gandalf estivesse aqui! Maldito seja ele por tê-lo escolhido! Que suas barbas fiquem secas! Quanto a você, vou jogá-lo às pedras! — gritou ele, erguendo Bilbo nos braços.
— Pare! Seu desejo foi realizado! — disse uma voz. O velho com o cofre jogou de lado o capuz e a capa. — Aqui está Gandalf! E já chega tarde, ao que parece. Se não gosta do meu ladrão, por favor não lhe faça mal. Ponha-o no chão, e escute primeiro o que ele tem a dizer!
— Vocês todos parecem estar mancomunados! — disse Thorin, soltando Bilbo no alto da muralha. — Nunca mais terei negócios com magos ou seus amigos. O que tem a dizer, descendente de ratos?
— Céus! Céus! — disse Bilbo. — Tenho certeza de que tudo isto é muito incômodo. Você deve se lembrar de ter dito que eu poderia escolher minha décima quarta parte do tesouro! Talvez eu tenha entendido muito ao pé da letra. Disseram-me que os anões algumas vezes são mais educados nas palavras que nas ações. Mesmo assim, foi quando você parecia achar que eu tinha sido útil. Descendente de ratos, pois sim! É essa a gratidão, sua e de sua família, que me foi prometida, Thorin? Considere que dispus de minha parte como quis, e deixe as coisas como estão!
— Vou fazer isso — disse Thorin, ríspido. — E mandá-lo embora, e que nunca nos encontremos de novo! — Então virou-se e falou de sobre a muralha. — Fui traído — disse ele. — Estavam certos quando pensaram que eu não me esquivaria de resgatar a Pedra Arken, o tesouro de minha casa. Por ela darei um quatorze avos do tesouro em ouro e prata, deixando de lado as pedras, mas essa será considerada a parte prometida a este traidor, e com essa recompensa ele partirá, e vocês podem dividi-la como bem entenderem. Ele ficará com bem pouco, não duvido. Levem-no, se quiserem que ele viva, e minha amizade não o acompanha. Desça e vá para junto de seus amigos! — disse ele a Bilbo. — Ou vou jogá-lo lá embaixo.
— E o ouro e a prata? — perguntou Bilbo.
— Seguirão depois, como for possível combinar — disse ele. — Desça!
— Até então ficaremos com a pedra — gritou Bard.
— Você não está fazendo muito bela figura como Rei sob a Montanha — disse Gandalf. — Mas as coisas ainda podem mudar.
— Podem mesmo — disse Thorin. E tão grande era o fascínio do tesouro sobre ele que já ponderava se, com a ajuda de Dain, não conseguiria resgatar a Pedra Arken sem entregar a parte devida da recompensa.
E, assim, Bilbo desceu da muralha e, apesar de seus cuidados, partiu sem nada, exceto a cota de malha que Thorin já lhe dera. Vários dos anões sentiram em seus corações pena e vergonha ao vê-lo partir.
— Adeus! — gritou Bilbo para eles. — Podemos ainda nos encontrar como amigos.
— Fora daqui! — gritou Thorin. — Está usando uma armadura que foi feita pelo meu povo e é boa demais para você. Não pode ser atravessada por flechas, mas, se não correr, vou espetar seus pés miseráveis. Então seja rápido!
— Não tão depressa! — disse Bard. — Dar-lhe-emos um prazo até amanhã. Ao meio-dia voltaremos, para ver se você trouxe do tesouro a parte que deve ser trocada pela pedra. Se isso for feito sem traição, então partiremos, e o exército élfico voltará para a Floresta. Enquanto isso, passe bem!
Dito isso, voltaram para o acampamento, mas Thorin enviou mensageiros por intermédio de Roac, para dizer a Dain o que se passara e pedindo que viesse com pressa e cautela.
Passaram-se aquele dia e a noite. No dia seguinte, o vento mudou para o oeste, e o ar ficou escuro e pesado. Ainda era cedo quando se ouviu um grito no acampamento. Batedores vinham avisar que um exército de anões surgira pelo contraforte leste da Montanha e agora apressava-se na direção de Vaíle. Dain havia chegado. Avançara durante a noite e, assim, encontrava-os antes do esperado. Cada um de seu povo vestia uma longa cota de malha de aço que descia até a altura dos joelhos e tinha as pernas cobertas com calções de uma malha metálica fina e flexível, cuja feitura era um segredo possuído pelo povo de Dain. Os anões são extremamente fortes para sua altura, mas a maioria destes era forte até mesmo para anões. Em batalha empunhavam pesadas achas de dois gumes, mas cada um também trazia ao cinto uma espada curta e larga e um escudo redondo pendurado nas costas. Tinham as barbas fendidas e presas nos cintos. Seus elmos eram de ferro, de ferro eram também os sapatos, e seus rostos eram ferozes. Trombetas convocavam homens e elfos às armas. Logo podiam-se ver os anões subindo rapidamente pelo vale. Pararam entre o rio e o contraforte leste, mas alguns continuaram o caminho e, atravessando o rio, aproximaram-se do acampamento, ali deitaram as armas e levantaram as mãos em sinal de paz. Bard foi encontrá-los, e com ele foi Bilbo.
— Fomos enviados por Dain, filho de Nain — disseram eles quando interrogados. — Corremos ao encontro de nossos parentes na Montanha, uma vez que soubemos que o reino de antigamente foi restaurado. Mas quem são vocês, que se postam na planície como inimigos diante de muralhas defendidas? — Isso, é claro, na língua polida e antiquada de tais ocasiões, significava simplesmente: “Vocês não têm nada a fazer aqui. Vamos avançar, portanto, afastem-se ou lutaremos com vocês!”
Pretendiam avançar por entre a Montanha e a curva do rio, pois aquele trecho estreito não parecia estar fortemente guardado.
Bard, é claro, recusou-se a permitir que os anões fossem para a Montanha. Estava determinado a esperar até que o ouro e a prata fossem trazidos em troca da Pedra Arken, pois não acreditava que isso seria feito se a fortaleza fosse guarnecida por uma companhia tão grande e belicosa. Haviam trazido com eles um grande estoque de suprimentos, pois os anões conseguem carregar fardos muito pesados, e quase todos do povo de Dain, apesar da marcha rápida, levavam enormes mochilas nas costas, além das armas. Resistiriam a um cerco por semanas e, a essa altura, mais anões poderiam chegar, e depois mais ainda, pois Thorin tinha muitos parentes. Além disso, também poderiam reabrir e guardar algum outro portão, de modo que os sitiadores teriam de cercar toda a montanha, e não estavam em número suficiente para isso.
Estes, na verdade, eram precisamente os seus planos (pois os corvos-mensageiros haviam trabalhado muito entre Thorin e Dain), mas, por enquanto, o caminho estava bloqueado, então, depois de palavras, os anões-mensageiros se retiraram, resmungando com suas barbas. Bard, então, mais uma vez enviou mensageiros até o Portão, mas eles não encontraram nenhum ouro ou pagamento. Flechas foram desferidas, e os mensageiros voltaram desalentados. No acampamento havia grande agitação, como se em preparação para a batalha, pois os anões de Dain estavam avançando ao longo da margem leste.
— Tolos! — riu Bard. — Virem desta forma, embaixo do braço da Montanha! Não entendem de guerra acima do chão, não importa o que saibam sobre batalhas nas minas. Muitos de nossos arqueiros e lanceiros estão agora escondidos nas rochas sobre o flanco esquerdo deles. A malha dos anões pode ser boa, mas logo estarão em apuros. Vamos agora atacá-los pelos dois lados, antes que estejam completamente descansados!
Mas o Rei Élfico disse:
— Permanecerei aqui por muito tempo antes de começar esta guerra por ouro. Os anões não podem passar por nós, a não ser que assim desejemos, nem fazer qualquer coisa sem que notemos. Vamos esperar que aconteça algo que traga a reconciliação. Nossa vantagem em número será suficiente se no final tivermos de chegar a uma batalha infeliz.
Mas ele esqueceu de considerar os anões. A ideia de que a Pedra Arken estava em poder dos sitiadores fervilhava em seus pensamentos, também adivinhavam a hesitação de Bard e seus amigos e resolveram atacar enquanto eles debatiam.
De repente, sem qualquer sinal, avançaram silenciosamente para o ataque. Arcos zuniam e flechas assobiavam, a batalha estava começando.
Mais de repente ainda, porém, a escuridão sobreveio com terrível rapidez! Uma nuvem negra cobriu o céu. Um trovão de inverno sobre o vento furioso ecoou pela Montanha, e um relâmpago acendeu-lhe o pico. E, abaixo do trovão, outra escuridão podia ser vista avançando num rodamoinho, mas não vinha com o vento, vinha do norte, como uma vasta nuvem de pássaros, tão densa que não se via nenhuma luz entre suas asas.
— Parem! — gritou Gandalf, que apareceu de repente, sozinho, com os braços erguidos, entre os anões que avançavam e as tropas à sua espera. — Parem! — gritou ele numa voz como o trovão, e seu cajado reluziu como um relâmpago. — O terror caiu sobre todos vocês! Ai de nós! Veio mais depressa do que eu esperava. Os orcs estão sobre vocês! Bolg do Norte está vindo, ó, Dain, cujo pai você matou em Moria. Olhem! Os morcegos estão sobre seu exército como um mar de gafanhotos. Vêm montados em lobos e trazem wargs consigo.
Todos foram tomados de surpresa e perplexidade. Enquanto Gandalf falava, a escuridão crescia. Os anões detiveram-se e olharam para o céu.
Os elfos gritavam em muitas vozes.
— Venham! — chamou Gandalf. — Não há tempo para planejamentos. Que Dain, filho de Nain, venha depressa até nós!
Assim começou uma batalha que ninguém esperava, chamada a Batalha dos Cinco Exércitos e que foi extremamente terrível. De um lado estavam os Orcs e os Lobos selvagens, e do outro estavam Elfos, Homens e Anões.
Foi assim que aconteceu. Desde a morte do Grão-Orc das Montanhas Sombrias, o ódio de sua raça pelos anões acendera-se novamente e transformara-se em fúria. Mensageiros haviam percorrido todas as suas cidades, colônias e fortalezas, pois agora estavam decididos a conquistar o domínio do norte. Haviam conseguido notícias de maneiras secretas, e em todas as montanhas forjavam-se armas e armavam-se soldados.
Então marcharam e juntaram-se, em colinas e vales, indo sempre por túneis ou sob a proteção da noite, até que, ao redor e sob a grande montanha Gundabad do Norte, onde ficava a sua capital, um vasto exercito se reuniu, pronto para varrer tempestade. Souberam então da morte de Smaug. E seus corações se alegraram, apressaram-se, noite após noite, através das montanhas, e assim chegaram do norte, de repente, quase nos calcanhares de Dain. Nem mesmo os corvos sabiam de sua vinda até eles surgirem nas terras fendidas que dividiam a Montanha Solitária das colinas. O quanto Gandalf sabia não se pode dizer, mas ficou claro que ele não esperava aquele ataque repentino.
Este é o plano que ele fez, reunido com o Rei Élfico e Bard, além de Dain. Pois o senhor dos anões agora se juntara a eles: os Orcs eram inimigos de todos e, com a sua chegada, todas as outras desavenças foram esquecidas. Sua única esperança era atrair os orcs para dentro do vale, entre os braços da Montanha, e eles mesmos deveriam guarnecer com homens os grandes contrafortes que davam para o sul e o leste. Ainda assim, seria perigoso, se os orcs estivessem em número suficiente para invadir a própria Montanha e, assim, atacá-los por trás e por cima, mas não havia tempo para fazer qualquer outro plano, ou para pedir socorro.
Logo a trovoada passou, voltando-se para o sudeste, mas a nuvem de morcegos veio, voando baixo, por sobre a saliência da Montanha, rodopiando acima deles, vedando toda a luz e enchendo-os de terror.
— Para a Montanha — gritou Bard. — Para a Montanha! Vamos tomar nossos lugares enquanto ainda há tempo!
No contraforte sul, nas encostas mais baixas e nas rochas aos seus pés, ficaram os Elfos, no contraforte leste ficaram homens e anões. Mas Bard e alguns dos homens e elfos mais ágeis subiram até o topo da saliência ao leste para ter uma visão do norte.
Logo puderam ver as terras diante do sopé da Montanha enegrecidas por uma multidão que corria. Em pouco tempo a vanguarda contornou a extremidade do contraforte e invadiu Vaíle. Eram os mais rápidos montadores de lobos, e seus gritos e uivos já rasgavam o ar na distância. Alguns homens corajosos postavam-se enfileirados diante deles, num arremedo de resistência, e muitos caíram ali antes que o restante recuasse e fugisse para um dos lados.

Allan Lee – Os elfos foram os primeiros a atacar

Como Gandalf esperava, o exército orc juntara-se atrás da vanguarda repelida, e agora derramava-se em ódio para dentro do vale, avançando impetuosamente entre os braços da Montanha, procurando o inimigo. Seus estandartes eram incontáveis, negros e vermelhos. E eles avançavam como uma onda furiosa e desordenada.
Foi uma batalha terrível, a mais apavorante de todas as experiências de Bilbo, e que naquele tempo mais odiou — o que quer dizer que, muitos anos depois, tornou-se a aventura de que mais se orgulhava e a que mais gostava de recordar, embora sua presença tivesse sido totalmente irrelevante. Na verdade, posso dizer que ele colocou o anel no inicio de tudo e desapareceu de vista, se bem que não de todo o perigo.
Um anel mágico daquele tipo não é proteção completa num ataque orc, nem evita flechas e lanças, mas ajuda a sair do caminho e evita que a sua cabeça seja especialmente escolhida para um golpe avassalador de um espadachim orc.
Os elfos foram os primeiros a atacar. Seu ódio pelos orcs é frio e amargo. Suas lanças e espadas brilhavam no escuro com um clarão de chama fria, tão mortal era a ira das mãos que as empunhavam. Assim que o exército dos inimigos estava apinhado no vale, enviaram contra ele uma saraivada de flechas, e cada uma brilhava ao voar, como se acesa com agulhas de fogo. Atrás das flechas, mil de seus lanceiros desceram e atacaram.
Os gritos eram ensurdecedores. As rochas ficaram negras com o sangue dos orcs. No momento em que os orcs estavam se recuperando do ataque e o avanço dos elfos cessou, um rugido grave ecoou através do vale. Com gritos de “Moria!” e “Dain, Dain!”, os anões das Colinas de Ferro mergulhavam pelo outro lado, empunhando seus alviões, e, com eles, vinham os homens do Lago com longas espadas. O pânico tomou conta dos orcs e, mal se viraram para enfrentar o novo ataque, os elfos atacaram outra vez com contingente renovado. Muitos dos orcs já fugiam pelo rio para escapar da armadilha, e muitos de seus próprios lobos voltavam-se contra eles, despedaçando os mortos e feridos.
A vitória parecia próxima, quando um grito ecoou dos picos acima.
Orcs haviam escalado a Montanha pelo outro lado e muitos já estavam nas encostas sobre o Portão, outros desciam precipitadamente, sem dar atenção aos que caiam gritando de penhascos e precipícios, para atacar os contrafortes por cima. Cada contraforte podia ser atingido por trilhas que desciam da massa principal da Montanha, ao centro, e os defensores estavam em número pequeno demais para barrar o caminho por muito tempo. Agora a vitória estava além de qualquer esperança. Tinham apenas estancado a primeira investida da onda negra.
O dia avançava. Os orcs juntaram-se de novo no vale. Ali um voraz exército de wargs vinha com a guarda pessoal de Bolg, orcs de enorme tamanho com cimitarras de aço. Logo, uma escuridão verdadeira cobria o céu tempestuoso, enquanto os grandes morcegos ainda rodopiavam ao redor das cabeças e orelhas de homens e elfos ou grudavam como vampiros nos caídos. Agora Bard lutava para defender o contraforte leste e, contudo, recuava aos poucos, os senhores élficos estavam encurralados junto ao seu rei no braço sul, perto da guarita no Morro do Corvo.
De repente, ouviu-se um grande grito, e do Portão veio um chamado de trombeta. Haviam esquecido Thorin! Parte da muralha, movida por alavancas, caiu no lago com um estrondo. O Rei sob a Montanha saltou à frente, e seus companheiros o seguiram. Capuz e capa haviam desaparecido, vestiam armaduras brilhantes, e uma luz vermelha flamejava em seus olhos. Na escuridão o grande anão reluzia como ouro no fogo que se apaga.
Rochas foram lançadas das alturas pelos orcs, mas eles resistiram, desceram até os pés da cachoeira e avançaram para a batalha. Lobos e montadores caíam ou fugiam diante deles. Thorin desferia golpes poderosos com seu machado, e nada parecia feri-lo.
— Aqui! Aqui! Elfos e Homens! Aqui! Ó, meu povo! — gritou ele, e sua voz vibrava como uma trombeta no vale.
Correndo, sem se preocupar com a ordem, desceram todos os anões de Dain em sua ajuda. Desceram também muitos dos Homens do Lago, pois Bard não pôde impedi-los, e, do outro lado, vieram muitos lanceiros dos elfos.
Mais uma vez os orcs foram atacados no vale, e caiam aos montes até Vaíle ficar escura e horrenda com seus cadáveres. Os wargs foram dispersados e Thorin investiu contra a guarda pessoal de Bolg. Mas não conseguiu romper suas fileiras. Atrás deles, em meio aos cadáveres dos orcs, jaziam homens e muitos anões, além de muitos belos elfos que deveriam ter vivido alegremente ainda por muitas eras na floresta. E, à medida que se aproximava da parte mais larga do vale, o ataque de Thorin ficava cada vez mais lento. Seu contingente era muito pequeno. Seus flancos estavam desprotegidos. Logo os atacantes foram atacados e acuados num grande circulo, enfrentando todos os lados, cercados em toda a volta por orcs e lobos que voltavam ao ataque. A guarda pessoal de Bolg arremeteu contra eles, uivando, e avançou sobre suas fileiras como ondas sobre morros de areia. Seus amigos não podiam ajudá-los, pois o ataque da Montanha recomeçou com força redobrada, e, dos dois lados, homens e elfos aos poucos estavam sendo derrubados.
Tudo isso Bilbo contemplava com tristeza. Ele se posicionara no Morro do Corvo com os Elfos — em parte, porque havia mais chance de escapar daquele local e, em parte (com o lado mais Túk de sua mente), porque, se ia enfrentar uma última resistência desesperada, preferia, levando tudo em conta, defender o Rei Élfico. Gandalf, também, posso dizer, estava lá, sentado no chão como se meditasse profundamente, preparando, acho eu, um último golpe de mágica antes do fim.
E o fim não parecia muito distante. “Não vai demorar muito”, pensou Bilbo, “para que os orcs ganhem o Portão e todos nós sejamos mortos ou acuados e capturados. Realmente, é o bastante para fazer a gente chorar, depois de tudo por que passamos juntos. Eu preferia que o velho Smaug ficasse com todo o maldito tesouro, não ver essas criaturas vis apossando-se dele e o pobre Bombur, e Balin, Fili e Kili e todo o resto perto de um fim trágico, e Bard também, e os Homens do Lago e os alegres elfos. Que desgraça! Ouvi canções de muitas batalhas, e sempre entendi que a derrota pode ser gloriosa. Parece muito incômodo, para não dizer desolador. Gostaria de estar longe de tudo isto.”
As nuvens foram rasgadas pelo vento, e um pôr-do-sol vermelho cortou o oeste. Vendo o brilho repentino na paisagem sombria, Bilbo olhou em volta. Deu um grito forte, tivera uma visão que fazia seu coração pular: vultos escuros, pequenos, mas majestosos, contra a luminosidade distante.
— As Águias! As Águias! — gritou ele. — As Águias estão chegando!
Os olhos de Bilbo raramente se enganavam. As águias estavam descendo com o vento, fileira após fileira, num exército que devia reunir todos os ninhos do Norte.
— As Águias! As Águias! — gritou Bilbo, dançando e acenando com os braços.
Se os elfos não o podiam vê-lo, podiam ouvi-lo. Logo suas vozes juntaram-se ao grito, que ecoou através do vale.
Muitos olhos curiosos voltaram-se para cima, embora não se pudesse ver nada, exceto das saliências ao sul da Montanha.
— As Águias! — gritou Bilbo mais uma vez, mas, naquele momento, uma pedra veio rolando de cima, bateu com toda a força em seu elmo, ele caiu com estrondo e perdeu os sentidos.

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