25 de março de 2016

Capítulo XVI - Um ladrão na noite

Agora os dias arrastavam-se, lentos e cansativos. Muitos dos anões passavam seu tempo empilhando e arrumando o tesouro, e Thorin falava da Pedra Arken de Thrain, e ordenava que os companheiros a procurassem em todos os cantos.
— Pois a Pedra Arken de meu pai — dizia ele — vale mais que um rio de ouro e, para mim, não tem preço. De todo o tesouro, aquela pedra me pertence, e vingar-me-ei de qualquer um que a encontre e a retenha consigo.
Bilbo ouviu aquelas palavras e ficou com medo, imaginando o que aconteceria se a pedra fosse encontrada, embrulhada numa velha trouxa de roupas esfarrapadas que ele usava como travesseiro. Mesmo assim, não falou dela, pois, à medida que o cansaço dos dias ficava mais pesado, o início de um plano desenhava-se em sua cabecinha.
As coisas estavam assim já havia algum tempo, quando os corvos trouxeram a notícia de que Dain e mais de quinhentos anões, avançando das Colinas de Ferro, estavam agora a cerca de dois dias de marcha de Vaíle, vindos do nordeste.
— Mas não podem chegar à Montanha sem serem notados — disse Roac — e receio que haja batalha no vale. Não acho boa essa ideia. Embora sejam um povo, não é provável que vençam o exército que os sitia, e, mesmo que conseguissem, o que ganhariam? O inverno e a neve vêm em seu encalço. Como poderão se alimentar sem a boa vontade e a amizade das terras ao redor? O tesouro provavelmente será a sua morte, embora o dragão não mais exista!
Mas Thorin não se abalou.
— O inverno e a neve castigarão tanto os homens quanto os elfos — disse ele — e eles podem achar sua moradia no ermo dura de aguentar. Com meus amigos atrás e o inverno em cima deles, talvez fiquem mais maleáveis.
Naquela noite Bilbo tomou uma decisão. O céu estava negro e sem lua. Logo que escureceu por completo, foi para o canto de uma câmara interna junto ao Portão e tirou de seu fardo uma corda, além da Pedra Arken embrulhada num trapo. Depois escalou a muralha. Apenas Bombur estava lá, pois era a sua vez de vigiar, e os anões mantinham apenas um vigia por vez.
— Está um frio terrível! — disse Bombur. — Queria poder acender uma fogueira aqui em cima, como a que eles têm no acampamento!
— Está bastante quente lá dentro — disse Bilbo.
— Aposto que sim, mas estou preso aqui até a meia -noite — resmungou o gordo anão. — Uma tarefa difícil, sem dúvida. Não que eu me atreva a discordar de Thorin, que sua barba cresça sempre mais, mas ele sempre foi um anão teimoso e cabeça-dura.
— Não tão dura quanto as minhas pernas — disse Bilbo. — Estou cansado de escadas e corredores de pedra. O que eu não daria para sentir a grama sob os pés!
— Eu daria qualquer coisa para molhar a garganta com uma bebida forte, e por uma cama macia depois de uma boa ceia!
— Não posso lhe oferecer essas coisas enquanto o cerco continuar. Mas já faz tempo que fiquei de vigia, e posso fazer o seu turno por você, se quiser. Não sinto sono esta noite.
— Você é um bom sujeito, Sr. Bolseiro, e aceito sua oferta agradecido. Se acontecer algo diferente, acorde-me primeiro, não se esqueça! Vou ficar deitado na câmara interna à esquerda, não muito longe daqui.
— Então vá! — disse Bilbo. — Vou acordá-lo à meia-noite e você pode então acordar o próximo vigia.
Assim que Bombur se afastou, Bilbo colocou o anel, prendeu a corda, desceu pela muralha e se foi. Dispunha de cerca de cinco horas. Bombur dormiria (podia dormir a qualquer hora) e, desde a aventura na floresta, estava sempre tentando recuperar os belos sonhos que tivera então, e todos os outros estavam ocupados com Thorin. Era improvável que algum deles, mesmo Fili ou Kili fosse à muralha antes que chegasse o seu turno.
Estava muito escuro, e a estrada, depois que Bilbo deixou a trilha recém-construída e desceu rumo ao curso inferior do rio, era-lhe desconhecida. Por fim, chegou à curva onde deveria atravessar a água, se quisesse ir até o acampamento, como era o seu desejo. Naquele trecho o rio era raso, mas já largo, e atravessá-lo à pé, no escuro, não foi fácil para o pequeno hobbit. Já tinha quase chegado ao outro lado quando escorregou numa pedra redonda e caiu na água gelada. Mal tinha se arrastado até a outra margem, tremendo e bufando, quando surgiram na escuridão elfos com lamparinas, em busca do motivo do barulho.
— Aquilo não foi nenhum peixe — disse um. — Há um espião por aqui. Escondam as luzes! Vão ajudá-lo mais do que a nós, se for aquela criaturinha estranha que dizem ser empregado deles.
— Empregado. Ora! — resmungou Bilbo, e, ao resmungar, soltou um espirro, os elfos imediatamente correram na direção do ruído.
— Um pouco de luz! — disse ele. — Estou aqui, se me procuram! — e, dizendo isso, tirou o anel e surgiu de trás de uma rocha.
Eles o agarraram imediatamente, apesar da surpresa.
— Quem é você? É o hobbit dos anões? O que está fazendo? Como conseguiu passar por nossas sentinelas e chegar até aqui? — perguntavam eles, um após o outro.
— Sou o Sr. Bilbo Bolseiro — respondeu ele —, companheiro de Thorin, se querem saber. Conheço bem o seu rei, de vista, embora ele talvez não me conheça pessoalmente. Mas Bard vai lembrar-se de mim, e é particularmente Bard que desejo ver.
— É mesmo? — disseram eles — e qual seria o seu assunto com ele?
— Qualquer que seja, é assunto meu, meus bons elfos. Mas, se desejam voltar para suas florestas e sair deste lugar frio e triste — respondeu ele tremendo — vão me levar depressa para perto de uma fogueira, onde eu possa me secar, e depois vão permitir que eu fale com seus lideres o mais depressa possível. Só tenho uma ou duas horas.
Foi assim que, cerca de duas horas após sua fuga pelo Portão, Bilbo estava sentado ao pé de uma fogueira acolhedora, diante de uma grande tenda, e ali também estavam sentados, fitando-o curiosamente, o Rei Élfico e Bard. Um hobbit trajando armaduras élficas, parcialmente embrulhado num cobertor velho, era um espetáculo novo para eles.
— Realmente, vocês sabem — Bilbo dizia no seu melhor estilo comercial — as coisas estão impossíveis. Pessoalmente, estou cansado da coisa toda. Gostaria de poder voltar para o oeste, para minha própria casa, onde as pessoas são mais honestas. Mas tenho um interesse neste assunto – um quatorze avos do tesouro, para ser preciso, de acordo com uma carta que, felizmente, acredito ter guardado. — Ele retirou do bolso de seu velho casaco que ainda usava sobre a cota de malha, amarfanhada e muito dobrada, a carta de Thorin, que fora colocada embaixo do relógio, em cima da lareira, em maio!
— Uma parte nos lucros, vejam bem — continuou ele. — Estou ciente disso. De minha parte estou inteiramente disposto a considerar com cuidado todas as suas exigências e deduzir do total o que é justo antes de tirar a minha própria parte. Contudo, vocês não conhecem Thorin Escudo de Carvalho tão bem quanto eu o conheço agora. Asseguro-lhes, ele está disposto a ficar sentado sobre um monte de ouro e passar fome, enquanto vocês permanecerem aqui.
— Pois bem, que faça isso! — disse Bard. — Tamanho tolo merece passar fome.
— É verdade — disse Bilbo. — Entendo o seu ponto de vista. Ao mesmo tempo, o inverno está chegando depressa. Logo terão neve, e tudo mais, e as provisões serão um problema, mesmo para os elfos, imagino eu. Além disso, haverá outras dificuldades. Nunca ouviram falar de Dain e dos anões das Colinas de Ferro?
— Ouvimos, há muito tempo, mas o que tem a ver conosco? — perguntou o rei.
— É o que eu pensava. Percebo que tenho informações que vocês não têm. Dain, posso lhes assegurar, está agora a menos de dois dias de marcha daqui, trazendo consigo pelo menos quinhentos bravos anões, grande parte deles teve experiência nas terríveis guerras entre anões e orcs, das quais com certeza vocês já ouviram falar. Quando chegarem, pode haver problemas terríveis.
— Por que está nos dizendo isso? Está traindo seus amigos ou nos ameaçando? — perguntou Bard num tom sinistro.
— Meu caro Bard! — retorquiu Bilbo. — Não seja tão precipitado! Nunca conheci pessoas tão desconfiadas! Estou apenas tentando evitar problemas para todos. Agora, farei uma oferta!
— Vamos ouvi-la! — disseram eles.
— Vocês podem vê-la! — disse ele. — É isto! — e exibiu a Pedra Arken, jogando fora os trapos que a embalavam.
O próprio Rei Élfico, cujos olhos estavam acostumados a coisas belas e maravilhosas, levantou-se estupefato. Até Bard a contemplava, maravilhado, em silêncio. Era como se um globo repleto de luar pendesse diante deles numa rede tecida com o brilho de estrelas geladas.
— Esta é a Pedra Arken de Thrain — disse Bilbo —, o Coração da Montanha, e é também o coração de Thorin. Ele dá mais valor a ela que a um rio de ouro. Vou dá-la a vocês. Pode ajudar nas negociações. — Então Bilbo, não sem um estremecimento, nem sem um olhar de cobiça, entregou a maravilhosa pedra a Bard, que a segurou na mão, aturdido.
— Mas isto lhe pertence, para que possa dar? — perguntou ele finalmente, com esforço.
— Ah, sim! — disse o hobbit, incomodado. — Não exatamente, mas estou disposto a penhorá-la em troca de toda a minha parte, não percebem? Posso ser um ladrão, pelo menos é o que eles dizem: pessoalmente, nunca achei que fosse, mas sou um ladrão honesto, eu acho, mais ou menos. De qualquer forma, vou voltar agora, e os anões poderão fazer o que quiserem comigo. Espero que a pedra lhes seja útil.
O Rei Élfico olhou para Bilbo com nova surpresa.
— Bilbo Bolseiro! — disse ele. — Você é mais digno de usar as armaduras dos príncipes élficos do que muitos que ficaram mais garbosos com elas. Mas duvido que Thorin Escudo de Carvalho pense da mesma forma. Talvez eu tenha mais conhecimento que você sobre anões em geral. Aconselho que permaneça conosco, e aqui será honrado e três vezes bem-vindo.
— Fico imensamente grato, com certeza — disse Bilbo, fazendo uma reverência. — Mas não acho que deva abandonar meus amigos assim, depois de tudo pelo que passamos juntos. E, além disso, prometi acordar o velho Bombur à meia-noite! Realmente preciso ir, e depressa!
Nada que pudessem dizer iria detê-lo, assim, providenciaram para ele uma escolta e, no momento em que partiu, tanto o rei como Bard prestaram-lhe homenagem.
Quando atravessavam o acampamento, um velho, embrulhado numa capa escura, levantou-se da porta de uma tenda onde estava sentado e foi na direção deles.
— Muito bem! Sr. Bolseiro! — disse ele, batendo nas costas de Bilbo. — Você sempre demonstra ser mais do que se espera!
Era Gandalf.
Pela primeira vez em muitos dias Bilbo sentiu-se realmente feliz. Mas não havia tempo para todas as perguntas que imediatamente quis fazer.
— Tudo em seu tempo! — disse Gandalf. — Agora as coisas se aproximam do fim, a não ser que eu esteja enganado. Há coisas desagradáveis a sua espera, mas mantenha a coragem! Pode ser que você se saia bem. Há notícias a caminho que nem os corvos conhecem. Boa noite!
Confuso, mas feliz, Bilbo se apressou. Guiado até um vau seguro, atravessou-o sem se molhar, e então disse adeus aos elfos e subiu cautelosamente na direção do Portão. Começou a sentir um grande cansaço, mas era bem antes da meia-noite quando subiu mais uma vez pela corda — que ainda estava onde ele a deixara. Desamarrou-a, escondeu-a, e depois sentou-se na muralha e ficou pensando com ansiedade no que iria acontecer em seguida.
Á meia-noite acordou Bombur e, então, por sua vez, enrolou-se no seu canto, sem ouvir os agradecimentos do velho anão (dos quais se sentia pouco merecedor). Logo estava ferrado no sono, esquecendo todas as preocupações até a manhã seguinte. Na verdade, estava sonhando com toucinho com ovos.

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