25 de março de 2016

Capítulo IV - Montanha acima, montanha adentro

Havia muitas trilhas que conduziam àquelas montanhas, e muitas passagens que as atravessavam. Mas a maior parte das trilhas era engano ou decepção, e não levava a lugar nenhum ou acabava mal, a maioria das passagens estava infestada de coisas malignas e perigos terríveis. Os anões e o hobbit, auxiliados pelo sábio conselho de Elrond e pelo conhecimento e memória de Gandalf, tomaram o caminho certo para a passagem certa.
Longos dias após terem partido do vale e deixado a Última Casa Amiga milhas atrás, ainda continuavam subindo. Era uma trilha difícil, uma trilha perigosa, um caminho tortuoso, solitário e comprido. Agora podiam contemplar atrás de si as terras que haviam deixado, estendendo-se lá embaixo. A oeste, muito longe, onde as coisas pareciam azuis e apagadas, Bilbo sabia que estava a sua terra, de coisas seguras e confortáveis, e a pequena toca de hobbit. Teve um calafrio. Fazia um frio cortante lá em cima, e o vento soava estridente por entre as rochas.
Às vezes grandes pedras despencavam pelas encostas das montanhas, libertadas do gelo pelo sol do meio-dia, e passavam pelo meio deles (o que era uma sorte) ou sobre suas cabeças (o que era assustador). As noites eram desconfortáveis e frias, e eles não ousavam cantar ou falar muito alto, pois os ecos eram esquisitos, e o silêncio parecia não gostar de ser interrompido — exceto pelo barulho da água, pelo gemido do vento e pelo trincar das pedras.
“Lá embaixo o verão está avançando”, pensou Bilbo, “o feno está sendo cortado, e há piqueniques acontecendo. No passo em que vamos, estarão todos fazendo a colheita e apanhando amoras antes que comecemos a descer do outro lado”. Os outros estavam tendo pensamentos igualmente melancólicos, embora, ao dizerem adeus a Elrond, movidos pelas grandes esperanças de um manhã de verão, tivessem falado com alegria sobre a passagem das montanhas e sobre cavalgar depressa através das terras além.
Haviam pensado em chegar à porta secreta na Montanha Solitária talvez na próxima lua, que era a primeira do outono — “e talvez seja o Dia de Durin”, disseram eles. Apenas Gandalf sacudira a cabeça sem dizer nada.
Nenhum anão passava por aquele caminho havia muitos anos, mas Gandalf sim, e ele sabia em que extensão o mal e o perigo haviam crescido e prosperado no Ermo desde que os dragões tinham expulsado os homens das terras e os orcs, se espalhado em segredo, depois da batalha das Minas de Moria. Quando se parte para aventuras perigosas, além do Limiar do Ermo, até mesmo bons planos de magos sábios como Gandalf e de bons amigos como Elrond às vezes dão errado e Gandalf era um mago sábio o suficiente para saber disso.
Ele sabia que alguma coisa inesperada poderia acontecer, e não se atrevia a ter esperanças de que pudessem atravessar aquelas altas montanhas de picos solitários e aqueles vales onde nenhum rei governava sem aventuras atemorizantes. E não puderam mesmo. Estava tudo bem, até que um dia depararam com uma trovoada — mais que uma trovoada, uma verdadeira guerra de trovões. Vocês sabem como pode ser terrível uma grande tempestade sobre a terra num vale de rio, especialmente quando duas grandes tempestades se encontram e se chocam. Mais terríveis ainda são trovões e relâmpagos nas montanhas à noite, quando as tempestades vêm do leste e do oeste e guerreiam. Os relâmpagos se estilhaçam nos picos, as rochas tremem e grandes estrondos partem o ar e vão ecoando e invadindo cada caverna e cada gruta, e a escuridão se enche de um ruído esmagador e de clarões inesperados.
Bilbo nunca vira ou imaginara qualquer coisa semelhante. Estavam lá em cima, num lugar estreito, um terrível precipício sobre um vale escuro bem ao lado. Estavam abrigados sob uma pedra saliente onde pretendiam passar a noite, e ele estava deitado debaixo de um cobertor, tremendo da cabeça aos pés. Quando espiava os clarões dos relâmpagos, via os gigantes de pedra do outro lado do vale, lançando pedras uns sobre os outros, como num jogo, apanhando-as, jogando-as na escuridão embaixo, onde elas se despedaçavam por entre as árvores ou se estilhaçavam em mil fragmentos com um ruído ensurdecedor. Então vinham vento e chuva, e o vento sacudia chuva e granizo em todas as direções, de tal modo que uma pedra saliente não representava proteção nenhuma. Logo estavam todos quase encharcados, e os pôneis estavam parados com as cabeças baixas e os rabos entre as pernas, alguns gemiam de pavor. Ouviam os gigantes gargalhando e gritando por todas as encostas das montanhas.
— Assim não dá! — disse Thorin. — Se o vento não nos levar, se não nos afogarmos, se um raio não cair em nossas cabeças, seremos apanhados por algum gigante e chutados para o céu como uma bola de futebol.
— Bem, se você conhece algum lugar melhor, leve-nos para lá! — disse Gandalf, que estava muito irritado e nada satisfeito com os gigantes.
A discussão terminou quando enviaram Fili e Kili para procurar um abrigo melhor. Os dois tinham olhos muito perspicazes, e, sendo uns cinquenta anos mais jovens que os outros anões, ficavam sempre com esse tipo de trabalho (quando todos percebiam que não adiantava absolutamente nada enviar Bilbo). Nada como procurar quando se quer achar alguma coisa (pelo menos foi o que Thorin disse aos jovens anões). Quando se procura geralmente se encontra alguma coisa, sem dúvida, mas nem sempre o que estávamos procurando. E foi assim naquela ocasião.
Logo Fili e Kili voltaram se arrastando, segurando-se nas rochas por causa do vento.
— Encontramos uma caverna seca — disseram — não muito longe, depois da próxima curva, dá para entrar com os pôneis e tudo o mais.
— Vocês fizeram uma exploração meticulosa? — perguntou o mago, que sabia que as cavernas das montanhas raramente ficavam desocupadas.
— Fizemos, sim — responderam eles, embora todos soubessem que os dois não podiam ter gasto muito tempo com isso, tinham voltado depressa demais. — A caverna não e muito grande nem muito profunda.
Este, sem dúvida, é o perigo das cavernas: às vezes, não se sabe a profundidade delas, ou onde um corredor pode levar, ou o que está esperando lá dentro. Mas naquele momento a notícia de Fili e Kili parecia bastante boa. Então todos se levantaram e se prepararam para sair dali. O vento uivava, o trovão ainda rugia, e tiveram grande trabalho para avançar com os pôneis. Mesmo assim, não era muito longe, e logo depararam com uma grande rocha sobre a trilha. Atrás dela, encontrava-se um arco baixo na encosta da montanha. Com o espaço que havia, os pôneis entraram se espremendo, mesmo depois de livres das selas e bagagens. Depois que passaram, foi com prazer que ouviram o vento e a chuva lá fora, e não ao redor deles, e sentiram-se protegidos dos gigantes e de suas pedras. Mas o mago não estava disposto a correr riscos. Ele acendeu o cajado — como fizera aquele dia na sala de jantar de Bilbo, aquele dia que parecia tão distante, se vocês se lembram — e, auxiliados pela luz, exploraram a caverna de ponta a ponta.
Parecia ter um tamanho razoável, mas não era grande nem misteriosa demais. O chão estava seco e tinha alguns cantos confortáveis. Numa extremidade havia espaço para os pôneis, e ali eles ficaram (extremamente contentes com a mudança) com seus embornais, resfolegando e mastigando ruidosamente. Oin e Gloin queriam acender uma fogueira na entrada para secar as roupas, mas Gandalf não quis nem ouvir falar nisso. Então estenderam as coisas molhadas no chão e tiraram outras secas dos embrulhos, depois aconchegaram-se nos cobertores, pegaram os cachimbos e começaram a soprar anéis de fumaça, que Gandalf tingia de várias cores e fazia dançar perto do teto para divertir os companheiros. Conversaram muito, esqueceram-se da tempestade e discutiram o que cada um ia fazer com sua parte do tesouro (quando o conseguissem, o que, no momento, não parecia tão impossível), e assim caíram no sono um a um. Foi a última vez que usaram os pôneis, pacotes, bagagens, ferramentas e toda a parafemália que haviam trazido.
No fim das contas, naquela noite acabou por se revelar uma boa coisa terem trazido o pequeno Bilbo consigo. Pois, de alguma forma, ele não conseguiu dormir por um bom tempo e quando dormiu teve sonhos terríveis. Sonhou que uma fenda na parede no fundo da caverna ficava cada vez maior, cada vez mais larga, e ele sentia muito medo mas não conseguia gritar nem fazer nada, exceto ficar deitado olhando.
Depois sonhou que o chão da caverna estava cedendo e ele estava escorregando — começando a cair, cair, sabe lá para onde.
Então acordou com um susto terrível e percebeu que parte do sonho era verdade. Uma fenda se abrira no fundo da caverna e já se transformara numa passagem larga. Acordou bem a tempo de ver a ponta das caudas dos pôneis desaparecendo dentro dela.
É claro que soltou um grito muito forte, como só um hobbit sabe fazer, o que é surpreendente para o tamanho deles.
Da fenda saltaram os orcs, grandes orcs, grandes e horríveis orcs, um monte de orcs, antes que alguém pudesse dizer rocha e tocha. Havia seis para cada anão, pelo menos, até mesmo dois para Bilbo, e eles foram todos agarrados e levados pela fenda, antes que alguém pudesse dizer isqueiro e pedra. Menos Gandalf. O grito de Bilbo fizera isso de bom.
Acordara-o completamente numa fração de segundo, e quando os orcs vieram agarrá-lo, um terrível clarão, feito relâmpago, tomou a caverna, depois um cheiro de pólvora, e vários deles caíram mortos.
A fenda fechou-se com um estrondo e Bilbo e os anões ficaram do lado errado!
Onde estava Gandalf? Disso nem eles nem os orcs tinham a menor ideia, e os orcs não esperaram para descobrir. Agarraram Bilbo e os anões e os forçaram a andar. Estava muito, muito escuro, uma escuridão em que apenas orcs acostumados a viver no coração das montanhas conseguem enxergar. Os corredores se cruzavam e se emaranhavam em todas as direções, mas os orcs sabiam o caminho, tão bem como vocês sabem o caminho para o correio mais próximo e o caminho descia mais e mais, e o ar estava terrivelmente abafado. Os orcs eram muito rudes, e beliscavam sem dó, riam e gargalhavam com suas vozes horríveis e cruéis, Bilbo estava ainda mais infeliz do que na ocasião em que o troll o suspendera pelos pés. Mais uma vez desejou muito estar em sua toca de hobbit. Não pela última vez.
Surgiu diante deles o vislumbre de uma luz vermelha. Os orcs começaram a cantar, ou grasnar, e marcavam o ritmo batendo na pedra os pés chatos e sacudindo os prisioneiros.

Bate! Rebate! É opaco o buraco!
Agarra, petisca! Prende, belisca!
Descendo, descendo à cidade dos orcs
Se vai, meu rapaz!
Quebra, requebra! Esmigalha, estraçalha!
Martelos e travas! Gongos e aldravas!
Soca, soca, no fundo da toca! Ho, ho! Meu rapaz.
Zunido, estalido! Chicote, estampido!
Bate e martela! Chora e tagarela!
Trabalha, trabalha e não atrapalha!
Em meio à bebida, alegres da vida,
Os orcs tocam no fundo da toca
Lá embaixo, rapaz!

O som era verdadeiramente horripilante. As paredes ecoavam o bate, rebate! E oesmigalha, estraçalha! E o riso hediondo daquele ho, ho! Meu rapaz! O sentido geral da canção era evidente até demais, pois os orcs pegaram chicotes e, com um zunido, estalido!, faziam-nos correr a mais não poder na frente deles, e mais de um anão já choramingava e berrava feito louco quando caíram todos dentro de uma grande caverna.
Estava iluminada por uma grande fogueira no centro e por tochas ao longo das paredes, e estava cheia de orcs. Todos riram, bateram os pés e aplaudiram quando os anões (com o pobre Bilbo no fim e mais perto dos chicotes) entraram correndo, com os condutores-orcs logo atrás, gritando e estalando os chicotes. Os pôneis já estavam lá, amontoados num canto e lá também estavam as bagagens e pacotes, todos abertos, sendo vistoriados por orcs, farejados por orcs, manuseados por orcs e disputados por orcs.
Receio que essa tenha sido a última vez que viram aqueles excelentes poneizinhos, entre os quais um alegre e robusto animal que Elrond emprestara a Gandalf, uma vez que seu cavalo não era adequado para as trilhas das montanhas. Pois os orcs comem cavalos, pôneis e burros (e outras coisas muito mais terríveis) e estão sempre famintos.
Naquele momento porém, os prisioneiros só pensavam em si mesmos. Os orcs acorrentaram-lhes as mãos por trás, prenderam todos juntos numa enfiada e arrastaram-nos até a outra extremidade da caverna, com o pequeno Bilbo a reboque no fim da linha.
Lá nas sombras, numa pedra grande e plana, estava sentado um tremendo orc com uma cabeça enorme, e orcs armados postavam-se ao redor, carregando os machados e as espadas tortas que eles usam. Ora, os orcs são cruéis, malvados e perversos. Não fazem coisas bonitas, mas fazem muitas coisas engenhosas. Podem cavar túneis e minas tão bem quanto qualquer um, exceto os anões mais habilidosos, quando se dão ao trabalho, embora geralmente sejam desorganizados e sujos. Martelos, machados, espadas, punhais, picaretas, tenazes, além de instrumentos de tortura, eles fazem muito bem, ou mandam outras pessoas fazerem conforme o seu padrão, prisioneiros e escravos que têm de trabalhar até morrer por falta de ar e luz. Não é improvável que tenham inventado algumas das máquinas que desde então perturbam o mundo, especialmente os instrumentos engenhosos para matar um grande número de pessoas de uma só vez, pois sempre gostaram muito de rodas e motores e explosões, como também de não trabalhar com as próprias mãos além do estritamente necessário, mas naqueles dias e naquelas regiões selvagens ainda não tinham avançado (como se diz) tanto. Não odiavam os anões de modo especial, não mais do que odiavam tudo e todo mundo, particularmente os ordeiros e prósperos, em algumas partes, anões malvados tinham até mesmo se aliado a eles.
Tinham, porém, um rancor especial pelo povo de Thorin, por causa da guerra da qual vocês ouviram falar, mas que não entra nesta história, de qualquer forma, os orcs não se preocupam com o que capturam, desde que tudo seja feito com habilidade e em segredo e os prisioneiros não sejam capazes de se defender.
— Quem são essas pessoas miseráveis? — perguntou o Grão-Orc.
— Anões, e isto! — disse um dos condutores, puxando a corrente de Bilbo e fazendo-o cair de joelhos. — Encontramos eles se protegendo em nosso Pórtico de Entrada.
— O que significa isso? — disse o Grão-Orc voltando-se para Thorin..— Não pode ser boa coisa, garanto! Espionando os negócios secretos de meu povo, aposto! Ladrões, eu não ficaria surpreso em saber! Assassinos e amigos de Elfos, é bem capaz! Vamos! O que tem a dizer?
— Thorin, o anão, às suas ordens! — respondeu ele. Era apenas polidez sem significado. — Das coisas que suspeita ou imagina não tínhamos a menor ideia. Nós nos abrigamos da tempestade no que parecia ser uma caverna conveniente e vazia não havia nada mais distante de nossos pensamentos que perturbar orcs de alguma maneira.
Isso era bem verdade!
— Hum! — disse o Grão-Orc. — E o que você diz! Posso lhe perguntar o que estavam fazendo aqui em cima nas montanhas, de onde estavam vindo e aonde estavam indo? Na verdade, gostaria de saber tudo sobre vocês. Não que isso vá lhe trazer algum beneficio, Thorin Escudo de Carvalho. Já sei demais sobre o seu povo, mas vamos a verdade, ou vou preparar algo particularmente desconfortável para vocês!
— Estávamos viajando para visitar nossos parentes, nossos sobrinhos e sobrinhas, e nossos primos em primeiro, segundo e terceiro grau, e os demais descendentes de nossos avós, que moram do lado leste destas montanhas verdadeiramente hospitaleiras — disse Thorin, sem saber muito bem o que falar, assim de repente, quando era óbvio que a verdade exata não serviria de jeito nenhum.
— Ele é um mentiroso, ó, verdadeiramente tremendo — disse um dos condutores. — Vários de nosso povo foram feridos por raios na caverna quando convidamos essas criaturas para descer e eles estão mortos feito pedras. E ele também não explicou isto! — O orc estendeu a espada que Thorin usara, a espada da caverna dos trolls.
Grão-Orc soltou um uivo de raiva verdadeiramente hediondo quando viu a espada, e todos os seus soldados rangeram os dentes, bateram os escudos e os pés.
Reconheceram a espada imediatamente. Ela matara centenas de orcs em sua época, quando os belos elfos de Gondolin os caçavam nas colinas ou travavam batalhas diante de seus muros. Eles a haviam denominado Grcrist, Fende-Orc, mas os orcs a chamavam simplesmente de Mordedora. Odiavam-na, e odiavam mais ainda qualquer um que a carregasse.
— Assassinos e amigos de elfos! — gritou o Grão-Orc. — Chicote neles! Batam! Mordam! Triturem! Levem-nos para buracos escuros cheios de cobras e que nunca mais vejam a luz outra vez! — Estava tomado de tal fúria que saltou de seu assento e partiu para cima de Thorin com a boca aberta.
Naquele exato momento, todas as luzes da caverna se apagaram, e a grande fogueira se extinguiu, puft, em uma nuvem de fumaça azul e brilhante, que subia até o teto e espalhava faíscas brancas e lancinantes por entre os orcs.
Os gritos e urros, grasnidos e guinchos, resmungos e uivos rosnados e maldições, chiados e rangidos que se seguiram estão além de qualquer descrição. Várias centenas de gatos selvagens e lobos sendo assados vivos ao mesmo tempo não poderiam comparar-se àquilo. As faíscas abriam buracos nos orcs, e a fumaça que caía do teto deixava o ar espesso, tornando a visão difícil até para eles. Logo estavam caindo uns sobre os outros, rolando aos montes no chão, mordendo, chutando e lutando como se estivessem todos enlouquecidos.
De repente uma espada cintilou com sua própria luz. Bilbo viu-a atravessar o Grão-Orc, aturdido no meio de sua fúria. Caiu morto, e os soldados-orcs fugiram da espada, guinchando escuridão adentro.
A espada voltou para sua bainha.
— Sigam-me depressa! — disse uma voz baixa e feroz e, antes que Bilbo pudesse entender o que estava acontecendo viu-se correndo de novo o mais rápido que podia, no fim da fila, descendo por outras passagens escuras, os gritos no salão dos orcs ficando cada vez mais fracos atrás dele. Uma luz pálida os conduzia.
— Mais rápido, mais rápido! — dizia a voz. — Logo as tochas vão se acender de novo.
— Um minutinho! — disse Dori, que estava no fim da fila perto de Bilbo, e era um sujeito decente. Fez com que o hobbit subisse em seus ombros, tão bem quanto era possível com as mãos atadas, e então voltaram todos a correr, com um clinque-clinque de correntes e muitos tombos, uma vez que não podiam contar com as mãos para se equilibrar. Não pararam por um bom tempo e, naquela altura, já deviam ter descido até o coração da montanha.
Então Gandalf acendeu o cajado. Claro que era Gandalf, mas naquele momento estavam muito ocupados para perguntar como ele havia chegado até lá. O mago sacou a espada de novo e mais uma vez ela brilhou no escuro. A espada queimava com uma fúria que a fazia brilhar quando havia orcs por perto, agora brilhava como uma chama azul, pelo prazer de ter matado o grande senhor da caverna. Não foi problema nenhum cortar as correntes dos orcs e libertar todos os prisioneiros o mais rápido possível. O nome da espada era Glamdring, Martelo do Inimigo, se vocês se lembram. Os orcs chamavam-na simplesmente Batedora, e a odiavam ainda mais que a Mordedora, se isso é possível. Orcrist também fora salva, Gandalf a trouxera, arrancando-a de um dos terríveis guardas. Gandalf pensava em quase tudo, e, embora não pudesse fazer tudo, podia fazer muita coisa por amigos numa enrascada.
— Estamos todos aqui? — perguntou ele, devolvendo a espada a Thorin com uma reverência. — Deixe-me ver: um, este é Thorin, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, onde estão Fili e Kili? Aqui estão eles! Doze, treze, e aqui está o Sr. Bolseiro: quatorze. Bem, bem! Poderia ser pior mas, por outro lado, poderia ser bem melhor. Sem pôneis, sem comida, e sem saber exatamente onde estamos, e com tropas de orcs furiosos nos nossos calcanhares. Em frente!
Em frente eles foram! Gandalf estava certo: começaram a ouvir ruídos e gritos horríveis atrás de si, nos corredores por onde haviam passado. Isso os fez correr mais que nunca, e como o pobre Bilbo não conseguia acompanhá-los — pois os anões, posso lhes garantir, avançam com grande rapidez quando precisam —, eles se revezaram e o carregaram nas costas.
Mas orcs correm mais ainda que anões, e aqueles orcs conheciam melhor o caminho (eles mesmos tinham feito as trilhas) e estavam loucos de raiva, dessa forma, por mais que fizessem, os anões ouviam os gritos e uivos chegando cada vez mais perto e, logo depois, até os pés dos orcs, muitos e muitos pés que pareciam estar logo ali, na última curva. Podiam ver o brilho de tochas vermelhas atrás de si, no túnel que estavam atravessando e estavam ficando extremamente cansados.
— Por que, por que fui deixar minha toca de hobbit? — disse o pobre Sr. Bolseiro, aos solavancos nas costas de Bombur.
— Por que, por que fui trazer um hobbitzinho ignóbil numa caça ao tesouro? — disse o pobre Bombur, que era gordo e avançava aos tropeços, o suor de medo e calor a escorrer-lhe pelo nariz.
Nesse momento, Gandalf ficou para trás, e Thorin com ele. Fizeram uma curva fechada.
— Meia-volta! — gritou ele. — Saque a espada, Thorin!
Não havia mais nada a fazer, e os orcs não gostaram. Vinham correndo na curva, aos berros, e encontraram Fende-Orc e Martelo do Inimigo brilhando frias e claras bem diante de seus olhos atônitos. Os que vinham na frente deixaram cair as tochas e soltaram um grito antes de serem mortos. Os que vinham logo depois gritaram mais ainda e saltaram, caindo em cima dos que vinham atrás.
— Mordedora e Batedora! — guinchavam eles e logo estavam todos confusos e a maioria correndo de volta pelo caminho por onde tinham vindo.
Demorou muito para que algum deles ousasse ultrapassar aquela curva. Quando isso aconteceu, os anões tinham fugido de novo, distanciando-se muito no interior dos túneis escuros do reino dos orcs.
Quando os orcs descobriram, apagaram as tochas, calçaram sapatos macios, escolheram os corredores mais velozes, de olhos e ouvidos mais aguçados. Estes partiram, ágeis como doninhas no escuro, e quase tão silenciosos como morcegos. Foi por isso que nem Bilbo, nem os anões, nem mesmo Gandalf os ouviram chegando. E não os viram. Mas foram vistos pelos orcs que corriam em silêncio logo atrás, pois o cajado de Gandalf emitia uma luz fraca para ajudar os anões enquanto eles avançavam.
De repente, Dori, agora no fim da fila e carregando Bilbo, foi agarrado por trás no escuro. Gritou e caiu, e o hobbit rolou de seus ombros para dentro da escuridão, bateu a cabeça numa pedra e não se lembrou de mais nada.

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