12 de março de 2016

Capítulo 22

OS PINCÉIS DE MIAKA ESTAVAM ESPALHADOS PELO CHÃO. Havia dias que pintava sem parar.
— Este está lindo — comentei na esperança de que a frase fosse conversa suficiente para eu passar o resto do dia sem os olhos preocupados das minhas irmãs em cima de mim quando elas achavam que eu não estava vendo.
— Obrigada. Você achou os outros um pouco mais crus, então?
Fiz que sim com a cabeça.
— Gosto dos seus quadros mais agressivos — Elizabeth disse. — Acho que as pessoas ririam se soubessem que uma coisa tão ameaçadora veio de uma garota de dezesseis anos.
— Ou de oitenta e quatro. Mesmo assim…
As duas riram, mas não achei nada daquilo engraçado.
— Posso fazer arte também? — Padma perguntou de maneira doce.
Era possível ver a tensão nos olhos dela. Ela ainda não estava livre das preocupações, mas tentava lidar com elas de todas as formas possíveis. Ela era mais forte do que eu, e a admirei por isso.
— Eu também! — Elizabeth disse pegando uma pilha de papéis.
— Claro! — Miaka respondeu, prendendo o cabelo num coque com um lápis de cor. — Sejam poderosas, sejam destemidas. Criem algo de que as pessoas não consigam tirar os olhos.
— Acho que não consigo recriar a mim mesma — Elizabeth soltou, subindo e descendo as sobrancelhas.
— E quem poderia?
Abri um sorriso minúsculo e sem brilho para elas. Lembrei que tinha pensado em viver em função de Akinli em Port Clyde. Comecei a imaginar se seria capaz de viver pelas minhas irmãs. Afinal, elas eram tudo o que me restava no mundo. Mas não conseguia reunir disposição para isso.
Fiquei olhando para as linhas entre as tábuas do assoalho. Miaka se aproximou e pôs papel e lápis de carvão na minha frente. Nossos olhos se encontraram. Ela apenas deu de ombros.
— Eu também sofro. Não tanto quanto você, sei disso. Mas isso me ajuda. Talvez… talvez…
Apoiei a mão sobre a dela.
— Obrigada.
Ela voltou à tela, determinada a terminar uma série. Não me preocupava mais em ter uma casa ou roupas novas, mas Elizabeth e Miaka sim. Eu sabia que as duas se sentiam responsáveis por Padma, e agora por mim também. Por enquanto, eu toparia tudo que elas quisessem, desejando ficar sozinha ao mesmo tempo que torcia para elas não me expulsarem do grupo por ser tão infeliz.
Se dependesse de mim, talvez eu tentasse voltar ao Maine. Ainda não era forte o suficiente para manter distância por conta própria. E eu tinha medo. Se cometesse um erro, Akinli morreria. E havia um pedacinho do meu coração preocupado com a possibilidade de a Água se livrar dele por prevenção, ou por qualquer motivo que Ela julgasse plausível.
Peguei o papel e comecei a rabiscar. Nada. Páginas de círculos e ziguezagues. Mas numa página uma curva se tornou o perfil da bochecha de Akinli, e os círculos eram da forma exata dos olhos dele.
Eu não era artista, mas guardei cada detalhe de Akinli na memória, e o derramei na página, inconscientemente. De fato, fiquei admirada com o que minhas mãos foram capazes de fazer. Podiam se lembrar da textura do cabelo dele, do leve pontilhado da barba ao fim do dia, da curva cálida do seu queixo.
Minhas mãos recriaram tudo belamente em preto e branco.
Que saudade eu sentia daquele rosto. O que eu não daria para vê-lo se iluminar de surpresa ou conspirar comigo com uma piscadela? Aquele rosto que rapidamente se tornou o símbolo de conforto no meu mundo.
Não quis chorar na frente das outras, não com a preocupação delas pairando sobre mim. Simplesmente amassei os papéis e os joguei no lixo.
Tentei fazer o mesmo com as lembranças, mas não adiantou. Como seria capaz de superar aquilo um dia?
Saí pela porta dos fundos, desci o morro e entrei no lugar que evitava havia meses.
— Bem-vinda. — A Água soava insegura, mas como se estivesse feliz em me ver.
À medida que eu nadava para mais longe da praia, Ela me abraçava com suas correntes. Deitei de costas sobre a superfície.
— Não está funcionando — confessei enquanto afundava.
— O quê?
— Me separar de quem eu amo não aumenta meu amor por você. Só me torna amarga. Não quero existir assim, como meia pessoa.
— Você não é meia pessoa — ela insistiu. — Você é mais do que uma pessoa. Eu lhe dei todos os dons que podia. Você é mais forte do que qualquer humano. Tem a minha preferência em relação às outras. O que mais você quer?
— Amar — revelei. — Casar.
— Com certeza vai conseguir quando não me pertencer mais.
— Mas Akinli vai estar morto! Ou quase isso! Não sei o que você pensa dos humanos, mas não é normal casar com um cadáver!
— Você acha que desprezo os humanos? — Ela perguntou com irritação na voz. — Eu existo para servi-los. Tudo o que sou é deles. Você acha que carrega uma maldição pesada nas costas. E eu?
Ela esperou uma resposta que eu não tinha.
— É pedir muito querer ficar um pouco mais com a única joia que tenho?
Permaneci calada. Pensei na minha vida, tanto nos poucos anos em que fui de carne e osso como nas décadas passadas como um ser mais assustador. Não havia nada de especial em mim. Nada mudaria se eu morresse ou continuasse viva. Para Ela, deixar de viver não era uma opção.
Pensei na minha tristeza, acarretada pela minha própria idiotice e prolongada pela minha teimosia. A Água não tinha a opção de ser mesquinha, de não se dar o tempo todo.
Quando somei tudo, cheguei à conclusão de que eu era insignificante. Menos para Ela, talvez.
— Você acha que mais tempo é um castigo, mas pode continuar a crescer, a aprender. Por que quer me abandonar?
— Não é isso que quero dizer. — Por que Ela não conseguia entender?
— O que é, então?
Cerrei os dentes de frustração e fúria.
— Você entende como é difícil te amar quando você ameaça alguém que amo? Sei dos meus defeitos. Como posso confiar que você não vai destruir Akinli na minha próxima falha?
— Você sempre me serviu tão bem, Kahlen. Nunca deu um passo em falso até conhecê-lo. Quanto mais fala sobre esse garoto, mais certeza tenho de que a morte dele faria bem para você.
— Não! — Eu podia sentir a raiva irradiar da minha pele. — Você não entende? Isso me faz te odiar!
— Então qual vai ser nosso meio-termo? Como vamos continuar a conviver depois desse erro?
Fechei os olhos, magoada pelas palavras. Akinli não era um erro.
— Controle seus pensamentos.
— Você quer minha devoção? Meu carinho constante?
— Sim. Quero o mesmo que lhe dou.
— Então não me ameace com a morte dele — eu disse. — Prometa a vida dele.
— O que você quer dizer?
Pensei no que sabia sobre Ela.
— Você pode identificar algumas almas se precisar, certo?
— Claro.
— Então prometa que se vir o corpo dele se debatendo na água, vai levá-lo para a praia. Prometa que se uma corda o puxar para fora do barco, você mesma vai desenroscar. Prometa que a minha voz jamais o levará ao túmulo. Se você fizer tudo isso, se puder poupar Akinli, jamais pronunciarei o nome dele de novo. Prometa a segurança dele e darei a você tudo o que resta de mim.
Ela refletiu sobre a proposta.
— Você vai ser mais gentil com as suas irmãs? Elas estão preocupadas.
— Dou a minha palavra. Miaka, Elizabeth e Padma vão receber o que tenho de melhor. — Conseguia sentir as ondas dEla moverem-se como engrenagens, processando a solicitação, em busca de uma falha. — Prometo.
— Então também prometo — Ela garantiu. — A morte de Akinli não virá por mim. E farei tudo o que puder para preveni-la.
A tensão no meu corpo enfim afrouxou. Um medo foi tirado de mim.
— Obrigada.
— Estarei aqui quando você estiver pronta para me amar. Vá até as suas irmãs. Elas também precisam de você.
Saí do mar e marchei de volta à casa pingando. Miaka e Elizabeth estavam inclinadas lado a lado à mesa, conspirando como sempre, enquanto Padma as observava com o queixo apoiado nas mãos.
— Ei! — Miaka disse toda animada. — Estávamos pensando em encontrar uma cidade nova, algum lugar quente. Sugestões?
— Não precisamos ir embora. Já disse que aqui está ótimo. Nesse ritmo vamos ficar sem lugares para ir.
— Mesmo assim… Para onde você foi quando nos deixou? — Elizabeth perguntou. — Algum lugar bom?
A sensação era de que um prego tinha atravessado meu coração. Não era um lugar bom, era perfeito.
— Port Clyde — respondi. — Uma cidadezinha no Maine. Nunca passaríamos despercebidas lá.
— Ah… — Foi a reação de Elizabeth, que apertou os lábios, pensativa.
Senti a poça de água sob meus pés aumentar.
— Sei o que estão fazendo.
Miaka se assustou.
— Como assim?
— Pulando de um lugar para o outro na tentativa de me animar. Agradeço, mas não vai melhorar nada.
Elizabeth levantou.
— É que a gente simplesmente não sabe mais o que fazer. Você cuidou de nós por muito tempo. Queremos fazer o mesmo por você.
Eram palavras de peso considerando a preocupação que ela tinha com a própria alegria e conforto. Soltei um suspiro, lembrando do que tinha acabado de prometer à Água, e me aproximei das minhas irmãs.
— É uma fase — disse a elas. — Toda fase passa.
Forcei um sorriso. Eu tinha feito uma promessa, e sempre fui obediente. Essa atitude tinha sido o meu diferencial na vida de sereia, e precisava resgatá-la.
— E essa fase acaba hoje. Só precisava de tempo para me adaptar. Vou ficar bem agora.
A mentira me custou muita energia. Tudo bem. Pelo menos meu corpo era indestrutível.

10 comentários:

  1. Primeiro cap que chorei:( els falando como o amava para a Água, tao pft


    Ass: filhafavoritadeposeidon

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  2. acho que a agua nao e tao boa assim

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  3. Queria ter amigas(irmãs) tão boas como elas mas pensando bem acho que já tenho 3, são completamente diferente um das outras, mas são meus anjos da guarda para todo o caso...

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  4. Sou so eu q acha q a kahlen ta virando humana, coisas de humanos q ela n podia ter e tem... sei la, so pressinto isso.

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  5. gabs - filha de afrodite22 de julho de 2016 01:50

    ninguém percebe que esse jeito de amar da Agua é o único que ela conhece? ela nn sabe como é isso, ela sempre soube que tinha que tirar a vida das pessoas , mas nunca soube como fazer para ama-las.
    ela so tem medo de perder a Kahlen, a única que ela ama, e talvez esse seja o único modo que ela pensa que tem para não perder a Kahlen... vcs não podem julgar as pessoas pela forma de amar delas.

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  6. Será que tem alguma possibilidade da Água está mentindo em relação a prevenção da morte de Akinli?

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  7. Eu pediria pra poder passar uns dias com akinli para poder me despedir

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