25 de março de 2016

Capítulo I - Uma festa inesperada

Roger Garland – A Colina

Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo, tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.
A toca tinha uma porta perfeitamente redonda como uma escotilha, pintada de verde, com uma maçaneta brilhante de latão amarelo exatamente no centro. A porta se abria para um corredor em forma de tubo, como um túnel: um túnel muito confortável, sem fumaça, com paredes revestidas e com o chão ladrilhado e atapetado, com cadeiras de madeira polida e montes e montes de cabides para chapéus e casacos — o hobbit gostava de visitas. O túnel descrevia um caminho cheio de curvas, afundando bastante, mas não em linha reta, no flanco da colina. — A Colina, como todas as pessoas num raio de muitas milhas a chamavam —, e muitas portinhas redondas se abriam ao longo dela, de um lado e do outro. Nada de escadas para o hobbit: quartos, banheiros, adegas, despensas (muitas delas), guarda-roupas (ele tinha salas inteiras destinadas a roupas), cozinhas, salas de jantar, tudo ficava no mesmo andar, e, na verdade, no mesmo corredor. Os melhores cômodos ficavam todos do lado esquerdo (de quem entra), pois eram os únicos que tinham janelas, janelas redondas e fundas, que davam para o jardim e para as campinas além, que desciam até o rio.
Esse hobbit era um hobbit muito abastado, e seu nome era Bolseiro.
Os Bolseiros viviam nas vizinhanças da Colina desde tempos imemoriais, e as pessoas os consideravam muito respeitáveis, não apenas porque em sua maioria eram ricos, mas também porque nunca tinham tido nenhuma aventura ou feito qualquer coisa inesperada você podia saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer assunto sem ter o trabalho de perguntar a ele. Esta é a história de como um Bolseiro teve uma aventura, e se viu fazendo e dizendo coisas totalmente inesperadas.
Ele pode ter perdido o respeito dos seus vizinhos, mas ganhou  bem, vocês vão ver se ele ganhou alguma coisa no final.
A mãe desse nosso hobbit — o que é um hobbit? Imagino que os hobbits requeiram alguma descrição hoje em dia, uma vez que se tornaram raros e esquivos diante das Pessoas Grandes, como eles nos chamam. Eles são (ou eram) um povo pequeno, com cerca de metade da nossa altura, e menores que os anões barbados. Os hobbits não têm barba. Não possuem nenhum ou quase nenhum poder mágico, com exceção daquele tipo corriqueiro de mágica que os ajuda a desaparecer silenciosa e rapidamente quando pessoas grandes e estúpidas como vocês e eu se aproximam de modo desajeitado, fazendo barulho como um bando de elefantes, que eles podem ouvir a mais de uma milha de distância. Eles têm tendência a serem gordos no abdome, vestem-se com cores vivas (principalmente verde e amarelo), não usam sapatos porque seus pés já têm uma sola natural semelhante a couro, e também pelos espessos e castanhos parecidos com os cabelos da cabeça (que são encaracolados), têm dedos morenos, longos e ágeis, rostos amigáveis, e dão gargalhadas profundas e deliciosas (especialmente depois de jantarem, o que fazem duas vezes por dia, quando podem). Agora vocês sabem o suficiente para continuarmos.
Como eu estava dizendo, a mãe desse hobbit — isto é de Bilbo Bolseiro — era a famosa Beladona Túk, uma das três notáveis filhas do Velho Túk, chefe dos hobbits que viviam do outro lado do Água, o pequeno rio que passava ao pé da colina. Frequentemente se dizia (em outras famílias) que muito tempo atrás um dos ancestrais Túk provavelmente se casara com uma fada. É claro que isso era um absurdo, mas, ainda assim, com certeza havia neles algo não de todo hobbitesco, e, de vez em quando, alguns membros do clã Túk saiam em busca de aventuras.
Desapareciam discretamente, e a família silenciava sobre o assunto, mas permanecia o fato de que os Túks não eram tão respeitáveis como os Bolseiros, embora fossem indubitavelmente mais ricos.
Não que Beladona Túk tivesse tido qualquer aventura depois de se tornar a Sra. Bungo Bolseiro. Bungo, o pai de Bilbo, construiu para ela (e em parte com o dinheiro dela) a toca mais luxuosa que jamais se pôde encontrar, quer sob a Colina, quer acima da Colina, ou mesmo do outro lado do Água, e ali eles permaneceram até o fim de seus dias. Ainda assim, é provável que Bilbo, seu único filho, embora se parecesse e se comportasse exatamente como uma segunda edição de seu firme e tranquilo pai, tivesse em sua constituição alguma característica meio estranha do lado dos Túk, algo que estivesse apenas esperando uma oportunidade para se manifestar.
A oportunidade não apareceu até que Bilbo estivesse adulto, com mais ou menos cinquenta anos, vivendo na bonita toca de hobbit construída por seu pai, e que eu acabei de descrever para vocês. Na verdade, até que estivesse totalmente acomodado na vida, pelo menos aparentemente.
Por um curioso acaso, numa manhã distante, na quietude do mundo, quando havia menos barulho e mais verde, e quando os hobbits eram ainda numerosos e prósperos, e Bilbo Bolseiro estava parado à sua porta depois do desjejum, fumando um enorme cachimbo de madeira que chegava quase até os lanudos dedos dos seus pés (cuidadosamente escovados), Gandalf apareceu.
Gandalf! Se vocês tivessem ouvido apenas um quarto do que eu  ouvi a respeito dele, e eu ouvi só um pouco de tudo o que existe para ouvir, estariam preparados para qualquer tipo de história surpreendente.
Histórias e aventuras brotavam por todo lado, onde quer que ele fosse, da maneira mais extraordinária. Ele não passava por aquele caminho sob a Colina havia muito tempo, na verdade, não passara por ali desde que seu amigo, o Velho Túk, morrera, e os hobbits quase se haviam esquecido de seu aspecto. Estivera viajando, para além da Colina e do outro lado do Água, cuidando de seus próprios negócios, desde que eles todos eram meninos e meninas hobbits.
Tudo o que Bilbo, sem suspeitar de nada, viu naquela manhã foi um velho com um cajado. Usava um chapéu azul, alto e pontudo, uma capa cinzenta comprida, um cachecol prateado sobre o qual sua longa barba branca caia até abaixo da cintura, e imensas botas pretas.
— Bom dia! — disse Bilbo sinceramente. O sol brilhava, e a grama estava muito verde. Mas Gandalf lançou-lhe um olhar por baixo de suas longas e espessas sobrancelhas, que se projetavam da sombra da aba do chapéu.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou ele. — Está me desejando um bom dia, ou quer dizer que o dia está bom não importa que eu queira ou não, ou quer dizer que você se sente bem neste dia, ou que este é um dia para se estar bem?
— Tudo isso de uma vez — disse Bilbo. — É uma manhã muito agradável para fumar um cachimbo ao ar livre, além disso. Se você tiver um cachimbo com você, sente-se e tome um pouco do meu fumo! Não há pressa, temos o dia todo pela frente! — E então Bilbo se sentou numa cadeira à sua porta, cruzou as pernas e soprou um belo anel de fumaça cinzenta que se ergueu no ar sem se desmanchar e foi flutuando sobre a Colina.
— Muito bonito! — disse Gandalf. — Mas eu não tenho tempo para soprar anéis de fumaça esta manhã. Estou procurando alguém para participar de uma aventura que estou organizando, e está muito difícil achar alguém.
— Acho que sim, por estes lados! Nós somos gente simples e acomodada, e eu não gosto de aventuras. São desagradáveis e desconfortáveis! Fazem com que você se atrase para o jantar! Não consigo imaginar o que as pessoas veem nelas — disse o nosso Sr. Bolseiro, colocando um polegar atrás dos suspensórios e soprando outro anel de fumaça ainda maior.
Depois pegou sua correspondência matinal e começou a lê-la, fingindo não prestar mais atenção ao velho. Havia decidido que não era do tipo que o agradava e queria que ele fosse embora. Mas o velho não se mexeu. Ficou parado, apoiando-se no seu cajado, observando o hobbit sem dizer nada, até que Bilbo se sentiu meio embaraçado, e até um pouco contrariado.
— Bom dia! — disse ele finalmente. — Nós não queremos aventuras por aqui, obrigado! Você podia tentar além da Colina ou do outro lado do Água. — Com isso quis dizer que a conversa estava terminada.
— Você usa Bom Dia para um monte de coisas! — disse Gandalf. — Agora está querendo dizer que quer se livrar de mim e que o dia não ficará bom até que eu vá embora.
— De jeito nenhum, de jeito nenhum, caro senhor! Deixe-me ver, acho que não sei o seu nome.
— Sim, sim, meu caro senhor, e eu sei o seu, Sr. Bilbo Bolseiro. E você sabe o meu nome, embora não se lembre de que ele se refere a mim. Eu sou Gandalf, e Gandalf significa eu! E pensar que eu viveria para escutar um “Bom dia” do filho de Beladona Túk como se fosse um simples mascate que bate de porta em porta!
— Gandalf, Gandalf! Puxa vida! Não o mago errante que deu ao Velho Túk um par de abotoaduras de diamante que se abotoavam e nunca se soltavam até que fosse ordenado? Não o camarada que costumava contar histórias maravilhosas nas festas, sobre dragões, orcs e gigantes e sobre resgates de princesas e sobre a sorte inesperada de filhos de viúvas? Não o homem que costumava fazer fogos de artifício especialmente maravilhosos! Eu me lembro deles! O Velho Túk costumava soltá-los na véspera do Solstício de Verão. Esplêndido! Eles subiam como grandes lírios e bocas-de-leão e laburnos de fogo, ficavam no céu durante todo o entardecer!
Vocês já devem ter notado que o Sr. Bolseiro não era tão prosaico como queria acreditar que fosse, e também que gostava muito de flores.
— Ora, ora! — continuou ele. — Não o Gandalf que foi responsável por tantos moços e moças tranquilos partirem em loucas aventuras? Qualquer coisa, desde subir em árvores até visitar elfos, ou navegar em navios, navegar para outras praias! Puxa! A vida costumava ser muito interessante... quero dizer, você costumava perturbar muito as coisas por estas bandas naquela época. Eu peço desculpas, mas não imaginava que ainda estava na ativa.
— Onde mais eu poderia estar? — disse o mago. — De qualquer forma, estou satisfeito em saber que você se lembra de alguma coisa a meu respeito. Parece que a lembrança dos meus fogos de artifício, pelo menos, lhe é agradável, e isto já é alguma coisa. Mas, em memória do seu velho avô Túk e de sua mãe Beladona, darei o que você me pediu.
— Peço desculpas, mas não pedi nada!
— Você pediu sim, duas vezes agora. Desculpas. Está desculpado. Na verdade vou muito além disso, vou mandá-lo nessa aventura. Muito divertido para mim, muito bom para você... e lucrativo, muito provavelmente, se você conseguir chegar até o fim.
— Sinto muito! Eu não quero aventuras, muito obrigado. Hoje não. Bom dia! Mas, por favor, venha tomar chá, a qualquer hora que quiser! Por que não amanhã? Venha amanhã! Até logo!
Com isso o hobbit se virou e entrou por sua porta redonda e verde e a fechou o mais rápido que era possível sem parecer rude. Afinal de contas, magos são magos.
— Por que raios eu o convidei para o chá!? — perguntou para si mesmo, enquanto ia para a despensa. Tinha acabado de tomar o desjejum, mas achou que um pedaço de bolo ou dois, e um gole de alguma coisa, lhe fariam bem depois do susto.
Enquanto isso, Gandalf ainda estava parado do lado de fora da porta, rindo muito, mas sem fazer ruído. Depois de uns instantes ele se levantou, e com o cravo de seu cajado riscou um sinal estranho na bela porta verde da toca do hobbit. Depois foi embora, mais ou menos no momento em que Bilbo estava terminando o seu segundo pedaço de bolo e começando a pensar que se havia safado muito bem das aventuras.
No dia seguinte, quase havia esquecido Gandalf. Ele não se lembrava muito bem das coisas, a não ser que as anotasse em sua Agenda de Compromissos. Assim: Gandalf — Chá, Quarta-Feira. No dia anterior tinha ficado muito agitado para fazer qualquer coisa desse tipo.
Um pouco antes da hora do chá, um tremendo toque soou na campainha da porta da frente, e então ele se lembrou! Apressou-se e colocou a chaleira no fogo, pôs na mesa outra xícara e outro pires, um ou dois pedaços de bolo a mais, e correu para a porta.
— Desculpe por fazê-lo esperar! — ia dizer, quando viu que não era realmente Gandalf. Era um anão com uma barba azul enfiada num cinto de ouro, e olhos muito brilhantes sob seu capuz verde escuro. Assim que Bilbo abriu ele se enfiou porta adentro, como se fosse esperado.
Pendurou a capa com capuz no cabide mais próximo e:
— Dwalin, às suas ordens! — disse ele, fazendo uma grande reverência.
— Bilbo Bolseiro às suas! — disse o hobbit, surpreso demais para perguntar qualquer coisa no momento. Quando o silêncio que se seguiu tornou-se incômodo, ele acrescentou: — Estava quase na hora do meu chá, por favor, venha e sirva-se.
Talvez ele tenha sido um pouco seco, mas suas intenções eram gentis. E o que vocês fariam, se um anão aparecesse sem ser convidado em sua casa, e pendurasse suas coisas no seu corredor sem uma palavra de explicação? Não fazia muito tempo que eles estavam à mesa, na verdade, mal tinham chegado ao terceiro pedaço de bolo, quando veio um toque ainda mais alto da campainha.
— Com licença — disse o hobbit, e foi até a porta.
— Então, finalmente você chegou! — Era o que ele ia dizer para Gandalf desta vez.
Mas não era Gandalf. Em vez dele, ali estava na entrada um anão que parecia muito velho, com uma barba branca e um capuz vermelho, que também pulou para dentro assim que a porta foi aberta, como se tivesse sido convidado.
— Vejo que já começaram a chegar — disse ele quando viu pendurado o capuz verde de Dwalin. Pendurou o seu perto do outro, e: — Balin, às suas ordens — disse, com a mão sobre o peito.
— Obrigado! — disse Bilbo, ofegante. Não era a coisa certa para dizer, mas o já começaram a chegar o agitara muito.
Ele gostava de visitas, mas gostava de conhecê-las antes que chegassem, e preferia convidá-las por sua própria conta. Teve um pensamento horrível de que o bolo poderia não ser suficiente e então ele, como anfitrião, que sabia de sua obrigação e se resignava a ela apesar do sofrimento, poderia ter de ficar sem.
— Entre e tome um pouco de chá! — conseguiu dizer, depois de respirar fundo.
— Um pouco de cerveja me cairia melhor, se não lhe fizer diferença, meu bom senhor — disse Balin, agitando a barba branca. — Mas eu não recuso um pouco de bolo... bolo de sementes se você tiver.
— Um monte! — Bilbo se viu respondendo, para sua própria surpresa, e se viu também correndo até a adega para encher uma caneca de cerveja, e depois para a despensa para pegar dois belos e redondos bolos de sementes que fizera aquela tarde para petiscar depois do jantar.
Quando voltou, Balin e Dwalin estavam conversando à mesa como velhos amigos (na verdade, eles eram irmãos). Bilbo arriou a cerveja e o bolo com um baque na mesa diante deles, quando veio um toque forte da campainha de novo, e depois outro toque.
“Gandalf, com certeza, desta vez”, pensou ele, enquanto arfava ao longo do corredor. Mas não era. Eram mais dois anões, ambos com capuzes azuis, cintos de prata e barbas amarelas, e cada um deles carregava um saco de ferramentas e uma pá. Quando saltaram para dentro, assim que a porta começou a se abrir, Bilbo não ficou nem um pouco surpreso.
— Em que posso ajudá-los, meus anões? — disse ele.
— Kili, às suas ordens! — disse o primeiro.
— E Fili! — acrescentou o segundo, e ambos retiraram seus capuzes azuis e fizeram reverência.
— As suas ordens, e de sua família — respondeu Bilbo, lembrando-se das boas maneiras desta vez.
— Dwalin e Balin já estão aqui, pelo que vejo — disse Kili.
— Vamos nos juntar à multidão!
“Multidão!”, pensou o Sr. Bolseiro. “Isso não soa bem. Realmente preciso me sentar um pouco e colocar a cabeça no lugar, e tomar alguma coisa.” Ele só tinha tomado um gole — no canto, enquanto os quatro anões se sentavam em volta da mesa e conversavam sobre minas e ouro e problemas com os orcs e as depredações de dragões, e um monte de outras coisas que ele não entendia, e não queria entender, porque soavam aventureiras demais — quando dingue-lingue-dongue-longue, sua campainha tocou novamente, como se algum menino-hobbit estivesse tentando arrancá-la fora.
— Alguém está à porta! — disse ele, piscando.
— Pelo som, eu diria que uns quatro — disse Fili. — Além disso, nós os vimos vindo atrás de nós ao longe.
O pobrezinho do hobbit sentou-se no corredor e colocou as mãos na cabeça, querendo saber o que havia acontecido e o que iria acontecer, e se eles todos iriam ficar para o jantar. Então a campainha tocou outra vez, mais alto que nunca, e ele correu para a porta. Não eram quatro no fim das contas, eram CINCO.
Um outro anão juntara-se aos quatro enquanto ele estivera cismando no corredor.
Mal havia girado a maçaneta e estavam todos dentro, fazendo reverências e dizendo “às suas ordens” um após o outro. Dori, Nori, Ori, Oin e Gloin eram seus nomes, e logo dois capuzes roxos, um cinza, um marrom e um branco estavam pendurados nos cabides, e eles marcharam para a frente com suas mãos largas enfiadas em seus cintos de ouro e prata para se juntarem aos demais. Aquilo já quase se transformara numa multidão. Alguns pediram cerveja clara, outros pediram cerveja escura, e um deles pediu café, e todos pediram bolo, o que manteve o hobbit ocupado por um bom tempo.
Um grande bule de café acabava de ser levado ao fogo, os bolos de sementes tinham acabado, e os anões estavam começando uma rodada de bolinhos amanteigados, quando veio uma batida forte. Não um toque de campainha, mas um grande ratatá na bela porta verde do hobbit. Alguém estava batendo com um cajado!
Bilbo correu pelo corredor, muito zangado e totalmente desnorteado e desconcertado — era a mais estapafúrdia quarta-feira de que ele se lembrava. Abriu a porta com um solavanco e todos caíram para dentro, um em cima do outro. Mais anões, mais quatro! E Gandalf estava atrás, inclinando-se sobre seu cajado e rindo. Tinha feito um estrago razoável na superfície da bela porta, a propósito, também tinha feito desaparecer o sinal secreto que deixara nela na manhã anterior.
— Cuidado! Cuidado! — disse ele. — Não é do seu feitio, Bilbo, deixar amigos esperando no capacho, e depois abrir a porta como uma espingarda de pressão! Deixe-me apresentar Bifur, Bofur, Bombur e, especialmente, Thorin!
— As suas ordens! — disseram Bifur, Bofur e Bombur parados em fila.
Penduraram dois capuzes amarelos e um verde-claro, e também um azul-celeste com uma longa borla prateada. Este último pertencia a Thorin, um anão enormemente importante, na verdade ninguém menos que Thorin Escudo de Carvalho em pessoa. Que não estava de modo algum satisfeito por ter caído sobre o capacho de Bilbo como uma fruta madura, com Bifur, Bofur e Bombur em cima dele. Para começo de conversa, Bombur era imensamente gordo e pesado. Na verdade, Thorin era muito altivo, e não disse nada sobre estar às ordens, mas o pobre Sr. Bolseiro disse tantas vezes que sentia muito que finalmente ele resmungou um “não tem problema” e parou de franzir a testa.
— Agora estamos todos aqui! — disse Gandalf, olhando para a fileira de treze capuzes, capuzes de festa, removíveis, da melhor qualidade, e seu próprio chapéu, pendurados nos cabides. — Que reunião alegre! Espero que tenha sobrado alguma coisa para os atrasados comerem e beberem! O que é isso? Chá! Não, obrigado! Um pouco de vinho tinto para mim, eu acho.
— Para mim também — disse Thorin.
— E geleia de framboesa e torta de maçã — disse Bifur.
— E pastelão de carne com queijo — disse Bofur.
— E torta de carne de porco com salada — disse Bombur.
— E mais bolo, e cerveja clara, e café, se não se incomoda — disseram os outros anões através da porta.
— Sirva também alguns ovos, meu bom rapaz! — disse Gandalf para ele ouvir, enquanto o hobbit se esbaforia para as despensas. — E traga também a salada de galinha com picles.
“Parece que ele sabe tanto sobre o conteúdo das minhas despensas quanto eu”, pensou o Sr. Bolseiro, que estava se sentindo positivamente aturdido e começava a se perguntar se a mais infame das aventuras não tinha vindo parar exatamente dentro de sua casa. Na hora em que tinha acabado de pegar todas as garrafas e comidas e facas e garfos e copos e pratos e colheres e coisas empilhadas em grandes bandejas, já estava ficando com muito calor, e com o rosto vermelho, e zangado.
— Raios partam esses anões! — disse em voz alta. — Por que eles não vêm dar uma ajuda?
Dito e feito! Lá estavam Balin e Dwalin na porta da cozinha, e Fili e Kili atrás deles, e antes que o hobbit pudesse dizer faca eles tinham arrebatado as bandejas e um par de mesinhas para a sala e arrumado tudo de novo.
Gandalf sentou-se à cabeceira com todos os anões em volta: e Bilbo se sentou num banquinho ao lado do fogo, mordiscando um biscoito (estava totalmente sem apetite) e tentando fingir que tudo aquilo era perfeitamente normal e nada parecido com uma aventura. Os anões foram comendo e comendo, e conversando e conversando, e o tempo passou. Finalmente eles afastaram as suas cadeiras, e Bilbo foi retirar os pratos e copos.
— Imagino que vocês todos vão ficar para o jantar? — disse ele, com sua voz mais educada e calma.
— É claro! — disse Thorin. — E até depois disso. Não devemos terminar até muito tarde, e precisamos de um pouco de música primeiro. Agora vamos limpar tudo!
Então os doze anões – não Thorin, ele era importante demais e ficou conversando com Gandalf – puseram-se imediatamente de pé, e fizeram grandes pilhas com todas as coisas. E foram, sem esperar por bandejas, equilibrando colunas de pratos, cada uma com uma garrafa no topo, em uma única mão, enquanto o hobbit corria atrás deles quase gemendo de pavor: “Por favor, tenham cuidado” e “por favor, não se incomodem, eu posso cuidar disso!”. Mas os anões apenas começaram a cantar:

Copos trincados e pratos partidos!
Facas cegas, colheres dobradas!
É isso que em Bilbo causa gemidos
Garrafas em cacos e rolhas queimadas!
Pise em gordura, corte a toalha!
Sobre o tapete jogue os ossinhos!
O leite entornado no chão se coalha!
Em cada porta há manchas de vinho!
Jogue esta louça em água fervente,
Soque bastante com este bastão,
Se nada quebrar, por mais que se tente,
Faça rolar, rolar pelo chão!
Isso é o que Bilbo Bolseiro detesta!
Cuidado! Cuidado com os pratos da festa!

E é claro que eles não fizeram nenhuma dessas coisas terríveis, e que tudo estava limpo e guardado a salvo com a rapidez de um relâmpago, enquanto o hobbit ficava dando voltas e voltas na cozinha tentando ver o que eles estavam fazendo. Depois voltaram e encontraram Thorin com os pés sobre a guarda da lareira, fumando um cachimbo. Estava soprando os maiores anéis de fumaça, e onde quer que ordenasse que os anéis fossem, eles iam — para cima da chaminé, para baixo da mesa, ou dando voltas no forro, mas onde quer que um anel fosse, não era rápido o suficiente para escapar de Gandalf. Pop! Ele enviava um anel de fumaça menor do seu pequeno cachimbo de barro direto no meio de cada um dos anéis de Thorin. Então o anel de fumaça de Gandalf ficava verde e voltava para flutuar sobre a cabeça do mago. Já havia uma nuvem deles sobre a sua cabeça, e na luz fraca aquilo o deixava estranho e misterioso. Bilbo estava quieto, olhando — adorava anéis de fumaça —, e então ficou vermelho ao pensar em como se orgulhara dos anéis de fumaça que tinha soprado no vento sobre a Colina.
— Agora, um pouco de música! — disse Thorin. — Tragam os instrumentos!
Kili e Fili correram até seus sacos e trouxeram pequenas rabecas, Dori, Nori e Ori tiraram flautas de algum lugar em seus casacos, Bombur trouxe um tambor do corredor, Bifur e Bofur saíram também, e voltaram com clarinetas que haviam deixado entre as bengalas. Dwalin e Balin disseram:
— Com licença, deixei a minha na varanda!
— Traga a minha também! — disse Thorin.
Voltaram com violas tão grandes como eles próprios e com a harpa de Thorin embrulhada num pano verde. Era uma bonita harpa dourada, e quando Thorin a dedilhou a música irrompeu imediatamente, tão repentina e doce que Bilbo esqueceu todo o resto, e foi levado para terras escuras sob luas estranhas, lugares distantes do Água e muito distantes de sua toca de hobbit sob a Colina.
A escuridão entrava na sala pela pequena janela que se abria na encosta da Colina, a luz do fogo tremia — era abril — e, ainda assim, continuavam tocando, enquanto a sombra da barba de Gandalf se agitava contra a parede.
A escuridão encheu toda a sala, o fogo se extinguiu, as sombras se perderam e, ainda assim, continuaram tocando. E, de repente, primeiro um, e depois outro, começaram a cantar enquanto tocavam, o canto grave dos anões das profundezas de seus antigos lares, e este é como um fragmento de sua canção, se é que pode ser como uma de suas canções sem a sua música.

Para além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços cravados,
Devemos partir antes de o sol surgir,
Em busca do pálido ouro encantado.
Operavam encantos anões de outrora,
Ao som de martelo qual sino a soar
Na profundeza onde dorme a incerteza,
Em antros vazios sob penhascos do mar.
Para o antigo rei e seu elfo senhor
Criaram tesouros de grã nomeada,
As Pedras plasmaram, a luz captaram
Prendendo-a nas gemas do punho da espada.
Em colares de Prata eles juntaram
Estrelas floridas fizeram coroas
De fogo dragão e no mesmo cordão
Fundiram a luz do sol e da lua.
Para além das montanhas nebulosas frias,
Adentrando cavernas calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir
Buscando tesouros há muito esquecidos.
Para seu uso taças foram talhadas
E harpas de ouro. Onde ninguém mora
Jazeram Perdidas e suas cantigas
Por homens e elfos não foram ouvidas
Zumbiram Pinheiros sobre a montanha,
Uivaram os ventos em noites azuis.
O fogo vermelho queimava Parelho,
As árvores-tochas em fachos de luz.
Tocaram os sinos chovendo no vale,
Erguiam-se Pálidos rostos ansiosos.
Irado o dragão feroz se insurgira
Arrasando casas e torres formosas
Sob a luz da lua furavam montanhas
Os anões ouviram a marcha final
Fugiram do abrigo achando o inimigo
E sob seus pés a morte ao luar.
Para além das montanhas nebulosas frias,
Adentrando cavernas calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir,
Buscando tesouros há muito esquecidos.

Enquanto eles cantavam, o hobbit sentiu agitar-se dentro de si o amor por coisas belas feitas por mãos, com habilidade e com mágica, um amor feroz e ciumento, o desejo dos corações dos anões. Então alguma coisa dos Túk despertou no seu intimo, e ele desejou ir ver as grandes montanhas, e ouvir os pinheiros e as cachoeiras explorar as cavernas e usar uma espada ao invés de uma bengala. Olhou pela janela. As estrelas apareciam num céu escuro sobre as árvores. Pensou nas joias dos anões brilhando em cavernas escuras. De repente, na floresta além do Água uma chama surgiu — provavelmente alguém acendendo uma fogueira — e ele pensou em dragões saqueadores alojando-se em sua calma Colina e transformando-a toda em chamas. Sentiu um tremor e muito rapidamente voltou a ser o Sr. Bolseiro de Bolsão, Sob-a-Colina, novamente.
Levantou-se tremendo. Estava muito pouco disposto a ir buscar uma lamparina, e muito disposto a fingir que ia fazê-lo e se esconder atrás dos barris de cerveja na adega e não sair mais de lá até que todos os anões tivessem ido embora. De repente descobriu que toda a música e cantoria haviam parado, e todos estavam olhando para ele com olhos que brilhavam no escuro.
— Aonde você vai? — perguntou Thorin, num tom de quem parecia estar adivinhando tudo sobre as disposições do hobbit.
— Que tal um pouco de luz? — disse Bilbo, como que pedindo desculpas.
— Nós gostamos do escuro — disseram todos os anões. — Escuro para negócios escusos! Ainda há muitas horas antes da alvorada.
— Claro! — disse Bilbo, sentando-se apressadamente. Não acertou o banquinho e acabou se sentando na guarda da lareira, derrubando o atiçador e a pá com muito barulho.
— Silêncio! — disse Gandalf — Deixem Thorin falar!
E foi assim que Thorin começou.
— Gandalf, anões e Sr. Bolseiro! Estamos reunidos na residência de nosso amigo e companheiro de conspiração, este mui excelente e audacioso hobbit. Que o pelo de seus pés jamais caia! Todos os elogios ao seu vinho e à sua cerveja! — Parou para tomar fôlego e receber um polido comentário do hobbit, mas os elogios haviam sido desperdiçados com o pobre Bilbo, que estava fazendo muxoxos de protesto por estar sendo chamado de audacioso e, pior de tudo, companheiro de conspiração, embora não conseguisse emitir nenhum som, de tão desconcertado que estava. E Thorin continuou: — Estamos reunidos para discutir nossos planos, caminhos, meios, política e estratégias. Deveremos, brevemente, antes do nascer do dia, iniciar uma longa viagem, uma viagem da qual alguns de nós, ou todos nós (com a exceção de nosso amigo e conselheiro, o engenhoso mago Gandalf, talvez nunca voltemos. Este é um momento solene. Nosso objetivo é, pelo que entendo, bem conhecido por todos. Para o estimável Sr. Bolseiro, e talvez para um ou dois dos anões mais jovens (acho que estou certo em citar Kili e Fili, por exemplo), a situação exata no momento parece exigir uma pequena e breve explicação...
Este era o estilo de Thorin. Ele era um anão importante. Se lhe fosse permitido, provavelmente continuaria assim até que estivesse sem fôlego, sem dizer a ninguém coisa alguma que ainda não fosse conhecida.
Mas ele foi rudemente interrompido. O pobre Bilbo não podia suportar mais. Ao ouvir talvez nunca voltemos, começou a sentir um grito agudo vindo de seu interior, que logo irrompeu como o apito de uma locomotiva saindo de um túnel. Todos os anões pularam, derrubando a mesa. Gandalf acendeu uma luz azul na ponta de seu cajado mágico, e nesse brilho de fogo de artifício podia-se ver o pobre hobbit ajoelhado sobre o tapete da lareira, tremendo como gelatina derretendo. Então caiu duro no chão, e ficou gritando “atingido por um raio, atingido por um raio!” repetidas vezes, e isso foi tudo que conseguiram arrancar dele por um longo tempo.
Então os anões o pegaram e o tiraram do caminho, levando-o para o sofá da sala de visitas e deixando uma bebida perto dele, e voltaram para seus negócios escusos.
— Sujeitinho impressionável — disse Gandalf, enquanto eles se sentavam. — Tem uns acessos estranhos, mas é um dos melhores, um dos melhores. Feroz como um dragão num aperto.
Se vocês alguma vez na vida já viram um dragão num aperto, irão perceber que essa comparação só podia ser uma licença poética quando aplicada a qualquer hohbit, mesmo no caso do tio-bisavô do Velho Túk, Urratouro, que era tão grande (para um hobbit) que conseguia montar um cavalo. Ele atacou os pelotões dos orcs de Monte Gram, na Batalha dos Campos Verdes, e arrancou a cabeça de seu rei Golfimbul com um taco de madeira. A cabeça voou pelos ares cerca de cem jardas e caiu numa toca de coelho, e dessa maneira a batalha foi vencida e ao mesmo tempo foi inventado o jogo de golfe.
Enquanto isso, entretanto, o descendente mais pacífico de Urratouro estava voltando à vida na sala de visitas. Depois de um momento e de uma bebida, arrastou-se nervosamente ate a porta da sala. Isto foi o que ouviu, Gloin falando:
— “Hunf!” — ou algum resmungo mais ou menos assim. — Você acha que ele serve? Para Gandalf está tudo bem ficar falando da ferocidade desse hobbit, mas um acesso desses numa hora de agitação seria o suficiente para acordar o dragão e todos os seus parentes, e matar a todos nós. Eu acho que o acesso pareceu mais de medo do que de agitação! Na verdade, se não fosse pelo sinal na porta, eu teria certeza de que tinha chegado na casa errada. Assim que bati os olhos nesse sujeitinho bufando e esperneando no tapete, eu tive minhas dúvidas. Ele parece mais um dono de armazém que um ladrão!
Então o Sr. Bolseiro girou a maçaneta e entrou. O lado Túk havia vencido. De repente sentiu que poderia ficar sem comida ou descanso só para ser considerado feroz. Quanto a sujeitinho bufando e esperneando no tapete, isso quase o fez ficar realmente feroz. Muitas vezes no futuro a sua parte Bolseiro iria se arrepender do que estava fazendo agora e ele diria a si mesmo: “Bilbo, você foi um bobo, você caiu na armadilha e meteu os pés pelas mãos.”
— Desculpem — disse ele — se, por acaso, ouvi o que vocês estavam dizendo. Não vou fingir que estou entendendo o que disseram, ou a referência que fizeram a ladrões, mas acho que estou certo em acreditar — isto é o que ele chamava “defender sua dignidade” — que acham que eu não sirvo. Eu vou lhes mostrar. Não tenho sinais na minha porta, que foi pintada há uma semana, e tenho certeza de que vocês vieram bater na casa errada. Assim que vi suas caras esquisitas na porta, tive minhas dúvidas. Mas façam de conta que esta é a casa certa. Digam-me o que vocês querem que seja feito e vou tentar fazê-lo, mesmo que eu tenha de andar daqui até o leste do leste e lutar contra os Homens-dragões selvagens no Último Deserto. Eu tive um tio-tetravô, Urratouro Túk, que...
— É, sim, mas isso foi há muito tempo — disse Gloin. — Eu estava falando de você. E garanto que existe um sinal em sua porta... O sinal comum que usamos nesse negócio, ou costumava ser assim. Ladrão procura por um bom emprego, com grandes emoções e uma boa recompensa, geralmente é assim que se anuncia. Você pode dizer Especialista em Caçadas de Tesouro em vez de ladrão, se quiser. Alguns deles preferem. Para nós é a mesma coisa. Gandalf nos disse que havia um homem do tipo nestas redondezas procurando um emprego urgente, e que ele tinha acertado um encontro aqui nesta quarta-feira, na hora do chá.
— É claro que há um sinal — disse Gandalf. — Eu mesmo o coloquei. Por razões muito boas. Vocês me pediram para encontrar o décimo quarto homem para a sua expedição, e eu escolhi o Sr. Bolseiro. Se alguém disser que escolhi o homem errado, ou a casa errada, podem ficar em treze e com todo o azar que quiserem, ou então vão voltar à extração de carvão.
Ele franziu o cenho para Gloin com tanta raiva que o anão afundou na cadeira e quando Bilbo tentou abrir a boca para fazer uma pergunta, ele se virou e franziu-lhe a testa levantando as sobrancelhas espessas, e Bilbo fechou a boca imediatamente.
— Assim está bem — disse Gandalf. — Não vamos mais discutir. Eu escolhi o Sr. Bolseiro e isto deve ser o suficiente para todos vocês. Se eu digo que ele é um ladrão, isso é o que ele é, ou será quando chegar a hora. Existe muito mais nele do que vocês podem imaginar, e muito mais do que ele mesmo possa ter ideia. Vocês vão (possivelmente) viver para me agradecer um dia. Agora, Bilbo, meu rapaz, traga a lamparina e vamos iluminar um pouco isto aqui.
Sobre a mesa, à luz de uma grande lamparina com um quebra-luz vermelho, ele desenrolou um pergaminho muito parecido com um mapa.
— Isto foi feito por Thror, seu avô, Thorin — disse ele em resposta às perguntas excitadas dos anões. — É um mapa da Montanha.
— Acho que isso não vai ajudar muito — disse Thorin, desapontado, depois de dar uma olhada. — Eu me lembro muito bem da Montanha e das terras em volta dela. E eu sei onde fica a Floresta das Trevas, e também o Urzal Seco, onde os grandes dragões se reproduziam.
— Há um dragão marcado em vermelho na Montanha — disse Balin —, mas vai ser fácil encontrá-lo sem isso aí, se é que vamos conseguir chegar lá.
— Existe um ponto que vocês não notaram — disse o mago —, e é a entrada secreta. Estão vendo a runa no lado oeste e a mão apontando para ela saindo das outras runas? Isso marca uma passagem secreta para os Salões Inferiores. (Olhem o mapa no início deste livro e lá verão as runas em vermelho.)

John Howe - Uma Festa Inesperada

— Pode ter sido secreta uma vez — disse Thorin — mas como podemos saber se ainda é secreta? O Velho Smaug viveu lá tempo suficiente para descobrir qualquer coisa que se possa conhecer sobre essas cavernas.
— Pode ser, mas ele não tem podido usá-la por muitos e muitos anos.
— Por quê?
— Porque a passagem é muito pequena: “Cinco pés de altura a porta, e três podem passar lado a lado”, dizem as runas, mas Smaug não o passaria por um buraco desse tamanho nem mesmo quando era um dragão jovem, e certamente não depois de ter devorado tantos anões e homens de Vaíle.
— Para mim parece um buraco bem grande — exclamou Bilbo (que não tinha nenhuma experiência com dragões, mas apenas com tocas de hobbits).
Estava ficando entusiasmado e interessado de novo, tanto que se esqueceu de manter a boca fechada.
Adorava mapas, e em seu corredor estava pendurado um bem grande da Região Circunvizinha com todas as suas caminhadas favoritas marcadas com tinta vermelha.
— Como poderia uma porta tão grande ser mantida em segredo para todas as pessoas de fora, com exceção do dragão? — perguntou.
Ele era apenas um pequeno hobbit, vocês devem se lembrar.
— De muitas maneiras — disse Gandalf. — Mas de que maneira esta porta foi escondida nós não saberemos sem ir lá verificar. Pelo que diz o mapa, posso adivinhar que existe uma porta fechada, que foi feita de modo a se parecer exatamente com a encosta da Montanha. Esse é geralmente o método dos anões... Acho que é isso, não é?
— Certo — disse Thorin.
— E também — continuou Gandalf — esqueci de mencionar que com o mapa havia uma chave, uma chave pequena e curiosa. Aqui está ela! — disse ele, entregando a Thorin uma chave com uma haste longa e dentes intricados, feita de prata. — Guarde-a em lugar seguro!
— Vou fazer isso — disse Thorin, e colocou a chave numa corrente fina que pendia de seu pescoço, sob o casaco. — Agora as chances parecem maiores. Essa notícia melhora muito as coisas. Até agora não tínhamos uma ideia clara do que fazer. Estávamos pensando em ir para o leste, com o maior cuidado e silêncio possível, até o Lago Comprido. Depois disso o problema iria começar...
— Muito antes disso, se é que sei alguma coisa sobre as estradas que levam para o leste — interrompeu Gandalf.
— Nós poderíamos sair daqui, subindo ao longo do Rio Corrente — continuou Thorin, sem prestar atenção — e assim até as ruínas de Vaíle, a velha cidade naquele vale, sob a sombra da Montanha. Mas nenhum de nós gostou da ideia do Portão Dianteiro. O rio vem exatamente de dentro dele através do penhasco ao sul da Montanha, e por ali também sai o dragão, muito frequentemente, a não o ser que tenha mudado seus hábitos.
— Isso não adiantaria nada — disse o mago — não sem um Guerreiro valente, até um Herói. Eu tentei achar um, mas os guerreiros estão ocupados lutando uns contra os outros em terras distantes, e por estes lados os heróis são raros ou simplesmente impossíveis de encontrar. As espadas nestas partes estão em sua maioria cegas, os machados são usados para árvores, e os escudos como berços ou tampas de pratos, e os dragões estão confortavelmente distantes (e por isso são Lendários). É por isso que optei pelo roubo, especialmente quando me lembrei da existência de uma porta lateral. E aqui está o nosso pequeno Bilbo Bolseiro, o ladrão, o escolhido e eleito ladrão. Então vamos continuar e fazer alguns planos.
— Então, muito bem — disse Thorin —, se o ladrão perito nos der algumas ideias e sugestões. — Virou-se para Bilbo, numa gentileza fingida.
— Primeiramente eu queria saber um pouco mais a respeito das coisas — disse este, sentindo-se todo confuso e um pouco amedrontado, mas, até o momento, determinado como um Túk a ir adiante. — Quero dizer, sobre o ouro e o dragão, e tudo o mais, e como ele chegou até lá, e a quem ele pertence, e todo o resto.
— Por minhas barbas! — disse Thorin — Você não viu o mapa? E não ouviu nossa música? E não estamos falando de tudo isso há horas?
— Mesmo assim, gostaria de tudo bem explicadinho — disse ele obstinadamente, adotando sua atitude de negócios (geralmente reservada para pessoas que tentavam tomar dinheiro emprestado dele), e fazendo de tudo para parecer sábio e prudente e profissional e à altura das recomendações de Gandalf. — Eu também gostaria de saber sobre os riscos, despesas extras, o tempo necessário e a remuneração, e tudo o mais. — Com isso ele queria dizer: “O que vou ganhar com isso?” e “Vou voltar vivo?”
— Muito bem — disse Thorin. — Há muito tempo, na época de meu avô Thror, nossa família foi expulsa do extremo norte, e voltou com toda sua riqueza e ferramentas para a Montanha deste mapa. Ela fora descoberta pelo meu ancestral distante, Thrain, o Velho, mas na época de Thror eles exploraram minas e fizeram salões maiores e oficinas maiores também, e, além disso, acho que encontraram uma grande quantidade de ouro, além de muitas joias. De qualquer modo, ficaram imensamente ricos e famosos, e meu avô tornou-se Rei sob a Montanha novamente, e era tratado com grande reverência pelos homens mortais, que viviam no sul, e estavam se espalhando gradualmente ao longo do Rio Corrente até o vale que fica à sombra da Montanha. Naqueles dias, eles construíram a alegre cidade de Vaíle. Reis costumavam mandar buscar nossos artífices, e recompensavam muito bem até os menos habilidosos. Pais nos imploravam para aceitar seus filhos como aprendizes, e nos pagavam regiamente, sobretudo com suprimentos de comida, que nunca nos preocupávamos em procurar ou cultivar para nosso uso. Esses foram dias felizes, e os mais pobres de nós tinham dinheiro para gastar e emprestar, e tempo para fazer coisas bonitas por puro prazer, sem falar dos brinquedos mais mágicos e maravilhosos, do tipo que não se encontra em lugar algum no mundo hoje em dia. Desse modo, os salões de meu avô ficaram cheios de armaduras e joias, de esculturas e taças, e o mercado de brinquedos de Vaíle era a maravilha do norte.
— Sem dúvida, foi isso que trouxe o dragão. Dragões roubam joias e ouro, você sabe, dos homens, dos elfos e dos anões, onde quer que possam encontrá-los e guardam o que roubaram durante toda a sua vida (o que é praticamente para sempre, a não ser que sejam mortos), e nunca usufruem sequer um anel de latão. Na verdade, eles mal sabem distinguir um trabalho bem feito de um trabalho ruim, embora tenham uma boa noção do valor de mercado corrente e não o conseguem fazer nada por si mesmos, nem sequer remendar uma escama solta de suas armaduras. Havia muitos dragões no norte naquela época, e o ouro estava provavelmente se tornando raro por lá, com os anões indo para o sul ou sendo mortos, e com todo o tipo de ermo e destruição geral que os dragões provocam, indo de mal a pior. Havia um dragão especialmente ganancioso, forte e mau, chamado Smaug. Um dia ele alçou voo e veio para o sul. O primeiro sinal dele que ouvimos foi um barulho como um furacão vindo do norte, e os pinheiros das montanhas chiando e estalando com o vento. Alguns dos anões por acaso estavam do lado de fora (por sorte eu era um deles um bom rapaz aventureiro, naqueles dias, sempre andando por ai, e isso salvou minha vida naquele dia) quando, de uma boa distância, vimos o dragão pousar na montanha num jato de fogo. Então ele desceu as encostas e, quando atingiu a floresta ela se incendiou inteira. Naquele momento todos os sinos estavam repicando em Vaíle e os guerreiros estavam se armando. Os anões correram para fora pelo seu grande portão, mas lá estava o dragão à espera deles. Nenhum escapou por ali. O rio se ergueu em vapor e um nevoeiro cobriu Vaíle, e no nevoeiro o dragão avançou sobre eles e destruiu a maioria dos guerreiros, a triste história de sempre, isso era muito comum naquela época. Depois voltou e se arrastou através do Portão Dianteiro e saqueou todos os salões e alamedas, e túneis, becos, adegas, mansões e corredores. Depois disso, não restaram anões vivos no lado de dentro, e ele pegou toda a riqueza deles para si. Provavelmente, pois esse é o jeito dos dragões, empilhou tudo num grande monte bem no interior da montanha, e dorme sobre ela como se fosse uma cama. Depois, passou a se arrastar para fora do portão grande e vir à noite até Vaíle, e levar embora pessoas, principalmente donzelas, para devorar, até que Vaíle ficou arruinada, e todas as pessoas partiram ou morreram. O que acontece lá agora não o sei com certeza, mas não acho que hoje em dia alguém viva em algum lugar mais próximo da Montanha do que a extremidade do Lago Comprido.
— Os poucos de nós que estavam do lado de fora e bem afastados sentaram-se e choraram escondidos, e amaldiçoaram Smaug e ali juntaram-se a nós inesperadamente meu pai e meu avô, com as barbas chamuscadas. Eles pareciam muito soturnos, mas não disseram quase nada. Quando perguntei como tinham conseguido sair, disseram-me para fechar a boca e que no momento certo eu saberia. Depois disso fomos embora, e tivemos de aprender a ganhar nossas vidas da melhor maneira por esse mundo afora, muitas vezes tendo de nos rebaixar e fazer o trabalho de ferreiros e até de mineiros de carvão. Mas nunca nos esquecemos de nosso tesouro roubado. E, mesmo agora, quando admito que temos algumas reservas e não estamos tão pobres — nesse momento Thorin passou a mão sobre a corrente de ouro em seu pescoço — nós ainda queremos o tesouro de volta, e fazer com que nossas maldições caiam sobre Smaug, se pudermos.
— Eu sempre me perguntei sobre a fuga de meu pai e meu avô. Vejo agora que deviam ter uma porta lateral particular que apenas eles conheciam. Mas, ao que parece, fizeram um mapa, e eu gostaria de saber como Gandalf se apoderou dele, e por que não chegou às minhas mãos, às mãos do herdeiro por direito.
— Eu não “me apoderei dele”, o mapa me foi dado — disse o mago. — Seu avô Thror foi morto, você se lembra, nas minas de Mona por Azog, o Orc.
— Sim, maldito seja esse nome — disse Thorin.
— E seu pai Thrain foi-se embora no dia 21 de abril, fez cem anos na última quinta-feira, e nunca mais foi visto desde então.
— É verdade, é verdade — disse Thorin.
— Bem, o seu pai me entregou isto para que o desse a você, e se eu escolhi minha própria hora e meu próprio jeito de entregá-lo, você não pode me culpar, considerando a dificuldade que tive em encontrá-lo. Seu pai não conseguia se lembrar do próprio nome quando me deu o papel, e nunca me disse o seu, então, afinal, acho que devem me elogiar e agradecer! Aqui está — disse ele, entregando o mapa a Thorin.
— Não entendo — disse Thorin, e Bilbo sentiu que gostaria de ter dito o mesmo.
A explicação não parecia explicar.
— Seu avô — disse o mago austera e lentamente — deu o mapa a seu filho por segurança antes de partir para as minas de Moria. Seu pai foi embora para tentar a sorte com o mapa depois que seu avô foi morto, e teve muitas aventuras da pior espécie, mas nunca conseguiu se aproximar da Montanha. Como ele chegou até lá eu não sei, mas encontrei-o aprisionado nas masmorras do Necromante.
— O que você estava fazendo lá? — perguntou Thorin, com um arrepio, e todos os anões tremeram.
— Isso não o importa para você. Eu estava descobrindo coisas, como sempre, e era um negócio perigoso e desagradável. Mesmo eu, Gandalf, escapei por pouco. Tentei salvar o seu pai, mas era tarde demais. Ele estava fora de si e tinha se esquecido de quase tudo, a não ser do mapa e da chave.
— Nós nos vingamos há muito tempo dos orcs de Moria — disse Thorin. — Agora devemos pensar no Necromante.
— Não seja maluco! Ele é um inimigo acima dos poderes de todos os anões juntos, se eles pudessem ser reunidos de novo dos quatro cantos do mundo. A única coisa que seu pai queria é que o filho dele lesse o mapa e usasse a chave. O dragão e a Montanha são tarefas mais que grandes para você.
— Escutem, escutem! — falou Bilbo, e acidentalmente falou alto.
— Escutar o quê? — todos disseram, virando-se de repente para ele, que ficou tão atrapalhado que respondeu:
— Escutem o que eu tenho a dizer!
— Bem, gostaria de dizer que vocês devem ir para o leste e dar uma olhada no lugar. Afinal de contas, existe uma Porta Lateral, e os dragões devem dormir de vez em quando, creio eu. Se vocês ficarem sentados à porta tempo suficiente, acho que vão pensar em alguma coisa. E, bem, eu não sei, acho que conversamos muito para uma só noite, se vocês entendem o que quero dizer. Que tal dormir, e acordar cedo, e tudo o mais? Vou lhes oferecer um bom desjejum antes de partirem.
— Antes de partirmos, é o que você quer dizer, se não me engano — disse Thorin. — Você não é o ladrão? E sentar-se à porta não é o seu serviço, sem falar em entrar pela porta? Mas concordo sobre a cama e o desjejum. Eu gosto de seis ovos com presunto, quando vou começar uma viagem: fritos, não cozidos na água, e espero que você não rompa as gemas.
Depois que todos os outros fizeram seus pedidos sem nem um “por favor” (o que deixou Bilbo muito irritado), eles se levantaram. O hobbit teve de arrumar lugar para todos, e encheu todos os seus quartos de hóspedes, e improvisou camas em cadeiras e sofás antes de conseguir instalar todos eles e ir para sua caminha muito cansado e não muito feliz. Uma coisa que decidiu foi não acordar muito cedo para preparar o maldito desjejum de todos os outros. A Tôkidade estava desaparecendo, e ele agora não tinha muita certeza de que partiria em alguma viagem pela manhã.
Deitado em sua cama, podia ouvir Thorin ainda cantando baixinho no melhor quarto, ao lado do dele.

Para além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir,
Buscando tesouros há muito esquecidos.

Bilbo caiu no sono com aquilo em seus ouvidos, o que lhe proporcionou sonhos muito desagradáveis. Já passava muito do nascer do dia quando acordou.

John Howe - A Toca de um Hobbit

7 comentários:

  1. Odiei, por favor não me julguem, essa é só minha opinião espero que não se ofendam.

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    1. Anonimo, mas esse é só o primeiro capítulo... Dê uma chance! rs
      Eu adoro os filmes e decidi ler os livros, algumas coisas são bem diferentes mesmo, mas é legal ler e ver como realmente foi escrito e não só ver a adaptação do filme ;)

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    2. É que o livro e bem antigo e a escrita é mais simples por causa e tradução. A premissa e realmente interessante devemos admitir

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  2. Não tive uma boa primeira impressão,mas como nunca parei de ler um livro antes de acaba-lo,gostando dele ou não (sempre espero uma reviravolta ), vou ler esse até o fim!

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  3. Eu gostei do início .-. Claro, é o primeiro capítulo, não vai haver uma luta mortal com explosões e robôs gigantes, vai ser mais explicações pra se localizar na história

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  4. dps de ver o filme o livro fica mais intereçante

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