25 de março de 2016

Capítulo VII - Estranhos alojamentos

No dia seguinte Bilbo acordou com os primeiros raios do sol batendo em seus olhos. Levantou-se num salto para ver as horas e pôr a chaleira no fogo — e percebeu que não estava em casa. Sentou-se e desejou em vão poder se lavar e pentear. Não conseguiu nem uma coisa nem outra, nem chá nem torradas, nem toucinho para o desjejum, apenas carne fria de carneiro e coelho. E depois daquilo teve de aprontar-se para enfrentar outro dia.
Desta vez permitiram que subisse no dorso de uma águia e se segurasse no meio das asas. O vento batia-lhe no rosto e ele fechou os olhos. Os anões gritavam adeus e prometiam recompensar o Senhor das Águias se algum dia tivessem a oportunidade, enquanto quinze grandes aves alçavam voo da encosta da montanha. O sol ainda estava perto da borda leste das coisas. A manhã estava fria, e a névoa enchia os vales e recôncavos, enrolando-se aqui e ali ao redor dos picos e pináculos das montanhas. Bilbo abriu um olho para dar uma espiada e viu que as aves já voavam alto, o mundo ficava distante, e as montanhas sumiam na distância.
Fechou os olhos de novo e segurou mais forte.
— Não belisque! — disse a sua águia. — Não precisa ficar amedrontado feito um coelho, mesmo parecendo um. A manhã está bonita, com pouco vento. O que pode ser melhor que voar?
Bilbo teria gostado de dizer: “Um banho quente e depois um desjejum tardio no gramado”, mas achou melhor não dizer nada, e afrouxou as mãos só um pouquinho. Depois de um bom tempo as águias devem ter avistado o ponto para onde se dirigiam, mesmo da altura em que se encontravam, pois começaram a descer, desenhando grandes espirais. Fizeram isso por um longo período, e por fim o hobbit abriu os olhos de novo. A terra estava bem mais próxima, e embaixo deles havia árvores que pareciam carvalhos e olmos, amplos descampados e um rio que atravessava tudo.
Mas, surgindo da terra, bem no caminho do rio que a contornava, havia uma grande rocha, quase uma colina de pedra, como que um último posto avançado das distantes montanhas, ou um enorme pedaço de rocha jogado a milhas de distância planície adentro por algum gigante entre gigantes.
As águias desceram rápidas para o topo da rocha, uma a uma, e apearam seus passageiros.
— Boa viagem! — gritaram elas —, por onde quer que viajem antes que seus ninhos os recebam no fim do caminho! — É a coisa educada que se deve dizer entre as águias.
— Que o vento sob suas asas possa levá-las para onde o sol navega e a lua caminha — respondeu Gandalf, que sabia a resposta correta.
E assim se despediram. E embora o Senhor das Águias, nos tempos que se seguiram, tenha se transformado no Senhor de Todas as Aves, usando uma coroa de ouro, e seus quinze líderes, colares dourados (feitos do ouro que os anões lhes deram), Bilbo nunca chegou a revê-los — a não ser ao longe, nas alturas, na batalha dos Cinco Exércitos. Mas como isso aparece no fim desta história, não vamos contar mais nada agora.
Havia um espaço plano no topo da colina de pedra e uma trilha gasta com muitos degraus, que conduzia para o rio lá embaixo, através do qual um vau de enormes pedras chatas levava ao prado além das águas. Via-se uma pequena caverna (um lugar acolhedor, com o chão de seixos ao pé dos degraus e perto da extremidade do vau rochoso. Ali o grupo se reuniu e discutiu o que deveria ser feito.
— Minha intenção sempre foi fazê-los atravessar a salvo (se possível) as montanhas — disse o mago — e agora, graças ao bom planejamento e à boa sorte, consegui. Na verdade, agora estamos muito mais ao leste do que jamais pensei em vir com vocês, pois, afinal de contas, esta aventura não é minha. Posso envolver-me nela outra vez antes do fim, mas, enquanto isso, tenho alguns negócios urgentes para resolver.
Os anões gemeram e pareciam extremamente abatidos, Bilbo chorou. Tinham começado a pensar que Gandalf iria acompanhá-los o tempo todo, e sempre estaria ali para ajudá-los a se livrarem das dificuldades.
— Não vou desaparecer neste instante — disse ele. — Posso lhes conceder mais um ou dois dias. Provavelmente posso ajudá-los a sair desta situação, e eu mesmo preciso de alguma ajuda. Estamos sem comida, sem bagagem e sem pôneis para montar, e vocês não sabem onde estão. Posso lhes dizer agora. Estão ainda algumas milhas ao norte da trilha que deveríamos estar seguindo, se não tivéssemos deixado a passagem das montanhas às pressas. Pouquíssimas pessoas vivem nestas partes, a não ser que tenham vindo para cá depois da última vez que estive por aqui, o que já faz alguns anos. Mas existe alguém que eu conheço, e que não mora muito longe. Esse Alguém fez os degraus na grande rocha, a Carrocha, creio que ele a chama assim. Não vem aqui com frequência, com certeza não durante o dia, e não adianta ficarmos esperando que venha. Na verdade, seria muito perigoso. Precisamos ir procurá-lo e, se tudo correr bem no nosso encontro, acho que vou embora e desejar, como as águias, “boa viagem, por onde quer que viajem!”
Imploraram para que o mago não os abandonasse. Ofereceram-lhe ouro de dragão, prata e pedras preciosas, mas ele não mudou de ideia.
— Vamos ver, vamos ver! — disse ele —, e acho que já ganhei uma parte do seu ouro de dragão... quando o tiverem conseguido.
Depois disso, pararam de implorar. Tiraram as roupas e se banharam no rio, que no vau era raso, cristalino e pedregoso. Após se secarem ao sol, que agora estava forte e quente, sentiram-se reconfortados, apesar de ainda doloridos e com um pouco de fome. Logo atravessaram o vau (carregando o hobbit) e começaram a avançar através da grama verde e alta e das fileiras de carvalhos de braços largos e de altos olmos.
— E por que isto aqui se chama Carrocha? — perguntou Bilbo, que ia ao lado do mago.
— Ele a chamou de Carrocha porque carrocha é o nome que dá para isso. Ele chama coisas assim de carrochas, e esta uma é a Carrocha porque é a única perto de sua casa e ele a conhece bem.
— Quem a chama? Quem a conhece?
— O Alguém de quem falei, uma grande pessoa. Vocês todos devem ser muito educados quando eu os apresentar. Vou apresentá-los devagar, dois a dois, eu acho, e vocês devem tomar cuidado para não irritá-lo, caso contrário, sabe-se lá o que pode acontecer. Ele pode ser terrível quando se enfurece, embora seja bastante gentil quando está de bom humor. Ainda assim aviso que ele se enfurece com facilidade.
Todos os anões se juntaram em volta quando ouviram o mago falando daquela maneira com Bilbo.
— É essa a pessoa a quem você está nos levando agora? — perguntaram eles. — Não poderia achar alguém menos irritável? Não seria melhor explicar tudo um pouco melhor? — e assim por diante.
— Claro que é! Não, não posso! E eu estava explicando com todo o cuidado — respondeu o mago, zangado. — Se querem saber mais, o nome dele é Beorn. É muito forte e é um troca-peles.
— Quê? Um peleiro, um homem que chama coelhos de estolas, quando não transforma suas peles em casaco de esquilo? — perguntou Bilbo.
— Ai, céus, não, não, não, NÃO! — disse Gandalf. — Não seja idiota, senhor Bolseiro, se puder evitar, e em nome do que há de mais sagrado, não volte a mencionar a palavra “peleiro” enquanto estiver num raio de cem milhas da casa dele, nem tapete, pelerine, palatina, regalo, nem qualquer outra dessas palavras infelizes! Ele é um troca-peles. Ele troca de pele: algumas vezes é um enorme urso negro, outras é um homem grande e forte, de cabelos negros, com enormes braços e longas barbas. Há pouco mais que eu possa dizer, mas isto deve ser suficiente. Alguns dizem que é um urso descendente dos grandes e antigos ursos das montanhas, que viveram lá antes da chegada dos gigantes. Outros dizem que é um homem descendente dos primeiros homens que viveram antes que Smaug ou os outros dragões viessem para esta parte do mundo, e antes que os orcs viessem do norte e invadissem as colinas. Não sei dizer, embora imagine que a última história seja a verdadeira. Ele não é o tipo de pessoa a quem se fazem perguntas.
— De qualquer forma, ele não está sob nenhum encantamento, a não ser o seu próprio. Mora numa floresta de carvalhos e tem uma grande casa de madeira, e, como homem, tem gado e cavalos que são quase tão maravilhosos como ele. Trabalham para ele e conversam com ele. Ele não os come, nem caça ou come animais selvagens. Tem muitas colmeias de grandes abelhas ferozes, e sobrevive principalmente de creme e mel. Como urso, percorre um longo e vasto território. Uma vez eu o vi de noite sentado sozinho no topo da Carrocha, observando a lua que afundava na direção das Montanhas Sombrias, e o ouvi resmungar na língua dos ursos: “Dia virá em que desaparecerão e eu voltarei!” É por isso que acredito que ele mesmo tenha surgido das montanhas.
Bilbo e os anões tinham muito em que pensar, e não perguntaram mais nada. Ainda tinham diante de si um longo caminho a trilhar. Avançavam com dificuldade, vale acima e ladeira abaixo. Ficou muito quente. Algumas vezes descansavam sob as árvores, e nesses momentos Bilbo sentia tanta fome que poderia comer bolotas de carvalho, se alguma já tivesse caído de madura.
Só no meio da tarde notaram que grandes extensões de flores começavam a brotar do chão, todas da mesma espécie, juntas como se tivessem sido plantadas. Em especial havia trevos, extensões ondulantes de trevo-copado, de trevo-vermelho, e largos trechos de pequenos trevos — brancos, com um doce perfume de mel. Ouvia-se um zumbido, um murmúrio, um sussurro no ar. Abelhas trabalhavam por todos os lados. E que abelhas! Bilbo nunca vira nada como elas.

Michael Hagua - Voando com as águias 

“Se uma me picasse”, pensou ele, “eu incharia o dobro de meu tamanho!”
Eram maiores que marimbondos. Os zangões eram maiores que um polegar, bem maiores, e as faixas amarelas nos seus corpos de um negro profundo brilhavam como ouro flamante.
— Estamos chegando perto — disse Gandalf. — Estamos na borda das pastagens de suas abelhas.
Depois de um tempo chegaram a um cinturão de carvalhos altos e muito antigos, atrás destes havia uma alta sebe de espinhos através da qual era impossível enxergar ou passar.
— É melhor esperarem aqui — disse o mago aos anões. — Quando eu chamar ou assobiar, comecem a vir atrás de mim. Vão ver o caminho que farei. Mas apenas aos pares, vejam bem, e esperem uns cinco minutos entre um par e outro. Bombur é o mais gordo, e valerá por dois, é melhor que venha por último e sozinho. Vamos, Sr. Bolseiro! Há um portão em algum lugar por aqui. — E, dizendo isso, foi indo ao longo da sebe, levando consigo o amedrontado hobbit.
Logo chegaram a um portão de madeira, alto e largo, atrás do qual podiam ver jardins e um agregado de construções baixas de madeira, algumas com tetos de palha e feitas de troncos irregulares: celeiros, estábulos, barracões e uma casa de madeira comprida e baixa. Lá dentro, no lado sul da grande sebe, havia fileiras e fileiras de colmeias com topos de palha, em forma de sino. O ruído das abelhas gigantes voando de um lado para o outro, entrando e saindo, enchia o ar.
O mago e o hobbit empurraram o pesado portão, que rangeu ao se abrir, e foram por uma trilha larga na direção da casa. Alguns cavalos, muito lustrosos e bem tratados, vieram trotando pela grama e olharam atentos para eles com feições muito inteligentes, depois foram galopando na direção das construções.
— Foram avisá-lo da chegada de estranhos — disse Gandalf.
Logo chegaram a um pátio, do qual três paredes eram formadas pela casa de madeira e seus dois compridos pavilhões laterais. No meio jazia um grande tronco de carvalho e, ao lado, vários galhos cortados. Perto estava um homem enorme com barba e cabelos negros espessos, os braços e as pernas descobertos, grandes, negros e musculosos. Vestia uma túnica que lhe descia até os joelhos e apoiava-se num grande machado. Os cavalos estavam ao lado, os focinhos à altura de seus ombros.
— Ugh! Aqui estão eles — disse aos cavalos. — Não parecem perigosos. Podem sair! — O homem soltou uma gargalhada estrondosa, pôs o machado no chão e veio em frente. — Quem são vocês e o que querem? — perguntou num tom rude, parado à frente dos dois, sua estatura elevando-se muito acima da de Gandalf.
Quanto a Bilbo, poderia com facilidade passar por baixo das pernas dele, sem abaixar a cabeça para desviar da franja de sua túnica marrom.
— Sou Gandalf — disse o mago.
— Nunca ouvi falar dele — resmungou o homem. — E o que é esse sujeitinho? — perguntou ele, abaixando-se e franzindo as sobrancelhas negras e hirsutas diante do hobbit.
— Este é o Sr. Bolseiro, um hobbit de boa família e reputação inatacável — respondeu Gandalf. Bilbo fez uma reverência. Não tinha chapéu para tirar e estava dolorosamente consciente dos botões que lhe faltavam. — Sou um mago — continuou Gandalf. — Ouvi falar de você, embora não tenha ouvido falar de mim, mas quem sabe ouviu falar em meu primo, Radagast, que mora perto da fronteira sul da Floresta das Trevas?
— Sim, não é um mau sujeito, mesmo sendo um mago, eu acho. Costumava vê-lo de vez em quando — disse Beorn. — Bem, agora sei quem são vocês, ou quem dizem que são. O que querem?
— Para falar a verdade, perdemos nossa bagagem e quase perdemos o caminho, precisamos muito de ajuda, ou pelo menos de conselhos. Posso dizer que passamos maus bocados com os orcs nas montanhas.
— Orcs? — disse o homem grande num tom menos rude. — Ah, ha! Então vocês estiveram tendo problemas com eles, é? Por que se aproximaram deles?
— Não era nossa intenção. Eles nos surpreenderam durante a noite numa passagem que tínhamos de atravessar, estávamos vindo das Terras a Oeste para cá, é uma longa história.
— Então é melhor entrarem e contarem uma parte dela, se não for levar o dia todo — disse o homem mostrando o caminho através de uma porta escura que se abria do pátio para o interior da casa.
Indo atrás dele, os dois viram-se num salão amplo com uma lareira no meio. Embora fosse verão, havia lenha queimando e a fumaça subia até as vigas enegrecidas procurando a saída através de uma abertura no teto.
Atravessaram esse salão escuro, iluminado apenas pelo fogo e pela abertura acima dele, e passaram por uma outra porta menor, por onde entraram num tipo de varanda escorada em postes feitos de grandes troncos de árvores. A varanda dava para o sul e ainda estava quente e cheia da luz do sol, que caia a oeste e a invadia com seus raios oblíquos, deitando-se dourado sobre o jardim cheio de flores que avançava até a escada. Ali sentaram-se em bancos de madeira enquanto Gandalf começava sua história, e Bilbo balançava as pernas penduradas e olhava as flores no jardim, perguntando-se como seriam seus nomes, pois nunca vira antes metade delas.
— Eu estava atravessando as montanhas com um ou dois amigos... — disse o mago.
— Ou dois? Só estou vendo um, e bem pequeno — disse Beorn.
— Bem, para lhe dizer a verdade, não quis incomodá-lo chegando em turma, até descobrir se estava ocupado. Vou chamar, se puder.
— Vamos, chame!
Então Gandalf soltou um assobio longo e agudo, e logo Thorin e Dori contornaram a casa pelo caminho do jardim, pararam diante deles e curvaram-se.
— Um ou três, você quer dizer, pelo que vejo! — disse Beorn. — Mas estes não são hobbits, são anões!
— Thorín Escudo de Carvalho, ao seu serviço! Dori, ao seu serviço! — disseram os dois anões curvando-se outra vez.
— Não preciso do serviço de vocês, obrigado — disse Beom —, mas desconfio de que precisam do meu. Não morro de amores por anões mas se é verdade que você é Thorin (filho de Thrain, filho de Thror, acho eu), e que esse seu companheiro é respeitável, e que vocês são inimigos dos orcs e não estão fazendo nenhuma maldade em minhas terras, por falar nisso, o que estão fazendo aqui?
— Eles estão a caminho para visitar a terra de seus antepassados, lá no leste além da Floresta das Trevas — interrompeu Gandalf —, e o fato de estarmos em suas terras é um mero acidente. Estávamos atravessando a Passagem Alta que nos deveria ter levado até a estrada que fica ao sul de seu território, quando fomos atacados por orcs malignos, como eu ia lhe contar.
— Então continue contando! — disse Beorn, que nunca era muito educado.
— Houve uma terrível tempestade, gigantes de pedra jogavam rochas, e no topo da passagem buscamos refugio numa caverna, o hobbit e eu e vários de nossos companheiros...
— Você chama dois de vários?
— Bem, não. Na realidade, havia mais de dois.
— Onde estão eles? Mortos, devorados, foram para casa?
— Bem, não. Parece que não vieram todos quando eu assobiei. Tímidos, acho eu. Você entende, estamos com um grande receio de sermos muitos para você receber.
— Vamos, assobie de novo! Acho que vou participar de uma festa, ao que parece, e um ou dois a mais não vão fazer diferença — resmungou Beorn.
Gandalf assobiou de novo, mas Nori e Ori já estavam lá, quase antes do assobio terminar, pois, se vocês se lembram, Gandalf tinha lhes dito que chegassem aos pares a cada cinco minutos.
— Olá! — disse Beorn. — Chegaram bem rápido, onde estavam escondidos? Aproximem-se, meus bonecos-de-caixa-de-surpresa!
— Nori, ao seu serviço. Ori a... — começaram eles, mas Beorn interrompeu-os.
— Obrigado! Quando precisar de vocês eu peço. Sentem-se e vamos continuar com a história, ou já será hora da ceia quando tiver terminado.
— Assim que adormecemos — continuou Gandalf —, uma fenda se abriu no fundo da caverna, orcs surgiram e agarraram o hobbit, os anões e nossa tropa de pôneis...
— Tropa de pôneis? O que são vocês um circo itinerante? Ou estavam carregando um monte de mercadorias? Ou será que sempre chamam seis de uma tropa?
— Oh, não! Na verdade, havia mais de seis pôneis, pois havia mais de seis de nós, e, bem, aqui estão mais dois! — Justo nesse momento Balin e Dwalin apareceram e curvaram-se tanto que suas barbas roçaram o chão de pedra.
O homenzarrão franziu a testa no início, mas eles estavam fazendo o possível para ser tremendamente educados, e ficaram balançando as cabeças, curvando-se, fazendo reverências e sacudindo os capuzes diante dos joelhos (bem à moda dos anões), até que ele parou de franzir a testa e explodiu numa gargalhada: eles estavam tão engraçados.
— Tropa, estava certo — disse ele. — Uma tropa bem engraçada. Entrem, alegres homenzinhos, e quais são os seus nomes? Não quero seu serviço agora, só quero seus nomes, depois sentem-se e parem de se balançar!
— Balin e Dwalin — disseram eles, sem ousarem ficar ofendidos, e caíram sentados no chão com um ar bastante surpreso.
— Agora continue outra vez! — disse Beorn para o mago.
— Onde eu estava? Ah, sim! Eu não fui agarrado. Matei um ou dois orcs com um clarão...
— Bem! — resmungou Beorn. — Então ser mago tem algo de bom.
— ... e escorreguei para dentro da fenda antes que ela se fechasse. Fui descendo e cheguei ao salão principal, que estava abarrotado de orcs. O Grão-Orc estava lá com trinta ou quarenta guardas armados. Pensei comigo: “ainda se não estivessem todos acorrentados, o que poderia uma dúzia contra tantos?”

Ted Nasmith - Apresentações a Beorn

— Uma dúzia! É a primeira vez que ouço um grupo de oito ser chamado de uma dúzia. Ou será que você ainda tem mais bonecos que não saíram das caixas de surpresa?
— Bem, sim, agora parece haver mais dois deles aqui... Fili e Kilí eu acho — disse Gandalf, no momento em que os dois apareceram e postaram-se diante dele sorrindo e fazendo reverências.
— Já basta! — disse Beorn. — Sentem-se e fiquem quietos! Agora continue, Gandalf.
Então Gandalf prosseguiu com a história, até chegar a luta no escuro, a descoberta do portão inferior e ao horror que sentiram ao descobrirem que o Sr. Bolseiro se perdera.
— Fizemos uma contagem e vimos que não havia hobbit. Só restavam quatorze de nós.
— Quatorze! Esta é a primeira vez que vejo dez menos um dar quatorze. Você está querendo dizer nove, ou então ainda não me disse todos os nomes de seu grupo.
— Bem, é claro que você ainda não viu Oin e Gloin. E, céus! Aqui estão eles. Espero que os desculpe pelo incômodo.
— Oh, deixe-os vir! Apressem-se! Aproximem-se, vocês dois, e sentem-se! Mas olhe aqui, Gandalf, mesmo agora temos apenas você, dez anões e o hobbit que se perdeu. Isso dá só onze (mais um perdido) e não quatorze, a não ser que os magos contem de um modo diferente do das outras pessoas. Mas agora continue com a história.
Beorn tentava não deixar transparecer, mas começara a ficar muito interessado. Vocês entendem, nos dias antigos ele conhecera justamente aquela parte das montanhas que Gandalf estava descrevendo. Balançou a cabeça e resmungou ao ouvir sobre o reaparecimento do hobbit, a descida durante a avalanche e o círculo de lobos na floresta. Quando Gandalf chegou ao momento em que subiram nas árvores com os lobos todos lá embaixo, Beorn levantou-se, pôs-se a andar de um lado para o outro e murmurou:
— Gostaria de ter estado lá! Teria oferecido mais do que fogos de artifício.
— Bem — disse Gandalf, muito satisfeito em ver que sua história estava causando uma boa impressão, — fiz o melhor que pude. Ali estávamos nós, com lobos enfurecidos lá embaixo e a floresta começando a queimar aqui e acolá, quando os orcs desceram das colinas e nos descobriram. Gritaram de prazer e cantaram canções zombando de nós. Em cinco pinheiros quinze passarinhos...
— Céus! — resmungou Beorn. — Não me diga que os orcs não sabem contar. Eles sabem. Doze não são quinze, e eles sabem disso.
— E eu também sei. Havia também Bifur e Bofur. Não ousei apresentá-los antes, mas aqui estão eles.
Chegaram Bifur e Bofur.
— E eu! — disse Bombur, que vinha ofegante logo atrás. Era gordo e além disso estava zangado por ter sido deixado por último. Recusou-se a esperar cinco minutos, e veio imediatamente após os outros dois.
— Bem, agora vocês são quinze, e já que os orcs sabem contar, imagino que é tudo o que havia nas árvores. Agora talvez possamos terminar a história sem mais nenhuma interrupção.
O Sr. Bolseiro percebeu como Gandalf fora esperto. As interrupções realmente tinham deixado Beorn mais interessado na história, e a história tinha evitado que ele mandasse os anões embora imediatamente, como se fossem mendigos suspeitos. Ele nunca convidava ninguém para sua casa, se pudesse evitar. Tinha muito poucos amigos e estes viviam a uma boa distância, nunca convidava mais do que uns dois amigos de cada vez. Agora estava com quinze estranhos em seu alpendre!
Quando Gandalf tinha terminado a história e contado do resgate das águias e de como elas os haviam trazido até a Carrocha, o sol já desaparecera atrás dos picos das Montanhas Sombrias e as sombras estavam alongadas no jardim de Beorn.
— Uma história muito boa! — disse ele. — A melhor que escutei em muito tempo. Se todos os mendigos pudessem contar uma história tão boa, talvez me achassem mais gentil. Vocês podem estar inventando tudo, é claro, mas assim mesmo merecem uma ceia pela história. Vamos comer alguma coisa.
— Sim, vamos! — disseram todos juntos. — Muito obrigado.
Estava bem escuro dentro do salão. Beorn bateu palmas e entraram trotando quatro belos pôneis brancos e vários cães grandes, cinzentos e de corpo alongado. Beorn disse-lhes algo numa língua estranha, que parecia ruídos animais transformados em fala. Eles saíram de novo e logo voltaram carregando tochas na bocas, que acenderam na fogueira e colocaram em suportes baixos nos pilares do salão, ao redor da lareira central. Os cães conseguiam ficar de pé nas patas traseiras quando desejavam, e carregar coisas com as patas dianteiras. Logo tiraram tábuas e cavaletes das paredes laterais e montaram mesas perto do fogo.
Então, ouviu-se um méé-méé-méé! E entraram algumas ovelhas brancas como a neve conduzidas por um grande carneiro da cor do carvão. Uma delas trazia uma toalha branca bordada nas extremidades com figuras de animais, outras traziam nos dorsos largos bandejas com tigelas, pratos, facas e colheres de pau, que os cães pegaram e logo colocaram nas mesas. Estas eram muito baixas, baixas o bastante até para Bilbo sentar-se confortavelmente. De um lado da mesa um pônei empurrou dois bancos baixos, com assentos largos de junco e pernas pequenas e curtas para Gandalf e Thorin, enquanto na outra extremidade colocou a grande cadeira preta de Beorn, do mesmo tipo (na qual ele se sentou esticando bem as longas pernas embaixo da mesa). Eram todas as cadeiras que havia em sua casa, e provavelmente eram baixas como as mesas para a conveniência dos maravilhosos animais que o serviam. E onde os outros se sentaram? Eles não foram esquecidos. Os outros pôneis entraram rolando pedaços de troncos cilíndricos, desbastados e polidos, e baixos o suficiente até para Bilbo, assim logo estavam todos sentados à mesa de Beorn, e havia muitos anos o salão não reunia tantas pessoas assim.
Ali fizeram uma ceia, ou um jantar, como não faziam desde que haviam deixado a Última Casa Amiga no Oeste e dito adeus a Elrond. A luz das tochas e do fogo bruxuleava ao redor deles, e sobre a mesa havia duas velas de cera de abelha, longas e vermelhas. Durante toda a refeição, Beorn, com sua voz grave e retumbante, contou histórias das terras selvagens daquele lado das montanhas, e especialmente da mata escura e perigosa que se estendia ao norte e ao sul, a um dia de cavalgada, barrando-lhes o caminho para o leste, a terrível Floresta das Trevas.
Os anões ouviam e balançavam as barbas, pois sabiam que logo deveriam se aventurar por aquela floresta e que, depois das montanhas, ela era o pior dos perigos que tinham de enfrentar antes de chegarem à fortaleza do dragão. Quando o jantar terminou, começaram a contar histórias suas, mas Beorn parecia estar ficando com sono e prestava pouca atenção. Falaram principalmente de ouro, prata e pedras preciosas e sobre a fabricação de objetos de ourivesaria, e Beorn não parecia ligar para essas coisas: não havia objetos de ouro ou prata em seu salão e, exceto pelas facas, poucos eram de metal.
Ficaram sentados à mesa por um longo tempo, as tigelas de madeira cheias de hidromel. A noite escura chegou lá fora. Acendeu-se o fogo no meio do salão com lenha nova, as tochas foram apagadas, e, ainda assim, continuavam sentados à luz das chamas dançantes, os pilares da casa erguendo-se altos atrás deles, escuros no topo como as árvores da floresta. Fosse ou não por mágica, Bilbo teve a impressão de ouvir soprando nas vigas um som como o do vento nos galhos e o piar de corujas.
Logo começou a cabecear de sono, e as vozes começaram a ficar distantes, até que ele acordou assustado.
A grande porta tinha rangido e batido. Beorn se fora. Os anões estavam sentados, de pernas cruzadas, no chão ao redor do fogo, e de repente começaram a cantar.
Alguns dos versos eram assim, mas havia muitos mais, e a cantoria se estendeu por um bom tempo.

No campo ressecado vento havia,
mas na floresta nada se movia.
Trevas soturnas, diurnas, noturnas,
coisas turvas o calor escondia.
O vento desceu dos montes gelados,
rugindo em ondas qual mar agitado,
os ramos fremiam, a floresta bramia,
de folhas o chão estava forrado
De Oeste para Leste o vento em festa,
cessara o movimento na floresta,
mas aguda e fatal, pelo pantanal,
sua voz sibilante uiva e protesta.
Assobia o capim curvando as flores,
batem os juncos, seguem-se temores
sobre o lago agitado um céu calado
nuvens correndo rasgadas e horrores.
As desertas montanhas lá se vão,
Varre ele agora a toca do dragão
trevas e negrume, pedras em cardume,
fumaça impregna o ar de escuridão.
Deixa o mundo e sua fuga continua,
sobre os mares da noite ele recua.
Ao som doce da brisa a lua desliza,
acende -se uma estrela e a luz flutua.

Bilbo começou a cabecear de novo. De repente levantou-se Gandalf.
— É hora de dormirmos — disse ele — nós, mas não Beorn, acho eu. Neste salão podemos descansar sãos e salvos, mas advirto todos vocês para que não se esqueçam do que Beorn disse antes de sair: não devem sair da casa antes que o sol tenha nascido, pois estariam se expondo a risco.
Bilbo viu que já haviam sido preparadas camas na lateral do salão, numa espécie de plataforma elevada entre os pilares e a parede externa. Para ele havia um pequeno colchão de palha e cobertores de lã. Enrolou-se neles todo contente, embora fosse verão. O fogo ardia baixo e ele adormeceu. Mas durante a noite acordou: o fogo reduzira-se a umas poucas brasas, os anões e Gandalf estavam todos dormindo, a julgar pela sua respiração, a lua alta, que espiava através da abertura no teto, lançava uma mancha branca sobre o chão.
Havia lá fora um rosnado, e um ruído como o de algum animal grande arranhando a porta. Bilbo perguntou-se o que era aquilo, se poderia ser Beorn transformado por encanto, e se ele entraria ali como um urso e os mataria. Afundou-se nos cobertores, escondeu a cabeça, e finalmente adormeceu outra vez, apesar de seus receios.
A manhã já avançava quando acordou. Um dos anões caíra sobre ele nas sombras onde estava, e com um baque rolara da plataforma para o chão.
Era Bofur, que resmungava sobre o acontecido, quando Bilbo abriu os olhos.
— Levante-se, preguiçoso — disse ele —, ou não vai sobrar desjejum para você.
Bilbo levantou-se de um salto.
— Desjejum! — exclamou ele. — Onde está o desjejum?
— A maior parte já está dentro de nossas barrigas — responderam os outros anões que andavam pelo salão —, mas o que sobrou está lá na varanda. Estivemos procurando Beorn desde que o sol nasceu, mas não há sinal dele em lugar nenhum, embora tenhamos encontrado o desjejum servido assim que saímos.
— Onde está Gandalf? — perguntou Bilbo, correndo para encontrar algo que comer o mais rápido possível.
— Ah!, em algum lugar por aí — disseram eles. Mas Bilbo não viu sinal do mago durante todo o dia, até o fim da tarde. Um pouco antes do pôr-do-sol ele entrou no salão, onde o hobbit e os anões estavam ceando, servidos pelos maravilhosos animais de Beorn, como acontecera durante todo o dia.
De Beorn não haviam ouvido ou visto nada desde a noite anterior, e estavam ficando perplexos.
— Onde está nosso anfitrião e onde você andou o dia todo? — gritaram todos.
— Uma pergunta de cada vez, e nenhuma até depois da ceia! Não comi nada desde o desjejum.
Por fim Gandalf empurrou seu prato e caneca (comera dois pães inteiros, com montes de manteiga, mel e creme azedo, e bebera pelo menos dois quartilhos de hidromel) e pegou o cachimbo.
— Vou responder a segunda pergunta primeiro — disse ele —, mas vejam só! Este é um lugar esplêndido para anéis de fumaça! — Na verdade, por um longo tempo, não conseguiram arrancar mais nada dele, estava ocupado, soltando anéis de fumaça que se esgueiravam pelos pilares do salão, transformando-os nas mais variadas formas e cores, e mandando-os por fim. Um atrás do outro, pela abertura no teto. Vistos do lado de fora, deviam parecer muito esquisitos, aparecendo no ar um após o outro, verdes, azuis, vermelhos, prateados, amarelos, brancos, grandes, pequenos, pequenos esgueirando-se no meio dos grandes, juntando-se em formatos de oito, sumindo como um bando de pássaros na distância.
— Estive procurando pegadas de ursos — disse ele, finalmente. — Deve ter havido uma verdadeira reunião de ursos aqui fora ontem à noite. Logo vi que Beorn não poderia ter feito todas aquelas pegadas: havia muitas e eram também de vários tamanhos. Diria que havia ursos pequenos, ursos grandes, ursos comuns e ursos gigantescos, todos dançando lá fora desde o cair da noite até o nascer do dia. Vieram praticamente de todas as direções, exceto do oeste, do outro lado do rio, das Montanhas. Naquela direção havia apenas um conjunto de pegadas, nenhuma vindo, apenas pegadas indo embora. Segui-as até a Carrocha. Ali desapareceram no rio, mas a água era muito funda e forte além da rocha para que eu pudesse atravessar. É muito fácil, como vocês lembram, chegar desta margem até a Carrocha através do vau, mas do outro lado há um penhasco que se ergue de um canal de águas em torvelinho. Tive de andar milhas até encontrar um lugar onde o rio fosse largo e raso o suficiente para que eu pudesse caminhar e nadar, e depois mais milhas de volta para encontrar as pegadas de novo. Já era tarde para segui-las muito longe. Iam direto para os bosques de pinheiros, do lado leste das Montanhas Sombrias, onde tivemos nossa agradável festinha com os wargs na noite de anteontem. E agora acho que também respondi sua primeira pergunta — terminou Gandalf, e permaneceu sentado em silêncio por um longo tempo.
Bilbo achava que sabia o que o mago queria dizer.
— O que vamos fazer? — exclamou ele. — Se ele conduzir todos os wargs e orcs até aqui? Seremos todos pegos e devorados! Pensei que você tinha dito que ele não era amigo dessas criaturas.
— E disse mesmo. E não seja tolo! É melhor ir para a cama. Sua inteligência está com sono.
O hobbit sentiu-se aniquilado e, como parecia não haver mais nada a fazer, ele realmente foi para a cama e, enquanto todos os anões ainda estavam cantando, adormeceu, ainda quebrando a cabecinha com Beorn, até que sonhou com centenas de ursos negros dançando danças lentas e pesadas, rodando, rodando no pátio à luz do luar.
Acordou quando estavam todos dormindo e novamente ouviu arranharem e rosnarem à porta.
Na manhã seguinte todos foram acordados pelo próprio Beom.
— Então ainda estão aqui! — disse ele. Levantou o hobbit e riu: — Ainda não foi devorado por wargs, orcs ou ursos malvados, pelo que estou vendo — cutucou o colete do Sr. Bolseiro sem o menor respeito. — O coelhinho está ficando fofito e gordinho de novo, à custa de pão e mel — disse ele, rindo à socapa. — Venha e coma mais um pouco!
Assim foram todos fazer o desjejum com ele. Beorn estava muito alegre, para variar, na verdade parecia estar num humor esplêndido, e pôs todos a rir com suas histórias engraçadas, nem tiveram de pensar muito para saber onde estivera ou por que estava sendo tão agradável com eles, pois ele mesmo disse. Atravessara o rio e fora até as montanhas, pelo que vocês podem adivinhar que ele podia viajar depressa, na forma de urso, pelo menos. Pela clareira queimada dos lobos, logo descobriu que parte da história deles era verdadeira, mas descobrira mais do que isso: pegou um warg e um orc vagando na floresta. Destes conseguira notícias: as patrulhas dos orcs, junto com os wargs, ainda estavam caçando os anões, e estavam terrivelmente zangados por causa da morte do Grão-Orc, e também por causa da queimadura no focinho do lobo chefe e da morte de muitos de seus principais servidores causada pelo fogo do mago. Contaram-lhe essas coisas quando forçados por Beorn, mas ele desconfiava que mais maldade estava a caminho, e que nas terras cobertas pelas sombras das montanhas poderia em breve acontecer um grande ataque de todo o exército orc, com seus aliados lobos, à procura dos anões, ou para vingarem-se dos homens e criaturas que lá viviam, que eles julgavam estarem lhes dando proteção.
— Foi uma história muito boa, aquela que vocês contaram — disse Beorn, — mas gosto mais dela agora que sei que é verdadeira. Devem perdoar-me por não ter aceitado a palavra de vocês. Se morassem perto das bordas da Floresta das Trevas, não acreditariam nas palavras de ninguém, a não ser que o conhecessem como a seu próprio irmão, ou melhor. Sendo as coisas como são, só posso dizer que corri para casa tão rapidamente quanto pude para ver se estavam a salvo e para oferecer-lhes qualquer ajuda que estiver ao meu alcance. Pensarei nos anões com mais respeito depois disto. Mataram o Grão-Orc, mataram o Grão-Orc! — disse ele, rindo consigo mesmo.
— O que você fez com o orc e o warg? — perguntou Bilbo, de repente.
— Venham ver! — disse Beorn, e todos o seguiram dando a volta na casa.
Havia uma cabeça de orc espetada do lado de fora do portão, e uma pele de lobo estava pregada em uma árvore logo atrás. Beorn era um inimigo feroz. Mas agora era amigo deles, e Gandalf julgou sensato contar-lhe toda a história e o motivo da viagem, para que pudessem conseguir toda a ajuda que Beorn pudesse oferecer.
Eis o que prometeu fazer por eles. Arranjaria pôneis para cada um, e um cavalo para Gandalf, para a viagem pela floresta, e iria providenciar um carregamento de comida que duraria semanas se consumido com parcimônia, embalado de modo fácil de carregar: castanhas, farinha, potes lacrados de frutas secas e vasilhas de barro vermelho cheias de mel, biscoitos que se conservariam por longo tempo e que, mesmo em pequena quantidade, levariam os viajantes bem longe. O modo de preparar esses biscoitos era um dos segredos de Beorn, mas havia mel neles, como na maioria das comidas que fazia, e eram saborosos, embora provocassem sede.
Água, disse ele, não precisaram carregar daquele lado da floresta, pois havia rios e fontes ao longo da estrada.
— Mas seu caminho através da Floresta das Trevas é escuro, difícil e perigoso — disse ele. — Não é fácil achar água lá, nem comida. Ainda não é tempo de castanhas (embora possa já ter passado quando chegarem ao outro lado), e castanhas são a única coisa comestível que cresce por lá, ali os seres selvagens são escuros, estranhos e brutos. Vou dar-lhes odres para que possam levar água e alguns arcos e flechas. Mas duvido que alguma coisa que encontrem na Floresta das Trevas seja apropriada para comer ou beber. Há um rio ali, eu sei, negro e de correnteza forte, que atravessa a trilha. Não devem beber nem banhar-se na sua água, pois ouvi dizer que carrega encantamento, e causa grande sonolência e esquecimento. E, nas sombras escuras daquele lugar, não acho que possam atirar em coisa alguma, comestível ou não, sem saírem da trilha. E isso vocês NÃO DEVEM FAZER, por motivo nenhum. É todo o conselho que posso lhes dar. Além da floresta não posso ajudar muito, devem depender de sua própria sorte e coragem, e da comida que mando com vocês. Na entrada da floresta, devo pedir que mandem de volta o cavalo e os pôneis. Mas desejo-lhes toda a sorte, e minha casa estará aberta se algum dia voltarem por este caminho.
Eles agradeceram, é claro, com muitas reverências e acenos de capuzes, além de inúmeros “ao seu dispor, ó, mestre dos amplos salões de madeira!” Mas os espíritos abateram-se diante daquelas palavras graves, e todos sentiam que a aventura era muito mais perigosa do que haviam imaginado, que, o tempo todo, mesmo que conseguissem passar por todos os perigos da estrada, o dragão estaria esperando no fim.
Durante toda aquela manhã ocuparam-se dos preparativos. Logo depois do meio-dia, comeram com Beorn pela última vez e, depois da refeição, montaram nos animais que ele lhes emprestava, e com muitas despedidas passaram pelo portão em bom passo.
Assim que deixaram as altas sebes a leste das terras de Beom, viraram para o norte e depois para noroeste. Seguindo seu conselho, não mais rumavam para a estrada principal da floresta, que ficava ao sul de suas terras. Se seguissem o passo, a trilha os levaria até um riacho que vinha das montanhas e desembocava no grande rio milhas ao sul da Carrocha. Naquele ponto havia um vau profundo, que poderiam atravessar se ainda estivessem com os pôneis, e, mais além, uma trilha que conduzia à orla da mata e ao início da antiga estrada da floresta. Mas Beorn prevenira-os de que aquele caminho era muito usado por orcs, enquanto a própria estrada da floresta ouvira ele dizer, estava coberta de mato e não era usada na extremidade leste, e conduzia a pântanos intransponíveis onde as trilhas tinham se perdido havia muito tempo. Sua abertura leste também localizara-se sempre muito ao sul da Montanha Solitária e, assim, ainda lhes restaria uma marcha longa e difícil para o norte quando chegassem ao outro lado.
Ao norte da Carrocha, a fronteira da Floresta das Trevas aproximava-se da margem do Grande Rio e, embora ali também as Montanhas estivessem mais perto, Beorn aconselhou-os a seguirem aquele caminho, pois, num local ao norte da Carrocha, a poucos dias de cavalgada, estava o início de uma trilha pouco conhecida, que atravessava a Floresta das Trevas e levava quase em linha reta na direção da Montanha Solitária.
— Os orcs — dissera Beorn — não ousarão atravessar o Grande Rio cem milhas ao norte da Carrocha, nem chegar perto de minha casa (ela fica bem protegida a noite!), mas eu cavalgaria rápido, pois, se eles atacarem logo, vão atravessar o rio ao sul e varrer toda a orla da floresta a fim de interceptá-los, e wargs correm mais que pôneis. Vocês ainda estarão mais seguros indo para o norte, embora pareçam estar aproximando-se outra vez das fortalezas deles, pois isso é o que eles menos esperam e vão fazer o caminho mais longo para pegá-los. Agora partam com a maior rapidez possível!
Era por isso que agora cavalgavam em silêncio, galopando nos trechos onde o chão era gramado e macio, com as montanhas escuras à esquerda e, na distância, a linha do rio com suas árvores cada vez mais próximas, o sol acabava de voltar-se para o oeste quando partiram e até o começo da noite ainda espalhava seus raios dourados sobre a terra ao redor deles. Era difícil imaginar orcs perseguindo-os, e quando muitas milhas os separavam da casa de Beorn começaram a conversar e cantar de novo, esquecendo-se da escura trilha da floresta que os aguardava à frente. Mas, no fim da tarde, quando chegou o crepúsculo e os picos das montanhas brilhavam ao pôr-do-sol, fizeram um acampamento e colocaram um vigia, e a maior parte deles dormiu um sono inquieto e sonhou com o uivar dos lobos caçadores e os gritos dos orcs.
Apesar disso, a manhã seguinte raiou clara e bela de novo. Havia uma névoa outonal, branca sobre o solo, e o ar estava frio, mas logo o sol surgiu vermelho no leste e a névoa desapareceu, e enquanto as sombras ainda estavam alongadas, partiram de novo.
Assim cavalgaram por mais dois dias e durante todo esse tempo não viram nada, a não ser grama, flores, pássaros, árvores espalhadas e, ocasionalmente, pequenos bandos de cervos vermelhos pastando ou deitados à sombra ao meio-dia.
Às vezes Bilbo via os chifres dos veados aparecendo em meio ao capim alto e, a principio, imaginava que fossem galhos mortos de árvores. Naquela terceira tarde estavam tão ansiosos por avançar, pois Beorn dissera que chegariam à entrada da floresta no início do quarto dia, que continuaram cavalgando depois do crepúsculo e noite adentro, sob a lua. À medida que a luz desaparecia Bilbo teve a impressão de ver na distância, à direita ou à esquerda, a forma sombria de um grande urso, avançando sorrateiro na mesma direção. Mas quando ousou mencionar isso a Gandalf, o mago apenas disse:
— Psiu! Ignore.
No dia seguinte partiram antes da aurora, embora a noite tivesse sido curta. Tão logo a luz apareceu puderam ver a floresta vindo, por assim dizer, ao encontro deles, ou aguardando-os como uma muralha negra e sisuda. O terreno começou a subir cada vez mais, e o hobbit tinha a impressão de que um silêncio começava a envolvê-los. Os pássaros passavam a cantar menos. Não havia mais cervos, não se viam nem mesmo coelhos. À tarde tinham atingido a fronteira da Floresta das Trevas, e descansavam quase embaixo dos grandes ramos que se projetavam das árvores da orla. Os troncos eram enormes e nodosos, os galhos retorcidos, as folhas escuras e longas. A hera crescia sobre as árvores e arrastava-se pelo chão.
— Bem, aqui está a Floresta das Trevas! — disse Gandalf. — A maior das florestas do mundo do norte. Espero que gostem do aspecto dela. Agora devem mandar de volta esses excelentes pôneis que tomaram emprestados.
Os anões estavam inclinados a reclamar, mas o mago disse-lhes que eram tolos.
— Beorn não está tão longe como vocês parecem imaginar e, de qualquer forma, é melhor manterem suas promessas, pois ele é um inimigo feroz. Os olhos do Sr. Bolseiro são mais penetrantes que os seus, se não viram todas as noites, depois de escurecer, um grande urso nos acompanhando ou sentado a distância à luz da lua, vigiando nossos acampamentos. Não só para protegê-los e guiá-los, mas também para vigiar os pôneis. Beorn pode ser seu amigo, mas ama seus animais como se fossem seus filhos. Vocês não imaginam a gentileza que demonstrou permitindo que anões os cavalgassem tão depressa e tão longe, nem o que lhes aconteceria se tentassem levá-los para dentro da floresta.
— E o cavalo, então? — disse Thorin. — Você não disse nada sobre mandá-lo de volta.
— Não disse porque não vou mandá-lo.
— E como fica a sua promessa então?
— Vou mantê-la. Não vou mandar o cavalo de volta, vou montado nele até lá!
Ficaram então sabendo que Gandalf ia abandoná-los bem na fronteira da Floresta das Trevas, e se desesperaram. Mas nada que dissessem iria fazê-lo mudar de ideia.
— Ora, nós tínhamos discutido tudo isso antes, quando chegamos à Carrocha — disse ele. — Não adianta discutir. Tenho, como já lhes disse, alguns negócios urgentes no sul, e já estou atrasado de tanto me ocupar com vocês. Podemos nos encontrar de novo antes que tudo esteja terminado, e também podemos não nos encontrar. Isso depende de sua sorte, coragem e bom senso, e estou mandando o Sr. Bolseiro com vocês. Já lhes disse antes que ele é mais do que imaginam, e logo descobrirão isso. Então, anime-se, Bilbo, e não fique com essa cara amarrada. Animem-se, Thorin e Companhia! Afinal de contas, essa expedição é sua. Pensem no tesouro no final, e esqueçam a floresta e o dragão, pelo menos até amanhã cedo!
Quando o “amanhã cedo” chegou, ele ainda dizia a mesma coisa. Então, não restava mais nada a fazer, exceto encher os odres de água numa fonte límpida que encontraram perto da entrada da floresta, e descarregar os pôneis. Distribuíram os pacotes tão igualmente quanto possível, embora Bilbo achasse a sua parte terrivelmente pesada e não gostasse nem um pouco da ideia de arrastar-se penosamente por milhas e milhas com tudo aquilo nas costas.
— Não se preocupe! — disse Thorin. — Vai ficar mais leve rápido até demais. Logo, logo, quando a comida começar a escassear, acho que todos estaremos desejando que nossas mochilas estivessem mais pesadas.
Então, por fim, disseram adeus aos pôneis e os puseram na direção de casa. Os animais saíram trotando alegremente, parecendo muito felizes em virar as caudas para a sombra da Floresta das Trevas. Quando se afastavam, Bilbo poderia jurar que viu uma coisa parecida com um urso deixando a sombra das árvores e correndo desajeitadamente atrás deles.
Gandalf também disse adeus. Bilbo sentou-se no chão, sentindo-se muito infeliz e desejando estar ao lado do mago em seu grande cavalo.
Havia entrado na floresta depois do desjejum (muito pobre), e teve a impressão de que lá o dia era tão escuro quanto a noite, e tudo era muito misterioso: “uma sensação de estar sendo vigiado e aguardado”, disse ele para si mesmo.
— Adeus! — disse Gandalf a Thorin. — E adeus a todos vocês! Adeus! Direto pela floresta é o seu caminho agora. Não saiam da trilha! Se fizerem isso, têm uma chance em mil de encontrá-la de novo e de sair da Floresta das Trevas, e, então, acho que nem eu nem qualquer outra pessoa voltará a revê-los.
— Temos realmente de atravessá-la? — resmungou o hobbit.
— Têm, sim! — disse o mago —, se quiserem chegar ao outro lado. Ou atravessam ou desistem da busca. E não vou permitir que recue agora, Sr. Bolseiro. Sinto vergonha por você pensar nisso. Tem de cuidar de todos esses anões por mim — disse ele, rindo.
— Não! Não! — disse Bilbo. — Não quis dizer isso. Queria dizer, não há um caminho por fora?
— Há, se você se dispuser a desviar-se do caminho umas duzentas milhas ao norte, e duas vezes isso ao sul. Mas, mesmo assim, não acharia uma trilha segura. Não há trilhas seguras nesta parte do mundo. Lembrem-se de que passaram do Limiar do Ermo e agora estão expostos a toda a sorte de divertimento, onde quer que possam ir. Antes que contornassem a Floresta das Trevas no norte estariam entre as encostas das Montanhas Cinzentas, que estão simplesmente infestadas de orcs da pior espécie. Antes que pudessem contorná-la ao sul, entrariam nas terras do Necromante, e nem você, Bilbo, vai precisar que lhe conte histórias daquele feiticeiro negro. Não os aconselho a se aproximarem de nenhum lugar que seja vigiado por sua torre escura! Fiquem na trilha da floresta, mantenham o ânimo, esperem pelo melhor e, com uma grande sorte, pode ser que um dia vejam os Pântanos Compridos estendendo-se abaixo de vocês, e além deles, no leste, lá no alto, a Montanha Solitária, onde vive o velho Smaug, embora eu tenha esperanças de que ele não esteja aguardando vocês.
— Você com certeza é bastante consolador — resmungou Thorin. — Adeus! Se não vem conosco, é melhor partir sem dizer mais nada.
— Adeus, então, e realmente adeus! — disse Gandalf, virando o cavalo e cavalgando para o oeste. Mas não resistiu à tentação de dizer a última palavra. Enquanto ainda podia ser ouvido, virou-se, colocou as mãos em concha e gritou. Eles ouviram sua voz chegar enfraquecida: — Adeus! Sejam bons, cuidem-se e NÃO SAIAM DA TRILHA!
Então afastou-se galopando e logo sumiu.
— Oh, adeus e vá embora! — resmungaram os anões, com mais raiva ainda porque estavam realmente desolados por perdê-lo.
Agora começava a parte mais perigosa de toda a viagem. Cada um colocou nos ombros a pesada mochila e o odre de água que lhe cabia, viraram as costas para a luz que cobria as terras do lado de fora e mergulharam na floresta.

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