12 de março de 2016

Capítulo 31

A PRIMEIRA COISA DE QUE TOMEI CONSCIÊNCIA foi a fome. A sensação era de que meu estômago iria digerir a si mesmo, e a falta de comida era dolorosa. Ao mesmo tempo, achava a dor estranha, como se fosse típica para os outros, mas não para mim.
Então senti meu corpo balançar. Me movia, mas estava escuro e não conseguia saber onde estava ou como estava sendo levada. Não usava as pernas. Minhas pernas pareciam detonadas; meu corpo inteiro, na verdade. Não conseguiria usá-las nem se precisasse.
— Oi? — falei com muito custo.
Minha garganta queimava; parecia arranhada, como se tivesse engolido água salgada. Precisei de toda a minha energia para erguer a cabeça.
Foi então que consegui ver como estava me movendo. Três garotas me carregavam: duas apoiavam meu tronco e uma segurava as pernas.
— Para onde estão me levando? — minha voz saiu fraca e trêmula.
Ao fazer a pergunta, percebi que eu ignorava questões ainda mais importantes. Não conseguia lembrar meu próprio nome. Ellen? Katlyn? Nenhum deles soava certo na minha cabeça. Não sabia onde minha família estava; não sabia onde ela deveria estar. Não conseguia lembrar de nomes e rostos, mas sentia que tinha perdido algo ou alguém.
Minha respiração começou a acelerar à medida que o medo se apoderava de mim. Meu instinto era correr, mas eu mal conseguia manter a cabeça erguida.
— Por favor, não me machuquem.
Nenhuma resposta.
Quando nos aproximamos de uma casa, comecei a pensar se aquele seria meu destino final. Luzes brilhavam através das janelas. Embora a visão me passasse uma sensação reconfortante, não confiei naquele sentimento. Gemi quando elas começaram a subir a varanda, embora as três se movessem com suavidade e tentassem evitar me chacoalhar muito. A garota à minha direita, uma asiática belíssima com o cabelo tão negro quanto as roupas que vestia, acenou três vezes com a cabeça e todas me baixaram em sincronia.
Me deixaram apoiada sobre os cotovelos, sem fôlego.
— Onde estamos? O que vocês querem? — balbuciei, rouca.
A garota aos meus pés, outra deusa de rosto exótico, dirigiu um olhar triste para as outras e depois para mim, como se eu tivesse acabado de fracassar numa prova.
— Estou tão confusa — choraminguei. — Por favor, o que está acontecendo?
A última garota, maravilhosa com seu cabelo cheio, apontou para a casa.
— É a minha casa?
Seu rosto assumiu uma expressão estranha, como se ela não soubesse o que responder. A asiática tocou meu braço para chamar a minha atenção e fez que sim com a cabeça.
Como se estivesse prestes a perder alguma coisa, ela tocou minha bochecha. A mão estava encharcada. A garota aos meus pés juntou as mãos abertas, como numa oração, e fez uma reverência. A última acariciou meu cabelo e sorriu.
Sem palavras, elas levantaram e correram para o lado da casa.
— Esperem! — gritei o mais alto que pude. — Quem são vocês? Quem sou eu?
Comecei a chorar, aterrorizada. O que eu ia fazer?
O barulho deve ter chamado a atenção de alguém. A porta se escancarou, e a luz de dentro quase me cegou.
— Kahlen? — um homem perguntou. — Julie! Julie, venha cá! É a Kahlen!
— Me ajudem! — supliquei. — Por favor.
— Ah, que bom! — uma mulher gritou ao chegar à porta. — Pensamos que tivesse morrido!
— Não parece faltar muito para isso — o homem sussurrou.
— Quieto! Pelo amor dos céus, Ben, me ajude a levar Kahlen para dentro.
Ele me pegou no colo e me levou para dentro da casa. Depois, me colocou com cuidado num sofá bem macio.
— Querida, por onde você andou? Akinli está morrendo de preocupação. Todos estamos.
A mulher – Julie – tirou uma manta de trás do sofá e me cobriu, para em seguida pôr os dedos no meu punho e olhar para o relógio.
— Quem? — perguntei com a voz rouca e baixa, me agarrando à manta.
Houve uma pausa em que um misto de choque e tristeza passou pelo rosto de ambos.
— Desculpem. Podem me dar um pouco de água?
Ben correu à cozinha e Julia agachou ao meu lado para prender o cobertor melhor.
— Kahlen, você lembra de mim?
Fiz que não com a cabeça.
— As garotas me disseram que aqui era a minha casa, mas não te conheço.
— Que garotas?
— Não sei. Elas correram.
— Aqui está — Ben disse ao surgir do corredor com um copo.
Levantei com dificuldade e tomei o copo num gole só. Estava desesperada por água.
— Me sinto melhor — eu disse, levando a mão à cabeça na tentativa de endireitar os pensamentos.
— Ela não lembra de nada.
Ben esboçou um riso.
— Bom, pelo menos você consegue falar agora — ele disse animado.
Franzi a testa.
— Como assim?
Julie levou a mão à boca.
— Não sei nem por onde começar a explicar.
— Talvez fosse melhor se Akinli explicasse — Ben propôs.
— Duvido que tenha forças.
— Pfff! — Ben desdenhou. — Ele encontraria forças por ela.
A expressão de Julie revelava a verdade daquelas palavras.
— Você consegue andar?
— Acho que não.
— Tudo bem — Ben disse antes de se aproximar com cuidado e me pegar no colo. — Já estou bom nisso.
Julie subiu a escada na frente, e os degraus eram tão estreitos que precisei encolher a cabeça no ombro de Ben. Julie nos levou até o fim do corredor e bateu de leve numa porta. A luz estava baixa e ouvi um ruído de fundo.
— Ei. Como você está? — ela perguntou com a voz doce.
— Está de brincadeira? — alguém provocou de um jeito amável. A voz soava tão gasta quanto a minha. — Sou capaz de correr uma maratona.
Ela riu.
— Você tem visita. Topa?
A pessoa tomou um fôlego trêmulo e chiado.
— Claro.
Julie acenou para Ben, que entrou comigo no quarto, enquanto ela ajeitava uma cadeira para mim.
— Obrigada — eu disse, tentando não gemer ao descer do colo.
Ben perdeu o equilíbrio e não foi tão delicado quanto queria.
Então vi o garoto na cama. Estava deitado de lado, com um tubo no nariz e outro na veia. As bochechas estavam magras, e a pele, branca como a de um fantasma. O cabelo devia ter sido loiro um dia, mas desbotava em cinza, então não dava para ter certeza. A única parte do garoto que ainda tinha um pouco de vida eram os olhos, que se encheram de lágrimas ao me ver.
— Kahlen?
Permaneci imóvel na cadeira. Três pessoas já tinham me chamado pelo mesmo nome, que soava parecido com Katlyn e Ellen. Isso me fez acreditar que elas talvez me conhecessem de verdade.
— Para onde você foi? Onde esteve? Pensei que você tivesse morrido — ele disparou. Seu peito trabalhava duro para acompanhar a boca que transbordava de palavras.
— Vocês podem trazer uma caneta para ela? Por favor? — ele pediu erguendo o braço; era só pele e ossos. — Preciso muito saber.
— Caneta? — perguntei.
Mais uma vez o olhar dele se acendeu.
— Você consegue falar?
Encarei aquele garoto, extasiado com a minha capacidade de fazer uma coisa tão simples.
— Parece que sim — respondi com um sorriso.
Ele deitou as costas na cama com tudo e soltou uma gargalhada sincera.
Pelas lágrimas de Julie, imaginei que ela tinha esperado muito tempo para ver aquilo mais uma vez.
— Não parei de sonhar com aquele som. — Ele não desgrudava os olhos de mim, extremamente feliz simplesmente por estarmos no mesmo quarto. — Estou tão feliz por você estar bem.
Olhei para ele e para as duas pessoas cujos nomes eu tinha acabado de aprender.
— Então… aqui é a minha casa?
Akinli me encarou perplexo e depois se voltou para Ben e Julie.
— Ela disse que algumas garotas a deixaram aqui e disseram que era a casa dela. É tudo o que sabe. Nem reconheceu você — Julie explicou enquanto secava as lágrimas e tentava se acalmar.
Ele voltou a me encarar o mais rápido que pôde.
— Kahlen? Você lembra de mim, certo?
Olhei bem para o rosto dele à procura de algo familiar. Não reconhecia o ângulo do seu queixo, nem o comprimento dos seus dedos. Nunca tinha visto seus ombros nem o formato dos seus lábios.
— Akinli, certo? — perguntei.
Coitado. Sentia pena dele do fundo do coração. Com certeza ele tinha sofrido muito, e dava para ver seu último fio de força morrer com aquelas palavras.
— Sim.
— Não lembro de ter te visto antes. Sinto muito.
Ele apertou os lábios como se engolisse a vontade de chorar.
— Mas conheço sua voz — continuei. Conheço como se fosse a minha.
Akinli, o garoto desconhecido cuja vida parecia depender daquilo, se esforçou para levantar da cama.
Julie suspirou chocada ao ver os braços dele tremerem sob o peso do corpo, apesar da magreza. Ele fechou os olhos com força para se concentrar e conseguir se erguer.
Ouvi Ben murmurar consigo mesmo:
— Vamos, vamos…
Quando Akinli estava quase de pé, resfolegando como se tivesse mesmo acabado de correr uma maratona, estendeu o braço para mim.
Aceitei sem medo.
Ficamos apoiados um no outro, já que nenhum dos dois estava forte o bastante para ficar de pé sozinho.
— Pensei que nunca mais ia ver você sentar — Julie chorou.
Ambos olhamos para ela e sorrimos diante das lágrimas de felicidade em seu rosto.
— Estou me sentindo bem, na medida do possível — Akinli disse.
— Tudo bem, não vamos abusar — Ben disse antes de se aproximar e ajudá-lo a deitar de novo.
Me senti um pouco melhor. Ainda havia um zunido de confusão na minha cabeça, mas era bem-vinda ali, e a voz de Akinli me nutria mais do que comida.
Comecei a fungar quando umas poucas lágrimas escaparam. Levantei a mão para afastá-las e foi então que percebi as únicas pistas deixadas por quem quer que tivesse me levado até aquela casa.
Alguém tinha escrito num dos meus pulsos “Você se chama Kahlen”, e no outro “Ele se chama Akinli”.
Girei as mãos várias vezes e procurei mais informações nos meus braços.
— Vejam — falei ao estender os braços.
— Letra bonita — Ben comentou.
Julie lhe deu um tapa, mas parecia de brincadeira.
— Sério? — ela disse.
— É tudo o que você tem? — Akinli perguntou.
— Parece que sim. Então só sei quem sou eu e quem é você.
Encarei os olhos dele, daquele tom azul brilhante, e senti que era tudo o que importava.

23 comentários:

  1. Ai meu deus acho que vou desidratar aqui!!!

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  2. TA PERA ACABOU? SÉRIO? ASSIM? SEM NADA? OOOOOOOOI??????????????

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    1. também tó confusa agora quero continuação .como pode acaba assim ????? assi karen

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  3. Romântico 😍😍😍😍😍😍

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  4. Aí que lindo!! 😍😍😍❤ chorei mais q tudo 😭😭😭❤❤ Karina será q vai tê continuação?

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    1. Nope, este é um livro único, Renata!

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  5. Chorei!!!! Demais pra processar...

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  6. Aquelas meninas eram a Miaka, a Elizabeth e a Padma. Elas não podiam falar porque como a Khalen virou humana, isso seria bem ruim. E a Khalen não se lembra de nada.
    É um final feliz mas ao mesmo tempo triste...

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  7. Que Lindo,ela e humana de novo...
    E TA COM ELE!

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  8. O primeiro livro q me fez chorar(ja li muuuiitos livros)
    O primeiro capítulo q me fez escorrer lágrimas
    ♥♡♥♡♥♡♥♡♥
    {Os dois últimos parágrafos foram-os melhores}

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  9. WTF CABÔ? GENTE
    EU TÔ D: :o :O

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  10. GENTE PERFEITOOOOOOOOOO .... PRECISO MUITO QUE ESSE LIVRO VIRE FILME MUITO MESMO *-*

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  11. Adorei o livro, apesar de achar o romance meio rápido demais. Mas é como dizem a escrita dessa autora nos prende de forma encantadora.
    Espero que a Kalhen possa olhar pra água e ver a sua mãe, e entrar numa balada e ver Elizabeth e Padma, e ver uma Pintura de uma desconhecida na Internet e lembrar da Miaka.

    Que nomes complicados, meu Deus.

    Livro muito bom.

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  12. NAO ACREDITOOO QUE ACABA ASSIM NAO EU QUERO MAAIS O LIVRO EH BOOM MAIS O FIINAL DEIXOU A DESEJAR DEMAIS.
    SOH EU QUERIA SABER O QUE PADMA FEZ COM OS PAIS DELA.
    OU SABER A SENSACAO QUE Kahlen AO ENTRAR NA AGUA
    AII EU QUEROOO MAIS PRA MIM ESSE FINAL DEIXOU REALMENTE A DESEJAR

    MAAAAIS CONTINUUO AMANDOOO O LIVROOOO

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  13. Bom...provavelmente vcs vão me matar por dizer isto,mas não acho o romance a melhor parte do livro,pra falar a verdade até achei meio chato(não é com percabeth ou amexon).O que eu gostei de verdade foi o relacionamento das sereias com a Água

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  14. Super interessante e profundo o livro.Principalmente estas duas frases:
    "Estar vivo não é viver."
    E
    "Matar para viver"
    Mas não gostei do romance,não achei muito bem construído e meio chato.Nao é como amexon,percabeth,Romione e etc.

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