8 de fevereiro de 2016

Capítulo 9

Celaena deu um passo para perto das grades. Um balde para se aliviar, um balde d’água, as migalhas da última refeição e feno bolorento que formava um colchão duro; era tudo que Kaltain havia recebido.
Tudo o que merece.
— Veio rir? — perguntou Kaltain. A voz, que um dia fora rica e culta, era pouco mais que um sussurro rouco. Estava congelando ali embaixo – era de espantar que ainda não tivesse ficado doente.
— Tenho algumas perguntas para você — disse Celaena, mantendo o tom suave. Embora os guardas não tivessem contestado seu direito de entrar nas masmorras, ela não queria que eles ouvissem.
— Estou ocupada hoje. — Kaltain sorriu, encostando a cabeça contra a parede de pedra. — Volte amanhã.
Ela parecia tão mais jovem com os cabelos de ébano livres. Não podia ser muito mais velha do que a própria Celaena.
A assassina se agachou, apoiando uma das mãos nas grades para se equilibrar. O metal estava gelado.
— O que sabe sobre Roland Havilliard?
Kaltain olhou na direção do teto de pedra.
— Ele está de visita?
— Foi nomeado para o conselho do rei.
Os olhos pretos como a noite de Kaltain encontraram os de Celaena. Havia uma pontada de loucura ali – mas também cautela e exaustão.
— Por que me pergunta sobre ele?
— Porque quero saber se ele é confiável.
Kaltain soltou uma gargalhada.
— Nenhum de nós é. Principalmente Roland. As coisas que ouvi sobre ele são suficientes para revirar até o seu estômago, aposto.
— Como o quê?
Kaltain deu um risinho.
— Me tire desta cela, e talvez eu conte.
Celaena devolveu o risinho.
— Que tal eu entrar nesta cela e encontrar outro modo de fazê-la falar?
— Não — sussurrou Kaltain, mexendo-se o suficiente para que Celaena pudesse ver os hematomas em torno dos pulsos. Pareciam desconcertantemente com impressões de mãos.
A prisioneira enfiou os braços nas dobras da saia.
— O vigia noturno vira o rosto quando Perrington me visita.
Celaena mordeu a parte interna do lábio.
— Sinto muito — disse ela, e estava sendo sincera.
Mencionaria aquilo a Chaol da próxima vez que o encontrasse; se certificaria de que ele tivesse uma conversa com o vigia noturno.
Kaltain apoiou a bochecha no joelho.
— Ele estragou tudo. E nem sei o motivo. Por que simplesmente não me manda para casa? — A voz de Kaltain adquirira um ar distante que Celaena reconhecia muito bem de seu tempo em Endovier. Depois que as memórias e a dor e também o medo tomassem conta, não haveria como conversar com ela.
Celaena perguntou, baixinho:
— Você era próxima de Perrington. Algum dia ouviu sobre os planos dele? — Uma pergunta perigosa, mas se alguém poderia contar a ela, seria Kaltain.
No entanto, a garota encarava o nada e não respondeu.
Celaena ficou de pé.
— Boa sorte.
Kaltain apenas estremeceu, enfiando as mãos debaixo do braço.
Deveria deixá-la congelar até morrer pelo que tentara fazer com ela.
Celaena deveria sair andando das masmorras, porque pelo menos uma vez a pessoa certa estava presa.
— Eles encorajam os corvos a passarem voando por aqui — murmurou Kaltain, mais para si mesma do que para Celaena. — E minhas dores de cabeça estão piorando dia a dia. Cada vez piores, e cheias de todas aquelas asas batendo.
Celaena manteve o rosto inexpressivo. Não conseguia ouvir nada – nenhum grasnido e certamente nenhuma asa batendo. Ainda que houvesse corvos, a masmorra era tão subterrânea que de maneira alguma seria possível ouvi-los ali.
— O que quer dizer?
Mas Kaltain já estava enroscada de novo, conservando o máximo de calor possível. Celaena não queria pensar em como a cela deveria ser gélida à noite; sabia como era se enroscar daquele jeito, desesperada por qualquer pingo de calor, se perguntando se acordaria de manhã ou se o frio a reivindicaria antes disso.
Sem se dar tempo para pensar duas vezes, Celaena abriu a capa preta.
Ela a atirou pelas grades, mirando cuidadosamente para evitar o vômito, seco havia muito tempo, que estava colado às pedras. Celaena também ouvira falar do vício da garota em ópio – estar trancada sem uma dose devia quase tê-la levado à insanidade, se não era louca desde o início.
Kaltain encarou a capa que havia pousado em seu colo, e Celaena deu meia-volta para retornar pelo corredor estreito e gelado até os níveis mais quentes acima.
— Às vezes — disse Kaltain, baixinho, e Celaena parou. — Às vezes acho que me trouxeram aqui. Não para me casar com Perrington, mas com outro propósito. Querem me usar.
— Usar você para quê?
— Nunca dizem. Quando descem aqui, nunca me dizem o que querem. Nem lembro. São só... fragmentos. Estilhaços de um espelho quebrado, cada um reluzindo com a própria imagem.
Ela estava louca. Celaena reprimiu a vontade de fazer uma observação pungente, o que conteve sua língua foi a lembrança dos hematomas de Kaltain.
— Obrigada pela ajuda.
Kaltain enroscou a capa de Celaena ao redor do corpo.
— Algo está vindo — sussurrou ela. — E eu devo receber essa coisa.
Celaena exalou o ar que não percebeu que estava segurando. Aquela conversa era inútil.
— Adeus, Kaltain.
A garota apenas gargalhou baixinho, e aquele som seguiu Celaena muito depois de deixar as masmorras gélidas para trás.



— Aqueles desgraçados — disparou Nehemia, apertando a xícara de chá com tanta força que Celaena achou que a princesa a quebraria. As duas estavam sentadas juntas na cama de Celaena com uma enorme bandeja de café da manhã entre elas. Ligeirinha observava cada mordida, pronta para devorar qualquer migalha perdida. — Como os guardas puderam apenas virar as costas daquele jeito? Como podem mantê-la em tais condições? Kaltain é um membro da corte, e se tratam-na dessa forma, então mal posso imaginar como tratam criminosos de outras classes. — Nehemia parou, olhando para Celaena como se pedisse desculpas.
Celaena deu de ombros e balançou a cabeça. Depois de ver Kaltain, saíra para perseguir Archer, mas uma nevasca caiu, tão forte que a visibilidade era quase impossível. Depois de uma hora tentando rastreá-lo pela cidade varrida pela neve, ela desistira e voltara para o castelo.
A tempestade se estendera pela noite, deixando um cobertor de neve profundo demais para que Celaena fizesse a caminhada matinal como de costume com Chaol. Então ela havia convidado Nehemia para tomar café da manhã na cama, e a princesa – que àquela altura estava de saco cheio de neve – ficou mais do que feliz em disparar para os aposentos de Celaena e pular para debaixo das cobertas quentes.
Nehemia apoiou o chá.
— Você precisa contar ao capitão Westfall sobre como ela está sendo tratada.
Celaena terminou de comer o scone e se recostou nos travesseiros fofos.
— Já contei. Ele cuidou disso.
Não era preciso mencionar que depois de Chaol voltar para o quarto, onde Celaena estava lendo, a túnica dele estava rasgada, os nós dos dedos estavam esfolados e havia um brilho mortal nos olhos de avelã do capitão que dizia a Celaena que a guarda da masmorra sofreria sérias mudanças... e ganharia novos integrantes.
— Sabe — ponderou Nehemia, usando o pé para gentilmente afastar Ligeirinha enquanto a cadela tentava roubar alguma comida da bandeja — as cortes nem sempre foram assim. Houve um tempo em que as pessoas valorizavam a honra e a lealdade, quando servir um rei não era uma questão de obediência e medo.
Ela balançou a cabeça, as tranças de pontas douradas tilintaram. No sol do início da manhã, a pele avelã de Nehemia era macia e linda. Sinceramente, era um pouco injusto que a princesa fosse tão bonita naturalmente, ainda mais ao amanhecer.
Nehemia continuou:
— Acho que tal honra sumiu de Adarlan há gerações, mas antes de Terrasen cair, sua corte real era aquela que estabelecia o exemplo. Meu pai me contava histórias da corte de Terrasen, dos guerreiros e lordes que serviam o rei Orlon em seu círculo íntimo, do poder, da coragem e da lealdade incomparáveis da corte dele. Foi por isso que o rei de Adarlan atacou primeiro Terrasen. Porque era a mais forte e porque, se Terrasen tivesse a chance de levantar um exército contra ele, Adarlan teria sido aniquilada. Meu pai ainda diz que se Terrasen se erguesse novamente, poderia ter uma chance; seria uma ameaça genuína a Adarlan.
Celaena olhou para a lareira.
— Eu sei. — Foi o que conseguiu dizer.
Nehemia se virou para olhar para ela.
— Acha que outra corte como aquela poderia se erguer novamente? Não apenas em Terrasen, mas em qualquer lugar? Ouvi que a corte em Wendlyn ainda segue os velhos costumes, mas estão do outro lado do oceano, e não nos ajudariam em nada. Viraram o rosto enquanto o rei escravizava nossas terras, e ainda negam qualquer chamado por ajuda.
Celaena se obrigou a rir de deboche, a gesticular com desdém.
— Esta é uma discussão muito pesada para o café da manhã. — Ela encheu a boca de torrada. Quando ousou olhar para a princesa, a expressão de Nehemia permanecia contemplativa. — Alguma novidade sobre o rei?
Nehemia estalou a língua.
— Apenas que acrescentou aquele vermezinho, Roland, ao conselho, e o lorde parece ter recebido a tarefa de cuidar de mim. Aparentemente, ando muito insistente com o ministro Mullison, o conselheiro responsável por cuidar do campo de trabalhos forçados de Calaculla. Roland deveria me aplacar.
— Não sei se me sinto pior por você ou por Roland.
Nehemia deu um soco de mentira na lateral de Celaena, que riu, afastando a mão da princesa. Ligeirinha usou a distração temporária das duas para roubar um pedaço de bacon da bandeja, e Celaena gritou:
— Sua ladrazinha descarada!
Mas Ligeirinha saltou da cama, se aninhou diante da lareira e encarou a dona enquanto engolia o restante do bacon.
Nehemia riu, e Celaena se pegou juntando-se à princesa antes de jogar mais um pedaço de bacon para a cadela.
— Vamos ficar o dia todo na cama — falou Celaena, se atirando de volta nos travesseiros e se aninhando nas cobertas.
— Eu certamente queria poder — respondeu Nehemia, suspirando alto. — Infelizmente, tenho coisas a fazer.
E Celaena também tinha, ela percebeu. Como se preparar para o jantar com Archer naquela noite.

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