6 de fevereiro de 2016

Capítulo 12

As nuvens de chuva tinham sumido, e o sol nascia quando Celaena entrou no escritório de Arobynn, parando diante da mesa deste. Wesley, o guarda-costas do mentor, nem tentou impedí-la, apenas fechou as portas do escritório atrás dela antes de voltar à posição de sentinela no corredor, do lado de fora.
— O comparsa de Doneval queimou os próprios documentos antes que eu pudesse vê-los — disse ela para Arobynn, como cumprimento. — Depois se envenenou. — Celaena tinha enfiado os documentos por baixo da porta do quarto do mestre na noite anterior, mas decidira esperar para explicar tudo naquela manhã.
Ele ergueu o rosto do livro de contas. Estava com o rosto inexpressivo.
— Isso foi antes ou depois de atear fogo à casa de Doneval?
Ela cruzou os braços.
— Faz diferença?
Arobynn olhou para a janela e para o céu limpo acima.
— Mandei os documentos para Leighfer esta manhã. Você os leu?
Celaena riu com deboche.
— É claro que li. Entre matar Doneval e lutar para sair da casa dele, encontrei tempo para me sentar, tomar uma xícara de chá e ler os papéis.
O homem ainda não sorria.
— Jamais a vi deixar uma bagunça tão grande.
— Pelo menos as pessoas pensarão que Doneval morreu no incêndio.
Ele bateu com as mãos na mesa.
— Sem um corpo identificável, como alguém pode ter certeza de que ele está morto?
Celaena se recusou a ceder, se recusou a recuar.
— Ele está morto.
Os olhos prateados ficaram mais rígidos.
— Não receberá por isso. Tenho certeza de que Leighfer não pagará. Ela queria um corpo e os dois documentos. Você só me deu um desses três.
A assassina sentiu as narinas se dilatarem.
— Tudo bem. Os aliados de Bardingale estão a salvo agora mesmo. E o comércio não vai acontecer. — Ela não podia mencionar que sequer vira um documento de comércio entre os papéis, não sem revelar que lera os documentos.
Arobynn emitiu uma risada baixa.
— Ainda não entendeu, não é?
A garganta de Celaena se apertou.
O mentor se recostou na cadeira.
— Sinceramente, esperava mais de você. Todos os anos que passei treinando-a, e você não conseguiu entender o que estava acontecendo bem diante de seus olhos.
— Apenas diga logo — grunhiu a jovem.
— Não havia acordo — falou Arobynn, com triunfo iluminando os olhos prateados. — Pelo menos não entre Doneval e a fonte dele em Forte da Fenda. As verdadeiras reuniões sobre as negociações de escravos têm acontecido no castelo de vidro, entre o rei e Leighfer. Foi um ponto chave de persuasão para convencer o rei a deixar que construíssem a estrada.
Celaena manteve o rosto inexpressivo, evitou encolher o corpo. O homem que se envenenou... não estava ali para trocar documentos e delatar aqueles que se opunham à escravidão. Trabalhava com Doneval para...
Doneval ama seu país, dissera Philip.
Doneval buscava montar um sistema de casas seguras e formar uma aliança do povo contra a escravidão no império. Com ou sem os maus hábitos, o homem esforçava-se para ajudar os escravos.
E Celaena o matara.
Pior que isso, entregara os documentos a Bardingale... que não queria impedir a escravidão. Não, ela queria lucrar com o comércio de escravos e usar a nova estrada para isso. E ela e Arobynn tinham bolado a mentira perfeita para fazer com que a assassina cooperasse.
Arobynn ainda sorria.
— Leighfer já se certificou de que os documentos estejam em segurança. Se alivia sua consciência, ela disse que não os entregará ao rei, ainda. Não até ter tido a chance de falar com as pessoas naquela lista e... persuadi-las a apoiar as empreitadas de negócios dela. Mas, se não quiserem, talvez os papéis encontrem seu caminho até o castelo de vidro no fim das contas.
Celaena lutou contra o tremor.
— Isso é punição por baía da Caveira?
Ele a avaliou.
— Embora eu possa me arrepender de tê-la espancado, Celaena, você destruiu um acordo que teria sido extremamente lucrativo para nós. — “Nós”, como se ela fosse parte daquela confusão desprezível. — Pode estar livre de mim, mas não deveria se esquecer de quem sou. Do que sou capaz.
— Enquanto eu viver — falou a jovem — nunca vou me esquecer disso.
E se virou em direção à porta, mas parou.
— Ontem — prosseguiu Celaena — vendi Kasida para Leighfer Bardingale. — Ela visitara a propriedade de Bardingale na manhã do dia em que deveria se infiltrar na casa de Doneval. A mulher ficara mais que feliz em comprar o cavalo Asterion. Ela não mencionou uma vez a morte iminente do ex-marido.
E, na noite anterior, depois de matar Doneval, a assassina passou um tempo encarando a assinatura na base do recibo de transferência de posse, tão estupidamente aliviada porque Kasida iria para uma mulher boa como Bardingale.
— E? — perguntou Arobynn. — Por que eu deveria me importar com seu cavalo?
Celaena olhou para ele por bastante tempo, com rispidez. Sempre jogos de poder, sempre trapaça e dor.
— O dinheiro está a caminho de seu cofre no banco.
Ele não disse nada.
— A partir de agora, a dívida de Sam está paga — disse ela, uma pontada de vitória brilhando através da vergonha e da tristeza crescentes. — A partir de agora e para sempre, ele é um homem livre.
Arobynn a encarou de volta, então deu de ombros.
— Imagino que seja bom. — Celaena sentiu o golpe final chegando; soube que deveria correr, mas ficou parada como uma idiota e ouviu enquanto o homem falava: — Porque gastei todo o dinheiro que me deu no Leilão de Lysandra ontem à noite. Meu cofre está um pouco vazio por causa disso.
Levou um segundo para as palavras serem absorvidas.
O dinheiro pelo qual ela sacrificara tanto... Fora usado para vencer o Leilão de Lysandra.
— Vou me mudar — sussurrou a jovem. O mentor apenas observou, a boca inteligente e cruel formando um pequeno sorriso. — Comprei um apartamento e vou me mudar para lá. Hoje.
O sorriso dele aumentou.
— Volte para nos visitar algum dia, Celaena.
Ela tentou morder o lábio e evitar que estremecesse.
— Por que fez isso?
Arobynn deu de ombros de novo.
— Por que não deveria aproveitar Lysandra depois de todos esses anos de investimento na carreira da garota? E por que se importa com o que faço com meu dinheiro? Pelo que ouvi, tem Sam agora. Os dois estão livres de mim.
É claro que Arobynn já tinha descoberto. E é claro que tentaria virar aquilo contra ela... tentaria fazer com que a culpa fosse de Celaena. Por que enchê-la de presentes apenas para fazer aquilo? Por que enganá-la a respeito de Doneval e então a torturar com aquilo? Por que salvara a vida dela nove anos antes apenas para tratá-la daquela forma?
Arobynn gastara o dinheiro dela em uma pessoa que sabia que Celaena odiava. Para depreciá-la. Meses antes, teria funcionado; aquele tipo de traição a teria arrasado. Ainda doía, mas agora, com Doneval e Philip e os outros mortos pela mão dela, com aqueles documentos em posse de Bardingale e com Sam seguro a seu lado... O tiro mesquinho e cruel de despedida errara o alvo por pouco.
— Não me procure por um bom tempo — disse a assassina. — Porque posso matar você se o vir antes disso, Arobynn.
Ele gesticulou com a mão para Celaena.
— Estou ansioso pela luta.
Ela saiu. Ao cruzar as portas do escritório, quase se chocou contra os três homens altos que entraram. Todos olharam para a jovem e murmuraram desculpas. Ela os ignorou, e ignorou o olhar sombrio de Wesley quando passou por ele. Os negócios de Arobynn eram dele. Celaena tinha a própria vida agora.
Os saltos das botas estalavam contra o piso de mármore da entrada. Alguém bocejou do outro lado do espaço, e Celaena viu Lysandra recostada contra o corrimão da escada. Ela vestia uma camisola de seda branca que mal cobria as áreas mais íntimas.
— Provavelmente já soube, mas cheguei ao lance recorde — ronronou a cortesã, alongando a linda silhueta do corpo. — Obrigada por isso; pode ter certeza de que seu ouro foi muito, muito longe.
Celaena congelou e se virou devagar. Lysandra deu um risinho para ela.
Rápida como relâmpago, a assassina atirou uma adaga.
A lâmina ficou cravada no corrimão de madeira, a um fio de cabelo da cabeça da garota.
Lysandra começou a gritar, mas Celaena apenas saiu andando pelas portas da frente, atravessou o jardim da Fortaleza e continuou seguindo até que a capital a engolisse.



Celaena estava sentada na beira do telhado, olhando pela cidade. O comboio de Melisande já havia partido, levando consigo o restante das nuvens de tempestade. Algumas das pessoas usavam preto, em luto pela morte de Doneval. Leighfer Bardingale montara Kasida, trotando pela avenida principal. Ao contrário daqueles em cores de luto, a senhora estava vestida em amarelo-açafrão e exibia um amplo sorriso. É claro que fora apenas porque o rei de Adarlan concordara em dar a eles os fundos e os recursos para construir a estrada. Celaena teve vontade de ir atrás da mulher, pegar os documentos de volta e fazê-la pagar pela trapaça. E tomar Kasida de volta, para aproveitar a viagem.
Mas não o fez. Tinha sido enganada e perdera – feio. Não queria ser parte daquela trama confusa. Não quando Arobynn tinha deixado muito claro que a assassina jamais poderia vencer.
Para distraí-la daquele pensamento miserável, Celaena passou o dia todo mandando criados da Fortaleza para o apartamento, buscando todas as roupas e os livros e as joias que agora pertenciam a ela, e somente a ela. A luz do fim da tarde adquirira um dourado intenso, fazendo com que todos os telhados verdes brilhassem.
— Achei que poderia estar aqui — falou Sam, caminhando pelo telhado plano no qual Celaena ocupava o alto da mureta que ladeava a borda. Ele avaliou a cidade. — Que vista; entendo por que decidiu se mudar.
Ela deu um leve sorriso, virando-se para olhar para Sam por cima do ombro. O rapaz chegou perto, parando atrás de Celaena, e estendeu a mão hesitante para acariciar os cabelos dela. A jovem se aproximou do toque.
— Soube o que ele fez, a respeito de Doneval e de Lysandra — murmurou Sam. — Nunca imaginei que desceria tanto, ou usaria seu dinheiro daquela forma. Sinto muito.
— Era do que eu precisava. — Celaena observou a cidade de novo. — Era do que eu precisava para conseguir dizer que me mudaria.
Sam assentiu em aprovação.
— Eu... meio que deixei meus pertences em sua sala principal. Tem problema?
Ela assentiu.
— Vamos encontrar espaço para eles depois.
O jovem ficou em silêncio.
— Então, estamos livres — disse ele, por fim.
Celaena se virou para encarar Sam. Os olhos castanhos do assassino estavam vívidos.
— Também soube que pagou minha dívida — disse ele, a voz embargada. — Você... você vendeu seu cavalo Asterion para fazer isso.
— Não tive escolha. — Ela se virou no lugar no telhado, então ficou de pé. — Jamais deixaria você acorrentado a ele enquanto eu ia embora.
— Celaena. — Sam disse o nome como uma carícia e envolveu a cintura dela com um braço. O rapaz tocou a testa de Celaena com a própria. — Como vou conseguir pagar você de volta?
Ela fechou os olhos.
— Não precisa.
Sam roçou os lábios nos da assassina.
— Amo você — sussurrou Sam contra a boca da jovem. — E, de hoje em diante, nunca quero ficar longe de você. Aonde for, irei. Mesmo que signifique ir até o próprio Inferno, onde estiver, é onde quero estar. Para sempre.
Celaena colocou os braços em volta do pescoço de Sam e o beijou intensamente, respondendo em silêncio.
A distância, o sol se punha sobre a capital, transformando o mundo em luz carmesim e sombras.

3 comentários:

  1. Cara eu tô chorando e meu coração está menor q uma uva passa!

    Eles tinham q ter fugido!
    Em vez de compra apartamento e ficar com as jóias ela tinham q ter vendido tudo pegado um navio e fugido para bem longe!!!!!
    Só assim eles seriam verdadeiramente livres!!!!!

    Autora vc destroçou eu coração!!!!!

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  2. Também acho Mari!
    Nossa meu coração está em pedaços, porque Sam porque!!!! Meu Deus cada vez eu acho que era pra ele não ter morrido,eles eram perfeito juntos.

    Eu queria que acontece se uma coisa sei lá e ele voltasse dos mortos(eu to ficando louca)...
    Luto eterno Sam...
    Porque!!!!
    Eles se completavam. Esses capítulos me fazem entender o sofrimento dela...

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  3. Para o deserto vermelho
    Ass:Carla

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