12 de março de 2016

Capítulo 19

A VOZ DELA SOAVA ALTO EM MEUS OUVIDOS.
— Você não me respondeu! Suas irmãs ficaram preocupadas! O que andou fazendo?
Ignorei a Água e passei os braços pelo peito de Akinli. Seus olhos estavam abertos, mas desfocados.
— Deixe-o.
Continuei a puxá-lo.
— Não. Preciso levá-lo para a superfície — pensei em resposta.
— Ele ouviu a sua voz. Agora é meu.
Eu não conseguia puxar Akinli para cima. Havia uma tensão, como se uma corda o prendesse no fundo arenoso do mar.
— Eu imploro! Poupe-o!
— A morte dele dará vida a outros.
— Mas posso trazer mil vidas para você em troca da dele — prometi. — Por favor! Deixe-o viver. Por favor!
Eu conseguia sentir que Ela ainda segurava Akinli firme. Os olhos dele estavam fechados, e o meu tempo se esgotava. O tempo dele se esgotava.
Entre meu comportamento durante o último naufrágio e o risco de expor nosso segredo, eu sabia que já tinha ultrapassado os limites dEla. Eu nunca A desobedecera, nenhuma vez em oitenta e um anos. E pedia demais naquele momento. Não tinha dúvida de que, fosse qual fosse o final daquilo, um castigo estava à minha espera. Não me importei. Pela primeira vez – a única vez – precisava manter alguém vivo. Numa súplica sem palavras, abri todos os meus pensamentos a Ela.
A Água se calou, mas a tensão desapareceu de repente. Puxei Akinli com toda a minha força. Não o escutei resfolegar quando chegamos à superfície.
Temi que fosse tarde demais. Será que ele ainda respirava?
Ela não me ajudou a nadar como geralmente fazia, e foi difícil manter a cabeça de Akinli acima do nível do mar enquanto eu lutava para chegar à praia. Achava que meu corpo era impenetrável, forte, mas estava completamente fraca e exausta quando finalmente arrastei Akinli para a areia.
Soltei o garoto no chão, que caiu com mais força do que eu pretendia. Deixei escapar um grito quando a cabeça dele bateu na areia compacta. Se não estava morto, estava profundamente inconsciente, já que não esboçou qualquer reação.
Por favor, pensei. Por favor, esteja vivo.
Encostei o ouvido no peito dele e ouvi o som mais bonito do mundo: as batidas do coração de Akinli. Recuei um pouco e vi que ele respirava, embora seu único movimento fosse o leve subir e descer do peito.
Meu coração doía, uma dor física no peito. Akinli tinha perdido tantas coisas, ainda sofria com a morte dos pais. Eu odiava a ideia de abandoná-lo, sozinho e inconsciente, à sombra do lar que ele acabara de me oferecer. Mas eu precisava voltar.
Beijei sua bochecha molhada. Lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto.
— Sinto muito — murmurei entre o choro ao tocar o rosto dele pela última vez. — É tudo que posso fazer por você agora. Por favor, viva. Eu te amo.
Precisei de toda a força que me restava para sair do lado de Akinli e me jogar nas ondas.
A Água se enroscou violenta no meu braço e me puxou antes que eu pudesse pensar. Fixei o olhar nos barcos atracados em Port Clyde até eles não passarem de pontos no horizonte.


Esperei a morte. Ela me conduzia tão determinada que imaginei estar sendo levada a uma espécie de forca. Calada, confortava-me com a ideia de que as outras não veriam. Não queria ser outra Ifama gravada na memória de Miaka.
A Água me levou tão fundo que a ansiedade da morte era esmagadora. Na tentativa de afastar o pânico crescente, pensei em Akinli, na certeza de que ele acordaria e ficaria bem. Relembrei cada detalhe do nosso dia, desejando que a bondade dele fosse a última lembrança que eu levasse para o túmulo.
— É por isso que não escolho esposas. Você nunca mais me servirá adequadamente agora. E veja a sua dor! A sua paixãozinha causou isso.
Dava para sentir a raiva dela ao meu redor.
— Você pode me dar uma morte rápida, por favor? — pedi, começando a chorar. — Estou com medo.
— Não vou acabar com a sua vida. Não hoje.
Ela finalmente me soltou sobre o fundo negro do mar. Eu sabia que estava presa e indefesa. As correntes dEla jamais me deixariam subir à superfície. Teria que circular eternamente em Suas profundezas.
— Você quase expôs a si mesma e às suas irmãs duas vezes!
Me encolhi diante da raiva em Sua voz.
— Você fez a noiva que tanto queria proteger sofrer bem mais do que o necessário. Você parou de cantar, o que já é motivo suficiente para te matar.
— Eu sei, eu sei — reconheci, aterrorizada.
— Então vejo suas lembranças com aquele garoto… Seus pequenos devaneios, cada um dos riscos que assumiu ao longo do dia. Mil momentos em que deu motivos para desconfiarem de você. Muitas vezes você quase esqueceu quem era e falou. Você podia ter matado a todos.
Chorei abertamente ao pensar em Ben no fundo de uma banheira ou Julie se jogando debaixo da torneira da cozinha.
— E o pior: você tomou o que era meu por direito. Ele deveria ter morrido esta noite.
— Você disse que não vai me matar. É verdade? — perguntei, tomada pela tristeza, incapaz de processar tudo aquilo. — Quebrei suas regrasconheço o castigo. E, sinceramente, se tivesse que tomar Akinli de você cem vezes, eu tomaria. Compreendo o seu sofrimento, mas não sou seu remédio!
Minhas mãos tremiam. Minhas lágrimas misturavam-se ao sal dEla e sumiam.
— Temo passar os próximos dezenove anos decepcionando você. Não quero arriscar você ou minhas irmãs de novo, e não sei como suportar a dor da separação…
Cobri a boca, desolada diante da minha nova realidade. Era certo como o sol se pôr no oeste que Ela me manteria longe de Akinli até um de nós morrer.
— Sei das consequências do que fiz. Pode me matar se for necessário.
Houve um longo silêncio, e pude sentir a Água suavizar e demonstrar o estranho afeto que Ela dedicava a mim mais do que às outras.
— Você acha que me alegro com a morte?
Levantei a cabeça.
— O quê?
— Não fico feliz em punir vocês ou tirar vidas. Faço o necessário para sobreviver. E não só jamais me deleitaria com a sua morte como a lamentaria. Você deve saber o quanto é querida por mim.
Engoli em seco.
— Por que eu? Por que sou mais favorecida do que as outras?
Com muito carinho, a Água me ergueu da areia como se acalentasse um bebê. Visto que Ela era atemporal enquanto eu era temporária, a Água me considerava praticamente uma recém-nascida.
— Ao longo dos meus muitos, muitos anos, dentre todas as sereias que carreguei, nenhuma teve a consideração que você teve comigo. Havia um distanciamento, um isolamento deliberado entre nósMas você? Você veio até mim com doçura, tentou entender. Você vem até mim mesmo quando não é chamada. Sinto por você o que uma mãe sente por uma filha. Exterminar sua vida seria exterminar a minha.
Chorei de novo.
— Sinto muito. Nunca quis te magoar.
— Eu sei. E é por isso que você continuará viva. Mas você sabe tão bem quanto eu que não pode sair ilesa. Miaka e Elizabeth vivem no limite, e temo o que aconteceria com elas se pensassem que podem viver como quiserem.
Tremi. Havia verdade demais naquela frase.
— Entendo. Então o que vai acontecer agora?
Ela refletiu em busca de uma alternativa viável.
— Mais cinquenta anos.
— O quê?
— Acrescentarei mais cinquenta anos ao seu tempo.
— Não! — implorei. — Você não pode fazer isso!
— Não aguentaria matar você. Acabei de explicar o quanto é preciosa para mim. Seria tão terrível assim passarmos mais tempo juntas?
— Por favor, não! Não me faça viver mais setenta anos sem ele!
A voz dela saiu cheia de amargura.
— Ouça meu aviso. Esse rapaz deve ser banido dos seus pensamentos. Não quero acabar com a sua vida, e não gostaria de ter um motivo para acabar com a dele…
Ela deixou a frase pairar e me vi paralisada. A vida dele dependia da minha obediência.
Ele passava tanto tempo na Água…
— Não! Você não pode fazer isso! Não!
Fui impulsionada para cima enquanto Ela chamava minhas irmãs.
— Por favor, não faça isso!
— Você vai acabar aceitando — Ela garantiu. — É mais do que merece.
— Não consigo! — Meu espírito estava tão fraco. — Não consigo.
— Voltamos a falar em breve. Quando você estiver pronta.
— Por favor…
Ela me deixou numa praia pequena coberta de pedregulhos e entulho. Ao ver minhas mãos, o lodo na minha pele, me senti largada numa pilha de lixo. Era aquilo que eu tinha me tornado? Na verdade, a sensação era praticamente a mesma.

20 comentários:

  1. Bem feito,eu aviso,grito e ela não me ouve,fica aí chorando!

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  2. Achei bem feito. Ela saiu com o menino o que? 3 vezes?

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    1. É claro q a culpa é dela, só que não. Ela sofreu por 81 anos e agora que começa a ser feliz é punida por isso. Entendo que ela tinha seus deveres, mas acho que ela preferia morrer a viver mais 50 anos como sereia...

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  3. Vei coitada dela to chorando, minha garganta esta ardendo. Eh declaro o livro que eu mais chorei. (Titando A Mediadora)

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  4. A cada capítulo, a Água parece mais com a Gaia

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  5. "eu te amo" eu to gritandoooooooooooooooo
    Agua desgraça,te odeio
    af mano :c

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  6. pq ela n aceita ele tambem?
    :(

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  7. — Você pode me dar uma morte rápida, por favor? — pedi, começando a chorar. — Estou com medo.

    Chorei ' -'

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  8. E pecado odiá esse água?Porque eu ODEIO!

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    1. to pensando seriamente em jogar petroleo na água.

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    2. Não miga, faz isso naaao! Pense no meio ambiente

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  9. Mais 50 anos q dor no meu coração😱😢

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  10. Mesmo assim...Eu ainda gosto da Água. Gosto dela desde o começo!

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  11. Parando pra pensar é um preço justo pois a outra opçao é a morte do amor da vida dela, mas tbm viver longe de quem se ama é dificil aff sei la #confusa kk

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  12. eu odeio a agua
    agora a kahlen vai viver mais 50 anos sem o Akinlli ele pelo menos fez elaa feliz. Porque a agua nao deixou ele viver?
    Einjusto

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