12 de março de 2016

Capítulo 1

É ENGRAÇADO PENSAR NAS COISAS A QUE NOS APEGAMOS, nas coisas de que lembramos quando tudo acaba. Ainda consigo ver os painéis nas paredes da nossa cabine e recordar com precisão como o carpete era macio. Lembro do cheiro da água salgada permeando o ar e grudando na minha pele, e o som das risadas dos meus irmãos no outro quarto, como se a tempestade fosse uma aventura emocionante em vez de um pesadelo.
Mais do que qualquer sentimento de medo ou preocupação, pairava no ambiente um ar de irritação. A tempestade acabara com nossos planos; não haveria dança no convés principal naquela noite. Essas eram as desgraças que assolavam minha vida, tão insignificantes que dava quase vergonha de admiti-las.
Mas isso foi há muito tempo, quando a minha realidade parecia ficção de tão boa que era.
— Se esse chacoalhar não parar logo, não vou ter tempo de ajeitar o cabelo antes do jantar — minha mãe reclamou.
Levantei os olhos para ela do lugar em que estava, deitada no chão numa tentativa desesperada de não vomitar. O reflexo dela no espelho lembrava um cartaz de cinema, e para mim as ondas de seu cabelo pareciam perfeitas. Mas ela nunca ficava satisfeita.
— Você tem que levantar do chão — ela continuou, baixando os olhos para mim. — E se algum empregado entrar?
Caminhei com esforço até um dos divãs, como sempre fazendo o que me mandavam, embora não considerasse aquela posição necessariamente mais digna de uma dama. Fechei os olhos, rezando para a água se acalmar. Eu não queria ficar enjoada. A nossa jornada até aquele último dia tinha sido bem comum, apenas uma viagem de família do ponto A ao B. Não consigo lembrar para onde íamos. Mas lembro que viajávamos em grande estilo, como de costume. Éramos uma das poucas famílias sortudas que sobreviveram à Grande Depressão com a fortuna intacta – e minha mãe gostava de deixar isso bem claro para as pessoas. Assim, estávamos alojados numa suíte bonita com janelas de tamanho considerável e mordomos particulares ao nosso dispor. Eu cogitava chamar um deles pela campainha e pedir um balde.
Foi então, no meio daquele torpor do enjoo, que ouvi uma coisa. Soava quase como uma cantiga de ninar distante, que me deixou curiosa e, por algum motivo, com sede. Levantei a cabeça e vi minha mãe fazer o mesmo, procurando o som.
Nossos olhares se encontraram por um instante; ambas precisávamos garantir que o que ouvíamos era real. Quando percebemos que não estávamos imaginando coisas, voltamos a nos concentrar na janela para escutar. A música era de uma beleza intoxicante, como o efeito de um cântico sobre devotos religiosos.
Meu pai enfiou a cabeça pela porta do quarto. Seu pescoço trazia um curativo recente onde ele havia se cortado quando tentara se barbear durante a tempestade.
— É a banda? — ele perguntou. O tom de sua voz era calmo, mas o desespero em seu olhar era assustador.
— Talvez. Soa como se viesse de fora, não é? — minha mãe respondeu, de repente sem fôlego e ansiosa. Ela levou uma mão ao pescoço e engoliu em seco. — Vamos lá ver.
Ela levantou com um salto e pegou um casaco. Fiquei chocada. Ela odiava sair na chuva.
— Mas mãe, e a sua maquiagem? Você acabou de dizer...
— Ah, isso... — ela disse, desconsiderando o comentário e balançando os ombros para acertar o caimento do cardigã cor de marfim. — Só vamos lá por um instante. Vou ter tempo de ajeitar a maquiagem quando voltar.
— Acho que vou ficar — falei.
Me sentia tão atraída pela música quanto eles, mas a umidade grudenta no rosto me lembrou de como eu estava quase a ponto de vomitar. Sair do quarto no meu estado não podia ser uma boa ideia, então me aninhei ainda mais no divã, resistindo ao ímpeto avassalador de levantar e seguir meus pais.
Minha mãe virou para trás e nossos olhares se cruzaram.
— Me sentiria melhor se você viesse comigo — ela disse com um sorriso.
Essas foram as últimas palavras da minha mãe para mim.
No exato momento em que abri a boca para argumentar, me encontrei de pé e já atravessando a cabine para segui-la. Não era apenas uma questão de obediência. Eu precisava subir ao convés. Precisava chegar mais perto da música. Se tivesse permanecido no quarto, provavelmente teria ficado presa e afundado com o navio. Então poderia ter me juntado à minha família. No céu ou no inferno, ou em lugar nenhum, se tudo isso fosse mentira. Mas não.
Subimos as escadas, acompanhados ao longo do caminho por vários outros passageiros. Foi então que percebi que havia algo errado. Alguns corriam, abrindo caminho entre a multidão aos empurrões, enquanto outros pareciam sonâmbulos.
Pisei no convés sob uma chuva torrencial e fiz uma pausa ao cruzar a porta para contemplar a cena. Tapei os ouvidos bem forte com as mãos para silenciar os trovões que ressoavam e a música que hipnotizava, tentando me situar. Dois homens passaram correndo por mim e se jogaram ao mar sem hesitar. Mas a tempestade não estava tão ruim a ponto de precisarmos abandonar o navio, estava?
Olhei para o meu irmão mais novo e o vi saltitar sob a chuva como um gato selvagem que põe as garras em carne crua. Quando alguém perto dele tentou fazer o mesmo, eles começaram a se empurrar, como se lutassem pelas gotas.
Dei meia-volta para procurar meu irmão do meio. Jamais o encontrei. Estava perdido na multidão que se acumulava contra o parapeito. Partiu antes mesmo que eu pudesse compreender o que estava acontecendo.
Então vi meus pais, de mãos dadas, com as costas contra o parapeito, se inclinando para trás como se não fosse nada de mais. Eles sorriam. Eu gritava.
O que estava acontecendo? O mundo tinha ficado louco?
Uma nota invadiu meu ouvido e baixei as mãos. De repente, a canção era a única coisa que importava. Minhas preocupações se desfizeram. Parecia mesmo que o melhor seria estar na água, envolta nas ondas em vez de bombardeada pela chuva. A sensação devia ser deliciosa. Eu precisava bebê-la. Precisava encher meu estômago, meu coração, meus pulmões com ela.
Com esse único desejo pulsando no corpo, caminhei até a balaustrada. Seria um prazer beber aquilo até ficar cheia, até cada pedaço meu estar satisfeito. Eu mal tinha consciência de que estava me dependurando para fora, mal tinha consciência de qualquer coisa, até que o impacto duro da água no meu rosto me fez recobrar os sentidos.
Eu ia morrer.
Não!, pensei enquanto lutava para voltar à superfície. Não estou pronta! Quero viver! Dezenove anos não eram o bastante. Ainda havia muitas comidas para provar e muitos lugares para visitar. Um marido, assim eu esperava, e uma família. Tudo isso, absolutamente tudo, desapareceria num instante.
— De verdade?
Não tive tempo para duvidar da existência da voz que ouvia e logo respondi:
— Sim!
— O que você daria para continuar viva?
— Qualquer coisa!
Imediatamente, fui arrastada para longe do naufrágio. Foi como se um braço envolvesse minha cintura e me puxasse com destreza, me fazendo avançar rapidamente por entre os corpos até me desvencilhar de todos eles. Logo me vi deitada numa superfície dura, diante de três garotas de uma beleza inumana.
Por um momento, todo o horror e a confusão por que eu tinha acabado de passar se dissolveram. Não havia tempestade, família, medo. Só havia aqueles rostos belos e perfeitos. Apertei os olhos e as examinei, fazendo a única suposição possível.
— Vocês são anjos? — perguntei. — Eu morri?
A garota mais perto de mim – que tinha os olhos mais verdes que eu já tinha visto na vida e o cabelo vermelho brilhante esvoaçando em volta do rosto – se abaixou.
— Não. Você está bem viva — ela garantiu com um agradável sotaque britânico.
Fiquei boquiaberta, sem palavras. Se eu ainda estivesse viva, não sentiria os arranhões do sal garganta abaixo? Meus olhos não estariam queimando por causa da água? Ainda não estaria sentindo o rosto arder da queda? No entanto, me sentia perfeita, completa. Ou estava sonhando ou estava morta. Tinha que estar.
Ainda dava para ouvir os gritos ao longe. Ergui a cabeça, e logo depois das ondas avistei a popa do nosso navio, que balançava de modo surreal acima das águas.
Tomei vários fôlegos descompassados, confusa demais para compreender como estava respirando ao mesmo tempo que ouvia os outros se afogarem ao meu redor.
— Do que você se lembra? — ela perguntou.
Balancei a cabeça.
— Do carpete.
Vasculhei as lembranças. Já sentia que elas estavam ficando distantes e turvas.
— E do cabelo da minha mãe — acrescentei, com a voz fraca. — E depois eu estava na água.
— Você pediu para viver?
— Sim — disparei, me perguntando se ela podia ler minha mente ou se todo mundo tinha pensado o mesmo. — Quem são vocês?
— Meu nome é Marilyn — ela respondeu com ternura. — Esta é Aisling — ela continuou, apontando para uma garota loira que me abriu um sorriso discreto e caloroso. — E aquela é Nombeko.
Nombeko era negra como o céu noturno e parecia não ter um fio de cabelo sequer.
— Somos cantoras — Marilyn explicou. — Sereias. Servas da Água. Nós a ajudamos. Nós... a alimentamos.
Franzi a testa.
— Do que a água se alimenta?
Marilyn lançou um olhar na direção do navio que naufragava. Quase todas as vozes já tinham se calado agora.
Ah.
— É nosso dever, e logo poderá ser o seu também. Se você der a Ela seu tempo, Ela vai te dar vida. Deste dia em diante, pelos próximos cem anos, você não vai adoecer nem se machucar, e não vai envelhecer um dia sequer. Quando o tempo terminar, você receberá de volta a sua voz e a sua liberdade. E poderá viver.
— S-sinto muito — gaguejei. — Não entendo.
As outras atrás dela sorriram, mas seus olhos aparentavam tristeza.
— Seria impossível entender agora — Marilyn disse. Ela passou a mão pelo meu cabelo, me tratando como se eu já fosse uma delas. — Garanto a você que nenhuma de nós entendia. Mas esse dia chegará.
Levantei com cuidado, chocada ao ver que estava de pé sobre a água.
Algumas pessoas ainda boiavam ao longe, batendo os braços contra a correnteza como se fossem capazes de se salvar.
— Minha mãe está lá — supliquei.
Nombeko suspirou com olhos saudosos. Marilyn passou o braço pelos meus ombros, olhando na direção do naufrágio. Então, sussurrou no meu ouvido:
— Você tem duas escolhas. Pode ficar conosco ou se juntar à sua mãe. Se juntar a ela. Não salvá-la.
Permaneci calada, pensando. Será que as palavras dela eram verdadeiras? Será que eu poderia escolher a morte?
— Você disse que daria qualquer coisa para viver — ela me lembrou. — Por favor, leve a promessa a sério.
Vi a esperança nos olhos dela. Ela não queria que eu fosse. Talvez tivesse visto mortes demais num dia só.
Fiz que sim com a cabeça. Eu ia ficar.
Ela me puxou para si e cochichou no meu ouvido:
— Bem-vinda à irmandade das sereias.
Fui tragada pela água e alguma coisa fria penetrou minhas veias. E embora isso me assustasse, não chegou a doer.

33 comentários:

  1. Nossa, aconteceu tão depressa. A gente não sabia quase nada sobre a personagem é já é BUM! Bem vinda à sociedade das sereias.
    E eu pensando que ia ver aquelas sereias horríveis de O Mar de Monstros.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gente, ela escolheu a si mesma em vez da mãe
      😞 n creio

      Excluir
    2. Ela não escolheu a si me Ama em vez da mãe, a mãe já estava morta,ela podia se juntar a ela, ou seja morrer tbm ou se agarrar ao único fio de esperança de vida...

      Excluir
    3. na verdade ela escolheu viver entre viver e morrer com a mae

      Excluir
    4. Sim Aricia kkkkkkkk também acho, normalmente os livros tem aquela coisa chata de primeiro capítulo, e tem aquela lerdeeeeza até acontecer algo top

      Excluir
  2. Angel,filha dos Ventos13 de março de 2016 11:53

    Escolha difícil né? Matar pra viver

    ResponderExcluir
  3. Uou!
    Tia Kiera sempre se superando!
    Louca para conhecer "Água"...

    ResponderExcluir
  4. Aí vc está de boa e pam!!! Bem vinda a sociedade das sereias , sinto que vou viciar nesse também *-*

    ResponderExcluir
  5. Parece interessante. Os acontecimentos estão muito rapidos, mas não vou deixar a primeira impressão do primeiro capitulo me impedir de continuar a ler.

    ResponderExcluir
  6. Queria muito ler esse livro,obrigada Karina! <3

    ResponderExcluir
  7. Foi tão curto e rapido, mas eu estou amando!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  8. Poxa... Queria mais dias no navio, e conhecer a familia dela, masssss vamos la ne

    ResponderExcluir
  9. Bem-vinda a sociedade das sereias 💖💕

    ResponderExcluir
  10. Já imagino a Marilyn como a Holland Roden, a Aisling como Claire Holt e a protagonista como a Phoebe Tonkin. Simplimente amei <3 !

    ResponderExcluir
  11. Muito top o blog amei!!

    ResponderExcluir
  12. Mds ja amei
    Ja prevejo que vou me vicia

    ResponderExcluir
  13. Gente, foi tudo taaaaaaooooo rápido, deu nem tempo de respirar, eu fiquei relendo aquelas palavras um milhão de vezes "pode ficar conosco, ou se juntar a sua mãe, se juntar a ela, não salvá-la"

    ResponderExcluir
  14. Já vi que é mais um pra eu sofrer né ... vamos lá !

    ResponderExcluir
  15. n0ssa que empolgante,ja amando mesmo.

    ResponderExcluir
  16. uau me apaixonei !!! s2

    ResponderExcluir
  17. muiiiitoooo graandeee

    ResponderExcluir
  18. Ela n matou a mae as sereias n deram essa opcao ela só podia escolher entre a propria vida n pela vida da mãe. Ou ela vivia só ou morria com a mae em qualquer escolha a mae dela morria.

    ResponderExcluir
  19. Ai meu deus familia morta no primeiro capitulo sereis caramba

    ResponderExcluir
  20. Será que depois de um ano elas podem ficar livres mesmo? Achei isso estranho.

    ResponderExcluir
  21. Ela vai viver para matar, mas acho que ela só vai entender isso depois. De qualquer forma, ela queria viver e vai. Nossa. To chocada com tudo isso.

    ResponderExcluir
  22. Meu deus!Que coisa pesada:matar para viver.Acho que não seria capaz.

    ResponderExcluir
  23. não é um ano Yasmin, infelizmente era 100 anos kkkkk

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!