28 de fevereiro de 2016

Capítulo 9

Depois que Aelin escreveu uma maldita carta para Arobynn e enviou através de um dos seus meninos de rua ferozes, a fome a fez deixar o apartamento na manhã cinzenta. Com os ossos cansados, ela procurou café da manhã, buscando comprar o suficiente para o almoço e jantar, e retornando para o depósito uma hora mais tarde. Chegando, encontrou uma grande caixa esperando na mesa de jantar.
Não havia sinal de a fechadura ter sido adulterada, nenhuma das janelas estava mais aberta de quando ela as abriu naquela manhã para que uma brisa do rio entrasse.
Mas ela não esperava menos de Arobynn – nada menos do que um lembrete de que ele poderia ser o rei dos Assassinos, mas possuía garras e mortos em seu caminho para o trono.
Pareceu oportuno, de alguma forma, que o céu se abrisse naquele momento, o tamborilar e tilintar da água da chuva afastando o silêncio demasiadamente pesado da sala.
Aelin puxou a fita de seda esmeralda em torno da caixa cor creme até que ela se soltou.
Deixando de lado a tampa, ela olhou para o tecido ali dentro por um longo momento. Leu o bilhete colocado sobre ele: Tomei a liberdade de fazer algumas melhorias desde a última vez. Que o jogo comece.
Sua garganta apertou, mas ela tirou a roupa preta e justa da caixa, grossa e flexível como o couro, mas sem o brilho e o aperto. Sob o traje dobrado estava um par de botas. Elas haviam sido limpas desde a última vez que ela usara anos atrás, o couro preto ainda flexível e maleável, as ranhuras especiais e lâminas escondidas tão precisas como nunca.
Ela levantou a manga da pesada roupa para revelar as luvas internas que ocultavam finas espadas cruéis em seu antebraço.
Ela não tinha visto aquele equipamento, não tinha usado desde... ela olhou para o lugar vazio em cima da lareira. Outro teste – um silencioso, para ver o quanto ela iria perdoar e esquecer, o quanto ela teria estômago para trabalhar com ele.
Arobynn pagara pelo traje anos antes, uma taxa exorbitante exigida por um mestre de Melisande que havia trabalhado nele à mão, feito exatamente para suas medidas. Ele insistiu que seus dois melhores assassinos fossem equipados nas furtivas vestimentas letais, de modo que a dela foi um presente, um dos muitos que ele despejou sobre ela como reparação por espancá-la e depois despachá-la para o deserto Vermelho. Ela e Sam, ambos tinham levado surras brutais por sua desobediência, mas Arobynn fizera Sam pagar por seu traje. E então lhe deu empregos de segunda categoria para impedi-lo de pagar rapidamente a sua dívida.
Ela colocou o traje de volta na caixa e começou a despir-se, respirando o cheiro da chuva em pedra que flutuava pelas janelas abertas.
Oh, ela poderia fingir ser a protegida dedicada novamente. Poderia fingir e seguir o plano que ela criou – teria que modificá-lo um pouco, apenas o suficiente. Ela mataria quem quer que fosse necessário, se venderia, se destruiria, se isso significasse a segurança de Aedion.
Dois dias – apenas dois dias até que ela pudesse vê-lo novamente, até que pudesse ver com seus próprios olhos que ele conseguira, que ele sobrevivera todos esses anos em que tinham se separado. E mesmo que Aedion a odiasse, cuspisse nela como Chaol praticamente fizera... Ainda valeria a pena.
Nua, ela entrou no traje, o material liso sussurrando contra sua pele.
Típico de Arobynn não mencionar as modificações que ele fizera, tornar um enigma letal para ela resolver, se ela fosse inteligente o suficiente para sobreviver.
Ela dançou com ele, com o cuidado de evitar acionar o mecanismo que mantinha aquelas lâminas escondidas, e todas as outras armas ou truques. Era o trabalho para outro momento antes que a roupa a envolvesse completamente, e ela dobrou seus pés dentro das botas.
Quando foi para o quarto, ela já podia sentir o reforço adicionado a cada ponto fraco que possuía. As especificações deviam ter sido enviadas meses antes de o traje chegar, pelo homem que, de fato, sabia sobre o joelho que às vezes incomodava, as partes do corpo que eram favorecidas em combate, a velocidade com que ela se movia. Todo o conhecimento de Arobynn sobre ela, envolvendo-a em um tecido de aço e escuridão. Ela fez uma pausa em frente ao espelho, de pé contra a parede do quarto.
Uma segunda pele. Talvez menos escandalosa pelo detalhamento requintado, o acolchoamento extra, os bolsos, as partes decoradamente blindadas – mas não havia um centímetro deixado para a imaginação. Ela soltou um assobio. Muito bem, então.
Ela poderia ser Celaena Sardothien novamente – um pouco mais, até que este jogo estivesse terminado.
Ela podia ver o que já pairava sobre ela, antes mesmo dos cascos e rodas pararem na frente do armazém, ao ouvir o som ecoar pelas janelas abertas.
Duvidava que Arobynn fosse aparecer tão cedo para regozijar – não, ele esperaria até que ela aprendesse o que realmente o traje podia fazer.
Isso fazia com que fosse outra pessoa se incomodando em passar por ali, embora duvidasse que Chaol desperdiçaria dinheiro em uma carruagem, mesmo na chuva. Mantendo-se longe da vista, ela olhou para fora da janela através do aguaceiro, vendo os contornos do transporte anônimo. Não havia ninguém na rua chuvosa para observá-lo e nenhum sinal de quem poderia estar dentro.
Indo para a porta, Aelin sacudiu seu pulso, liberando a lâmina em seu braço esquerdo. Não houve nenhum som quando ela deslizou da ranhura escondida na luva, o metal brilhando sob a luz chuva turva.
Deuses, o traje era tão maravilhoso quanto no primeiro dia em que ela o usara. A lâmina cortava tão suavemente pelo ar como quando ela mergulhava em seus alvos.
Seus passos e o tamborilar da chuva no telhado do armazém eram os únicos sons enquanto ela descia as escadas, então saía entre as caixas empilhadas no piso principal.
Com o braço esquerdo dobrado para esconder a lâmina sob seu manto, ela puxou a grande porta de correr do armazém para revelar os véus da chuva correndo além. Uma mulher esperava sob o toldo estreito, uma carruagem de aluguel sem marcações parada atrás dela no meio-fio. O condutor observava cuidadosamente, chuva pingando da ampla borda de seu chapéu.
Não um olhar treinado – apenas considerando a mulher que o contratou. Mesmo na chuva, a capa era de um profundo cinza, o tecido limpo e grosso o suficiente para sugerir muito dinheiro, apesar da carruagem.
O capuz pesado escondia o rosto da estranha na sombra, mas Aelin vislumbrou a pele de marfim, cabelos escuros e luvas de veludo fino sob a capa – segurando uma arma?
— Comece explicando — disse Aelin, inclinando-se contra a porta — ou você virará ração para ratos.
A mulher voltou para a chuva – não para trás, exatamente, mas em direção à carruagem, onde Aelin observou a pequena forma de uma criança esperando lá dentro. Encolhida.
A mulher disse:
— Eu vim para avisá-la — e puxou o capuz para trás apenas o suficiente para revelar seu rosto.
Olhos grandes e verdes ligeiramente erguidos, lábios sensuais, maçãs do rosto proeminentes e um nariz petulante combinados para criar uma beleza impressionante e rara que levava os homens a perderem todo o senso comum.
Aelin deu um passo sob o toldo estreito e falou lentamente:
— Se minha memória me serve, Lysandra, eu a avisei que se alguma vez a visse de novo, eu a mataria.



— Por favor — implorou Lysandra.
Essas palavras – o desespero por trás delas – fez Aelin deslizar a lâmina de volta para a bainha.
Nos nove anos em que conhecera a cortesã, nunca ouviu Lysandra dizer por favor, ou parecer desesperada por nada. Frases como “obrigada”, “por favor”, ou até mesmo “ que bom vê-la” nunca foram pronunciadas por Lysandra para Aelin.
Elas poderiam ter sido amigas tão facilmente quanto era inimigas – ambas órfãs, ambas encontradas por Arobynn quando crianças. Mas Arobynn entregara Lysandra à Clarisse, sua boa amiga e dona um bordel bem-sucedido. E embora Aelin tivesse sido treinada para matar nos campos e Lysandra nos quartos, elas de alguma forma cresceram rivais, arranhando-se pelo favor de Arobynn.
Quando Lysandra fez dezessete anos e teve seu leilão, foi Arobynn quem venceu, usando o dinheiro que Aelin lhe dera para pagar suas próprias dívidas. A cortesã então jogara em seu rosto o que Arobynn fizera com o sangue de Aelin. E Aelin jogara algo de volta para ela: um punhal. Elas não se viram desde então.
Aelin percebeu que era perfeitamente justificado, puxando o capuz para revelar seu próprio rosto e dizendo:
— Eu levaria menos de um minuto para matar você e seu condutor, e para me certificar de que sua pequena protegida na carruagem não diria um pio sobre isso. Ela provavelmente ficaria feliz em vê-la morta.
Lysandra endureceu.
— Ela não é minha protegida, e não está em treinamento.
— Então ela é servir de escudo contra mim? — o sorriso de Aelin era afiado.
— Por favor, por favor — disse Lysandra através da chuva — Eu preciso falar com você, apenas por alguns minutos, onde for seguro.
Aelin observou suas roupas finas, a carruagem contratada, a chuva sobre os paralelepípedos. Tão típico de Arobynn jogar aquilo para ela. Mas ela o deixaria jogar esta rodada; ver aonde ele queria chegar. Aelin apertou a ponte do nariz com dois dedos, em seguida, levantou a cabeça.
— Você sabe que terei que matar o seu condutor.
— Não, você não tem! — gritou o homem, lutando para agarrar as rédeas. — Juro... Juro que não vou falar uma palavra sobre este lugar.
Aelin perseguiu ao cabriolé, a chuva encharcando instantaneamente sua capa. O motorista poderia informar a localização do armazém, poderia pôr tudo em risco, mas... Aelin olhou para a licença para a carruagem salpicada de chuva emoldurada pela porta, iluminada por uma pequena lanterna pendurado acima.
— Bem, Kellan Oppel da Baker Street, sessenta e três, apartamento dois, acho que você não vai contar a ninguém.
Branco como a morte, o condutor acenou com a cabeça.
Aelin abriu a porta da carruagem, dizendo à criança:
— Saia. Saia daí, agora.
— Evangeline pode esperar aqui — sussurrou Lysandra.
Aelin olhou por cima do ombro, chuva respingando em seu rosto enquanto seus lábios repuxavam-se para cima de seus dentes.
— Se você pensa por um momento que vou deixar uma criança sozinha em uma carruagem alugada nas favelas, pode voltar direto para o buraco de onde saiu — ela olhou para a carruagem novamente e disse para a menina encolhida: — Vamos lá, você. Eu não vou morder.
Isso pareceu ser garantia suficiente para Evangeline, que chegou mais perto, a luz da lanterna dourando sua mãozinha de porcelana antes de ela agarrar o braço de Aelin e pular de dentro da cabine. Não mais do que onze anos, ela era delicada, seu cabelo avermelhado trançado para trás para revelar olhos dourados que devoraram a rua encharcada e as mulheres diante dela. Tão impressionante quanto sua mestra, ou teria sido, se não fossem as profundas cicatrizes irregulares em ambas as bochechas. Cicatrizes que explicavam a hedionda tatuagem na parte interna do pulso da garota. Ela fora uma das aprendizes de Clarisse, até que foi marcada e perdeu todo o valor.
Aelin piscou para Evangeline e disse com sorriso conspirador quando ela a levou através da chuva:
— Você se parece com o meu tipo de pessoa.



Aelin abriu o resto das janelas para deixar a brisa refrigerada da chuva entrar no apartamento abafado. Felizmente, ninguém tinha aparecido na rua nos minutos que ficou lá fora, mas se Lysandra estava aqui, ela não tinha dúvida de que voltaria para Arobynn.
Aelin deu um tapinha na poltrona diante da janela, sorrindo para a menina com as cicatrizes brutais.
— Este é o meu lugar favorito para sentar em todo o apartamento, quando há uma brisa agradável vindo da janela. Se quiser, tenho um livro ou dois que acho que você gostaria. Ou — ela apontou para a cozinha à direita — você pode encontrar algo delicioso na cozinha, como tortas picantes de mirtilo, eu acho — Lysandra estava dura, mas Aelin particularmente não dava à mínima quando acrescentou para Evangeline: — você escolhe.
Como uma criança em um bordel de alta classe, Evangeline provavelmente tinha muito poucas opções em sua curta vida. Os olhos verdes de Lysandra pareceram suavizar um pouco, e Evangeline respondeu, com a voz quase inaudível acima do tamborilar da chuva no telhado e janelas:
— Eu gostaria de uma torta, por favor. — Um momento depois, ela se foi.
Menina esperta – saber ficar fora do caminho da patroa.
Com Evangeline ocupada, Aelin tirou a capa encharcada e usou a pequena parte seca restante para limpar o rosto molhado. Mantendo seu pulso pronto o caso fosse necessário desembainhar a lâmina escondida, Aelin apontou para o sofá em frente à lareira apagada e pediu a Lysandra:
— Sente-se.
Para sua surpresa, a mulher obedeceu, mas, em seguida, disse:
— Ou você vai ameaçar me matar de novo?
— Eu não faço ameaças. Somente promessas.
A cortesã caiu contra as almofadas do sofá.
— Por favor. Como vou levar qualquer coisa que saia da sua boca grande a sério?
— Você levou a sério quando atirei um punhal em sua cabeça.
Lysandra lhe deu um pequeno sorriso.
— Você errou.
Era verdade, mas ela ainda roçou a orelha da cortesã. Tanto quanto ela tinha sido em causa, fora merecido.
Mas era uma mulher sentada diante dela, as duas eram mulheres agora, não as meninas que tinham sido aos dezessete anos. Lysandra a olhou de cima a baixo.
— Eu prefiro você loira.
— E eu prefiro que você dê o fora da minha casa, mas não parece provável que isso aconteça em breve. — Ela olhou para a rua abaixo; a carruagem permanecia, como solicitado. — Arobynn não poderia enviar uma de suas carruagens? Pensei que ele estivesse pagando generosamente.
Lysandra acenou com a mão, a luz das velas refletindo uma pulseira de ouro que mal cobria a tatuagem de cobra carimbada em seu pulso delgado.
— Recusei sua carruagem. Pensei que daria a impressão errada.
Tarde demais para isso.
— Ele te mandou, então. Para me avisar sobre o que, exatamente?
— Ele me enviou para contar-lhe o seu plano. Ele não confia em mensageiros nos dias de hoje. Mas a advertência vem de mim.
Uma mentira absoluta, sem dúvida. Mas aquela tatuagem – o sinete do bordel de Clarisse, gravado na carne de todas as suas cortesãs do momento em que foram vendidas em sua casa... A menina na cozinha, o condutor abaixo – aquilo poderia tornar tudo muito, muito difícil se ela eviscerasse Lysandra. Mas o punhal era tentador desde que viu a tatuagem.
Não a espada, não, ela queria a intimidade de uma faca, queria compartilhar o último ar com a cortesã quando ela parasse de respirar.
— Por que você ainda tem o sinete de Clarisse tatuado em você? — Aelin perguntou muito calmamente.
Não confie em Archer, Nehemia tentou avisá-la, desenhando uma representação perfeita da cobra em sua mensagem codificada. Mas o que significaria qualquer outra pessoa com esse símbolo? Os anos em que Aelin conhecera Lysandra... Duas caras, mentirosa e conivente estavam entre as palavras mais agradáveis que Aelin usara para descrevê-la.
Lysandra franziu o cenho para ela.
— Nós não somos liberadas até que paguemos nossas dívidas.
— Da última vez que vi sua carcaça prostituída, foi semanas depois de pagá-las. — Na verdade, Arobynn pagara tanto no leilão há dois anos que Lysandra deveria ter sido liberada quase que imediatamente.
Os olhos da cortesã piscaram.
— Você tem um problema com a tatuagem?
— Aquele pedaço de merda do Archer Finn tinha uma — eles pertenciam à mesma casa, à mesma senhora. Talvez eles trabalhassem juntos em outros aspectos também.
Lysandra sustentou o olhar dela.
— Archer está morto.
— Porque eu o eviscerei — Aelin disse docemente.
Lysandra apoiou uma mão na parte de trás do sofá.
— Você — ela prendeu a respiração. Mas então balançou a cabeça e disse baixinho: — Bom. Bom que você o tenha matado. Ele era um porco a serviço próprio
Poderia ser uma mentira para conquistá-la.
— Diga logo o que quer e saia.
A boca sensual de Lysandra se apertou. Mas ela explicou o plano de Arobynn para libertar Aedion.
Ele era brilhante, se Aelin fosse honesta – e inteligente e dramático e corajoso. Se o rei de Adarlan queria fazer um espetáculo da execução de Aedion, eles fariam um espetáculo de seu resgate. Mas contá-lo através de Lysandra, transformá-la em outra pessoa que poderia traí-la ou testemunhar contra ela... era mais um lembrete de quão facilmente o destino de Aedion poderia ser selado, se Arobynn decidisse tornar a vida de Aelin um inferno.
— Eu sei, eu sei — disse a cortesã, vendo um brilho frio nos olhos de Aelin. — Você não precisa me lembrar de que vai me esfolar viva se eu traí-la.
Aelin sentiu um músculo em sua bochecha tremer.
— E o aviso você tem para me dar?
Lysandra mexeu-se no sofá.
— Arobynn queria que eu lhe contasse o plano para que eu pudesse verificá-la - testá-la, ver o quanto está do lado dele, ver se vai traí-lo.
— Eu ficaria decepcionada se ele não o tivesse feito.
— Acho que... acho que ele também me enviou aqui como uma oferta.
Aelin sabia o que ela queria dizer, mas respondeu:
— Infelizmente para você, eu não tenho interesse em mulheres. Mesmo quando elas são pagas.
As narinas de Lysandra inflaram delicadamente.
— Acho que ele me enviou aqui para que você pudesse me matar. Como um presente.
— E você veio me pedir para reconsiderar? — Não era de admirar que ela trouxesse a criança, então. Covarde egoísta, usar Evangeline como um escudo. Trazer uma criança ao mundo deles.
Lysandra olhou para a faca amarrada à coxa de Aelin.
— Mate-me se quiser. Evangeline já sabe do que suspeito, e não vou dizer uma palavra.
Aelin esperava que seu rosto fosse uma máscara de calma glacial.
— Mas eu vim para avisá-la — Lysandra continuou. — Ele pode oferecer-lhe presentes, pode ajudá-la com esse resgate, mas ele tem te vigiado – e tem os seus próprios planos. Esse favor que ofereceu a ele, ele não me disse o que é, mas é provável que seja uma armadilha, de uma forma ou de outra. Eu consideraria se a ajuda dele vale a pena, e veria se você pode sair sem ela.
Ela não o faria – não podia. Não por cerca de uma dúzia de razões diferentes.
Quando Aelin não respondeu, Lysandra respirou fundo.
— Eu também vim para dar-lhe isso. — Ela estendeu a mão para as dobras de seu rico vestido índigo, e Aelin sutilmente deslocou para uma posição defensiva.
Lysandra simplesmente puxou para fora um envelope desgastado e murcho e cuidadosamente colocou-o sobre a mesa baixa diante do sofá. Ela balançou com o movimento.
— Isto é para você. Por favor, leia.
— Então você é prostituta e garota de recados de Arobynn agora?
A cortesã recebeu o tapa verbal.
— Isto não é de Arobynn. É de Wesley — Lysandra parecia afundar no sofá, e houve uma tristeza indizível em seus olhos por um momento que Aelin acreditou.
— Wesley — repetiu Aelin. — Guarda-costas de Arobynn. Aquele que passou a maior parte de seu tempo me odiando, e no resto contemplando maneiras de me matar — a cortesã assentiu. — Arobynn assassinou Wesley por matar Rourke Farran.
Lysandra se encolheu.
Aelin olhou para o envelope antigo. Lysandra baixou o olhar para suas mãos, apertou-as com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos como ossos.
Linhas desgastadas marcaram o envelope, mas o selo lascado ainda estava inteiro.
— Por que você vem carregando uma carta para mim de Wesley por quase dois anos?
Lysandra ergueu o olhar, e sua voz falhou enquanto ela falava:
— Porque eu o amava muito. — Bem, essa era a última coisa que ela esperava que Lysandra dissesse. — Começou como um erro. Arobynn ia me mandar de volta para Clarisse com ele na carruagem como acompanhante, e no início, éramos apenas amigos. Nós conversávamos, e ele não esperava nada. Mas então... Sam morreu, e você... — Lysandra apontou a carta com o queixo, ainda lacrada entre eles. — Está tudo ai dentro. Tudo o que Arobynn fez, tudo o que ele planejava. O que ele pediu para Farran fazer com Sam, o que ele ordenou que fosse feito com você. Tudo isso. Wesley queria que você soubesse, porque queria que você entendesse, precisava entender, Celaena, que ele não sabia até que fosse tarde demais. Ele tentou pará-lo, e fez o melhor que pôde para vingar Sam. Se Arobynn não o tivesse matado... Wesley estava planejando ir para a Endovier tirá-la de lá. Ele chegou a ir ao mercado negro para encontrar alguém que conhecia as minas, e tinha um mapa delas. Eu ainda o tenho. Como prova. Eu... Eu posso ir buscá-lo...
As palavras a acertaram como uma saraivada de flechas, mas compartimentalizou a tristeza por um homem que nunca considerara como nada além de um dos cães de Arobynn. Ela colocaria isso como uma tentativa de Arobynn, para compensar toda essa história levá-la a confiar na mulher. A Lysandra que ela conhecia ficaria mais do que feliz em fazê-lo. E Aelin poderia seguir com isso apenas para saber aonde iria levá-la, o que Arobynn estaria disposto a revelar para tê-la ao seu lado, mas...
O que ele pediu para Farran fazer com Sam.
Ela sempre assumiu que Farran torturara Sam da forma como tanto gostava de machucar e quebrar pessoas. Mas Arobynn pedir que coisas específicas fossem feitas com Sam... era bom que ela não tivesse a sua magia. Bom que tivesse sido sufocada.
Porque ela poderia irromper em chamas e incendiar e queimar durante dias, encapsulada em seu fogo.
— Então você veio para cá — Aelin falou, quando Lysandra discretamente enxugou os olhos com um lenço — para me dizer que Arobynn poderia estar me manipulando e me alertar porque você finalmente percebeu o monstro que Arobynn verdadeiramente é depois de ele ter matado o seu amante?
— Eu jurei a Wesley que lhe entregaria pessoalmente essa carta.
— Bem, você a entregou, pode sair.
Passos leves soaram, e Evangeline entrou da cozinha, correndo para sua senhora com uma graça calma e ágil. Com ternura surpreendente, Lysandra escorregou um braço reconfortante em torno Evangeline quando se levantou.
— Entendo, Celaena, mas eu lhe imploro: leia esta carta. Por ele.
Aelin mostrou os dentes.
Saia.
Lysandra caminhou até a porta, mantendo-se e a Evangeline a uma distância saudável de Aelin. Ela parou na porta.
— Sam era meu amigo, também. Ele e Wesley foram meus únicos amigos. E Arobynn matou os dois.
Aelin apenas levantou a sobrancelha.
Lysandra não se incomodou com um adeus quando desapareceu pelas escadas.
Mas Evangeline permaneceu no limiar, olhando entre mulher desaparecendo e Aelin, seu lindo cabelo brilhando como cobre líquido.
Em seguida, a menina apontou para seu rosto cheio de cicatrizes e falou:
— Ela fez isso comigo.
Foi um esforço se manter sentada, não pular escadas abaixo e cortar a garganta de Lysandra.
Mas Evangeline continuou:
— Eu chorei quando minha mãe me vendeu para Clarisse. Chorei e chorei. E acho que Lysandra tinha irritado a dona naquele dia, porque eles me deram a ela como uma aprendiz, embora ela estivesse a semanas de pagar as próprias dívidas. Naquela noite, eu deveria começar a treinar, e chorei tanto que eu fiquei doente. Mas Lysandra cuidou de mim. Ela me disse que havia uma saída, mas que ia doer, e eu não seria a mesma. Eu não podia fugir, porque ela tinha tentado algumas vezes quando tinha a minha idade, e eles a encontraram e machucaram onde ninguém podia ver.
Ela nunca teve conhecimento, nunca imaginou. Todas as vezes que ela zombara e escarnecera Lysandra enquanto elas cresciam...
Evangeline continuou:
— Eu disse que faria qualquer coisa para sair, pelo que as outras meninas tinham me contado. Então, ela me disse para confiar nela e, então me deu isso. Ela começou a gritar alto o suficiente para que os outros viessem correndo. Eles pensaram que ela me cortou de raiva, e disse que ela tinha feito isso para me impedir de ser uma ameaça. E ela as deixou acreditar. Clarisse ficou tão louca que bateu em Lysandra no pátio, mas Lysandra não chorou, nenhuma vez. E quando o curandeiro disse que meu rosto não podia voltar a ser como era, Clarisse fez Lysandra me comprar pelo preço que eu teria custado se tivesse sido uma cortesã completa, como ela.
Aelin não tinha palavras.
— É por isso que ela ainda está trabalhando para Clarisse, por que ainda não é livre e não será por um tempo. Pensei que você deveria saber.
Aelin queria dizer a si mesma para não confiar na menina, que isso poderia ser parte do plano de Lysandra e Arobynn, mas... Havia uma voz em sua cabeça, em seus ossos, que sussurrava para ela o tempo todo, cada vez mais claro e mais alto: Nehemia teria feito o mesmo.
Evangeline fez uma mesura e desceu as escadas, deixando Aelin encarando o envelope desgastado. Se ela mesma poderia mudar tanto em dois anos, talvez assim pudesse Lysandra.
E por um momento, ela se perguntou como a vida de outra jovem teria sido diferente se ela tivesse parado para falar com ela, realmente falar com Kaltain Rompier, em vez de dispensá-la como uma nobre insípida. O que teria acontecido se Nehemia tivesse tentado ver além da máscara Kaltain também.
Evangeline estava subindo na carruagem – a chuva brilhando na lateral de Lysandra quando Aelin apareceu na porta do armazém e falou:
— Espere.

15 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira28 de fevereiro de 2016 20:57

    Ai que triste, mano, vamos chorar, cara, velho, coitada das duas. Qual o problema da Celaena, ela nunca escuta os outros, ela não escuta o Chaol, a Lysandra, o Dorian, o Archer, o Rowan, ninGUÉM, EU NÃO ENTENDO ISSO!!!!!!!!

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    1. Finalmente mais alguém viu quem/como ela é.... Finalmente... Eu estava começando a achar que estava louco.
      São por essas coisas que eu acho ela uma vaca.

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  2. E por que ela não sabe em quem confiar

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  3. Ela também foi bastante mimada como princesa e isso faz com que ela seja extremamente egoísta, achar que só ela tem razão.

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  4. Pois é , mas em contrapartida quando ela confia em alguém ela se sacrifica ao máximo , não podemos esquecer disso.

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  5. Ela cpnfia nos outros sim ela confiou no acher e ele traiu ela ela tem motivos pra desconfiar eu teria .

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  6. se voce confia em pessoas significa que voce faria qualquer coisa por elas, com ela ñ é diferente, ela confiou na Nehemia, e ela enganou a cel, ela confiou no rei dos assassinos, e ele enganou ela.... ñ é de se esperar que ela seja desconfiada de tudo e de todos.

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  7. Karina essa parte aq tá errado "Aelin olhou para o envelope ntigo."

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    1. Ih, vou corrigir, Thalita, obrigada :)

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  8. Pelo amor de deus parem de chama a celaena/aelin de vaca se vcs perceberem a vida dela não foi facil como a de alguns personagens. Ela tentava não se apegar a ninguem pelos motivos:
    Primeiro ela era e é uma assasina teria de ter sangue frio nem gostar do arobin (eu não ligo se o nome estiver errado porque ele não merece uma palavra minha por tudo que fez com san) ela gosta e sempre tinha alguem querendo a morte dela ja que ela era a preferida
    Segundo: se vcs ,caso não perceberam, todos que ela amava coriam perigo e perde pessoas de quem gosta é ,como todos concordariam, mais que orrivel e na profissa dera não se pode dar bobeira olha so o que aconteceu quando pessoas prossimas dela morreram
    Tercero: vcs não pordem pedir pra uma pessoa ser feliz com "deus e o mundo" quando vc é obrigado a matar pessoas e receber olhares de ciume e odio daqueles que deveriam ser ao menos conpanjeiros de trebalho (to falando dos outros a mando de arobin)

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  9. Gente,vcs xingando a Aelin de vaca e egoísta AHAHAHAHAHAHA quantas vezes ela nao acreditou nas pessoas e se f*,em? Cara,na boa,nao vou nem perder meu tempo
    -R

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  10. Ridículo chamarem Celaena de vaca, de mimada, puts. Vocês parecem que não leram a história dela, de como ela sofreu e foi traída por diversas pessoas, ela confiou no Archer Finn e por causa dele que Nehemia morreu, confiou na Nehemia e ela própria planejou a morte dela, confiou no Chaol e ele vai e esconde dela que tinha gente ameaçando a vida de Nehemia só pq o rei dele pediu discrição, SIM, na época ele via o rei de adarlan como o Rei dele, e não Dorian como agr ele fala. Fora as traições que ela teve desde que fez 9 anos, Arobbyn matar Sam. E agora vcs querem que ela escute esse povo? Ela tem que ter receio mesmo de abrir seu coração p esse povo. O único que demonstrou fidelidade à ela foi Rowan, que fez um juramento de sangue com ela logo após de ter se livrado de um. E Aedion se mostra bem ligado à ela tbm. O resto? O resto só lasca com ela KK a personagem sofreu tudo que tinha p sofrer pra agr vcs ficarem xingando ela
    Ela é a personagem feminina na minha opinião, de todos os livros que conheço (e olha que não são poucos) mais guerreira que conheço, não precisa da ajuda de ninguém para encarar o problema de frente, é a personagem mais independente que já conheci, e é justamente por isso que me apaixonei por ela desde o primeiro livro de Trono de Vidro <3

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    1. Concordo, Thalissa! Cel tem seus motivos pra ser do jeito que é

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