25 de março de 2016

Capítulo II - Carneiro assado

Bilbo se pôs em pé de um salto e, vestindo o roupão, foi para a sala de jantar. Ali não viu ninguém, mas apenas os vestígios de um desjejum farto e apressado. Havia uma bagunça horripilante na sala e pilhas de louça suja na cozinha. Quase todas as panelas e vasilhas pareciam ter sido usadas. Lavar a louça foi tão desanimadoramente real que Bilbo foi forçado a acreditar que a festa da noite anterior não tinha sido parte de seus pesadelos, como gostaria de crer. Na verdade, ficou bastante aliviado depois de pensar que todos se tinham ido sem ele, sem nem se darem ao trabalho de acordá-lo (“mas sem nem um muito-obrigado”, pensou), mesmo assim, de certa forma não pôde evitar sentir-se ligeiramente desapontado. A sensação o surpreendeu.
— Não seja tolo, Bilbo Bolseiro! — disse para si mesmo. — Pensando em dragões e toda essa besteira estapafúrdia na sua idade! — Colocou então um avental, acendeu o fogo, ferveu água e lavou a louça. Depois fez um pequeno e agradável desjejum na cozinha antes de arrumar a sala de jantar. Nessa hora o sol estava brilhando, a porta da frente estava aberta, deixando entrar uma brisa morna de primavera. Bilbo começou a assobiar alto e a esquecer-se da noite anterior. Na verdade, estava justamente se sentando para um segundo ligeiro e agradável desjejum na sala de jantar, ao lado da janela aberta, quando eis que entrou Gandalf.
— Meu querido companheiro — disse ele — quando é que você vem? E aquela conversa sobre acordar cedo? E aqui está você fazendo o seu desjejum, ou qualquer que seja o nome que dê a isso, às dez e meia! Eles lhe deixaram um recado porque não puderam esperar.
— Que recado? — disse o pobre Bilbo Bolseiro, todo atrapalhado.
— Grandes Elefantes! — disse Gandalf. — Você não parece o mesmo esta manhã. Nem tirou o pó do consolo da lareira!
— E o que isso tem a ver com o assunto? Tive muito o que fazer lavando a louça de quatorze pessoas!
— Se tivesse tirado o pó do consolo da lareira, teria encontrado isto bem debaixo do relógio — disse Gandalf, entregando a Bilbo um bilhete (obviamente escrito em seu próprio papel de anotações).
Foi isto o que leu:

Thorin e Companhia para o Ladrão Bilbo, saudações!
Pela sua hospitalidade, nossos mais sinceros agradecimentos, e pela sua oferta de ajuda profissional, nossa agradecida aceitação. Condições: pagamento contra entrega, até e não acima do valor de um quatorze avos do lucro total (se houver algum), todas as despesas de viagem garantidas em qualquer situação, despesas funerárias a serem custeadas por nós ou nossos representantes, se a ocasião se apresentar e se o assunto não se resolver de outra forma.
Julgando desnecessário perturbar seu precioso repouso, partimos na frente para fazer os preparativos necessários, e estaremos no aguardo de sua respeitável pessoa na Estalagem Dragão Verde, em Beirágua, às onze horas da manhã em ponto. Contamos com a sua pontualidade.
Reiterando nossos protestos de elevada estima, respeitosamente, Thorin e Cia.

— Restam-lhe apenas dez minutos. Você vai ter de correr — disse Gandalf.
— Mas... — disse Bilbo.
— Não há tempo para isso — disse o mago.
— Mas... — disse Bilbo de novo.
— Também não há tempo para isso! Vamos indo!
Até o fim de seus dias Bilbo nunca pôde lembrar como se viu fora de casa, sem chapéu, bengala ou qualquer dinheiro, e sem nada do que geralmente levava quando saía, sem terminar o desjejum e muito menos lavar a louça, entregando as chaves de casa nas mãos de Gandalf e correndo o máximo que seus pés peludos conseguiam ladeira abaixo, passando pelo grande Moinho, atravessando o Água e depois continuando por uma milha ou mais.
Estava muito esbaforido quando chegou a Beirágua, bem no instante em que o relógio batia onze horas, e descobriu que viera sem um lenço no bolso!
— Bravo! — disse Balin, que estava na porta da estalagem aguardando a chegada dele. Naquele mesmo momento todos os outros apareceram na curva da estrada que vinha da vila. Estavam montados em pôneis, e pendurados em cada pônei vinham todos os tipos de bagagens, pacotes, embrulhos e parafernália. Havia um pônei muito pequeno, aparentemente destinado a Bilbo.
— Subam, e vamos indo! — disse Thorin.
— Sinto imensamente — disse Bilbo — mas vim sem o meu chapéu, e deixei para trás meu lenço e não trago nenhum dinheiro. Para ser preciso, só vi o seu bilhete às 10h45.
— Não seja preciso — disse Dwalin — e não se preocupe! Vai ter de se virar sem lenços, e sem mais um monte de coisas, antes de chegar ao fim da viagem. Quanto ao chapéu, tenho um capuz e uma capa a mais em minha bagagem.
Foi assim que todos vieram a partir, saindo da estalagem numa bela manhã de fim de abril, em pôneis carregados. Bilbo vestia um capuz verde-escuro (um pouco manchado pelo tempo) e uma capa verde-escura emprestados de Dwalin. Eram grandes demais para ele, que ficou com uma aparência bastante cômica. O que teria pensado seu pai, Bungo, não me atrevo a imaginar. Seu único consolo era que não poderia ser confundido com um anão, já que não tinha barba.
Não tinham cavalgado muito quando apareceu Gandalf, esplêndido num cavalo branco. Trouxera um monte de lenços, e também o cachimbo e o fumo de Bilbo. Assim, depois disso, o grupo continuou avançando muito alegre, e contavam histórias ou cantavam canções enquanto iam cavalgando durante todo o dia, exceto, é claro, quando paravam para as refeições. Estas não vinham com a frequência de que Bilbo gostaria, mas, apesar disso, ele começou a sentir que aventuras, afinal de contas, não eram tão ruins assim. Primeiro tinham passado através das terras dos hobbits, uma ampla e respeitável região, habitada por gente decente, com boas estradas, uma estalagem ou duas, e, de vez em quando, um anão ou um fazendeiro viajando a negócios. Depois chegaram a terras onde as pessoas falavam de modo estranho, e cantavam canções que Bilbo nunca ouvira antes. Agora tinham atingido as Terras Solitárias, onde não restava ninguém, nem estalagens, e as estradas ficavam cada vez piores. Não muito adiante havia montanhas desoladas, que subiam cada vez mais alto, cheias de árvores. Em algumas delas havia velhos castelos de aparência maligna, como se tivessem sido construídos por pessoas malvadas. Tudo parecia tristonho, pois naquele dia o tempo havia ficado ruim. Durante a maior parte do tempo, estivera tão bom como podia estar em maio, mesmo nas histórias alegres, mas agora estava frio e úmido. Nas Terras Solitárias eram obrigados a acampar, quando podiam, mas pelo menos não chovera.
— E pensar que logo estaremos em junho — resmungou Bilbo, chapinhando atrás dos outros numa trilha muito lamacenta.
Já passara da hora do chá e chovia a cântaros, como chovera durante todo o dia, do capuz pingavam gotas que lhe entravam nos olhos, a capa estava cheia de água, o pônei estava cansado e tropeçava nas pedras, os outros estavam amuados demais para conversar. “Com certeza a chuva penetrou na roupa seca e nas mochilas de comida”, pensou Bilbo. “Maldita ladroagem e tudo o que tem a ver com ela! Gostaria de estar em casa, na minha gostosa toca, ao lado do fogo, com a chaleira começando a cantar!” Não foi a última vez que desejou tal coisa!
Ainda os anões avançavam, nunca se voltando para trás ou prestando qualquer atenção ao hobbit. Em algum ponto atrás das nuvens cinzentas o sol devia ter se posto, pois começou a ficar escuro quando desciam um vale profundo em cujo leito corria um rio, o vento começou a soprar, e os salgueiros ao longo das margens curvavam-se e suspiravam. Por sorte a estrada passava por uma velha ponte de pedra, pois o rio, volumoso devido à chuva, descia em enxurrada das colinas e montanhas ao norte.
Já era quase noite quando atravessaram a ponte. O vento rompeu as nuvens cinzentas e uma lua surgiu vagando sobre as colinas entre os chumaços flutuantes. Então eles pararam e Thorin murmurou alguma coisa sobre cear e “onde vamos achar um canto seco para dormir?” Foi só nessa hora que deram pela falta de Gandalf. Até aquele momento, ele os tinha acompanhado por todo o caminho, sem nunca dizer se estava participando da aventura ou apenas fazendo-lhes companhia por algum tempo. Era ele quem tinha comido mais, conversado mais e rido mais. Mas agora simplesmente desaparecera!
— E bem na hora em que um mago seria da maior utilidade — rosnaram Dori e Nori (que partilhavam com o hobbit a opinião sobre refeições regulares, fartas e frequentes).
Por fim decidiram que teriam de acampar onde estavam. Dirigiram-se a um maciço de árvores e, embora estivesse mais seco embaixo delas, o vento derrubava a chuva das folhas, e o pinga-pinga era extremamente irritante.
E também o azar parecia ter contaminado o fogo. Os anões conseguem fazer fogo em praticamente qualquer lugar, usando praticamente qualquer coisa, com ou sem vento, mas naquela noite não conseguiram, nem mesmo Oin e Gloin, que eram muito bons nisso.
Então um dos pôneis se assustou por nada e disparou. Entrou no rio antes que pudessem detê-lo, e, antes que pudessem retirá-lo da água, Fili e Kili estavam quase se afogando, e toda a bagagem que o pônei levava fora carregada pelas águas. É claro que a maior parte era comida, e restou muitíssimo pouco para a ceia, e menos ainda para o desjejum.
Lá estavam eles sentados, carrancudos, molhados e resmungando, enquanto Oin e Gloin continuavam tentando acender o fogo, e brigando por causa disso. Bilbo refletia tristemente que nas aventuras nem tudo são passeios de pônei ao sol de maio quando Balin, que sempre fazia o papel de vigia do grupo, disse:
— Há uma luz lá adiante! — Havia uma colina a certa distância, com árvores nela, muito espessas em algumas partes.
Saindo da massa escura das árvores podiam ver uma luz brilhante, uma luz avermelhada que prometia aconchego, pois podia vir de uma fogueira ou de tochas.
Depois de olharem por algum tempo, começaram a discutir. Alguns diziam “não” e outros diziam “sim”. Alguns diziam que tinham mesmo de ir lá ver, e que qualquer coisa era melhor que pouca ceia, menos desjejum e roupas molhadas a noite toda. Uns diziam:
— Estas partes não são bem conhecidas, e ficam muito próximas das montanhas. Hoje raramente passam viajantes por aqui. Os velhos mapas não ajudam em nada: as coisas mudaram para pior e a estrada não é vigiada. Raramente se ouviu falar no rei por aqui, e quanto menos curioso você for enquanto passa por aqui, menos chance terá de encontrar problemas.
Outros diziam:
— Afinal de contas, somos quatorze.
Outros ainda diziam:
— Onde Gandalf se meteu? — Essa frase era repetida por todos.
Então a chuva começou a cair mais forte do que nunca, e Oin e Gloin começaram a brigar. Isso resolveu a questão.
— Afinal de contas, temos conosco um ladrão — disseram eles, e assim partiram, conduzindo os pôneis (com todo o devido e necessário cuidado) na direção da luz.
Atingiram a colina e logo estavam na floresta. Foram subindo a colina, mas não se encontrava uma trilha adequada, que pudesse levar a uma casa ou fazenda, e por mais que tentassem evitar houve muito farfalhar, estalar e ranger (e também resmungar e praguejar) enquanto avançavam por entre as árvores naquela escuridão de breu.
De repente, não muito distante, a luz vermelha brilhou intensamente através dos troncos das árvores.
— Agora é a vez do ladrão — disseram eles, referindo-se a Bilbo. — Você deve ir lá e descobrir tudo sobre aquela luz, e para o que ela serve, e se tudo está perfeitamente seguro e sob controle — Thorin disse ao hobbit. — Agora, vá depressa e volte logo, se tudo estiver bem. Caso contrário, volte se puder! Se não puder, pie duas vezes como uma coruja, e uma vez como um mocho, e faremos o que estiver ao nosso alcance.
Bilbo teve de ir, antes que pudesse explicar que podia piar como coruja tanto quanto podia voar como um morcego. Mas, de qualquer forma, os hobbits conseguem se movimentar em silêncio nas florestas, absolutamente em silêncio. Têm orgulho disso, e Bilbo, mais de uma vez enquanto avançavam, torcera o nariz para o que ele chamava “toda essa barulheira de anões”, embora eu ache que nem vocês nem eu teríamos notado qualquer coisa naquela noite de vento, nem que toda a comitiva tivesse passado a dois pés de distância. Quanto a Bilbo, caminhando com todo o cuidado na direção da luz vermelha, acho que nem mesmo uma doninha teria movido sequer um fio de bigode à sua passagem. Dessa forma, naturalmente, ele foi até a fogueira — pois era de fato uma fogueira — sem incomodar ninguém. E foi isto o que viu: Três pessoas muito grandes sentadas em volta de uma fogueira muito grande de troncos de faia. Estavam assando pedaços de carneiro em longos espetos de madeira e lambendo o caldo dos dedos. Havia um cheiro agradável, de comida saborosa. Também havia um barril de boa bebida por perto, e eles estavam bebendo em canecas. Mas eram trolls. Obviamente trolls. Até Bilbo, apesar de sua vida pacata, podia perceber isso: pelas grandes caras pesadas, pelo tamanho, pelo formato de suas pernas, para não falar no linguajar, que estava longe de ser adequado para uma sala de visitas, muito longe.
— Carneiro ontem, carneiro hoje e raios me partam se não vai ser carneiro amanhã de novo — disse um dos trolls.
— Não comemos nem sombra de carne de homem faz um tempão — disse um segundo. — Que raios o William tinha na cabeça quando trouxe a gente pra este lugar, não consigo imaginar. E a bebida está acabando, o que é pior — disse ele, batendo no cotovelo de William, que estava dando uma golada em sua caneca.
William engasgou.
— Cale a boca! — disse ele, assim que conseguiu.
— Você não acha que o pessoal vai ficar aqui parado esperando para sempre, só para ser devorado por você e Bert. Vocês dois já devoraram uma aldeia e meia desde que descemos das montanhas. Quanto mais vão querer? E já teve um tempo na nossa vida em que vocês diriam: “Obrigado, Bill” por um belo pedaço gordo de carneiro do vale como este aqui. — Arrancou um enorme pedaço da perna de carneiro que estava assando. E limpou os beiços na manga.
Sim, receio que os trolls realmente se comportem assim, até mesmo os que só tem uma cabeça. Depois de ouvir tudo isso, Bilbo devia ter feito alguma coisa imediatamente. Voltar em silêncio e avisar seus amigos que havia três grandes trolls mal-humorados por perto, que muito provavelmente gostariam de experimentar anão assado ou até mesmo pônei, para variar, ou então praticar um roubo rápido e eficiente. Um lendário ladrão de primeira classe, àquela altura, já teria saqueado os bolsos dos trolls — quase sempre vale a pena, se você consegue —, arrancado a carne dos espetos, afanado a cerveja e partido sem que ninguém notasse. Outros, mais práticos mas com menos orgulho profissional, teriam talvez enfiado um punhal em cada um deles antes que percebessem. Aí então a noite poderia passar alegremente.
Bilbo sabia disso. Já lera muitas coisas que nunca tinha visto ou feito. Estava muito alarmado, além de enojado, desejou estar a uma centena de milhas de distância e apesar disso, de alguma forma, não podia voltar para Thorin e Companhia de mãos vazias. Assim, ficou parado, hesitando, nas sombras. Dos vários procedimentos de ladroagem sobre os quais ouvira falar, saquear os bolsos dos trolls parecia o menos difícil, então finalmente arrastou-se para trás de uma árvore bem atrás de William.
Bert e Tom dirigiram-se para o barril. William estava tomando mais um trago. Então Bilbo reuniu toda a sua coragem e enfiou mãozinha no enorme bolso de William.
Havia uma bolsa nele, grande como um saco para Bilbo. “Ha!”, pensou ele, pegando gosto pelo novo trabalho, enquanto retirava a bolsa com cautela, “isto é um grande começo!”.
E foi! Bolsas de trolls são endiabradas, e esta não era exceção.
— Ei, quem é você? — guinchou ela ao sair do bolso.
William virou-se imediatamente e agarrou Bilbo pelo pescoço, antes que este pudesse se esconder atrás da árvore.
— Caramba, Bert! Olha o que eu apanhei! — disse William.
— O que é? — perguntaram os outros, aproximando-se.
— Não sei, não! O que é você?
— Bilbo Bolseiro, um ladr... hobbit — disse o pobre Bilbo, todo tremendo e perguntando-se como poderia emitir sons de coruja antes que eles o enforcassem.
— Um ladrhobbit? — indagaram eles, um pouco assustados.
Os trolls demoram para entender as coisas e são muito desconfiados do que não conhecem.
— De qualquer maneira, o que um ladrhobbit tem a ver com meu bolso? — perguntou William.
— E não se cozinham eles? — perguntou Tom.
— A gente pode tentar — disse Bert, apanhando um espeto.
— Não ia render mais que um bocado — disse William, que já tivera uma boa ceia — não quando estiver esfolado e desossado.
— Talvez tenha mais deles por aqui, e podemos fazer uma torta — disse Bert. — Ei, você, tem mais do seu tipo espreitando por aqui nestas florestas, seu coelhinho sujo? — disse ele, olhando para os pés peludos do hobbit, pegou-o pelos pés e o sacudiu.
— Sim, um monte — disse Bilbo, antes de lembrar que não devia entregar os amigos. — Nenhum, nenhum — disse logo em seguida.
— Que quer dizer? — disse Bert, segurando-o de cabeça para cima, pelos cabelos, desta vez.
— O que estou dizendo — disse Bilbo ofegante. — É, por favor, não me cozinhem, bondosos senhores! Sou um bom cozinheiro, e cozinho melhor do que sou cozinhado, se entendem o que quero dizer. Vou cozinhar muito bem para os senhores, um perfeito desjejum para os senhores, basta que não me sirvam na ceia.
— Pobre coitado — disse William, que já tinha comido até não poder mais e tomado um monte de cerveja. — Pobre coitado! Deixe ele ir!
— Não até que ele diga o que quer dizer com um monte e nenhum — disse Bert. — Não quero que me cortem a garganta enquanto durmo! Segure os pés dele no fogo, até que fale!
— Não vou permitir — disse William. — De qualquer jeito, quem o pegou fui eu.
— Você é um grande idiota, William — disse Bert — como eu já falei hoje mesmo.
— E você é um palerma!
— E eu não vou aguentar isso de você, Bill Huggins — disse Bert, dando um soco no olho de William.
Então houve uma bela briga. Bilbo teve esperteza suficiente para se desvencilhar dos pés deles quando Bert o derrubou no chão, antes que começassem a brigar feito cachorros, chamando um ao outro todos os tipos de nomes perfeitamente verdadeiros e aplicáveis, em vozes muito altas.
Logo estavam agarrados, quase rolando para cima da fogueira, chutando e esmurrando, enquanto Tom golpeava ambos com um galho para devolver-lhes o bom senso — e isso, é claro, só os deixava mais furiosos que nunca.
Aquele teria sido o momento para Bilbo sair de lá. Mas seus pobres pezinhos tinham sido muito apertados na enorme pata de Bert, e ele estava sem fôlego, e sua cabeça rodava, assim ficou lá deitado por um momento, ofegando, logo depois do círculo formado pela luz da fogueira.
Bem no meio da luta surgiu Balin. Os anões tinham ouvido ruídos a distância, e depois de esperarem por algum tempo que Bilbo voltasse, ou que piasse como uma coruja, começaram um a um a se arrastar na direção da fogueira, no maior silêncio possível. Logo que Tom viu Balin surgir, soltou um uivo horrendo. Os trolls simplesmente detestam a mera visão de anões (não-cozidos). Bert e Bill pararam de lutar imediatamente e “um saco, Tom, rápido!”, disseram eles. Antes que Balin, que se perguntava onde estaria Bilbo no meio de toda aquela confusão, percebesse o que estava acontecendo, um saco lhe cobriu a cabeça, e ele caiu.
— Ainda vão vir mais — disse Tom — ou estou redondamente enganado. Um monte e nenhum, é isso mesmo — disse ele. — Nenhum ladrhobbit, mas um monte destes anões aqui. Era disso que ele estava falando!
— Acho que tem razão — disse Bert — e é melhor a gente sair da luz.
E assim fizeram. Segurando nas mãos sacos que usavam para carregar carne de carneiro e outras pilhagens, esperaram nas sombras. Assim que cada anão se aproximava e olhava surpreso para a fogueira, para as canecas derrubadas e os ossos roídos, pop!, vinha um saco fedorento sobre sua cabeça e o anão caía. Logo Dwalin estava deitado ao lado de Balio, Fili e Kili juntos, e Dori, Nori e Ori num monte, e Oin e Gloin e Bifur e Bofur e Bombur desconfortavelmente amontoados perto do fogo.
— Isso vai ensinar a eles — disse Tom, pois Bifur e Bombur tinham dado um bocado de trabalho, lutando como doidos, como fazem os anões quando são acuados.
Thorin chegou por ultimo — e não foi pego de surpresa. Já veio esperando problemas, e não foi preciso ver as pernas de seus amigos saindo de sacos para que percebesse que as coisas não iam bem. Parou na sombra, a certa distância, e disse:
— O que significa toda esta confusão? Quem andou surrando minha gente?
— São trolls — disse Bilbo de trás de uma árvore. Os trolls tinham se esquecido completamente dele. — Estão escondidos nos arbustos com sacos — disse ele.
— Ah, é mesmo? — disse Thorin, e pulou à frente para a fogueira, antes que pudessem saltar sobre ele. Thorin apanhou um enorme galho com uma ponta toda em chamas, Bert levou aquela no olho antes que pudesse pular de lado. Isso o colocou fora da batalha por uns momentos.
Bilbo fez o que pôde. Segurou a perna de Tom — tanto quanto podia, pois a perna era grossa como um tronco de árvore jovem — mas saiu voando para cima de uns arbustos quando Tom chutou as fagulhas contra o rosto de Thorin.
Em troca, Tom levou o galho na boca, e perdeu um dente da frente.
Isso o fez uivar, posso lhes garantir. Mas naquele exato momento William se aproximou por trás e jogou um saco bem na cabeça de Thorin, que ficou coberto até os pés. E assim a luta terminou. Agora estavam num belo apuro: todos arrumadinhos, amarrados em sacos, com três trolls furiosos (e dois com queimaduras e ferimentos memoráveis) sentados ao lado deles, discutindo se deviam assá-los devagar, fazer picadinho e cozinhá-los, ou ainda sentar em cima deles, um por um, e esmagá-los e transformá-los em geleia, e Bilbo em cima de um arbusto, com as roupas e a pele rasgadas, sem ousar se mexer, com medo de que pudessem ouvi-lo.
Foi exatamente nessa hora que Gandalf voltou. Mas ninguém o viu. Os trolls tinham acabado de decidir assar os anões agora e comê-los mais tarde — a ideia foi de Bert, e depois de muita discussão todos concordaram com ela.
— Não adianta assar agora, ia levar a noite inteira — disse uma voz.
Bert pensou que fosse William.
— Não comece a discussão de novo, Bill — disse — ou vai levar a noite inteira.
— Quem está discutindo? — disse William, achando que era Bert que tinha falado.
— Você — disse Bert.
— Você é um mentiroso — disse William, e assim a discussão começou toda de novo. No fim decidiram fazer picadinho dos anões e cozinhá-los. Assim, pegaram uma grande vasilha preta e as facas.
— Não adianta cozinhar! Não tem água, e o poço fica longe, e tudo mais — disse uma voz.
Bert e William pensaram que fosse Tom.
— Cale a boca! — disseram eles — ou não vamos acabar nunca. E você mesmo vai buscar a água, se disser mais alguma coisa.
— Cale a boca você! — disse Tom, que pensava ter ouvido a voz de William. — Quem está discutindo além de você? Gostaria de saber.
— Você é um burro — disse William.
— Burro é você! — disse Tom.
E então a discussão começou toda de novo, e foi ficando mais acalorada do que nunca, até que por fim eles decidiram se sentar nos sacos um a um e esmagar os anões, e deixar para cozinhá-los da próxima vez.
— E em quem vamos sentar primeiro? — disse a voz.
— Melhor sentar primeiro no último — disse Bert, cujo olho tinha sido machucado por Thorin. Pensou que Tom estivesse falando.
— Não fique falando sozinho! — disse Tom. — Mas se quiser sentar no último, sente. Qual é?
— Aquele com as meias amarelas — disse Bert.
— Besteira, aquele com as meias cinzentas — disse uma voz parecida à de William.
— Eu tenho certeza de que eram amarelas — disse Bert.
— Eram amarelas mesmo — disse William.
— Então por que você disse cinzentas? — disse Bert.
— Eu não disse nada. Foi o Tom que disse.
— Isso eu não fiz mesmo! — disse Tom. — Foi você.
— Dois contra um, para calar a sua boca! — disse Bert.
— Com quem você está falando? — disse William.
— Agora, pare com isso! — disseram Tom e Bert juntos. — A noite está passando e o dia nasce cedo. Vamos fazer o serviço!
— Que o dia pegue vocês todos, e virem pedra vocês! — disse uma voz que parecia a de William. Mas não era. Pois bem naquele momento a luz surgiu sobre a colina e ouviu-se um grande alvoroço nos galhos. Não foi William quem falou, pois transformou-se em pedra no momento em que se agachou, Bert e Tom ficaram como rochas no momento em que olharam para ele. E lá estão eles até hoje, sozinhos, a não ser quando os pássaros os usam como poleiros, pois os trolls, como vocês provavelmente sabem, precisam entrar debaixo da terra antes que amanheça, caso contrário retornam ao material das montanhas, de que são feitos, e nunca mais conseguem se mexer. Foi isso o que aconteceu com Bert, Tom e William.

Ted Nasmith - Os Trolls de Pedra

— Excelente! — disse Gandalf, enquanto saía de trás de uma árvore e ajudava Bilbo a descer de um espinheiro. Então Bilbo entendeu. Fora a voz do mago que mantivera os trolls discutindo e brigando, até que a luz chegou e acabou com eles.
O próximo passo foi desamarrar os sacos e libertar os anões.
Estavam quase sufocados, e muito furiosos: não tinham gostado nada de ficar ali jogados, ouvindo os trolls fazendo planos de assá-los e esmagá-los e fazer picadinho deles. Tiveram de ouvir o relato de Bilbo sobre o que lhe acontecera duas vezes antes de ficarem satisfeitos.
— Que hora idiota para ficar praticando furtos e afanando bolsos — disse Bombur —, quando o que queríamos era fogo e comida!
— Seja como for, é exatamente isso que vocês não iam conseguir desses camaradas sem lutar — disse Gandalf. — Em todo o caso, estão desperdiçando tempo agora. Não percebem que os trolls devem ter uma caverna ou um buraco em algum lugar aqui por perto para se esconderem do sol? Precisamos olhar lá dentro!
Procuraram, e logo encontraram marcas das botas de pedra dos trolls, distanciando-se por entre as árvores. Seguiram as pegadas colina acima, até que, oculta pelos arbustos, encontraram uma grande porta de pedra que dava acesso a uma caverna.
Mas não conseguiram abri-la, embora empurrassem todos juntos e Gandalf tentasse vários encantamentos.
— Será que isto ajudaria? — perguntou Bilbo, quando todos estavam ficando cansados e furiosos. — Encontrei-a no chão enquanto os trolls estavam brigando.
Estendeu uma chave enorme, embora sem dúvida William a tivesse achado muito pequena e discreta. Devia ter caído do bolso dele, por muita sorte, antes que o troll fosse transformado em pedra.
— Por que raios não o mencionou isso antes? — gritaram eles.
Gandalf agarrou a chave e a encaixou no buraco da fechadura. Então, com um grande empurrão, a porta de pedra cedeu e todos entraram. Havia ossos no chão e um cheiro nauseabundo no ar. Mas havia uma boa quantidade de comida espalhada em prateleiras e no chão, em meio a uma confusão de objetos saqueados de todos os tipos, desde botões de latão até potes cheios de moedas de ouro num canto. Havia muitas roupas, também, penduradas nas paredes — pequenas demais para trolls, receio que pertencessem a vitimas —, e entre elas várias espadas de diferentes tipos, formatos e tamanhos. Duas chamaram particularmente a atenção deles, por causa de suas belas bainhas e punhos adornados com pedras preciosas.
Gandalf e Thorin ficaram com elas, Bilbo pegou uma faca com bainha de couro. Para um troll, não passaria de uma faca de bolso, mas para o hobbit era tão boa como uma pequena espada.
— Estas lâminas parecem boas — disse o mago, desembainhando-as até a metade e examinando-as curiosamente. — Não foram feitas por nenhum troll, nem por nenhum ferreiro dos homens destas bandas e destes tempos, mas, quando conseguirmos ler as runas, saberemos mais sobre elas.
— Vamos sair deste cheiro horrível! — disse Fili.
Então eles levaram para fora os potes de moedas e a comida que não fora tocada e parecia boa para comer, levaram também um barril de cerveja que ainda estava cheio.
Naquela hora, sentiam vontade de fazer um desjejum e, famintos como estavam, não torceram o nariz diante do que conseguiram na despensa dos trolls. As provisões que traziam eram muito escassas. Agora tinham pão e queijo, e muita cerveja, e toucinho para tostar nas brasas da fogueira.
Depois disso dormiram, pois a noite fora conturbada, e nada mais fizeram até a tarde. Depois subiram com os pôneis e levaram os potes de ouro, enterrando-os num lugar bem escondido, não muito distante da trilha, perto do rio, lançando vários encantamentos sobre eles, pensando na possibilidade de conseguirem retornar e recuperá-los. Feito isso, todos montaram mais uma vez e foram avançando pela trilha na direção do leste.
— Onde você foi, se me permite perguntar? — disse Thorin a Gandalf enquanto os dois cavalgavam.
— Fui olhar à frente — disse ele.
— E o que o trouxe de volta bem na hora?
— O olhar para trás — disse ele.
— Exatamente! — disse Thorin. — Mas você poderia ser mais claro?
— Eu avancei para espionar nossa estrada. Logo ela ficará perigosa e difícil. E também eu estava preocupado em reabastecer nosso pequeno estoque de provisões. Não tinha ido muito longe, porém, quando encontrei alguns amigos de Valfenda.
— Onde fica isso? — perguntou Bilbo.
— Não interrompa! — disse Gandalf. — Você chegará lá daqui a alguns dias, se tivermos sorte, e então descobrirá tudo sobre Valfenda. Como estava dizendo, eu encontrei duas pessoas do povo de Elrond. Estavam correndo de medo dos trolls. Foram eles que me disseram que três deles tinham descido das montanhas e se fixado na floresta não muito longe da estrada: tinham afugentado todo mundo do distrito e emboscavam forasteiros.
— Tive imediatamente uma sensação de que deveria voltar. Olhando para trás vi uma fogueira ao longe e corri até ela. O resto vocês já sabem. Por favor, sejam mais cautelosos da próxima vez, ou nunca chegaremos a lugar nenhum!
— Obrigado — disse Thorin.

5 comentários:

  1. isso livro nã0 PRESTAAAAAAA................................[

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    1. UM bom leitor ler o livro até o final..
      nunca julgue um livro pela capa ou pelos três primeiros capitulos ;)
      passar bem!

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  2. Caraca, que negatividade, até agora tô gostando .-.

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  3. Livro muito bom, até o primeiro que consegui ler até o 2 capitulo, os outros não consegui, hehehe, tou muito sem vontade de ler, principalmente que já faz 3 anos que já li um, hehehe, então como posso dizer: LIVRO MARAVILHOSO!!! Vlw karina, é melhor que o filme!!!

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  4. Estou gostando muito! :) Vejo que vou usar muitas horas da minha vida nesse site rs...

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