12 de março de 2016

Capítulo 17

PEGUEI UMA COLHERADA GENEROSA do meu sorvete de menta com chocolate e fechei os olhos para saborear a doçura cremosa se espalhando pela minha língua.
— Eu avisei sobre o sorvete — Akinli disse. — Ouvi dizer que já fundaram religiões por causa disto aqui.
Além das lagostas, Akinli me dissera que a região também era famosa pelo sorvete. Logo vi por quê.
— Este sorvete era uma das coisas de que eu mais sentia saudade quando estava na faculdade. Assistir aos jogos com meu pai era outra. Quer dizer, eu podia assistir com qualquer um, mas era sempre mais divertido com ele. O cheiro da minha mãe… — Ele fez uma pausa e balançou a cabeça. — É estranho tudo o que está contido na sensação de estar em casa. E é estranho ter que mudar isso.
Quis gritar que sabia exatamente o que ele queria dizer. Que às vezes as coisas que nos davam a sensação de estar em casa nem eram coisas de que gostávamos. Que eu estava cansada da pele fria e do sal. Que tinha visto novas irmãs virem e irem embora ao longo das décadas, e isso tornava difícil prever como seria o futuro da nossa pequena família. Então era impossível ficar confortável por muito tempo em qualquer lugar.
— Como é a sua casa? — ele perguntou.
Revirei a memória, tentando encontrar um lugar onde eu realmente me sentisse em casa. Por mais tempo que tivéssemos passado numa região, por mais cidades que tivéssemos visitado, nenhum lugar fazia eu me sentir segura.
Dei de ombros e enfiei a colher no sorvete. Eu lembrava de muita coisa, mas lar não era algo que eu pudesse definir.
— Tudo bem se você não quiser falar sobre isso. Um dia você vai construir novas lembranças, um novo lar — ele disse de maneira triste, mas ao mesmo tempo reconfortante. — Nós dois vamos.
Não queria me deixar levar pela sinceridade na voz dele, pela generosidade do seu olhar que prometia que todos os cacos da minha vida seriam unidos novamente. Era difícil resistir, e acabei cedendo.
Eu observava aquele garoto despretensioso, sereno, e pensava que ele não fazia ideia do quanto era extraordinário. Você me passa tanta segurança, pensei.
— Então, há muitas outras lojas para visitarmos por aqui, ou podemos voltar para Port Clyde — Akinli disse, conferindo as horas no celular. — Ben deve estar quase terminando o trabalho, e Julie só tinha uma cliente.
Franzi a testa.
— Ela é cabeleireira e maquiadora. Não tem uma clientela gigantesca na cidade, mas está disposta a viajar e é boa no que faz. Quase sempre tem alguma cliente. Hoje era um casamento, e quando há outros eventos formais, tipo festas de boas-vindas e coisa assim, ela está sempre ocupada — Akinli explicou. Depois, mordeu a bochecha e fez uma careta. — Às vezes ela faz testes em Bem e em mim.
Sorri ao imaginar os dois de sombra e blush.
Akinli pegou o celular e passou o dedo na tela.
— Aqui era um tipo de máscara hidratante.
Ele me mostrou uma foto dele e de Ben com uma meleca verde espalhada no rosto. Ben estava com uma cerveja na mão, e Akinli com um copo de leite. Posaram brindando, fazendo careta.
Precisei tapar a boca para conter o riso.
— Considere isso um sinal do quanto confio em você. Ninguém nunca viu essa foto. Só guardei para o caso de precisar chantagear Ben algum dia.
Batuquei com os dedos na mesa; o tá-tá-tá era o mais perto que eu podia chegar de soltar uma gargalhada.
Ele riu do som, olhou a foto de novo e balançou a cabeça.
— Os dois são ótimos. Estaria perdido sem eles.
Apoiei a mão sobre a dele, comovida por seu lado humano, sua capacidade de cuidar dos outros apesar da própria dor e pela pontinha de sorriso que permanecia em seu rosto mesmo quando não havia motivos para sorrir.
Akinli virou a palma da mão para a minha e enlaçou os dedos nos meus. Em seguida, apoiou a cabeça na outra mão e me encarou nos olhos. Assumi a mesma postura e comecei a analisar aquele garoto inacreditável.
Os olhos dele eram tão azuis. Fiquei um pouco sem ar quando foquei neles.
Akinli acariciou as costas da minha mão com o polegar.
— Vamos, rainha do baile de formatura. Vamos voltar para casa.
Ele não soltou minha mão. Não soltou para jogar o lixo, nem quando segurou a porta para um casal de idosos que procurava uma sobremesa, nem quando a calçada ficou tão lotada que precisei me encolher atrás dele. Ainda podia ouvir a Água me chamando, e a ignorei.
A volta para Port Cly de pareceu longa. Akinli não ligou o rádio nem puxou conversa. Era como se nos estudássemos. Quanto mais ele me observava, mais eu sentia que ele imaginava que havia algo sobrenatural em mim. Quanto mais eu o observava, mais me perguntava se ele aguentaria ser exposto a mim, ao meu domínio, por mais tempo.
Passamos pela residência dos artistas, pelos turistas entrando na única pousada da cidade e pela doce sra. Jenkens, que permanecia na varanda com um bule de chá.
Quando chegamos à casa, outro carro e uma lambreta já estavam na garagem, o que me fez concluir que Ben e Julie também tinham chegado. Subimos os degraus da varanda; Akinli estava com um olhar abatido e as mãos no bolso.
Ao abrir a porta, deparamos com Ben abraçando Julie por trás, e ela se contorcia de tanto rir.
— Um beijo! — ele exigiu.
— Você está fedendo! — ela protestou, batendo nele com uma espátula.
— Mas eu te amo!
Senti vontade de chorar com a beleza daquele instante. Os casais eram como sereias: criavam a própria língua, os próprios sinais e os próprios mundos.
Akinli limpou a garganta para anunciar nossa presença.
— Ah, nossa! Você parece bem menos aterrorizante quando não está ensopada e vestida como a realeza — Ben disse, rindo e aproveitando a deixa para dar um beijo na bochecha da desprevenida Julie. — Vou pro banho. Vejo vocês num segundo.
Julie o seguiu com um olhar carinhoso antes de soltar um suspiro e se voltar para nós.
— Estão com fome?
Akinli estufou a barriga e a esfregou.
— Estou cheio de sorvete, e você?
Fiz o sinal de “o.k.”, um gesto que sabia que ele iria entender.
— Ótimo. Só vou terminar isso para o Ben — ela disse, acrescentando, com os olhos em mim: — Você fica melhor nas minhas roupas do que eu.
— Como foi hoje? — Akinli perguntou enquanto pegava um suco na geladeira.
Julie ficou radiante.
— Maravilhoso! Os casamentos são os melhores trabalhos. Bom, menos aquele no começo do ano — corrigiu.
Akinli se virou para mim.
— Uns meses atrás, uma noiva jogou uma taça de champanhe na Julie.
Encarei Julie com os olhos arregalados.
— Ainda não sei direito como isso aconteceu — ela disse, rindo. — Lembro vagamente que tinha a ver com um curvex, mas quando as coisas começaram a voar, guardei o que era meu e dei o fora.
— Então nada do tipo hoje? — Akinli perguntou a Julie, mas com os olhos em mim. Tentei não retribuir o olhar.
— Nada. Alegria em todos os sentidos. O casal feliz já deve ser marido e mulher a esta altura — ela comentou ao conferir o relógio. — Ben teve uma boa manhã também. E encheu o tanque do barco. Você — ela disse, apontando o garfo para Akinli — tem que parar de sair com ele à noite.
Akinli fechou a cara.
— O quê? Como assim?
— Essas voltinhas pesam.
— Certo. E se eu soltar as armadilhas quando sair?
— Se você sair.
— Ah, por favoooor — ele gemeu.
Julie riu, e tive a impressão de que ela cederia. Ben provavelmente seria um pouco mais difícil de convencer.
Naquele momento tão comum, me vi à beira de lágrimas. Era renovador simplesmente ter uma amostra do que era uma família de verdade. E aquela – desfeita, mas remendada – era melhor do que qualquer outra que eu pudesse imaginar.
Ir embora seria mais difícil do que eu pensara. Por muitos motivos.
Akinli voltou a me encarar. Sua intenção de descobrir meus segredos era clara como um cristal. Não sei quando ele deixou de desconfiar e começou a ter certeza de que algo não estava bem.
E ainda assim…
Ele passou o braço ao meu redor.
— Julie, você tem horário esta noite?
Ainda sorrindo, ela fez que sim.
— Por que a pergunta?
— Kahlen e eu decidimos ter o melhor dia de todos os tempos, e acho que ela precisa de uma noite fora. Você pode ajudar com isso?
Ela seguiu o olhar de Akinli até mim. Seja lá o que tenha visto no meu rosto, sua expressão refletia apenas simpatia.
— Com certeza.

13 comentários:

  1. Tão estranho ler e chegar no final não ver os comentários... Amo ler por aqui, gosto da reação dos que já leram. As vezes nenhum dos meus amigos estão lendo o mesmo livro que eu

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    1. Gosto gosto de ler os comentários, meus nunca leem os mesmos livros que eu então eu sinto que vocês são meus amigos 😊 Amo ler os comentários de vocês

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    2. Tbm amor ler por aqui por causa dos comentários *.*

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  2. Aiii me apaixonei... Sempre a Kiera pra fazer isso... 😍😍💕

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  3. espero que ela fique!!!!!!!

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  4. Tinha parado pra ler A Coroa,mas voltei!!

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  5. Gente Estou Amando esses Dois�� Mais já prevejo o final espero está enganada ��

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  6. Que cruel! Ela não pode nem rir? Cruzes.
    Já odeio a Água, pode me afogar se quiser, mas é a vdd sra!

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  7. estou cada dia mais amando esse livro :)

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  8. Nossa até q o dia mais feliz foi meio chato esperava mais..
    Agora so eu to achando q esse beijoo ta demorandoo

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