12 de março de 2016

Capítulo 9

PASSAVA A MAIOR PARTE DO TEMPO NO QUARTO, à espera de que algo acontecesse, mas não é assim que a vida funciona. Em ambientes fechados, as coisas apenas se repetem.
Elizabeth, claro, foi a primeira a decidir sair. Depois de quase um mês enfurnada em casa, ela finalmente veio bater na minha porta.
— Miaka acabou de vender outra obra. Vamos fazer compras para comemorar. Quer alguma coisa?
Dei de ombros.
— Umas meias-calças talvez. E um ou dois casacos. Para fingir que tenho roupas de inverno se precisar sair.
— É algo que você pretende fazer em breve? Sair, quer dizer — ela falou como quem não quer nada, mas com um olhar incisivo.
Voltei para o meu livro.
— Não sei. Hoje não.
— Tem certeza? Você pode vir e escolher as meias. Sei que isso é implorar por confusão, mas ainda assim… — ela provocou.
Eu dei um sorriso fraco.
— Estou bem aqui.
Elizabeth se deteve um pouco à porta, respirando fundo algumas vezes como se estivesse prestes a discutir comigo, mas acabou desistindo.
— Tudo bem então. Voltamos logo.
Ela deixou a porta entreaberta, e pude ouvi-la cochichar preocupada com Miaka:
— Tentei falar de um jeito casual, mas ela diz que quer ficar.
— Ela só precisa de um tempo — Miaka cochichou de volta. — Ou aconteceu alguma coisa que ela ainda não está pronta para contar ou realmente não aguenta mais ser sereia. Está deprimida.
— Bom, e como tiramos ela dessa? Não consigo viver desse jeito — Elizabeth sibilou.
— Ela faria isso por nós. De certa forma, ela já faz.
Por mais baixo que estivessem falando, Elizabeth diminuiu ainda mais a voz:
— Você falou com Ela? Contou como tem sido?
— A Água sabe. Ela concorda que a paciência é o melhor caminho.
Fechei os olhos. Sabia que meu humor não era dos melhores no momento, mas fiquei surpresa por elas acharem que precisavam de um plano de ação para lidar comigo. Não conseguia acreditar que foram até a Água.
Estava prestes a entrar na sala pisando duro para mandar as duas cuidarem da própria vida quando ouvi o chamado dEla.
— Rápido! — Ela alertou. — Sua nova irmã está esperando. E muito assustada.
Saí em disparada pela porta do quarto e da casa. Vi que Miaka e Elizabeth já estavam a caminho. Olhei para a praia vazia atrás de nós, grata porque o inverno estava chegando e ninguém queria ficar perto da água.
Corremos para as ondas, levantando as pernas bem alto até chegarmos na profundidade suficiente para sermos arrastadas.
— Para onde vamos? — perguntei.
— Índia. Sejam delicadas com essa jovem.
— Claro.
Algo na situação me lembrava o dia em que Miaka tinha se juntado a nós – o que me deixava preocupada. Miaka vivera numa vila de pescadores no litoral norte do Japão. De acordo com o que nos dissera entre soluços quando a encontramos pela primeira vez, ela nem deveria estar no barco que afundou para começo de conversa. Ela contara à família sobre seu medo de água e prometera que, se a deixassem ficar na praia, trabalharia dobrado assim que tudo fosse trazido para a terra.
Eles a ignoraram. Forçaram-na a ir para o barco de pesca.
E a perderam para sempre.
Eu tinha me apegado a algumas coisas nos últimos oitenta anos: uma vaga lembrança do rosto da minha mãe, a consciência de que meu pai usava bigode, e o fato de que eu tinha dois irmãos, embora não recordasse o nome deles. Mas Miaka só se lembrava do nome do vilarejo e dos detalhes de sua história porque os contávamos para ela.
Elizabeth se apegou a muita coisa, embora quase sempre desse a impressão de que o fez por desprezo. Ela não gostava muito da família, e era como se tivesse guardado os nomes para poder maldizê-los mentalmente: “Viu, Jacob? Viajei pela Europa. Viu, mãe? Estou comendo iguarias. Viu, todo mundo? Faço mais do que vocês seriam capazes”.
Eu não sabia do que Aisling se lembrava. Ela nunca tinha me dito.
Mas foi a lembrança de Miaka, tão pequena e abalada depois de ter sido varrida para fora do barco, que me motivou a ir ajudar aquela estranha com tanta pressa. Por mais velozes que nos movêssemos, queria ir ainda mais rápido.
— Kahlen!
Me virei e vi Aisling, que assumia seu lugar ao nosso lado.
— Oi — respondi, com preocupação na voz. — Parece que vai ser complicado. Vamos ter que ser muito cuidadosas desta vez.
— Acho que você devia fazer o discurso.
— Mas eu nunca fiz isso antes. — Me voltei para Aisling. —Você é a mais velha. Tem que ser você!
— Vou embora logo, Kahlen. Faltam só algumas semanas. É melhor que seja alguém com quem ela terá tempo de criar um vínculo.
Não consegui esconder o nervosismo. Era uma responsabilidade enorme explicar para a nossa nova irmã no que ela estava se metendo.
Aisling enlaçou os dedos nos meus enquanto nadávamos.
— Vou ajudar caso você precise, certo?
O que ela disse fazia sentido, embora eu ainda estivesse com medo de errar alguma coisa. Mas não podia desapontar Aisling. Era como a Água tinha dito: eu dava tudo de mim quando tinha uma missão.
— Certo.
Concentramos os olhares à frente, procurando na superfície a silhueta de um corpo milagrosamente deitado na água, como se estivesse numa cama. Por fim, nós quatro desaceleramos ao chegar no mar Arábico.
— Lá em cima! — Miaka disse.
Nadamos em direção à garota, sem saber ao certo como ela reagiria.
Subimos à superfície, onde deparamos com a cena mais doentia que eu já tinha visto em meus muitos, muitos anos.
A garota vestia um sári simples e sem graça. Estava rasgado em vários lugares, e era óbvio que os estragos não tinham nada a ver com a queda ou com qualquer outro pequeno acidente. Eram rasgos propositais, feitos de maneira selvagem. Seus braços e pernas estavam cobertos de feridas recentes. O mais horrível, porém, foi seguir as trilhas de hematomas até seus tornozelos e pulsos, onde havia blocos de concreto amarrados, mantendo-a presa.
— Soltem as cordas. Depressa! — ordenei, enquanto eu mesma começava a desfazer um nó no braço dela.
A pobre coitada virou languidamente a cabeça na minha direção, resfolegando, ainda exausta do esforço.
— Por favor, não me matem — ela disse com a voz fraca.
Meu coração doía.
— Não, não vamos machucar você. Vamos soltar estas coisas para podermos conversar.
Ela concordou com a cabeça.
— Pronto — Elizabeth anunciou.
— Aqui também — Aisling disse, para em seguida tomar a garota pelo braço e ajudá-la a sentar.
Aquela garota, com pele cor de canela e olhos sonolentos, encarou os braços machucados e passou a tocar várias das suas feridas, como se as contasse.
— Por quê? — lamentou. — Não foi culpa minha.
— O que não foi culpa sua? — perguntei, acariciando seu cabelo.
— Nascer menina.
Miaka e Elizabeth se aproximaram, na esperança de confortá-la, mas Aisling manteve distância e se concentrou em mim.
— Como você se chama? — perguntei.
— Padma — ela respondeu enquanto limpava o nariz escorrendo.
— Quantos anos você tem? — continuei, tentando manter um tom calmo e bondoso.
Ela se esforçou para pensar em meio à confusão.
— Dezesseis.
— Padma, do que você se lembra?
Ela sacudiu a cabeça.
— Não quero lembrar.
Acariciei o cabelo dela de novo, sentindo seu medo crescer.
— Tudo bem. Mas pode nos dizer como caiu no mar?
Ela olhou ao redor com uma expressão de curiosidade e vergonha.
— Meu pai.
— Isso é doentio — Elizabeth murmurou.
— Seja forte. Por Padma — Aisling insistiu com ela.
Eu também estava disposta a fazer tudo o que pudesse para facilitar as coisas para a garota.
Aquele momento não dizia respeito a nenhuma de nós. Era única e exclusivamente dela. Naquele momento soube como Marilyn devia ter se sentido quando falou comigo e com Miaka, como Aisling devia ter ser sentido em relação a Elizabeth. No fim das contas, apesar do que viria pela frente, só queria que aquela garota vivesse.
— Ele me jogou — Padma confessou, olhando para as próprias mãos. — Nada de dote. Uma garota é cara demais. Ele bateu na minha mãe e depois em mim. Não lembro como cheguei até o mar, mas ainda sinto as tábuas do cais nas costas. Acordei antes do meu pai me empurrar. Ele não parecia nem um pouco triste.
Engoli em seco na tentativa de me recompor.
Conhecia o desprezo da família de Miaka pelos medos dela. Sabia que a família de Elizabeth não gostava do caráter rebelde da filha. Mas nenhuma de nós jamais havia se deparado com uma coisa dessas.
— Padma — comecei a falar com suavidade —, meu nome é Kahlen. Estas são Aisling, Elizabeth e Miaka.
Por favor, que eu explique direito, rezei. Por favor, que as minhas palavras a façam querer ficar.
— Somos jovens muito especiais, e gostaríamos que você se juntasse a nós — continuei.
— Me juntar a vocês onde?
Abri um sorriso.
— Em toda parte, para ser sincera. Somos cantoras, sereias. Você deve ter lido histórias a nosso respeito nos livros, ou ter ouvido menções a nós nos contos de fadas. Pertencemos à Água. Cantamos por Ela, para que Ela possa viver, para que Ela possa sustentar a terra. Você compreende?
— Não.
Aisling começou a rir.
— Nem eu compreendia.
— Eu também não — Elizabeth disse, e Miaka concordou com a cabeça.
Padma abriu um sorriso cauteloso para nós.
— A sua pele é tão branca! — ela suspirou, maravilhada com Elizabeth.
— É — Elizabeth respondeu, estendendo a mão. Padma correu os dedos pela palma até Elizabeth dar um pulo para trás. — Desculpa! Faz cócegas!
Padma deu uma risada fraca, mantendo a cabeça baixa. Em seguida, deixou escapar um suspiro admirado ao recobrar os sentidos.
— Estamos em cima da água?
Confirmei.
— Nós pertencemos à Água. Se escolher se juntar a nós, será dEla também. Não vai envelhecer nem ficar doente. Vai continuar como está por cem anos. — Fiz uma pausa para que ela pudesse refletir sobre minhas palavras. Gostaria de ter prestado mais atenção a esse detalhe quando Marilyn me transformou. — Ao longo de todo esse tempo, você será uma espécie de arma. Sua voz será mortal, e você terá que mantê-la em segredo, pelo bem de todas nós. Passados os cem anos, você receberá sua voz e sua vida de volta. Mas até lá, servirá à Água. Você jamais estará sozinha. Nós cuidaremos de você, e a Água também.
— E a minha família?
Balancei a cabeça.
— Sinto muito, mas você não vai ver sua família de novo.
O rosto dela se enrugou, e Padma chorou copiosamente.
— Vai ficar tudo bem — Miaka prometeu. — Já senti falta da minha família, mas você terá uma vida inimaginável agora.
— Não quero voltar para eles — Padma desabafou. — Também não queria morrer, mas se viver significasse voltar para a minha família, eu aceitaria. Estou tão grata por escapar!
Aisling e eu trocamos um sorriso.
— Então vai ficar com a gente? — perguntei.
Ela levantou os olhos arregalados.
— Sim! Claro! Por favor, me levem!
— Podemos acompanhá-la? — perguntei à Água. — Durante a transformação?
— Sim, acho que seria prudente.
— O que foi isso? — Padma perguntou.
— Temos muito para explicar. Mas, por ora, você precisa entrar na Água. Um pouco dEla já está dentro de você, por isso você consegue ouvi-La, mas Ela precisa terminar o trabalho para você ficar com a gente.
Padma parecia nervosa, mas concordou mesmo assim.
— Veja Elizabeth.
Minha irmã levantou, deu alguns passos e pulou com graça e simplicidade para dentro da Água, como se pulasse de uma calçada para o meio-fio.
— Viu? Não é nada. Vamos.
Levantei com Miaka e Aisling e acompanhamos Padma para dentro da Água.
Padma prendeu a respiração de um jeito fofo.
Nadamos ao redor dela, para que não se sentisse só enquanto a Água abria sua boca para enfiar um líquido estranho e escuro garganta abaixo. Eu não fazia ideia do que aquilo era, nem de onde vinha, mas sabia que era aquela mesmíssima água que me corria nas veias, misturada com o meu sangue, me mantendo viva. E sabia que aquela magia continuava suspensa nos meus pulmões e garganta, o que tornava a minha voz letal.
As feridas de Padma sararam, a pele dela ficou luminosa e, sem envelhecer um dia sequer, ela de repente se tornou alguém que passara anos tentando descobrir a própria identidade até finalmente se encontrar.
Quando a Água concluiu o processo, Padma flutuava no mar, um pouco agitada enquanto reaprendia a respirar.
— Vamos — Miaka a tomou pela mão e a puxou na direção da nossa casa.
Vimos o sári esfarrapado de Padma se desfazer, e supus que ela não sentiu nada, já que não se cobriu. Mas ela percebeu quando o sal se prendeu ao corpo para criar seu primeiro vestido de sereia.
Quando saímos do mar, Padma estendeu os braços e olhou bem para si.
— Eu renasci! Sou uma deusa!
Radiante, ela ria enquanto Miaka, Elizabeth e Aisling a acompanhavam para dentro de casa.
Com os pés ainda no mar, eu disse à Água:
— Você escolheu bem.
— Pra ser sincera, foi uma decisão difícil. Ela estava dividida entre a vida e a morte.
— Ela pensava que viver significaria voltar para a família?
— Acho que sim. As imagens na cabeça dela eram brutais, para dizer o mínimo. Você já sabe do pai, mas a mãe sempre manteve distância. Para ela era como se… como se Padma fosse um crime do qual era culpada, e queria se distanciar da filha o máximo que pudesse.
— Não consigo imaginar uma mãe agindo dessa forma. Espero que ela já tenha começado a esquecer.
— Parece que sim. Cada uma de vocês é diferente, mas acho que ela vai se livrar de tudo isso se puder.
Caminhei pela praia, sempre com os pés na Água, até parar diante da nossa casa para observar as sombras das minhas irmãs na sala de estar. Me sentia grata por Padma ter escolhido vir conosco. Estava envolvida com a minha nova irmã de uma maneira que não tinha me envolvido com nada desde que saímos de Miami.
— Tenho uma dúvida. Foi só por ela? — perguntei.
— Como assim?
— Você achava que ela me faria despertar?
— É a minha esperança.
— A minha também.
— Kahlen! — Elizabeth chamou, e tentei não entrar em pânico ao ouvir a voz dela soar livre pelo ar. Não parecia haver ninguém por perto, mas isso não queria dizer que ninguém nos escutava. As vozes ecoavam. — Padma já quer roubar um sapato seu!
Elizabeth gargalhava de alegria, e eu suspirei, feliz por Padma estar se enturmando como se estivesse com a gente desde sempre.
— Diga a ela que pode pegar o que quiser.

16 comentários:

  1. TADINHA DESSA PADMA deve ter sofrido muito.. T~T

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  2. Só eu q to querendo q kanlen volte pra miame

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  3. Ok. A Miaka é só Japão(por causa disso que o nome dela é japonês), agora só imagino ela sendo uma japonesinha. Coitadinha dela.
    A Elizabeth provavelmente é da Europa( eu acho)
    Mas de onde será que a Kahlen veio?
    Agora eu estou entendendo... toda vez que elas se recuperaram de ruim e perderam tudo, ou estão correndo perigo,ou algo assim, perto do mar, as sereias vem acolher elas e pedir para elas serem sereias também. Como as caçadoras de Ártemis.

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    1. Kahlen não é americana?

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    2. Ela é americana. Tanto q no começo do livro ela diz q a familia dela foi a unica q sobreviveu a grande depressao (q aconteceu nos EUA)

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  4. Revoltada com a família da Padma! que pai é esse minha gente...

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  5. Não sei porque mas estou com uma sensação que essa Padma vai ser problema, to doida que elas voltem pra Miami, rsrsrsrs

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  6. Nossa chocada com os PAIS dessa menina gente
    Mais agora tudo vai dar certo pra Padma.
    Ah volta logo p miami tava mais legal kk

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