12 de março de 2016

Capítulo 10

NOSSA PEQUENA CASA LOGO FICOU LOTADA. Elizabeth botou Padma debaixo da asa, empolgada por finalmente ter uma irmã mais nova, e Aisling permaneceu conosco em vez de voltar para sua cabana, já que seus dias de sereia estavam tão próximos do fim.
Passamos a primeira noite ao redor de uma fogueira acesa por Miaka. Tomamos um café delicioso e apresentamos Padma ao maravilhoso mundo dos marshmallows.
— Mas não temos que comer? — ela perguntou mais uma vez.
— Não. Falta de comida, bebida ou sono não vão lhe fazer o menor mal — Aisling explicou. — Às vezes cedemos a essas coisas por diversão, mas você não precisa de nada disso.
— E podemos nos machucar?
— De jeito nenhum — Elizabeth disse, empolgada. — Olha só.
Ela caminhou até o fogo e enfiou a mão bem no meio da chama. Olhei para Padma e uma expressão de descrença tomou conta do seu rosto, apesar de aquilo estar acontecendo bem diante de seus olhos.
— Você chega a sentir alguma coisa?
Elizabeth deu de ombros e tirou a mão do fogo.
— Sinto que é quente, mas não dói. É difícil explicar.
Padma pareceu extasiada.
— Então não vou pegar gripe? Ter febre? Nada?
— Não — assegurei, rindo. — Você é uma super-heroína. Talvez uma supervilã — acrescentei, sem saber ao certo o que éramos. A chegada de Padma me deixou tão feliz que a dúvida não me desanimou. — Em todo caso, você é forte e está segura agora. Febre é piada para a gente.
Ela suspirou. Assim como todas nós, Padma também se recusava a tirar o primeiro vestido de sal, que tocava a todo instante, encantada com a beleza e o brilho das dobras.
— Uma vez me cortei e a ferida infeccionou. Passei dias com febre. Pensei que fosse morrer. Lembro de acordar encharcada de suor quando a febre passou. — Padma fez uma pausa e balançou a cabeça para afastar a lembrança. — É difícil acreditar que isso é impossível agora.
Lancei um olhar para Aisling, que também tinha um ar de dúvida nos olhos.
— Padma, que lembrança específica… — Aisling disse devagar.
Ela deu de ombros e disse com um sorriso:
— Foi muito assustador. Difícil de esquecer.
— Mas esse é o ponto — eu disse, tocando-a no braço. — A maioria das sereias esquece o passado com uma rapidez impressionante. Não lembro o nome de ninguém da minha família, muito menos um dia em que fiquei doente.
Elizabeth interveio:
— Foi difícil pra mim, mas lembro o nome deles. Até cheguei a buscar informações sobre a minha família por um tempo. Eles nunca gostaram muito da ideia de eu ser menos do que uma dama, mas de vez em quando eu descobria alguma coisa sobre eles. Meus pais finalmente se divorciaram e meu irmão reprovou na faculdade de direito. Me sentia vingada em saber que eles também não eram perfeitos.
Olhei bem para Elizabeth. Todas sabíamos que ela guardava segredos, mas ela nunca tinha nos contado aquilo. Eu me perguntava o que Padma tinha que levou minha irmã a compartilhar aquilo com todas nós. Agora eu sabia que Elizabeth mantinha uma caderneta mental, algo que eu compreendia muito bem.
Aisling inclinou a cabeça.
— Só estamos dizendo que, mesmo que tenham se passado poucas horas, não é comum você lembrar tantos detalhes sobre si mesma.
Padma encarou bem no fundo dos olhos de cada uma de nós, preocupada.
— Então não sou saudável? Não sou como vocês?
— Como você se cortou? — Miaka perguntou.
Padma mal parou para pensar.
— Meu pai. Ele me bateu com uma panela.
Miaka assentiu, como se já desconfiasse que fosse algo do tipo.
— Você passou por muita coisa, Padma. Com certeza mais do que qualquer uma de nós. Mas pode deixar tudo isso para trás. Seu pai nunca virá atrás de você, e se vier, não vai sobreviver.
Uma expressão de dor tomou conta do rosto de Padma, e a garota o enterrou entre as mãos enquanto as lágrimas caíam. Fui logo até ela, e as outras fizeram o mesmo.
— Não quero lembrar — ela gemeu. — Não quero lembrar de nada antes de hoje.
— Não se preocupe — sussurrei. — Tudo vai embora. E estaremos aqui até isso acontecer.
Senti os ombros dela relaxarem, como se aquilo fosse muito mais do que poderia esperar.
— Vamos viajar — Elizabeth prometeu. — Você vai poder ver o mundo inteiro.
— E experimentar as melhores comidas — Aisling acrescentou com um sorriso animador.
— Todas aprendemos a língua de sinais para podermos nos comunicar mesmo no meio de uma multidão. Vamos te ensinar. Tudo vai ficar bem agora. — Acariciei seu cabelo enquanto ela concordava com a cabeça, aceitando nossas palavras como se fossem presentes.
Fazia muito tempo que eu não pensava no quão sagrada era a nossa irmandade, como estaríamos uma ao lado da outra enquanto durasse nosso serviço. Naquele dia, pensei pela primeira vez depois de muito tempo no quanto era grata por isso.


Padma se adaptou melhor depois de alguns dias, e me afastei um pouco para que Elizabeth e Miaka pudessem contribuir na tarefa de ensiná-la. Sentei numa duna com Aisling enquanto as outras mostravam a Padma como conversar com a Água. Puseram os pés na arrebentação, e dava para vê-las gesticulando para explicar como Ela podia nos chamar em qualquer lugar mas nós precisávamos estar em contato para responder. Por sorte, o contato poderia ser feito por vários meios: a neve que cai, uma poça de lama ou até mesmo uma neblina bem densa podia levar nossas palavras até Ela.
— Nunca tinha visto as meninas serem tão responsáveis — comentei enquanto brincava distraída com a areia seca e o mato diante de uma daquelas pequenas cercas que ajudavam a prevenir que o vento varresse tudo.
Aisling riu.
— Acho que o sofrimento de Padma faz com que minimizem o de si mesmas. Não que suas tristezas e arrependimentos não sejam importantes, mas o coração ferido de Padma as aproxima.
— Acho que tenho sido egocêntrica. Sabíamos que Miaka era maltratada e que a família de Elizabeth parecia não se importar muito com ela. Essa segunda vida foi uma bênção para as duas, mas eu a trato como uma prisão.
— Em certo sentido é uma prisão — ela disse em tom pesado.
— Mas é pior para mim. Ou pelo menos é o que sinto.
— Por que você acha isso?
Balancei a cabeça.
— Minha família não era como a delas. Era rica. Mesmo quando todos estavam em crise, ganhávamos dinheiro. E sempre fui tratada como alguém especial. — Franzi a testa, procurando lembranças perdidas havia muito tempo. — Eu era a mais velha, a única garota. Acho que havia expectativas, mas nada que me perturbasse. Acho que éramos felizes, no geral.
— Sinto muito por sua vida ter sido tão infeliz desde então — ela disse baixinho.
Suspirei, olhando para a Água.
— Kahlen, sou quem te conhece há mais tempo. Às vezes você chora por dias depois de cantarmos e acorda de pesadelos se debatendo. Observei você se retrair enquanto as outras floresciam — ela disse, balançando a cabeça. — Só tenho mais algumas semanas. Ela disse que o próximo naufrágio vai levar meses para acontecer, e posso ir embora assim que quiser. Pedi um tempo para me despedir de vocês, ajudar Padma a se adaptar e me preparar.
Pisquei para conter as lágrimas.
— Não acredito que você já vai embora.
A alegria que tive ao ganhar uma nova irmã era tão grande quanto a dor de perder outra.
— Eu sei. Quase me assusta pensar que não vou mais fazer isso — ela disse, engolindo em seco. — Mas essa não é a questão. Kahlen, quero mais do que tudo ajudar você a encontrar uma esperança nesta vida, a ter tanta felicidade agora quanto teve antes de nos conhecermos. O que posso fazer? Não quero que você passe os próximos vinte anos sofrendo quando poderia aproveitar.
Senti meus olhos arderem.
— Não é só o trabalho. Isso já é ruim, mas… eu…
Aisling me abraçou.
— Por favor, me conte o que está acontecendo. Não vou te julgar nem trair sua confiança. Seja lá o que for, você não pode carregar esse peso sozinha.
Encarei minha irmã, me perguntando se eu podia finalmente confessar o que me apertava o coração havia semanas. Eu tinha enterrado Akinli tão fundo na minha mente, pensando que a única maneira de aliviar a saudade era diminuí-lo o máximo que podia. Mas ali estava uma chance de falar, afinal. Aisling iria embora logo, e a lembrança dessa conversa desapareceria junto com ela.
— Estive guardando isso comigo — confessei. — Não quero que as outras saibam.
— Se você quer contar seus segredos mais profundos e obscuros para alguém, acredite, ninguém será melhor do que eu.
Assenti.
— Um garoto.
Aisling riu.
— Querida, várias sereias ficam com garotos.
— Não, não é passageiro… — eu disse. — Acho que é amor.
— Ah. — Ela desanimou. — Puxa, Kahlen…
— Pois é. — Me encolhi sobre a duna de tão idiota que me sentia. — Disse a mim mesma que era só uma paixãozinha. Tudo começou e acabou em dez dias. Como poderia chegar a ser amor? Mas penso nele todos os dias. Eu o expulso da minha cabeça quando entro na Água, porque sei o que Ela diria.
— Nada de mães nem de esposas. Ela não ia querer que você amasse alguém — Aisling comentou, com um quê de amargura na voz.
— Exatamente.
Houve um momento de silêncio; não ouvimos nada além do vento e das ondas. Eu sabia que Aisling queria ajudar, mas o que poderia fazer? Eu conhecia as regras.
— Me conte sobre ele, sem me dizer o nome. Por que acha que é amor?
Sorri sem me dar conta.
— Você já foi vista por alguém? Vista de verdade? Sei que as pessoas são atraídas pela nossa beleza, mas parece que ele deixou isso completamente de lado. Ele me fez sentir que todo o mal que eu já causei pode ser apagado, que existe algo bom em mim. E nada o deteve. Aisling, juro pra você que ele nem se importou com o meu silêncio. Ele adivinhava as coisas que eu ia dizer e respondia, ou dava um jeito para garantir que eu pudesse me comunicar. A pior parte… — Apertei os lábios para não chorar. — A pior parte é que daqui a vinte anos vou esquecer até que senti isso. E se voltar a sentir, não sei se gostaria que fosse por outra pessoa. Sei que é ridículo pensar que algo tão breve seja capaz de mudar a vida de alguém, mas é o que sinto.
Aisling passou a mão pelo meu cabelo.
— Acredito em você. Já me apaixonei também. E foi uma questão de minutos.
— Como você ainda lembra? — Ri baixo, mas logo em seguida encarei Aisling com olhos arregalados, incrédula. — Você… Você tem um namorado?
— Não — ela disse com firmeza. — Tenho uma filha.
Fiquei sem palavras.
— Bom, eu tinha uma filha — Aisling recordou, sorrindo. — E depois tive um neto, que já tem uma idade avançada. E agora tenho uma bisneta. — Os olhos dela marejaram com lágrimas de felicidade. — Inclusive, ela tem meu nome.
Balancei a cabeça.
— Como…?
— Sou reservada. Protejo tudo até na minha própria cabeça. Quando o navio afundou, lutei pela minha vida, mas acho que queria tanto proteger Tova que ela permaneceu escondida demais na minha cabeça, então nem a Água conseguiu enxergá-la. Não pensei em nada a não ser sobreviver. Mais tarde, dominei a técnica de guardar o segredo dEla. Afastava os pensamentos a respeito de Tova quando estava com Ela, assim como você fez com os desse garoto. E como desejei muito me manter apegada a Tova, não a esqueci.
Aisling estava radiante, orgulhosa de guardar para si esse segredo monumental durante um século.
— Você era casada? — perguntei, ainda em choque.
— Não — ela disse no ato. — O pai de Tova foi embora. Disse que me amava, mas desapareceu assim que contei sobre a gravidez. Não lembro mais o nome dele.
Aisling engoliu em seco e tentou resgatar mais lembranças.
— Meus pais me expulsaram de casa, envergonhados. Me mandaram para a casa dos meus tios, no norte. Eles não tinham filhos e me receberam com alegria, apesar da minha desgraça. E quando Tova chegou — Aisling suspirou — o mundo inteiro ficou mais colorido. Fiquei feliz pelo pai não a querer, porque assim ela seria toda minha. — A alegria dela se transformou em tristeza quase instantaneamente. — Recebi uma carta dos meus pais querendo fazer as pazes. Tova e eu íamos viajar de barco a vapor e, se tudo corresse bem, nos reconciliaríamos com a minha família. Eu sabia que assim que vissem como ela era linda passariam a adorá-la. Esses eram os planos… Então Tova ficou doente. Parecia melhor na data da partida, mas não quis arriscar viajar antes que ela estivesse totalmente restabelecida. Com certeza foi a melhor decisão que já tomei na vida.
— Então ela sobreviveu?
Aisling confirmou com a cabeça.
— Cresceu com o meu tio e a minha tia. Não sei por que meus pais não ficaram com ela. Não que eu pudesse perguntar. De tempos em tempos, eu voltava, escondia o cabelo com um pano ou me vestia de idosa. Assisti a minha filha crescer, se apaixonar e formar uma família. Vi toda a vida dela, e não poderia querer mais que isso. Bom, pelo menos não deveria querer mais.
Aisling encarou a areia, vendo os anos e anos da vida dos outros contidos na vida dela. Talvez fosse a sereia mais extraordinária que já existiu.
— Estou te contando isso por diversos motivos. Primeiro, para que você compreenda meu plano de partida e garanta que ele vá até o fim. Segundo, para você ter certeza de que seu segredo vai me acompanhar para fora desta vida. E terceiro, para poder te explicar o que você deve fazer agora.
Eu não ousava ter esperança de voltar para Akinli de alguma maneira, mas se Aisling tinha feito tudo que acabara de me contar, talvez houvesse uma chance.
— A Água diz que não aceita esposas. Diz que não aceita mães. Fui mãe, avó e bisavó, e nunca falhei no meu serviço a Ela.
Absorvi aquelas palavras e vi os últimos oitenta anos sob uma nova luz.
Aisling jamais esquecera do próprio passado. Manteve os vínculos da vida humana, se afastou de nós por um tempo para poder seguir a vida da filha, e mesmo assim cumpriu seu trabalho com tanta perfeição que a Água jamais questionou sua devoção. Aisling era a prova de que a Água nem sempre estava certa.
— Se o garoto é tão importante assim, você precisa aproveitar o que puder. Talvez não possa encontrá-lo de novo. E talvez tenha que suportar assistir ao casamento dele com outra pessoa. Mas pelo menos pode ir vê-lo. Tinja o cabelo de tempos em tempos, vista-se como se fosse mais velha. É possível observar alguém sem ser vista. Deixe-o viver a própria vida e se alegre por ele. Se você consegue ficar satisfeita com isso, então dê um jeito. Se não… — Ela balançou a cabeça a essas palavras. — Para o bem de todos, esqueça-o.
Fiz que sim, ciente de que ela sabia do que estava falando.
— Obrigada, Aisling. Você mudou tudo.
— Não conte a ninguém.
Segurei a mão dela e prometi:
— Nunca.

14 comentários:

  1. Acho tão bonita a amizade dessas meninas *--*

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  2. meu deus eu fiquei muito chorosa nesse capitulo

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  3. O que os olhos não vêem, a Água não sabe. É só manter segredo, Kahlen ;) mas se ela descobrir, você tá ferrada.

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    1. kkkkkkkkkk eu ri com seu comentário, Aricia!

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  4. melhor episodio ate agora everrrrrrrr

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  5. só eu que queria que ela voltasse para o aisling mas escondesse isso da água?

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  6. Ela vai poder ficar com o Akinliiiiiiiiiiiiii S2S2S2S2S2S2S2S2

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  7. Eu e o chão somos um só agora... ;-;

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    1. hahaha melhor comentário 😂❤

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    2. hahaha melhor comentário 😂❤

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  8. Fiquei triste

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  9. Estou simplesmente em pedaços,como assim? Assistir o casamento dele cm outra pessoa? Chorei rios e mares,qfique claro, ÁGUA.

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  10. Eu acho q no fundo a agua sabe de td só n fez nada por n ter visto risco

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