29 de fevereiro de 2016

Capítulo 85

Elide não conseguia parar de chorar enquanto as bruxas voavam para o norte.
Ela não se importava que estivesse voando, ou que a morte se aproximava de todos os lados.
O que Kaltain fizera... ela não se atreveu abrir o punho por medo que o tecido e a pequena pedra fossem levados pelo vento.
Ao pôr do sol, elas pousaram em algum lugar de Carvalhal. Elide não se preocupou com isso, também. Deitou-se e entrou em um sono profundo, ainda usando o vestido de Kaltain, aquele pedaço de manto em sua mão.
Alguém a cobriu com um manto, e quando acordou, havia um conjunto de roupa – couros para voar, uma camisa, calças e botas – ao lado dela. As bruxas dormiam, suas serpentes aladas uma massa de músculos e morte em torno delas. Nenhuma delas se mexeu quando Elide caminhou até o riacho mais próximo, tirou o vestido, e sentou-se na água, observando as duas pernas balançando na corrente fraca até que seus dentes batiam.
Quando se vestiu, as roupas um pouco grandes, mas quentes, Elide escondeu o pedaço da capa e a pedra que continha em um de seus bolsos interiores.
Celaena Sardothien.
Ela nunca ouvira esse nome – não sabia por onde começar a procurar. Mas para pagar a dívida que devia Kaltain...
— Não desperdice suas lágrimas por ela — disse Manon a alguns metros de distância, um embrulho sustentado em suas mãos limpas. Ela devia ter lavado o sangue e sujeira na noite anterior. — Ela sabia o que estava fazendo, e não foi por sua causa.
Elide enxugou seu rosto.
— Mesmo assim salvou nossas vidas e pôs fim àquelas pobres bruxas nas catacumbas.
— Ela fez isso por si mesma. Para se libertar. E tinha o direito. Depois do que eles fizeram, ela tinha o direito de rasgar todo o maldito mundo em pedaços.
Em vez disso, ela destruiu um terço de Morath.
Manon estava certa. Kaltain não se importava se elas tivessem escapado da explosão.
— O que fazemos agora?
— Nós voltaremos para Morath — Manon falou claramente. — Mas você não.
Elide fez que começaria a falar.
— Aqui é tão longe quanto podemos levá-la sem levantar suspeitas — disse Manon. — Quando voltarmos, se o seu tio tiver sobrevivido, direi-lhe que você deve ter sido incinerada na explosão.
E com essa explosão, todas as evidências de que Manon e suas Treze fizeram para libertar Elide das masmorras também seriam apagadas.
Mas, deixá-la ali... o mundo de abria imenso e perigoso ao redor dela.
— Para onde eu vou? — Elide sussurrou. Árvores intermináveis e colinas as rodeavam. — E-eu não sei ler, e não tenho nenhum mapa.
— Vá para onde tiver que ir, mas se eu fosse você, iria para o norte, e me manteria na floresta. Fique fora das montanhas. Continue seguindo até chegar em Terrasen.
Isso nunca foi parte do plano.
— Mas... mas o rei... Vernon...
— O rei de Adarlan está morto — disse Manon. O mundo parou. — Aelin Galathynius o matou e destruiu seu castelo de vidro.
Elide cobriu a boca com a mão, sacudindo a cabeça. Aelin... Aelin...
— Ela foi ajudada — Manon continuou — pelo príncipe Aedion Ashryver. — Elide começou a soluçar. — E há rumores de que o lorde Ren Allsbrook está trabalhando no norte como um rebelde.
Elide escondeu o rosto entre as mãos. Em seguida, havia uma mão forte com unhas de ferro em seu ombro. Um toque experimental.
— Esperança — Manon falou calmamente.
Elide baixou as mãos e encontrou a bruxa sorrindo para ela. Apenas uma inclinação dos lábios, mas, um sorriso, suave e encantador. Elide se perguntou se a própria Manon sabia que sorria.
Mas ir para Terrasen...
— As coisas vão piorar, não vão? — disse Elide.
O aceno de Manon foi quase imperceptível.
Sul – ela ainda poderia ir para o sul, correr para longe, muito longe. Agora que Vernon pensava que ela estava morta, ninguém jamais a procuraria. Mas Aelin estava viva. E forte. E talvez fosse a hora de parar de sonhar de correr. Encontrar Celaena Sardothien – ela faria isso para honrar Kaltain e o presente que recebeu, para honrar as meninas como elas, trancadas em torres sem ninguém para falar por elas, ninguém que lembrasse delas.
Mas Manon tinha se lembrado dela. Não – ela não fugiria.
— Vá para o norte, Elide — disse Manon, lendo a decisão nos olhos de Elide e entregando-lhe o pacote. — Eles estão em Forte da Fenda, mas aposto que não ficarão lá por muito tempo. Vá para Terrasen e fique oculta. Mantenha-se fora das estradas, evite as pousadas. Há dinheiro nesse embrulho, mas use-o com moderação. Minta, roube e enganar se necessário, mas chegue em Terrasen. Sua rainha estará lá. Sugiro não mencionar a herança da sua mãe para ela.
Elide considerou, pegando o pacote.
— Ter sangue Bico Negro não parece algo tão horrível — disse ela calmamente.
Aqueles olhos dourados estreitaram.
— Não — concordou Manon. — Não, não parece.
— Como posso agradecer?
— Era uma dívida que eu já devia — disse Manon, balançando a cabeça quando Elide abriu a boca para dizer mais.
A bruxa entregou seus três punhais, mostrando-lhe onde esconder um na bota, guardar outro no pacote e, em seguida, embainhar o outro em seu quadril. Finalmente, pediu a Elide para tirar suas botas, revelando os grilhões que enfiara para dentro. Manon removeu uma pequena chave de osso e destrancou as correntes, ainda presas aos tornozelos.
Ar fresco e suave acariciou sua pele nua, e Elide mordeu o lábio para não chorar novamente quando calçou as botas de volta.
Através das árvores, as serpentes aladas estavam bocejando e resmungando, e os sons das Treze rindo chegava. Manon olhou na direção delas, um leve sorriso retornando à sua boca. Quando Manon se virou, a herdeira do clã de bruxas Bico Negro disse:
— Quando a guerra chegar, e ela chegará se Perrington tiver sobrevivido, não espere ver-me novamente, Elide Lochan.
— Sempre a mesma coisa — Elide respondeu — esperar é o que faço.
Ela fez uma reverência para o Líder Alada. E para sua surpresa, Manon curvou-se de volta.
— Norte — disse Manon, e Elide supôs que era a melhor despedida que conseguiria.
— Norte — repetiu Elide, e partiu para as árvores.
Dentro de minutos, fora para além dos sons das bruxas e suas serpentes aladas e foi engolida por Carvalhal.
Ela agarrou as alças de seu embrulho enquanto andava.
De repente, os animais ficaram em silêncio, e as folhas sussurravam. Um momento depois, treze grandes sombras passaram acima dela. Uma delas, menor, se demorou, como se numa segunda despedida,
Elide não sabia se Abraxos podia ver através das arvores, mas ela levantou a mão num gesto de despedida de qualquer maneira. Um grito alegre ecoou em resposta feroz, e, em seguida, a sombra se foi.
Norte.
Para Terrasen. Para lutar, não para fugir.
Para Aelin e Ren e Aedion – crescidos, fortes e vivos.
Ela não sabia quanto tempo demoraria ou quão longe teria que andar, mas faria isso. Ela não olharia para trás.
Caminhando sob as árvores, a floresta zumbindo em torno dela, Elide pressionou uma mão contra o bolso de sua jaqueta de couro, sentindo o pequeno nódulo duro escondido lá. Ela sussurrou uma breve oração para Anneith por sabedoria, por orientação – e pôde jurar que uma mão quente roçou sua testa como se em resposta. Ela endireitou as costas, ergueu o queixo.
Mancando, Elide começou a longa viagem para casa.

3 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira2 de março de 2016 23:44

    Eu li que ela estava a rezar para Annabeth por sabedoria, Kkkkkk

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