29 de fevereiro de 2016

Capítulo 88

Com Rowan circulando no alto da torre do relógio, e sua partida prevista para o amanhecer, Aelin decidiu fazer uma última visita ao túmulo de Elena, quando o relógio bateu meia-noite.
Seus planos, no entanto, foram arruinados: o caminho para o túmulo estava bloqueado por destroços da explosão. Ela passou quinze minutos procurando uma maneira de entrar, usando ambas as mãos e a magia, mas não teve sorte. Rezou para Mort não ter sido destruído – embora talvez a aldrava em forma de caveira tivesse abraçado o fim de sua estranha existência imortal.
Os esgotos de Forte da Fenda, aparentemente, estavam tão limpos de valg quanto os túneis e catacumbas do castelo, como se os demônios tivessem fugido para a noite quando o rei caiu. Pelo momento, Forte da Fenda estava segura.
Aelin emergiu da passagem escondida, limpando a poeira de cima dela.
— Vocês dois fazem tanto barulho, é ridículo.
Com sua audição feérica, ela os detectara minutos atrás.
Dorian e Chaol estavam sentados diante da lareira dela, o último em uma cadeira de rodas especial que arrumaram para ele. O rei olhou para suas orelhas pontudas, os caninos alongados e levantou uma sobrancelha.
— Você parece bem, Majestade.
Ela supôs que ele realmente não tinha notado naquele dia na ponte de vidro, e ela permanecera em sua forma humana até agora. Ela sorriu.
Chaol virou a cabeça. Seu rosto estava magro, mas uma centelha de determinação brilhava lá. Esperança. Ele não deixaria sua lesão destruí-lo.
— Eu sempre tive uma boa aparência — respondeu Aelin, jogando-se na poltrona em frente de Dorian.
— Encontrou algo de interessante lá embaixo? —  perguntou Chaol.
Ela balançou a cabeça.
— Percebi que não faria mal olhar uma última vez. Por causa dos velhos tempos.
E talvez arrancar a cabeça de Elena com uma mordida. Depois que ela tivesse as respostas para todas as suas perguntas. Mas a antiga rainha estava longe de ser encontrada.
Os três se entreolharam, e fez-se silêncio. A garganta de Aelin queimava, então ela se virou para Chaol e disse:
— Com Maeve e Perrington respirando em nosso pescoço, podemos precisar de aliados mais cedo ou mais tarde, especialmente se as forças em Morath bloquearem o acesso a Eyllwe. Um exército do Continente Sul poderia cruzar o Mar Estreito dentro de alguns dias, fornecendo reforços e empurrando Perrington a partir do sul enquanto nós martelamos do norte — ela cruzou os braços. — Então, eu o nomeio um embaixador oficial de Terrasen. Não me importo com o que Dorian diga. Faça amizade com a família real, atraia-os, beije suas bundas, faça o que tem que fazer. Mas precisamos dessa aliança.
Chaol olhou para Dorian – um pedido silencioso.
O rei acenou com a cabeça, apenas um mergulho de seu queixo.
— Eu vou tentar — era a melhor resposta que podia esperar. Chaol enfiou a mão no bolso de sua túnica e jogou o Olho em direção a ela. Ela pegou o colar com uma mão. O metal tinha sido deformado, mas a pedra azul permanecia ali. — Obrigado — ele falou com voz rouca.
— Ele o esteve usando por meses — Dorian falou quando ela enfiou o amuleto no bolso — mas nunca reagiu, mesmo no perigo. Por que agora?
A garganta de Aelin se apertou.
— Coração corajoso — disse ela. — Elena me disse uma vez que um coração corajoso era raro e que eu deveria deixar que ele me guiasse. Quando Chaol escolheu por... — ela não conseguiu formar as palavras. Tentou novamente. — Acho que a coragem o salvou, fez o amuleto viver para ele.
Fora uma aposta, e uma tola, mas tinha funcionado. O silêncio caiu novamente.
— Então, aqui estamos nós — Dorian falou.
— O fim da estrada — disse Aelin com um meio sorriso.
— Não — discordou Chaol, seu próprio sorriso fraco, hesitante. — O início da próxima.



Na manhã seguinte, Aelin bocejou enquanto se inclinou contra a égua cinza no pátio do castelo.
Uma vez que Dorian e Chaol a deixaram na noite passada, Lysandra entrou e desmaiou em sua cama sem nenhuma explicação do porquê ou o que ela fazia de antemão. E uma vez que ela estava completamente inconsciente, Aelin acabou subindo na cama ao lado dela. Ela não tinha ideia de onde Rowan passara a noite, mas não teria se surpreendido ao olhar pela janela e ver um falcão de cauda branca empoleirado na grade da varanda.
Ao amanhecer, Aedion entrara explodindo, exigindo por que eles não estavam prontos para sair – para ir para casa.
Lysandra se transformara num leopardo fantasma e perseguiu-o para fora. Em seguida, voltou, demorando-se em sua forma felina e maciça, e se esparramou ao lado Aelin mais uma vez. Eles conseguiram mais trinta minutos de sono antes de Aedion voltar e jogar um balde de água sobre elas.
Ele teve sorte de escapar com vida.
Mas ele estava certo – eles tinham poucos motivos para ficar. Não com tanta coisa para fazer no norte, tanto para planejar e curar e supervisionar.
Eles viajariam até o anoitecer, onde pegariam Evangeline com o pai de Faliq e depois continuariam para o norte, seguindo ininterruptamente, até que chegassem a Terrasen.
Casa.
Ela estava indo para casa.
O medo e a dúvida enrolavam em seu intestino – mas a alegria piscava ao lado deles.
Eles se prepararam rapidamente, e agora tudo o que restava, supôs, era dar adeus.
Os ferimentos de Chaol tornaram as escadas impossíveis, mas ela foi em seu quarto naquela manhã para dizer adeus – apenas para encontrar Aedion, Rowan e Lysandra já lá, conversando com ele e Nesryn. Quando eles saíram, Nesryn seguindo-os para fora, o capitão apenas apertara a mão de Aelin e perguntou:
— Posso ver?
Ela sabia o que ele queria dizer, e tinha erguido as mãos diante dela. Fitas, plumas e flores de fogo vermelho e dourado dançaram através de seu quarto, brilhantes, gloriosas e elegantes. Os olhos de Chaol estavam revestidos com prata quando as chamas se apagaram.
— É lindo — disse ele, por fim.
Ela apenas sorriu para ele e deixou uma rosa dourada de chama ardente em sua mesa de cabeceira – onde queimaria sem calor até que ela estivesse fora de alcance.
E para Nesryn, que havia sido nomeada capitã da Guarda, Aelin deixou outro presente: uma flecha de ouro maciço, ganhada em seu último Yule, mas como uma bênção de Deanna – sua própria antepassada. Aelin percebeu que a atiradora gostaria e apreciaria aquela flecha mais do que ela jamais aproveitaria, de qualquer maneira.
— Você precisa de mais alguma coisa? Mais comida? — perguntou Dorian, indo para o seu lado.
Rowan, Aedion e Lysandra já estavam montando seus cavalos. Eles estavam apenas com coisas leves, levando apenas os suprimentos mais básicos. Principalmente armas, incluindo Damaris, que Chaol tinha dado a Aedion, insistindo que a lâmina antiga permanecesse naquelas costas. O resto de seus pertences seria despachado para Terrasen.
— Com este grupo — Aelin falou para Dorian — provavelmente será uma competição diária para ver quem caça melhor.
Dorian riu. Fez-se silêncio, e Aelin estalou a língua.
— Você está usando a mesma túnica que usava há alguns dias. Não acho que já o vi vestir a mesma coisa duas vezes.
Um lampejo nos olhos de safira.
— Penso que há coisas maiores para me preocupar agora.
— Você... vai ficar bem?
— Tenho outra opção que não essa?
Ela tocou seu braço.
— Se você precisar de alguma coisa, avise. Vai levar algumas semanas antes de chegarmos a Orynth, mas suponho que, agora que a magia voltou, você pode encontrar um mensageiro para levar a notícia para mim rapidamente.
— Graças a você e aos seus amigos.
Ela olhou por cima do ombro para eles. Estavam todos tentando o seu melhor para parecer que não estavam escutando.
— Graças a todos nós — ela falou calmamente. — E a você.
Dorian olhou para o horizonte da cidade, no sopé verdejante além.
— Se você tivesse me perguntado há nove meses se eu pensava... — ele balançou a cabeça. — Tanta coisa mudou.
— E vai continuar a mudando — disse ela, apertando o braço dele uma vez. — Mas... Há coisas que não vão mudar. Eu sempre vou ser sua amiga.
Sua garganta fechou.
— Eu gostaria de poder vê-la, apenas uma última vez. Dizer a ela... dizer o que estava em meu coração.
— Ela sabe... — respondeu Aelin, piscando contra a queimação em seus olhos.
— Vou sentir sua falta — disse Dorian.—  Embora eu duvide que da próxima vez que nos encontrarmos será em circunstâncias... Civilizadas.
Ela tentou não pensar nisso. Ele gesticulou por cima do ombro para sua corte.
— Não seja muito má. Eles só estão tentando ajudá-la.
Ela sorriu. Para sua surpresa, um rei sorriu de volta.
— Envie-me algum bom livro que você leu — disse ela.
— Só se você fizer o mesmo.
Ela abraçou-o uma última vez.
— Obrigada – por tudo — ela sussurrou.
Dorian apertou-lhe, em seguida, afastou-se quando Aelin montou em seu cavalo e cutucou-o em uma caminhada. Ela moveu-se para frente da comitiva, onde Rowan montava um garanhão preto lustroso. O príncipe feérico chamou sua atenção.
Você está bem?
Ela assentiu com a cabeça. Não achei que dizer adeus seria tão difícil. E com tudo o que está por vir...
Vamos enfrentá-lo juntosPara qualquer fim.
Ela estendeu a mão sobre o espaço entre eles e segurou a mão dele, apertando-a com firmeza. Eles se mantiveram enquanto cavalgavam pelo caminho estéril, através do portão que ela abrira na parede de vidro, e pelas ruas da cidade, onde as pessoas pausavam o que estavam fazendo e ficavam boquiabertas ou sussurrando ou encarando.
Mas enquanto cavalgavam para fora de Forte da Fenda, essa cidade que tinha sido sua casa e seu inferno e a sua salvação, enquanto ela memorizava cada rua, construção, rosto e loja, cada cheiro e o frescor da brisa do rio, ela não viu um escravo. Não ouviu um chicote.
E quando eles passaram pela cúpula do Teatro Real, havia uma linda música, música requintada, saindo de dentro.



Dorian não sabia o que o acordou. Talvez fosse que os preguiçosos insetos de verão tivessem parado seu zumbido à noite, ou talvez fosse o vento feio que escorregava em seu quarto da torre antiga, agitando as cortinas.
A luz da lua brilhando sobre o relógio revelava que eram três da manhã. A cidade estava silenciosa.
Ele se levantou da cama, tocando seu pescoço mais uma vez – só para ter certeza. Sempre que acordava de seus pesadelos, levava minutos para dizer se estava realmente acordado – ou se era apenas um sonho e ele ainda estava preso em seu próprio corpo, escravizado por seu pai e pelo príncipe valg. Ele não tinha contado a Aelin ou a Chaol sobre os pesadelos. Parte dele desejava que tivesse contado.
Ele ainda mal se lembrava do que tinha acontecido enquanto usava aquele colar. Ele fez vinte anos – e não tinha nenhuma lembrança disso. Havia apenas pedaços, vislumbres de horror e dor. Ele tentou não pensar nisso. Não queria lembrar. Não disse isso a Chaol ou a Aelin, também.
Ele já sentia falta dela, do caos e da intensidade de sua corte. Sentia falta de ter alguém ao redor. O castelo era muito grande, muito tranquilo. E Chaol sairia em dois dias. Ele não queria pensar sobre como seria a falta de seu amigo.
Dorian foi para sua varanda, precisando sentir a brisa do rio em seu rosto, saber que era real e que estava livre.
Abriu as portas da varanda, as pedras frias em seus pés, e olhou para fora através dos destroços arrasados. Ele fizera aquilo. Soltou um suspiro, vendo a parede de vidro que brilhava à luz do luar.
Havia uma sombra enorme empoleirada no alto dela. Dorian congelou.
Não uma sombra, mas um animal gigante, suas garras na parede, as asas dobradas ao lado do corpo, levemente cintilante sob o brilho da lua cheia. Brilhando como o cabelo branco da cavaleira em cima dele.
Mesmo à distância, ele sabia que ela olhava diretamente para ele, seu cabelo fluindo para o lado como uma tira de luar, capturado na brisa do rio.
Dorian levantou uma mão, a outra subindo para seu pescoço. Sem colar.
A montadora na serpente alada inclinou-se na sela, dizendo algo para sua besta. Ele abriu suas enormes asas brilhantes e saltou no ar. Cada batida de suas asas enviando uma crescente rajada de vento na direção dele.
Ela subiu mais alto, o cabelo balançando atrás dela como um rabo brilhante, até que desapareceu na noite, e ele não pôde ouvir mais suas asas batendo. Ninguém soou o alarme. Como se o mundo tivesse parado de prestar atenção aos poucos momentos em que eles se entreolharam.
E através da escuridão de suas memórias, através da dor e do desespero e do terror que ele tinha tentado esquecer, um nome ecoou em sua cabeça.



Manon Bico Negro voou pelo céu estrelado, Abraxos quente e rápido sob ela, a incrivelmente brilhante lua cheia – a Mãe de tudo – acima dela.
Ela não sabia por que tinha se dado ao trabalho de ir; por que tinha ficado curiosa.
Mas ali estava o príncipe, sem colar visível ao redor de seu pescoço.
E ele levantou a mão em saudação – como se para dizer, eu lembro de você.
Os ventos mudaram, e Abraxos rodou, subindo mais alto no céu, o reino escurecido abaixo passando em um borrão.
Mudando os ventos – um mundo em mudança.
Talvez uma mudança nas Treze, também. E nela mesma.
Ela não sabia o que fazer com elas...
Mas Manon esperava que elas todas sobrevivessem.
Tinha esperança.

18 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira3 de março de 2016 00:19

    Ela vai ficar In Love vom o Dorian, e ele já tá In Love com ela

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  2. ja to shippando esse dois kkkkk

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  3. E q venham boas mudanças pq elas não são maus,merecem ser felizes

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  4. Gosto da Manon , mais nada haver ela e Dorian

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  5. eu n gostava dela mas adimito combina ela e doriam novo casal prosimo livro
    shipo ne gente?

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  6. Hahaha... Já Shippo. Agora to curiosa pra ver como a autora vai desenvolver essa relação.

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  7. Imaginem só uma bruxa bico negro rainha de adarlan kkkk

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  8. Olha, se organizar direito todo mundo transa kkkkk
    Aelin e Rowan, Chaol e Nesryn, Aedion e Lyssandra, Dorian e Manon haha

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    1. Quem sabe Chaol e Dorian ou Manon e Asterin kkkkkkkk
      #zoas

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  9. Meu shipp, alguém me segura ♥

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  10. Indo para o último capítulo.
    Por wyrd o livro já ta acabando parece que foi ontem que comecei a ler.(E foi mesmo)

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  11. kkkkk Ho mais um casal Imortal+mortal pelo anjoo saudades do Malec

    -Morgana(Mrg)

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  12. Aposto 1 dólar como o rei ta vivo

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  13. Eles conseguiram mais trinta minutos de sono antes de Aedion voltar e jogar um balde de água sobre elas. kkkk necessito ver essa cena

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  14. nossa seria muito legal se a manon fosse rainha de adarlan

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