12 de março de 2016

Capítulo 27

NO DIA SEGUINTE, eu já era capaz de sentar na cama. Sentia que poderia andar se fosse preciso, mas não tinha vontade de me mexer. Estava segura e aquecida, embora pouco confortável. Tinha plena consciência da corda que me atava a Akinli. E agora, mais do que nunca, sentia a tensão entre nossos corpos, separados em lados diferentes do país, com dores semelhantes.
Talvez fosse uma conexão presente desde o começo, ou talvez só surgira quando decidi ir para Port Clyde escondida. Havia momentos em que sentia algo similar a um hematoma latejante, e tinha certeza de que era a fraqueza dele ecoando em mim.
Semanas se passaram e os acontecimentos giravam ao meu redor. Enquanto permanecia na cama para conservar o resto de energia que ainda tinha, a Água pedia notícias constantemente. Ela ouvia os pensamentos de todos que nadavam num lago ou caminhavam perto das ondas. Quando os pescadores mergulhavam a mão no mar ou quando namorados sentavam à beira de um cais para trocar carícias, lá estava Ela. Ninguém mencionou nenhuma epidemia misteriosa e recente que roubava a vitalidade das pessoas e paralisava o corpo.
— Estou à procura. — Sua voz garantia, ecoando pelas paredes. — Estou buscando respostas.
Era uma pena que eu não pudesse responder à Água. Dava para ouvir a preocupação inimaginável e a agonia dEla porque eu, sua serva mais velha, definhava.
E mesmo assim, ainda tinha a sensação de que Ela escondia algo. Havia alguma coisa na Sua voz, como se Ela suspeitasse de uma coisa em que não queria acreditar. Eu tinha medo de perguntar. E se Ela soubesse que não havia cura?
Miaka me obrigou a subir na balança pela terceira vez na semana.
— Menos um quilo de novo. Como é possível você perder peso?
— Por favor, não me faça comer de novo.
Ela me tirou da balança, o que me fez pensar em como eu devia estar raquítica para ser erguida com tanta facilidade.
— E se te déssemos só líquidos? Muitos pacientes têm que recorrer a uma dieta líquida.
Pacientes? Havia muitas palavras que eu não gostava de usar para me definir. “Assassina”, “fictícia”, “cruel”… “Paciente” também entraria na lista.
— Como você sabe? — perguntei com a cabeça apoiada no ombro dela enquanto saíamos para o corredor.
— Porque faz um mês que estou parada na frente do computador tentando descobrir o que você tem.
Ela me pôs na cama de novo. Fazia um silêncio estranho na casa. Eu tinha me acostumado com os suspiros impacientes de Elizabeth e as fungadas baixinhas de Padma. Elas também se revezavam nas pesquisas, mas não tinham a mesma disciplina que Miaka.
— Onde estão as outras? — perguntei.
— Conferindo como Akinli está.
Padma havia se juntado a Elizabeth e Miaka na tarefa de monitorar a saúde dele.
Senti meu coração bater um pouco mais rápido.
— Sério?
— Sim. E com o consentimento da Água. Estou vasculhando por toda parte. Procuro pistas na OMS, fico atenta a rumores na internet, e até acompanho as notícias de países em desenvolvimento para ver se encontro alguma doença semelhante à que vocês têm. Até agora nada. As outras foram se informar como ele está e, se possível, trazer o prontuário dele.
— Elas podem acabar na cadeia.
Miaka deu de ombros.
— Elas podem sair da cadeia.
Deixei escapar um riso solitário, sentindo que meus lábios tiveram que se esticar demais para isso.
— É provável.
— Precisamos saber qual é o diagnóstico dele, se é que existe um. É complicado, mas pode nos ajudar a curar você.
— Mesmo que o tratamento dele não esteja surtindo efeito?
Minha irmã suspirou.
— Vamos resolver isso para vocês dois.
Miaka afastou meu cabelo do rosto num gesto tão carinhoso que meu coração derreteu. Eu tinha ficado muito feliz quando ela entrou na irmandade. Sabia que a Água não tinha método para escolher sereias, mas quando Miaka se juntou a nós, tive a impressão de que era um presente para mim. Ela aliviou bastante a perda de Marilyn, e seu jeito tranquilo na época era perfeito para mim. Ela me manteve de pé por muito, muito tempo.
— Kahlen, pense com carinho na dieta líquida, por favor. Acho que um pouco de calorias faria um bem enorme para o seu corpo.
Eu odiava não deixar que ela me ajudasse, mas a minha expressão revelou meu ceticismo:
— Sou uma sereia. Mais do que um ser humano, mais do que uma garota. Não dá para curar o que eu e Akinli temos, seja lá o que for, com alimentação, que é uma necessidade humana.
Miaka respirou fundo, pronta para criticar minha postura, com uma expressão preocupada, mas parou de repente.
— Ah! Por que não pensei nisso antes?
— Nisso o quê?
Os olhos dela brilharam de entusiasmo. Ela levou a mão à boca e as engrenagens do seu cérebro começaram a girar.
— Estamos fazendo tudo ao contrário. Você tem razão. Você é uma sereia! Pensamos que Akinli tinha passado para você, então estávamos à procura de uma doença. Mas talvez tenha começado com você!
— Comigo?
— Claro! E se tivermos que tratar Akinli de algo que faz mal para as sereias? E se, ao curarmos isso, curarmos você?
Olhei para o vazio, tentando primeiro superar a culpa de talvez ter causado a doença de Akinli, depois tentando entender o que aquilo significava.
— Miaka… é brilhante. Só tem um problema.
— Qual?
— O que faz mal para sereias?
Os ombros da minha irmã caíram na hora.
— Boa pergunta — ela admitiu, batucando os dedos no queixo. — Preciso conversar com a Água. Ela tem que saber. Já foi servida por tantas sereias! Se há uma doença que nos atinge… Tudo bem se você ficar sozinha por um tempinho?
— Claro.
Ela saiu correndo, impulsionada por uma necessidade urgente de respostas.
Soltei um longo suspiro. Me amaldiçoei por talvez ser culpada pela doença de Akinli. Claro que eu dava valor à minha vida; tinha muitas esperanças para ela. Mas me comparava com ele e pensava em todo o mal que já tinha feito a tanta gente – não apenas ao matar as pessoas, mas ao forçar seus entes queridos a viver sem elas. Desejava que, se só um de nós pudesse ser salvo, que fosse ele.
Até então, minha existência só tinha me trazido tristeza. A dele tinha potencial para trazer muitas alegrias.
Fechei os olhos e foquei os pensamentos em Akinli. Sinto muito, disse à última imagem que tinha dele, o garoto saudável e feliz que me beijou na praia.
Quase instantaneamente senti uma onda de afeto percorrer meu corpo. Era como se Akinli estivesse próximo, como se pudéssemos cair nos braços um do outro. Com esse conforto, me deixei levar pelo sono de novo.


— Sem diagnóstico — Elizabeth disse ao jogar as cópias encharcadas do prontuário de Akinli sobre a mesa. — Fizeram exames para investigar câncer, falhas no fígado, disfunções na tireoide, todas as possibilidades. Até cogitaram depressão e luto, duas possibilidades bem plausíveis já que os pais dele morreram. Ainda mais se ele sente tanta saudade de você quanto você sente dele.
Sentei, me cobri com os cobertores e encarei a pilha de papéis.
— Como vão pagar por tudo isso? — me preocupei em voz alta.
Elizabeth revirou os olhos.
— Claro que é nisso que você pensa. Não se preocupe. Vamos arranjar uma doação anônima.
Assenti. Ao menos podíamos fazer isso.
— Vocês o viram? — perguntei, tentando não soar ansiosa demais. Em segredo, desejei que elas o tivessem ouvido falar de mim ou coisa parecida, embora soubesse que era improvável. — Ele está com uma aparência melhor?
Padma fixou os olhos no chão com ar de culpa, como se tivesse vergonha. Depois, tirou algumas fotos do bolso. Tomei-as da mão dela, ansiosa e nervosa ao mesmo tempo.
Reconheci os olhos azuis, o cabelo loiro bagunçado que despontava sob a touca de tricô que ele claramente precisava para se manter aquecido. Mas suas bochechas estavam angulosas pela magreza, e o rosto tinha um brilho difuso, ainda aceso, mas quase nada.
— Ah, não… — gemi, levando a mão à boca. Lágrimas quentes encheram meus olhos. — Não, Akinli.
As fotos tiradas da floresta em frente à casa dele mostravam que Ben e Julie tinham instalado uma rampa para cadeira de rodas que destoava por completo do resto da bela casa antiga.
— Estavam levando ele para um passeio. Chega a ser incrível, Kahlen — Elizabeth começou, e eu a encarei, confusa. O que podia haver de fascinante na incapacidade de andar do garoto que eu amava? — Mesmo nesse estado, todos que o viram estavam animados com a presença dele. Essa velha com o jardim bagunçado…
— A sra. Jenkens — completei com um sorriso.
— Isso. — Elizabeth sorriu também, sem demonstrar surpresa por eu saber o nome da velhinha. — Ela deixou uma bandeja de biscoitos no colo dele. Ele comeu um ou dois e deu o restante para as crianças perto do cais. Chegamos bem perto — ela continuou, apontando novamente para as fotos para que eu avançasse. — Akinli disse às crianças para não deixarem a velha saber que ele tinha dado os biscoitos. Não queria que ela ficasse chateada.
Balancei a cabeça.
— É a cara dele — comentei.
— Acho que fizemos um grande progresso enquanto vocês estiveram fora — Miaka começou com ar sério e prático. — Não me surpreende que o prontuário não diga nada. Começamos a pensar que não seja um caso médico, mas mítico.
Padma e Elizabeth trocaram um olhar, confusas.
— Estamos tentando curar Kahlen de uma doença humana. Mas ela não é humana, e não estamos chegando a lugar nenhum. Começamos a achar que não foi ele que passou alguma coisa para Kahlen, mas sim Kahlen que o deixou doente.
— Hum… — Elizabeth ruminou, intrigada e confusa ao mesmo tempo. — Mas o quê? Como?
— Eis a questão. Perguntei à Água, mas Ela não tinha a resposta. Disse que isso nunca tinha acontecido. Então vamos mudar o foco: não vamos procurar um diagnóstico da medicina humana; vamos procurar uma história de sereia. Em algum lugar deve haver um indício de algo capaz de matar um humano e uma sereia ao mesmo tempo sem afetar as pessoas ao redor ou a própria Água.
Padma fez que sim com a cabeça.
— Eu ajudo, apesar de saber muito pouco comparada a vocês.
— Não se preocupe — Miaka começou. — No momento, todas nós não sabemos nada.
Fui levada de volta para a cama enquanto Elizabeth dirigia até a cidade para pegar livros na biblioteca e Miaka vasculhava a internet em busca de pistas.
Ninguém reparou que fiquei com as fotos e que apoiei uma delas no meu abajur – em que o rosto de Akinli aparecia mais de perto.
Vamos dar um jeito nisso, prometi. Não vou deixar você naufragar.
Fitei os olhos cansados dele, onde eu ainda enxergava beleza. Independente do que acontecesse, eu tinha encontrado a pessoa para mim, minha alma gêmea, apesar da idade, da distância e da impossibilidade. Encarei a foto como se estivéssemos tirando um cochilo lado a lado. E podia jurar que ouvi a voz de Akinli dizendo “Venha logo”.

21 comentários:

  1. kkkkk, tá morrendo de amor, Kahlen, meu bem?

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    1. Néee, foi meu primeiro pensamento kkkkkkk

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  2. MEU DEUS EU TO FICANDO LOUCA OU ELES TEM UMA CONEXÃO

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  3. Eu acho que isso tá acontecendo porque eles estão longe um do outro.

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  4. Isso é muito estranho!
    Ass: Bina.

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  5. ela ta morrendo de amor,só pode!
    eles poderiam tentar colocar os dois pertos um do outro,deixar eles se encontrarem

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  6. Será que foi a lagosta? rsrsrs
    eu tô chorando rios aqui, encontrem a cura logo pelo amorr!!

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  7. É o contrario de hancock.
    Em Hancock se eles ficarem juntos eles ficam fracos e mortais
    Nesse caso é se eles ficarem longe um do outro

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  8. Esses medicos não tão servindo de nada ate eu sei que a cura é eles ficarem juntos. Por que ela não fiz logo: me levem ate ele.

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    1. Eu te apoio levem ela ate ele logo pelo amor de Deus

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  9. Deve ser a lagosta que ela comeu

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  10. Se a resposta estiver na mitologia hindu eu acho q morro

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  11. KKKKKKKK MORTA COM ESSES COMENTÁRIOS DA LAGOSTA MMSMSMSMSKSKDJDKDKF

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  12. Kkkkk amando este livro, que amor.

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  13. Acho q foi o sorvete eles comeram mais sorvete do que lagosta kkkkkkkkkkkkkkkk

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  14. como já dizia aquela música:
    Peito ta doendo
    Coração quebrado
    40 Graus de amor
    Febre de apaixonado uô uô uô uô
    ASHUASHUASHUA

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