12 de março de 2016

Capítulo 16

JULIE HAVIA DEIXADO UMA CALÇA JEANS, uma camiseta e um cardigã para mim. Enquanto enxaguava a boca no banheiro, fiquei de frente para o espelho e me dei uma boa olhada. Meu cabelo tinha aquele leve ondulado da praia que algumas garotas tentavam fazer de maneira artificial; meus olhos eram brilhantes e cheios de expectativa. A condição de sereia parecia acentuar nossos melhores traços, mas naquele dia me achei naturalmente bonita. Me sentia jovem e maravilhosamente normal.
Desci a escada aos pulos e dei com Akinli sentado diante da TV, pronto para sair, vestindo calça jeans e camiseta de algodão. Notei que ele tinha se barbeado e prendido o cabelo num pequeno coque no topo da cabeça.
— Muito bem. Quer sair um pouco? Estou com a caminhonete — ele anunciou balançando as chaves.
Concordei entusiasmada. Não eram nem nove da manhã. Tínhamos o dia inteiro para nos divertir.
— Ainda não sabemos a causa ao certo — um âncora comentava na TV. — Podemos estar diante de um novo Triângulo das Bermudas.
Não consegui desviar os olhos das imagens dos escombros, das cadeiras de praia e das flores flutuando no mar.
— As equipes de resgate ainda têm esperança de encontrar sobreviventes, mas até o momento, não há ninguém para dar qualquer informação sobre o que aconteceu. De acordo com relatos, o navio se desviou do curso e percorreu vários quilômetros em linha reta até o local do acidente antes de tombar de repente. O tempo estava limpo e não há registros de pedidos de ajuda vindos do capitão ou dos tripulantes, então o naufrágio é realmente um mistério. Recebemos notícias de que alguns familiares estão publicando na internet fotos dos passageiros desaparecidos, mas com certeza a história mais comovente é a de Karen e Michael Samuels, que tinham acabado de se casar. Lamentamos a morte deles e de suas famílias e amigos, todos vítimas do naufrágio.
Arranquei o controle remoto da mão de Akinli e comecei a apertar os botões na tentativa de parar aquilo.
— Ei, ei, ei — ele disse, segurando minhas mãos. Segurei firme o controle enquanto ele virava para a TV e a desligava.
Minha respiração estava irregular. Normalmente eu teria achado aquela informação útil, algo que eu poderia escrever na minha caderneta. Mas era demais ver uma fotografia de Karen e Michael se beijando com os amigos comemorando ao fundo, vidas perdidas porque queriam estar ao lado do casal.
— Você está bem?
Engoli em seco.
Akinli me encarou. Meus olhos permaneciam fixos no aparelho desligado.
— Às vezes também acho difícil assistir ao noticiário. Há muito mal no mundo.
Fiz que sim.
— Mas quer saber de uma coisa? Isso nem aconteceu hoje. Aconteceu ontem. E hoje vai ser o melhor dia de todos, lembra?
Deixei a tensão abandonar meu corpo. O controle remoto saiu da minha mão e passou para a de Akinli. Ele tinha razão. Tinha apenas um dia, e eu jamais o teria de novo. Precisava afastar a tristeza ao menos uma vez. Não podia mudar o que tinha acontecido, mas podia escolher aproveitar aquele dia.
Fiz o sinal de “obrigada”.
— Hum, de nada? — ele chutou.
Eu sorri, assentindo, grata pela presença dele.
— Vamos, rainha do baile de formatura. Você não pode ter o melhor dia de todos os tempos se não entrar na melhor caminhonete de todos os tempos.
Sempre cavalheiro, ele me acompanhou até o lado do passageiro e abriu a porta para mim. No sul, abril era sinônimo de “preparem-se para usar shorts”, mas no Maine o inverno ainda pairava no ar. Uma fresta na janela nos proporcionava uma brisa maravilhosa durante o trajeto pela cidade.
— Bom dia, sra. Jenkens — Akinli saudou quando passamos por uma mulher sentada na varanda.
Ele cumprimentava ou acenava para quase todo mundo com quem cruzávamos pelo caminho. Parecia ser amigo de toda a cidadezinha, e essa energia melhorou meu ânimo. Contemplei a paisagem com uma fascinação renovada. Tinha passado muito tempo em cidades grandes ao longo dos últimos anos, e não estava acostumada com quintais de grama alta ou com terrenos vazios que davam para a praia. A tinta era sempre fosca, e eu não sabia se tinha sido uma escolha ou se o sol a desgastara com o tempo.
— Alguma coisa aqui parece familiar? — ele me perguntou enquanto dirigia devagar por uma estrada longa e levemente sinuosa. — Qualquer coisa que faça você se lembrar de como veio parar aqui?
Passamos por uma igreja e por casas com decorações de metal no jardim. Barcos encalhados em bancos de areia esperavam que a maré alta os resgatasse. Notei vários anúncios de lagostas, como se ninguém soubesse onde encontrá-las.
Fiz que não com a cabeça. Era verdade. Eu jamais tinha visto aquela cidade na vida.
Ele balançou a cabeça.
— Você deve ter sido trazida pelas ondas então. É a única maneira de chegar a Port Clyde. Ontem foi um dia difícil no mar.
Fiz que não. Ele não fazia ideia.
Ele murmurava a melodia da música no rádio, soltando em voz alta algum trecho da letra de vez em quando, envergonhando-se logo em seguida.
— Nunca fui um bom cantor. Minha mãe que era boa.
Ele apontou para a beira da estrada. Duas pequenas cruzes de madeira estavam perto de uma árvore cuja casca machucada ainda estava fechando. Pensei que se eu tivesse que passar pelo local do meu naufrágio sempre que quisesse ir a algum lugar, meu coração encolheria. Mas Akinli sorriu como se ali estivesse um lembrete de que os dois viveram, não de que morreram.
Ele beijou rapidamente o indicador e o dedo do meio duas vezes e soprou, dando um simples “olá”. Enquanto passávamos pelo local, ele continuou animado, como se carregasse os pais consigo.
Quando finalmente chegamos ao fim da estrada, Akinli virou à direita. Por um minuto pensei que seguiríamos por mais uma estrada rural. Mas os sinais de civilização começaram a aparecer aos poucos: uma franquia de fast-food, uma loja de materiais de construção, um posto de gasolina iluminado com neon. Seguimos e seguimos até a estrada fazer um retorno e eu avistar a Água parada em mais uma baía. Eu ainda podia ouvi-La me chamar, uma súplica constante e suave, e me esforcei para ignorar. Eu voltaria para Ela logo. Por enquanto, acompanharia Akinli: o dia pertencia a nós.
Estacionamos. Virei para Akinli e ele respondeu à pergunta no meu olhar:
— Estamos em Rockland. É a maior cidade da região.
Quis descer da caminhonete antes que Akinli chegasse à minha porta, mas ele apareceu rápido do meu lado.
— Não é muito grande, mas é maior que Port Clyde. Pensei que a gente podia dar uma olhada.
Fiz o sinal de “sim” e ele o imitou.
— Já sei três sinais até agora. Acho que cedo ou tarde você vai precisar me dar umas aulas.
Assenti. Eu era a favor de qualquer coisa que permitisse nos comunicarmos.
— Então, aquilo ali é uma joalheria, ali tem uma sorveteria… Essa sorveteria só abre daqui a algumas horas, mas é boa demais. Com certeza vamos lá. Hum, os livros são por ali.
Bati palmas.
— Boa escolha. Vamos.
Era um dia de semana e as ruas estavam praticamente vazias. Eu já tinha ouvido pessoas relembrarem com saudade o charme das avenidas centrais das cidades pequenas. Naquele momento, passei a entender o fascínio delas. Havia um senso de intimidade, de previsibilidade. Eu apostava que aquela mesma avenida era palco de festivais, feiras de rua e desfiles de Natal.
Caminhei sonhadora até a livraria; só voltava à realidade quando meus dedos roçavam nos de Akinli sem querer.
Ele não dizia nada, mas ria um pouco.
— É aqui.
Um balconista simpático nos cumprimentou quando entramos. Diferente das livrarias enormes e enceradas das grandes cidades, aquela era bem rústica. Uma mistura de decorações preenchia as paredes, dando um ar íntimo e peculiar.
Instantaneamente comecei a correr os dedos pelas lombadas nas prateleiras, já apaixonada por cada um dos títulos. Os livros eram um porto seguro, um mundo separado do meu. Não importava o que acontecesse naquele dia, naquele ano, sempre existia uma história de alguém que havia superado seu momento mais sombrio. Eu não estava só.
Não demorou muito para que eu encontrasse o destaque da loja: a seção de livros infantis. Lá havia uma casinha com dois travesseiros dentro, e um dos lados do teto funcionava como prateleira. Uma escrivaninha estava encostada do lado de fora, com uma caixa de correio onde as crianças podiam deixar e pegar cartas. Havia ainda uns cubos de plástico com palavras diferentes em cada face que serviam para compor poemas.
— Minha rainha! Seu palácio a espera! — Akinli cochichou, fazendo um gesto pomposo em direção à casinha.
Entrei engatinhando e tive que abaixar a cabeça para passar pela porta.
Ajeitei um punhado dos livros espalhados no colo e Akinli pegou os cubos de palavras.
Ficamos espremidos naquele espaço limitado, e o calor dele irradiava para o meu corpo. Folheei histórias de piratas, vegetais zangados e aprendizes de bailarinas. Akinli girou os blocos nas mãos e começou a rir das opções.
Ele juntou quatro cubos no meu colo que formavam “o azul é excelente”. Fiz um sinal positivo para ele e formei “cheire este céu”.
Ele respirou fundo.
— Este céu é bom — comentou, voltando a revirar os cubos. — Você acha que as crianças sabem o que significa “melódico”?
Fiz que sim. Oitenta anos de observação à distância tinham sido tempo suficiente para eu descobrir que as crianças eram mais inteligentes do que as pessoas imaginavam.
— Nunca tinha pensado em como as palavras são curiosas. Tipo, a gente escreve e fala, mas quantas línguas existem no mundo? E ainda tem o braile. E a língua de sinais. É bem impressionante.
Concordei. Palavras, sons, comunicação. Meu mundo girava ao redor dessas questões. Delas e da Água.
— Você é fluente em língua de sinais, certo?
Fiz que sim com a cabeça.
Ele recuou um pouquinho para conseguir me observar.
— Conte uma história. Tipo, com sinais. Conte a história mais verdadeira que você conhece.
O rosto de Akinli estava repleto de expectativa e alegria. Olhei pensativa para o teto. Ele não ia entender nada mesmo… Então, na língua de sinais, disse:
— Tenho três irmãs: Miaka, Elizabeth e Padma. A Água é minha mãe, e briguei com ela. Isso é tudo o que lembro sobre mim. Sei que costumava haver mais, mas esqueci. No total, já vivi cem anos. Lembro de coisas estranhas, como as paredes do barco, e esqueço completamente de outras; nem sei se tive uma melhor amiga. Às vezes não sei mais pelo que vale a pena viver. Tento decorar as vidas que ajudei a tirar, mas não sei se isso me faz bem. E tento cuidar das minhas irmãs, mas acho que só isso não é o suficiente. Acho que ninguém seria capaz de existir por outra pessoa durante uma vida inteira.
Fiz uma pausa.
— Mas talvez seja possível. Quando se encontra a pessoa certa. Neste momento, estou pensando em viver por você. Só que você nunca, jamais iria saber.
Me esforcei para sustentar o sorriso no rosto. Não importava o que acontecesse, tinha decidido que aquele seria um dia bom.
— Tirando a parte em que você apontou pra mim, não entendi nada… mas foi bem bonito. Você me deixou com vontade de aprender — ele disse, levantando dois dedos. — É a segunda vez que você me inspira.
Franzi a testa, tentando lembrar o que poderia ter feito ou dito para inspirá-lo.
— Lembra quando a gente estava na Flórida e você disse que eu devia fazer serviço social? Pesquisei a área. Havia toneladas de coisas que pareciam perfeitas para mim. Adoro crianças. Seria capaz de ajudá-las.
Fiz o sinal de “sim” várias vezes.
— Intuitiva. — Ele apontou para mim. — É isso o que você é.
Em seguida, ele começou a brincar com os blocos de novo, como se procurasse uma palavra específica. Peguei outro livro e permanecemos sentados ali, no silêncio mais feliz que já vivenciei.
Quando chegou a hora de ir embora, compramos o último livro que li. No caminho para a sorveteria, nossas mãos roçaram de novo.
Dessa vez, nenhum de nós se retraiu.

11 comentários:

  1. Assim é o amor. A cada capitulo estou amando!
    Ass: Bina.

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  2. imagina quando ele aprender a linguagem de sinais? sera q ele ia lembrar oq ela falou?
    "estou pensando em viver por você. Só que você nunca, jamais iria saber." isso foi tão lindo e triste

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  3. Só eu que fiquei lendo e mexendo as mãos fingindo estar falando em línguas de sinais ? Kkkkkk

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  4. " Ele apontou para a beira da estrada. Duas pequenas cruzes de madeira estavam perto de uma árvore cuja casca machucada ainda estava fechando. Pensei que se eu tivesse que passar pelo local do meu naufrágio sempre que quisesse ir a algum lugar, meu coração encolheria. Mas Akinli sorriu como se ali estivesse um lembrete de que os dois viveram, não de que morreram.
    Ele beijou rapidamente o indicador e o dedo do meio duas vezes e soprou, dando um simples “olá”. Enquanto passávamos pelo local, ele continuou animado, como se carregasse os pais consigo."

    A parte mais linda! Não vou me esquecer dessa cena, eu sei disso.

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  5. Amor tá rolando amor encontro de metades da sereia e o pescador.
    Casal lindo o shippando muito

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  6. Se ele aprender a ligua dos sinais ele vai saber de tudoo claro se ele se lembra com detalhe dos gesto q ela fez

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