25 de março de 2016

Capítulo XII - Informação de dentro

Por um longo tempo ficaram discutindo, parados no escuro, diante da porta, até que por fim Thorin falou:
— Agora é a vez de nosso estimado Sr. Bolseiro, que provou ser um bom companheiro em nossa longa estrada e um hobbit cheio de coragem e capacidade, que em muito excedem seu tamanho, e, se me permitem dizer, que tem uma sorte que excede em muito o quinhão normal, agora é a vez de ele desempenhar o serviço pelo qual foi incluído em nossa Companhia, agora é a hora de fazer por merecer sua recompensa.
Vocês já estão familiarizados com o estilo de Thorin em ocasiões importantes, então vou poupá-los do resto do discurso, embora ele tenha se prolongado bastante. Com certeza era uma ocasião importante. Mas Bilbo sentia-se impaciente. Àquelas alturas, ele também estava bastante familiarizado com Thorin e sabia onde o anão queria chegar.
— Se está querendo dizer que acha que é serviço meu entrar em primeiro lugar pela passagem secreta, ó, Thorin, filho de Thrain, Escudo de Carvalho, que suas barbas nunca deixem de crescer — disse ele irritado. — Diga de uma vez por todas! Eu poderia recusar. Já livrei vocês de duas confusões que não estavam no acordo inicial, portanto, já mereço, acho eu, alguma recompensa. Mas “a terceira vez vale por todas”, como costumava dizer meu pai, e, de certo modo, acho que não vou recusar. Talvez eu tenha começado a confiar mais em minha sorte do que nos dias antigos. — E, com isso, ele se referia à última primavera, antes de deixar sua casa, o que, no entanto parecia ter ocorrido séculos atrás. — Mas, de qualquer modo acho que vou dar uma espiada para acabar logo com isso. Agora, quem vem comigo?
Bilbo não esperava um coro de voluntários, e por isso não ficou desapontado. Fili e Kili pareciam incomodados e hesitaram, mas os outros nem fingiram se oferecer: exceto o velho Balin, o sentinela, que gostava bastante do hobbit. Disse que pelo menos entraria e talvez fizesse um pouco do caminho, pronto para chamar por socorro se necessário. O máximo que se pode dizer em favor dos anões é isto: pretendiam pagar a Bilbo uma soma realmente alta por seus serviços, haviam-no trazido para fazer um serviço sujo por eles, e não se opunham a que o pobre sujeitinho o fizesse, se estivesse disposto, mas todos teriam dado o melhor de si para livrá-lo de qualquer enrascada em que pudesse se envolver, como fizeram no caso dos trolls no início das suas aventuras, antes que tivessem qualquer motivo especial para se sentirem agradecidos a ele. Em suma: os anões não são heróis, mas um povo calculista, que têm em alta conta o valor do dinheiro, alguns são ladinos e traiçoeiros, pessoas muito más, outros, não, são decentes o bastante como Thorin e Companhia, se não se espera muito deles.
As estrelas surgiam atrás dele, num céu pálido manchado de negro, quando o hobbit passou pela porta encantada e enfiou-se na montanha. Era mais fácil do que ele imaginara. Não, não era uma entrada de orcs, nem uma caverna rústica dos Elfos da Floresta. Era uma passagem feita por anões, no auge de sua riqueza e talento: reta como uma régua, o chão e as paredes aplainados, avançando numa inclinação suave, constante, para algum fim distante na escuridão lá embaixo.
Depois de algum tempo, Balin desejou boa sorte a Bilbo e parou onde ainda era possível ver a silhueta esmaecida da porta e, por um truque dos ecos do túnel, ouvir o murmúrio das vozes dos outros lá fora. Então o hobbit colocou o anel e, advertido pelos ecos de que deveria tomar mais cuidado do que os hobbits normalmente tomam para não fazer nenhum barulho, prosseguiu silenciosamente, descendo, descendo, na escuridão. Tremia de medo, mas tinha o rosto sério e resoluto. Já era um hobbit muito diferente daquele que saíra de Bolsão, muito tempo atrás, sem um lenço no bolso. Agora não tinha um lenço havia séculos. Soltou o punhal na bainha, apertou o cinto e foi em frente.
— Agora você finalmente conseguiu, Bilbo Bolseiro — disse consigo mesmo. — Você se meteu na encrenca naquela noite da festa, agora deve sair dela e pagar por isso! Céus! Que idiota eu fui e sou! — disse a sua parte menos Túk. — Não tenho absolutamente nenhuma necessidade de tesouros guardados por dragões, e ele poderia ficar aqui para sempre, se eu pudesse acordar e descobrir que este túnel horroroso era o corredor de entrada de minha casa!
É claro que ele não acordou, e continuou sempre em frente, até que qualquer sinal da porta lá atrás desaparecesse por completo. Ele estava completamente sozinho. Logo teve a impressão de que começava a ficar quente: “Será mesmo uma espécie de brilho que vejo vindo lá embaixo?”, pensou ele.
Era. À medida que seguia em frente, crescia cada vez mais, até que não restaram mais dúvidas. Era uma luz vermelha, que ia ficando cada vez mais vermelha. Além disso, não havia dúvida de que o túnel estava quente.
Nuvens de vapor passavam flutuando e ele começou a suar. Um som, também, começou a pulsar em seus ouvidos. Uma espécie de borbulhar, como o de uma grande panela no fogo, misturado com um ronco que parecia o ronronar de um gato gigante. Esse som cresceu, até transformar-se no gorgolejo inconfundível de um animal enorme, roncando lá embaixo, no clarão vermelho à frente do hobbit.
Foi nesse ponto que Bilbo parou. Ultrapassá-lo foi o gesto mais corajoso de toda a sua vida. As coisas tremendas que aconteceram depois não eram quase nada comparadas aquilo.
Lutou a verdadeira batalha sozinho no túnel, antes mesmo de perceber o enorme perigo que estava à sua espera. De qualquer forma, depois de uma breve parada, ele avançou, e vocês podem imaginá-lo chegando ao fim do túnel, uma abertura do mesmo tamanho e da mesma forma da porta de cima.
Através dela espia a cabecinha do hobbit. Diante dele está o grande e mais profundo porão ou calabouço dos anões antigos, bem na raiz da Montanha. Está quase escuro, de modo que sua vastidão pode ser apenas vagamente imaginada: mas, no chão de pedra junto à porta, ergue-se um grande clarão, o clarão de Smaug! Lá estava ele, um enorme dragão vermelho-dourado, ferrado no sono, um ruído palpitante vinha de suas narinas e mandíbulas, junto com tufos de fumaça, mas, no sono, o fogo estava arrefecido. Embaixo dele, sob os membros e a grande cauda enrolada, e em torno dele, por todos os lados, espalhando-se pelo chão invisível, jaziam incontáveis pilhas de objetos preciosos, ouro trabalhado e ouro bruto, pedras e joias, e prata, que a luz rubra tingia de vermelho.
Lá estava Smaug. As asas recolhidas como as de um morcego incomensurável, virado parcialmente para um lado, de modo que o hobbit podia ver a parte inferior de seu corpo, a barriga comprida e clara cravejada de pedras e fragmentos de ouro, de passar tanto tempo sobre leito tão precioso. Atrás dele, junto às paredes mais próximas, podiam-se entrever cotas de malha, elmos e machados, espadas e lanças penduradas e em fileiras, grandes jarros e vasos cheios de uma riqueza incalculável.

John Howe - Smaug, o Dragão

Dizer que Bilbo perdeu o fôlego não é uma descrição adequada. Não sobraram palavras para expressar a sua vertigem desde que os Homens mudaram a língua que aprenderam dos elfos, no tempo em que todo o mundo era maravilhoso. Bilbo já ouvira contar e cantar sobre tesouros de dragões. Mas o esplendor, a cobiça e a glória de um tesouro assim eram desconhecidos para ele. Seu coração foi penetrado e dominado pelo encantamento e pelo desejo dos anões, ele observava, imóvel, quase esquecendo o temível guardião, o ouro além de qualquer preço ou conta.
Ficou observando durante o que pareceu um século, até que, arrastado quase contra a vontade, esgueirou-se da sombra da entrada e foi até a ponta mais próxima dos montes de tesouro. Acima dele, jazia o dragão adormecido, uma ameaça medonha mesmo dormindo. Agarrou uma grande taça de duas alças, tão pesada quanto podia carregar, e lançou um olhar amedrontado para cima. Smaug mexeu uma asa, abriu uma garra e seu ronco mudou de tom.
Então Bilbo fugiu. Mas o dragão não acordou — não ainda —, teve outros sonhos, de ganância e de violência, deitado ali, no salão roubado, enquanto o pequeno hobbit voltava pelo longo túnel. Seu coração palpitava, e dominava-lhe as pernas um tremor ainda mais febril do que quando descera, mas, mesmo assim, agarrava a taça, e seu principal pensamento era: “Eu consegui! Isso vai mostrar a eles.” Mais parecido com um dono de armazém do que com um ladrão, pois sim! Bem, ninguém mais falará no assunto.
E ninguém falou mesmo. Balin ficou exultante ao ver o hobbit novamente, e tão feliz quanto surpreso. Ergueu Bilbo e carregou-o para o ar livre. Era meia-noite e as nuvens haviam coberto as estrelas, mas Bilbo ficou deitado com os olhos fechados, tomando fôlego e deliciando-se com a sensação de ar fresco, quase sem notar o alvoroço dos anões ou como eles o elogiavam e lhe davam tapinhas nas costas, colocando-se ao seu dispor, com toda a família, por inúmeras gerações vindouras.
Os anões ainda passavam a taça de mão em mão e conversavam deliciados sobre a recuperação de seu tesouro quando, de repente, um enorme estrondo subiu pela montanha como se um velho vulcão tivesse decidido entrar em erupção novamente. A porta atrás deles foi quase arrancada, impedida de fechar pela pedra que a calçava, mas, pelo longo túnel, vinham das profundezas os horríveis ecos, de urros e passos que faziam tremer o chão sob os pés deles.
Os anões esqueceram a alegria e os arroubos confiantes de um momento atrás e encolheram-se de medo. Ainda tinham de acertar as contas com Smaug. Não se pode excluir dos cálculos um dragão vivo que mora ao lado. Os dragões podem não fazer muito uso de toda a sua riqueza, mas geralmente conhecem cada peça dela, em especial depois de possui-la por muito tempo, e Smaug não era exceção. Passara de um sonho ruim (no qual um guerreiro, absolutamente insignificante em tamanho, mas provido de uma espada afiada e grande coragem, figurava da maneira mais desagradável) para um cochilo, e do cochilo para o completo despertar. Havia um ar estranho na caverna. Seria uma corrente vinda daquele pequeno buraco? Nunca gostara muito dele, embora fosse tão pequeno, e agora olhava naquela direção, cheio de suspeitas, e perguntava-se por que nunca o bloqueara. Ultimamente chegara a imaginar que ouvia ecos abafados de batidas, que pareciam descer por ele até seu covil. Virou-se e esticou o pescoço para farejar.
Então, deu pela falta da taça! Ladrões! Fogo! Assassínio! Uma coisa assim não acontecia desde que viera para a Montanha! Sua fúria ultrapassava qualquer descrição — o tipo de fúria que só se vê quando pessoas ricas, que têm mais do que podem apreciar, de repente perdem algo que possuem há muito tempo, mas que nunca usaram ou quiseram.
Arrotou fogo, o salão encheu-se de fumaça, ele sacudiu as raízes da montanha. Em vão forçou a cabeça contra a pequena abertura, depois, enrolando o corpo, rugindo como um trovão subterrâneo, saiu de seu covil profundo pela grande porta, pelos enormes corredores do palácio da montanha, subindo na direção do Portão Dianteiro.
Caçar por toda a montanha até capturar o ladrão, despedaçá-lo e pisoteá-lo, era seu único pensamento. Saiu portão afora, as águas erguendo-se num vapor feroz e sibilante, subiu em chamas pelos ares e foi pousar no topo da montanha, um jato flamejante verde e escarlate. Os anões ouviram o rumor horripilante de seu voo e encolheram-se contra as paredes do terraço relvoso, escondendo-se debaixo das rochas, esperando de alguma forma escapar dos olhos temíveis do dragão caçador.
Ali teriam todos sido mortos, não fosse por Bilbo, mais uma vez.
— Depressa! Depressa! — disse ele ofegante. — A porta! O túnel! Aqui não adianta.
Instigados por essas palavras, estavam a ponto de entrar no túnel quando Bifur soltou um grito:
— Meus primos! Bombur e Bofur! Nós esquecemos, estão lá embaixo, no vale! Serão mortos, e nossos pôneis também, e todas as nossas provisões vão se perder — gemeram os outros. — Não podemos fazer nada.
— Bobagem! — disse Thorin, recuperando a dignidade. — Não podemos abandoná-los. Entrem, Sr. Bolseiro e Balin e vocês dois também, Fili e Kili, o dragão não vai nos pegar a todos. Agora, vocês outros, onde estão as cordas? Sejam rápidos!
Aqueles foram talvez os piores momentos pelos quais já tinham passado. Os horríveis sons da fúria de Smaug ecoavam nas concavidades rochosas acima, a qualquer momento ele poderia descer em chamas, ou voar em redor e encontrá-los ali, perto da perigosa borda de penhasco, puxando as cordas como loucos. Bofur subiu, ainda em segurança. Bombur subiu, bufando e ofegando enquanto as cordas rangiam, e ainda em segurança. Içaram algumas ferramentas e pacotes de provisões e, então, o perigo estava em cima deles.
Ouviu-se um zumbido. Uma luz vermelha tocou as pontas das rochas. O dragão chegava.
Mal tiveram tempo de correr de volta para o túnel, puxando e arrastando seus pacotes, quando Smaug chegou zunindo pelo lado norte, lambendo as encostas da montanha com chamas, as grandes asas rugindo como vento. Seu hálito quente esturricou a grama diante da porta, entrou pela fenda que os anões haviam deixado e chamuscou a pele deles enquanto se escondiam. Chamas bruxuleantes subiam, as sombras negras das rochas dançavam. Depois tudo ficou escuro, enquanto o dragão passava novamente.
Os pôneis rincharam aterrorizados, romperam as cordas e fugiram galopando. O dragão arremeteu para baixo, virou-se para persegui-los e depois sumiu.
— É o fim de nossos pobres animais! — disse Thorin. — O que Smaug vê não lhe escapa. Aqui estamos e aqui teremos de ficar, a não ser que alguém esteja disposto a percorrer desprotegido as longas milhas de volta ao rio com Smaug vigiando!
Não era um pensamento agradável! Desceram mais pelo túnel, e ali ficaram deitados, tremendo, embora estivesse quente e abafado, até a aurora brilhar palidamente pela fenda da porta. De vez em quando, durante a noite, podiam ouvir o rugido do dragão alado aumentar e depois sumir enquanto ele caçava ao redor das encostas da montanha.
Ele adivinhava, pelos pôneis e pelos vestígios dos acampamentos que descobrira, que homens tinham subido pelo rio e pelo Lago e escalado a encosta da montanha pelo vale onde estavam os pôneis, mas a porta resistia aos seus olhos perscrutadores, e a pequena reentrância, com suas paredes altas, havia detido suas chamas mais violentas. Já caçara em vão por muito tempo, quando a aurora esfriou sua fúria e ele voltou ao seu leito de ouro para dormir — e para juntar novas forças. Não iria esquecer ou perdoar o furto, nem que mil anos o transformassem numa pedra fumegante, e ele podia esperar. Lenta e silenciosamente, voltou à sua toca e semicerrou os olhos.
Quando chegou a manhã, o terror dos anões diminuiu. Perceberam que perigos daquele tipo eram inevitáveis quando se lidava com tal guardião, e que ainda não adiantava desistirem da busca. Tampouco podiam sair dali agora, como observara Thorin. Os pôneis estavam perdidos ou mortos, e teriam de esperar algum tempo até que Smaug relaxasse a vigilância o suficiente para que pudessem arriscar-se a fazer o longo caminho a pé.
Por sorte, tinham salvado uma quantidade de provisões que ainda duraria algum tempo.
Debateram longamente o que deviam fazer, mas não conseguiram pensar em nenhuma maneira de se livrarem de Smaug — o que sempre fora um ponto fraco em seus planos. Como Bilbo sentia-se inclinado a observar. Então, como é da natureza de pessoas que estão completamente perplexas, começaram a reclamar do hobbit, culpando-o pelo que no inicio agradara tanto: por trazer uma taça e despertar tão cedo a ira de Smaug.
— O que mais vocês acham que um ladrão deve fazer? — perguntou Bilbo, furioso. — Eu não fui contratado para matar dragões, que é trabalho para guerreiros, mas para roubar tesouros. Comecei da melhor maneira que pude. Vocês esperavam que eu voltasse com toda a riqueza de Thror nas costas? Se há alguma reclamação a fazer, acho que eu posso falar. Vocês deveriam ter trazido quinhentos ladrões, não um. Tenho certeza de que isso reflete a capacidade de seu avô, mas vocês não podem dizer que me informaram claramente sobre a vasta extensão de sua riqueza. Eu precisaria de centenas de anos para trazer tudo para cima, mesmo que fosse cinquenta vezes maior, e Smaug, manso como um coelho.
Depois disso é claro que os anões lhe pediram desculpas.
— O que propõe que façamos, Sr. Bolseiro? — perguntou Thorin, num tom polido.
— Não tenho nenhuma ideia no momento, se você se refere à remoção do tesouro. Isso, é claro, depende inteiramente de alguma virada da sorte e de nos livrarmos de Smaug. Dar cabo de dragões não é minha especialidade, mas vou fazer o possível para pensar no assunto. Pessoalmente não tenho esperança nenhuma, e gostaria de estar em casa, são e salvo.
— Não pense nisso agora. O que devemos fazer agora, hoje?
— Bem, se realmente querem meu conselho, eu diria que não podemos fazer nada além de ficar onde estamos. Durante o dia, sem dúvida, podemos sair com segurança suficiente para tomarmos ar. Talvez, em pouco tempo, um ou dois possam ser escolhidos para voltar à margem do rio e reabastecer nossas provisões. Mas, por enquanto, todo mundo deve ficar dentro do túnel durante a noite. Agora, vou fazer-lhes uma oferta. Tenho meu anel e vou descer hoje, ao meio-dia, pois a essa hora Smaug deve estar cochilando, e ver o que ele está preparando. Talvez algo aconteça. “Todo dragão tem seu ponto fraco”, como dizia meu pai, embora tenha certeza de que não era por experiência própria.
É claro que os anões aceitaram prontamente a oferta, já tinham passado a respeitar o pequeno Bilbo. Agora ele se tornara o verdadeiro líder da aventura. Começava a ter suas próprias ideias e planos. Quando chegou o meio-dia, ele se preparou para uma outra jornada montanha adentro. É claro que não gostava disso, mas não era tão ruim assim, agora que sabia o que o esperava. Se soubesse mais sobre dragões e suas manhas, teria sentido mais medo e menos esperança de pegar aquele cochilando.
O sol brilhava quando ele partiu, mas no túnel estava escuro como noite. A luz da porta, praticamente fechada, logo desapareceu a medida que descia. Seu avanço era tão silencioso como o de fumaça carregada pela brisa, e o hobbit sentia-se inclinado a orgulhar-se um pouco de si mesmo enquanto se aproximava da porta inferior. Via-se apenas um brilho dos mais tênues.
“O velho Smaug está exausto e adormecido”, pensou ele. “Não pode me ver e não vai me ouvir. Anime-se, Bilbo”. Esquecera-se, ou nunca ouvira falar, do olfato dos dragões. Também ocorre o incômodo fato de que, quando estão desconfiados, eles conseguem manter um olho semi-aberto) e vigiando) enquanto dormem.
Com certeza Smaug parecia estar num sono profundo. Quase morto e apagado, quase sem roncar, apenas com um bafejo de vapor invisível, quando Bilbo espiou mais uma vez da entrada. Estava prestes a entrar no salão quando percebeu o brilho tênue, repentino e perscrutador de um raio vermelho por baixo da pálpebra do olho esquerdo de Smaug. Ele apenas fingia dormir! Estava vigiando a entrada do túnel! Depressa Bilbo recuou e abençoou a sorte de ter o anel. Então Smaug falou.
— Bem, ladrão! Posso sentir seu cheiro e seu ar. Ouço a sua respiração. Venha! Sirva-se de novo, tem muito e de sobra!
Mas Bilbo não era tão ignorante em matéria de dragões a ponto de fazer isso e, se Smaug esperava que ele chegasse mais perto com tanta facilidade, ficou desapontado.
— Não, obrigado, ó, Smaug, o Tremendo! — retrucou ele. — Não vim por causa de presentes. Eu só queria dar uma olhada e ver se você é realmente grande como dizem as histórias. Eu não acreditava nelas.
— Agora acredita? — disse o dragão, de certa forma lisonjeado, mesmo não acreditando em uma palavra do que ouvia.
— Na verdade, canções e histórias não estão à altura da realidade, ó, Smaug, a Maior e Mais Importante das Calamidades — respondeu Bilbo.
— Você tem boas maneiras para um ladrão e um mentiroso — disse o dragão. — Parece estar familiarizado com o meu nome, mas eu tenho a impressão de não ter sentido seu cheiro antes. Quem é você e de onde vem, se me permite perguntar?
— Permito, é claro! Eu venho de baixo da colina, e sob as colinas e sobre as colinas meus caminhos conduziam. E através do ar. Sou o que caminha sem ser visto.
— Posso muito bem acreditar nisso — disse Smaug — mas esse não pode ser o seu nome verdadeiro.
— Sou o descobridor de pistas, o cortador de teias, a mosca que dá ferroadas. Fui escolhido pelos números da sorte.
— Títulos encantadores! — zombou o dragão. — Mas os números da sorte nem sempre são os sorteados.
— Sou o que enterra vivos seus amigos e os afoga, e depois os retira vivos outra vez da água. Venho do fundo de uma bolsa, mas numa bolsa nunca fui metido.
— Essas coisas não parecem muito dignas de crédito — troçou Smaug.
— Sou o amigo de ursos e hóspede de águias. Sou o Ganhador do Anel e o Portador da Fortuna, e também sou o Montador de Barril — continuou Bilbo, começando a gostar de seu jogo de adivinhas.
— Assim está melhor — disse Smaug. — Mas não deixe que sua imaginação o leve muito longe!
Essa, naturalmente, é a forma de conversar com dragões, se não queremos revelar nosso próprio nome (o que é sensato), e não queremos enraivecê-lo com uma recusa direta (o que também é muito sensato). Nenhum dragão resiste à fascinação de conversar por enigmas e de perder tempo tentando entendê-los. Havia muito ali que Smaug não entendia de jeito nenhum (embora eu ache que vocês entendem, já que sabem tudo sobre as aventuras às quais Bilbo se referia), mas achava que entendia bastante, e ria maldosamente por dentro.
— Foi o que pensei ontem à noite — disse ele, sorrindo para si mesmo. — Homens do Lago, algum plano maldito dos miseráveis Homens do Lago, comerciantes de barris, se não foi isso sou uma lagartixa. Não desço por aquele caminho há séculos e séculos, mas logo vou alterar isso! Muito bem, ó, Montador de Barril! — disse ele em voz alta. — Talvez “Barril” fosse o nome do seu pônei, ou talvez não, embora ele fosse bem gordo. Você pode andar sem ser visto, mas não andou todo o caminho. Deixe-me dizer que devorei seis pôneis a noite passada, e devo capturar e devorar todos os outros em breve. Como recompensa pela excelente refeição, vou lhe dar um conselho para seu próprio bem: não se envolva com anões mais do que puder evitar!
— Anões? — disse Bilbo, fingindo surpresa.
— Não me venha com conversa! — disse Smaug. — Conheço o cheiro (e o gosto) de um anão melhor do que ninguém. Não me diga que não posso devorar um pônei que foi montado por um anão sem perceber! Você vai se dar mal, se andar com tais amigos, Ladrão Montador de Barril. Não me importo se voltar lá e disser isso a eles.
Mas ele não disse a Bilbo que havia um cheiro que não conseguia identificar de jeito nenhum, o cheiro de hobbit, estava muito além de sua experiência e deixava-o tremendamente perplexo.
— Imagino que tenha conseguido um bom preço pela taça da noite passada — continuou. — Diga, conseguiu? Não recebeu nada! Bem, é assim mesmo que eles agem. E imagino que estejam lá fora escondidos, e que o seu trabalho é fazer todo o serviço perigoso e pegar o que consegue, quando eu não estou olhando, para eles? E você vai conseguir uma parte justa? Não acredite nisso! Se conseguir sair vivo, terá muita sorte.
Bilbo começava a sentir-se realmente incomodado. Cada vez que o olho errante de Smaug, procurando-o nas sombras, passava luzindo por ele, o hobbit tremia, e era tomado por um desejo incontrolável de se revelar e dizer a verdade a Smaug. Na verdade, estava correndo o perigo terrível de ser subjugado pelo encanto do dragão. Mas, criando coragem, falou de novo.
— Você não sabe de tudo, ó, Smaug, o Poderoso — disse ele. — Não foi só o ouro que nos trouxe até aqui.
— Ha! Ha! Você admite o “nós” — disse Smaug rindo. — Por que não diz nós quatorze e acaba com isso, Sr. Número da Sorte? Folgo em saber que tinham outros negócios nestas partes além de meu ouro. Nesse caso, talvez não estejam perdendo totalmente seu tempo. Não sei se lhe ocorreu que, mesmo que conseguisse roubar o ouro pouco a pouco, uma questão de cem anos, mais ou menos, você não conseguiria ir muito longe? Qual seria a utilidade do ouro na encosta da montanha? Qual seria a utilidade na floresta? Céus! Já pensou no produto? A décima quarta parte, acho eu, ou algo assim, eram esses os termos, não é? Mas e a entrega? E o transporte? E os guardas armados e as taxas?
Smaug riu alto. Tinha um coração perverso e manhoso, e sabia que seus palpites não erravam por muito, embora suspeitasse que os Homens do Lago estavam por trás dos planos e que a maior parte do que fosse pilhado iria parar na cidade a beira d’água, que em seus dias de juventude chamava-se Esgaroth.
Vocês mal vão acreditar, mas o pobre Bilbo realmente ficou bastante aturdido. Até aquele momento seus pensamentos e energias haviam se concentrado em chegar à Montanha e encontrar a entrada. Nunca se preocupara em imaginar como o tesouro seria removido, com certeza nunca imaginara como qualquer parte do que lhe cabia percorreria todo o caminho até Bolsão, sob a Colina.
Agora uma suspeita desagradável começava a crescer em sua mente: será que os anões também tinham esquecido esse ponto importante, ou estavam todo o tempo rindo dele às escondidas? É esse o efeito que a conversa de um dragão tem sobre os inexperientes. É claro que Bilbo devia ter se precavido, mas Smaug tinha uma personalidade bastante irresistível.
— Eu lhe digo — respondeu ele, num esforço para permanecer leal aos amigos e não desistir de sua missão — que o ouro só nos ocorreu mais tarde. Viemos montanha acima e montanha adentro, pelas ondas e pelo vento, por vingança. Com certeza, ó, Smaug, o incalculavelmente opulento, deve saber que o seu sucesso lhe trouxe alguns inimigos implacáveis?
Então Smaug riu de verdade — um som devastador que derrubou Bilbo no chão, enquanto lá em cima no túnel os anões se encolhiam, imaginando que o hobbit tivera um fim repentino e desagradável.
— Vingança! — resmungou ele, e a luz de seus olhos iluminou o salão do chão até o teto como um relâmpago escarlate. — Vingança! O Rei sob a Montanha está morto. E onde estão os parentes que ousem buscar vingança? Girion, Senhor de Vaíle, está morto, e eu devorei seu povo como um lobo entre cordeiros, e onde estão os filhos que ousem aproximar-se de mim? Eu mato onde quiser, e ninguém ousa resistir. Derrubei os guerreiros de antigamente, e hoje não há ninguém no mundo como eles. Naquela época, eu era jovem e tenro. Agora sou velho e forte, forte, forte, Ladrão nas Sombras! — disse ele, lambendo os beiços. — Minha armadura é como dez camadas de escudos, meus dentes são espadas, minhas garras, lanças, o choque de minha cauda é como um raio, minhas asas, como um furacão, e minha respiração é a morte!
— Eu sempre pensei — disse Bilbo, numa voz fina e apavorada — que dragões eram mais macios na parte de baixo, especialmente na região do, humm, peito, mas sem dúvida um dragão tão armado já pensou nisso.
O dragão interrompeu de repente sua gabolice.
— Sua informação está antiquada — retorquiu ele. — Estou revestido na parte de cima e na de baixo com escamas de ferro e resistentes pedras preciosas. Nenhuma lâmina pode atravessar o meu corpo.
— Eu devia ter adivinhado — disse Bilbo. — Com certeza não se pode encontrar em lugar algum rival para o Senhor Smaug, o Impenetrável. Que magnífico possuir um colete de finos diamantes!
— É, realmente é raro e maravilhoso — disse Smaug, ridiculamente satisfeito. Ele não sabia que o hobbit já vira de relance a sua peculiar proteção inferior na outra visita e estava ansioso por vê-la mais de perto, por motivos próprios. O dragão rolou pelo chão. — Veja! — disse ele. — O que me diz disto?
— Estonteantemente maravilhoso! Perfeito! Impecável! Assombroso! — exclamou Bilbo em voz alta, mas pensando por dentro: “Velho tolo! Há um bom pedaço no lado esquerdo do peito descoberto como um caracol fora da casca!”
Depois de ver aquilo, o único pensamento do Sr. Bolseiro era escapulir dali.
— Bem, não devo deter Sua Magnificência por mais tempo — disse ele — ou atrasar seu tão merecido repouso. Pegar pôneis dá trabalho, creio eu, quando eles têm uma grande vantagem. E ladrões também — acrescentou ele como lance de despedida, enquanto virava-se rapidamente e fugia túnel acima.
Foi uma observação infeliz, pois o dragão soltou sobre ele terríveis chamas, e por mais que o hobbit corresse, não se distanciou o suficiente para ficar a salvo quando Smaug forçou a cabeça hedionda contra a abertura do túnel. Por sorte, não havia como espremer a cabeça inteira e a mandíbula pelo buraco, mas as narinas lançaram fogo e vapor para persegui-lo, e estes quase o alcançaram, ele foi avançando aos trambolhões, tomado de grande dor e medo. Estivera sentindo-se muito satisfeito com a esperteza de sua conversa com Smaug, mas o erro final devolveu-lhe a sensatez.
— Nunca se ri de dragões vivos, Bilbo, seu tolo! — disse ele consigo mesmo, e esse tornou-se mais tarde um de seus ditados favoritos e transformou-se depois num provérbio. — A aventura ainda não terminou — acrescentou ele, e aquilo era bem verdade.
A tarde transformava-se em noite quando ele saiu de novo, tropeçou e caiu desmaiado “na soleira da porta”. Os anões o reanimaram, e medicaram suas queimaduras da melhor maneira que puderam, mas demoraria muito para que os cabelos da nuca e dos calcanhares crescessem de novo: estavam chamuscados e crestados até a raiz. Enquanto isso, seus amigos fizeram todo o possível para animá-lo, estavam ansiosos por novidades, e, especialmente, querendo saber por que o dragão soltara um rugido tão medonho, e como Bilbo tinha escapado.
Mas o hobbit estava preocupado e pouco a vontade, e eles tiveram dificuldades para arrancar-lhe alguma informação. Repensando agora os fatos, ele se arrependia de algumas coisas que havia dito ao dragão, e não estava ansioso por repeti-las. O velho tordo estava pousado numa rocha ali perto, a cabeça tombada para um lado, escutando tudo o que se dizia.
Isto mostra como Bilbo estava de mau humor: ele apanhou urna pedra e jogou-a no tordo, que apenas se desviou e voltou para o seu lugar.
— Maldito pássaro! — disse Bilbo irritado. — Acho que está escutando, e não gosto do jeito dele.
— Deixe-o em paz! — disse Thorin. — Os tordos são bons e pacíficos. Esse pássaro é bem velho, e talvez seja o último remanescente da raça que vivia por aqui, tordos mansos nas mãos de meu pai e meu avô. Esses pássaros viviam muito e eram de uma raça mágica, e este pode até ser um dos que viviam naquele tempo, duzentos anos atrás ou mais. Os Homens de Vaíle tinham o dom de entender sua língua, e usavam-nos como mensageiros junto aos Homens do Lago e em outros lugares.
— Bem, ele vai ter notícias para levar à Cidade do Lago. Sem dúvida, se é isso o que está querendo — disse Bilbo — embora eu ache que não tenha sobrado ninguém que ainda se preocupe com a língua dos tordos.
— O que aconteceu? — gritaram os anões. — Continue a história!
Então Bilbo contou-lhes tudo o que conseguia lembrar, e confessou que estava com a terrível impressão de que o dragão descobrira muito a partir das adivinhas, dos acampamentos e dos pôneis.
— Tenho certeza de que ele sabe que viemos de Cidade do Lago e tivemos ajuda do povo de lá, e tenho uma terrível sensação de que seu próximo movimento possa ser naquela direção. Gostaria sinceramente de nunca ter falado sobre o Montador de Barril, nestas paragens, até mesmo um coelho teria pensado nos Homens do Lago.
— Bem, bem! Isso não se pode remediar, e é difícil não se trair conversando com um dragão ou, pelo menos, é o que sempre ouvi dizer — disse Balin, ansioso por consolá-lo. — Se quer saber, acho que fez um ótimo trabalho. De qualquer forma, descobriu uma coisa muito útil, e voltou vivo, e isso é muito mais do que pode dizer a maioria das pessoas que conversaram com tipos como Smaug. Pode ser uma sorte e uma bênção você ter descoberto a parte vulnerável no colete do velho Dragão.
Aquilo fez a conversa mudar de rumo, e todos começaram a discutir matanças de dragões, históricas, dúbias e míticas, e os vários tipos de estocadas, facadas e golpes, e os diferentes estratagemas, meios e artes pelos quais esses atos haviam sido realizados. A opinião geral era que pegar um dragão dormindo não era tão fácil quanto parecia e que tentar espetar ou aguilhoar um dragão adormecido tinha mais probabilidade de terminar em desastre do que um valente ataque frontal. Durante toda a conversa o tordo ficou escutando, até que, por fim, quando as estrelas começaram a aparecer, ele abriu silenciosamente as asas e voou para longe. E durante toda a conversa, as sombras iam se alongando e Bilbo ficava cada vez mais infeliz, e seus maus pressentimentos cresciam. Por fim, ele os interrompeu.
— Tenho certeza de que estamos correndo muito perigo aqui — disse ele — e não vejo porque ficarmos aqui sentados. O dragão acabou com toda a relva e, de qualquer forma, chegou a noite e está frio. Mas sinto nos meus ossos que este lugar será atacado de novo. Agora Smaug sabe como eu desci até seu salão, e não tenham dúvidas de que ele vai adivinhar onde é o fim do túnel. Ele vai partir este lado da Montanha em pedacinhos, se necessário, para bloquear nossa entrada, e se formos esmagados vai ficar ainda mais satisfeito.
— Você está pessimista. Sr. Bolseiro! — disse Thorin. — Por que Smaug não bloqueou a extremidade inferior, se está tão interessado em impedir a nossa entrada? Ele não a bloqueou, ou teríamos ouvido.
— Não sei, não sei. Porque primeiro ele queria tentar me atrair de novo para dentro, acho eu, e agora talvez porque esteja esperando o final da caçada hoje a noite, ou porque não quer estragar seu dormitório se puder evitar. Mas eu gostaria que vocês não discutissem. Smaug vai sair a qualquer momento, e nossa única esperança é avançarmos pelo túnel e fecharmos a porta.
Ele parecia tão aflito que os anões acabaram fazendo como ele dizia, embora demorassem para fechar a porta — parecia um plano desesperado, pois ninguém sabia como ou se poderiam abri-la de novo por dentro, e a ideia de ficarem trancados num lugar cuja única saída passava pela toca do dragão não era apreciada por nenhum deles.
Além disso, tudo parecia muito quieto, fora e dentro do túnel. Assim, por um longo tempo, ainda ficaram sentados, não muito longe da porta semi-aberta, e continuaram conversando.
A conversa desviou-se para as palavras maldosas do dragão a respeito dos anões. Bilbo desejou nunca tê-las ouvido ou que, pelo menos, pudesse ter certeza de que os anões estavam sendo absolutamente honestos quando declaravam que nunca haviam pensado sobre o que aconteceria depois que o tesouro fosse conquistado.
— Sabíamos que seria uma aventura desesperada — disse Thorin — e ainda sabemos disso, e ainda penso que quando conquistarmos o tesouro haverá tempo suficiente para pensarmos no que fazer. Quanto à sua parte, Sr. Bolseiro, asseguro-lhe que estamos mais que agradecidos e que poderá escolher a sua décima quarta parte assim que tivermos alguma coisa para dividir. Sinto muito que esteja preocupado com o transporte, e admito que as dificuldades são grandes, as terras não ficaram menos selvagens com o passar dos anos, muito pelo contrário, mas faremos por você o que estiver ao nosso alcance, e dividiremos o custo quando chegar a hora. Acredite ou não, como quiser!
Daí a conversa enveredou para o próprio tesouro e para as coisas que Thorin e Balin recordavam. Imaginavam se tudo ainda estava intacto no salão lá embaixo: as lanças que haviam sido feitas para os exércitos do grande rei Bladorthin (morto muito tempo atrás) tinham uma ponta três vezes forjada, e suas hastes traziam graciosas incrustações de ouro, mas que nunca foram entregues ou pagas: escudos feitos para guerreiros mortos havia muito tempo, a grande taça de ouro de Thror, com duas alças, martelada e esculpida com motivos de pássaros e flores cujos olhos e pétalas eram de pedras preciosas, cotas de malha banhadas em ouro e prata, e impenetráveis, a armadura de Girion, Senhor de Vaíle, feita com quinhentas esmeraldas verdes como a relva, presente para o armamento de seu filho mais velho, montadas sobre uma cota de malha feita pelos anões, diferente de tudo o que fora feito antes, pois era trabalhada em prata pura, e era três vezes mais forte e poderosa que as de aço. Mas, mais bela dentre todas as coisas, era a grande pedra branca que os anões haviam encontrado embaixo das raízes da Montanha, o Coração da Montanha, a Pedra Arken de Thrain.
— A Pedra Arken! A Pedra Arken! — murmurava Thorin no escuro numa espécie de devaneio, com o queixo apoiado nos joelhos. — Era como um globo de mil faces, brilhava como prata à luz do fogo, como água ao sol, como neve sob as estrelas, como chuva sobre a Lua!
Mas o encantamento do desejo pelo tesouro não agia mais sobre Bilbo. Durante toda a conversa ele quase nada ouvia. Era o que estava sentado mais perto da porta, um ouvido atento a espera de algum som lá fora, o outro alerta para outros ecos, além do murmúrio dos anões, para o sussurro de qualquer movimento nas profundezas.
A escuridão tornou-se mais profunda e ele cada vez mais inquieto.
— Fechem a porta! — ele implorou. — Sinto o medo do dragão em meus ossos. Este silêncio agrada-me menos do que o rugido da noite passada. Fechem a porta antes que seja tarde demais!
Algo em sua voz provocou nos anões uma sensação de desconforto. Lentamente Thorin libertou-se de seus sonhos e, levantando-se, chutou a pedra que segurava a porta.
Eles então a empurraram e ela se fechou com um estrondo. Não restou sequer vestígio do buraco da fechadura no lado de dentro. Estavam trancados na Montanha! E foi por um triz. Mal haviam começado a avançar pelo túnel quando um golpe atingiu a encosta da Montanha como aríetes feitos de carvalhos da floresta e impelidos por gigantes. A rocha ribombou, as paredes racharam e pedras caíram do teto sobre suas cabeças. O que aconteceria se a porta ainda estivesse aberta, eu não gosto nem de pensar. Eles fugiram túnel abaixo, felizes por ainda estarem vivos, enquanto atrás, lá fora, ouviam o rugido e o estrondo da fúria de Smaug. O dragão partia as rochas em pedaços, esmagando parede e penhasco com as chicotadas de sua enorme cauda, até que o pequeno trecho elevado onde haviam acampado, o capim chamuscado, a pedra do tordo, as paredes cobertas de caracóis, a estreita plataforma e tudo o mais desapareceram numa confusão de pequenos fragmentos, e uma avalanche de pedras partidas caiu por sobre o penhasco no vale lá embaixo.
Smaug deixara seu covil silenciosa e furtivamente, alçara voo e então flutuara na escuridão, pesado e lento como um corvo monstruoso. Descendo com o vento para o oeste da Montanha, na esperança de pegar de surpresa alguma coisa ou alguém, e de espionar a abertura da passagem que o ladrão havia usado. O que tinham ouvido era a explosão de sua fúria quando não conseguiu encontrar ninguém nem ver coisa nenhuma, mesmo onde ele julgava que estivesse a saída.
Depois de extravasar sua raiva, sentiu-se melhor e pensou consigo que, daquela direção, não seria mais incomodado. Enquanto isso, tinha mais do que se vingar.
— Montador de Barril — bufou ele. — Seus pés vieram da beira da água. E pela água você veio, sem dúvida. Não conheço o seu cheiro, mas, se você não é um daqueles homens do Lago, teve a ajuda deles. Eles vão me ver e lembrar quem é o verdadeiro Rei sob a Montanha!
Ele se ergueu em chamas e foi para o sul, na direção do Rio Corrente.

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