25 de março de 2016

Capítulo X - Uma acolhida calorosa

Allan Lee - A Cidade do Lago

O dia ficava mais claro e morno enquanto flutuavam. Depois de algum tempo, o rio contornou uma saliência íngreme que aparecia à esquerda. No sopé rochoso, a correnteza mais profunda passava borbulhando. De repente o penhasco foi diminuindo. As margens desapareceram. As árvores sumiam.
Bilbo então viu uma paisagem.
As terras abriam-se amplas ao seu redor, cheias da água do rio que subdividia-se em centenas de cursos ou parava em pântanos ou lagos pontilhados de ilhotas por todos lados, mas, mesmo assim, uma forte correnteza avançava pelo meio. E na distância, a cabeça escura enfiada numa nuvem rasgada, assomava a Montanha! Não se viam seus vizinhos mais próximos ao nordeste nem o terreno acidentado que a ligava a eles. Sozinha se erguia, olhando para a floresta através dos pântanos. A Montanha Solitária! Bilbo viera de longe e enfrentara muitas aventuras para vê-la, e agora não gostava nem um pouco de sua aparência. Escutando a conversa dos homens das jangadas e juntando as migalhas de informação que deixavam cair, Bilbo logo percebeu que tivera muita sorte em simplesmente poder avistá-la mesmo daquela distância. Apesar do melancólico confinamento e da desconfortável posição (para não dizer nada dos pobres anões debaixo dele), ainda assim tivera mais sorte do que havia imaginado. Toda a conversa era sobre as mercadorias que iam e vinham pelas águas e sobre o crescimento do comércio pelo rio, à medida que as estradas que saíam do leste na direção da Floresta das Trevas desapareciam ou caiam em desuso, os homens falavam também das contendas entre os Homens do Lago e os Elfos da Floresta, por causa da conservação do Rio e do cuidado com as margens. Aquelas terras haviam mudado muito desde os dias em que anões moravam na Montanha, dias que agora a maioria das pessoas recordava como uma nebulosa tradição.
Haviam mudado até mesmo nos últimos anos, e desde as últimas noticias que Gandalf recebera delas. Grandes enchentes e chuvas haviam aumentado o volume das águas que corriam para o leste, também houvera um ou dois terremotos (que alguns se inclinavam a atribuir ao dragão — fazendo alusão a ele principalmente com uma praga e um agourento aceno de cabeça na direção da Montanha). Os pântanos e charcos haviam avançado, espalhando-se dos dois lados. Trilhas tinham desaparecido, assim como vários cavaleiros e andarilhos que tentaram atravessar os caminhos perdidos. A estrada élfica que atravessava a floresta e pela qual os anões tinham seguido por recomendação de Beorn chegava agora a uma extremidade duvidosa e pouco usada na borda leste da floresta, só o rio ainda oferecia um caminho seguro das fronteiras da Floresta das Trevas no norte até as planícies rodeadas de montanhas mais além, e o rio era guardado pelo rei dos Elfos da Floresta. Então vocês podem ver que, por fim, Bilbo viera pela única estrada utilizável. O Sr. Bolseiro poderia ter ficado um pouco mais consolado, tremendo ali sobre os barris, se tivesse sabido que essa noticia havia chegado aos ouvidos de Gandalf e causado grande ansiedade no mago, e que agora ele estava na verdade terminando seus outros negócios (que não entram nesta história) e preparando-se para vir à procura da companhia de Thorin, mas Bilbo não sabia de nada disso. Tudo o que sabia era que o rio parecia continuar para sempre, e ele estava com fome, com um terrível resfriado, e não apreciava o modo como a montanha parecia franzir-lhe o cenho e ameaçá-lo à medida que se aproximava. Depois de algum tempo, entretanto, o rio tomou um curso mais para o sul e a Montanha recuou outra vez, e por fim, no final do dia, as margens foram ficando rochosas, o rio recolheu todas as suas águas espalhadas numa correnteza rápida e profunda, e eles foram deslizando em grande velocidade.
O sol já se escondera quando, fazendo uma outra curva em direção ao leste, o rio da floresta desaguou no Lago Comprido. Ali havia uma grande foz com portões de pedra semelhantes a penhascos dos dois lados. Os sopés cobertos por montes de cascalho. O Lago Comprido! Bilbo nunca imaginara que alguma extensão de água que não fosse o mar pudesse ser tão vasta. Era tão amplo que as margens opostas pareciam pequenas e distantes, mas tão comprido que não era possível ver sua extremidade norte, que apontava na direção da Montanha. Apenas pelo mapa é que Bilbo sabia que lá em cima, onde as estrelas da Foice já estavam piscando, o Rio Corrente, vindo de Vaíle, desaguava no lago e, junto com o Rio da Floresta, enchia de águas profundas o que devia antes ter sido um grande e profundo vale rochoso. Na extremidade sul as águas reunidas derramavam-se outra vez por sobre altas cachoeiras e corriam depressa para terras desconhecidas. No ar quieto do fim de tarde podia-se ouvir o ruído das cachoeiras como um rugido distante.
Não muito longe da foz do Rio da Floresta ficava a estranha cidade sobre a qual ouvira os elfos falando nas adegas do rei. Não fora construída na margem, embora houvesse algumas cabanas e edificações ali, mas exatamente sobre a superfície do lago, protegida da fúria do rio por um promontório rochoso que formava uma calma baia, uma grande ponte feita de madeira conduzia até onde fora construída, sobre enormes estacas feitas de troncos de árvores, uma agitada cidade de madeira, não uma cidade de elfos, mas de Homens, que ainda ousavam morar ali, a sombra da distante montanha do dragão. Ainda prosperavam por causa do comércio que vinha do sul pelo grande rio e era carreado até a sua cidade, contornando as cachoeiras, mas nos grandes dias de outrora, quando Vaíle do Norte era rica e próspera, eles haviam sido abastados e poderosos e houvera frotas de barcos sobre as águas, alguns carregados de ouro e outros de guerreiros vestidos com armaduras, e houvera guerras e feitos que agora eram apenas uma lenda. As estacas podres de uma cidade maior ainda podiam ser vistas ao longo das margens quando as águas baixavam durante as secas.
Mas os homens se lembravam muito pouco disso tudo, embora alguns ainda cantassem velhas canções sobre os reis dos anões da Montanha, Thror e Thraín, da raça de Durin, e sobre a chegada do dragão e a queda dos senhores de Vaíle. Alguns também cantavam que Thror e Thrain retornariam e então rios de ouro correriam através dos portões da Montanha, e toda aquela terra ficaria repleta de novas canções e novos risos.
Mas essa lenda agradável não afetava muito os afazeres diários da cidade.
Assim que a jangada de barris surgiu, barcos vieram remando das estacas da cidade, e vozes saudaram os condutores da jangada. Então cordas foram lançadas e remos, e logo a jangada foi retirada da correnteza do Rio da Floresta e rebocada, contornando a alta saliência rochosa, para a pequena baía da Cidade do Lago. Ali foi atracada num ponto não muito distante da cabeceira da grande ponte junto à margem. Logo viriam homens do sul para levar embora alguns barris, e os outros eles encheriam com mercadorias que haviam trazido para que fossem levadas correnteza acima para o lar dos Elfos da Floresta. Enquanto isso os barris foram deixados boiando na água, enquanto os elfos jangadeiros e os barqueiros iam divertir-se na Cidade do Lago.
Teriam ficado surpresos se pudessem ter visto o que aconteceu ali embaixo perto da margem depois que se afastaram e as sombras da noite caíram. Em primeiro lugar, um barril foi solto por Bilbo, levado até a margem e aberto. De dentro saíram gemidos, e também um anão muitíssimo infeliz. Havia palha úmida grudada na sua barba encharcada: sentia o corpo tão doído e enrijecido, tão ferido e escoriado, que mal conseguiu manter-se de pé, cambalear através da água rasa e deitar-se gemendo na margem. Tinha o olhar selvagem e esfomeado de um cão que ficou acorrentado e esquecido num canil por uma semana. Era Thorin, mas vocês só poderiam tê-lo reconhecido pela corrente de ouro e pelo capuz azul celeste, agora sujo e rasgado, com sua borla prateada sem brilho. Demorou algum tempo antes que ele pudesse ser ao menos polido com o hobbit.
— Bem, você está vivo ou morto? — perguntou Bilbo, bastante irritado. Talvez esquecesse que tivera pelo menos uma boa refeição a mais que os anões e também o uso de braços e pernas, para não falar de um maior suprimento de ar. — Você ainda está na prisão, ou está livre? Se quiser comida, e se quiser continuar com esta aventura idiota, que afinal de contas é sua e não minha, é melhor bater nos braços, esfregar as pernas e tentar me ajudar a libertar os outros, enquanto ainda há uma chance!
É claro que Thorin percebeu a sensatez do que Bilbo dissera, então, depois de mais alguns gemidos, levantou-se e ajudou o hobbit da melhor maneira que pôde. No escuro, patinhando na água gelada, tiveram um trabalho difícil e desagradável tentando descobrir quais eram os barris certos. Bater no casco e chamar ajudou a descobrir apenas seis anões que conseguiram responder. Estes foram desempacotados e levados até a margem, onde se sentaram ou deitaram, resmungando e gemendo, estavam tão encharcados, escoriados e encarangados que mal conseguiam perceber que haviam sido soltos ou mostrar-se adequadamente gratos por isso.
Dwalin e Balin eram dois dos mais infelizes, e não adiantava pedir que ajudassem. Bifur e Bofur estavam menos machucados e mais secos, mas deitaram-se e não moveram um dedo. Fili e Kili, porém, que eram jovens (em se tratando de anões) e também haviam sido empacotados com mais cuidado e com bastante palha em barris menores, saíram mais ou menos sorridentes, apenas com um ou dois ferimentos e um enrijecimento que logo passou.
— Espero nunca mais sentir o cheiro de maçãs outra vez! — disse Fili. — Meu barril estava cheio dele. Sentir o cheiro de maçãs eternamente quando você mal pode se mexer, está com frio e doente de fome, é de deixar qualquer um doido. Agora eu seria capaz de comer qualquer coisa deste vasto mundo, por horas a fio, mas não uma maçã!
Com a ajuda prestativa de Fili e Kili, Thorin e Bilbo finalmente descobriram e libertaram o restante do grupo. O pobre e gordo Bombur estava dormindo ou desmaiado, Don, Nori, Ori, Oin e Gloin estavam ensopados e pareciam apenas semivivos, tiveram todos de ser carregados, um por um, e deitados na margem, completamente impotentes.
— Bem! Aqui estamos nós! — disse Thorin. — E acho que devemos agradecer às nossas estrelas e ao Sr. Bolseiro. Estou certo de que ele tem o direito de esperar por isso, apesar de desejar que ele tivesse arranjado uma viagem mais confortável. Mesmo assim, estamos todos inteiramente a seu dispor mais uma vez, Sr. Bolseiro. Sem dúvida vamos nos sentir adequadamente agradecidos quando tivermos comido e nos recuperado. Enquanto isso, o que vamos fazer?
— Sugiro a Cidade do Lago — disse Bilbo. — Que mais se poderia fazer?
Obviamente, mais nada, então, deixando os outros, Thorin, Fili, Kili e o hobbit foram pela margem até a grande ponte. Havia guardas na cabeceira, mas que não estavam vigiando com atenção, pois havia muito tempo que isso não era realmente necessário. A não ser por disputas esporádicas sobre tarifas fluviais, eles eram amigos dos elfos da Floresta. Outras pessoas estavam longe, e alguns dos habitantes mais jovens da cidade duvidavam abertamente da existência de algum dragão na montanha, e riam dos barbas-brancas e das velhotas que diziam tê-lo visto voando no céu nos seus dias de juventude. Sendo assim, não é de surpreender que os guardas estivessem bebendo e rindo ao pé do fogo em sua cabana e não ouvissem o barulho do desembalamento dos anões ou os passos dos quatro batedores. Ficaram extremamente atônitos quando Thorin Escudo de Carvalho surgiu porta adentro.
— Quem é você e o que quer? — gritaram eles, levantando-se de um salto e procurando apanhar as armas.
— Thorin, filho de Thrain, filho de Thror, Rei sob a Montanha! — disse o anão em voz alta, e parecia ser exatamente isso, apesar das roupas rasgadas e do capuz enlameado. O ouro brilhava em seu pescoço e na cintura, seus olhos eram escuros e profundos. — Eu voltei. Desejo ver o Senhor de sua cidade!
Houve então um tremendo alvoroço. Alguns dos mais tolos saíram correndo da cabana como se esperassem que a Montanha se transformasse em ouro no meio da noite e que toda a água do lago ficasse imediatamente amarela. O capitão da guarda deu um passo a frente.
— E quem são estes? — perguntou ele, apontando para Fili. Kili e Bilbo.
— Os filhos da filha de meu pai — respondeu Thorin. — Fili e Kili, da raça de Durin. E o Sr. Bolseiro, que viajou conosco desde o oeste.
— Se vêm em paz, abaixem suas armas! — disse o capitão.
— Não temos nenhuma — disse Thorin. E era a pura verdade: suas armas haviam-lhes sido tomadas pelos Elfos da Floresta, assim como a grande espada Orcrist. Bilbo trazia sua pequena espada, escondida como de costume, mas não disse nada sobre isso. — Não precisamos de armas, nós que finalmente retornamos ao que é nosso, como foi anunciado em tempos remotos. Nem poderíamos lutar contra tantos. Leve-nos ao seu senhor!
— Ele está num banquete — disse o capitão.
— Mais um motivo ainda para nos levar até ele — interrompeu Fili, que estava ficando impaciente com toda aquela formalidade. — Estamos exaustos e morrendo de fome, trilhamos uma longa estrada, e temos companheiros doentes. Agora apresse-se e deixemos esse falatório de lado, ou o seu senhor poderá ter uma conversinha com você.
— Então sigam-me — disse o capitão, que, com mais seis homens, conduziu-os pela ponte, passando pelos portões e entrando no mercado da cidade.
Era um amplo circulo de águas calmas, contornando grandes estacas sobre as quais haviam sido construídas as casas maiores, e por longos ancoradouros de madeira com muitos degraus e escadas que desciam até a superfície do lago. Num grande salão brilhavam muitas luzes e de lá vinha o som de inúmeras vozes. Passaram pelas portas e pararam piscando naquela luz, apreciando as longas mesas cheias de gente.
— Sou Thorin, filho de Thrain, filho de Thror, Rei sob a Montanha! Eu retornei! — anunciou Thorin da porta em voz alta, antes que o capitão pudesse dizer algo.
Todos se ergueram. O Senhor da cidade pulou de sua grande cadeira.
Mas ninguém ficou mais surpreso que os jangadeiros dos elfos, que estavam sentados na extremidade inferior do salão. Correndo e parando diante da mesa do Senhor, eles gritaram:
— Estes são os prisioneiros de nosso rei que escaparam, anões vagabundos e andarilhos que não conseguiram apresentar nenhuma boa explicação sobre si mesmos, que entraram furtivamente na floresta e molestaram nosso povo!
— Isso é verdade? — perguntou o Senhor. Na verdade, achava isso muito mais provável do que o retorno do Rei sob a Montanha, se é que tal pessoa realmente um dia existira.
— É verdade que fomos injustamente capturados pelo Rei Élfico e aprisionados sem motivo quando retornávamos a nossa própria terra — respondeu Thorin. — Mas nem correntes nem barras podem atrapalhar o retorno anunciado outrora. Nem esta cidade pertence ao reino dos Elfos da Floresta. Eu me dirijo ao Senhor da cidade dos Homens do lago, e não aos jangadeiros do rei.
Então o Senhor hesitou e ficou olhando de um para o outro. O Rei Élfico tinha muito poder naquelas partes, e o Senhor não desejava inimizade com ele, nem considerava muito as velhas canções, tendo seu pensamento voltado para o comércio e as tarifas, para carregamentos e ouro, e a este habito devia sua posição. Entretanto, outros pensavam de forma diferente, e logo a questão foi resolvida sem o auxilio dele. A noticia espalhara-se como fogo por toda a cidade. Dentro e fora do salão as pessoas gritavam. Os ancoradouros enchiam-se de pés apressados. Alguns começaram a cantar trechos de velhas canções sobre o retorno do Rei sob a Montanha: o fato de ser o neto de Thror, e não o próprio Thror, que retornara, não fazia nenhuma diferença para eles. Outros juntaram-se aos cantores e a canção ecoou alta e forte por todo o lago.

O Rei sob a montanha,
O Rei da pedra lavrada.
Senhor das fontes de prata,
Vai voltar à sua morada!
À sua cabeça sua corôa,
À sua harpa cordas novas,
Seu palácio ecoará
Ao som de antigas trovas.
A floresta na montanha
E a grama ao sol se agitam,
Sua riqueza jorra em fontes,
Rios de ouro palpitam.
Felizes correm riachos,
Queimam os lagos brilhando,
Não há pranto nem tristeza
Porque o Rei está voltando!

Isso é o que cantavam, ou mais ou menos isso, só que havia muito mais, e muita gritaria além da música de harpas e rabecas no meio de tudo. Na verdade, não se registrava tal alvoroço na cidade nem na memória do mais velho ancião. Os próprios Elfos da Floresta começaram a ficar surpresos e até mesmo com medo. É claro que não sabiam como Thorin havia escapado, e começaram a pensar que seu rei poderia ter cometido um grave erro. Quanto ao Senhor, viu que não restava mais nada a fazer exceto obedecer ao clamor geral, pelo menos por enquanto, e fingir que acreditava que Thorin era o que dizia ser. Assim, cedeu a ele a sua própria cadeira alta e acomodou Fili e Kili ao seu lado, em lugares de honra. Até Bilbo conseguiu um lugar na mesa principal, e não se fez nenhuma pergunta sobre como ele entrava na história — nenhuma canção aludira a ele, nem sequer do modo mais obscuro — na agitação geral.
Em seguida os outros anões foram trazidos para a cidade em meio a cenas de surpreendente entusiasmo. Foram todos tratados, alimentados, alojados e paparicados do modo mais delicioso e satisfatório. Uma grande casa foi cedida a Thorin e sua companhia, barcos e remadores foram colocados a sua disposição, multidões sentaram-se do lado de fora e cantaram canções o dia todo, e aplaudiam até quando algum anão mostrava a ponta do nariz.
Algumas das canções eram antigas, mas outras eram novas e falavam com confiança da morte súbita do dragão e de carregamentos de ricos presentes descendo pelo rio até a Cidade do Lago. Estas eram inspiradas principalmente pelo Senhor e não agradavam muito aos anões, mas, enquanto isso, estavam todos satisfeitos e logo ficaram fortes e gordos de novo. Na verdade, dentro de uma semana estavam recuperados, vestidos com roupas de tecido fino em suas cores apropriadas, com as barbas penteadas e aparadas, andando empertigados.
Thorin comportava-se como se o reino já estivesse reconquistado e Smaug, partido em pedacinhos.
Então, como ele dissera, a boa vontade dos anões para com o pequeno hobbit crescia a cada dia. Não havia mais gemidos ou resmungos. Bebiam à saúde dele, davam-lhe tapinhas nas costas e faziam um estardalhaço à sua volta, o que vinha bem a calhar, pois ele não se sentia particularmente alegre. Não esquecera a aparência da Montanha nem o dragão e, além disso, estava com uma gripe de amargar. Espirrou e tossiu por três dias, e não podia sair, e mesmo depois disso seus discursos em banquetes limitavam-se a um “Buitíssibo obrigado”.
Enquanto isso, os Elfos da Floresta tinham subido o Rio com seus carregamentos, e houve grande alvoroço no palácio do rei. Nunca fiquei sabendo o que aconteceu ao chefe dos guardas e ao mordomo. É claro que não se disse nada sobre chaves ou barris enquanto os anões permaneceram na Cidade do Lago, e Bilbo tomou o cuidado de nunca ficar invisível. Mesmo assim, acho, adivinhava-se mais do que se sabia, embora sem dúvida o Sr. Bolseiro continuasse envolvido por um certo mistério. De qualquer modo, o rei agora sabia da missão dos anões, ou julgava que sabia, e disse a si mesmo:
— Muito bem! Veremos! Nenhum tesouro atravessará a Floresta das Trevas sem que eu me pronuncie sobre o assunto. Mas acho que eles vão se sair mal, e que isso lhes sirva de lição! — Fosse como fosse, ele não acreditava em anões lutando e matando dragões como Smaug, e tinha fortes suspeitas de uma tentativa de roubo ou coisa do tipo, o que mostra que ele era um elfo sábio, mais sábio que os homens da cidade, embora não estivesse muito certo, como veremos no final. Mandou que espiões seus se infiltrassem pelas margens do lago e avançassem o máximo possível pelo norte na direção da Montanha, e aguardou.
Ao fim de duas semanas Thorin começou a pensar em partir. Deveriam conseguir ajuda enquanto ainda durava o entusiasmo na cidade. Não adiantaria nada esperar que as coisas esfriassem com a demora. Então falou ao Senhor e a seus conselheiros, e disse que ele e sua companhia deveriam partir em breve na direção da Montanha.
Então, pela primeira vez, o Senhor ficou surpreso e um pouco assustado e imaginou se, afinal de contas, Thorin não era mesmo um descendente dos antigos reis. Nunca imaginara que os anões realmente ousariam aproximar-se de Smaug. Acreditava que eram impostores que, mais cedo ou mais tarde, seriam descobertos e desmascarados.
Estava enganado.
Thorin, é claro, era realmente o neto do Rei sob a Montanha, e ninguém sabe o que um anão é capaz de ousar ou fazer por vingança ou para recuperar o que é seu. Mas o Senhor não ficou consternado por deixá-los ir. Eram hóspedes caros, e a sua chegada transformara tudo num longo feriado no qual os negócios ficaram em total marasmo. Que vão incomodar Smaug, e vejam como ele os recebe!, pensou ele.
— Certamente, ó, Thorin, filho de Thrain, filho de Thror! — foi isso o que disse. — Devem reivindicar o que lhes pertence. É chegado o tempo outrora anunciado. Toda a ajuda que eu puder oferecer-lhes será sua, e confiamos na sua gratidão quando o seu reino for reconquistado.
Assim, um dia, embora o outono já estivesse bem avançado, os ventos soprassem frios e as folhas caíssem depressa, três grandes barcos partiram da Cidade do Lago, carregados de remadores, anões, o Sr. Bolseiro e muitas provisões. Cavalos e pôneis haviam sido enviados por tortuosas trilhas para encontrá-los no ancoradouro previamente determinado. O Senhor e seus conselheiros desejaram-lhes boa viagem nas grandes escadarias do salão da cidade que desciam para o lago. Pessoas cantavam nos ancoradouros e nas janelas. Os remos afundavam na água, e eles partiram para o norte, subindo o lago na última etapa de sua longa jornada. A única pessoa completamente infeliz era Bilbo.

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