12 de março de 2016

Capítulo 4

PASSEI A MAIOR PARTE DA NOITE SEGUINTE esperando Miaka fazer cachos no meu cabelo. Eu não compreendia o jeito como minhas irmãs levavam a vida e não tinha certeza se era sensato, mas nunca tinha tentado agir como elas de verdade. Decidi tentar naquela noite.
— O que acha deste? — Elizabeth perguntou, segurando outro vestido.
Basicamente, tudo o que ela me mostrava parecia um tubo curto de tecido, só que de cores diferentes.
— Não sei. Não faz muito o meu estilo.
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— O problema é exatamente esse. Você não pode sair pra dançar parecendo uma dona de casa dos anos 50.
Torci o nariz.
— Ele meio que... mostra demais, não acha?
Miaka começou a rir enquanto Elizabeth arregalou os olhos, frustrada.
— Sim. Demais. Apenas vista, tá bom? — Elizabeth jogou o vestido no meu colo. — Vou me trocar — avisou antes de sair às pressas do quarto.
Segurei um suspiro. Afinal, eu tinha que tentar parecer entusiasmada. Talvez aquela noite significasse um recomeço.
— Devíamos arrumar o seu cabelo desse jeito mais vezes — Miaka disse, gesticulando para que eu me virasse para o espelho.
Fiquei boquiaberta.
— Está tão cheio!
— Vai murchar depois de algumas horas de dança.
Me inclinei para a frente e comecei a examinar o rosto. Eu tinha me acostumado com a beleza natural que acompanhava nossa condição de sereia. O delineador e o batom que Miaka passou com habilidade magistral multiplicavam essa beleza por dez. Passei a entender por que os garotos praticamente formavam fila para ter a atenção de Elizabeth.
— Obrigada. Ficou ótimo!
Ela deu de ombros.
— Às ordens.
Em seguida, ela se inclinou diante do espelho para maquiar o próprio rosto.
— Então, o que a gente faz quando chegar lá? — perguntei. — Não sei como agir num ambiente lotado.
— Não existe um passo a passo de como sair e se divertir, Kahlen. Provavelmente vamos pegar uma bebida e dar uma olhada na multidão. Elizabeth com certeza vai procurar alguém, mas nós podemos ficar dançando.
— Desisti de entender como os jovens dançam há uns trinta anos. O passinho do electric slide foi a gota d’água pra mim.
— Mas dançar é tão legal!
Balancei a cabeça.
— Não. O jitterbug era legal. Mas parece que não está mais na moda seguir um ritmo e segurar a mão do parceiro.
Miaka afastou o rímel do rosto, tentando não borrar o olho enquanto ria.
— Juro que se você fizer uns passos de jitterbug hoje à noite a Elizabeth vai te matar.
— Boa sorte pra ela — murmurei. — Mas o que estou tentando dizer é que talvez eu não me empolgue muito com a pista de dança.
Os olhos de Miaka encontraram os meus no espelho.
— Fico feliz de você ir para algum lugar além da biblioteca e do parque, mas não sei se está se arriscando de verdade se for só pra ficar sentada.
— Tcharam! — Elizabeth entoou ao invadir o quarto. O vestido dela era preto e curto, e usava o sapato que chamava “saltos de stripper”. — Que tal?
Abri um sorriso.
— O que posso dizer? Você está maravilhosa!
Ela ficou radiante e começou a ajeitar o cabelo.
— Encontrei isto — ela disse antes de me entregar uma coisa.
Era outro vestido curto, mas esse tinha uma camada fina de tule da cintura para baixo. Claro, estava coberto de lantejoulas, mas era mais próximo do meu estilo do que qualquer outra coisa que ela tinha me mostrado.
— Obrigada — agradeci com um sorriso. — É este mesmo.
Elizabeth me abraçou.
— Estou tão feliz que você vai com a gente! Agora não vamos ser a dupla mais bonita da balada, mas o trio!


O segurança caiu no feitiço de Elizabeth assim que a viu chegar, e tive a impressão de que mesmo sem as nossas identidades falsas passaríamos pela porta.
A batida forte me fez estremecer e repensar minha decisão. Talvez percebendo como me sentia, Miaka enroscou o braço no meu e me arrastou para o bar. Lá, digitou as bebidas que queríamos no celular e logo voltamos cuidadosamente com nossos copos pelo meio da multidão.
É para ser divertido, disse a mim mesma. Apenas tente. Isto aqui melhora a vida das suas irmãs. Talvez faça o mesmo por você.
— Como você consegue pensar aqui? — cochichei no ouvido de Elizabeth.
— A ideia é não pensar — ela cochichou em resposta.
— Relaxa — Miaka disse, usando a língua de sinais. — É igual a andar por uma rua lotada.
E eu tentei. Mesmo. Tomei duas bebidas na esperança de acalmar os nervos. Dancei com Miaka, o que foi divertido até atrairmos tantos admiradores querendo se esfregar na gente que a coisa perdeu todo o encanto. Até tentei focar só na música, algo que deveria ser natural para uma sereia, mas a maneira como ela explodia pelos alto-falantes transformava tudo em ruído.
Observei o jeito estranho como algumas pessoas se aproximavam de Elizabeth, como se ela fosse um ímã na pista de dança. Não era de surpreender que conseguisse fisgar alguém sem nenhuma palavra. Nós realmente éramos as meninas mais bonitas do lugar, e o garoto a quem Elizabeth voltasse sua atenção não teria como se defender. Primeiro, ela escolheu um que acabou arrastado pelos amigos até outro bar. Mesmo sem ela ter cantado, ele brigou um pouco para ficar, até os amigos o empurrarem para fora. A segunda opção dela bebeu demais e desmaiou na mesa.
Mas depois de duas horas terríveis, ela caminhou até nós de novo, de braços dados com um cara de cabelo castanho obviamente bêbado.
— Não me esperem acordadas — ela avisou antes de desaparecer pela porta.
Encarei Miaka com olhos suplicantes. Ela sorriu e fez que sim com a cabeça, e então fomos para casa.
— Você tentou — ela gesticulou enquanto caminhávamos pela calçada. — Pensei que desistiria antes de entrar.
— Quase desisti — confessei. — Agora tenho certeza: a programação noturna não é para mim.
— Você acha que iria gostar mais de uma festa na casa de alguém ou algo assim? A gente pode receber vários convites se passear pelo campus na hora certa.
— Vamos com calma — gesticulei, hesitante.
O som dos nossos saltos ao passar em frente às baladas rendeu assovios e aplausos. Automaticamente, cobri o decote com a mão, mas não adiantou nada.
Miaka sorria sozinha e endireitava o corpo para andar. Comecei a me perguntar se o principal apelo desse estilo de vida para minhas irmãs era simplesmente poderem ser vistas. Na maior parte dos dias, ficávamos no nosso canto, e quando cantávamos a imagem que transmitíamos não passava de uma mentira. Quando saíamos, pelo menos alguém nos via. Ainda que para mim a sensação fosse mais de ser examinada.
Quando chegamos em casa, não me dei ao trabalho de tirar o vestido de Elizabeth antes de sair correndo pela porta dos fundos e pular no mar.
— Kahlen! — A Água despertou ao meu redor, num tom sereno de boas-vindas.
— Você não vai acreditar na noite que acabei de ter.
— Conte tudo.
Desenhei na mente uma imagem dEla com o queixo apoiado na mão, prestando atenção a cada palavra minha.
— Miaka e Elizabeth gostam de ir em baladas, esses lugares onde as pessoas bebem e dançam. Elas viviam me falando para sair mais, então finalmente fui com elas.
— Não imagino você fazendo isso.
— Nem eu imaginava. E foi por isso que passei o tempo todo constrangida. Estou tão feliz de ter voltado pra cá. Você é agradável, calma...
A Água se agitou como se desse uma espécie de risada.
— Não precisamos conversar se você não quiser. Estou feliz só de te ter aqui.
Me deixei afundar para descansar o corpo no chão arenoso da Água, pernas cruzadas e braços atrás da cabeça. Fiquei observando as trilhas dos barcos que passavam e depois sumiam na superfície acima de mim. Os peixes circulavam nadando em seus cardumes, sem se assustarem com a garota na areia.
— Então, é daqui a uns seis meses, né? — perguntei com um frio na barriga.
— Sim, a não ser que ocorram desastres naturais ou naufrágios provocados pelo homem. Não consigo prever essas coisas.
— Eu sei.
— Não se preocupe com isso agora. Sei que ainda está sofrendo desde a última vez. — Ela me envolveu em empatia.
Ergui os braços como se A acariciasse, embora evidentemente meu corpo minúsculo fosse incapaz de abraçá-La de verdade.
— Sinto que nunca tenho tempo de superar um canto antes do próximo chegar. Tenho pesadelos e meus nervos ficam em frangalhos quando sei que mais um se aproxima. — Meu peito parecia oco por causa do sofrimento. — Meu medo é lembrar para sempre como é cantar.
— Você não vai lembrar. Em todos esses anos, jamais libertei uma sereia que depois voltasse me pedindo para dar um jeito na sua memória.
— Você fica sabendo alguma coisa sobre elas?
— Não de propósito. Sinto as pessoas quando elas estão em mim. É assim que encontro as novas garotas. É assim que fico à escuta, para saber se alguém suspeita da verdadeira natureza das minhas necessidades. Às vezes, uma antiga sereia sai para nadar ou me toca com as pernas ao sentar num píer. Então consigo espiar suas vidas, e nenhuma delas jamais lembrou de mim.
— Eu vou lembrar de você — prometi.
Pude senti-La me abraçar.
— Por toda a eternidade, jamais esquecerei você. Eu te amo.
— E eu te amo.
— Você pode descansar aqui esta noite se quiser. Vou garantir que ninguém a encontre.
— Não posso ficar aqui pra sempre? Não quero mais me preocupar em ferir as pessoas. Nem decepcionar minhas irmãs. Aisling tem a própria cabanatalvez eu pudesse construir uma casa aqui embaixo com as madeiras dos escombros.
Ela fez sua corrente passar por mim suavemente.
— Durma. Você vai se sentir melhor amanhã. Suas irmãs ficariam perdidas sem você. Acredite em mim, elas se preocupam com isso o tempo todo.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Obrigada.
— Descanse. Você está segura.

29 comentários:

  1. Como se pronuncia o nome dela? É Karlen ou Karralen?

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    1. Eu leio Kálen mesmo ehauheuaheuahe

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    2. Quase. É Kelen rs

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    3. Não sei porque ela ama essa tal de Água. Tipo, por mais que seja uma entidade, ela se alimenta de mortes, que, diga-se de passagem, matou os pais dela também. Então, tipo, da onde vem esse afeto todo pela Água? Kkkkkk Espero que eu entenda mais pra frente 💘💕💞

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    4. Eu leio Carle,e bem mais fácil de se pronunciar...kkkkkk

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  2. Os bailes no castelo do príncipe são melhores

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  3. kkkkkk, cada nomezinho dificil em?
    Ass: Bina.

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  4. Na boa, essa relação dela com a Água é muito bizarra. A leitura é boa, e eu n sei se é só comigo,mas o universo do livro é bem estranho. Ainda n me acostumei.

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  5. Se você quiser falar de acordo com a pronuncia Norte Americana, seria Keilin

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  6. Só uma coisinha,por que ela não pode falar com humanos igual ela fala com as irmãs dela?

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    1. Pq a voz delas atrai os humanos para a Água... os hipnotiza até a morte

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  7. Estranha essa relacao dela com a agua

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  8. Gente a agua mata pessoas pra se alimentar.
    E kahlen n se importa com o fato da agua ter matado a família dela.
    So eu to achando isso absurdo?

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  9. Achei que a Água seria uma ditadora pela sinopse sq não, ela realmente a ama e cuida dela.

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    1. Principalmente nos próximos capítulos, dá pra ver que Ela só não sabe demonstrar

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  10. Ateé agora n to entendendo nada #confusa

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  11. Eu não consigo gostar dessa água!

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  12. Eu não porque, mas eu gostei dessa relação dela com a água, sinto que água se torna ma depois, mas agora quando ela tá com a água é tipo como se ela tivesse segura, eu me sinto assim na água também, e como se dê algum jeito ela protegesse a gente, não consigo explicar

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  13. Sabe o filme matilde, eu imaginava que a Água fosse rigida como a diretora no filme ,senhorita troduot (eu não fasso a minima ideia de como escrever esse nome) mas na verdade parece mais a mãe do percy,Sally.

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  14. nao sei pergunta pra ela burra

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  15. Gostaria de ter um lugar traquilo p fugir tbm
    E essa relaçao dela com a agua n é estranha afinal como ela disse a agua é como uma mae

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  16. O primeiro livro da Kiera que eu não to entendendo porcaria nem uma.

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  17. Não gosto dessa mar ela parece a Nefereth de house of night

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