25 de março de 2016

Capítulo IX - Barris soltos

No dia seguinte à batalha com as aranhas, Bilbo e os anões fizeram um último e desesperado esforço para encontrar uma saída antes que morressem de sede e de fome.
Levantaram-se e foram cambaleando na direção em que oito entre os treze acreditavam estar a trilha, mas nunca chegaram a descobrir se estavam certos. O final daquele dia na floresta já se apagava no negrume da noite quando, de repente, surgiu à volta deles a luz de muitas tochas, como centenas de estrelas vermelhas. Surgiram Elfos da Floresta com seus arcos e flechas, e gritaram para que os anões parassem. Ninguém pensou em lutar. Mesmo que os anões não estivessem num estado tal que ficaram realmente felizes por serem capturados, suas pequenas facas, as únicas armas que tinham, não teriam sido de nenhuma utilidade contra as flechas dos elfos, que podiam atingir o olho de um pássaro no escuro. Dessa forma, eles simplesmente pararam, sentaram-se e esperaram — todos menos Bilbo, que colocou o anel e esgueirou-se depressa para o lado. Foi por isso que, quando os elfos amarraram os anões numa longa fila, um atrás do outro, e os contaram, não encontraram nem contaram o hobbit.
Tampouco o ouviram ou perceberam andando atrás da luz de suas tochas, guardando certa distância, enquanto os elfos conduziam seus prisioneiros floresta adentro. Todos os anões foram vendados, mas isso não fazia muita diferença, pois nem mesmo Bilbo, com os olhos descobertos, conseguia ver por onde estavam indo, e nem ele nem os outros sabiam de onde tinham partido.
Bilbo fez tudo o que pôde para acompanhar as tochas, pois os elfos forçavam os anões a avançarem na maior velocidade possível, mesmo doentes e exaustos como estavam. O rei havia lhes ordenado que se apressassem. De repente, as tochas pararam, e o hobbit teve apenas o tempo suficiente para alcançá-las antes que começassem a atravessar a ponte. Era a ponte que cruzava o rio na direção dos portais do rei. A água corria escura, rápida e forte lá embaixo, na extremidade oposta havia portões diante da abertura de uma enorme caverna incrustada no flanco de urna encosta íngreme coberta de árvores. Ali as grandes faias desciam para a margem, até suas raízes tocarem o rio.
Pela ponte os elfos foram empurrando seus prisioneiros, mas Bilbo hesitava lá atrás. Não gostava nem um pouco da aparência da abertura da caverna, e decidiu não abandonar os amigos apenas a tempo de sair correndo atrás dos últimos elfos antes que os grandes portões do rei se fechassem atrás deles com um estrondo.
Lá dentro os corredores eram iluminados pela luz vermelha das tochas, e os guardas-élficos cantavam em sua marcha ao longo das passagens sinuosas, entrecruzadas e ecoantes. Essas passagens não eram como as das cidades dos orcs: eram menores, menos entranhadas na terra, e continham um ar mais limpo. Num grande salão com pilares talhados na pedra estava sentado o Rei Élfico, num tronco de madeira esculpida. Em sua cabeça via-se uma coroa de bagas e folhas vermelhas, pois mais uma vez chegara o outono. Na primavera usava uma coroa de flores silvestres. Na mão segurava um cajado entalhado de carvalho. Os prisioneiros foram trazidos à sua presença, e embora lhes lançasse um olhar severo, o rei ordenou aos seus homens que os desamarrassem, pois estavam esfarrapados e cansados.
— Além disso, eles não precisam de cordas aqui — disse ele. — Quem é trazido para dentro de minhas portas mágicas não tem como escapar.
Fez um interrogatório longo e rigoroso, perguntando aos anões sobre seus feitos, onde estavam indo e de onde vinham: mas não conseguiu deles mais noticias do que conseguira de Thorin.
Estavam carrancudos e zangados, e nem mesmo fingiram ser educados.
— O que fizemos, ó, rei? — disse Balin, que era o mais velho dos que estavam ali. — Seria crime estar perdido na floresta, com fome e sede, e ser capturado por aranhas? Será que as aranhas são seus animais de estimação, já que o fato de as termos matado o deixa zangado?
É claro que tal pergunta só deixou o rei mais zangado que nunca, e ele respondeu:
— É crime perambular por meu reino sem permissão. Esquecem-se de que estavam em meu reino, usando a estrada feita por meu povo? Não é verdade que por três vezes vocês perseguiram e incomodaram meu povo na floresta, despertando as aranhas com toda a confusão que fizeram? Depois de todo o incômodo que causaram, tenho o direito de saber o que os traz aqui, e se não me disserem agora, vou mantê-los todos presos até que tenham aprendido bom senso e boas maneiras.

Allan Leen - O Portão do Reino Élfico

Ordenou então que os anões fossem colocados cada um numa cela separada, e que recebessem comida e bebida, mas não deviam ultrapassar a porta de suas pequenas prisões, até que pelo menos um deles estivesse disposto a contar tudo o que ele queria saber. Mas não lhes disse que Thorin também estava preso ali. Foi Bilbo quem descobriu.
Pobre Sr. Bolseiro — durante um tempo longo e cansativo ele viveu completamente sozinho naquele lugar, sempre se escondendo, nunca ousando tirar o anel do dedo, mal atrevendo-se a dormir, mesmo quando estava enfiado nos cantos mais escuros e remotos que podia encontrar. Para ter algo a fazer, começou a circular pelopalácio do Rei Élfico. Os portões fechavam-se por mágica, mas algumas vezes, quando agia com rapidez, conseguia sair. De quando em quando, companhias de Elfos da Floresta, algumas vezes sob a liderança do rei, saíam para caçar e para fazer outras coisas na floresta e nas terras ao leste. Nessas ocasiões, se Bilbo conseguia ser bem ligeiro, podia esgueirar-se bem atrás deles, embora isso fosse perigoso. Mais de uma vez quase ficou preso nas portas, no momento em que elas se fechavam com um baque depois da passagem do último elfo, apesar disso, Bilbo não ousava marchar em meio a eles por causa de sua sombra (mesmo sendo ela trêmula e tênue na luz das tochas), ou por medo de que alguém tropeçasse nele e o descobrisse. E quando saía, o que não era muito frequente, não tirava nenhum proveito. Não queria abandonar os anões e, na verdade, não sabia para onde ir sem eles. Não conseguia acompanhar os elfos caçadores o tempo todo em que estes estavam fora e, assim, nunca descobria os caminhos para fora da mata e ficava vagando infeliz pela floresta, morrendo de medo de se perder, até que tivesse uma oportunidade de retornar. Também sentia fome do lado de fora, pois não era um caçador, mas dentro da caverna conseguia sobreviver de uma maneira ou outra, roubando comida de despensas ou mesas, quando não havia ninguém por perto.
“Sou como um ladrão que não consegue escapar, e precisa continuar roubando miseravelmente a mesma casa dia após dia”, pensava ele. “Esta é a parte mais melancólica e monótona desta aventura maldita, cansativa e desconfortável! Gostaria de estar em minha toca hobbit, ao pé do fogo acolhedor de minha própria lareira, com a lamparina brilhando!” Muitas vezes também desejava poder enviar uma mensagem de socorro ao mago, mas isso era obviamente impossível, logo percebeu que se havia algo a fazer, teria de ser feito pelo Sr. Bolseiro, sozinho e sem ajuda.
Finalmente, depois de uma ou duas semanas daquela vida furtiva, ele conseguiu, observando e seguindo os guardas, aproveitando todas as oportunidades possíveis, descobrir onde cada anão estava preso. Encontrou todas as doze celas em diferentes partes do palácio e, depois de algum tempo, aprendeu a movimentar-se por ali com facilidade. Qual não foi sua surpresa quando um dia ouviu uns guardas conversando e ficou sabendo que havia um outro anão também preso, num lugar especialmente profundo e escuro. Adivinhou imediatamente, é claro, que se tratava de Thorin, depois de algum tempo descobriu que sua suspeita estava correta. Por fim, depois de muitas dificuldades, conseguiu encontrar o lugar quando não havia ninguém por perto, e trocar algumas palavras com o líder dos anões.
Thorin estava por demais arrasado para continuar zangado diante de seus infortúnios, e até começava a pensar em dizer ao rei tudo sobre seu tesouro e sua busca (o que mostra como estava desanimado), quando ouviu a vozinha de Bilbo pelo buraco da fechadura. Mal pôde acreditar no que ouvia. Logo, porém, decidiu que não podia estar enganado, aproximou-se da porta e, aos sussurros, teve uma longa conversa com o hobbit.
Foi assim que Bilbo conseguiu levar em segredo o recado de Thorin a cada um dos anões aprisionados, dizendo-lhes que Thorin, seu líder, também estava preso ali no palácio, e que ninguém deveria revelar sua missão ao rei, não por enquanto, não antes que Thorin se manifestasse.
Pois Thorin sentia-se outra vez encorajado, depois de ouvir como o hobbit resgatara seus companheiros das aranhas, e estava mais uma vez determinado a não obter o próprio resgate prometendo ao rei uma parte do tesouro, até que toda e qualquer esperança de escaparem de alguma outra maneira tivesse desaparecido, na verdade, até que o notável Sr. Invisível Bolseiro (de quem passara a ter um conceito realmente muito alto) desistisse por completo de pensar em algo mais inteligente.
Os outros anões concordaram totalmente quando receberam o recado. Todos achavam que suas partes do tesouro (que consideravam suas, apesar da situação e do dragão ainda não vencido) sofreriam sérios danos se os Elfos da Floresta reivindicassem para si uma quota, e todos confiavam em Bilbo. Exatamente o que Gandalf dissera que aconteceria, como vocês podem ver. Talvez esse fosse um de seus motivos para ir embora e abandoná-los.
Bilbo, entretanto, não se sentia tão confiante quanto eles. Não gostava da ideia de que todos dependessem dele, e desejava ter o mago ao seu lado. Mas isso de nada adiantava: provavelmente toda a extensão escura da Floresta das Trevas colocava-se entre os dois.
Sentado, pensou e pensou, até sua cabeça quase explodir: mas não lhe ocorria nenhuma ideia brilhante. Um anel de invisibilidade era uma coisa ótima, mas não tinha muita utilidade para quatorze pessoas. Mas, é claro, como vocês imaginaram, que no fim ele resgatou os amigos, e foi assim que aconteceu.
Um dia, bisbilhotando e vagando pelo palácio, Bilbo descobriu uma coisa muito interessante: os grandes portões não eram a única entrada para as cavernas. Um rio passava embaixo de algumas das regiões mais baixas do palácio, juntando-se ao Rio da Floresta num ponto um pouco mais a leste, além da encosta íngreme onde ficava a abertura principal. No local onde esse curso de água subterrâneo saía da encosta da montanha havia uma comporta. Ali, o teto de pedra descia quase até a superfície das águas, e dele um portão móvel de ferro podia ser abaixado até tocar o leito do rio, para impedir que alguém saísse ou entrasse. Mas o portão ficava aberto com frequência, pois muita coisa entrava e saia pela comporta. Se alguém entrasse por ali, ver-se-ia num túnel escuro e irregular que conduzia direto ao coração da colina, mas o teto, num ponto onde passava sob as cavernas, fora cortado e tampado com grandes alçapões de carvalho. Estes davam para as adegas do rei. Ali estavam barris, barris, e mais barris, pois os Elfos das Florestas, e especialmente o seu rei, gostavam muito de vinho, embora não crescessem parreiras naquelas partes. O vinho e outras mercadorias eram trazidos de longe, de seus parentes do Sul, ou das vinhas dos Homens de terras distantes.
Escondendo-se atrás de um dos maiores barris, Bilbo descobriu os alçapões e sua utilidade, e, espreitando ali, ouvindo a conversa dos servidores do rei, ficou sabendo como o vinho e as outras mercadorias chegavam, por terra ou por água, até o Lago Comprido. Ao que parecia, uma cidade de homens ainda prosperava ali, construída sobre pontes que avançavam sobre as águas, como uma proteção contra inimigos de todos os tipos, principalmente contra o dragão da montanha.
Da Cidade do Lago os barris eram trazidos pelo Rio da Floresta.
Muitas vezes os barris eram simplesmente amarrados juntos, como grandes balsas, e conduzidos rio acima, outras vezes eram transportados em barcaças. Quando os barris estavam vazios, os elfos jogavam-nos pelos alçapões, abriam a comporta, e os barris iam flutuando no rio, dançando, até serem conduzidos pela correnteza a um lugar distante, onde a margem formava uma saliência, perto da fronteira leste da Floresta das Trevas.
Ali eram recolhidos, amarrados, e flutuavam de volta para a Cidade do Lago, que ficava perto do ponto onde o Rio da Floresta desembocava no Lago Comprido.
Bilbo ficou sentado por algum tempo pensando sobre aquela comporta, e imaginando se ela poderia ser usada na fuga de seus amigos, e, por fim, conseguiu os inícios desesperados de um plano.
A refeição da noite fora levada aos prisioneiros. Os guardas afastavam-se a passos largos pelos corredores, levando consigo a luz das tochas e deixando tudo na escuridão.
Então Bilbo ouviu o mordomo do rei dizendo boa-noite ao chefe dos guardas.
— Agora venha comigo — disse ele — e experimente o vinho que acabou de chegar. Esta noite vou trabalhar duro tirando os barris vazios das adegas, então, vamos tomar um gole para facilitar o trabalho.
— Muito bem — disse, rindo, o chefe dos guardas. — Vou experimentá-lo com você, e ver se o vinho é digno da mesa do rei. Há um banquete esta noite, e não seria bom mandar bebida ruim lá para cima!
Ao ouvir isso Bilbo ficou todo alvoroçado, pois viu que a sorte estava ao seu lado e que tinha uma oportunidade imediata de tentar pôr em prática seu plano desesperado. Seguiu os dois elfos, até que eles entraram numa pequena adega e sentaram-se a uma mesa onde haviam sido colocados dois grandes jarros. Logo começaram a beber e a rir alegremente. Uma sorte extraordinária estava ao lado de Bilbo. Um vinho tem de ser forte para deixar zonzo um elfo da floresta, mas este vinho, ao que parecia, era da safra inebriante dos grandes jardins de Dorwinion, destinado não aos soldados ou servidores, mas apenas aos banquetes do rei, e a pequenas vasilhas, não aos grandes jarros do mordomo.
Em breve o chefe da guarda cabeceava de sono, depois apoiou a cabeça na mesa e adormeceu. O mordomo continuou a conversar e a rir sozinho por algum tempo, parecendo não notar o companheiro, mas logo a sua cabeça também caiu sobre a mesa, e ele adormeceu roncando ao lado do amigo. Então o hobbit esgueirou-se para dentro.
Logo o chefe da guarda estava sem as chaves, enquanto Bilbo corria o mais que podia ao longo dos corredores que conduziam às celas. O grande molho de chaves parecia muito pesado para seus braços, e o coração muitas vezes subia-lhe à boca, apesar do anel, pois não conseguia impedir que as chaves de vez em quando produzissem um sonoro clinque-clanque, que fazia todo o seu corpo estremecer.
Primeiro, destrancou a porta de Balin, e depois trancou-a novamente com cuidado, assim que o anão saiu. Balin ficou extremamente surpreso, como vocês podem imaginar, mas, mesmo feliz como estava por sair da deprimente salinha de pedra, queria parar e fazer perguntas, saber o que Bilbo pretendia fazer, e tudo sobre o seu plano.
— Não há tempo agora! — disse o hobbit. — Apenas me siga! Precisamos ficar todos juntos e não correr o risco de nos separarmos. Todos nós devemos escapar, ou nenhum, e esta é a nossa última chance. Se formos descobertos, sabe-se lá onde o rei os colocará depois, com as mãos e os pés acorrentados também, imagino eu. Não discuta, seja bonzinho!
Depois foi de porta em porta, até que seus seguidores já eram doze. Nenhum deles muito ágil, em parte por causa da escuridão, em parte por causa do longo confinamento. O coração de Bilbo disparava cada vez que um deles trombava com outro, ou resmungava ou cochichava no escuro.
— Malditos anões barulhentos! — dizia consigo mesmo. Mas tudo correu bem, e eles não encontraram nenhum guarda. Na verdade, naquela noite havia um grande banquete de outono na floresta e nos salões superiores. Quase todo o pessoal do rei estava se divertindo.
Por fim, depois de muitas trapalhadas, chegaram ao calabouço de Thorin, num lugar bem profundo e, felizmente, não muito distante das adegas.
— Palavra de honra! — disse Thorin, quando Bilbo cochichou para que saísse e se juntasse aos amigos. — Gandalf disse a verdade, como de costume! Você é um ótimo ladrão, ao que parece, quando a ocasião se apresenta. Tenho certeza de que estaremos para sempre ao seu dispor, não importa o que aconteça depois disto. Mas o que faremos agora?
Bilbo percebeu que chegara a hora de explicar sua ideia, tanto quanto podia, mas não tinha muita certeza de como o plano seria recebido pelos anões. Seus receios eram inteiramente justificados, pois eles não gostaram nem um pouco da ideia, e começaram a resmungar em voz alta, apesar do perigo que corriam.
— Vamos ficar machucados e em pedaços. Vamos morrer afogados também, com certeza! — murmuraram eles. — Pensamos que você tinha algum plano sensato quando conseguiu pegar as chaves. Essa ideia é maluca!
— Muito bem! — disse Bilbo, bastante frustrado e também bastante irritado. — Voltem para as suas agradáveis celas, e eu vou trancar todos outra vez, e podem então ficar lá sentados confortavelmente pensando num plano melhor. Mas acho que não conseguirei as chaves de novo, mesmo que me sinta inclinado a tentar.
Aquilo era demais para eles, e todos se acalmaram. No fim, é claro, tiveram de fazer exatamente o que Bilbo sugerira. Porque era obviamente impossível tentar encontrar um caminho para os salões superiores, ou lutar para sair pelos portões que se fechavam por mágica, e não adiantava ficar resmungando nos corredores até serem pegos de novo. Então, seguindo o hobbit, foram se arrastando para as adegas mais baixas. Passaram por uma porta pela qual puderam ver o chefe da guarda e o mordomo, ainda roncando felizes, com um sorriso no rosto. O vinho de Dorwinion traz sonhos profundos e agradáveis. Haveria uma expressão diferente no rosto do chefe da guarda no dia seguinte, embora Bilbo, antes de avançarem, tenha entrado na adega sorrateiramente e, num gesto de bondade, prendido novamente as chaves ao cinto dele.
— Isso vai poupá-lo de alguns problemas — disse o Sr. Bolseiro consigo mesmo. — Ele não era um mau sujeito, e foi bastante decente com os prisioneiros. Além disso, todos ficarão confusos. Vão pensar que fizemos uma mágica muito poderosa, que nos fez passar através de todas aquelas portas trancadas e desaparecer. Desaparecer! Precisamos trabalhar rápido, para que isso aconteça!
Balin recebeu ordens para ficar vigiando o guarda e o mordomo e avisar se eles se mexessem. O resto entrou na adega contígua onde ficavam os alçapões. Havia pouco tempo a perder. Logo, como sabia Bilbo, alguns elfos desceriam para ajudar o mordomo a jogar os barris vazios no rio através dos alçapões. Estes, na verdade, já estavam enfileirados no meio, esperando para serem empurrados. Alguns eram barris de vinho, e estes não eram de grande utilidade, pois era difícil abri-los sem muito ruído, e também seria difícil fechá-los de novo. Mas entre eles havia vários outros que tinham sido usados para trazer outras mercadorias, manteiga, maçãs e todo o tipo de para o palácio do rei. Logo encontraram treze, cada um com espaço suficiente para um anão. Na verdade, alguns eram espaçosos demais, e, enquanto entravam, os anões pensavam com angústia nos solavancos e batidas que sofreriam lá dentro, embora Bilbo fizesse o possível para encontrar palha e outros materiais para embalá-los com o maior conforto possível num tempo tão curto. Finalmente, doze anões estavam acondicionados. Thorin dera um bocado de trabalho, virando-se e contorcendo-se em sua barrica, resmungando como um cachorro grande num canil pequeno, enquanto Balio, que veio por último, alvoroçava-se, por causa dos buracos de ventilação, dizendo que estava sufocando mesmo antes de seu barril ter sido tampado. Bilbo fizera o possível para vedar os buracos laterais dos barris, e para fixar todas as tampas com a maior segurança possível, e agora estava outra vez sozinho, correndo de um lado para o outro e dando os últimos retoques nas embalagens, e esperando, desesperado, que seu plano desse certo.
Tudo fora feito no tempo exato. Apenas um ou dois minutos após a tampa do barril de Balin ter sido encaixada, veio o som de vozes e o brilho de luzes. Alguns elfos entraram nas adegas rindo, conversando e cantando trechos de canções. Haviam saído de um animado banquete em um dos salões, e queriam voltar o mais rápido que pudessem.
— Onde está o mordomo, o velho Galion? — perguntou um deles. — Não o vi à mesa hoje. Deveria estar aqui agora para nos mostrar o que devemos fazer.
— Vou ficar com raiva se o velho molenga se atrasar — disse um outro. — Não tenho vontade nenhuma de desperdiçar tempo aqui embaixo enquanto a música está animada lá em cima!
— Ha, ha! — veio um grito. — Aqui está o velho patife com a cabeça num jarro! Esteve num banquete particular, para ele e seu amigo, o capitão.
— Sacudam-no! Acordem-no! — gritaram os outros impacientes.
Galion não ficou nada satisfeito quando eles o sacudiram e acordaram, e menos ainda quando riram dele.
— Estão todos atrasados — resmungou ele. — Estou aqui embaixo esperando. Enquanto vocês ficam bebendo e se divertindo e se esquecem de suas tarefas. Não é de admirar que eu tenha adormecido de cansaço!
— Não é de admirar — disseram eles —, quando a explicação está bem a mão, num jarro! Vamos, dê-nos um gole de sua poção para dormir antes que comecemos! Não é preciso acordar o carcereiro aí. Pelo jeito, ele já bebeu a sua parte.
Beberam então uma rodada e ficaram muito alegres de repente. Mas não perderam completamente o senso.
— Tenha dó, Galion! — gritaram alguns. — Você começou o banquete cedo demais e ficou desnorteado! Enfileirou aqui alguns barris cheios, ao invés dos vazios, a julgar pelo peso.
— Continuem o trabalho! — rosnou o mordomo. — Quando um vira-copos vagabundo fala em peso, isso não quer dizer nada. Estes são os que devem ir, e não os outros. Façam como eu mando!
— Muito bem, muito bem — responderam eles, rolando os barris até a abertura. — Que a sua cabeça role se as barricas do rei cheias de manteiga e do melhor vinho forem lançadas no rio para que os Homens do Lago banqueteiem de graça!

Rola, rola, rola
pela portinhola!
Força! Splash! Pronto!
Mais um dançando tonto!

Assim cantavam quando primeiro um barril, e depois outro, rolou até a escura abertura e foi lançado na água fria alguns pés abaixo. Alguns eram barris realmente vazios, outros traziam no bojo um anão cuidadosamente empacotado, mas todos foram descendo, um após o outro, com muitos choques e batidas, trombando com os outros lá embaixo, batendo em cheio na água, colidindo contra as paredes do túnel, e dançando rio abaixo.
Foi bem nesse momento que Bilbo de repente descobriu o ponto fraco de seu plano. É muito provável que vocês já tenham percebido há algum tempo, e estejam rindo dele, mas não acho que teriam feito nem a metade em seu lugar. É claro que ele mesmo não estava dentro de um barril, e nem havia ninguém para enfiá-lo em um, mesmo que houvesse oportunidade! Desta vez parecia que Bilbo realmente perderia os amigos (quase todos já tinham desaparecido através do escuro alçapão) e ficaria para trás, obrigado a esgueirar-se para sempre como um ladrão permanente nas cavernas dos elfos. Pois, mesmo que pudesse escapar imediatamente pelos portões superiores, tinha pouquíssimas chances de encontrar os anões outra vez. Não conhecia o caminho por terra para o lugar onde os barris eram recolhidos.
Ficou imaginando o que aconteceria aos anões sem ele, pois não tivera tempo de contar-lhes tudo o que descobrira ou o que pretendia fazer quando estivessem fora da floresta.
Enquanto todos esses pensamentos passavam-lhe pela mente, os elfos, muito alegres, começaram a cantar uma música ao redor da porta do rio.
Alguns já tinham ido puxar as cordas que levantavam o portão de ferro na comporta, a fim de soltar os barris assim que todos estivessem boiando lá embaixo.

Descendo a escura e rápida corrente
Retorna para a terra de tua gente!
Deixa o fundo dos antros das entranhas -
O norte e suas íngremes montanhas,
Onde a floresta grande e tenebrosa
Convive com as sombras pavorosa.
Para além do arvoredo vai, desliza,
Para o mundo da murmurante brisa,
Passando corredeiras e espraiados
Remansos de juncos delicados,
Pela névoa que branca sobrevoa
As águas noturnas das lagoas!
Segue, segue as estrelas que de assalto
Tomaram os céus e brilham lá no alto.
Muda teu rumo pelo amanhecer,
Por rápidos e areias vais descer,
Para o sul, sempre em frente para o sul!
Buscando a luz do dia, a luz do sol,
De volta às tuas pastagens, aos teus prados
Onde pastem tuas ovelhas e teu gado!
De volta aos teus jardins sobre as colinas
Onde há amoras inchadas e docinhas.
Já sob a luz do dia, à luz do sol,
Para o sul, sempre em frente para o sul!
Descendo a escura e rápida corrente
Retorna para a terra de tua gente!

Agora estavam rolando para a porta o último dos barris! Desesperado e sem saber mais o que fazer, o pobrezinho do Bilbo agarrou-se a ele e juntos os dois foram empurrados por sobre a borda. Splash! Caiu na água, debaixo do barril. Veio à tona bufando e agarrando-se à madeira feito um rato, mas, a despeito de todos os seus esforços, não conseguia subir no barril. Toda vez que tentava, o barril rolava e o afundava de novo. Estava realmente vazio e flutuava como uma rolha. Embora com os ouvidos cheios de água, ainda consegui a ouvir os elfos cantando na adega acima. Então, de repente, os alçapões caíram e fecharam-se com estrondo, e as vozes sumiram. Estava no túnel escuro, flutuando na água gelada, completamente sozinho — pois não se pode contar amigos que estão dentro de barris.
Logo uma mancha cinzenta surgiu na escuridão à frente. Bilbo ouviu o ranger da comporta sendo içada, e viu-se em meio a uma confusão de tonéis e barris, dançando e batendo, todos se empurrando para passar sob o arco e sair para o rio aberto. Fez o possível para não ser empurrado e partido em pedaços, mas, por fim, o amontoado de barris começou a se separar e a passar, um a um, sob o arco de pedra para ganhar o rio.
Ele então percebeu que de nada teria adiantado montar no barril, pois não havia espaço sequer para um hobbit entre o topo do barril e o teto abruptamente baixo onde ficava o portão.
Foram indo por sob os galhos que se projetavam das árvores das margens. Bilbo perguntava-se o que estariam sentindo os anões, e se estaria entrando muita água em seus barris.
Alguns dos que passavam por ele flutuando na escuridão pareciam bem afundados na água, e ele imaginava que fossem estas que tinham anões no bojo.
“Espero ter fechado muito bem os barris”, pensou ele mas, em breve, ficou por demais preocupado consigo mesmo para se lembrar dos anões.
Conseguia manter a cabeça acima da água, mas estava tremendo, e imaginava se não iria morrer de frio antes que a sorte desse uma reviravolta, e por quanto tempo conseguiria aguentar, e se deveria correr o risco de se soltar e tentar nadar até a margem. Logo a sorte realmente deu uma reviravolta: a correnteza carregou vários barris para um ponto perto da margem, e ali eles ficaram por algum tempo, presos em alguma raiz oculta. Então Bilbo aproveitou a oportunidade para subir pela lateral do barril enquanto ele estava apoiado em outro. Foi subindo como um rato naufragado, e deitou-se em cima, todo esticado, para manter o equilíbrio da melhor forma possível. A brisa era fria, mas melhor que a água, e Bilbo tinha esperanças de não rolar de repente e cair de novo no rio, quando os barris fossem outra vez levados pela correnteza.
Não demorou para que os barris se libertassem de novo e fossem virando e revirando rio abaixo, dirigindo-se para a correnteza principal.
Ele então percebeu que manter-se montado era tão difícil quanto temera mas, de algum modo, conseguiu, embora fosse terrivelmente desconfortável.
Por sorte, era muito leve, o barril era de bom tamanho e, como tinha alguns orifícios, já deixara entrar um pouco de água. Mesmo assim. Era como tentar montar, sem rédea ou estribo, um pônei barrigudo que estivesse sempre querendo rolar na grama.
Foi assim que, finalmente, o Sr. Bolseiro chegou a um lugar onde as árvores rareavam dos dois lados. Ele conseguia ver o céu mais claro entre elas. O rio escuro alargava-se de repente e juntava-se ao curso principal do Rio da Floresta, que descia rápido das grandes portas do rei. Havia um trecho pálido de água que não era mais coberto pelas sombras, e na sua superfície fluida dançavam reflexos partidos de nuvens e estrelas. Então a água veloz do Rio da Floresta empurrou todo o grupo de tonéis e barris para a margem norte, onde cavara uma ampla baia. Esta tinha uma praia de cascalhos sob margens altas, e era protegida na extremidade leste por um cabo saliente de rocha sólida. Na praia rasa a maioria dos barris encalharam, embora alguns continuassem, indo bater contra o molhe rochoso.
Havia pessoas vigiando as margens. Trataram logo de empurrar os barris, juntando-os todos na água rasa e, depois de os contarem, amarraram-nos uns aos outros e os deixaram ali até a manhã seguinte.
Pobres anões! Agora Bilbo não estava em situação tão ruim.
Escorregou do barril e foi para a terra, depois, foi se esgueirando até algumas cabanas que avistara perto da margem da água. Bilbo já não pensava duas vezes para participar de uma ceia sem ser convidado se tivesse a oportunidade, fora obrigado a fazer isso muito tempo, e sabia agora muito bem o que era estar realmente faminto, e não apenas interessado nas iguarias de uma despensa bem suprida. Além disso, vira de relance uma fogueira entre as árvores, e isso o atraíra, porque suas roupas rasgadas e ensopadas grudavam-se-lhe ao corpo, frias e pegajosas.
Não é preciso contar-lhes muito sobre as aventuras dele naquela noite, pois agora estamos nos aproximando do fim da viagem ao leste, e chegando à última e maior aventura, por isso devemos nos apressar.
Obviamente ajudado por seu anel mágico, Bilbo deu-se muito bem a principio, mas foi descoberto no fim pelas suas pegadas molhadas e por causa da trilha de pingos que deixava aonde quer que fosse ou se sentasse, também começou a ficar resfriado e em qualquer lugar que tentasse se esconder era descoberto pelas sensacionais explosões de seus espirros mal-abafados. Logo havia uma grande confusão na vila ribeirinha, mas Bilbo escapou floresta adentro, carregando um pão, um odre de vinho, e uma torta, que não lhe pertenciam. Teve de passar o resto da noite molhado como estava, longe de qualquer fogueira, mas o vinho ajudou-o nisso e, na verdade, até cochilou um pouco sobre algumas folhas secas, embora o ano estivesse chegando ao fim e o ar estivesse frio.
Acordou outra vez com um espirro especialmente escandaloso. Já era manhã cinzenta, e havia uma confusão alegre lá embaixo perto do rio. Estavam fazendo uma jangada de barris, e os elfos-jangadeiros logo a estariam conduzindo correnteza abaixo até a Cidade do Lago. Bilbo espirrou de novo. Não estava mais pingando, mas sentia frio por todo o corpo. Desceu com a maior rapidez que suas pernas enrijecidas permitiam e chegou a tempo de subir no conjunto de barris sem ser notado no burburinho geral. Por sorte, naquela hora não havia sol para projetar uma sombra inconveniente e, por milagre, não voltou a espirrar por um bom tempo.
As varas eram empurradas com força. Os elfos que estavam na água rasa puxavam e empurravam. Os barris, agora amarrados todos juntos, rangiam e estalavam.
— Que carga pesada! — alguns resmungavam. — Estes barris estão afundados, alguns não estão vazios. Se tivessem chegado à margem durante o dia, provavelmente poderíamos ter dado uma olhada no conteúdo.
— Não há tempo agora! — gritou o jangadeiro. — Empurre!
E lá se foram os barris, devagar no início, até passarem pelo ponto de rocha onde outros elfos esperavam para manobrá-los com varas, e então, cada vez mais rápido, eles alcançavam a correnteza principal e iam navegando rio abaixo, descendo na direção do Lago.
Tinham escapado dos calabouços do rei e atravessado a floresta, mas resta saber se estavam vivos ou mortos.

Um comentário:

  1. só agora que parei parar ler os livros, depois de ter assistido todas as adaptações para o cinema.
    muito bom mesmo.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!