6 de fevereiro de 2016

Capítulo 5

Celaena estava deitada no manto, tentando imaginar que a areia era o colchão de Forte da Fenda e que não estava completamente exposta aos elementos no meio do deserto. A última coisa de que precisava era acordar com um escorpião nos cabelos. Ou algo pior.
Virou-se de lado, apoiando a cabeça na dobra do braço.
— Não consegue dormir? — perguntou Ansel, a alguns metros de distância.
A assassina tentou não resmungar. As duas tinham passado o dia todo se arrastando pela areia, parando apenas ao meio-dia para dormir sob os mantos e evitar o brilho do sol de rachar a cabeça.
E um jantar de tâmaras e pão não tinha sido exatamente satisfatório também. Mas Ansel quisera viajar com pouco e dissera que podiam pegar mais comida ao chegarem a Xandria na tarde do dia seguinte. Quando Celaena reclamou disso, a menina apenas disse que deveria ficar grata por não ser temporada de tempestade de areia.
— Tenho areia em todas as partes do corpo — murmurou a assassina, encolhendo o corpo ao sentir os grãos friccionando-se contra a pele. Como a merda da areia entrara nas roupas dela? A túnica e a calça branca tinham camadas o suficiente para que nem Celaena encontrasse a própria pele por baixo.
— Tem certeza de que é Celaena Sardothien? Porque não acho que ela seria tão reclamona. Aposto que está acostumada a passar por apertos.
— Estou bem acostumada a apertos — respondeu Celaena, as palavras sugadas para dentro das dunas que se erguiam ao redor. — Isso não quer dizer que eu precise gostar disso. Imagino que alguém dos desertos do Oeste ache isto um luxo.
Ansel gargalhou.
— Não faz ideia.
A assassina parou de provocar quando a curiosidade tomou conta.
— Suas terras são amaldiçoadas, como dizem?
— Bem, as Terras Planas costumavam ser parte do Reino das Bruxas. E sim, acho que se pode dizer que são de alguma forma amaldiçoadas. — Ansel suspirou alto. — Quando as rainhas Crochan governavam há quinhentos anos, era muito lindo. Pelo menos as ruínas por toda parte parecem ter sido lindas. Mas então os três clãs Dentes de Ferro destruíram tudo quando depuseram a dinastia Crochan.
— Dentes de Ferro?
Ansel emitiu um chiado baixo.
— Algumas bruxas, como as Crochan, tinham o dom da beleza etérea. Mas os clãs Dentes de Ferro têm dentes de ferro, afiados como os de um peixe. Na verdade, as unhas de ferro são mais perigosas; podem cortar com um golpe.
Um calafrio percorreu a espinha de Celaena.
— Mas, quando os clãs Dentes de Ferro destruíram o reino, dizem que a última rainha Crochan lançou um feitiço que voltou a terra contra qualquer um que empunhasse o estandarte dos Dentes de Ferro, assim, nenhuma plantação cresceria, os animais definhariam e morreriam, e as águas se tornariam lamacentas. Mas não é assim agora. A terra está fértil desde que os clãs Dentes de Ferro viajaram para o leste... na direção das terras de vocês.
— Então... você já viu uma das bruxas?
A garota ficou em silêncio por um momento antes de responder:
— Sim.
Celaena se virou na direção da jovem, apoiando a cabeça na mão. Ansel continuou olhando para o céu.
— Quando eu tinha 8 anos e minha irmã tinha 11, ela, eu e Maddy, uma das amigas dela, saímos de fininho da Mansão de penhasco dos Arbustos. Alguns quilômetros depois, havia um rochedo gigante com uma torre de vigia no topo. As partes mais altas estavam todas destruídas por causa das guerras das bruxas, mas o resto permanecia intacto. Tipo, havia um arco que passava pela base da torre, então dava para ver o outro lado da colina através dele. E um dos cocheiros contou a minha irmã que, se você olhasse pelo arco na noite do solstício de verão, poderia ver outro mundo.
Os pelos no pescoço de Celaena se arrepiaram.
— Então você entrou?
— Não — respondeu Ansel. — Cheguei quase ao topo do rochedo e fiquei tão apavorada que não coloquei os pés lá. Fiquei escondida atrás de uma pedra. Minha irmã e Maddy me deixaram ali enquanto seguiam o restante do caminho. Não lembro quanto tempo esperei, mas então ouvi gritos.
“Minha irmã veio às pressas. Ela simplesmente pegou meu braço e corremos. Não foi revelado a princípio, mas, quando chegamos à mansão de meu pai, ela contou o que havia acontecido. Passaram pelo arco da torre e viram uma porta aberta que dava para o interior, mas havia uma senhora com dentes de metal de pé às sombras. Ela agarrou Maddy e a arrastou pelas escadas.”
A assassina prendeu o fôlego.
— Maddy começou a gritar, e minha irmã correu. Quando contou a meu pai e aos homens dele, todos foram até o rochedo. Chegaram ao anoitecer, mas não havia sinal de Maddy ou da senhora.
— Sumiram? — sussurrou Celaena.
— Eles encontraram uma coisa — disse Ansel, baixinho. — Subiram até a torre e, em um dos patamares, encontraram os ossos de uma criança. Brancos como marfim e completamente limpos.
— Pelos deuses — falou Celaena.
— Depois disso, nosso pai nos bateu até quase morrermos e ficamos nas tarefas da cozinha durante seis meses, mas ele sabia que a culpa de minha irmã seria punição suficiente. Jamais perdeu aquele brilho assombrado nos olhos.
A assassina estremeceu.
— Bem, agora certamente não conseguirei dormir esta noite.
A companheira gargalhou.
— Não se preocupe — disse ela, aninhando-se no manto. — Vou contar um segredo valioso: o único modo de matar uma bruxa é cortando sua cabeça. Além disso, não acho que uma Dentes de Ferro tenha muita chance contra nós.
— Espero que esteja certa — murmurou Celaena.
— Estou certa — falou Ansel. — Podem ser cruéis, mas não são invencíveis. E se eu tivesse um exército próprio... se tivesse vinte dos Assassinos Silenciosos sob meu comando, caçaria todas as bruxas. Não teriam a mínima chance. — A mão dela acertou a areia; devia ter golpeado o chão.
— Sabe, esses assassinos estão aqui há anos, mas o que fazem? As Terras Planas prosperariam se tivessem um exército de assassinos para defendê-las. Mas não, apenas ficam sentados no oásis, silenciosos e pensativos, e se vendem para cortes estrangeiras. Se eu fosse mestre, usaria nossos números para a grandiosidade, para a glória. Defenderíamos cada reino desprotegido lá fora.
— Que nobre de sua parte — falou Celaena. — Ansel de penhasco dos Arbustos, Defensora do Reino.
Ela apenas riu e logo caiu no sono.
Celaena, no entanto, ficou acordada um pouco mais, incapaz de parar de imaginar o que aquela bruxa tinha feito quando arrastou Maddy para as sombras da torre.



Era dia de feira em Xandria, e, embora a cidade tivesse sofrido muito tempo com o embargo de Adarlan, ainda parecia haver mercadores de todos os reinos no continente – e além. Estavam amontoados em todos os espaços possíveis na pequena cidade portuária fortificada. Ao redor de Celaena, havia temperos, joias, roupas e comida, algumas vendidas diretamente de carroças pintadas com cores fortes, outras espalhadas sobre cobertores em reentrâncias sombreadas. Não havia sinal de que alguém soubesse qualquer coisa a respeito do ataque fracassado aos Assassinos Silenciosos na noite anterior.
A assassina se manteve próxima a Ansel ao caminharem, a garota de cabelos ruivos ziguezagueava em meio à multidão com um tipo de graciosidade casual que Celaena, apesar de não querer, invejava. Não importava quantas pessoas esbarrassem nela, ou se pusessem em seu caminho, ou a xingassem por entrar no caminho delas, Ansel não titubeava, e o sorriso jocoso apenas aumentava. Muitas pessoas paravam para encarar os cabelos ruivos e os olhos combinando, mas ela continuava seu passo. Mesmo sem a armadura, era deslumbrante. Celaena tentou não pensar em quão poucas pessoas tinham se incomodado em reparar nela.
Com os corpos e o calor, a assassina pingava suor quando Ansel parou perto do fim da feira.
— Vou demorar umas duas horas — falou a menina, acenando com a mão longa e elegante para o palácio de arenito que se estendia acima da pequena cidade. — O velho animal gosta de falar e falar e falar. Por que não faz umas compras?
Celaena esticou o corpo.
— Não vou com você?
— Para o palácio de Berick? É claro que não. É negócio do mestre.
Ela sentiu as narinas se dilatarem. Ansel deu um tapinha no ombro da colega.
— Acredite, preferirá passar as próximas horas na feira a esperar no estábulo com os homens de Berick a olhando com desejo. Ao contrário de nós — a garota deu aquele sorriso —, não têm acesso a banhos quando podem.
Ansel continuou olhando para o palácio, ainda a alguns quarteirões de distância. Nervosa porque se atrasaria? Ou nervosa porque iria confrontar Berick em nome do mestre? Ela afastou o restante de areia vermelha das camadas de roupas brancas.
— Encontro você naquela fonte às 15 horas. Tente não se meter em muita confusão.
E, com isso, sumiu para dentro da prensa de corpos, os cabelos vermelhos reluzindo como um ferro quente. Celaena pensou em segui-la. Mesmo que fosse uma forasteira, por que deixá-la acompanhar na viagem se só deveria ficar sentada esperando? O que poderia ser tão importante e secreto que Ansel não permitiria que ela participasse da reunião? A assassina deu um passo na direção do palácio, mas os transeuntes a empurraram para a frente e para trás, então um vendedor começou a cozinhar algo que tinha um cheiro divino, e ela se viu seguindo o próprio nariz.
Passou as duas horas caminhando de barraca em barraca. Celaena se amaldiçoou por não ter levado mais dinheiro consigo. Em Forte da Fenda, tinha uma linha de crédito com todas as lojas preferidas e jamais precisava se incomodar em levar dinheiro, a não ser pequenas moedas de cobre e uma ou outra de prata para gorjetas e propinas. Mas ali... bem, a bolsa com prata que levara parecia bem leve.
A feira dava voltas por todas as ruas, grandes ou pequenas, para baixo de escadarias estreitas e por dentro de becos semienterrados que deviam estar ali há milhares de anos. Portas antigas se abriam para pátios entulhados de vendedores de temperos ou centenas de lanternas, brilhando como estrelas no interior sombreado. Para uma cidade tão remota, Xandria estava fervilhando com vida.
Celaena estava de pé sob o toldo listrado de uma barraca do continente ao sul, debatendo se tinha o suficiente a fim de comprar o par de sapatos com a ponta curvada para cima diante de si e o perfume de lilás que sentira na barraca das senhoras de cabelos brancos. As senhoras alegavam serem as sacerdotisas de Lani, a deusa dos Sonhos – e do perfume, pelo visto.
A jovem passou o dedo pela linha de seda cor de esmeralda bordada nos delicados sapatos, seguindo a curva da ponta conforme se erguia e enrolava sobre o próprio sapato. Certamente chamariam atenção em Forte da Fenda. E ninguém mais na capital os teria. Embora fossem estragar facilmente na imundície das ruas da cidade.
Ela relutantemente devolveu os sapatos, e o vendedor ergueu as sobrancelhas. Celaena fez que não com a cabeça, um sorriso tímido no rosto. O homem ergueu sete dedos – um a menos que o preço pedido originalmente – e ela mordeu o lábio, sinalizando de volta:
— Seis moedas de cobre?
O homem cuspiu no chão. Sete moedas. Sete moedas era risivelmente barato.
Celaena olhou para a feira ao redor de si, então de volta para os lindos sapatos.
— Volto mais tarde — mentiu ela, e com um último e pesaroso olhar, seguiu caminho.
O homem começou a gritar em uma língua que ela jamais ouvira, sem dúvida oferecendo os sapatos por seis moedas de cobre, mas a assassina se forçou a continuar andando. Além disso, já estava com a bolsa bem pesada; carregar os sapatos seria um fardo adicional. Mesmo que fossem lindos e diferentes e não tão pesados. E a linha que detalhava as laterais era precisa e linda como caligrafia.
E, na verdade, podia apenas usá-los do lado de dentro, então...
Estava prestes a dar meia-volta quando algo reluzindo às sombras sob o arco entre as construções chamou sua atenção. Havia alguns guardas contratados de pé ao redor da carroça coberta, e um homem alto e magro estava atrás da mesa disposta diante do veículo. Mas não foram os guardas ou o homem ou a carroça que chamaram a atenção dela.
Não, era o que estava sobre a mesa que deixou Celaena sem fôlego e a fez amaldiçoar a bolsa de dinheiro leve demais.
Seda de Aranha.
Havia lendas sobre as aranhas estígias do tamanho de cavalos que espreitavam os bosques das montanhas Ruhnn ao norte, tecendo seus fios a altos custos. Alguns diziam que elas os ofereciam em troca de carne humana; outros alegavam que as aranhas negociavam anos e sonhos, podendo aceitar qualquer um desses como pagamento. Independentemente, era um tecido delicado, mais lindo que a seda, mais forte que aço. E Celaena jamais vira tanto dele antes.
Era tão raro que, se alguém o quisesse, talvez fosse preciso buscar por conta própria. Mas ali estavam metros de material cru esperando para ser moldado. O valor de um reino.
— Sabe — falou o mercador na língua comum, observando o olhar arregalado da jovem — você é a primeira pessoa hoje a reconhecer isso pelo que é.
— Eu saberia o que é mesmo que fosse cega. — A assassina se aproximou da mesa, mas não ousou tocar o tecido iridescente. — Mas o que está fazendo aqui? Certamente não consegue fazer muitos negócios em Xandria.
O homem gargalhou. Era de meia-idade, com cabelos castanhos cortados rentes e olhos azul escuros que pareciam assombrados, embora agora brilhassem entretidos.
— Eu também poderia perguntar o que uma jovem do Norte está fazendo em Xandria. — O olhar do homem se voltou para as adagas enfiadas no cinto marrom sobre as roupas brancas de Celaena. — E com tantas armas lindas.
Ela deu um meio-sorriso.
— Pelo menos seu olho é digno de sua mercadoria.
— Eu tento. — O homem fez uma reverência, então indicou que se aproximasse. — Então, diga-me, garota do Norte, quando viu Seda de Aranha?
Celaena fechou os dedos em punhos para evitar tocar no material inestimável.
— Conheço um cortesão em Forte da Fenda cuja madame tinha um lenço feito disso, dado a ela por um cliente extraordinariamente rico.
E aquele lenço devia ter custado mais que a maioria dos camponeses ganhava durante a vida.
— Um presente nobre. Devia ser habilidosa.
— Não foi à toa que se tornou madame dos melhores cortesãos de Forte da Fenda.
O mercador soltou uma gargalhada baixa.
— Então, se você se associa com os melhores cortesãos de Forte da Fenda, o que a traz a este trecho de vegetação desértica?
Celaena deu de ombros.
— Isso e aquilo. — À luz fraca sob o dossel, a Seda de Aranha ainda reluzia como a superfície do mar. — Mas eu gostaria de saber como você arranjou tanto disso. Comprou ou encontrou aranhas estígias sozinho?
O homem passou um dedo pela barra do tecido.
— Eu mesmo fui até lá. O que mais há para saber? — Os olhos soturnos escureceram. — Nas profundezas das montanhas Ruhnn, tudo é um labirinto de névoa e árvores e sombras. Portanto, não se encontra as aranhas estígias, elas encontram você.
Celaena enfiou as mãos nos bolsos para evitar tocar a Seda de Aranha. Embora estivesse com os dedos limpos, ainda havia grãos de areia vermelha sob as unhas.
— Então, por que está aqui?
— Meu navio para o continente ao sul não zarpa por mais dois dias; por que não montar a loja? Xandria pode não ser Forte da Fenda, mas nunca se sabe quem pode se aproximar de sua barraca. — O homem piscou um olho para ela. — Quantos anos você tem?
Celaena ergueu o queixo.
— Fiz 17 anos há duas semanas. — E que aniversário horrível foi aquele. Arrastando-se pelo deserto sem ninguém com quem comemorar a não ser o guia recalcitrante, que apenas deu tapinhas no ombro dela quando a menina anunciou que era seu aniversário. Terrível.
— Não muito mais jovem que eu — disse ele.
A assassina riu para dentro, mas parou ao ver que o homem não sorria.
— E quantos anos você tem? — perguntou ela. Não havia como errar, o homem devia ter pelo menos 40 anos. Mesmo que os cabelos não estivessem salpicados de prateado, a pele estava envelhecida.
— Tenho 25 anos — respondeu ele. Celaena se espantou. — Eu sei. Chocante.
Os metros de Seda de Aranha se ergueram com uma brisa do mar próximo.
— Tudo tem um preço — falou o homem. — Vinte anos por 90 metros de Seda de Aranha. Achei que os tirariam do fim de minha vida. Mas mesmo que tivessem avisado, eu responderia que sim.
Celaena olhou para a carroça atrás dele. Essa quantidade de Seda de Aranha era o bastante para permitir que vivesse os anos que restavam como um homem muito, muito rico.
— Por que não levar para Forte da Fenda?
— Porque já vi Forte da Fenda, e Orynth, e Banjali. Gostaria de ver o que 90 metros de Seda de Aranha me conseguiriam fora do império de Adarlan.
— Alguma coisa pode ser feita com relação aos anos que perdeu?
O homem gesticulou com a mão.
— Segui o lado oeste das montanhas a caminho daqui e conheci uma velha bruxa. Perguntei se poderia me consertar, mas a mulher disse que o que fora tomado, estava tomado, e apenas a morte da aranha que consumira meus vinte anos poderia devolvê-los a mim. — Ele avaliou as próprias mãos, já enrugadas pela idade. — Por mais uma moeda de cobre, ela me contou que apenas um grande guerreiro poderia matar uma aranha estígia. O maior guerreiro no continente... Embora talvez uma assassina do Norte consiga.
— Como você...
— Não pode realmente achar que ninguém sabe sobre os sessiz suikast? Por que mais uma garota de 17 anos carregando belas adagas estaria aqui desacompanhada? E uma que tem companhias tão nobres em Forte da Fenda. Está aqui para espionar para Lorde Berick?
Celaena fez o possível para esconder a surpresa.
— Como?
O mercador deu de ombros, olhando na direção do alto palácio.
— Ouvi de um guarda da cidade que negócios estranhos ocorrem entre Berick e alguns dos Assassinos Silenciosos.
— Talvez. — Foi tudo que a assassina disse. O mercador assentiu, não mais tão interessado.
Mas ela guardou a informação para mais tarde. Será que alguns dos Assassinos Silenciosos realmente trabalhavam para Berick? Talvez por isso Ansel tivesse insistido em manter o encontro tão secreto, talvez o mestre não quisesse que os nomes dos suspeitos de traição fossem revelados.
— Então? — perguntou o mercador. — Vai recuperar os anos perdidos para mim?
Celaena mordeu o lábio, os pensamentos de espiões instantaneamente se dissipando.
Aventurar-se nas profundezas das montanhas Ruhnn para matar uma aranha estígia. Certamente conseguia se ver lutando contra as monstruosidades de oito pernas. E bruxas. Embora encontrar uma bruxa – principalmente uma dos clãs Dentes de Ferro – depois da história de Ansel fosse a última coisa que Celaena quisesse fazer. Por um segundo, desejou que Sam estivesse ali. Mesmo que contasse a ele sobre o encontro, o rapaz jamais acreditaria. Mas será que alguém acreditaria?
Como se pudesse ler os devaneios da assassina, o homem falou:
— Posso fazê-la mais rica do que jamais imaginaria.
— Já sou rica. E estou indisponível até o fim do verão.
— Não voltarei do continente ao sul por pelo menos um ano, de toda forma — replicou ele.
Celaena examinou o rosto do mercador, o brilho no olhar. Aventura e glória à parte, qualquer um que vendesse vinte anos de vida por uma fortuna não podia ser de confiança. Mas...
— Da próxima vez que for a Forte da Fenda — disse ela, devagar —, procure Arobynn Hamel. — Os olhos do homem se arregalaram. Celaena imaginou qual seria a reação se soubesse quem ela era. — Ele saberá onde me encontrar.
A assassina se voltou da mesa.
— Mas qual é seu nome?
Ela olhou por cima do ombro.
— Ele saberá onde me encontrar — repetiu a jovem, começando a caminhar de volta para a barraca dos sapatos pontudos.
— Espere! — Celaena parou a tempo de vê-lo remexendo nas dobras da túnica. — Aqui. — Ele apoiou uma caixa de madeira lisa sobre a mesa. — Um lembrete.
Celaena abriu a tampa e ficou sem fôlego. Um pedaço dobrado de Seda de Aranha tecida estava do lado de dentro, não maior que 38 centímetros quadrados. Ela poderia comprar dez cavalos com aquilo. Não que jamais fosse vender o tecido. Não, aquilo era uma herança para ser passada de geração em geração. Se algum dia tivesse filhos, o que parecia muito improvável.
— Um lembrete de quê? — Celaena fechou a tampa e enfiou a pequena caixa no bolso interno da túnica branca.
O mercador deu um sorriso triste.
— De que tudo tem um preço.
Um fantasma de dor percorreu o rosto da jovem.
— Eu sei — disse ela, então partiu.



Celaena acabou comprando os sapatos, embora fosse quase impossível deixar o perfume de lilás, que cheirava ainda mais delicioso da segunda vez em que se aproximou da barraca das sacerdotisas.
Quando os sinos da cidade soaram 15 horas, estava sentada na borda da fonte, lanchando o que esperava serem feijões macerados dentro de um pão quente enrolado.
Ansel se atrasou 15 minutos e não pediu desculpas. Apenas pegou o braço de Celaena e começou a levá-la pelas ruas ainda lotadas, o rosto coberto de sardas brilhando com suor.
— O que foi? — perguntou a assassina. — O que aconteceu em sua reunião?
— Não é de sua conta — falou Ansel, um pouco grosseira. Então acrescentou: — Apenas me siga.
As duas acabaram se esgueirando para dentro da muralha do palácio do senhor de Xandria, e Celaena sabia que não deveria fazer perguntas conforme seguiam, sorrateiras, pela área. Contudo, não se dirigiram ao enorme prédio central. Não, elas se aproximaram dos estábulos, onde passaram despercebidas pelos guardas e entraram nas sombras fétidas.
— É melhor haver um bom motivo para isso — avisou Celaena ao ver Ansel seguir na direção de uma baia.
— Ah, há sim — ciciou ela de volta, e parou diante de um portão, indicando que Celaena se aproximasse.
A assassina franziu a testa.
— É um cavalo. — Mas, enquanto pronunciava as palavras, já sabia que não era qualquer cavalo.
— É um cavalo Asterion — falou Ansel, ofegante, os olhos castanho-avermelhados se arregalando.
O cavalo era preto como breu, com olhos escuros que olhavam intensamente para os de Celaena. Ouvira falar de cavalos Asterion, é claro. A raça mais antiga de Erilea. Dizia a lenda que os feéricos haviam feito esses animais com os quatro ventos – espírito do norte, força do sul, velocidade do leste e sabedoria do oeste, todos dentro da linda criatura de focinho fino e cauda alta que estava diante da assassina.
— Já viu algo tão lindo? — sussurrou Ansel. — O nome dela é Hisli. — Éguas, lembrou-se Celaena, eram mais valiosas, pois o pedigree dos Asterion era traçado pela linhagem da fêmea. — E aquela — falou a menina, apontando para a baia seguinte — se chama Kasida, significa “bebedora do vento” no dialeto do deserto.
O nome de Kasida era adequado. A égua esguia era cinza malhada, com uma crina branca como a espuma do mar e a pelagem como uma nuvem carregada. Ela bufou e bateu as patas dianteiras, encarando Celaena com olhos que pareciam mais velhos que a própria terra.
Subitamente a assassina entendeu por que os cavalos Asterion valiam o próprio peso em ouro.
— Lorde Berick as comprou hoje de um mercador a caminho de Banjali. — Ansel entrou na baia de Hisli. A jovem arrulhou e murmurou, acariciando a crina da égua. — Está planejando testá-las em meia hora. — Aquilo explicava por que já estavam seladas.
— E? — sussurrou Celaena, erguendo a mão para que Kasida cheirasse.
As narinas da égua se dilataram, o nariz aveludado fazendo cócegas nas pontas dos dedos da jovem.
— E então ele vai dá-las como suborno ou perder interesse nas éguas e deixar que definhem aqui pelo resto da vida. Lorde Berick costuma se cansar dos brinquedos bem rapidamente.
— Que desperdício.
— É mesmo — murmurou Ansel de dentro da baia. Celaena tirou os dedos do focinho de Kasida e olhou dentro da baia de Hisli. A menina percorria a mão sobre o flanco negro de Hisli, o rosto ainda maravilhado, então se virou: — Você cavalga bem?
— É claro — respondeu a assassina, devagar.
— Que bom.
Celaena conteve o grito de susto quando Ansel destrancou a porta da baia e levou Hisli para fora. Em um movimento sutil e ágil, a garota se colocou sobre o animal, segurando as rédeas com uma das mãos.
— Porque vai precisar cavalgar como nunca.
Com isso, Ansel disparou Hisli em um galope, seguindo direto para as portas do estábulo.
Celaena não teve tempo de arquejar ou sequer processar o que estava prestes a fazer ao destrancar a baia de Kasida, puxar a égua de dentro e se impulsionar para a sela. Com um xingamento abafado, pressionou as solas dos sapatos contra os flancos do cavalo e disparou.

8 comentários:

  1. Aquele momento que a pessoa finalmente esclarece a história do roubo do cavalo heheheh

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    1. ansel esta planejando alguma coisa !

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  2. auguem pode me relembrar essa hitoria? eu n consegui lembrar pfv

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  3. Quando o príncipe da ao capitão da guarda um cavalo asterion,ela conta q furtou um mas não conta como

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  4. A Cel com medo de encontrar uma bruxa ah se ela soubesse...
    Esse capitulo todo além de esclarecer a história do cavalo me fez recordar da Manon. Engraçado como as coisas se interligam. Deve dá muito trabalho ligar todos esses pontos.

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  5. A Cel com medo de encontrar uma bruxa... Ah se ela soubesse!
    Esse capitulo além de esclarecer a história do cavalo me fez recordar da Manon :D

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  6. Gente... tanta revelação em um capítulo! O roubo da égua asterion e o cara que vendeu 20 anos por seda de aranha! Será que aquela aranha é a aranha que vendeu pra ele? Tomara q seja!!

    Flavia.

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  7. Esse cap revelou bastante coisas...

    Ass:Shay Santos

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