12 de março de 2016

Capítulo 21

UMA PROPRIEDADE ABANDONADA NUMA ILHA DA COSTA DA ITÁLIA.
Um casebre perto de um pesqueiro no México.
Um apartamento alugado na península Olímpica.
Nomes diferentes para o mesmo lugar.
Quatro locais em sete meses foi demais para nós. Embora Elizabeth tivesse sido o motivo da primeira mudança, dava para ver que minhas irmãs haviam decidido que eu precisava de espaço, de um lugar onde podia falar sem me preocupar se outros estavam ouvindo. Deve ter sido Padma quem incentivou as mudanças para paisagens pacíficas e isoladas. Minhas irmãs esperavam que a mudança de ares acabasse com a minha depressão. E embora eu agradecesse o gesto, nada do que elas fizessem me ajudava.
Assim que eu fosse capaz, iria morar sozinha, não importava onde. Estava cansada de tentar ser alguém que eu não era, e cansada de me sentir um fardo para minhas irmãs, além de todo o peso dos meus próprios sentimentos.
A nossa moradia da vez era um casarão numa encosta coberta de grama que dava para um caminho de pedras arredondadas e depois para a Água. Apenas uma estrada de terra bem gasta conduzia até a casa isolada. Se precisássemos chegar a algum lugar, levaríamos uns bons trinta minutos.
Minhas irmãs escolheram bem. A possibilidade de falar ao ar livre me fez bem, embora não pudesse curar a saudade de Akinli ou a dor pela minha punição. A Água tentava falar comigo, mas eu A ignorava com a satisfação amarga de que Ela não me ouviria se eu permanecesse em terra. Em vez de conversar com Ela, passava horas vendo pássaros enormes mergulharem para buscar comida e ouvindo o som do vento que abria caminho pelas árvores.
Aquilo não me trazia nenhuma alegria. De fato, eu não tivera nenhum motivo para rir desde que saíra de perto de Akinli. A única coisa que me arrancou um riso baixo foi uma sensação extraordinária na minha perna.
Coceira.
Fiquei hipnotizada pelo calor irritante na batata da perna. Olhei bem para o lugar da coceira, levemente rosado, o que também era estranho – nossa pele geralmente era imutável e invulnerável como todo o resto do corpo – mas agradeci.
Dentre todas as comidas exóticas e lugares belos que conheci, de todas as distrações e aventuras vividas, aquela novidade minúscula me fez pensar que parte de mim ainda era humana.
— Kahlen?
Olhei para trás e deparei com Miaka me oferecendo uma xícara de chá.
Permaneci sentada numa pedra, pensando em como estávamos separadas da Água e, ao mesmo tempo, cercadas por Ela. Já A tinha visto de tantos jeitos: impassível como uma rocha, impaciente como uma criança, animada como uma festa… Naquele momento, Ela só podia ser uma inimiga para mim.
— Quer ajuda para pensar? — Miaka perguntou ao sentar ao meu lado.
— Se eu conseguisse organizar o que se passa na minha cabeça, te contaria.
Miaka sorriu e tomou um gole de chá.
— O que acha daqui?
— É bom.
— Bom? Kahlen, a gente está fazendo o máximo para ajudar!
Lancei um olhar para aquele dia sem fim. Continuava esperando, como Padma, a hora em que minha dor passaria. Até o momento, não tinha acontecido.
— Não sei o que te dizer. Talvez vocês devessem voltar para uma cidade e me deixar aqui. Acho que é só uma fase.
Miaka esticou o pescoço em direção à Água.
— Ela está preocupada. Você deve ter reparado.
Assenti com a cabeça.
— Ela acha que estou sendo petulante, que vou superar. Posso sentir isso. — Fiz uma pausa. Apertei a xícara entre as mãos na tentativa de absorver aquele calor. — A verdade é que não sei como perdoar a Água — confessei.
— É melhor do que a morte.
— Não é isso que sinto.
— Você é corajosa, Kahlen. E muito inteligente. Pode enfrentar mais setenta anos.
— Não é só isso… — disse, me endireitando, cansada de guardar meu segredo. Olhei bem para os olhos da minha irmã. — Conheci um garoto.
Miaka me encarou, confusa.
— Em um dia?
— Não — respondi, esfregando o rosto para segurar as lágrimas antes que começassem a cair. — Faz pouco mais de um ano. Ele era aluno da faculdade perto da nossa casa em Miami. Nos conhecemos na biblioteca. Embora eu não conseguisse falar, ele conversou comigo, fez com que me sentisse uma pessoa de verdade. No dia que parei de cantar, fui para a cidade natal dele. Os pais dele tinham morrido e ele havia largado a faculdade.
— Ah, não — Miaka disse, levando a mão ao peito. — Ele tem família?
— Foi morar com o primo e a esposa dele. Eles até me deixaram passar uma noite na casa deles, e deram a entender que eu podia ficar o quanto precisasse. Me acolheram como uma gata perdida.
— Se eles foram tão legais, por que você foi embora tão rápido?
Baixei os olhos, envergonhada.
— Akinli e eu passamos o dia juntos. No final, eu já estava perdida, com a cabeça na lua. Ele pediu para ficar comigo, e eu disse que sim. Se eu fosse esperta, poderia passar anos ao lado dele. Não seria perfeito, mas ao menos poderíamos ficar juntos. No segundo seguinte ele me beijou. E eu falei. A canção lhe subiu à cabeça e ele caminhou direto para o mar.
— Kahlen!
— Eu sei. Era para ele ter morrido, mas implorei à Água para deixá-lo viver. Trouxe-o de volta à praia, e Ela me castigou com mais vida em vez da morte. Agora a vida dele depende da minha obediência. Ele trabalha como pescador, passa o tempo todo no mar. Ela deixou bem claro que se eu der um passo em falso por causa dele, a vida de Akinli já era.
Miaka balançou a cabeça, incrédula.
— Por que Ela faria isso com você? Ela te ama.
— Parece loucura, mas acho que Ela estava com ciúmes — confessei. — Como se ele não pudesse ter meu carinho porque sou dEla.
— Mas não é com ameaças que Ela vai ganhar o seu amor.
— Ela não é humana — relembrei Miaka. — Não sei se entende nossos relacionamentos.
Talvez aquele momento tenha sido o mais próximo que cheguei de ver Miaka com raiva. Ela fechou a cara, decepcionada com a minha situação apesar da minha burrice em deixar tudo isso acontecer.
— Não vou contar para as outras — ela disse depois de um tempo. — Acho que Elizabeth ia ficar uma pilha de nervos, e Padma é tão nova que copia Elizabeth em tudo.
— Logo ela vai descobrir a própria identidade.
Miaka suspirou.
— Espero que sim. Mas no momento acho que não precisamos divulgar essa informação.
Assenti. Minha mente estava do outro lado do país.
— Ele era doce, sabe? Senti que era muito especial encontrar uma pessoa tão boa.
Miaka bateu de leve a cabeça na minha.
— Não consigo imaginar você arriscando tudo por uma pessoa que não valesse a pena.
Eu a puxei para perto e lhe dei um abraço breve, grata pela compreensão.
Mas por mais que eu estimasse o apoio da minha irmã, queria que Aisling estivesse comigo. Ela sabia o que significava amar uma pessoa que não envelheceria ao seu lado.


Quando não há necessidade de dormir e de comer, quando não há nada além de lágrimas vazias à espera de serem derramadas, a alma fica inquieta. Eu tinha passado um tempo pensando nas escolhas de Aisling, e entendi por que ela observava a família de longe. Mas ela e eu éramos diferentes, com relações diferentes com aqueles que deixamos para trás.
Por dias refleti sobre como Aisling tinha vivido. No final, cheguei a uma verdade absoluta: eu jamais poderia voltar para Akinli.
Meu último desejo era que ele tivesse uma vida longa e feliz. E desejei de verdade, com todas as minhas forças. Mas assistir ao dia em que ele me esqueceria, em que estaria com outra garota, ver o rosto dele nos filhos de ambos… Não seria capaz de aguentar.
Também sabia que não seria capaz de esquecê-lo. Mas era uma cruz que teria de carregar em silêncio.
Silêncio. Eu já deveria estar acostumada com isso àquela altura.

10 comentários:

  1. Angélica Higurashi15 de março de 2016 15:56

    Essa é uma coisa que não gosto nos romances da Kiera,tem esse amor vassalo,precipitado e irracional.Não consigo engolir isso facilmente,e ao mesmo tempo o livro ne prende e me faz querer continuar.
    Como proceder?

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    1. É verdade, ele acontece muito rapidamente, não é como se ele fosse se desenvolvendo e fortalecendo, ele só acontece e de uma forma avassaladora, mas a Kiera o retrata de uma maneira tão linda e poética que soa até compreensível toda essa precipitação.

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    2. Se pensar bem o amor não foi repentino, era uma paixão, paixão é uma coisa repentina, mas a distância serve para duas coisas - e eu digo por experiência própria - ou ela aumenta ou ela mata, a paixão deles cresceu por seis meses até virar amor!

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    3. O amor e um dos sentimento mais puros q se existe não importa o q vc e nem o q vc fez algum dia esse sentimento vai te encontrar mais todo amor em volve riscos acho q nunca ouve nem nunca vai a ver um amor sem sofrimento ou dor e acho que era isso q a Kiera coloca na sua historia q sempre pode a ver amor do mais simples ao mais intenso ele sempre vai existir e por mais que tentamos esquece-lo mais ele vai te consumir

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  2. É difícil saber, será que isso vai ser romeu e julieta agora?

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  3. Respostas
    1. Tá até parecendo a história da Rapunzel, quando ela se apaixona pelo príncipe e bruxa não deixa que eles vivessem felizes

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  4. Eu nao sei qual seria minha reaçao diante de um situação onde amo muito uma pessoa e nao posso estar com ela.
    Acho q minha decisao seria me afastar e nunca mais tentar nenhum tipo de contato acho q nao suportaria ve que essa pessoa me esquecei que vive bem sem mim que casou teve filhos e que eu virei apenas uma sombra que o obsetva de longe querendo fazer parte de um mundo q nao me pertece, querendo esta do lado de uma pessoa que conseguil me superar conseguil seguir a vida sem.
    Acho que escolha de ficar observando.ele de longe é uma tortura muitoo maior ela deve guarda apenas a memoria dos dois juntos e acreditar que ele continua a amando mesmo com o passar dos anos.
    Pra Asling deu certo por que era filha dela, ela sabia que ele sempre ia ser a mae da menina mesmo a filha dela achando que ela estava morta sempre ia ama-la e adimira-la e Asling se bastou com isso vê a filha crecer de longe era melhor do que nunca ve, Agora com a Kahlen é totalmente oposto disso ve-lo de longe significa ve-lo beijando outra amando outra isso doi demais sem duvidas.

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