25 de março de 2016

Capítulo XIII - Fora de casa

Enquanto isso, os anões estavam sentados na escuridão em silêncio absoluto. Comiam pouco e pouco falavam. Não podiam calcular a passagem do tempo, e mal ousavam se mover, pois o sussurro de suas vozes ecoava e ressoava no túnel. Se cochilavam, acordavam na escuridão e o silêncio ainda persistia, sem trégua. Por fim, depois de dias e dias de espera, ao que parecia, quando estavam ficando sufocados e tontos por falta de ar, não puderam mais aguentar. Teriam recebido quase com alegria os ruídos do retorno do dragão. No silêncio, temiam algum truque maldoso dele, mas não podiam ficar ali sentados para sempre.
Thorin falou:
— Vamos tentar abrir a porta! — disse ele. — Preciso sentir o vento em meu rosto ou morrerei. Acho que prefiro ser esmagado por Smaug ao ar livre a ter de sufocar aqui dentro!
Assim, vários dos anões levantaram-se e foram tateando até o ponto onde estivera a porta. Mas descobriram que a extremidade superior do túnel fora destruída e bloqueada por rochas partidas. A porta jamais seria aberta de novo nem por chave nem pela mágica a que uma vez obedecera.
— Estamos presos! — gemeram eles. — Isto é o fim. Morreremos aqui.
Mas, de alguma forma, justamente quando os anões estavam mais desesperados, Bilbo sentiu o coração estranhamente leve, como se lhe tivessem tirado um fardo de sob o colete.
— Vamos, vamos! — disse ele. — Enquanto há vida há esperança!”, como costumava dizer meu pai, “a terceira vez vale por todas”. Eu vou descer o túnel mais uma vez. Já fiz aquele caminho duas vezes, quando sabia que um dragão estava na outra ponta, então vou arriscar uma terceira visita quando não tenho mais certeza. De qualquer maneira, a única saída é por baixo. Acho que desta vez todos devem vir comigo.
No desespero, eles concordaram, e Thorin foi o primeiro a dar um passo à frente, colocando-se ao lado de Bilbo.
— Agora, tenham cautela! — sussurrou o hobbit — E sejam tão silenciosos quanto possível! Pode não haver nenhum Smaug lá embaixo, mas também pode haver. Não vamos correr riscos desnecessários!
Foram descendo, descendo. Os anões, sem dúvida, não se comparavam ao hobbit em seu caminhar furtivo, e, ofegando e arrastando os pés produziam ecos que amplificavam os ruídos de forma alarmante: mas, embora Bilbo, amedrontado, parasse de quando em quando para escutar, nenhum ruído vinha lá de baixo. Quando julgava que estavam perto do fundo, Bilbo colocou o anel e foi em frente. Mas não precisava dele: a escuridão era completa, e todos estavam invisíveis, com ou sem anel. Na verdade, estava tudo tão negro que o hobbit chegou à abertura inesperadamente, apoiou-se no vazio, tropeçou e caiu para a frente, rolando de cabeça para dentro do salão!
Ficou ali, deitado, com o rosto virado para o chão, sem ousar se levantar ou mesmo respirar. Mas nada se movia. Não havia nenhum vislumbre de luz — a não ser o que lhe pareceu, quando finalmente abriu os olhos, um brilho fraco, branco, acima dele e distante na escuridão. Mas certamente não era uma faísca de fogo de dragão, embora o fedor quente do dragão fosse intenso no lugar, e o hobbit sentisse em sua boca o gosto do vapor.
Por fim o Sr. Bolseiro não pôde mais aguentar.
— Maldito Smaug, seu verme! — gritou numa voz aguda. — Pare de brincar de esconde-esconde! Dê-me uma luz, e então venha me devorar, se é que pode me pegar!
Ecos fracos percorreram o salão invisível, mas não houve resposta. Bilbo levantou-se e percebeu que não sabia em que direção se voltar.
— Agora eu me pergunto que droga de jogo Smaug está jogando — disse ele. — Não está em casa neste dia (ou nesta noite), ou o que quer que seja. Se Oin e Gloin não perderam suas pederneiras, talvez possamos conseguir um pouco de luz e dar uma espiada antes que a sorte mude.
— Luz! — gritou ele. — Alguém pode acender uma luz?
Os anões, é claro, ficaram muito alarmados quando Bilbo caiu com um baque dentro do salão, ficaram encolhidos, um bem junto do outro, exatamente onde ele os deixara, na ponta do túnel.
— Psiu! Psiu! — sussurraram eles, quando ouviram sua voz, e embora isso tenha ajudado o hobbit a descobrir onde estavam, demorou bastante até conseguir arrancar mais alguma coisa deles. Mas, no fim, quando Bilbo começou a bater com os pés no chão e a gritar “luz” com toda a força de sua voz aguda, Thorin cedeu e mandou Oin e Gloin pegarem as mochilas na outra ponta do túnel.
Depois de um tempo, um brilho trêmulo mostrou que os dois estavam voltando, Oin, com uma pequena tocha de pinheiro acesa e Gloin com mais um feixe de tochas sob o braço. Rapidamente, Bilbo dirigiu-se até a porta e pegou a tocha, mas não conseguiu persuadir os anões a acenderem outras ou a juntarem-se a ele. Como Thorin cuidadosamente explicou, o Sr. Bolseiro continuava a ser oficialmente o ladrão e o investigador da expedição. Se queria arriscar-se com a luz, isso era problema dele. Esperariam no túnel por um relatório seu. Assim, sentaram-se perto da porta e ficaram vigiando.
Viram o pequeno vulto escuro do hobbit caminhar através do salão, erguendo a luz tênue. Uma vez ou outra, enquanto ainda estava perto o suficiente, percebiam reflexos e um tilintar de metal quando o hobbit tropeçava em algum objeto de ouro. A luz tornava-se menor a medida que ele se afastava no amplo salão, depois começou a subir, dançando no ar. Bilbo estava escalando o grande monte do tesouro. Logo estava no topo, e ainda ia em frente. Então, viram-no parar e abaixar-se por um momento mas não sabiam o motivo.
Era a Pedra Arken, o Coração da Montanha. Foi o que Bilbo imaginou pela descrição de Thorin, mas, realmente, não poderiam existir duas pedras iguais àquela, mesmo num tesouro assim tão esplêndido, mesmo em todo o mundo. Durante toda a escalada, o mesmo brilho branco reluzira diante dele, atraindo seus passos. Lentamente, ele cresceu, transformando-se num pequeno globo de luz pálida. Agora, à medida que ele se aproximava, uma faísca bruxuleante de muitas cores tingia sua superfície, refletindo e partindo a luz oscilante da tocha. Por fim o hobbit olhou para baixo e quase perdeu o fôlego. A grande pedra brilhava diante de seus pés com uma luz própria, que vinha de dentro dela e, mesmo assim, cortada e lapidada pelos anões, que a haviam retirado do coração da montanha muito tempo atrás, ela captava toda a luz que caia sobre sua superfície, transformando-a em dez mil faíscas de brilho branco, tocado pelas cores do arco-íris.
De repente, o braço de Bilbo foi na direção dela, por seu encantamento. Não podia envolvê-la em sua pequena mão, pois era uma pedra grande e pesada, mas ele a ergueu, fechou os olhos e a colocou no bolso mais fundo que tinha.
“Agora sou mesmo um ladrão”, pensou ele. “Mas acho que devo contar isso aos anões — qualquer hora. Eles realmente disseram que eu poderia pegar e escolher a minha parte, e acho que eu escolheria isto, mesmo que eles ficassem com todo o resto!”
Mesmo assim, tinha a incômoda sensação de que poder pegar e escolher não significava aquela pedra maravilhosa e de que aquilo ainda lhe causaria problemas.
Ele prosseguiu novamente. Desceu pelo outro lado do monte, e o brilho de sua tocha desapareceu da vista dos anões. Mas logo o avistaram na distância outra vez. Bilbo estava atravessando o salão.
Ele continuou, até chegar as grandes portas do outro lado, e ali uma corrente de ar o refrescou, mas quase apagou a luz da tocha. Espiou timidamente e viu de relance grandes corredores e o começo indistinto de amplas escadas que subiam para dentro da escuridão. E ainda não havia nenhum sinal ou ruído de Smaug. Estava quase se virando para retornar quando uma figura negra precipitou-se contra ele, roçando seu rosto. Deu um grito e um pulo, tropeçou e caiu para trás. A tocha caiu e se apagou!
— Apenas um morcego, imagino e espero! — disse ele arrasado. — Mas agora, o que vou fazer? Para onde ficam o leste, o sul, o norte e o oeste? Thorin! Balin! Oin! Gloin! Fili! Kili! — gritou ele, o mais alto que podia: um débil ruído na vastidão negra. — A luz se apagou! Alguém venha ao meu encontro! Socorro! — Naquele momento, a sua coragem o abandonara completamente.
Os anões ouviram vagamente seus gritos, embora a única palavra que conseguiram entender fosse: “socorro”!
— Agora, que diabo terá acontecido? — perguntou Thorin. — Com certeza não foi o dragão, ou ele não continuaria gritando.
Esperaram um ou dois instantes e ainda não ouviam ruídos de dragão, na verdade, não ouviam som nenhum, exceto a voz distante de Bilbo.
— Venha, algum de vocês, arranje mais uma ou duas luzes! — ordenou Thorin.
— Parece que temos de socorrer nosso ladrão. Agora é nossa vez de ajudar — disse Balin — e estou disposto a ir. — De qualquer modo, espero que não haja perigo, por enquanto.
Gloin acendeu várias outras tochas, e então todos saíram, um por um, e caminharam junto à parede, tão rapidamente quanto podiam. Não demorou muito para encontrarem o próprio Bilbo vindo em sua direção.
Havia recuperado a calma assim que vira a luz das tochas.
— Apenas um morcego e uma tocha caída, nada de mais grave! — disse ele em resposta às perguntas. Embora ficassem muito aliviados, sentiam-se inclinados a se irritarem por terem sido assustados por nada, mas não sei o que teriam dito se ele lhes contasse sobre a Pedra Arken. O simples vislumbre do tesouro enquanto avançavam reacendera todo o fogo de seus corações de anões, e quando o coração de um anão, mesmo o mais respeitável, é despertado por ouro e por pedras preciosas, ele de repente torna-se audaz e até feroz.
Na verdade os anões não precisavam mais serem instigados. Todos estavam agora ávidos por explorar o salão enquanto tinham a oportunidade, e dispostos a acreditar que, por enquanto, Smaug estava fora de casa.
Cada um segurava uma tocha acesa, e enquanto olhavam, primeiro de um lado e depois de outro, esqueceram-se do medo e até da cautela. Falavam alto, e gritavam uns para os outros, pegando os antigos tesouros do monte ou da parede e erguendo-os na luz, acariciando-os e tateando-os.
Fili e Kili estavam quase de bom humor e, ao encontrarem ainda penduradas ali muitas harpas de ouro com cordas de prata, pegaram-nas e tocaram, como eram mágicas (e também não tinham sido tocadas pelo dragão, que tinha pouco interesse em música), ainda estavam afinadas. O salão escuro, que havia muito silenciara, encheu-se de melodia. Mas a maioria dos anões era mais prática: ajuntavam pedras e enchiam os bolsos, deixando cair entre os dedos, com um suspiro, o que não podiam carregar.
Thorin não ficou atrás, mas, o tempo todo, vasculhava de um lado para o outro procurando algo que não conseguia encontrar. Era a Pedra Arken, mas ele ainda não a mencionara a ninguém.
Agora os anões tiravam das paredes cotas de malha e armas, e se armavam com elas. Thorin realmente parecia um rei, vestindo uma cota de anéis folheados de ouro, com um machado com cabo de prata num cinto incrustado de pedras escarlates.
— Sr. Bolseiro — gritou ele. — Aqui está o primeiro pagamento de sua recompensa! Tire seu casaco velho e vista isto!
Dizendo isso vestiu em Bilbo uma pequena cota de malha, feita para algum jovem príncipe élfico de outrora. Era de um aço prateado, que os elfos chamam mithril, e vinha acompanhada de um cinto de pérolas e cristais. Um elmo leve de couro estampado, reforçado na base com aros de aço, com pedras brancas incrustadas na borda, foi posto na cabeça do hobbit.
“Sinto-me magnífico”, pensou ele, “mas tenho a impressão de que minha aparência é meio ridícula. Como ririam de mim lá em casa, na Colina! Mesmo assim, gostaria de ter um espelho a mão!” Apesar de tudo, a mente do Sr. Bolseiro não ficou tão cativa do feitiço do tesouro como a dos anões. Muito antes que eles ficassem cansados de examinar as peças, ele se cansou, sentou-se no chão, e, nervoso, começou a se perguntar qual seria o fim daquilo tudo. “Eu daria grande parte dessas taças preciosas”, pensou ele, “para poder beber um gole de algo estimulante nas tigelas de madeira de Beorn!”
— Thorin! — disse ele em voz alta. — E agora? Estamos armados, mas de que serviu qualquer armadura diante de Smaug, o Temível? Este tesouro ainda não foi reconquistado. Ainda não estamos procurando ouro, mas um modo de escapar, já arriscamos a sorte tempo demais!
— Você fala a verdade! — respondeu Thorin, recuperando o bom senso. — Vamos! Vou guiá-los. Nem em mil anos eu esqueceria os caminhos deste palácio.
Chamou então os outros, eles se reuniram e, erguendo as tochas acima de suas cabeças, passaram pelas portas escancaradas, não sem antes lançarem para trás muitos olhares cheios de cobiça.
Cobriram as brilhantes cotas de malha com as velhas capas, os elmos reluzentes com os capuzes rasgados e, um a um, foram caminhando atrás de Thorin, uma fileira de pequenas luzes na escuridão, detendo-se frequentemente para escutar, temendo, mais uma vez, ouvir algum rumor da chegada do dragão.
Embora todos os velhos ornamentos estivessem deteriorados e destruídos, e embora tudo estivesse imundo e estragado pelas idas e vindas do monstro, Thorin conhecia cada corredor e cada curva. Subiram longas escadas, viraram e passaram por caminhos largos, ecoantes, viraram novamente e subiram mais escadas, e depois mais escadas ainda. Estas eram lisas, cortadas na pedra viva, largas e belas, e para cima os anões continuaram, sem encontrarem nenhum sinal de coisa viva, apenas sombras furtivas, fugindo diante da aproximação das tochas, que tremeluziam nas correntes de ar. Apesar disso, os degraus não haviam sido feitos para pernas de hobbits, e Bilbo já sentia que não poderia prosseguir quando, de repente, o teto tornou-se alto e distante, além do alcance da luz das tochas.
Podia-se ver um brilho fraco, branco, vindo de alguma abertura em cima, e o ar tornava-se mais leve. Diante deles, a luz fraca atravessava as grandes portas que pendiam, queimadas e retorcidas, de suas dobradiças.
— Esta é a grande câmara de Thror — disse Thorin —, o salão dos banquetes e conselhos. Agora o Portão Dianteiro não está muito longe.
Atravessaram a sala arruinada. Mesas apodreciam ali, cadeiras e bancos jaziam de cabeça para baixo, chamuscados e deteriorando-se. Havia crânios e ossos no chão, em meio a jarros, tigelas, copos de chifre e poeira. Enquanto atravessavam novas portas na extremidade oposta, um ruído de água chegou aos seus ouvidos, e a luz cinzenta de repente ficou mais intensa.
— Ali está a nascente do Rio Corrente — disse Thorin. — Dali ele corre para o Portão. Vamos segui-lo!
De uma abertura escura numa parede de rocha saía uma água borbulhante, que corria rodopiando por um canal estreito, entalhado e tornado reto e profundo pela habilidade de mãos antigas. Ao lado, corria uma rua pavimentada com pedras, larga o suficiente para comportar muitos homens lado a lado. O grupo correu pelo caminho, fez uma curva ampla e — eis, diante deles, a plena luz do dia! À frente erguia-se um arco alto, que, mesmo gasto, estilhaçado e enegrecido como estava, ainda exibia os fragmentos de antigos entalhes. Um sol nebuloso enviava sua luz pálida por entre os braços da Montanha, e raios de ouro caíam no pavimento da entrada.
Um bando de morcegos assustados em seu sono pela fumaça das tochas passou numa rajada acima deles, a medida que iam para a frente, seus pés escorregaram nas pedras, lisas e viscosas devido a passagem do dragão.
Agora, diante deles, a água caia ruidosamente para fora e descia espumando na direção do vale. Jogaram as tochas no chão e pararam para observar com olhos deslumbrados. Haviam atingido o Portão Dianteiro, e avistavam Vaíle.
— Bem! — disse Bilbo. — Nunca esperei que um dia estivesse olhando para fora desta porta. E nunca esperei ficar tão feliz em ver o sol de novo e sentir o vento em meu rosto. Mas ui! Este vento está frio! E estava. Uma brisa fria soprava do leste com uma ameaça do inverno próximo. Rodopiava acima e ao redor dos braços da Montanha, entrava no vale e suspirava por entre as rochas. Depois da longa estada nas sufocantes profundezas das cavernas assombradas pelo dragão, tremiam ao sol.
De repente Bilbo, percebeu que estava não só cansado, mas também morrendo de fome.
— Parece que a manhã está chegando ao fim — disse ele — e, portanto, acho que é mais ou menos a hora do desjejum, se é que há algum desjejum. Mas sinto que a soleira da porta de Smaug não é o lugar mais seguro para uma refeição. Vamos para algum outro lugar onde possamos nos sentar tranquilos por algum tempo!
— Certíssimo! — disse Balin. — E acho que sei que caminho devemos seguir: devemos ir para o velho posto de sentinela no canto sudoeste da montanha.
— A que distância fica? — perguntou o hobbit.
— A cinco horas de marcha, penso eu. Será um caminho difícil. A estrada que sai do Portão ao longo da margem esquerda do rio parece estar toda destruída. Mas olhem lá embaixo! O rio faz uma curva abrupta para o leste através de Vaíle, em frente a cidade arruinada. Naquele ponto havia outrora uma ponte, que conduzia a escadarias íngremes, que subiam pela margem direita, e depois para uma estrada que levava ao Morro do Corvo. Existe (ou existia) uma trilha que saia da estrada e subia até o posto. Uma escalada difícil também, mesmo se os antigos degraus ainda estiverem lá!
— Céus! — resmungou o hobbit. — Mais caminhada e mais escalada sem desjejum! Fico me perguntando quantos desjejuns e quantas outras refeições nós não perdemos dentro daquele buraco horrível sem relógio e sem tempo!
Na verdade, duas noites e o dia entre elas haviam se passado (e não totalmente sem comida) desde que o dragão esmagara a porta mágica, mas Bilbo perdera a noção do tempo e, por ele, podia ter sido uma noite ou uma semana de noites.
— Vamos, vamos! — disse Thorin rindo: seu humor começara a melhorar novamente, e ele remexia as pedras preciosas em seus bolsos. — Não chame meu palácio de buraco horrível! Espere até que esteja limpo e redecorado!
— Isso não vai acontecer até que Smaug esteja morto — disse Bilbo sombrio. — Enquanto isso, onde está ele? Eu daria um bom desjejum para saber. Espero que não esteja em cima da Montanha nos observando!
Aquela ideia perturbou muito os anões e eles rapidamente decidiram que Bilbo e Balin estavam certos.
— Temos de nos afastar daqui — disse Dori. — Sinto-me como se os olhos dele estivessem atrás de mim.
— É um lugar frio e deserto — disse Bombur. — Pode haver algo para beber, mas não vejo sinal de comida. Um dragão sempre estaria faminto nestas partes.
— Vamos! Vamos! — gritaram os outros. — Vamos seguir a trilha de Balin.
Sob a muralha rochosa, a direita, não havia trilha, então, seguiram em frente, com dificuldade, por entre as pedras do lado esquerdo do rio, e o vazio e a desolação logo aquietaram até o coração de Thorin.
Descobriram que a ponte mencionada por Balin caíra muito tempo atrás, e a maioria de suas pedras agora era apenas blocos na correnteza rasa e ruidosa, mas atravessaram a água sem grandes dificuldades, encontraram os antigos degraus e escalaram a margem alta. Depois de trilharem um breve trecho, atingiram a antiga estrada e logo chegaram a um vale pequeno e estreito abrigado entre as rochas, ali descansaram por algum tempo e fizeram o desjejum que foi possível, cram e água principalmente. (Se querem saber o que é cram, só posso dizer que não conheço a receita, mas que é abiscoitado, conserva-se por tempo indeterminado, supõe-se que seja nutritivo e com certeza não tem graça nenhuma, sendo, na verdade, muito desinteressante, exceto como exercício de mastigação. Era feito pelos Homens do Lago para longas viagens.)
Depois disso, prosseguiram outra vez, agora a estrada rumava para o oeste, abandonava o rio, e a grande saliência do contraforte sul da Montanha aproximava-se cada vez mais. Por fim, alcançaram a trilha do morro. A escalada era íngreme, e eles avançavam com esforço e devagar, um atrás do outro, até que chegaram, no final da tarde, ao topo da cordilheira e viram o sol de inverno descendo para o oeste. Ali encontraram um local plano, sem nenhuma parede em três lados, mas protegido ao norte por uma face rochosa na qual havia uma abertura semelhante a uma porta. Daquela porta tinha-se uma ampla vista de leste, sul e oeste.
— Aqui — disse Balin —, nos dias antigos, costumávamos sempre manter vigias, e aquela porta lá atrás conduz a uma câmara cavada na rocha, construída aqui como guarita. Havia vários lugares como este ao redor da Montanha. Mas parecia haver pouca necessidade de vigilância nos tempos de nossa prosperidade, e os guardas ficaram acomodados demais, do contrário, talvez fôssemos prevenidos sobre a chegada do dragão muito antes, e as coisas poderiam ter sido diferentes. Ainda assim, agora podemos ficar escondidos e abrigados por algum tempo, e vermos muito sem sermos vistos.
— Não vai adiantar muito, se fomos vistos vindo para cá — disse Dori, que estava sempre olhando para cima, na direção do pico da Montanha, como se esperasse ver Smaug empoleirado como um pássaro num campanário.
— Temos de correr o risco — disse Thorin. — Não podemos avançar mais hoje.
— Apoiado! Apoiado! — exclamou Bilbo, jogando-se no chão.
Na câmara de pedra haveria espaço para uma centena, e havia uma sala menor mais para dentro, mais retirada do frio. Estava completamente deserta, nem mesmo animais selvagens pareciam tê-la usado durante todos os dias do domínio de Smaug. Ali colocaram seus fardos, e alguns jogaram-se no chão e imediatamente adormeceram, mas os outros ficaram sentados perto da porta externa discutindo seus planos. Durante toda a conversa sempre voltavam ao mesmo ponto: Onde estava Smaug? Olhavam para o oeste e nada viam, olhavam para leste e nada viam e, ao sul, não se via nenhum sinal do dragão, mas um ajuntamento de muitos pássaros. Ficaram olhando, perplexos, mas não estavam mais próximos de compreender o que estava acontecendo quando surgiram as primeiras estrelas frias.

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