12 de março de 2016

Capítulo 14

EU NÃO TINHA ESCOLHIDO CONSCIENTEMENTE MEU DESTINO, mas de algum modo minha fuga desesperada para longe das minhas irmãs e da culpa me levara até lá – Port Clyde, no litoral do Maine. O lugar onde desejara estar, onde parecera impossível que eu pudesse chegar.
Akinli emergiu das sombras do farol e passou a me examinar com um olhar chocado e cansado ao mesmo tempo. Fazia apenas uns seis meses que eu o vira pela última vez, mas ele tinha mudado muito. O cabelo bagunçado estava quase chegando aos ombros, e ele tinha uma barba por fazer no queixo. A calça cáqui fora trocada por um jeans esfarrapado, e seus olhos carregavam uma tristeza quase tão pesada quanto a minha.
— Você está bem?
Será que eu não deveria fazer a mesma pergunta para você?
Fiz que não com a cabeça. Nunca tinha me sentido tão mal.
Pasmo, ele ajoelhou diante de mim como se tentasse compreender minha presença ali. Ele correu as mãos pelos meus braços à procura de ferimentos. Por mais infeliz que eu estivesse, a preocupação dele fez com que eu me sentisse minimamente melhor.
— Você está ensopada. Caiu de um barco ou algo assim? Por favor, me diga que você não resolveu nadar num vestido de formatura.
Fiz que não com a cabeça de novo.
— Parece que você não está sangrando. Acha que quebrou algum osso?
Não.
— Como você veio parar aqui? Não consigo entender, eu… — ele continuou a me observar. — Nem sei o que perguntar agora. Eu… Você tem algum lugar para ir?
Não.
Ele enfiou os dedos agitados na grama enquanto tomava uma decisão.
— Tudo bem, venha comigo.
Akinli levantou e me estendeu a mão.
Observei suas unhas crescidas, a terra ainda grudada nelas. Eu não devia estar perto daquele garoto. Tinha acabado de cometer um ato tão hediondo que, se pudesse usar minha voz, choraria por dias. Estava isolada das minhas irmãs, afastada da Água. E eu era tão, tão letal.
Mas o que mais poderia fazer? Dispensá-lo e dizer que estava bem quando era claro que alguma coisa tinha acontecido? Pular na Água, embora não suportasse ficar perto dEla agora?
Eu poderia ficar por uma noite. Assim que estivesse instalada, pensaria num plano. Então pus a minha mão fria na dele e o deixei me conduzir.


Examinei Akinli enquanto caminhávamos. A mão dele nas minhas costas me guiava até a sua casa, e o toque da sua palma cheia de calos era áspero, sinal de que ele não estava mais manejando livros, mas algo muito mais bruto. Ele parecia desgastado, pesado. Por que ainda estava aqui? Ele já devia estar na faculdade.
— A noite está bonita. Você não podia ter escolhido uma melhor para se perder. Quer dizer, olha só a lua. Noite perfeita para se perder, não acha?
Não consegui conter o sorriso. Era como se não tivéssemos passado tanto tempo afastados, como se eu não o tivesse abandonado com tanta frieza e desaparecido sem dizer nada.
— Pensei muito em você — ele continuou, sem me encarar. — Fiquei muito preocupado quando desapareceu. — Ele engoliu em seco. — Tentei te encontrar, mas só sabia seu primeiro nome. A faculdade não tinha registro de nenhuma aluna chamada Kahlen e não te achei na internet. Era como se jamais tivesse existido. Ainda assim, aqui está você.
Meu corpo foi tomado pelo pânico, meu peito ficou apertado. Como eu seria capaz de explicar tudo sem criar um poço de mentiras no qual eu acabaria caindo inevitavelmente? Respirei fundo, tentando não perder o controle. Será que deveria apenas sair correndo? Se desaparecesse de novo, podia garantir que ele nunca mais me encontrasse.
Ele me observou de cima a baixo. O que será que sabia? No que estaria pensando? Sem dúvida, a verdade era absurda demais para ele cogitar. Mas eu sentia que ele tentava juntar as peças do quebra-cabeça da minha história e nenhuma delas encaixava.
Ele finalmente voltou a falar, num tom baixo e um pouco melancólico:
— Fiquei torcendo para você voltar à biblioteca.
Baixei os olhos e juntei as mãos num gesto de súplica, na tentativa de fazê-lo ver como eu sentia muito e como não quis magoá-lo.
— Tudo bem — ele disse mais animado. — Não estava irritado. Só preocupado. É bom saber que você não está machucada. Bom… Espero que não esteja. Vamos.
Fomos até um sobrado azul-pálido com persianas pretas. De um lado, parecia que os únicos vizinhos já tinham encerrado o expediente e a luz da TV oscilava contra as cortinas. Do outro, o terreno e a estrada faziam uma curva.
Dava para ouvir o som das ondas quebrando na praia ali perto.
— Foi difícil não ter você por perto, mas não a culpo pelo sumiço. Eu mesmo sumi não muito tempo depois.
Olhei para ele, confusa. O que poderia ter acontecido? Subimos os degraus da varanda, e ele passou a mão no rosto como que para afastar a tristeza.
— Julie? — ele chamou ao abrir a porta. — Você pode fazer um café? Temos companhia. — Ele se voltou para mim. — Julie é a esposa do meu primo. Era socorrista voluntária na faculdade, então você está em boas mãos.
O primeiro cômodo da casa era a cozinha, e eu não sabia muito bem o que Julie esperava ver quando dobrasse a esquina da sala de estar, mas ela parou assim que deparou comigo.
— Hum… oi — ela me cumprimentou e logo encarou Akinli. — Quem é ela?
— É a Kahlen, que conheço da faculdade. Eu a encontrei na praia perto do farol. Ela, hum, não fala.
Julie apontou para o meu vestido.
— Você a encontrou assim?
— É.
O treinamento dela entrou em ação num instante, e ela começou a tocar meus braços e a examinar minhas pupilas.
— Ela está congelando. Pode estar em choque. Vou correr lá em cima e pegar uns cobertores. Ben! Vem aqui! — ela gritou enquanto disparava pelos degraus.


Akinli me fez sentar numa cadeira gasta na sala. Depois, abriu um armário, jogou um edredom em cima de mim, voltou para a cozinha e revirou uma gaveta. Por fim, voltou com uma caneta e um papel.
— Aqui. Você pode me contar o que aconteceu?
Encarei o papel boquiaberta, imaginando se alguma resposta podia surgir para mim num passe de mágica. Por fim, escrevi: Não sei.
— Não sabe ou não sabe como dizer?
Chacoalhei a mão para sinalizar que era um pouco dos dois.
— Tudo bem. Quer que eu ligue para alguém? Família, amigos?
Fiz que não com a cabeça.
— Ninguém?
Baixei o olhar. Minha situação era bem complicada. Como explicar que ninguém estava à minha procura porque a minha única família era um bando de sereias que sabiam que eu não podia arrumar mais problemas do que já tinha?
Bem naquele momento, Julie reapareceu com Ben. Reconheci-o na hora das fotos no dormitório de Akinli. Ele tinha o mesmo queixo e os mesmos olhos, que usou para me analisar, e sua expressão confusa era tão cômica quanto a da esposa.
— Cara, o que está acontecendo? — ele perguntou a Akinli.
— Eu não fiz nada! Só a encontrei. Estou tentando descobrir um jeito de levá-la para casa, mas parece que ela não lembra de muita coisa. E ela é muda, o que complica um pouco as coisas.
Julie pôs a mão nos ombros de Ben.
— Talvez devêssemos avisar a polícia. Com certeza alguém está procurando por ela.
Balancei a cabeça com força e bati no papel para chamar a atenção deles.
Escrevi: NÃOSem polícia. Estou bem.
Dirigi um olhar de súplica para Julie; já tinha percebido que ela exercia o papel de mãe na casa. Por sorte, ela arregalou os olhos para demonstrar sua simpatia.
— O que podemos fazer para ajudar? — perguntou. — Se não podemos chamar a polícia, podemos te levar para algum lugar? Um hospital?
Vou ficar bem, escrevi. Só estou meio perdida por enquanto.
Fechei as mãos, pensativa, enquanto Julie lia o que eu tinha escrito. Eu sabia o que queria, mas não sabia como pedir. Akinli voltou, distribuiu as xícaras de café e depois começou a ler minha resposta por cima do ombro de Julie.
— E se ela ficasse com a gente? — Akinli perguntou.
Julie levantou o olhar para ele, atônita, e Ben franziu a testa.
— Não sei se é uma boa ideia — ele sussurrou, como se minha mudez também me tornasse surda. — Não fico muito confortável com uma estranha em casa.
— Mas ela não é estranha — Akinli disse. — Eu falei para Julie. A gente se conhece da faculdade. Olha, eu até… — Ele pegou o celular e começou a batucar na tela. — Viu? Esta aqui é ela.
Quase tinha me esquecido da foto que mandara para ele, aconchegada e meio escondida na cama.
Ben fez uma careta, concordando que se tratava da mesma garota. Enquanto o ceticismo dele ainda era evidente, Julie amoleceu.
— Tem certeza de que vai ficar bem aqui? — ela me perguntou. — Não tem outro lugar em que você deveria estar?
Me sentia incrivelmente constrangida por me convidar para ficar na casa deles, mas não via outra opção àquela altura. Não podia sair andando no meio da noite como se nada tivesse acontecido, e não podia deixar que eles me entregassem para um policial ou paramédico.
E era altamente improvável que eu tivesse a chance de passar uma noite sob o mesmo teto que Akinli de novo.
Fiz que não com a cabeça. Gostaria de ficar, se vocês não se importarem. Só por uma noite.
Ela franziu a testa de preocupação, claramente apreensiva, mas assentiu.
— Se isso é tudo que podemos fazer por você…
Me senti frágil e vulnerável, assombrada pelo que tinha feito no mar, mas olhei para Akinli e sorri.


Depois de uma discussão sobre onde eu ficaria, Julie decidiu que era melhor eu dormir no quarto de hóspedes e tratou de preparar o sofá-cama e me trazer um pijama. Fiquei grata por vestir algo que não tivesse sido feito pela Água, embora a roupa fosse um pouco grande.
— Tem mais cobertor no armário se você precisar. É primavera, mas pode fazer frio por aqui. Não sei se você é da Flórida ou não, mas… enfim, é isso. — Julie gaguejou e preencheu o silêncio desconfortável com palavras. — Também deixei um copo e uma escova de dentes nova pra você no banheiro de baixo. Se precisar de mais alguma coisa, é só me avisar.
Fiz que sim com a cabeça, grata pela bondade dela. O melhor favor que Julie me fez foi me dar tempo, mas o fato de ela pensar em dezenas de outros detalhes me fez gostar muito dela. Ela assentiu e pôs as mãos na cintura.
— É meio estranho, né? — ela comentou, gesticulando para nós e depois para o quarto.
Abri um sorriso constrangido e concordei.
— Bom, estranhezas à parte, pode ficar aqui o quanto precisar. Qualquer amigo de Akinli é nosso amigo também. E não vimos muitos ultimamente — ela reconheceu, triste. — Então você é uma mudança bem-vinda.
Julie sorriu, e tive a sensação de que nós estávamos do mesmo lado, pelo menos por enquanto, o que me fez gostar ainda mais dela.
— Vou deixar você se preparar para dormir. Boa noite.
Quando ela fechou a porta, olhei pela janela ampla que dava para a Água. Ela estava me chamando.
— Onde você está? Você está bem?
Revirei os olhos. Não era como se eu fosse morrer. Ela sabia disso. Então A ignorei e vesti o pijama de Julie, dobrando as pernas da calça.
Saí do quarto e dei com Akinli no sofá, também de pijama. Fiquei tão feliz por vê-lo à minha espera.
— Ei! — ele disse, levantando. — Tem comida se você quiser.
Fiz o sinal de “não”, esquecendo que ele não sabia a língua de sinais. Mas ele lembrou do gesto do nosso encontro e continuou.
— O.k. Quer ver um pouco de TV? Se estiver cansada, pode ir direto pra cama, mas acho que eu vou ficar um tempo aqui.
À luz do abajur, notei sombras sob os olhos de Akinli. Ele parecia bem mais velho do que seis meses antes, mas a mesma solidariedade terna brilhava em seu olhar.
Eu não podia ficar, lembrei a mim mesma. Eu teria que partir pela manhã, voltar para minhas irmãs. Aquele seria meu último dia com ele. Eu não queria ir para a cama; queria passar cada momento que pudesse ao lado de Akinli. Talvez eu pudesse fingir, ao menos por aquela noite.
Assenti, e sentamos juntos no sofá. Me encolhi no canto, abraçando os joelhos; a intenção era esconder meu corpo, já que me sentia insegura demais com as roupas de Julie. Akinli entendeu errado e achou que eu estava com frio. Ele pegou um cobertor de trás do sofá e o estendeu sobre mim. Mal se deu conta do que tinha acabado de fazer, apenas ajeitou o cobertor e pegou o controle remoto para aumentar o volume.
O canal com certeza era focado em esportes, e a competição do momento envolvia homens gigantes em roupas apertadas.
Akinli notou minha expressão confusa e riu.
— É um concurso de força. Morro de rir com isso.
Assistimos aos homens carregarem geladeiras, erguerem pedras enormes e virarem pneus gigantes em corridas estranhas. Boquiaberta, eu observava as provas ficarem cada vez mais bizarras. Quando vi um homem empurrar uma carreta completamente parada até ela começar a se mover, já estava apontando para a tela, sacudindo o dedo como louca. Eu não conseguia acreditar que um humano pudesse ser tão forte!
— Eu sei, eu sei! — ele exclamou. — É loucura!
Concordei, com um sorriso bobo no rosto. Assistir TV nunca tinha sido tão normal.
Depois de algumas provas, Akinli baixou o som. Parecia nervoso e, dividindo os olhos entre mim e o aparelho, começou com as perguntas.
— Você passou bem? Desde outubro?
Ele me entregou o papel e a caneta de novo, mas a resposta era uma daquelas coisas que não podiam ser traduzidas em palavras.
Balancei a cabeça para os lados na tentativa de dizer um “mais ou menos”.
— Fiquei nervoso quando você sumiu que nem um fantasma — ele explicou, abrindo os dedos de repente como se eu fosse um lampejo de fumaça.
Mais uma vez, eu não tinha o que comentar. Akinli se ajeitou no sofá e por fim se virou o máximo possível para me encarar.
— Tudo bem, sei que você está, tipo, presa aqui esta noite, então talvez seja injusto perguntar, mas preciso saber. Fiz alguma coisa de errado?
Fiz um não convicto com a cabeça.
— Tem certeza? Porque pensei que a gente estava tendo uma noite ótima, e então você sumiu, e repeti aquele encontro várias vezes na cabeça tentando entender o que eu tinha feito.
Soltei um suspiro e ajeitei o bloco de papel na mão. A caneta pendia no ar enquanto eu considerava minhas palavras.
Com certeza não foi você.
Ele franziu a testa.
— Então outra pessoa incomodou você? Sei que era um bando de loucos, mas…
Fiz que não de novo e apontei a caneta para o meu peito.
— Você simplesmente tinha que ir?
Fiz que sim, um pouco envergonhada.
Ele franziu a testa de novo.
— Então foi só você? Ninguém te obrigou a ir?
Engoli em seco. As regras da Água foram o motivo, e a natureza profundamente possessiva dEla não saía da minha cabeça, mas tinha sido ideia minha. Certo?
Depois de um momento de reflexão, ele apertou os lábios, como se armazenasse a informação.
— Sabe, tem outra coisa — ele disse em tom solene. — Você não me falou qual é a sua cor favorita antes de ir embora.
Abri um sorriso e balancei a cabeça com a pergunta boba.
Muitas, mas principalmente a cor do outono.
— A cor do outono… — ele repetiu devagar. — Tipo, quando parece que tudo está em chamas.
Só que tudo está morrendo! A morte nunca pareceu tão bela.
Ele riu baixo.
— Ótimo argumento. Já eu prefiro um bom azul. Talvez por ter crescido perto da água. Que mais? Ah, comida favorita?
Fiz uma careta. Bolo, óbvio.
— Ah, não acredito que não percebi! Aliás, uns meses atrás eu estava numa loja e vi como essência de amêndoas é caro. Devíamos ter cobrado pelas fatias!
Que nada! Fiquei feliz por compartilhar.
— Bom, talvez não devêssemos ter sido tão generosos. O pessoal ficou me enchendo o saco pedindo mais comida até o dia em que saí de lá. Isso só pra você saber que partiu o coração de todo o segundo andar da residência Jabbison Hall. Ficaram desolados com a perda do bolo.
Eu gostava do tom de brincadeira de Akinli. Meu medo era de que ele estivesse com raiva ou amargurado. Saber que ele praticamente só sentiu preocupação tornava fácil ficar ao lado dele de novo. Fácil demais.
— Ah, aqui vai uma boa. Acho que diz muito sobre uma pessoa. Cheiro favorito?
Pensei por um instante.
— Respondo primeiro, se você quiser. Eu adoro o cheiro de grama recém-cortada. — Levantei os dois polegares para ele pela boa escolha. — Ouvi dizer que o cheiro é na verdade uma tentativa de a grama avisar que está em apuros, o que me deixa um pouco triste, mas continua sendo muito bom.
Peguei o papel. E o que isso diz sobre você? Gosta do ar livre? Anseia por liberdade? Corta grama de bom grado?
Ele riu.
— Todas as anteriores. E você?
Passei para a próxima página do bloco. Só quando comecei a escrever me dei conta de que aquela lembrança tinha permanecido comigo. Foi como um presente especial depois de tanto tempo.
Flores. Não importa quais flores. Minha mãe gostava de ter flores frescas em casa.
— Nenhuma específica? Qualquer flor mesmo?
Fiz que sim.
O sorriso de Akinli se desfez quando ele leu a página pela segunda vez.
— Espera aí. “Gostava”? Ela não gosta mais?
Fechei os olhos, consciente do meu deslize. Não tinha a intenção de que ele soubesse daquilo.
— Sua mãe faleceu?
Baixei a cabeça para não cair na tentação de mentir e fiz que sim.
— E seu pai?
Fiz que sim novamente.
— Como? — ele sussurrou, quase como se tivesse medo de perguntar.
Me senti entorpecida ao lembrar do tapete e da minha mãe se olhando no espelho enquanto o navio virava.
Afogados.
Eu preferia pensar naquilo como um acidente, embora imagens do assassinato pelas mãos da Água ou do suicídio dos dois fossem as primeiras a me saltar na memória.
Ele deixou escapar uma espécie de suspiro, quase uma risada.
— Que loucura.
Houve uma longa pausa. Ele permaneceu sentado, olhando para tudo na sala, menos para mim.
— Umas semanas depois de você ir embora, recebi uma ligação da minha mãe. O que, como você sabe, não era surpresa, já que ela telefonava todo dia. Mas logo que ela disse “alô” percebi que alguma coisa não estava bem. — Ele fez uma pausa, engoliu em seco e começou a brincar com um fio solto do sofá. — Ela estava com câncer. Era bem grave, e eu quis voltar para casa na hora. Eles queriam que eu terminasse o ano, então chegamos a um meio-termo e voltei para as festas de fim de ano. Depois do Ano-Novo, meu pai insistiu para eu voltar para a faculdade. Eu não tinha muita certeza se conseguiria, por medo do que podia acontecer com a minha mãe. Não queria deixar meu pai sozinho, sabe?
Ele levantou o olhar para mim e eu acenei de leve com a cabeça. Eu sabia. Eu sabia como era ficar.
— Era para eu ter estado com eles — Akinli disse. Foi a única frase que conseguiu pronunciar antes de desviar o olhar de novo. — Minha mãe tinha uma consulta médica e meu pai ia levá-la. Era para eu ter ido também, mas minha mãe… Nunca vou esquecer. Ela me pediu para ficar. Toda vez que eu tentava discutir o assunto, ela insistia para eu ficar. Às vezes me pergunto se ela pressentia.
Ele encarou o nada, atormentado.
— Estava chovendo — ele continuou. — Às vezes as ruas aqui alagam quando a chuva é forte. A polícia não sabe ao certo se meu pai viu um alce ou se passou num buraco, mas ele bateu de frente com uma árvore.
Levei a mão à boca. Meus olhos marejavam.
— Estava me preparando para perder minha mãe, mas os dois de uma só vez… Não estava pronto pra isso.
Avancei um pouco pelo sofá e sentei mais perto dele.
Eu também deveria ter estado com os meus pais, escrevi.
Ele franziu a testa.
— Você quase se afogou?
Fiz que sim.
Ele soltou um suspiro.
— Parece que quase se afogou de novo esta noite. — Ele secou uma lágrima no canto do meu olho. — Parece que a água não é sua amiga.
Tentei controlar minha expressão. Não queria revelar que a Água era muito mais do que isso e ao mesmo tempo muito menos.
Estávamos entrando num terreno perigoso, no qual eu não poderia guardar meus segredos. E Akinli parecia incrivelmente cansado. Me senti culpada por mantê-lo acordado. Assim, apontei para o relógio, para mim e para o quarto, e o liberei.
— É, você deve estar certa — ele disse, apesar de estar tão hesitante quanto eu com a separação.
Atravessei a sala até o quarto de hóspedes e ouvi Akinli levantar quando cheguei à porta.
— Você vai ficar bem sozinha? Posso sentar lá com você se você quiser. Sei que a noite foi louca.
Ele tirou o cabelo comprido do rosto e olhei bem para os seus lindos olhos azuis. Já tinha sido bem difícil me convencer a parar de gostar dele seis meses antes. Mas naquele momento, vendo Akinli de um jeito tão familiar, tão à vontade, tão humano… era quase impossível pensar em sair pela porta no dia seguinte.
Mas, claro, eu teria que fazer isso. E, cedo ou tarde, teria que voltar à Água.
Ainda devia dezenove anos a Ela. Quem Akinli seria em dezenove anos? Um marido? Um pai? E o que eu seria? Uma adolescente que passara o último século matando e fugindo, mas que acabara sem dinheiro, sem nome e sem propósito?
Fiz o sinal de “não” e foi um alívio ver que uma palavra entre nós não precisava de tradução.
— O.k. Bom, vou estar por aqui se você precisar.
Fiz que sim com a cabeça.
— E, olha… — ele emendou rápido, com as mãos nos bolsos da calça de moletom. — Apesar das circunstâncias estranhas, é bom te ver de novo.
Sorrindo, dei meia-volta e entrei no quarto.
Sem as piadas e os risos de Akinli para me distrair, pude mais uma vez ouvir a Água me chamar de volta. Eu estava a algumas centenas de metros do mar. Mesmo assim, era longe demais para Ela me encontrar.
— Onde você está? Suas irmãs estão preocupadas. Volte, Kahlen. Volte.
Deitei na cama, escutando-A chamar e chamar. O tom ansioso transmitia a imagem de que Ela estava andando de um lado para o outro agitando as mãos, como uma mãe que perdera o filho na multidão.
Bom, talvez Ela passasse a compreender como os amigos e parentes das pessoas que devorara ao longo dos anos se sentiram. Além disso, Ela era muito dramática. Para onde eu poderia ir? Eu não era nem capaz de morrer sem a ajuda dEla.
— Volte. Onde você está? Por que não responde?
A insistência dEla não tinha fim. Claro que eu voltaria. O que mais poderia fazer?
Ouvi a porta do quarto de hóspedes ranger. Fingi estar dormindo, na esperança de conseguir me passar por uma pessoa normal por mais algumas horas.
Senti uma mão cálida tocar minha testa. E depois minha bochecha. Mantive o teatro, apesar de o toque dele me deixar mais do que desperta.
— De que lugar do mundo você saiu, menina linda e silenciosa? — Akinli sussurrou.
Depois de um longo momento, eu o ouvi sair do quarto na ponta dos pés e fechar a porta com cuidado.
Mordi o lábio, com vontade de chorar. Ele já tinha me tocado antes, mas a carícia na bochecha foi de uma ternura tão incrível que era quase impossível aguentar.
Na minha primeira vida, jamais cruzara com alguém com quem quisesse ficar, e não havia garantias de que encontraria uma pessoa assim depois do fim da sentença. Então por que naquele momento? Por que naquele tempo congelado e inútil alguém tinha que aparecer e me fazer sentir isso?
Eu não podia ficar com Akinli. E não podia sequer ter certeza da profundidade dos sentimentos dele, embora intuísse que sua curiosidade em relação a mim era tão grande quanto a minha em relação a ele. Estávamos fadados ao desastre.
Eu não podia ficar para sempre.
Mas talvez pudesse ficar por um dia.

24 comentários:

  1. Gente, estou amandoooooooooooooo!
    Ass: Bina.

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  2. Esse Akinli é muito fofo! Xonei <3

    Thay

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  3. meu deus olha oq ele passou em 6 meses! eu chorei? sim muito
    apesar disso ele continua sendo tão gentil
    — De que lugar do mundo você saiu, menina linda e silenciosa? — Akinli sussurrou." eu n to nada bem

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  4. Toda vez esses personagens dizem que o cheiro favorito deles é de grama recém cortada e eu não faço ideia de como seja esse cheiro.

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    1. eu acredito que seja igual ou parecido com terra molhada <3

      ass: Jenni Levy

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    2. kkkkkkk é diferente de terra molhada... cheiro de grama cortada é bom mesmo :3
      Vcs nunca viram ninguém cortando grama?

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    3. É muito bom o cheiro de grama recém cortada, mas o meu cheiro favorito e quando a pista ou a terra está quente e começa a chover lentamente e aquele cheiro de terra molhada começa a passar pelo vento e chegar as narinas... não tem cheiro melhor é quase igual a gasolina e álcool

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    4. Cheiro de gasolina é bom mas prefiro cheiro de bife de carne fritando huummmmmmmm kkkk

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    5. Tem razão, esse cheiro é muito bom. 😂☺
      Amoo 💕😘

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  5. Gente. Só eu me pergunto de onde vem o dinheiro dela?

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    1. Eu acho queria acho que elas fazem cartões de crédito falsos assim como os nomes

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    2. Aquela outra sereia, Miaka o nome dela eu acho, ñ vende quadros? Tipo, ela deve ganhar dinheiro com isso.

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    3. Kkkk eu também me pergunto da onde elas tiram tanto dinheiro? Kkkk😕😕😕 ass:Rebeca

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  6. Acho que no fim a Água vai descobrir e liberar ela dá sentença para que ela possa ficar com ele

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    1. Acho que não pq muitos disseram que o final era triste, acho que ele ou ela morre 😞

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    2. Acho que não pq muitos disseram que o final era triste, acho que ele ou ela morre 😞

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  7. Melhor do que os vestidos seria uma calda .��

    Ass:janny

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  8. Esse livro me leva pra um mundo impossível de existir.Mas existe dentro da minha imaginação

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  9. Se ela só tem uma noite porq n aproveita
    Beija logo esse boy sua loka kk
    Bom ela ja amento o tempo pelo menos se uma noite p um dia kk

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  10. Senti uma mão cálida tocar minha testa. E depois minha bochecha. Mantive o teatro, apesar de o toque dele me deixar mais do que desperta.
    — De que lugar do mundo você saiu, menina linda e silenciosa? — Akinli sussurrou.
    Depois de um longo momento, eu o ouvi sair do quarto na ponta dos pés e fechar a porta com cuidado.
    Acho q estou me apaixonando 😍😍😍

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