12 de março de 2016

Capítulo 7

— VOCÊ SEMPRE MOROU NA FLÓRIDA?
Neguei com a cabeça e quebrei outro ovo. Não era uma coisa fácil de explicar sem palavras. Tracei um círculo no ar e fiz uma expressão de impaciência.
— Morou em vários lugares?
Fiz que sim.
— Seus pais são do exército ou algo assim? Só consegui passar um ano com um dos meus melhores amigos da escola até o pai dele ser transferido para outro lugar. Mas ouvi dizer que a mudança dele foi muito rápida até para os padrões do exército.
Eu o observava, ouvindo-o atentamente, sem confirmar ou negar nada sobre os meus pais na esperança de que ele não insistisse no assunto.
— Cresci numa cidadezinha do Maine. Port Clyde. Já ouviu falar?
Fiz que não. Ele me entregou o açúcar que tinha medido. Passei o dedo pela borda para raspar o excesso.
— Ah, isso é ruim?
Cozinhar é uma ciência, escrevi no quadro.
— Hum, o.k., vou guardar bem essa lição. Então... Ah, sim, Port Clyde. É bem pequena e mais conhecida pela lagosta. Também tem um programa de residência artística, então de vez em quando aparecem umas pessoas alternativas na cidade. É por isso que achei que você pudesse conhecer. Você estava desenhando no outro dia, não sei se é um interesse seu ou não.
Fiz um gesto de mais ou menos com a mão. Mesmo com o quadro branco, seria difícil explicar que eu gostava de desenhar por causa da minha “irmã”, e que desejava ter pelo menos metade do talento dela.
— Meus pais estão lá, torcendo para eu voltar logo pra casa. Sou filho único, e eles se sentem sozinhos quando não estou lá. Minha mãe me liga, tipo, todos os dias. Eu já disse pra ela arranjar um cachorro, mas ela respondeu que eu sou melhor do que um cachorro, o que é bom, acho. Estou falando demais?
Ele fez uma pausa e me olhou bem. A preocupação autêntica fazia seu rosto ficar vermelho.
Balancei a cabeça. Não, pensei. Eu ouviria você falar de quase tudo. Você faz um telefonema com a sua mãe parecer uma aventura.
— O.k. Ela também está preocupada porque ainda não escolhi minha habilitação na faculdade, mas não acho que isso seja um problema. Ainda não, pelo menos. Você acha?
Juntei o indicador e o dedo do meio sobre o polegar, o que significa “não” na língua de sinais americana. Ao me dar conta de que ele talvez não entendesse, balancei a cabeça também.
— Legal. E o que você estuda? Arte?
Como não tinha outra resposta, assenti.
— Você tem cara de artista mesmo — ele disse com ar de quem entende das coisas.
Olhei para mim mesma, depois para Akinli, interrogando-o com os olhos.
— Não, é sério. Não sei exatamente o que é, mas parece que você criou e destruiu um monte de coisas, e depois fez tudo de novo. Não faz o menor sentido, claro. Mas acredite, está dentro de você.
Comecei a bater a massa, contente por ele não saber o quanto eu realmente tinha destruído ao longo dos anos: navios de milhões de dólares, vidas de valor incalculável. Mas gostei da ideia de que talvez, bem dentro de mim, eu também fosse capaz de consertar as coisas.
Passei a tigela para ele, esperando de verdade que ele participasse.
— Ai meu Deus. Tudo bem. — Ele pegou o fouet. — Eu consigo. Tudo bem...
E começou a bater.
Enquanto ele trabalhava, acrescentei umas gotas da essência de amêndoas e, depois de um instante, ele levantou o olhar para mim. Inclinei a cabeça como quem pergunta “O que foi?”.
Ele demorou um segundo para sair do transe.
— Ah, desculpa. Belo trabalho em equipe o nosso — ele disse, e então contraiu o rosto como se tivesse falado alguma idiotice. — Por falar em trabalho em equipe — acrescentou, com a voz mais suave —, acho que você pode me ajudar numa coisa.
Arqueei a sobrancelha.
— Olha só, se você não fala, passou praticamente cada segundo da vida ouvindo, absorvendo as coisas, certo?
Confirmei com a cabeça. Isso era tudo o que eu fazia.
— A minha impressão é que, por causa disso, você deve ser muito perceptiva. Por isso queria fazer uma experiência. Queria saber o que você acha que eu deveria estudar.
Arregalei os olhos, pasma.
Você quer que eu escolha sua habilitação?
— Exatamente. Pedi a opinião de alguns amigos, mas acho que eles estavam tirando uma. Um deles disse para eu cursar musicoterapia, e eu nunca toquei nem apito.
Achei graça na irritação dele.
— Vamos lá, preciso de um rumo na vida. Não custa nada tentar.
Olhei bem para aquele garoto que eu sabia que mal conhecia. Mesmo assim, sentia que tinha aprendido tanto sobre ele que, se alguém me perguntasse, conseguiria resumir toda a personalidade dele. Ele era tão terno, tão aberto, tão cheio de uma alegria simples... O que eu tinha feito para chamar a atenção dele, para que se interessasse não só pela minha aparência, mas também pelo que eu pensava?
Dava para notar que ele estava bem ansioso para ouvir minha opinião, então me concentrei na pergunta. Eu conseguia imaginá-lo como defensor de uma criança que sofresse abuso ou como cuidador de alguém com deficiência mental. Akinli seria capaz de manter pessoas com vidas tão difíceis com os pés no chão. Voltei a escrever no quadro branco.
— Serviço social? — Akinli perguntou.
Aplaudi.
Ele riu, um som mais musical do que o meu canto.
— Intrigante. Muito bem, Kahlen, vou pesquisar essa área e depois te conto. — Ele olhou para a massa do bolo e levantou o fouet pingando para mim. — Está bom?
Peguei um pouco da massa do fouet com o dedo e lambi. Os olhos cálidos e azuis de Akinli detiveram-se nos meus enquanto a doçura se espalhava pela minha boca. Estava perfeito.
Fiz que sim com a cabeça, entusiasmada, e ele também raspou um pouco para experimentar.
— Ei, nada mau para o meu primeiro bolo, hein?
Abri um sorriso. Nada mau mesmo.
Untei as assadeiras, empolgada porque havia dois tamanhos diferentes e poderíamos montar algo parecido com um bolinho de casamento.
— Não quero ser indelicado nem nada do tipo, mas acho bem legal você fazer tudo o que faz.
Estreitei os olhos, confusa.
— Tipo, você usa língua de sinais e é difícil para se comunicar. Mas você também gosta de arte e sabe cozinhar muito bem e, nossa, consegue até dançar jitterbug! Aliás, contei pra minha mãe e ela quer um vídeo. Não acreditou em mim de jeito nenhum. Mas, enfim, acho legal você não deixar um problema atrasar a sua vida. Admiro isso.
Sorri. Por um minuto, fiquei orgulhosa de mim mesma. Ele não conhecia a profundidade dos meus problemas, mas tinha razão mesmo assim. Não era pouca coisa experimentar, descobrir as coisas da vida que importam. Mesmo aquele momento breve, com aquele garoto maravilhoso ao meu lado, era um pequeno milagre. Eu merecia algum mérito.
Fui escrever “Obrigada” no quadro, mas o marcador não estava pegando.
— Ah, imaginei que a tinta fosse acabar. Quer vir rapidinho no meu quarto pegar outra caneta?
Mantenha a calma.
Fiz que sim do jeito mais desinteressado possível.
— Ótimo. É por aqui — ele disse acenando com a mão, e o segui pelo corredor. — Acho que meu colega de quarto deu uma saída, então pelo menos você vai ser poupada daquele horror. Juro, parece que ele fez um curso para ser tão idiota.
Sorri quando chegamos a uma porta com uma marca óbvia de onde o quadro branco deveria estar. Nas folhas de papel que o responsável pelo alojamento tinha posto em todas as portas do corredor havia dois nomes: Neil Baskha e Akinli Schaefer.
Schaefer. Desejei dizer em voz alta. A palavra soava tão agradável na minha cabeça que eu não via a hora de soltá-la no ar. Mas isso teria que esperar até eu ficar sozinha... e não distraída com o desastre que era o quarto dele.
Para ser justa, apenas metade era um desastre. Parecia que a religião de Neil não permitia usar latas de lixo nem cestos de reciclagem. Provavelmente para que pudesse construir o inusitado altar de latinhas de refrigerante ao lado da janela. As coisas de Akinli pareciam muito mais aconchegantes. Em vez de uma colcha comprada em loja, ele tinha uma tricotada. Em vez de pôsteres, tinha fotos. Em vez de latinhas, tinha três garrafas de cerveja artesanal de Port Clyde que parecia estar guardando para uma ocasião especial.
Akinli dissera que não tinha irmãos, mas havia um garoto um pouco mais velho em algumas fotos, com os mesmos olhos e o mesmo queixo dele. Vi os pais dele e uma foto de quando era criança, com uma lagosta em cada mão e um sorriso tão largo que eu não conseguia ver seus olhos.
— Aqui está — ele disse ao pegar um marcador novo na gaveta da escrivaninha. Abandonei minhas reflexões silenciosas. — Desculpa a bagunça por aqui — ele disse, com uma expressão envergonhada ao notar meus olhos inquietos. — Neil... Bom, ele é uma figura.
Abri um sorriso, tentando demonstrar que me importava menos com a bagunça e mais com aqueles pedacinhos dele que pude espiar ao menos por um segundo.
De volta à cozinha comunitária, jogamos forca no quadro branco no intervalo entre preparar a cobertura e esperar o bolo terminar de assar. Foi tudo tão normal, tão simples, e agradeci por cada instante. Quando conseguimos arrumar um bolo em cima do outro – embora o de cima não tivesse ficado bem centralizado – e então cobrimos tudo com glacê, Akinli fez uma pose dramática ao lado da nossa criação.
— Chegou a hora da verdade. Terei eu superado uma longa e difícil temporada como o pior cozinheiro do país? Kahlen, o garfo, por favor.
Passei o garfo para ele e peguei um para poder provar também. Não queria me gabar, mas tinha certeza de que Aisling ficaria impressionada.
— Está MARAVILHOSO! — Akinli gritou, dando mais duas garfadas generosas antes de parar para respirar. — Não podemos guardar tanta beleza só para nós. Venha!
Ele pegou a travessa e foi para o corredor.
— Quem quer bolo? — gritou.
Uma garota com duas tranças espichou a cabeça pelo batente de uma porta no meio do corredor e gritou:
— Eu!
Ao nosso lado, um sujeito também abriu a porta.
— Por que você está berrando aí, cara?
— Fizemos um bolo!
O rosto do sujeito passou de irritado para contente.
— Legal!
Em questão de minutos, metade do andar já tinha saído dos dormitórios, usando tudo – desde espátulas até copos de papel – para pegar um pouco da sobremesa.
— Olha, me saí muito bem, mas a maior parte do trabalho foi da Kahlen — Akinli disse a alguém.
Um punhado de gente me deu tapinhas nas costas e agradeceu por cozinhar e compartilhar o bolo. Uma garota disse que gostou da minha saia. Quis explodir de felicidade. Essa era a sensação de ser uma garota de dezenove anos normal?
Morar num alojamento universitário, deixar a vida dos outros se encontrar com a sua, pelo menos por um tempo? Focar os estudos em uma área só enquanto dezenas de coisas mudam ao seu redor e você também aprende com elas? Ser notada por um garoto e reconhecida de tal forma que parecia um sentimento único, mesmo sabendo que muita gente já tinha dado esses mesmos passos para encontrar a pessoa com quem passaria o resto da vida.
Era atemporal e temporário, válido e inconsequente. E pude fazer parte disso. Queria viver daquele jeito o tempo todo!
E então tudo desacelerou na minha cabeça. O tempo todo? Como eu ia conciliar isso? Depois de todo o trabalho para conseguir sobreviver a um encontro, como eu conseguiria sobreviver a dez? Ou mesmo ao próximo?
Parei para observar Akinli. O sorriso dele iluminava a multidão, e um carisma natural pairava ao redor dele. Tivemos um momento especial, bonito até. Mas era insustentável. Cedo ou tarde algo despertaria as suspeitas dele. Por que eu nunca me machucava? Por que meu peso nunca mudava? Por que tinha que desaparecer aleatoriamente?
Me senti tão boba. Na melhor das hipóteses, ele envelheceria e eu não, e depois, quando meu tempo de sereia chegasse ao fim, eu o esqueceria completamente.
Talvez fosse menos doloroso se ele simplesmente me esquecesse.
Me afastei da multidão devagar, tão acostumada a ficar em silêncio que ninguém sequer notou.

22 comentários:

  1. Artista hein... A Kiera parece gostar de personagens com essa profissão

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  2. so eu q reparei q o sobrenome dele parece com o do MaxoN?

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    1. vdd ... eu nao tinha notado mais vc escreveu e realmente para com o maxon

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    2. NÃO quando li também achei issooooooooooo

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    3. Eu tbm.... Deve ser um parente distante de maxon

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    4. O MENINO MAIS VELHO DA FOTO *--*

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    5. Opaaaaa easter egg encontrado kkkkk

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  3. — Chegou a hora da verdade. Terei eu superado uma longa e difícil temporada como o pior cozinheiro do país? Kahlen, o garfo, por favor.
    Passei o garfo para ele e peguei um para poder provar também. Não queria me gabar, mas tinha certeza de que Aisling ficaria impressionada.
    — Está MARAVILHOSO! — Akinli gritou, dando mais duas garfadas generosas antes de parar para respirar. — Não podemos guardar tanta beleza só para nós. Venha!
    Ele pegou a travessa e foi para o corredor.
    — Quem quer bolo? — gritou.
    eu to amando esse personagem serião

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  4. Quero um pedaço também!!!

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  5. Dps q o tempo de sereia acaba, ela esquece e acontece oq? eça volta a ser humana?

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  6. Adorando essa historia,personagens carismáticoz.

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  7. tia kiera sempre se superando!
    amo os nomes dos personagens dela!! e sao bem parecidos com a seleçao!
    kahlen- eadlyin schaefer-schreave

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  8. quero um akini para mim

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  9. N é q saiu e ficou bom kkk
    Fiquei com vontade eu quero kk

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  10. "— Quem quer bolo? — gritou.
    Uma garota com duas tranças espichou a cabeça pelo batente de uma porta no meio do corredor e gritou:
    — Eu!"
    Aqui podemos ver claramente uma representação da minha pessoa

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