25 de março de 2016

Capítulo III - Um breve descanso

Naquele dia não cantaram nem contaram histórias, embora o tempo tivesse melhorado, nem no dia seguinte, nem no outro. Tinham começado a sentir que o perigo não estava longe, de ambos os lados. Acamparam sob as estrelas, e os cavalos tinham mais comida do que eles, pois havia capim em abundância, mas não havia muito em suas mochilas, mesmo com o que tinham conseguido dos trolls. Uma manhã atravessaram um rio num trecho largo e raso, cheio do barulho de água espumando nas pedras. A margem oposta era íngreme e escorregadia. Quando chegaram ao topo dela, levando os pôneis, perceberam que as grandes montanhas estavam mais perto deles. Já pareciam estar a apenas um dia de viagem fácil até a base da montanha mais próxima. Ela surgia escura e desolada, embora houvesse trechos ensolarados nas encostas escuras, e atrás de seus contrafortes brilhávamos picos cobertos de neve.
— Aquela é A Montanha? — perguntou Bilbo numa voz solene, olhando para ela com os olhos esbugalhados. Nunca vira antes algo que parecesse tão grande.
— Claro que não! — disse Balin. — Ali é apenas o começo das Montanhas Sombrias, e nós temos de achar um meio de atravessá-las, ou passar por cima ou por baixo delas de alguma forma, antes de podermos entrar nas Terras Ermas do outro lado. E depois de lá ainda tem muito chão até a Montanha Solitária no leste, onde Smaug repousa sobre o nosso tesouro.
— Oh! — disse Bilbo, e naquele mesmo momento sentiu o maior cansaço que lembrava já ter sentido. Estava mais uma vez pensando em sua confortável cadeira diante do fogo, na sala favorita de sua toca, e na chaleira cantando. Não pela última vez!
Agora Gandalf ia na frente.
— Não devemos perder a estrada, ou estaremos acabados — disse ele. — Precisamos de comida, para começar, e precisamos descansar em segurança razoável. Também é extremamente necessário chegar às Montanhas Sombrias pela trilha certa, caso contrário vocês vão se perder lá, e terão de voltar e começar tudo de novo (se é que conseguirão voltar).
Perguntaram-lhe para onde se dirigia, e ele respondeu:
— Vocês chegaram ao limite do Ermo, como alguns de vocês devem saber. Escondido em algum lugar à nossa frente está o belo vale de Valfenda, onde Elrond mora na Última Casa Amiga. Enviei uma mensagem por meus amigos, e estamos sendo esperados.
Aquilo soou agradável e consolador, mas ainda não tinham chegado lá, e não era tão fácil quanto parecia encontrar a Última Casa Amiga a oeste das Montanhas. Parecia não haver árvores, vales ou colinas para quebrar a monotonia do terreno à sua frente, apenas uma vasta ladeira que subia lentamente até encontrar o pé da montanha mais próxima, um trecho extenso, da cor da urze e cheio de pedras se esboroando, com trechos e manchas de verde-grama e verde-musgo, indicando onde poderia haver água.
A manhã se foi, a tarde chegou, mas em toda a vastidão não se via sinal de nenhuma moradia. Estavam ficando ansiosos, pois percebiam que a casa poderia estar escondida em praticamente qualquer lugar entre eles e as montanhas. Depararam com vales inesperados, estreitos e com paredes íngremes, que se abriam de repente diante de seus pés, e, descendo os olhos, ficavam assombrados ao verem árvores e água correndo lá no fundo. Havia gargantas que quase podiam transpor com um salto, mas muito fundas e com cachoeiras em seu interior. Havia ravinas escuras que ninguém conseguiria saltar ou escalar. Havia pântanos, alguns deles verdes e agradáveis de olhar, com flores altas e coloridas, mas um pônei que entrasse ali com uma carga no lombo jamais conseguiria sair de novo.
Na realidade, a terra que se estendia do vau até as montanhas era muito mais vasta do que se poderia imaginar. Bilbo estava estupefato. A única trilha era marcada com pedras brancas, algumas pequenas, outras estavam meio cobertas de musgos e urzes. Definitivamente, seguir a trilha era um trabalho muito demorado, mesmo com a liderança de Gandalf, que parecia conhecer muito bem seu caminho.
A cabeça e a barba do mago iam de um lado para o outro enquanto procurava as pedras, e os outros o seguiam, mas não pareciam estar mais perto de seu destino quando começou a escurecer. A hora do chá já passara havia muito, e tudo indicava que logo aconteceria o mesmo com a hora da ceia. Mariposas voejavam ao redor, e a luz ficou muito fraca, pois a lua ainda não havia nascido. O pônei de Bilbo começou a tropeçar em pedras e raízes. Chegaram tão de repente a borda de uma descida íngreme que o cavalo de Gandalf quase escorregou ladeira abaixo.
— Aqui está, finalmente — gritou ele, e os outros se juntaram em volta para olhar por sobre a borda.
Viram um vale lá embaixo. Conseguiam ouvir a voz da água correndo num leito pedregoso, a fragrância das árvores se espalhava no ar e havia uma luz na encosta do vale, do outro lado do rio.
Bilbo jamais esqueceu como derraparam e escorregaram na meia-luz, descendo o ziguezague íngreme da trilha que conduzia ao vale secreto de Valfenda. O ar ficava mais quente à medida que desciam, o cheiro dos pinheiros deixava-o sonolento, e de vez em quando ele cabeceava e quase caia ou batia com o nariz no pescoço do pônei. O ânimo de todos melhorava à medida que desciam. As árvores eram agora faias e carvalhos, e havia uma sensação confortável no crepúsculo. O último tom de verde quase desaparecera da grama quando finalmente chegaram a uma clareira não muito acima das margens do rio.
“Hummm! Isto está me cheirando a elfo!”, pensou Bilbo, erguendo os olhos para as estrelas, que fulgiam claras e azuis. Naquele momento uma canção explodiu feito risada nas árvores:

Ei! Que você está tramando?
Aonde você está indo?
Os pôneis mal andando!
O rio vai fluindo
Ei! tra-la-la-láli
Aqui embaixo no vale!
Ei! Que você está buscando?
O que você está fazendo?
A lenha fumegando,
E as tortas já se assando!
Ei! TriHiHiH esta
O vale está em festa! Ha! Ha!
Ei! Aonde você está indo
As barbas sacudindo?
Ninguém está sabendo
O que Bolseiro vem trazendo
E Dwalin e Balin
Para o nosso vale
Em junho!
Ha! ha!
Ei! Você não vai ficar?
Você não vai fugir!
Os pôneis vão pastar!
O sol já vai sumir!
Ficar é bem melhor
E ouvir com atenção
Até o amanhecer
A nossa canção
ha! ha!

Assim eles riam e cantavam nas árvores e imagino que vocês achem tudo uma bela bobagem. Mas eles não ficariam preocupados, apenas ririam mais ainda se vocês lhes dissessem isso. Eram elfos, é claro. Logo Bilbo podia vê-los, à medida que a escuridão se tornava mais profunda. Amava os elfos, embora raramente os encontrasse, mas eles também o assustavam um pouco. Os anões não se dão bem com eles. Até mesmo anões bastante decentes como Thorin e seus amigos acham que eles são tolos (o que é uma coisa tola de achar), ou irritam-se com eles. Pois alguns elfos os provocam e riem deles, principalmente de suas barbas.
— Bem, bem! — disse uma voz. — Olhem só! Bilbo, o hobbit, num pônei, ora, ora! Não é engraçado?
— Espantosamente maravilhoso!
Então continuaram com uma nova canção, tão ridícula como a que eu transcrevi aqui. Por fim um deles, um camarada alto e jovem, saiu do meio das árvores e fez uma reverência para Gandalf e Thorin.
— Bem-vindos ao vale! — disse ele.
— Obrigado! — disse Thorin, meio ríspido, Gandalf, porém, já tinha descido do cavalo e estava entre os elfos, conversando alegremente.
— Vocês se desviaram um pouco do caminho — disse o elfo —, isto é, se estão indo para a única trilha que atravessa o rio e conduz até a casa lá adiante. Vamos mostrar o caminho certo, mas é melhor irem a pé, até chegarem à ponte. Vão ficar um pouco e cantar conosco ou vão seguir em frente? A ceia está sendo preparada lá adiante — disse ele. — Posso sentir o cheiro da lenha queimando na cozinha.
Mesmo cansado como estava, Bilbo gostaria de ficar um pouco. Elfos cantando em junho sob as estrelas não é algo que se possa perder, não quando se gosta dessas coisas. Além disso, teria gostado de trocar algumas palavras em particular com aquela gente que parecia saber seu nome e tudo sobre ele, embora nunca os tivesse visto antes. Achava que a opinião deles sobre a sua aventura poderia ser interessante. Os elfos sabem muita coisa, são espantosos quando se trata de noticias, e ficam sabendo o que acontece com os povos da terra com a rapidez da correnteza, ou mais rápido ainda.
Mas os anões só pensavam em cear o mais cedo possível, e não quiseram ficar. Eles prosseguiram a pé, conduzindo os pôneis, até chegarem a uma boa trilha e, por fim, à margem do rio. Este corria ligeiro e ruidoso, como os rios das montanhas costumam fazer nas noites de verão, depois que o sol bateu o dia todo na neve lá em cima. Havia apenas uma ponte estreita de pedra, sem parapeito, com largura suficiente para que um pônei pudesse atravessá-la e por ela tiveram de passar, lenta e cuidadosamente, um a um, cada qual levando seu pônei pela rédea.
Os elfos haviam trazido lamparinas cintilantes para a margem, e cantavam uma canção alegre enquanto o grupo atravessava.
— Não afunde a barba na espuma, tio! — gritaram eles para Thorin, que estava curvado, quase de quatro no chão. — Já é comprida o suficiente sem regar.
— Cuide para que Bilbo não coma todos os bolos! — gritaram eles. — Ele está gordo demais para passar por buracos de fechadura!
— Pssiu, pssiu! Boa Gente! E boa noite! — disse Gandalf, que vinha por último. — Os vales têm ouvidos, e alguns elfos têm línguas soltas demais. Boa noite!
Assim, finalmente, chegaram à Última Casa Amiga e encontraram suas portas abertas.
É estranho, mas as coisas boas e os dias agradáveis são narrados depressa, e não há muito que ouvir sobre eles, enquanto as coisas desconfortáveis, palpitantes e até mesmo horríveis podem dar uma boa história e levar um bom tempo para contar. Eles ficaram bastante tempo naquela casa agradável, quatorze dias pelo menos, e acharam difícil partir. Bilbo, de bom grado, teria permanecido lá para todo o sempre — mesmo que um desejo pudesse levá-lo de volta para sua toca de hobbit sem problemas. Apesar disso, há pouco a dizer sobre a estada deles lá.
O dono da casa era um amigo-dos-elfos — uma dessas pessoas cujos antepassados entravam nas estranhas histórias antes do início da História, nas guerras dos orcs malignos, dos elfos e dos primeiros homens do norte. Na época de nossa história ainda havia algumas dessas pessoas que tinham por ancestrais tanto elfos como heróis do norte, e Elrond, o dono da casa, era o seu chefe.

Bilbo em Rivendell (Valfenda)

Era nobre e tinha o rosto belo de um senhor élfico, era forte como um guerreiro, sábio como um mago, venerável como um rei dos anões, generoso como o verão. Ele aparece em muitas histórias, mas seu papel na história da grande aventura de Bilbo é pequeno, embora seja importante, como vocês vão ver, se conseguirmos chegar ao fim dela. Sua casa era perfeita, para quem gostasse de comer, dormir, trabalhar, contar histórias, cantar ou apenas de ficar sentado pensando, ou ainda de uma mistura agradável de tudo isso. Seres malignos nunca entravam naquele vale. Eu gostaria de ter tempo para lhes contar apenas algumas das histórias, ou mostrar uma ou duas das canções que eles ouviram naquela casa. Todos eles, inclusive os pôneis, ficaram descansados e fortes em poucos dias. Consertaram suas roupas, assim como seus ferimentos, ânimos e esperanças. Encheram as mochilas de comida e provisões, leves de carregar mas fortes o bastante para levá-los até o outro  ado das montanhas. Seus planos foram enriquecidos com os mais sábios conselhos.
Assim, chegou o dia da véspera do solstício de verão, e eles deveriam partir outra vez com os primeiros raios de sol do dia seguinte.
Elrond sabia tudo sobre qualquer tipo de runas. Naquele dia examinou as espadas que tinham trazido da caverna dos trolls e disse:
— Estas não foram feitas por trolls. São espadas antigas, espadas muito antigas dos Altos Elfos do Oeste, meus parentes. Foram feitas em Gondolin para as guerras contra os Orcs. Devem ter vindo do tesouro de algum dragão ou da pilhagem de algum orc, pois os dragões e os orcs destruíram aquela cidade há muito tempo. Esta, Thorin, as runas chamam de Orcrist, Fendeorc, na antiga língua de Gondolin, foi uma espada famosa. Esta, Gandalf, era Glamdring, Martelo do Inimigo, que o rei de Gondolin usava outrora. Tomem conta delas!
— Onde os trolls as conseguiram? — perguntou Thorin, examinando a espada com novo interesse.
— Não sei dizer — disse Elrond —, mas pode-se deduzir que seus trolls andaram saqueando outros saqueadores, ou encontraram sobras de velhos assaltos em algum esconderijo nas montanhas antigas. Ouvi dizer que ainda há tesouros escondidos nas cavernas abandonadas das minas de Moria, desde a guerra entre orcs e anões.
Thorin ponderou essas palavras.
— Vou guardar esta espada com todo respeito — disse ele. — Que ela logo possa fender orcs outra vez.
— Um desejo que provavelmente será concedido em breve nas montanhas! — disse Elrond. — Mas mostre-me o seu mapa!
Ele pegou o mapa, examinou-o por um longo tempo e depois balançou a cabeça, pois, se não aprovava totalmente os anões e o amor que sentiam pelo ouro, odiava dragões e sua maldade cruel, e se entristecia em lembrar a ruína da cidade de Vaíle e seus sinos alegres, e as margens queimadas do brilhante Rio Corrente. A lua reluzia num grande crescente de prata. Elrond ergueu o mapa e a luz branca brilhou através dele.
— O que é isto? — perguntou ele. — Há letras-da-lua aqui, ao lado das runas comuns que dizem “cinco pés de altura tem a porta, e três podem passar lado a lado”.
— Que são letras-da-lua? — perguntou o hobbit, muito interessado.
Adorava mapas, como eu já lhes disse antes, e, além disso, adorava runas e letras e caligrafia habilidosa, embora a sua fosse meio fina e trêmula.
— Letras-da-lua são letras rúnicas, mas não se podem vê-las — disse Elrond. — Não quando se olha diretamente. Só podem ser vistas quando a lua brilha atrás delas, e, além disso, com o tipo mais sofisticado, tem de ser uma lua da mesma forma e da mesma estação do dia em que foram escritas. Os anões as inventaram e as escreviam com penas de prata, como seus amigos podem lhe contar. Estas devem ter sido escritas numa véspera de solstício de verão, com lua crescente, muito tempo atrás.
— O que dizem? — perguntaram Thorin e Gandalf ao mesmo tempo, talvez um pouco vexados por justamente Elrond ter descoberto aquilo primeiro, embora realmente não tivesse havido uma oportunidade antes, e sabe-se lá quando haveria outra.
— Fique ao lado da pedra cinzenta quando o tordo bater — leu Elrond — e o sol poente com a última luz do Dia de Durin brilhará sobre a fechadura.
— Durin, Durin! — disse Thorin. — Ele foi o pai dos pais da mais antiga raça de Anões, os Barbas-Longas, e meu primeiro ancestral: sou seu herdeiro.
— Então, o que é o Dia de Durin? — perguntou Elrond.
— O primeiro dia do Ano Novo dos Anões — disse Thorin — é, como todos devem saber, o primeiro dia da última lua do outono, no limiar do inverno. Ainda o chamamos Dia de Durin, quando a última lua do outono e o sol aparecem juntos no céu. Mas isso não ajudará muito, receio eu, pois está além de nossas habilidades saber quando isso acontecerá de novo.
— É o que veremos — disse Gandalf. — Ainda há mais alguma coisa escrita?
— Nada que possa ser visto nesta lua — disse Elrond, devolvendo o mapa a Thorin, então eles desceram até a água para ver os elfos dançando e cantando em celebração da véspera do solstício de verão.
A manhã seguinte foi uma manhã de solstício de verão tão bela e fresca quanto se possa imaginar: céu azul sem nenhuma nuvem, e o sol dançando na água. Eles partiram em meio a canções de despedida e boa viagem, com os corações prontos para mais aventuras, e sabendo qual estrada deviam seguir nas Montanhas Sombrias até as terras além.

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