12 de março de 2016

Capítulo 24

JÁ FAZIA UM ANO E MEIO desde a nossa última vez na Flórida, e fiquei feliz de verdade quando entramos no estado. Não por saber o que estava por vir – na verdade, lamentava a viagem para a Índia – mas porque tinha sido na Flórida que conheci Akinli. Era como se eu fechasse um ciclo, como se voltasse ao começo. Talvez estar ali sarasse a ferida que eu temia ser incurável.
— É aqui — disse ao estacionar na casa alugada. — Não é maravilhosa, mas não vamos ficar muito tempo.
— Não, está ótima — Elizabeth disse ao contemplar a pequena casa e respirar o ar úmido, uma mudança abençoada depois de meses de neve.
Estávamos no interior da cidade; não queríamos chegar perto demais da praia.
Para o plano funcionar, precisávamos garantir que não haveria chance de nenhuma de nós sequer molhar o dedinho do pé na Água. Só tínhamos aproximadamente um mês até Ela precisar se alimentar de novo. Não aconteceram muitos naufrágios ao longo do ano e, a não ser que um grande acidente ocorresse logo, teríamos que cantar um pouco mais cedo do que o normal. A Água estava cada vez mais faminta, e eu não queria abusar da paciência dEla.
Tínhamos poucas horas livres na casa. O voo partia de manhã. Guardamos a bagagem e nos reunimos na sala de estar, onde dei as instruções finais às minhas irmãs.
— Aqui estão as passagens — disse ao entregar os papéis com nomes e identidades falsas. — Foi o melhor que consegui, Padma.
Ela encarou o rosto no passaporte.
— Mas o nariz desta garota é horrível!
— E é por isso que você pode escrever que fez plástica no nariz caso alguém pergunte — expliquei. Corria os dedos pelo cabelo, exasperada, sem saber ao certo se devia me odiar naquele momento ou não. — Muito bem, tudo o que vocês precisam fazer é serem discretas. Padma, lembre que é crucial não falar com ninguém em nenhum momento — continuei, encarando-a bem nos olhos. — Você é muito nova na vida de sereia, é difícil ficar em silêncio no começo, mas se quer mesmo se vingar, precisa ficar quieta.
— Entendi — ela disse ao enfiar o passaporte na pasta com as passagens.
— Já arrumei um transporte para quando vocês chegarem lá. Padma, conto com você como guia. Circulei os hotéis em que vocês podem ficar se precisarem — falei ao entregar o mapa impresso para Miaka. — Talvez seja melhor viajar à noite, mas vocês que sabem.
— Espera aí. Você não vai com a gente?
— Não posso — respondi, mordendo o lábio e esfregando as mãos de ansiedade. — Mas fiz todos os preparativos para vocês. Não está bom?
Elizabeth pôs a mão no meu joelho.
— Está mais do que bom.
Soltei um suspiro.
— Escutem, acho que nunca é demais enfatizar o seguinte: para qualquer coisa que precisarem, usem água tratada e engarrafada. Nada de ligações com Ela, ou estamos acabadas. E enterrem os corpos. Não os deixem em contato com a Água. Se Ela descobrir…
Miaka me tomou pela mão.
— Somos espertas. Vamos cuidar de Padma e nos manter a salvo.
Engoli em seco. Era estranho sentir a garganta seca.
— Vou esperar vocês aqui. Por favor, tomem cuidado.
Elas reorganizaram a bagagem para o voo enquanto desfiz minha mala em silêncio, tentando me sentir confortável naquele purgatório.
Meu instinto natural era ir à biblioteca. Ele não tinha comentado nada sobre  voltar à faculdade, mas depois de todo o tempo que tinha passado, eu imaginava que Akinli estaria de volta às calças cáqui e aos carrinhos de livros que empurrava pelo corredor, talvez de cabelo curto de novo ou com um coque. Me comportei por tanto tempo que, se havia uma chance de vê-lo mais uma vez, ainda que precisasse me esconder, tinha que aproveitar.
Mas bastou pisar fora de casa para saber: Akinli não estava lá.
Não sabia como podia afirmar isso, mas tinha certeza de que ele ainda estava no Maine. Era uma sensação esquisita, como se nossos punhos estivessem presos com uma corda. Se eu prestasse atenção o suficiente nesse sentimento, podia estranhamente sentir a presença dele. Ou melhor, a falta dela.
Sozinha na casa, com mais nada para prender minha atenção, pensei em Aisling, me perguntando se minha irmã mais velha continuava a ser uma mestra da sabedoria na escola nova. Só por causa dela acreditei ser possível enviar as meninas para o outro lado do planeta sem que a Água detectasse. Aisling tinha provado que Ela não sabia de tudo…
Juntei minhas poucas coisas, enchi o tanque do carro alugado e dirigi pelo litoral rumo ao norte.


Se eu precisasse dar satisfação dos meus atos a alguém, juraria de pés juntos que não tinha sido esse o motivo de eu ter voltado à Costa Leste com as garotas ou de tê-las mandado para outro país. E não foi, de verdade. Não queria brincar com a vida de Akinli. Mas precisava ver o rosto dele, com ou sem a barba feita, bagunçado ou arrumado, com sorte com um sorriso. Era a minha única meta.
Dirigi sem parar, mesmo sob a neve e o gelo, e completei a viagem em pouco mais de vinte e cinco horas. Deixei o carro bem no alto da estrada que dava para Port Clyde, decidida a fazer o resto do trajeto a pé. Então descobri uma falha no meu plano.
Minha calça jeans justa e minha blusinha não me protegeriam dos elementos naturais, principalmente daquele que eu mais temia. Mas eu tinha viajado para muito longe. Recorri ao furto: roubei botas que secavam numa varanda e usei a lona que estava num quintal para fazer um casaco. Era o suficiente para eu poder atravessar a neve acumulada no chão. Olhei para as nuvens gordas no céu, esperando que aguentassem um pouco mais para nevar.
Caminhei pelas florestas nevadas até a casa de Ben e Julie. Meu coração acelerou quando avistei as persianas pretas por entre os galhos congelados. A caminhonete estava na garagem ao lado da lambretinha, mas não havia sinal de vida por trás das janelas. Observei a casa por quase uma hora inteira até uma rajada de vento chacoalhar uma carta colada na porta. Quis ler na hora. O bilhete poderia ser a minha única esperança.
Anoiteceu e ninguém apareceu na casa, o que me fez pensar que a escuridão bastaria para me esconder. Assim, me esgueirei até a porta pela beira da estrada.

Tommy,
Mandei uma mensagem para o seu celular, mas caso não tenha recebido, tivemos que ir para o hospital. Uma emergência. Deixe a caixa na caçamba da caminhonete para mim. Cuido disso quando voltarmos. Não sei quanto tempo vamos demorar, mas ligo hoje à noite quando tivermos respostas (se dermos sorte desta vez). Em todo caso, obrigado de novo. Nos falamos em breve.
Ben

Senti uma pontada de medo por Julie. Lembrei de como ela tinha ficado aflita por mim quando apareci encharcada na porta da casa dela. Será que era ela quem estava doente? Se eu tivesse ficado, poderia estar segurando sua mão naquele momento.


Me afastei da porta me sentindo uma idiota. Eu não deveria estar lá. Estava arriscando demais. Embora quisesse que Akinli fosse feliz, com certeza perderia qualquer esperança de sanidade se ele tivesse seguido em frente sem mim. E se ele me visse ou se eu cometesse qualquer erro, a vida dele estaria em perigo.
Depois de tudo o que tinha acontecido, como Ben e Julie ficariam se o perdessem também? Tinha sido burra, impulsiva.
Passei pela caminhonete, conferi se a tal caixa estava mesmo na caçamba e voltei até o carro pela floresta.
Balancei a cabeça, me considerando sortuda por Akinli não estar em casa.
Ao longo do caminho até o Maine, tinha dito a mim mesma que a viagem seria uma espécie de encerramento, o fim dos meus sentimentos por Akinli e de qualquer esperança de nos relacionarmos.
Mas descobri naquele momento que não sentia falta só de Akinli. Em poucas horas, Ben e Julie me proporcionaram a sensação mais próxima de lar que experimentei em muito tempo. Enquanto eu vivesse como sereia, meu conceito de casa estaria sempre atado ao cheiro de amaciante das roupas de Julie e ao ruído do aquecedor central deles, ainda ligado no fim da primavera. Não os amava como amava Akinli, mas eram especiais para mim, vinham junto quando eu pensava em Akinli, e desejei ter visto o rosto de ao menos um deles naquele dia.
Eu tinha vivido décadas, morado em mais países do que a maioria das pessoas seria capaz de visitar. O lugar mais feliz e confortável em que já estivera era naquele sofá surrado com o braço de Akinli em volta do meu ombro.
A viagem ao Maine não marcaria o fim de um capítulo. Apenas me forçaria a virar uma página.
Dirigi de volta para a Flórida refletindo se tinha cometido um erro. A frustração doía, respirar era difícil – difícil de um jeito estranho, como se eu tivesse ficado exposta ao frio por muito tempo. Sim, a Água jamais saberia, assim como as garotas. Mas eu sentia um puxão no peito, uma corda invisível, que tornava os quilômetros cada vez mais difíceis de percorrer.

19 comentários:

  1. Eu acho que ela está se tornando humana novamente aos poucos... 🌝
    -Emy

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  2. Mas ela pode se torna humana ates de completar sua servidão?!
    Ass: Bina.

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  3. Acho que é por isso que ela não aceita mães esposas pq elas amam será ?

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    1. Ela não aceita mães e esposas pq os esposos e filhos prendem elas a vida.

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    2. Sera queo amor delas as mantém humanas?

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  4. Eu concordo com a Emy,to percebendo ela virando humana aos poucos

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  5. Acho que ela (água)não percebe que o amor de kalhen e akinli é maior que o seu poder de destruição!

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  6. Eu concordo acho que ela ta virando humana aos poucos
    Tipo teve um capitulo anterior que ela disse que sentiu uma coçeira na perna e ela achou estranho
    E acho que ela nao aceita esposas e maes porque elas amam
    A ho que o amor que ela sente por akinli vai transforma ea em humana aos poucos

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  7. Ela já sentiu coceira, "fome" e "sono" (esses foram só suspeitas minhas)


    Muuuuuito suspeito...

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  8. Mas teve a outra q tinha uma filha, e msm assim n virou humana, mas eu tbm acho q ela ta deixando de ser sereia

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    1. É eu tbem penseu nisso mas só q elas tinham amor e lembranças da vida passada mais nenhuma delas se apaixonou como serieia, por isso acho q ela vai retornar a vida como humana mais vai levar algum dos dons de sereia

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  9. Tontura tbm !
    Ass:janny

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  10. PODE SER QUE O AMOR É MAIS FORTE QUE A MAGIA DO PORÇÃO...
    É UMA SITUAÇÃO COMPLICADA, MAS SIMPLESMENTE Ñ CONSIGO SENTIR ÓDIO DA ÁGUA...
    CADA UM COM SUAS FRAQUEZAS... ELA ESTABELECE AS REGRAS E A SEREIA TEM DUAS OPÇÕES. SEGUIR OU MORRE... :/

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  11. Ai queria que o capitulo falace da vingança de padma, sera q n vao contar como foi la

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  12. Acho que ela está virando humana aos poucos, mas tbm acho que o Akilin é que está no hospital desde o dia que ela o deixou na praia e por causa do amor que ela sente por ele que ela está sentindo essas reações de humanidade nela, ele deve estar em coma ou algo assim e isso está tornando ela humana novamente. Por favor, não morre nenhum dos dois!!! 🙏😳

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