25 de março de 2016

Capítulo XI - Na soleira da porta

Em dois dias eles atravessaram o Lago Comprido e entraram no Rio Corrente, e agora todos podiam ver a Montanha Solitária erguendo-se, alta e austera, diante deles. A correnteza era forte, e eles avançavam devagar. No final do terceiro dia, algumas milhas rio acima, aproximaram-se da margem esquerda ou ocidental e desembarcaram. Ali foram alcançados pelos cavalos com mais provisões e coisas de que necessitavam, além dos pôneis para seu próprio uso que lhes haviam sido enviados. Carregaram os pôneis com tudo o que puderam, e o resto foi estocado sob uma tenda, mas nenhum dos homens da cidade estava disposto a passar nem sequer uma noite com eles tão perto da sombra da Montanha.
— Não, pelo menos enquanto as canções não se tornarem realidade! — disseram.
Naquelas regiões selvagens era mais fácil acreditar no Dragão e mais difícil acreditar em Thorin. Na verdade, o estoque não precisava de nenhum vigia, pois toda a região era vazia e desolada.
Assim, a escolta deixou-os, partindo rapidamente pelo rio e pelas trilhas das margens, embora a noite já estivesse caindo.
Passaram uma noite fria e solitária e seus ânimos se abateram. No dia seguinte partiram outra vez. Balin e Bilbo cavalgavam atrás, cada um conduzindo um pônei bastante carregado, os outros iam um pouco à frente, fazendo um caminho lento, pois não havia trilhas. Rumaram para o noroeste, afastando-se do Rio Corrente e chegando cada vez mais perto de um grande contraforte da Montanha que se projetava para o sul, na direção deles. Era uma jornada cansativa, silenciosa e sorrateira. Não havia risos, canções ou o som de harpas, e o orgulho e as esperanças despertadas em seus corações pelas antigas canções junto ao lago morriam numa penosa melancolia.
Sabiam que estavam se aproximando do final de sua viagem, e que esse final poderia ser terrível. A região ao redor tornava-se desolada e vazia, apesar de outrora, conforme Thorin lhes dissera, ter sido verde e bela. Havia pouca grama, e, em pouco tempo não se via nem arbusto nem árvore, apenas troncos quebrados e enegrecidos que lembravam outros, desaparecidos muito tempo atrás. Haviam chegado à Desolação do dragão, haviam chegado ao final do ano.
Atingiram as fraldas da Montanha, porém, sem encontrar qualquer perigo ou sinal do Dragão, exceto o deserto que ele fizera em torno de seu covil. A Montanha erguia-se diante deles, escura e silenciosa, cada vez mais alta. Acamparam pela primeira vez no lado ocidental do grande contraforte sul, que terminava numa elevação chamada Morro do Corvo.
Sobre ele houvera um antigo posto de guarda, mas não se atreviam a subir ainda, pois era exposta demais.

Allan Lee - O Portão Dianteiro

Antes de vasculharem os contrafortes ocidentais da Montanha em busca da porta oculta, na qual depositavam todas as suas esperanças, Thorin enviou uma expedição para espionar o terreno ao sul de onde ficava o Portão Dianteiro. Para esse propósito escolheu Balin, Fili e Kili, e com eles foi Bilbo. Avançaram sob os penhascos cinzentos e silenciosos até os pés do Morro do Corvo. Ali o rio, depois de fazer uma ampla curva contornando o desfiladeiro de Vaíle, afastava-se da Montanha em seu caminho para o Lago, rápido e ruidoso. A margem assomava estéril e rochosa, alta e íngreme sobre a correnteza, olhando por sobre a margem do rio estreito, espumando e chocando-se com os rochedos, podiam ver, no amplo vale à sombra dos braços da Montanha, as ruínas cinzentas de antigas casas, torres e muralhas.
— Ali está o que resta de Vaíle — disse Balin. — As encostas da montanha eram cobertas de verdes bosques e todo o vale que ali se abrigava era rico e agradável, nos dias em que os sinos soavam naquela cidade. — Tinha um ar melancólico e soturno ao dizer isso: fora um dos companheiros de Thorin no dia da chegada do Dragão.
Não se atreveram a seguir muito mais o rio na direção do Portão, mas continuaram além da extremidade do contraforte sul, até que, escondidos atrás de uma rocha, conseguiram ver a abertura escura e cavernosa aberta num grande paredão rochoso entre os braços da Montanha.
Dela brotavam as águas do Rio Corrente, e dali saía também vapor e fumaça escura. Nada se movia naquela desolação, exceto o vapor e a água, e, de vez em quando, um corvo negro e agourento. O único som que se ouvia era o som da água batendo nas pedras, e, de vez em quando, o crocitar rouco de uma ave. Balin arrepiou-se.
— Vamos voltar! — disse ele. — Não podemos fazer nada aqui! E eu não gosto dessas aves escuras: parecem espiãs do mal.
— O dragão ainda está vivo e nos salões sob a Montanha, é o que imagino pela fumaça — disse o hobbit.
— Isso não prova nada — disse Balin —, embora eu não duvide de que você esteja certo. Mas ele pode ter se afastado por algum tempo, ou pode estar deitado na encosta da Montanha montando guarda, e ainda assim acho que a fumaça e o vapor continuariam saindo daqueles portões: todos os salões devem estar cheios da sua fumaça nojenta.
Com esses pensamentos melancólicos, sempre seguidos por corvos crocitantes, fizeram desanimadamente o caminho de volta ao acampamento.
Em junho haviam sido hóspedes na bela casa de Elrond. E agora, embora o outono lentamente se transformasse em inverno, aquele tempo agradável parecia ter sido anos atrás. Estavam sozinhos no perigoso deserto, sem esperanças de conseguir mais ajuda. Estavam no final de sua jornada, mas, ao que parecia, mais distantes que nunca do final de sua busca. A nenhum deles restava muito ânimo.
Pode parecer estranho, mas ao Sr. Bolseiro restara mais ânimo que aos outros.
Muitas vezes pedia emprestado o mapa de Thorin para examiná-lo, ponderando sobre as runas e a mensagem das letras-da-lua que Elrond lera. Foi ele quem fez os anões começarem a perigosa busca na porta secreta na encosta ocidental. Mudaram então o acampamento para um longo vale, mais estreito que o grande vale ao Sul onde ficavam os Portões do rio, e protegido por contrafortes mais baixos da Montanha. Dois destes projetavam-se para oeste nesse ponto, saindo da massa principal em longas cordilheiras de encostas íngremes que se precipitavam na direção da planície. No lado oeste havia menos sinais dos pés saqueadores do dragão, e um pouco de capim para os pôneis. Desse acampamento no oeste, coberto todo o dia pela sombra do penhasco e das encostas, até o sol começar a descer na direção da floresta, dia após dia eles partiam em grupos na busca penosa de trilhas que subissem a encosta da montanha. Se o mapa fosse verdadeiro em algum lugar bem acima do penhasco, no topo do vale, devia estar a porta secreta. Dia após dia voltavam ao acampamento sem sucesso.
Mas, por fim, inesperadamente, encontraram o que estavam procurando. Fili, Kili e o hobbit desceram o vale um dia e vagaram em meio às rochas amontoadas na ponta sul. Por volta do meio-dia, esgueirando-se atrás de uma enorme pedra que se erguia sozinha como um grande pilar, Bilbo encontrou o que pareciam ser degraus toscos conduzindo para cima. Seguindo-os alvoroçados, ele e os anões encontraram vestígios de uma trilha estreita, muitas vezes perdida, muitas vezes reencontrada, que continuava até o topo da cordilheira sul e que os levou finalmente até uma saliência ainda mais estreita, que avançava para o norte através do flanco da Montanha. Olhando para baixo perceberam que estavam no topo do penhasco, na parte superior do vale, e lá de cima podiam avistar o seu acampamento. Silenciosamente, agarrando-se à parede rochosa à direita, avançaram ao longo da saliência em fila indiana até que a muralha se abriu e eles chegaram a uma reentrância entre paredões íngremes, calma e silenciosa, com o chão coberto de relva. A entrada que haviam encontrado não podia ser vista de baixo, por causa da inclinação do penhasco, nem de longe, porque era tão pequena que parecia apenas uma fenda escura, e nada mais. Não era uma caverna, pois abria-se para o céu, mas, na extremidade interna, erguia-se uma muralha plana que, na parte inferior, perto do chão, era lisa e aprumada como um trabalho de alvenaria, mas sem nenhuma uma fresta que se pudesse ver.
Não havia sinal de umbral, verga ou soleira, nem qualquer vestígio de barra, tranca ou fechadura, mesmo assim, não tinham dúvidas de que finalmente haviam achado a porta.
Bateram, empurraram e puxaram, imploraram que a porta se movesse, pronunciaram pedaços de encantamentos para abrir, e nada se moveu. Por fim, exaustos, descansaram no capim aos pés dela, e então, no fim da tarde, começaram a longa descida.
Houve alvoroço no acampamento aquela noite. De manhã prepararam-se para partir mais uma vez. Apenas Bofur e Bombur ficaram para atrás, para vigiar os pôneis e as provisões que haviam trazido do rio. Os outros desceram o vale e subiram a trilha recém-descoberta até a saliência estreita. Ao longo desta não podiam carregar pacotes ou mochilas, de tão estreita e assustadora que era, ao lado um abismo de cento e cinquenta pés terminando em rochas pontudas, cada um deles, porém, levava um bom pedaço de corda amarrado à cintura, e, por fim, chegaram sem contratempos à concavidade relvosa.
Ali fizeram seu terceiro acampamento, içando com as cordas aquilo de que necessitavam. Pelo mesmo caminho podiam de vez em quando baixar alguns dos anões mais ativos, como Kili, para trocar com os outros as últimas notícias. Ou para revezarem-se na guarda lá embaixo, enquanto Bofur era içado para o acampamento superior. Bombur não queria subir nem pela corda nem pela trilha.
— Sou gordo demais para esses malabarismos — disse ele. — Ficaria zonzo e pisaria em minha própria barba, e então vocês seriam treze de novo. As cordas amarradas são finas demais para meu peso. — Para a sorte dele, isso não era verdade, como vocês irão ver.
Enquanto isso, alguns deles exploraram a saliência além da abertura e encontraram uma trilha que conduzia mais e mais para o alto da montanha, mas não ousaram aventurar-se muito por ali, e nem havia motivo para isso. Lá em cima reinava o silêncio, que não era quebrado por nenhum pássaro ou som, exceto o do vento nas gretas da pedra. Falavam baixo e nunca gritavam ou cantavam, pois o perigo espreitava em cada rocha. Os outros, que se ocupavam com o segredo da porta, não tiveram mais sucesso.
Estavam ansiosos demais para se preocuparem com as runas ou com as letras-da-lua e tentavam sem descanso descobrir onde, exatamente, na superfície lisa da rocha, estava escondida a porta. Haviam trazido da Cidade do Lago picaretas e ferramentas de vários tipos, e a princípio tentaram usá-las. Mas, quando golpeavam a rocha, os cabos estilhaçavam-se, seus braços estremeciam dolorosamente, e as peças de ferro quebravam-se ou entortavam como chumbo. O trabalho de mineração, perceberam claramente, de nada adiantava contra a mágica que mantinha fechada aquela porta, além disso, ficaram apavorados com o barulho dos ecos.
Bilbo achava que ficar sentado na soleira da porta era solitário e cansativo — na verdade, não havia uma soleira, é claro, mas, por brincadeira, costumavam chamar de soleira o pequeno espaço gramado entre a muralha e a abertura, lembrando as palavras de Bilbo muito tempo atrás, na festa inesperada em sua toca hobbit, quando dissera que podiam ficar sentados à porta até pensarem em alguma coisa.
E sentar-se e pensar foi o que fizeram, ou vagar sem destino, e foram ficando mais e mais carrancudos. Os humores haviam melhorado um pouco com a descoberta da trilha, mas agora todos afundavam no desânimo, apesar disso, recusavam-se a desistir e partir. O hobbit já não estava mais animado que os anões. Não fazia nada, a não ser sentar-se, recostado na rocha, e ficar olhando para o oeste pela abertura, por sobre o penhasco por sobre as amplas terras, até à muralha negra da Floresta das Trevas, e as distâncias além, nas quais às vezes tinha a impressão de vislumbres das Montanhas Sombrias, pequenas e longínquas. Quando os anões lhe perguntavam o que estava fazendo, ele respondia:
— Mas receio que não estivesse pensando muito no trabalho, mas sim no que estava além da distância azul, a pacifica Terra Ocidental e a Colina, com sua toca hobbit embaixo.
Havia uma grande rocha cinzenta no meio da relva e ele, taciturno, olhava para ela ou observava os grandes caracóis. Eles pareciam adorar a pequena reentrância, com suas frescas paredes de pedras, e havia vários deles, de tamanho avantajado, arrastando-se lenta e pegajosamente ao longo delas.
— Amanhã começa a última semana do outono — disse Thorin um dia.
— E o inverno vem depois do outono — disse Bifur.
— E depois disso o próximo ano — disse Dwalin — e nossas barbas vão crescer e cair pelo penhasco e chegar ao vale antes que aconteça qualquer coisa aqui. O que o nosso ladrão está fazendo por nós? Já que tem um anel invisível, e deveria ser um ator especialmente bom além disso, começo a pensar que ele poderia ir pelo Portão Dianteiro e espionar um pouco as coisas!
Bilbo ouviu aquilo, pois os anões estavam nas pedras logo acima da reentrância em que o hobbit estava sentado: “Céus!”, pensou ele, “então é isso que estão começando a pensar, não é? É sempre o coitado aqui que tem de livrá-los de suas dificuldades, pelo menos desde que o mago foi embora. O que é que eu vou fazer? Eu devia saber que algo pavoroso me aconteceria no final. Não acho que aguentaria ver a tristonha Vaíle outra vez, e quanto àquele portão fumegante!!!” Naquela noite estava arrasado e mal conseguiu dormir.
No dia seguinte todos os anões saíram em várias direções, alguns exercitavam os pôneis lá embaixo, outros perambulavam pela encosta da montanha. Bilbo ficou todo o dia sentado na reentrância relvosa, melancólico, olhando para a pedra ou para o oeste através da estreita abertura. Tinha uma estranha sensação de estar esperando alguma coisa. “Talvez o mago volte hoje de repente”, pensou ele.
Quando levantava a cabeça, podia ver uma nesga da floresta longínqua. À medida que o sol caminhava para oeste, via-se um brilho amarelo por sobre as copas distantes, como se a luz atingisse suas últimas folhas pálidas. Logo viu a bola alaranjada do sol descer até o nível de seus olhos. Caminhou até a abertura e ali, pálida e tênue, uma lua nova esmaecida erguia-se por sobre a borda da Terra.
Naquele exato momento ouviu um estalido agudo atrás de si. Ali, na rocha cinzenta no meio da relva, estava um enorme tordo, negro como carvão, o peito amarelo-claro salpicado de pintas pretas. Craque! Capturara um caracol e o batia contra a pedra. Craque! Craque! De repente, Bilbo entendeu. Esquecendo todo o perigo, postou-se sobre a saliência e chamou os anões, gritando e acenando. Os que estavam mais próximos vieram tropeçando pelas rochas, caminhando ao longo da saliência com toda a rapidez possível, imaginando que diabos estaria acontecendo, os outros gritavam, pedindo para serem içados pelas cordas (exceto Bombur, é claro: estava dormindo).
Bilbo explicou rapidamente. Todos ficaram em silêncio: o hobbit, de pé, ao lado da pedra cinzenta, e os anões balançando as barbas, observando impacientes. O sol descia cada vez mais, e todos perdiam as esperanças. Afundou atrás de um cinturão de nuvens avermelhadas e desapareceu. Os anões resmungavam, mas, mesmo assim, Bilbo ficou ali, quase sem se mover. A pequena lua mergulhava na direção do horizonte. A noite chegava. Então, de repente, quando quase não o restava mais esperança, um raio vermelho do sol escapou como um dedo através de um rasgo de nuvem. Um fulgor de luz atravessou a abertura, entrou na reentrância e caiu sobre a superfície lisa da rocha. O velho tordo, que estivera empoleirado observando do alto, os olhos redondos, a cabeça pendendo para um lado, soltou um trinado repentino. Ouviu-se um forte estalido. Uma lasca da rocha separou-se da parede e caiu. Um buraco apareceu de repente a uns três pés do chão.
Depressa, tremendo, com medo de que a oportunidade desaparecesse, os anões correram para a pedra e a empurraram em vão.
— A chave! A chave! — gritou Bilbo. — Onde está Thorin? — Thorin correu. — A chave! — gritou Bilbo. — A chave que acompanhava o mapa! Tente agora enquanto ainda há tempo!
Então Thorin aproximou-se e tirou do pescoço a corrente que prendia a chave. Colocou-a no buraco. Serviu e girou! Snap! O brilho se apagou, o sol sumiu, a lua se foi e a noite tomou conta do céu.
Agora todos empurraram juntos e, lentamente, uma parte da muralha rochosa cedeu. Fendas longas e retas surgiram e foram se alargando. Uma porta de cinco pés de altura e três de largura foi se desenhando e, devagar, sem nenhum ruído, abriu-se para dentro. Foi como se a escuridão fluísse como um vapor do buraco na encosta da montanha, e uma escuridão profunda, na qual nada se via, abriu-se diante de seus olhos, uma boca escancarada que conduzia para dentro e para baixo.

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