12 de março de 2016

Capítulo 11

NA VÉSPERA DE NATAL, a Água nos levou de volta à Suécia junto com Aisling, como ela desejava. Minha irmã queria passar uma última noite na cabana que amava antes de ser transformada de volta. Eu e as outras a instalaríamos em sua nova vida do melhor jeito possível. Não havia muito que pudéssemos fazer depois que ela voltasse a ser humana outra vez.
— Então a gente vai deixar a cama para você esta noite — Miaka disse. — E essas são as roupas que você escolheu?
Aisling observou a pequena mochila de couro que tinha posto no canto e o vestido e a meia-calça limpos que pendurou logo acima.
— São. — Sua voz era suave, cansada.
— Por que você está tão pra baixo? — Elizabeth perguntou, se contorcendo para admirar o brilho do seu vestido de sal. — Você deveria estar comemorando, não é? É Natal e você vai ganhar o melhor presente de todos! Não está empolgada?
Aisling assentiu.
— Claro. Só é estranho.
— Vou começar a cozinhar — Miaka disse. — Acho que uma refeição de primeira vai fazer bem a todas.
— Posso ajudar? — Padma perguntou, numa tentativa clara de encontrar um jeito de se encaixar no grupo. Imaginei como seria difícil para ela assistir à partida de uma irmã que só conhecera por poucas semanas.
— Claro! — Miaka respondeu. — Vou botar todo mundo para trabalhar!
— Kahlen não — Aisling disse. — Preciso dela por um momento.
— Como você quiser.
Aisling e eu trocamos nossos vestidos de sal marinho por algo mais convencional antes de sair. Reparei que ela tomava cuidado com cada movimento, como se estivesse se estudando.
Ela calçou uma bota de cano alto, pôs luvas e até chapéu, e me encorajou a fazer o mesmo. Percebi então que provavelmente descobriria mais segredos dela. A neve era apenas água congelada, então estávamos ligadas a Ela. Um dedo do pé que encostasse numa poça sem querer seria o suficiente para nos comunicarmos com a Água, quiséssemos ou não. Naquele dia, Ela permaneceria fora de alcance até Aisling decidir o contrário.
Nossa respiração pairava no ar sob o dossel de galhos que protegia nossa casinha. Aisling permanecia imóvel, com o rosto mais tenso a cada instante.
— Então, para que você precisa de mim? — perguntei.
Ela engoliu em seco, tentando sustentar o sorriso.
— Alguém tem que saber aonde me levar. Venha, tenho que cuidar de uns detalhes no caminho.
Aisling não parecia querer falar, então a acompanhei em silêncio; o ruído das botas na neve era o único som que produzíamos. Caminhamos por um bom tempo antes de avistarmos sinais de uma cidadezinha, uma área rural logo atrás da praia. Primeiro passamos por casas pequenas em fazendas enormes, depois por um punhado de lojas e alguns prédios, e por fim chegamos a uma bela praça central.
Depois de termos vivido em tantas cidades grandes, era difícil acreditar que ainda existisse um lugar tão rústico e rural como aquele. Pisca-piscas pendiam das árvores, e as vitrines das lojinhas estavam enfeitadas. As crianças corriam pela rua com seus casacos de lã, entoando canções natalinas como se fossem gritos de guerra. O cheiro de canela e frutas cítricas preenchia o ar, e fiquei feliz por aquela ser a imagem que eu teria da última residência de Aisling.
Chamei a atenção dela e comentei na língua de sinais:
— Agora vejo por que você gosta daqui.
O rosto dela ainda estava coberto de tristeza.
— Parte de mim teme não gostar mais depois.
— Besteira. Aqui é a sua cara.
Perto dos limites da cidade, Aisling me deu dinheiro e me pediu para entrar numa loja de esquina e comprar flores. Fiquei confusa com o pedido, mas obedeci, voltando com flores vermelho-escuras cujo nome desconhecia. Ela me agradeceu e, com o ramalhete na mão, continuou avançando para longe do burburinho da cidade.
Aisling andava a passos firmes, como quem conhece bem o caminho. Eu a seguia à distância, sentindo que se tratava de solo sagrado para ela. Ao chegarmos diante do cemitério, ela fez uma pausa. Apoiada num poste, tentou reunir forças para seguir adiante. Havia pegadas na neve, prova de que as famílias visitavam os entes queridos no feriado. Ao chegar numa lápide um pouco judiada pelo tempo, Aisling parou, pegou as flores secas que provavelmente trouxera na última visita, e as substituiu pelas novas.
Examinei as datas e percebi que a filha de Aisling morrera havia vinte e seis anos. Tentei me lembrar exatamente do que estávamos fazendo naquele dia. Será que Aisling deixara transparecer em algum momento que estava passando pela coisa mais arrasadora para uma mãe? Como continuou a viver depois que Tova se foi?
Depois de um longo momento de silêncio, os ombros de Aisling começaram a tremer. Ela olhava ao redor, nervosa, e fiz o mesmo. Estávamos sós. Quando ela teve certeza disso, soltou um grito de angústia e eu corri para abraçá-la.
— Está tudo bem, Aisling. Ela viveu a vida dela. Graças a você.
— Não estou triste por ela ter partido — minha irmã disse entre soluços, secando as lágrimas. — Estou triste porque depois de amanhã não vou nem saber que ela existiu.
Aisling soltou um gemido dolorido e gutural, dobrou-se sobre a lápide da filha e se agarrou à pedra com fervor. Só então percebi que nos últimos cem anos aquele gesto era o mais próximo que ela chegara de abraçar a própria filha.
E ela jamais faria aquilo de novo.
Sempre pensei que o esquecimento seria uma bênção, mas naquele momento, por causa de Aisling, desejei que parte das lembranças pudesse permanecer.
Uma palavra chamou minha atenção e virei para a lápide ao lado da de Tova. Marcava a breve vida de Aisling Evensen. Me perguntei o que a família dela teria posto lá dentro para representar a garota que perderam.
Aisling esfregou o rosto e ajeitou o cabelo.
— Só queria dizer a ela que a amo pela última vez.
— Se a sua bisneta tem o mesmo nome que você, então tenho certeza de que ela sempre soube.
Aisling sorriu de leve.
— Obrigada.
Ela encostou a cabeça na minha e permanecemos assim por um minuto.
Não conseguia nem imaginar todos os pensamentos que passavam pela cabeça de Aisling, e a minha única esperança para o que restava da vida dela como sereia era tornar tudo simples e indolor.
— Estou pronta — ela sussurrou.
Levantamos juntas e começamos a caminhar. Aisling não olhou para trás.
— Há um colégio interno na cidade. Quero que me deixem lá.
— Num colégio interno? Tem certeza?
— Sim — ela confirmou, mantendo o olhar adiante enquanto falava. — Vocês vão ter que escrever uma carta para mim, explicando por que tiveram que abandonar a irmã. Juntei dinheiro suficiente para dois anos de mensalidade, o que é mais do que preciso. Espero que a população me aceite quando me formar, para que possa encontrar trabalho por aqui.
Achei o plano dela tão… comum.
— Você não tem outras paixões ou interesses? Não há outra coisa que você queira?
Ela fez que não com a cabeça.
— Minha bisneta dá aula nessa escola. Só quero ter a chance de ser sua aluna e viver e morrer onde a minha família viveu e morreu. Qualquer coisa além disso é mais do que suficiente.
— Você se escondeu tão bem assim esse tempo todo para ninguém notar?
Ela finalmente riu.
— Passei bastante tempo com vocês, e morei em outros lugares. Só visitava esta região uma ou duas vezes por ano. Sem falar que me reinventei mais do que você imagina. Além disso, a cidade não é tão pequena para todo mundo conhecer todo mundo. Se você fica na sua, é fácil se misturar.
— Você vai ser a maior surpresa do Natal — especulei.
Ela sorriu.
— Vejo as garotas de lá, e algumas parecem tristes por ter que ficar o ano inteiro no mesmo lugar. Não têm para onde ir nas festas de fim de ano. Acho que vai ser bom se uma pessoa nova chegar no Natal. E depois que ouvirem a minha história, talvez se sintam gratas pela vida que têm.
— Como assim?
Ela deu de ombros.
— Vou ser a garota sem família. O que quer que elas estejam passando não pode ser pior que isso.
Havia um quê de orgulho na voz dela, como se ela estivesse feliz por dar isso aos outros embora soubesse o quanto as pessoas comentariam.
— Estou realmente impressionada, Aisling. Com seus planos, com o modo como viveu sua vida. Não consigo acreditar que é possível.
— Agora você sabe que é — ela respondeu com um sorriso. — E por falar nisso, já decidiu se vai tentar algo parecido?
— Não, ainda não. Tenho a impressão de que, se tentasse, até poderia ser tão esperta quanto você, mas não sei se conseguiria ser tão forte.
Ela me abraçou.
— Você tem mais força do que imagina. Confie em mim.
Chegamos perto da cidade e nos calamos. Aisling apontou para o colégio interno, indicando a porta que poderíamos usar. A escola até que era bem bonita, com paredes brancas e janelas altas. Algumas garotas de uniforme estavam sentadas nos degraus, enfrentando o frio com copos de sidra quente, e imaginei Aisling naquele mesmo lugar, rindo com as amigas. Esperava que ela nunca ficasse triste por acordar sem lembranças.


Pelo bem de Aisling, tentei tornar aquela noite a mais alegre possível. Não lhe demos presentes, sabendo que ela não poderia levar muito consigo, mas a enchemos de comida antes que todas entrássemos juntas na Água.
— Adeus, Aisling. Você me serviu muito bem.
— Estou feliz por achar isso — minha irmã respondeu cheia de gratidão. — E obrigada pela vida maravilhosa. Foi mais do que eu poderia pedir.
— De nada. Está pronta?
Aisling engoliu em seco.
— Sim.
— Feche os olhos.
Ela fechou, mas eles se abriram esbugalhados um instante depois, quando o líquido transformador foi removido. Aisling se debateu e levou às mãos ao pescoço como se estivesse tentando se desvencilhar de um estrangulamento. Os braços e pernas se agitavam com violência, até ela enfim desmaiar. As garotas e eu nadamos para tirar logo seu corpo inconsciente da água.

Diretora Strout,
Por favor, tome conta da nossa amada irmã, Aisling. Por motivos que não podemos comentar aqui, fomos forçadas a nos separar. Na mala dela, a senhora encontrará dinheiro para as mensalidades. Assim que Aisling for matriculada, temos certeza de que a senhora verá que se trata de uma aluna brilhante e aplicada. Temos consciência de que nosso pedido é um pouco incomum, mas imploramos que o aceite, por favor. É o melhor que podemos fazer por ela.
E, para Aisling, nossa guia e fortaleza, por favor, siga sua vida sabendo que é amada com um amor maior do que a maioria das almas conhece. Desejamos a você toda a felicidade e esperamos que você caminhe com uma alegria completa e imaculada.
Você sempre estará em nossos corações.
Com amor,
Suas irmãs

9 comentários:

  1. eu to chorando tanto mano,só a kiera consegue me fazer sentir assim com livros

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  2. Suas irmãs


    Qqqq lindooo

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  3. Pera... O QUE ACONTECEU COM ELA?!

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    1. Sua humanidade voltou a reinar...<3

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  4. Mano vou sentir saudades😪😪 será que as meninas vão visitá-la como ela visitava a família? 😪 ai que triste...

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  5. Lindo ! Tô amando e ansiosa pelos próximos capítulos.

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  6. Por um segundo imaginei que a água havia descoberto a vida dupla de Aisling!

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  7. Cara,não vô mentir:chorei!!

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  8. Lagrimas cairam aqui, sem querer !

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