12 de março de 2016

Capítulo 20

OLHEI AO REDOR E TENTEI DESCOBRIR ONDE ESTAVA. Mesmo no breu da noite, o céu brilhava de um jeito estranho. Ouvi o ronco dos carros e me dei conta de que estava debaixo de uma ponte.
Virei na direção do som de pés correndo e avistei silhuetas familiares. Minhas irmãs se apressavam ao meu encontro. Atrás delas, Nova York fervilhava.
Elas correram os olhos pela praia estreita para se certificarem de que estávamos a sós. Padma foi a primeira a se ajoelhar ao meu lado.
— Você está bem?
Fiz que não com a cabeça.
— Estávamos preocupadas com você — disse Elizabeth, ajoelhando diante de mim. — Você parou de cantar e logo foi embora. Onde esteve?
Fiz que não mais uma vez em meio às lágrimas.
— O que houve? — Miaka perguntou.
— Estamos seguras? — perguntei entre soluços.
— Sim — ela garantiu. — Estamos debaixo da ponte de Manhattan. Não há muita gente na rua a esta hora, e o barulho dos carros abafa a nossa voz. Estamos bem.
— Onde você esteve? — Elizabeth levantou com as mãos na cintura e a cara fechada. — A Água disse que estava à sua procura, mas que você não respondia.
Miaka pôs a mão no meu ombro para me confortar.
— Sabemos que o cruzeiro te deixou mal, mas você não precisava ter ido embora.
As palavras me fizeram estremecer de náusea ao lembrar do rosto da noiva – o rosto de Karen – e de todas as imagens que tentei esquecer quando estava com Akinli. Nada tinha mudado.
Respirei fundo algumas vezes.
— Me amordacem — supliquei.
— O quê? — Padma perguntou.
— Me amordacem, por favor!
Elizabeth arrancou a camisa e a enrolou no meu rosto. Apertei a peça contra minha boca e soltei o grito mais alto que meu corpo minúsculo era capaz de produzir. A crueza gutural do som estava totalmente distante das nossas vozes delicadas, mas era sincera, mais próxima de quem eu era de verdade. Não via outra maneira de expressar a dor.
— Kahlen? — Miaka suplicou.
Devagar, afastei a camisa.
— Ela me deu mais cinquenta anos. Mais cinquenta anos de sentença.
Elizabeth xingou e Padma ficou chocada.
Miaka me abraçou.
— Sinto muito. Mas pelo menos você ainda está viva.
— Estou?
Miaka começou a andar.
— Vamos entrar.
Sob o cobertor da noite, nos instalamos num sobrado de arenito no Brooklyn.
Enquanto as outras tiravam as roupas da mala e reorganizavam a mobília nova, chorei sentada num canto. Passei dois dias em lágrimas. Quando senti que toda a água havia saído do meu corpo, finalmente caí no sono.


Motivadas pelo entusiasmo de Padma, as garotas se tornaram turistas. Foram à Estátua da Liberdade e a todos os espetáculos da Broadway que conseguiram. Liam as resenhas dos restaurantes e das casas noturnas. Padma se tornou baladeira como elas. Suspirei comigo mesma: não estava pronta para passar sabiam-se lá quantos anos assistindo ao ciclo de bebidas e danças e conquistas.
Era como se, apesar do meu castigo, elas tivessem esquecido de mim ou de como eu encararia aquele tipo de vida. Estávamos juntas como sempre, mas nunca tinha me sentido tão afastada.
Numa das muitas noites em que elas saíram, comecei a revirar meu baú. Olhei para todas as cadernetas. Não ia voltar a fazer aquilo. Saber o nome de Karen já era ruim o bastante, e não tinha o menor desejo de descobrir o nome dos pais dela nem da dama de honra. Nenhuma informação era capaz de reparar o que eu tinha feito. Alguma vez reparou?
Arrastei o baú para fora. Não estávamos longe da ponte nem do mar, embora tenha dado trabalho descer até a praia. Com os pés descalços sobre as pedras, lancei cada uma das cadernetas ao mar.
Adeus, Annabeth Levens e sua crença em trevos de quatro folhas.
Adeus, Marvin Helmont e seu time três vezes campeão da liga amadora de beisebol.
Adeus a milhares e milhares de vidas que não consegui consertar e que não me consertaram.
Joguei minha escova de cabelo, alguns vestidos a que estive apegada e toda a pesquisa sobre sereias. Para que serviam?
A última coisa que encontrei foi o grampo de cabelo, meu único vínculo com minha mãe. Eu o girei nos dedos, observando minha mão manchar de ferrugem.
Então o soltei no mar.
Nada mais me prendia, e eu não tinha mais nada a que me prender.


Nas semanas seguintes, as garotas não notaram que o meu baú tinha sumido – embora fosse uma mudança significativa, já que a nossa casa era muito apertada. Para mim, era mais uma prova de que eu tinha me tornado invisível para elas. Eu era apenas uma âncora que as puxava para baixo.
Nova York exerceu um novo tipo de fascínio em Elizabeth e Miaka. Uma cidade que nunca dormia era perfeita para garotas que também não dormiam. E embora Padma as seguisse e desejasse ver tudo nos mínimos detalhes, pude notar que o peso das aventuras a deixava cansada, até uma noite em que não aguentou mais.
— Você não pode ficar em casa — Elizabeth insistiu. — Dizem que essa é a melhor balada da cidade!
Padma fez uma careta brincalhona.
— A de ontem também era.
Elizabeth deu de ombros.
— Isso muda todo dia. Vamos, não podemos perder!
— Deixe Padma — Miaka interveio. — Ela virou sereia há pouco tempo, e tenho certeza de que a vida anterior dela estava longe dessa agitação.
Padma estendeu a mão na direção de Miaka.
— Obrigada. Minha vida não era agitada mesmo, e acho que uma noite de folga vai me fazer bem. Além disso, Kahlen talvez goste de companhia.
Eu estava ouvindo a conversa delas do meu canto no sofá, mas só sintonizei de verdade ao ouvir meu nome. Levantei a cabeça e vi as três me encarando.
Que bondade a delas em reparar que eu ainda morava lá.
— Hein?
— Você não vai se incomodar se eu ficar aqui com você hoje à noite, vai? — Padma perguntou, suplicante.
Forcei um sorriso, ainda me sentindo mal por Padma. Ela seguia o exemplo das outras duas na vida e no relacionamento comigo. Até aquele momento, sua vida de sereia estava longe de ser a experiência que eu pretendera oferecer.
— Nem um pouco — respondi.
Elizabeth soltou um suspiro.
— Ótimo. À vontade.
Elas saíram dali a vinte minutos, e Padma sentou no outro canto do sofá vestindo uma legging e uma camiseta grande demais. Ela tinha abandonado seu antigo jeito de se vestir tão rápido que me senti péssima mais uma vez por ser tão devagar para mudar.
— Obrigada — ela balbuciou. — É legal sair e ver coisas novas, mas é informação demais para processar.
— Entendo. Tentei seguir o estilo de vida das duas e sair para beber e dançar. Fui uma única vez — contei, com o indicador erguido — e desisti logo depois.
Padma riu.
— Não consigo imaginar você num vestido daqueles rebolando numa pista de dança.
Abri um sorriso.
— Exatamente. Não era pra mim. Sou mais… — quase disse que era mais do tipo que curte jitterbug, mas o pensamento me transportou setecentos quilômetros para o norte — Sou mais caseira.
— Eu gosto. Você sente uma energia quando está acordada no meio da noite com todos aqueles estranhos ao redor. Dá pra se distrair bastante — ela disse, e sua expressão mudou. — Gostaria que durasse mais.
Foquei nas lembranças das últimas semanas. Tinha andado tão preocupada com meu próprio sofrimento que me esqueci do de Padma.
— Você ainda lembra de tudo, não lembra?
Ela confirmou com a cabeça.
— Fui até a Água uns dias atrás e tentei deixar que Ela levasse meus pensamentos.
— Acho que não é bem assim que funciona.
— Pois é — Padma disse enquanto mexia na barra da camiseta. — Acho que não… — Ela fixou o olhar triste no chão.
Eu estava falhando com ela. Ela carregava o próprio sofrimento e ainda tinha um século pela frente. Como sua dor seria menor do que a minha? A fonte era diferente, mas eu a tinha ignorado para pensar só em mim.
Me arrastei para perto dela no sofá.
— Quero pedir desculpas. Sei que andei meio distante ultimamente.
— Tudo bem — ela disse. — Chorei por horas depois do naufrágio. Miaka disse que vou ficar mais forte, mas não sei. De qualquer forma, entendo como foi difícil para você tirar aquelas vidas. E a Água ainda te deu mais tempo logo agora que faltava pouco… Você merece um tempo para lidar com seus sentimentos.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
— Obrigada por entender. Mesmo assim, peço desculpas por não ter sido uma irmã melhor.
— Minha impressão é de que você segurou as pontas sozinha por décadas. Não te culpo. Só queria saber como ser uma sereia tão boa quanto as outras. Kahlen, você é a mais velha. Não sabe me dizer como esquecer? — ela implorou e, do nada, explodiu em lágrimas. — Não aguento mais esse peso. Por favor… Dói demais.
Eu a abracei bem apertado.
— Não sei o que dizer. Tudo vai sumir, prometo. Mas mesmo que, por algum motivo horrível, você continue presa a essas lembranças pelos próximos cem anos, no dia em que deixar de ser sereia elas vão desaparecer para sempre.
— Vão?
— Claro. Você acha que seria capaz de viver sabendo que a Água devora humanos? Que você passou um século ajudando a fazer isso? Tudo desaparece. É como se você tivesse três vidas: uma que você não faz ideia de como viver; uma em que você tem mais poder do que qualquer um é capaz de imaginar; e outra em que você tem um verdadeiro senso de identidade e a capacidade de ir atrás do que quiser.
Ela secou as lágrimas.
— É um consolo, ainda que pequeno. Mas está tão distante…
Abri um sorriso triste.
— Eu sei, mas não se preocupe. Suas lembranças logo vão embora. Juro. Não há motivo para permanecerem.
Ficamos em silêncio por um tempo enquanto ela absorvia tudo aquilo, mas eu podia ver que as lembranças ainda a atormentavam.
— Eu odeio meu pai, Kahlen — ela murmurou. — Ele me tratava como lixo. Ele tentou me matar. E a minha mãe cruzava os braços e deixava acontecer, então também a odeio.
— Você tem que desapegar. O ódio faz as lembranças permanecerem.
— E se não houver espaço para o amor? — perguntou baixinho, apoiando a cabeça sobre o meu ombro.
— Não seja boba — respondi ao passar um braço pelo ombro dela. — Sempre há espaço para o amor, nem que seja uma frestinha. Isso basta.


Duas semanas depois, um morador de rua atacou Elizabeth, que teve de cochichar em seu ouvido para tirá-lo de cima dela. O homem se jogou no rio Hudson. Ninguém quis mais ficar, e todas tiveram que juntar as coisas mais uma vez.
Menos eu. Daquele momento em diante, não carregaria mais nada.

7 comentários:

  1. Eu tomei um susto quando vi o nome Annabeth... pensei que estava lendo pjo

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  2. Adeus, Annabeth Levens e sua crença em trevos de quatro folhas.


    Annabeth? Manhattan?? So eu que viajei no mundo maravilhoso do meu irmao maravilhoso????

    Ass: filhafavoritadeposeidon

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    Respostas
    1. Falou tudo!Menos que e a filha favorita de Poseidon,porque eu quem sou!

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    2. nehuma das duas e sim o proprio percy jackson pois o proprio pai de vcs disse isso ;-)

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  3. Putz q comentarios loucoos kkkkkkk

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