6 de fevereiro de 2016

Capítulo 7

Celaena girou e se abaixou, a outra faca da bota instantaneamente na mão, e o vigia caiu com um gemido. Ela golpeou rápido como uma áspide – uma manobra que aprendera no deserto Vermelho. Quando puxou a faca da coxa do homem, sangue quente jorrou em sua mão. Outro guarda desceu a espada contra ela, mas Celaena bloqueou a arma com as duas facas antes de chutá-lo bem no estômago. Ele cambaleou para trás, mas não rápido o suficiente para escapar do ataque à cabeça que o fez desmaiar. Outra manobra que o Mestre Mudo ensinara a Celaena ao fazê-la estudar o modo como os animais do deserto se moviam. Na escuridão do cômodo, ela sentiu as reverberações com o desabar do corpo no chão.
Mas havia outros, e ela contou mais três – mais três resmungando e gemendo conforme a cercavam – antes que alguém a puxasse pelas costas. Celaena ouviu um estampido cruel contra a cabeça e algo molhado e pútrido foi pressionado contra seu rosto, então...
Esquecimento.



Celaena acordou, mas não abriu os olhos. Manteve a respiração equilibrada, mesmo ao inspirar o fedor da imundície e do ar úmido e pútrido em volta. E manteve os ouvidos atentos, mesmo ao escutar o gargalhar de vozes masculinas e o gorgolejar de água. Ela ficou bem imóvel, mesmo ao sentir as cordas que a atavam à cadeira e a água que já estava na altura de suas canelas. Estava no esgoto.
A água agitada se aproximava; tão forte que a água do esgoto cobriu seu colo.
— Acho que já chega de dormir — falou uma voz grave. A mão forte de alguém deu um tapa na bochecha de Celaena. Pelos olhos doloridos, a assassina encontrou o rosto deformado do guarda-costas de Doneval sorrindo para ela. — Oi, querida. Achou que não notaríamos que nos espionava havia dias, não é? Pode ser boa, mas não é invisível.
Atrás do homem, quatro guardas se postavam diante de uma porta de ferro – e além dessa, havia outra porta, através da qual Celaena conseguia ver um lance de degraus que levava para cima.
Devia ser uma porta para o porão da casa. Diversas das casas mais antigas de Forte da Fenda tinham tais portas: rotas de fuga durante guerras, formas de levar para fora sorrateiramente convidados dignos de um escândalo ou apenas um modo fácil de depositar o lixo da casa. As portas duplas serviam para manter a água do lado de fora; seladas e feitas há muito tempo por artesãos habilidosos que usaram magia para cobrir as ombreiras com feitiços repelentes de água.
— Há muitos cômodos para invadir nesta casa — falou o guarda-costas. — Por que escolheu o escritório do andar de cima? E onde está seu amigo?
Celaena deu um sorriso torto, o tempo inteiro observando o esgoto cavernoso ao redor. A água estava subindo. Não queria pensar no que boiava ali.
— Isto vai ser um interrogatório, depois tortura, então morte? — perguntou ela. — Ou entendi a ordem errado?
O homem sorriu de volta.
— Espertinha. Gosto disso. — O sotaque do guarda-costas era pesado, mas a assassina o entendeu muito bem. Ele apoiou as mãos dos lados da cadeira dela. Com os próprios braços atados às costas, Celaena só tinha liberdade para mover o rosto. — Quem a enviou?
O coração batia descontroladamente, mas o sorriso da assassina não se desfez. Suportar tortura era uma lição que havia aprendido há muito tempo.
— Por que presume que alguém me enviou? Uma garota não pode ser independente?
A cadeira de madeira rangeu sob o peso do guarda-costas quando ele se aproximou tanto que o nariz quase tocou o de Celaena. Ela tentou não inspirar o hálito quente do homem.
— Por que outro motivo uma cadelinha como você invadiria esta casa? Não acho que esteja atrás de joias ou ouro.
Celaena sentiu as narinas se dilatarem. Mas não reagiria – não até saber que não havia chance de arrancar informação dele.
— Se vai me torturar — disse ela, preguiçosamente — então comece. Não gosto muito do cheiro aqui embaixo.
O brutamontes recuou, o sorriso não vacilou.
— Ah, não vamos torturar você. Sabe quantos espiões e ladrões e assassinos tentaram matar Doneval? Estamos além de fazer perguntas. Se não quiser falar, tudo bem. Não fale. Já aprendemos a lidar com sua corja.
— Philip — falou um dos guardas, apontando com a espada para o túnel escuro do esgoto. — Precisamos ir.
— Certo — disse Philip, voltando-se para Celaena. — Sabe, imagino que se alguém foi tolo o bastante para enviar você até aqui, então deve ser dispensável. E não acho que alguém virá procurar por você quando inundarem os esgotos, nem mesmo seu amigo. Na verdade, a maioria das pessoas está se mantendo fora das ruas agora. Vocês, habitantes da capital, não gostam de sujar os pés, não é?
O coração de Celaena bateu mais acelerado, mas ela não desviou o olhar.
— Que pena que não vão limpar todo o lixo — disse ela, piscando os cílios.
— Não — retrucou o homem — mas vão levar você. Ou pelo menos o rio vai levar seus restos se os ratos deixarem o bastante. — Philip bateu na bochecha dela com força suficiente para doer.
Como se os esgotos tivessem ouvido, uma corrente de água começou a soar da escuridão.
Ai, não. Não.
Agitando água, o guarda-costas disparou até a elevação na qual estavam os guardas. Celaena os observou saindo pela segunda porta, então subindo as escadas e depois...
— Aproveite o nado — provocou Philip, e bateu a porta de ferro atrás de si.



Escuridão e água. Durante o momento que levou para Celaena se acostumar a ver com a luz fraca da rua que entrava pela grade do bueiro muito, muito acima, água se chocava contra as pernas dela.
O nível subiu até as coxas em um instante.
Ela xingou violentamente e se agitou com força contra as amarras. Ao roçarem cortando seus braços, lembrou: as lâminas embutidas. Era uma prova da habilidade do inventor que Philip não as tenha encontrado, embora devesse tê-la revistado. Mesmo assim, as cordas estavam quase apertadas demais para liberar as armas...
Celaena torceu os punhos, lutando por qualquer espaço ínfimo para girar a mão. A água estava ao redor da cintura. Deviam ter construído a represa do esgoto na outra ponta da cidade; levaria alguns minutos até que inundasse completamente aquela parte.
A amarra não afrouxava, mas Celaena girou o punho, fazendo como o mestre funileiro havia ensinado, diversas vezes. Então, por fim, ouviu o ranger e o agitar de água quando a lâmina disparou. Dor latejou na lateral da mão, e ela xingou. Havia se cortado com aquela porcaria. Ainda bem que não parecia profundo.
Imediatamente, começou a trabalhar nas cordas, seus braços doíam enquanto ela as torcia ao máximo para mirar os nós. Deveriam ter usado grilhões.
A assassina sentiu um alívio súbito de pressão no tronco e quase caiu de cara na água preta rodopiante quando a corda cedeu. Dois segundos depois, o restante das cordas havia se soltado, embora Celaena tivesse se encolhido ao mergulhar as mãos na água imunda para soltar os pés das pernas da cadeira.
Ao se levantar, a água estava na altura das coxas. E fria. Gélida, congelante. Ela sentia coisas roçando contra o corpo conforme agitava a água em busca da elevação, lutando para se manter de pé na forte corrente. Ratos eram varridos às dezenas, os guinchos de terror dos animais eram quase inaudíveis sobre o rugido da água. Quando ela chegou aos degraus de pedra, a água já estava empoçada ali também. Celaena tentou a maçaneta de ferro. Estava trancada. Tentou enfiar uma das lâminas no portal, mas a arma quicou de volta. A porta estava tão bem selada que nada passaria.
Celaena estava presa.
Olhou para a extensão do esgoto. Chuva ainda caía do alto, mas a iluminação da rua estava forte o bastante para que visse as paredes curvas. Devia haver alguma escada para a rua... devia haver. Celaena não via nenhuma – não por perto. E os bueiros estavam tão altos que precisaria esperar até que o esgoto enchesse por completo antes de tentar a sorte. Contudo, a corrente estava tão forte que ela provavelmente seria levada para longe.
— Pense — sussurrou a jovem. — Pense, pense.
Água subiu mais na elevação, agora se batendo contra os tornozelos de Celaena.
Ela manteve a respiração calma. Entrar em pânico não levaria a nada.
— Pense. — Celaena avaliou o esgoto.
Podia haver uma escada, mas estaria mais abaixo. Isso significava se aventurar no esgoto – e no escuro.
À esquerda, a água subia sem parar, fluindo da outra ponta da cidade. Celaena olhou para a direita. Mesmo que não houvesse um bueiro, poderia chegar ao Avery.
Era um “poderia” muito, muito grande.
Mas era melhor que esperar para morrer ali.
Celaena embainhou as lâminas, mergulhando na água fedida e oleosa. A garganta se fechou, mas a assassina se obrigou a não vomitar. Não estava nadando em meio aos dejetos da capital inteira. Não estava nadando em águas infestadas de ratos. Não morreria.
O fluxo estava mais rápido do que esperava, e ela se forçou contra a correnteza. Bueiros passaram acima, mais próximos, mas ainda tão distantes. E então ali, à direita! Meio caminho para cima da parede, diversos metros acima da linha da água, havia uma pequena abertura para um túnel. Tinha sido feita para um único trabalhador. Água da chuva descia pela abertura do túnel; em algum lugar, tinha de dar na rua.
Ela nadou com força até a parede, lutando para evitar que a corrente a levasse para além do túnel. Celaena se chocou contra a superfície e se agarrou, indo mais devagar. O túnel estava tão alto que ela precisou esticar a mão, os dedos doeram quando se cravaram na pedra. Contudo, tinha conseguido segurar, e embora a dor lancinasse pelas unhas, a assassina se impulsionou para a passagem estreita.
Era tão pequeno lá dentro que ela precisou deitar de barriga no chão. Estava cheio de lama e os deuses sabiam o que mais, mas ali – distante – havia um vão iluminado. Um túnel vertical em direção à rua. Atrás de Celaena, o esgoto continuava subindo, as águas rugiam, quase ensurdecedoras. Se não corresse, ficaria presa.
Com o teto baixo, Celaena precisava manter a cabeça baixa, o rosto quase na lama pútrida conforme esticava os braços e puxava. Centímetro a centímetro, ela se arrastou pela passagem, encarando a luz adiante.
Então a água chegou ao nível do túnel. Em momentos, fluiu por pés, pernas, então pelo abdômen, depois pelo rosto. A assassina rastejou mais rápido, sem precisar de luz para lhe dizer o quanto as mãos estavam ensanguentadas. Cada fragmento de sujeira dentro dos cortes era como fogo. , pensou Celaena, a cada impulso e puxão dos braços, a cada chute dos pés. Vá, vá, vá. A palavra era a única coisa que a impedia de gritar. Porque se começasse a gritar... então cederia à morte.
A água na passagem estava poucos centímetros mais alta quando Celaena chegou ao túnel vertical, e ela quase chorou ao ver a escada. Deviam ser 4,5 metros até a superfície. Por buracos circulares no bueiro amplo, a assassina viu um poste de rua no alto. Esqueceu-se da dor nas mãos ao subir a escada enferrujada, desejando que o objeto não quebrasse. Água preencheu a base do túnel, rodopiando dejetos.
Celaena chegou rapidamente ao topo e até se permitiu um sorrisinho ao fazer força contra o bueiro redondo.
Mas ele não cedeu.
Ela equilibrou os pés na escada bamba e empurrou com as duas mãos. Ainda assim, não se moveu. A jovem apoiou o corpo no último degrau, de modo que as costas e os ombros empurrassem o bueiro, então fez força contra o objeto. Nada. Sequer um ranger ou um indício de metal cedendo. Devia estar selada por ferrugem. Celaena bateu contra o tampo até que sentiu algo estalar na mão. A visão lampejou com a dor, fagulhas pretas e brancas dançavam, e ela se certificou de que o osso não estava quebrado antes de bater de novo. Nada. Nada.
A água estava próxima agora, o gelo lamacento tão perto que Celaena conseguia estender a mão e tocar.
Atirou-se contra o bueiro uma última vez. Não se moveu.
Se as pessoas estavam fora das ruas até que a enchente obrigatória acabasse... Água da chuva caiu na boca, nos olhos, no nariz. A assassina bateu contra o metal, rezando para que qualquer um a ouvisse sobre o rugido da chuva, para que alguém visse os dedos lamacentos e ensanguentados despontando de um bueiro comum da cidade. A água lhe atingiu as botas. Celaena enfiou os dedos pelos buracos do bueiro e começou a gritar.
Gritou até os pulmões arderem, gritou por ajuda, para que qualquer um ouvisse. Então...
— Celaena?
Foi um berro, e estava próximo; Celaena chorou quando ouviu a voz de Sam, quase abafada pela chuva e pelas águas estrondosas abaixo dela. Ele disse que apareceria depois de ajudar com a festa de Lysandra – devia estar indo para a casa de Doneval ou voltando de lá. Celaena agitou os dedos pelo buraco, batendo com a outra mão contra o tampo.
— AQUI! No esgoto!
Ela conseguia sentir o arrastar de passos e então...
— Pelos deuses. — O rosto de Sam surgiu pelo bueiro. — Estou procurando você há vinte minutos — disse ele. — Espere. — Os dedos calejados do rapaz se engancharam nos buracos.
Celaena os viu ficarem brancos de tanto puxar, viu o rosto dele ficar vermelho, então... Ele xingou.
A água tinha chegado às panturrilhas da assassina.
— Me tire deste inferno.
— Empurre comigo — disse Sam, sem fôlego, e quando puxou, ela empurrou.
O objeto não se movia. Os dois tentaram diversas vezes. A água chegou aos joelhos. Por alguma sorte, o bueiro estava longe o bastante da casa de Doneval para que os guardas não ouvissem.
— Suba o máximo possível — rugiu o companheiro. Celaena já havia subido, mas não disse nada. Ela viu o lampejo de uma faca e ouviu o raspar de uma lâmina contra o bueiro. Ele tentava afrouxar o metal usando a arma como alavanca. — Empurre do outro lado.
Ela empurrou. Água escura se agitou em suas coxas.
A faca se partiu em duas.
Sam xingou com violência e começou a puxar a tampa do bueiro de novo.
— Vamos lá — sussurrou ele, mais para si mesmo que para Celaena. — Vamos lá.
A água estava ao redor da cintura agora, e sobre o peito um momento depois. A chuva continuou fluindo pelo tampo, cegando os sentidos da assassina.
— Sam — falou Celaena.
— Estou tentando!
— Sam — repetiu ela.
— Não — disparou Sam, ao ouvir o tom de voz da assassina. — Não.
Ele começou a pedir ajuda naquele momento. Celaena pressionou o rosto contra um dos buracos do bueiro. Ajuda não chegaria... não rápido o suficiente.
Jamais pensara muito em como morreria, mas afogamento, de alguma forma, parecia adequado. Fora um rio em sua terra natal, Terrasen, que quase levara sua vida nove anos antes – e agora parecia que qualquer acordo que tivesse feito com os deuses naquela noite tinha finalmente acabado. A água a teria, de um jeito ou de outro, não importava quanto tempo passasse.
— Por favor — implorou o rapaz ao esmurrar e puxar o bueiro, então tentou enfiar outra adaga na tampa. — Por favor, não.
Celaena sabia que Sam não estava falando com ela.
A água chegou ao pescoço.
— Por favor — gemeu ele, com os dedos agora tocando os de Celaena.
Ela teria um último suspiro. As últimas palavras.
— Leve meu corpo para casa, para Terrasen, Sam — sussurrou ela. E com um arquejo final, Celaena afundou.

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